quarta-feira, setembro 06, 2006

THE LOOMING TOWER - Lawrence Wright

Também parte do especial sobre os cinco anos do 11 de Setembro na Continente Cultural, meu texto sobre o sensacional livro do repórter Lawrence Wright, da revista The New Yorker, The Looming Tower.

TERROR E HUMILHAÇÃO


Livro do jornalista e acadêmico americano Lawrence Wright explica as raízes do ódio muçulmano e tenta responder à pergunta: o terrorismo é inevitável?

Por Por Eduardo Graça, de Nova York

Um dia antes de Torres Gêmeas de Oliver Stone estrear nos cinemas americanos, um outro thriller sobre o atentado de 11 de Setembro de 2001 invadiu as livrarias da cidade. The Looming Tower – Al-Qaeda And The Road to 9/11, do jornalista Lawrence Wright, ainda sem editora no Brasil, já é considerado pela crítica a mais importante análise sobre a teia de eventos que levaram o ataque ao centro do império.

Repórter da revista New Yorker, professor da Universidade Americana do Cairo, no Egito, e um dos nomes mais respeitados do Centro de Direito e Segurança da New York University (NYU), Wright escreve para um leitor que busca, cinco anos depois de terroristas sauditas explodirem um Boeing 767 na torre norte do World Trade Center, entender o que de fato aconteceu naquele dia e se haveria uma maneira de se prevenir outros atentados. O terrorismo que nos cerca é inevitável?



Para responder a esta pergunta, Wright nos transporta para os subúrbios de capitais árabes, penetra na vida isolada das mesquitas da Europa Central, apresenta-nos à busca desesperada pela ordem tanto nos rincões pobres do Paquistão quanto nos subúrbios ricos e vazios do meio-oeste americano. Wright nos apresenta a John O’Neill, o comandante do FBI em Nova York, personagem shakespeariano, que trabalhou até o último segundo para desmantelar a Al-Qaeda e que acaba perecendo justamente no ataque às Torres. E a um outro Osama Bin-Laden, baixote, humilhado e destratado pelos revolucionários afegãos, que não conseguem entender como um “guerrilheiro pode ser tão fraco de saúde, tão preguiçoso”.

A intensificação da violência nos últimos cinco anos vem se caracterizando como algo mais complexo do que um “choque das civilizações”, na visão simplista dos conservadores norte-americanos. The Looming Tower bate fundo no perigo da co-existência do fundamentalismo islâmico apoiado por Estados religiosos radicais como o Irã e o antigo Talibã com sua contrapartida cristã, apoiada por um status quo de extrema-direita, fantasiado de “democracia evangelizadora”. Um dos personagens mais fascinantes deste estudo impressionante da miséria de idéias do mundo contemporâneo é Sayyid Qutb, principal ideólogo do que os republicanos de Washington agora chamam – em uma referência à Segunda Guerra Mundial, à luta contra o totalitarismo e ao ataque aos judeus – de “fascismo islâmico”. Wright nos conta que Qutb escreveu quase toda a sua obra a partir da sua experiência como visitante-convidado da Universidade do Colorado, em 1940. E de seu horror aos excessos e preconceitos de uma sociedade que parecia destinada a engolir o mundo por meio de sua crença em uma superioridade ética que, no entanto, não se comprovava na prática. Diante de seus escritos, Osama, escreve, é um “teólogo amador”.

Wright tem horror ao fundamentalismo islâmico. Mas não tem medo de afirmar que suas raízes estão em uma experiência profunda de humilhação. Não apenas as classes mais baixas, mas mesmo os que têm acesso à educação sentem na pele as privações da ocupação, termo que um norte-americano comum, assim como um brasileiro, que nunca viveu a sujeição diária, a necessidade de se obedecer ao estrangeiro, ao estranho, para sobreviver, não pode compreender com exatidão.

“Os líderes da Al-Qaeda se revelaram, muitas vezes, amadores incompetentes que tinham de se reerguer depois de cada um dos muitos revezes que sofreram. Mas a organização que eles criaram tinha apenas um único objetivo em mente e permaneceram fiéis a seu objetivo. No caso do 11 de Setembro, os conflitos burocráticos e rivalidades entre CIA e FBI, sua falta de profissionalismo mesmo, jogaram contra uma inegável vantagem que os EUA tinham sobre os seus adversários e que poderia ter impedido a catástrofe”, escreve, por e-mail, Wright, no dia em que agentes britânicos impediram mais um ataque terrorista aos EUA. Mas, então, um novo 11 de Setembro pode ocorrer a qualquer momento? The Looming Tower não termina aqui em Nova York. Não por acaso, o cenário, em março de 2002, é a fronteira do Afeganistão com o Paquistão:

Apesar de toda a artilharia, um grupo de homens à cavalo segue rumando para o Paquistão. Eles chegam a uma aldeia e conversam com o líder local, Gula Jen. Seu turbante negro e longa barba faz com que ele pareça um talibã. Quatro dias depois, Jan contaria aos americanos que havia sim ‘visto um homem gordo, velho, árabe, com grossos óculos negros e um turbante branco. Ele se vestia como um afegão, mas portava um manto muito bonito, que não se vê por aqui, e viajava ao lado de dois outros árabes, que não tinham suas faces à mostra”. O homem do turbante branco desceu do cavalo e conversou com Jan de forma especialmente polida e graciosa. Ele perguntou a Jan a localização das tropas anti-talibã que haviam invadido o país. Enquanto eles conversavam, Jan olhou de relance para o panfleto que havia sido jogado por aviões americanos dias atrás. Ele mostrava a foto de um homem com óculos e um turbante branco. Tinha um calo negro em sua testa, certamente resultado de horas dedicadas à louvação de Allah. O panfleto também dizia que a recompensa por aquele terrorista era de 25 milhões de dólares. Jan voltou a conversar com aquele que ele agora acreditava ser o Dr.Ayman Al-Zawahiri, egípcio e principal ideólogo da Al-Quaeda. Ele lhe disse ‘que Allah o abençoe e mantenha-o a salvo dos inimigos do Islã. E, por favor, se for possível, tente não revelar a eles de onde viemos e para onde iremos, quando eles chegarem”. Havia um número no panfleto, mas Jan não possuía um aparelho telefônico. Zawahiri e os homens mascarados desapareceram pelas montanhas.

ENTREVISTA/ Uma Thurman

A edição desta semana da revista Contigo! traz minha entrevista com a atriz Uma Thurman, protagonista de Minha Super Ex-Namorada, comédia em cartaz nos cinemas brasileiros.

UM MULHERÃO QUE GOSTA DE COLO

Por Eduardo Graça, de Nova York


No filme Minha Súper Ex-Namorada, que estréia sexta, ela é trocada por outra e parte pra cima. Na vida real, a atriz diz que prefere homens fortes:''Busco alguém que possa me dar apoio e carinho''


Aos 36 anos, linda como nunca, queimada de sol - efeito adquirido após férias ao lado do namorado, o empresário André Balazs, em Saint Tropez, em julho -, Uma Thurman é, definitivamente, uma supermulher. Nas telas, ela o é, literalmente, a partir desta sexta (1°), quando estréia a comédia Minha Súper Ex-Namorada. No filme, a atriz é G-Girl, uma heroína dotada de superpoderes, que tem de lidar com o fato de ser abandonada pelo arquiteto Matt Saunders (Luke Wilson), interessado em outra mulher. No longa, a vingança de sua personagem é turbinada por maldades (hilárias, é bem verdade).



Na vida real, há quase três anos ela se separou do ator Ethan Hawke, 35, após cerca de seis anos juntos e com quem teve dois filhos, Maya Ray, 8, e Roan, 4. O casamento terminou com Hawke flagrado na cama de um hotel com uma modelo canadense de 22 anos. Entre as muitas explicações que deu, o ator contra-atacou, justificando sua atitude como troco à traição de Uma, que também estaria tendo um caso com o diretor Quentin Tarantino, 43, durante as filmagens de Kill Bill 1 e 2 (o que nunca foi confirmado por nenhum dos dois). Resultado: um divórcio nada amigável. É quase inevitável pensar que sua G-Girl oferece a oportunidade perfeita para a atriz reagir com humor, no cinema, à sempre desagradável experiência de ser abandonada ou trocada. Sobre isso e muito mais, ela falou a Contigo!.


Namorar uma supermulher, assim como você, não é para qualquer um...

Definitivamente, não é fácil namorar uma mulher famosa. Quem tem paciência? Qualquer cara mais legal que possa escolher entre uma mulher bonita e uma famosa vai escolher a mais normal das duas, não acha? É muito complicado se envolver com uma pessoa famosa.

Tem alguma preferência no equilíbrio de forças em um relacionamento?

As pessoas são diferentes, claro, mas eu prefiro estar com alguém mais forte do que eu. Conheço mulheres que gostam de ficar com menininhos, de carinhas bonitas. Mas, se eu pudesse escolher, iria buscar alguém que pudesse me dar apoio, carinho e uma espécie de sabedoria, sabe? E, graças a Deus, existe uma imensa variedade de homens neste mundo (risos).

Acredita que o filme é, de alguma forma, contra os homens?

Olha, ele foi escrito e dirigido por um homem, produzido por um grupo de homens, comigo no papel-título. Sou eu contra sete homens (risos)! Então acho que o filme é tanto um pesadelo para os homens quanto uma catarse das mulheres que ficam loucas ao serem abandonadas. Agora, claro, eu jamais faria um filme que não fosse a favor das mulheres!

Você se acha uma feminista?

Não conheço o feminismo a fundo para me dizer feminista, mas sou independente desde os 15 anos, quando saí de casa e comecei a trabalhar como modelo. Vivo como uma mulher independente a partir daí e hoje cuido de minhas crianças. Acho que minha experiência exemplifica bem como é a vida de uma mulher que trabalha duro. Com prazer e privilégio, claro, pois muitas mulheres penam mais do que eu.

E usa seus "superpoderes" para criar seus filhos? Criá-los sozinha é barra?

É um desafio, sim. Mas sofro as mesmas dificuldades que qualquer mulher, que trabalha fora sofre. E, hoje, nem é uma questão tão importante para mim, a batalha. Sou tão feliz por tê-los. E meus filhos são maravilhosos, uns anjos. Sou, na verdade, uma mãe muito coruja.

Mas se pudesse escolher ter apenas um dos superpoderes da G-Girl na vida real, qual escolheria?

Ah, adoraria poder voar. Mas o que ela faz na cama neste filme com o Luke também seria útil para qualquer mulher (risos).

Você se acha engraçada, divertida em cena?
Eu sempre achei que poderia fazer as pessoas rirem se tivesse a chance. Mas há 20 anos que venho tentando fazer uma comédia e ninguém me levava a sério, quer dizer me dava um papel. Aí fiz Os Produtores e agora Minha Súper Ex-Namorada. Eu adoro as comédias. Acho muito mais divertido fazer mulheres engraçadas e à beira de um ataque de nervos do que guerreiras que andam para cima e para baixo com espadas de samurai (risos).

Por que demorou tanto para fazer comédia?
Eu era uma pessoa muito mais intensa quando jovem. Mais intensa e mais tensa também (risos)! Digamos que eu tinha uma certa atração por coisas mais pesadas, que queria muito ser uma "atriz mais séria, densa", seja lá o que isso for. Decididamente, não queria ser mais uma "carinha bonitinha" em Hollywood, sabe? Por causa disso, acabei me divertindo menos do que devia.

Acha que sua forte presença (ela tem 1,83 metro de altura), que é notória e impossível de não ser notada, atrapalhou um pouco seus planos?

Pode ser que sim. Tenho esta aparência que certas pessoas consideram ser uma "beleza mais clássica". Sou mais alta do que a média. Acho que acabei ficando com uma marca de "atriz européia", "exótica", quando nada mais sou do que uma típica moradora de Nova York, criada em Massachusetts e por uma família bem normal. Nossa única excentricidade foi ter passado, quando eu era adolescente, um ano na Índia. Isso aconteceu porque meu pai era um acadêmico.

Mesmo assim, você se tornou uma das atrizes mais poderosas em Hollywood…

Engraçado, não me sinto nada poderosa. Cada vez que encontro o papel certo, o filme certo, é um milagre! Eu já estive na lista das 10 mais de Hollywood tantas vezes quanto estive na das 10 menos. Sobreviver como atriz, para mim, também é outro milagre.

E quais são seus planos para o futuro?
Crescimento pessoal, estar mais aberta para os desafios da vida e ter, sempre, uma atitute positiva.

ENTREVISTA/Luke Wilson

Na mesma edição da Contigo! foi publicada minha entrevista com o par romântico de La Thurman na comédia Minha Super Ex-Namorada, o ator texano Luke Wilson.

Solteiro à procura...

Por Eduardo Graça, de Nova York

Ele sempre foi fã de caminhadas e corridas, e muito mais adepto delas do que das aulas de arte dramática. Mas Luke Wilson, 34 anos, o caçula (e mais bonito) de uma família texana bem-sucedida - pai, Robert, executivo de uma agência de publicidade, e mãe, Laura, fotógrafa -, foi levado a atuar pelos irmãos mais velhos, Owen, 37, e Andrew, 42.Depois de devidamente apresentado a Hollywood, aos 23 anos, ele se fartou das benesses do seleto clube, entre elas a facilidade de namorar beldades, como Drew Barrymore, 31, com quem morou por dois anos (de 1997 a 1999), e Gwyneth Paltrow, 33, com quem teve um breve namoro em 2001. Agora, solteiro, tem se divertido com várias amigas. Todas desconhecidas das telonas e nenhuma delas, por enquanto, candidata a ganhar uma aliança.Enfiado em uma calça jeans justa, o educado Luke, com seu sorriso manso, recebeu Contigo! na suíte de um hotel em Manhattan, com um copo de uísque nas mãos para falar do fime Minha Super Ex-Namorada, que estréia sexta (1o). A seguir os melhores trechos desse encontro.


Você namorou mulheres poderosas, como Drew Barrymore e Gwyneth Paltrow. Também penou na hora de terminar a relação?

Não (risos)! Tudo sempre foi muito pacífico, juro. Mas sabe que o meu irmão mais velho, o Andrew, teve uma namorada que botou fogo em algumas páginas de jornais e incendiou o teto solar do carro que estava na porta de casa? Foi radical. O pior era que o carro pertencia ao meu outro irmão, o Owen, que ficou furioso (risos)!

Por falar em Owen, ele esteve no Rio há pouco, você não tem planos de ir ao Brasil?

Eu nunca fui ao Brasil e é um de meus sonhos, sabia? Só que diferente do Owen, que foi para o Rio, eu gostaria de sair um pouco dos grandes centros e conhecer o Brasil de verdade, as cidades interioranas, os lugares menos turísticos e mais reais.

Você está conversando comigo e estou prestando atenção em sua voz...
É? Por quê (risos)?

Porque o diretor do filme, Ivan Reitman, acabou de me dizer que o escolheu para viver o Matt muito por causa da sua voz...
Sério? Olha, fui criado em Dallas, no Texas, mas meus avós paternos são de Boston, falam igualzinho aos Kennedys. Essa mistura de sotaques me deu essa voz neutra, que os diretores gostam. Mas eu não gosto de ouvir minha voz, não, acho ela meio mole (risos)!

Você falou no Texas e agora vai viver o Bobby Ewing (de Dallas, famoso seriado de TV das décadas de 70 e 80) no cinema. Está animado?
Claro! Dallas foi genial, um marco dos anos 80! E o Travolta vai fazer o J.R., sabia? Cara, eu estava na 4ª série quando J.R. foi atacado. Lembro até hoje dos adesivos nos carros dizendo "Eu atirei em J.R. Ewing" (risos). Lembro que todo mundo ficou à frente da TV para saber quem havia matado o J.R.

Hoje, quando se pensa em Texas, fora dos EUA, a primeira imagem que vem à cabeça é a do presidente Bush...

Isso é tão triste. Quando eu estava no 2° grau, ele veio dar uma palestra em meu colégio. Lembro que quando ele terminou, cochichei com um colega meu: "Mas que babaca! Parece um filhinho de papai crescido, brincando de ser governador do Texas".

Você imaginou que ele chegaria à presidência?

Você só pode estar me gozando (risos)! Ele não conseguia nem falar em público! Eu poderia discursar melhor do que ele. Olhe, não sou muito ligado em política, mas o que ele tem feito contra a imagem do Texas, colocando um chapéu de caubói e andando como um rancheiro, inventando um sotaque que não existe, me deixa possesso. Quando vou à Europa as pessoas me apontam na rua e dizem: "Ih, ele é texano!" Pode? Isso me deprime.

Então vamos falar de algo menos triste: se pudesse, assim como Uma Thurman, qual o tipo de super-herói você gostaria de ser?

O supercompreensivo (risos). E vestiria calça de moletom como uniforme! Bem largadão, que é meu estilo.

Foi bom trabalhar com ela?

Foi um sonho. Pensa bem, a Uma! Cara, eu a vi em Ligações Perigosas (1988) quando tinha 18 anos! Ela é a Uma, né? Um ícone.

Você gosta de trabalhar com mulheres poderosas? É verdade que você vai filmar de novo com a Sarah Jessica Parker (eles rodaram juntos Tudo em Família, de 2005)?
Isso mesmo! Vai ser um thriller sobre um casal em crise que se hospeda em um motel de beira de estrada, desses que as pessoas entram e nunca mais saem, e aí eu não posso contar mais nada. Conheci a Sarah em Tudo em Família e foi bom demais! Viramos amigos de infância. Há uma coisa que eu admiro muito nela. Sarah trata do mesmo jeito todo mundo no filme, do diretor ao pessoal da eletricidade. Ela sabe que o trabalho é da equipe. Tento ser como ela, e isso não é exatamente a regra em Hollywood.

Mas você tem uma turma boa em Los Angeles, não é? Está sempre acompanhado de seus irmãos e também de Vince Vaughn, Jack Black, Will Ferrell...

É verdade. Quando a gente está filmando juntos, eu adoro ficar batendo papo com essa cambada (risos). Sou um cara que detesto essa coisa de estrela que fica enfurnada no trailer. Gosto de sair e me divertir com os amigos. E preciso dizer que nunca me afinei tanto com um ator quanto com o Will Ferrell. Adoro o humor dele, adoro como a cabeça dele funciona, aquela velocidade de raciocínio. Ele é muito, muito, mas muito talentoso mesmo.

sábado, agosto 19, 2006

Mario Vargas Llosa: Cuba à la Putin

O jornal argentino La Nacion publicou hoje um artigo do escritor peruano Mario Vargas Llosa em que ele analisa a situação cubana, aponta a total falta de interesse dos EUA em apostar numa 'Cuba Libre' e aposta na lenta transformação do regime cubano para algo mais próximo de um regime fechado de direita, à la Rússia de Putin. Vale ler o artigo, na íntegra, infelizmente apenas em espanhol, aqui.

sexta-feira, agosto 18, 2006

ENTREVISTA/Bill T.Jones

Saiu hoje no caderno Eu&Fim de Semana, do Valor Econômico, meu texto sobre a turnê brasileira da companhia de dança de Bill T.Jones.

Transgressões de Bill T. Jones
Por Eduardo Graça, para o Valor
18/08/2006

Punho negro cerrado voltado para o teto do palco. Foi assim, emulando o gesto característico dos Panteras Negras, que Bill T. Jones encerrou no mês passado sua participação no festival anual do Lincoln Center, apresentando "Blind Date". A imagem, a um só tempo incômoda, démodé e elegante, traduz o espírito de sua Arnie Zane Dance Company, que traz ao Brasil outra de suas coreografias mais recentes, "Another Evening: I Bow down". Uma catarse sócio-cultural, em que os dançarinos dividem o palco com uma banda de hardcore e traduzem em movimento temas como a intolerância religiosa, a pertinência da arte em um mundo fadado ao desastre, a guerra e, claro, o racismo, "Another Evening" deveria ser apresentada pela primeira vez, curiosamente, em um palco instalado no World Trade Center, um dia depois do atentado terrorista de 11 de setembro de 2001. Animado com a turnê brasileira - que inclui espetáculos no Rio (Theatro Municipal, 26 e 27 de agosto), São Paulo (Municipal, 1º e 2 de setembro) e Brasília (Sala Villa-Lobos, 30 de agosto) -, o artista conversou com o Valor em Manhattan.


Bill T. Jones não aparenta seus 54 anos. Cabeça raspada, corpo musculoso, postura perfeita, o coreógrafo se faz notar, inicialmente, pela voz austera, que preenche a sala com a mesma velocidade com que os dançarinos de sua companhia se movimentam em cena."O 'Another Evening' que será apresentado aos brasileiros é resultado da crise espiritual por que passo. Há um ano me debatia com o gosto amargo deixado pelo furacão Katrina quando fomos convidados para participar de um evento promovido por estudantes da Universidade de Nova York. Foi ali que decidimos incorporar uma banda de hardcore a 'Another Evening', que já contava com um violino e um piano. Veja bem, em 1969, eu estava em Woodstock, viajando com LSD ao som de Jimi Hendrix. Jamais imaginei que um dia iria entender esta coisa de heavy metal."

De fato, a Regain The Heart Condemned, da cena independente do Bronx, nada tem de hippie. Mas é comandada por um vocalista hispânico que berra, à la Sepultura, textos budistas também ofertados ao público em versão mais branda, na voz de um monge. Paraíso e inferno, libertação e dor, hardcore e new age, Jones está definitivamente interessado em opostos. Tanto em "Blind Date" quanto em "Another Evening", ele se debate com a sensação de sufocamento coletivo de uma América - "e do mundo também" - intoxicada por certezas.

Ousado, "um filho do Sul batista, como Martin Luther King", ele se apropria, como os "imbecis da direita religiosa", que execra, de arma milenar - a Bíblia. Trechos do "Levítico" surgem em "Blind Date" como a pontuar a temporalidade de regras há muito caducas enquanto toda uma porção de "Another Evening" nasce de uma das imagens mais poderosas do "Gênese": o grande dilúvio. "No Velho Testamento, Deus oferece uma aliança a Noé e anuncia que a água não vencerá novamente. Mas o desastre sempre retorna, na tsunami, com o Katrina. E a promessa jamais é cumprida. Fui encontrar então nos textos budistas um Deus que se aplica mais ao nosso tempo de incertezas, um Deus que não quer nos garantir que não haverá mais dor, que os desastres todos se dissiparão."



Em "Another Evening", os dançarinos se movimentam de modo quase frenético, como em um transe guiado por Jones, narrador da aventura que iremos testemunhar. Seus passos sugerem sons que não podemos ouvir em um primeiro momento, mas que parecem sorrateiramente gravados em algum canto de nossa memória. É aqui que o coreógrafo revela de maneira mais explícita seu legado pós-moderno, com a singularidade das frases coreográficas executadas pelos bailarinos, aparentemente desconexas, mas em busca de uma harmonia utópica, que ainda há de imperar.

Parte da crítica americana nunca se entendeu bem com o que acredita ser uma certa queda por gestos literais de Jones - como o punho cerrado do fim de "Blind Date", referência direta aos Pantera Negras, que, 40 anos atrás, introduziram os americanos numa explosiva comunhão de maoísmo e nacionalismo negro. Jones não dá o braço a torcer, e lembra que o pulo do gato é saber o momento correto de recorrer ao movimento menos sofisticado, mas de reconhecimento imediato por uma gama maior de pessoas.

Quando soube que viria ao país pela terceira vez, Jones buscou por desastres naturais que tocassem a platéia de forma mais direta. Descobriu que nossas terras de fato têm mais flores, que não sofremos com terremotos ou tufões, mas encontrou paralelos em desgraças outras, que também nos levam, ao fim do dia, a clamar por um Deus teimosamente surdo. "O cerne de 'Another Evening' é a batalha da vida. Meu exército são os dançarinos. Minhas armas são meus pensamentos, a beleza, o suor, o som, as palavras. Mas quem é o inimigo? Como explicar quem é o responsável para uma criança brasileira que vê os presos em São Paulo comandarem, de dentro das cadeias, massacres contra a população indefesa? O responsável, o inimigo, é a intolerância, a ignorância." Depois do fim da turnê, ele passará dois dias trabalhando com os jovens dançarinos da Cia. Étnica de Dança, oriundos da periferia carioca.

Um de seus maiores assombros ao revisitar a realidade brasileira foi a discussão em torno das ações de política afirmativa do governo Lula. "Meu Deus! Nos anos 60, os negros americanos fantasiavam o Brasil como o paraíso da miscigenação. Acho ótimo, no entanto, que o país esteja enfrentando sua realidade racial. Sou um resultado direto da política de cotas para negros na educação. Sem ela, jamais teria ido à universidade nem seria quem eu sou." Foi na Universidade de Nova York que Jones travou contato com a dança moderna e conheceu seu parceiro Arnie Zane, coreógrafo e dançarino que morreu em 1988, em decorrência de complicações por conta da aids.

Jones, que também contraiu o vírus do HIV, ousou criar, em 1994, uma performance a partir de um workshop com doentes terminais. Ao levá-los para o palco por meio de imagens gravadas, Jones teve seu "Still/Here" rotulado de "victim art" pela revista "New Yorker", que o acusou de não se apresentar como artista, e sim como um mártir. Em "Another Evening", ele torna a nos lembrar da mais humana das condições - a mortalidade - com depoimentos emocionados das vítimas do furacão Katrina.

No último quarto de século, Bill T. Jones se acostumou a encontrar nas páginas da imprensa o adjetivo transgressor precedendo seu nome. "É claro que eu quero falar da beleza. Mas é possível um artista sério vivendo nos dias de hoje se dizer apolítico? Não! Minha política está na minha face, basta olhar para mim." O coreógrafo não se cansa de buscar compreender o multifacetado, injusto, apocalíptico mundo em que vivemos. Tampouco titubeia em dividir suas descobertas com os que se dispõem assistir suas maquinações. Ao público brasileiro resta a menor - mas não menos prazerosa - das tarefas: o privilégio de conferir esta doída travessura por ele batizada, com singeleza, de "Another Evening".

quinta-feira, agosto 17, 2006

Diretinho da Redação (49)


O texto da semana, sobre quem, de fato, perdeu a guerra entre Israel e Líbano, já está no DR.

A CONSCIÊNCIA ANGUSTIADA DE ISRAEL

Primeiro foi o Hezbolá. Depois Bush, escoltado por Condoleezza e Rumsfield. Nessa semana todos se declararam vencedores da guerra entre Israel e os libaneses. Cacoete de repórter, quase sempre me interessam mais os discursos dos derrotados. Ontem, durante o funeral de seu filho Uri, sargento de 22 anos morto em serviço no sul do Líbano, o escritor israelense David Grossman, em emocionado discurso, disse que ‘nossa família, nós, perdemos esta guerra. Israel fará agora um exame de consciência. E nós nos dobraremos na dor, envolvidos pelo imenso amor que recebemos de tantas pessoas que em sua maioria não conhecemos’.

O choque de proporções nacionais gerado pela morte de Uri é compreensível. Desde menino ele era uma figura próxima dos israelenses. Sempre acompanhava o pai, David, a mãe, Michal, e o irmão, Yonatan, nos muitos protestos contra a ocupação da Palestina. A Santíssima Trindade da literatura contemporânea de Israel – Grossman, Amos Oz e A.B.Yehoshua – tem militado como poucos intelectuais de nossos tempos na causa da devolução dos territórios ocupados. Também vem insistindo em sonhar a utopia da convivência harmônica entre todos os semitas – judeus e árabes - em uma sociedade laica e plural. “Vento Amarelo”, de Grossman, narrado na Cisjordânia, é considerado pelos críticos ‘a maior denúncia, por um sionista, do expansionismo israelense jamais escrita”. É também um livro belíssimo de se ler.

Na quinta-feira passada os ‘três grandes’ publicaram nos jornais israelenses uma carta em que pediam um imediato cessar-fogo no sul do Líbano. Em uma entrevista coletiva realizada em Tel-Aviv, a poucos metros do Ministério da Defesa, os escritores disseram que “Israel iniciou uma guerra por motivos justos, mas a decisão de aumentar as proporções desta invasão é um equívoco. Israel cruzou o Rio Litani duas vezes. Não precisamos passar para a outra margem uma vez mais. Precisamos lembrar que o Líbano não é nosso Vietnã. Ele é nosso vizinho, com quem teremos de conviver para sempre, não destruí-lo”. Os intelectuais foram imediatamente atacados pelo aparente paradoxo de se defender a necessidade de proteção do estado judeu ao mesmo tempo em que se condenava sua compulsão belicosa. E então veio a notícia da morte do filho de Grossman.

David tinha 30 anos quando Uri nasceu. Detinha o posto de coronel do exército, mas sempre detestara as guerras. Havia publicado apenas dois livros, mas já era uma voz importante na denúncia dos massacres cometidos em nome da segurança israelense em Beirute, neste mesmo Líbano, então ocupado, terra em que seu filho tombaria, no dia anterior ao armistício, dentro de um tanque Merkava, atingido por um míssil de fabricação russa lançado por guerrilheiros do Hezbolá.

Consumido pela dor, cercado de amigos e familiares no Cemitério do Monte Herzel, em Jerusalém, onde descansam nomes caros ao sionismo, como Golda Meir, Yitzhak Rabin e o próprio Herzel, Grossman nos fala da necessidade de os israelenses refletirem sobre seus atos. Ele os pede um exame de consciência. Durante anos a fio, o escritor foi apresentado a seus milhares de leitores fora do Oriente Médio como a ‘consciência angustiada de Israel’. Epíteto que não poderia ser mais exato em tempos tão infelizes.

quarta-feira, agosto 16, 2006

Momento Blog: Cold Spring-NY



Acabei me enrolando no começo desta semana e só estou postando agora estas imagens tiradas no domingo. Cold Spring, à beira do Hudson River, uma delícia de cidadezinha, pouco mais de uma hora de Nova Iorque. O crédito das fotos é de William Morrisey.

sexta-feira, agosto 11, 2006

Não À Guerra

Os maiores diários da Alemanha saíram hoje com um manifesto de intelectuais pedindo o fim imediato da guerra entre Israel e o Hezbolá. A carta é assinada por gente graúda como o filósofo iraniano Bijan Abdolkarimi, o reverendo Francis Gignac, aqui da Universidade Católica de Washington, e o professor Hannah Hever, da Universidade Hebraica de Jerusalém. Os diferenciais deste abaixo-assinado são a participação maciça de intelectuais árabes e israelenses e a tentativa de não se apontar um único culpado pelas agressões. O texto, traduzido abaixo aqui pelo blogueiro, é um bem-vindo ataque ao fundamentalismo religioso, em todas as suas matizes.


Não À Guerra!


Nós, judeus e muçulmanos, artistas e acadêmicos, cidadãos do mundo, deploramos a violência, a militarização e o derramamento de sangue inocente que ocorre hoje no Oriente Médio. Nós não aceitamos que nossas respectivas e ricas tradições culturais e religiosas sejam utilizadas de forma degradante em um conflito militar de longa escala, determinado por interesses geopolíticos e econômicos, em que estereótipos arcaicos do que seria o bem e o mal são cinicamente tatuados, respectivamente, nas civilizações do ocidente e do oriente.

Aqueles que se dão ao trabalho de analisar nossa História descobrirão que muçulmanos, judeus e cristãos convivem há séculos no Oriente Médio. Na iminência de uma catástrofe, apelamos para o fim imediato das hostilidades e pela continuação de um intercâmbio respeitoso e frutífero. Nós, abaixo-assinados, consideramos a radical polarização entre a chamada civilização ocidental e o mundo islâmico como uma perversão de suas respectivas tradições.

Prof. Bijan Abdolkarimi, Philosoph, Azad University, Teheran; Prof. Dr. Nasr Abu Zayd, Ibn-Rushd-Lehrstuhl für Humanismus und Islam, University of Utrecht; Sultan Acikgueloglu, Student der Islamwissenschaft, Berlin; Amir Hossein Afrassiabi, Dichter und Architekt, Rotterdam; Adonis, poète areligieux, Paris; Dr. Katajun Amirpur, Islamwissenschaftlerin Universität Bonn, Köln; Prof. Mahmoud Ayoub, Religion Department, Temple University, Philadelphia; Shelley Berlowitz, Historikerin, Zürich; Prof. Dr. Almut Sh. Bruckstein, Philosophin, Berlin; Prof. Daniel Boyarin, Taubman-Lehrstuhl für Talmudische Kultur, Universität Berkeley; Hady Chapardar, Kunstkritiker und Satiriker, Teheran; Sidney Corbett, Komponist, Berlin; Mojdeh Daghighi, Journalist und Übersetzer, Teheran; Sigrun Drapatz, Künstlerin, Berlin; Saeid Edalatnejad, Stiftung Encyclopaedia Islamica, Abt. für Recht und Theologie, Teheran; Daniela Fariba Vorburger, Politologin, Zürich; Nasser Ghiasi, Schriftsteller und Übersetzer, Heidelberg; Rev. Prof. Francis T. Gignac, Catholic University of America, Washington; Asst. Prof. Shai Ginsburg, Duke University, Durham/USA; Prof. Nilufer Gole, Soziologin, Ecole des Hautes Etudes, Paris; Prof. Galit Hasan-Rokem, Professur für Jüdische Studien der Hebrew University, Dichterin, Jerusalem; Dipl. Ing. Helmut Henseler, Deutsch-Jordanische Gesellschaft, Buxheim; Prof. Hannan Hever, Hebräische Literatur, Hebrew University Jerusalem; Dr. Carola Hilfrich, Franz Rosenzweig Institut, Jerusalem; Silvia Horsch, Arabistin und Germanistin, Berlin; Ass. Prof. Qadri Ismail, Literary Studies, University of Minnesota; Prof. Yasemin Karakasoglu, Lehrstuhl für Interkulturelle Pädagogik, Universität Bremen; Dr. Navid Kermani, Schriftsteller und Orientalist, Köln; Dr. Menachem Klein, Politische Wissenschaften, Bar Ilan University, Ramat Gan/Israel; Adalbert Kuhn, Bildungsreferent, Esslingen; Abdellah Lahrmaid, Sozialwissenschaftler, Rabat/Marokko; Prof. Luis Landa, Ben Gurion University, Beer Sheva; Ishay Landa, Historiker, Braunschweig; Tali Latowicki, Literaturwissenschaftler, Tel-Aviv; Prof. em. Alexander A. Di Lella, Bibelwissenschaften, Catholic University of America, Washington; Brigitte Meyer, Musikerin, St.Gallen/Schweiz; Dr. Ziba Mir-Hosseini, London Middle East Institute, University of London; Flora Mahdavi, Institute for the Study of Muslim Civilisations, The Aga Khan University (International), London; Dr. Mohammad M. Mojahedi, Politikwissenschaftler, Mofid University, Qom/Iran; Prof. Ivan Nagel, Schriftsteller, Berlin; Prof. Susan Neiman, Philosophin, Direktorin des Einstein Forums, Potsdam; Cem Özdemir, MdEP, Berlin/Brüssel; Dr. Hassan Rezaei, Jurist, Max Planck Institut für ausländisches und internationals Strafrecht, Freiburg; Meredith Reid Sarkees, Politikwissenschaftlerin, Crystal Lake/USA; Shreen Saroor, Friedensforscherin, Mannar Women Development Forum, Mannar/Sri Lanka, Dr Malek Sharif, Historiker, Wissenschaftskolleg zu Berlin und Orient-Institut Istanbul; Prof. Christoph Schmidt, Philosoph, Hebrew University Jerusalem; Dr. Yossef Schwartz, Tel Aviv University; Dr. Mohamad Nur Kholis Setiawan, State Islamic University, Yogyakarta/Indonesien; Hilal Sezgin, Autorin, Frankfurt/Main; Rashid Shaz, Verleger, New Dehli; Farzaneh Taheri, Verleger und Übersetzer, Teheran; Prof. Richard Tapper, School of Oriental and African Studies, University of London; Prof. Abdulkader Tayob, University of Cape Town; Jochi Weil-Goldstein, medico international schweiz, Zürich; Dr. med. Samuel Wiener-Barraud, Stäfa/Schweiz; Clare Wilde, Research Associate, Georgetown University, Washington; Prof. Ebtehal Younes, University of Cairo

Não À Guerra

Os maiores diários da Alemanha saíram hoje com um manifesto de intelectuais pedindo o fim imediato da guerra entre Israel e o Hezbolá. A carta é assinada por gente graúda como o filósofo iraniano Bijan Abdolkarimi, o reverendo Francis Gignac, aqui da Universidade Católica de Washington, e o professor Hannah Hever, da Universidade Hebraica de Jerusalém. Os diferenciais deste abaixo-assinado são a participação maciça de intelectuais árabes e israelenses e a tentativa de não se apontar um único culpado pelas agressões. O texto, traduzido abaixo aqui pelo blogueiro, é um bem-vindo ataque ao fundamentalismo religioso, em todas as suas matizes.


Não À Guerra!


Nós, judeus e muçulmanos, artistas e acadêmicos, cidadãos do mundo, deploramos a violência, a militarização e o derramamento de sangue inocente que ocorre hoje no Oriente Médio. Nós não aceitamos que nossas respectivas e ricas tradições culturais e religiosas sejam utilizadas de forma degradante em um conflito militar de longa escala, determinado por interesses geopolíticos e econômicos, em que estereótipos arcaicos do que seria o bem e o mal são cinicamente tatuados, respectivamente, nas civilizações do ocidente e do oriente.

Aqueles que se dão ao trabalho de analisar nossa História descobrirão que muçulmanos, judeus e cristãos convivem há séculos no Oriente Médio. Na iminência de uma catástrofe, apelamos para o fim imediato das hostilidades e pela continuação de um intercâmbio respeitoso e frutífero. Nós, abaixo-assinados, consideramos a radical polarização entre a chamada civilização ocidental e o mundo islâmico como uma perversão de suas respectivas tradições.

Prof. Bijan Abdolkarimi, Philosoph, Azad University, Teheran; Prof. Dr. Nasr Abu Zayd, Ibn-Rushd-Lehrstuhl für Humanismus und Islam, University of Utrecht; Sultan Acikgueloglu, Student der Islamwissenschaft, Berlin; Amir Hossein Afrassiabi, Dichter und Architekt, Rotterdam; Adonis, poète areligieux, Paris; Dr. Katajun Amirpur, Islamwissenschaftlerin Universität Bonn, Köln; Prof. Mahmoud Ayoub, Religion Department, Temple University, Philadelphia; Shelley Berlowitz, Historikerin, Zürich; Prof. Dr. Almut Sh. Bruckstein, Philosophin, Berlin; Prof. Daniel Boyarin, Taubman-Lehrstuhl für Talmudische Kultur, Universität Berkeley; Hady Chapardar, Kunstkritiker und Satiriker, Teheran; Sidney Corbett, Komponist, Berlin; Mojdeh Daghighi, Journalist und Übersetzer, Teheran; Sigrun Drapatz, Künstlerin, Berlin; Saeid Edalatnejad, Stiftung Encyclopaedia Islamica, Abt. für Recht und Theologie, Teheran; Daniela Fariba Vorburger, Politologin, Zürich; Nasser Ghiasi, Schriftsteller und Übersetzer, Heidelberg; Rev. Prof. Francis T. Gignac, Catholic University of America, Washington; Asst. Prof. Shai Ginsburg, Duke University, Durham/USA; Prof. Nilufer Gole, Soziologin, Ecole des Hautes Etudes, Paris; Prof. Galit Hasan-Rokem, Professur für Jüdische Studien der Hebrew University, Dichterin, Jerusalem; Dipl. Ing. Helmut Henseler, Deutsch-Jordanische Gesellschaft, Buxheim; Prof. Hannan Hever, Hebräische Literatur, Hebrew University Jerusalem; Dr. Carola Hilfrich, Franz Rosenzweig Institut, Jerusalem; Silvia Horsch, Arabistin und Germanistin, Berlin; Ass. Prof. Qadri Ismail, Literary Studies, University of Minnesota; Prof. Yasemin Karakasoglu, Lehrstuhl für Interkulturelle Pädagogik, Universität Bremen; Dr. Navid Kermani, Schriftsteller und Orientalist, Köln; Dr. Menachem Klein, Politische Wissenschaften, Bar Ilan University, Ramat Gan/Israel; Adalbert Kuhn, Bildungsreferent, Esslingen; Abdellah Lahrmaid, Sozialwissenschaftler, Rabat/Marokko; Prof. Luis Landa, Ben Gurion University, Beer Sheva; Ishay Landa, Historiker, Braunschweig; Tali Latowicki, Literaturwissenschaftler, Tel-Aviv; Prof. em. Alexander A. Di Lella, Bibelwissenschaften, Catholic University of America, Washington; Brigitte Meyer, Musikerin, St.Gallen/Schweiz; Dr. Ziba Mir-Hosseini, London Middle East Institute, University of London; Flora Mahdavi, Institute for the Study of Muslim Civilisations, The Aga Khan University (International), London; Dr. Mohammad M. Mojahedi, Politikwissenschaftler, Mofid University, Qom/Iran; Prof. Ivan Nagel, Schriftsteller, Berlin; Prof. Susan Neiman, Philosophin, Direktorin des Einstein Forums, Potsdam; Cem Özdemir, MdEP, Berlin/Brüssel; Dr. Hassan Rezaei, Jurist, Max Planck Institut für ausländisches und internationals Strafrecht, Freiburg; Meredith Reid Sarkees, Politikwissenschaftlerin, Crystal Lake/USA; Shreen Saroor, Friedensforscherin, Mannar Women Development Forum, Mannar/Sri Lanka, Dr Malek Sharif, Historiker, Wissenschaftskolleg zu Berlin und Orient-Institut Istanbul; Prof. Christoph Schmidt, Philosoph, Hebrew University Jerusalem; Dr. Yossef Schwartz, Tel Aviv University; Dr. Mohamad Nur Kholis Setiawan, State Islamic University, Yogyakarta/Indonesien; Hilal Sezgin, Autorin, Frankfurt/Main; Rashid Shaz, Verleger, New Dehli; Farzaneh Taheri, Verleger und Übersetzer, Teheran; Prof. Richard Tapper, School of Oriental and African Studies, University of London; Prof. Abdulkader Tayob, University of Cape Town; Jochi Weil-Goldstein, medico international schweiz, Zürich; Dr. med. Samuel Wiener-Barraud, Stäfa/Schweiz; Clare Wilde, Research Associate, Georgetown University, Washington; Prof. Ebtehal Younes, University of Cairo

quinta-feira, agosto 10, 2006

Ultra-Nacionalismo Ianque, de novo

Hoje foi um dia nervoso em Nova Iorque. O medo voltou a tomar conta da cidade, mas houve quem tirasse proveito desta que vem sendo trombeteada pela mídia como “a maior ameaça terrorista à cidade desde o setembro de 2001”. Se eu acreditasse em astrologia diria que uma conjunção raríssima está ajudando Washington e os republicanos neste momento. Não poderia haver notícia melhor para os neocons do que o desbaratamento do plano de explodir aviões que vinham de Londres para o lado de cá do Atlântico.

Logo pela manhã George W.Bush apareceu na televisão desafiador, bradando contra o ‘fascismo islâmico’ e afirmando que o plano dos terroristas não deu certo por conta da ‘colaboração entre Londres e Washington’, tirando uma casquinha do MI-6. Não por acaso, ontem, o vice-presidente Dick Cheney disse que os Democratas, ao mandarem para casa o senador Joe Lieberman, que perdeu a legenda para a reeleição ao senado por Connecticut, agiram em ‘benefício dos terroristas’, já que Joe, que é judeu, tem sido um ‘fiel aliado desta administração na guerra contra o terror’.

Bush e Cheney já perceberam que há neste momento um ressurgimento do ultra-nacionalismo americano que dominou o país em 2001. Os sinais estão em todos os cantos. Estão no filme “Torres Gêmeas”, de Oliver Stone, que estreou ontem, uma ode aos valores da América Profunda, que transforma o ataque da Al-Qaeda em uma espécie de teste de fé, de obstáculo necessário para que a bondade intrínseca do norte-americano brotasse mais uma vez com toda sua pujança. Há a guerra no Líbano, vista como o enfrentamento entre os ‘neo-fascistas’ e Israel. Em um forte artigo no Chicago Tribune desta semana um dos principais nomes da Broadway e de Hollywood, David Mamet, diz que é ‘anti-semita’ qualquer crítica às ações das forças armadas israelenses contra o Hezbolá. E mete o cacete na imprensa e nos setores mais liberais do Partido Democrata. Desgastado pelo fracasso da ocupação do Iraque, patinando nas pesquisas de opinião, o governo Bush e os republicanos estavam, até hoje, se preparando para uma pesada derrota nas eleições de novembro. O cenário mudou. Agora, para quem torce por uma mudança de ares no Congresso, resta torcer para que esta conjunção astral passe logo.

terça-feira, agosto 08, 2006

Boa Notícia Do Dia

O jornalista Josias de Souza anuncia que o senador Jorge Konder Bornhausen (SC), 68, decidiu abandonar a política e a presidência do PFL. Durante a ditadura, Bornhausen foi vice-governador e governador de Santa Catarina, indicado pelos militares. Desde 1982 é senador pelo PDS, de Santa Catarina. Mudou-se de mala e cuia para o PFL, que ajudou a fundar, em 1984. Em sua despedida da vida pública (que incluiu passagens como ministro dos governos Sarney, na pasta da Educação, e Collor, na articulação política) ele diz que 'é hora de renovação' e que vai participar do conselho de 'duas ou três empresas privadas'. Bornhausen é banqueiro e dono de faculdades em seu estado natal. Em uma de suas mais recentes tiradas se referiu ao PT como 'uma raça que deve ser extinta por 30 anos'. Já vai tarde.

Velvet, Velvet, Velvet


O ótimo site nova-iorquino Gothamist oferece aqui um impressionante clipe com imagens raras de um ensaio do Velvet Underground na mítica Factory de Andy Warhol, que ocupava todo um quarteirão nas ruas 32 e 33, entre as avenidas Madison e Park. São 11 minutos de Lou Reed, John Cale, Sterling Morrison, Maureen Tucker, Nico e...o pequeno Ari, filho da loira, curtindo o som, a seus pés.

As imagens do clipe são parte de mais de uma hora de gravação feita em janeiro de 1966 e que terminou com a polícia chegando para acabar com a festa. Um vizinho havia ligado e reclamado da barulheira. O Gothamist lembra que, da Factory, restou uma marca digital de Warhol, em uma parede onde se pode ler: "Eu nunca quis ser um pintor. Eu sempre quis ser um dançarino de sapateado".

Velvet, Velvet, Velvet.

sexta-feira, agosto 04, 2006

ELIAS KHOURY/Artigo


O escritor libanês Elias Khoury, 58 anos, romancista de mancheia e editor do suplemento cultural do jornal Al-Nahar, escreveu um belo artigo na London Review of Books que chega hoje às bancas. Lá ele diz:

Os israelenses dizem que não querem ocupar o Líbano. Esta é a mesma coisa que os norte-americanos falam sobre o Iraque. Não se trata, no entanto, do que eles intencionam fazer, mas do que eles, de fato, estão fazendo. Será que Israel pode tolerar o caos religioso e étnico nas suas fronteiras? Se está de fato prestando um serviço aos EUA ao tentar enfraquecer o Hezbolá, o mais forte aliado do Irã na região? O que é claro, por detrás do bombardeio incecssante nas ruas de Beirute, é que Israel, ao perceber que é incapaz de destruir o Hezbolá, decidiu acabar com todo o Líbano.

O artigo completo, infelizmente apenas em inglês pode ser lido aqui.

CRIME DE GUERRA - Carta dos Intelectuais (Londres)

O Guardian de ontem publicou a seguinte carta assinada pelos intelectuais Tariq Ali, Noam Chomsky, Eduardo Galeano, Howard Zinn, Ken Loach, John Berger e Arundhati Roy:

O ataque israelense ao Líbano, com apoio norte-americano, deixou o país entorpecido, em chamas e com mais ódio. O massacre de Qana e a perda das vidas é não apenas uma 'reação desproporcional'. É, de acordo com as legislação internacional, um crime de guerra.

A sistemática e deliberada destruição da infraestrutura básica do Líbano pela força aérea israelense também é um crime de guerra, desenhada para reduzir o país à posição de um protetorado israelense e/ou norte-americano. Mas o tiro saiu pela culatra. No Líbano, 87% da população agora apóia a resistência do Hezbolá, inlcuindo 80% dos Cristãos e Drusos e 89% dos Muçulmanos Sunitas. Apenas 8% da população acredita que os EUA dão apoio ao Líbano.

No entanto, estas ações criminosas não serão levadas a nenhuma corte internacional, já que os EUA e seus aliados que cometem tais crimes ou compactuam com a carnificina não deixarão que isso aconteça. Agora está mais do que claro que o ataque ao Líbano para esfacelar o Hezbolá foi preparado com grande antecedência. Os crimes de Israel não receberam condenação alguma dos EUA e de seus leais aliados britânicos, apesar da crescente oposição a Tony Blair em seu próprio país.

A paz que o Líbano desfrutou até pouco tempo chegou ao fim, e um país paralisado está sendo obrigado a olhar para o passado que espreava poder esquecer. O estado de terror forçado em que vive o Líbano hoje está sendo implantado também no gueto de Gaza, enquanto a 'comunidade internacional' observa a tudo em impávido silêncio. Enquanto isso, o restante da Palestina é anexado e desmantelado, com participação direta dos EUA e a aprovação tácita de seus aliados.

Nós oferecemos aqui nossa solidariedade e apoio às vítimas desta brutalidade e a todos aqueles que decidiram resistir. De nossa parte, vamos utilizar todos os meios para denunciar a cumplicidade de nossos governos com estes crimes. Não existirá paz no Oriente Médio enquanto as ocupações da Palestina e do Iraque e o bombardeio do Líbano continuarem.



Tariq Ali, Noam Chomsky, Eduardo Galeano, Howard Zinn, Ken Loach, John Berger & Arundhati Roy.

quinta-feira, agosto 03, 2006

ENTREVISTA/ Michael Douglas

Saiu hoje no Valor Econômico a entrevista que fiz com Michael Douglas em Los Angeles.
SEMPRE ALERTA!
Por Eduardo Graça, para o Valor
04/08/2006

Estréia neste fim de semana o filme "O Sentinela", thriller dirigido por Clark Johnson, centrado no confronto entre os personagens de Michael Douglas e Kiefer Sutherland. Leia, a seguir, entrevista com Douglas.

Valor: Dizem que é difícil tirá-lo de casa. Em "O Sentinela", o senhor não só está em quase todas as cenas como também assina a produção...

Michael Douglas: É que hoje o "desperate housewife" sou eu! [risos]. Estou em um momento especial de minha vida. Aos 62 anos, curto a alegria de um novo casamento [com a atriz Catherine Zeta-Jones, 37], de ter filhos novinhos. E vivemos nas Bermudas, que não são um pólo cinematográfico [risos]. Cheguei a um ponto em que posso me dar ao luxo de produzir o que quero, trabalhar com pessoas de quem gosto, quando bem entendo.

Valor: E aqui o senhor está entre amigos...

Douglas: Conheço o Kiefer há anos. Ele é como uma máquina, tem uma ética de trabalho que até hoje me impressiona. Sei que o personagem dele lembra o Jack Bauer [do seriado "24 Horas"] e me senti honrado quando ele decidiu que nas férias do seriado iria fazer "O Sentinela". Afinal, está em um momento em que poderia fazer o que bem quisesse! E a Kim [Basinger], bem, você sabia que ela foi nossa primeira escolha para "Instinto Selvagem"?

Valor: Não sabia. E o senhor já teve a chance de ver "Instinto 2", com Sharon Stone? Gostou?


Douglas
: Não, não vi [pausa]. É que não vamos mais ao cinema regularmente. Catherine e eu pegamos mais DVDs e vemos na TV.

Valor
: Mas o que acha da continuidade de filmes de grande sucesso? Tanto se falou de mais uma seqüência de "Tudo por uma Esmeralda", reatando sua parceria com Kathleen Turner...

Douglas: E o Harrison [Ford] agora está filmando "Indiana Jones 4". Que Deus o proteja! [risos]. Preciso ser honesto com você: um dos meus joelhos não funciona mais. Não vejo nenhuma possibilidade de fazer um filme neste estilo no futuro próximo.

Valor: Em "O Sentinela", o senhor tem a missão de proteger a primeira-dama, vivida por Kim Basinger. Acha que a tarefa seria tão agradável se tivesse de cuidar da segurança de Laura Bush?

Douglas: Sabe que eu fui a um evento em Washington recentemente e descobri que a Laura é uma mulher extremamente charmosa? Atraente, mesmo! Digamos que ela tem um estilo muito, muito particular.

Brooklyn Em Chamas!


Este pode ser um souvenir, no mínimo, original, para quem passar por aqui nos próximos dias. O Corpo de Bombeiros da cidade acaba de colocar à venda o Calendário dos Galãs-Bombeiros/2006-2007, que sai por US$ 15 e uns cents. Na capa, o bravo Mark de Rosa, 22 anos, que trabalha ali na Pitt Street, na saída da ponte de Williamsburg, no Lower East Side. Para as brasileiras interessadas: ele é solteiro, tem 22 anos, e mora em Staten Island.

Diretinho da Redação (49)


A coluna da semana, sobre a apatia dos norte-americanos, que não andam lá tão interessados no conflito entre Israel e Líbano, já está no DR.

OS AMERICANOS E A GUERRA NO LÍBANO

Eduardo Graça


O que a sociedade americana está aprendendo com o conflito entre Israel e o Hezbolá no Oriente Médio? Muito pouco. Os americanos, aparentemente, não estão nem aí para o que acontece no Líbano neste momento. Nem mesmo a morte de dezenas de crianças assassinadas esta semana pelo bombardeio da força aérea de Tel-Aviv despertou a indignação dos norte-americanos.

Ao menos é o que pensa o chefe do escritório de Paris e editor de Oriente Médio da revista semanal ‘Newsweek’, Christopher Dickey. Em um debate nesta terça-feira o jornalista destacou que, no site da revista, o índice de leitura sobre o conflito entre Israel e Líbano é mínimo. Foi baixo há duas semanas, quando as atrocidades começaram, e segue irrisório, com picos aqui e acolá. O interesse da semana, apesar da tragédia de Qana, contou Dickey, foi a prisão do ator Mel Gibson, flagrado ao dirigir bêbado e severamente criticado por um possível surto anti-semita, ao querer saber se o guarda que o deteve era judeu. Na Europa, o jornalista ressaltou, há uma sensação cada vez maior de que é preciso fazer algo na região independentemente do desejo do Império de manter as atrocidades até que o Hezbolá seja severamente atingido.

As razões para mais este distanciamento entre a opinião pública dos dois maiores centros da civilização ocidental são complexas. Mas é preciso levar em conta tanto a força da minoria de origem árabe na Europa – na França em que Dickey vive eles são 10% da população – quanto a certeza de que a população européia ‘compreende’ melhor a noção de ‘ocupação’. Os europeus sabem o grau de ódio e de humilhação que o termo – transmutado pelos americanos como ‘libertação’ – carrega. Nas sociedades que ressurgiram na Europa Ocidental nos anos 40 e na Oriental nos 80, a certeza de que a opinião pública havia sido privada de influir de modo objetivo nos destinos de suas respectivas nações as marcaram profundamente.

Os EUA, como o Brasil, jamais foram ocupados. Na América Profunda, acredita-se na missão de se levar o sonho de liberdade, o legado da América, às atrasadas nações asiáticas. E, por aqui, a força do chamado lobby judaico é intensa. A crescente comunidade muçulmana saiu às ruas de cidades como Los Angeles e Nova Iorque esta semana, mas, numericamente frágil, sem grande impacto na vida do país.

Os americanos, justiça seja feita, percebem de fato que há algo de errado neste conflito – justamente a incapacidade da inteligência e do exército israelenses de esmagarem o inimigo terrorista. Acreditam também que não há sentido em se enviar uma força multinacional para a região, pois as incursões no sul do Líbano são compreendidas como mais um capítulo no direito de Israel se defender do inimigo muçulmano. Não se trata, de modo algum, de uma crise internacional. Os americanos não conseguem, de acordo com pesquisadores e jornalistas, sequer perceber a assustadora contradição entre um império que atua em todo o globo e o escapismo abraçado pela maioria de seus cidadãos, cada vez mais voltados para seus próprios umbigos.

sexta-feira, julho 28, 2006

ENTREVISTA/Michael Mann


O Valor Econômico publicou hoje minha entrevista com o sociólogo Michael Mann, que acaba de lançar no Brasil, pela Record, "O Império da Incoerência".

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O Produto Externo Bruto Americano

Por Eduardo Graça, para o Valor
28/07/2006

O sociólogo Michael Mann, 64 anos, especializado em história contemporânea pela Universidade de Oxford, é um dos nomes mais celebrados da Universidade da Califórnia. Suas análises contundentes sobre o papel dos EUA no século XXI são leitura obrigatória para quem pretende entender o que passa pela cabeça da elite cultural, financeira e militar do país. Um dos primeiros intelectuais a denunciar tanto a invasão do Afeganistão quanto a ocupação do Iraque como atos atrapalhados de um império dirigido de modo equivocado pelos que controlam o poder em Washington, ele não poderia ser mais claro: "Os EUA vão ter de sair do Iraque e do Afeganistão, derrotados".

Com três anos de atraso, a editora Record acaba de lançar no Brasil "O Império da Incoerência", uma narrativa lúcida e apaixonada sobre a ascensão dos EUA à posição de potência única no globo. O livro rendeu a Mann o prestigioso prêmio da Fundação Friedrich Ebert, de Berlim, como melhor obra de caráter político de 2003. Receberam a honraria anteriormente Richard Sennett, Vaclav Havel e Norberto Bobbio.

Na entrevista concedida ao Valor, Mann fala das recentes ações militares no Líbano, Palestina e Israel, da natureza do poder americano, da nova confluência de forças no Extremo Oriente, e se arrisca a imaginar um mundo depois da queda do império ianque.

Valor: Como o senhor analisa a ação americana na crise do Líbano?

Michael Mann: A política de unilateralismo do império americano, alicerçada no direito de invasão prévia, está se desmilingüindo. O triste é que, com ela, também se deteriora ainda mais a estabilidade do Oriente Médio. O que a invasão de Gaza e do Líbano evidencia do ponto de vista do império? Ora, a total incapacidade do governo Bush de conter Israel. Ironicamente, o fracasso e a incompetência dos neoconservadores aumentam consideravelmente os riscos de instabilidade regional na Ásia.

Valor: Então, a influência do chamado "lobby judaico" aumentou em Washington com o retorno dos republicanos ao poder?


Mann: Quem vive fora dos EUA precisa entender que, hoje em dia, nenhum partido político interessado em chegar ao poder pode se dar ao luxo de combater abertamente o lobby judaico. O motivo é simples e rasteiro: há uma imensa e rica comunidade judaica tanto em Nova York, um estado importante, quanto na Flórida, o maior dos chamados "swing states", isto é, estados que ora votam e financiam os republicanos, ora os democratas. Mas as políticas do império, neste momento, parecem condenadas a confirmar uma espécie de profecia que se alimenta de sua própria desgraça.

Valor: Pode explicar melhor este conceito?


Mann: As ações do governo americano alimentam como nunca o terrorismo internacional contra o Ocidente. Foram elas que fizeram com que a "guerra contra o terror" ficasse mais realista. Podemos sentir as conseqüências nos atentados e nas bombas, mas também, é claro, no resultado das eleições em todo o Oriente Médio. Sufrágios mais ou menos democráticos no Iraque, na Palestina, no Líbano e no Egito reafirmaram a força popular de candidatos que vou chamar aqui de "extremistas antiimperialistas", políticos essencialmente contrários ao novo império. Ao mesmo tempo, este "surpreendente retrocesso" no mundo islâmico gera um outro, inversamente proporcional, nos EUA. Estou falando da justificativa encontrada para se aprovar os métodos da "guerra contra o terror". É o "retrocesso no Oriente Médio", e sua lógica, que determinam quem são os terroristas desta guerra. No momento, o Hizbollah, o Hamas e os sunitas iraquianos, e não Israel e o próprio governo americano.

Valor: Daí a incoerência fundamental deste novo império, símbolo da desordem mundial...


Mann: Ora, estamos lidando com extremistas dos dois lados do tabuleiro. E enquanto eles continuarem se sustentando politicamente, este império continuará com seu padrão incoerente e belicoso ainda por bom tempo.

Valor: A intervenção no Afeganistão e a invasão do Iraque, inicialmente, pareciam ter fortalecido Washington, ao menos internamente...

Mann: As quedas do Talibã e de Saddam Hussein foram tarefas relativamente fáceis. Mas os republicanos esqueceram de considerar um fator vital para a sobrevivência de qualquer império: é preciso ter apoio, no território ocupado, dos "clientes locais", uma fatia da população com quem se possa contar para governar o território conquistado. Os curdos são os únicos que, talvez, poderiam assumir este papel no norte do Iraque. Mais ninguém. Por isso, o que vemos hoje é a erupção de conflitos entre facções, não apenas no Iraque, mas no Afeganistão também.

Valor: Ou seja, exerce-se o poder, mas não a autoridade. Mas apesar disso há toda a pressão contra o Irã e as ameaças de que os EUA não aceitarão um estado xiita com armas nucleares.

Mann: Se o próximo passo for invadir o Irã, os resultados serão ainda piores para o império. Ao mesmo tempo, é importante lembrar que os EUA ainda não se voltaram novamente para a península coreana por causa dos riscos de destruição que um ataque de Kim Jong II causaria a Seul. Tanto a Coréia do Norte quanto o Irã têm sido estimulados nos últimos anos a desenvolver seus arsenais nucleares. Inicialmente, só para combater a política agressiva dos neoconservadores. Depois, quando os governos desses países perceberam a fragilidade do discurso republicano.

Valor: Mas há um inegável desgaste do governo Bush perante a opinião pública. Até que ponto novas ações militares no Oriente Médio podem modificar o cenário político no centro do império?

Mann: Acredito que a situação no Iraque e no Afeganistão não deve melhorar do ponto de vista do império. Os EUA vão se render, e este ato será visto pela maioria dos americanos como uma pesada derrota. É claro, precisamos levar em conta que o novo império resolveu intervir em uma região especialmente complexa. Historicamente, tanto o império britânico quanto o francês tiveram mais dificuldade em estabelecer seu domínio em colônias ocupadas por uma população majoritariamente muçulmana. O Islã foi se transformando, durante todo o século XX, em uma religião cada vez mais anti-imperialista. Há uma impossibilidade clara de haver qualquer apoio aos americanos, aos invasores, a partir da lógica do islamismo contemporâneo. Quem der sustentação aos EUA, como estamos vendo, corre o risco de perder o apoio das elites e também da população local.

Valor: Foi a partir desse cenário de conflitos que o senhor decidiu escrever "O Império da Incoerência"?

Mann: Sim, comecei a escrever "O Império da Incoerência" alarmado e enojado pelas ações da política externa de meus dois países, EUA e Inglaterra, já que tenho dupla cidadania. Ao estudar o mundo contemporâneo, mas também com base em minhas pesquisas sobre os impérios do passado, não foi difícil para mim prever o desastre no Iraque e o beco sem saída a que chegamos no Afeganistão. E, sabe de uma coisa? Não estou nem um pouco surpreso com o acerto que agora vejo em minhas predições.

Valor: O senhor diria que esse império incoerente foi de fato imaginado pelos ideólogos neoconservadores?


Mann: Quando a União Soviética desmoronou, boa parte da elite americana entendeu este fato histórico como uma "carta branca" para intervir em todo o mundo, da maneira como Washington bem entendesse. Eles realmente acreditaram que suas intervenções poderiam, ao mesmo tempo, consolidar os interesses econômicos dos EUA e tornar o mundo mais pacífico, menos turbulento e até mais democrático. De fato, todos os impérios procuram aproximar seus próprios interesses do que seriam os ideais de benevolência para todas as nações do globo. No caso do império americano, os republicanos criaram nos anos 1990 um mito para si próprios. O de que Ronald Reagan, e não o povo russo, havia destruído a URSS. Este é o que denomino o "mito fundador" dos neoconservadores. É olhando para esse mito que eles exigem que os EUA intervenham, unilateralmente, de maneira prévia e com o uso militar contra determinados países que, inicialmente, foram denominados de "Estados párias" e depois "eixo do mal". E a oportunidade que eles estavam esperando apareceu com o 11 de Setembro. Os ataques eram o evento perfeito para que finalmente conquistassem apoio maciço da população. A estratégia imperialista estava revelada: intervenções militares, de caráter "preventivo", justificadas pela guerra contra o terror.

Valor: O senhor acha possível estabelecer um paralelo entre o império incoerente e seus similares do passado?

Mann: O império americano é completamente diferente dos que conhecemos no passado. Desde 1912, quando os filipinos conseguiram alcançar um nível substancial de autonomia política, os EUA não possuem colônia alguma. É exatamente por isso que a maioria dos americanos nega a existência de um império. Mas é absolutamente claro que estamos lidando com o que alguns historiadores chamam de um "império militar informal", semelhante ao que os britânicos impuseram na América Latina na maior parte do século XIX.

Valor: Em que países não são anexados, mas perdem o direito real de se governarem...

Mann: Os americanos não impõem sua lei em países estrangeiros, mas exercem um imenso poder sobre suas "pseudocolônias", pelo simples fato de possuírem uma capacidade militar única no mundo. É ela que lhes permite interferir - abertamente ou de forma mais subterrânea - no dia-a-dia dessas nações. A outra faceta desse "império informal", é claro, são as inúmeras formas de coerção econômica desenvolvidas no século XX, a partir das políticas cuidadosamente denominadas de "programas de ajuste estrutural".

Valor: Mas as resistências ao chamado Consenso de Washington têm aumentado, especialmente na América Latina...

Mann: De fato, desde 1995 a resistência dos países de classe média, como o Brasil (no sentido de que não são nem países ricos, nem países pobres), contra a maneira pela qual o império exerce o poderio econômico no globo, é cada vez maior. Os programas de auxílio estruturais são menos numerosos e a OMC vive um impasse permanente. E neste exato momento os EUA se vêem frente a uma escolha cada vez mais clara. Estão obrigados a estabelecer um compromisso possível com opositores moderados do império, como Lula, única e exclusivamente pelo medo de que a intransigência de oponentes populistas, como Hugo Chávez, ganhe ainda mais combustível.

Valor: Vivemos, então, os dias da decadência do império americano?

Mann: Os dias desse império militar informal estão contados, mas ninguém, neste momento, pode se contrapor aos EUA. A ONU não pode. Muito menos a Europa. E a Rússia e a China não demonstram muito interesse, mesmo unidas, em contrabalançar o poder ianque. Há uma razão prática, é claro: para tentarem chegar perto do poder militar americano, Rússia e China teriam de investir muito mais no aumento de seu poderio militar do que fazem hoje. E seria algo proibitivo, a meu ver, economicamente, para esses dois gigantes. E a Europa parece manter-se em seu discurso pacífico. Ou seja, militarmente, os EUA são imbatíveis, exceto pelos guerrilheiros dispostos a morrer por sua causa. Mas, até agora, o impacto maior que eles podem causar é contribuir no absurdo índice de violência e mortes ao nosso redor. E, em termos de poder econômico, o império também é formidável. Hoje, os EUA representam 28% de tudo o que se produz no mundo, contra 22% em 1970.

Valor: Mas há o impressionante crescimento econômico da China e a nova realidade do Pacto de Xangai, que já conta com Pequim e Moscou, e insinua movimentos em direção a Teerã...

Mann: Apesar de isso ser impossível no momento, não há solução a longo prazo para a China e para a Índia continuarem crescendo sem aumentar o peso de sua oposição ao império. A não ser que decidam de fato se enfrentar abertamente, para decidir quem será a grande potência asiática. De um modo ou de outro, este será o fim da era do império informal americano, o epílogo de nossa era.

Valor: O senhor acredita que veremos a ascensão de um novo império, vindo da Ásia?

Mann: A queda do império americano representará o fim da opção histórica imperialista. O globo será comandado por princípios de ação multilateral. Mas isso ainda demora. Até lá, o império incoerente continuará oferecendo ao mundo mais guerra ou uma paz desordenada, centrada em noções equivocadas de ordem e democracia.

quarta-feira, julho 26, 2006

Diretinho da Redação (48)


O texto da semana já está na coluna do DR.

Publicada em: 26/07/2006


O BASTA DA MÍDIA AMERICANA


Eduardo Graça


Já é possível dizer que a imprensa norte-americana está cobrindo a guerra no Líbano de modo diverso ao que relatou as invasões do Afeganistão e do Iraque. Aqui e acolá os repórteres caem no cacoete de classificar o avanço das tropas israelenses no sul do Líbano como ‘o mais novo capítulo da guerra contra o terror’. Mas, com exceção da Fox, vê-se uma redução drástica das terríveis bravatas anti-islâmicas. Analistas dos mais diversos campos políticos dizem que se trata de uma espécie de ‘basta’, uma reação à onda de nacionalismo cego que tomou conta da mídia após os atentados às Torres Gêmeas.

Ajuda muito, é claro, a falta de credibilidade interna do governo republicano e o anúncio de que mais soldados americanos irão partir para o Iraque – onde nos últimos dois meses 100 pessoas foram assassinadas por dia – a fim de conter o que já começa a ser reconhecido por aqui como um ‘estado de guerra civil’. O resultado é que, por aqui, na cobertura do conflito entre o Hezbollah e Israel, até mesmo a televisão aberta resolveu perseguir esta aparentemente banal regra do jornalismo e saiu a campo para, imaginem só, ‘ouvir os dois lados’ da história.

A reportagem mais impressionante até agora ficou por conta do ‘Nightline’, o programa de reportagens especiais da ABC. Decidiu-se que o norte da cobertura seria mostrar como cada bombardeio israelense aumenta exponencialmente a popularidade do Hezbollah, para muito além da comunidade xiita do país. E para ilustrar a tese a equipe de repórteres espalhado pelo Oriente Médio dedicou o programa desta segunda-feira à maneira como a guerra está sendo percebidas pelas crianças dos dois países.

Em Elon, no norte de Israel, a poucos quilômetros da fronteira com o Líbano, 40 meninos e meninas que lembram muito os adolescentes norte-americanos passam o dia em abrigos anti-aéreos construídos com material especial, que resistiria aos mísseis do Hezbollah. Sem aulas, sem escola, eles brincam o dia todo entre quatro paredes, só diminuindo o volume da algazarra para escutarem, atentos, o barulho de bombas e tiros. Para eles, lá fora, é mais uma guerra que em algum momento vai acabar, com a vitória de seus soldados e o retorno a uma quase-normalidade. Foi assim quando seus pais eram, eles mesmos, crianças, nas guerras dos anos 80, 70 e 60, dizem.

Mas ainda mais impressionante é a visita dos repórteres a um dos abrigos construídos pelo Hezbollah no subsolo de uma espécie de shopping center, também erguido pelo grupo terrorista, localizado no bairro xiita de Beirute. Lá, as crianças podem brincar enquanto as ruas ao redor são severamente bombardeadas pelas Forças Armadas israelenses. A sensação de estranhamento é maior para a audiência americana: os jovens não são ocidentalizados. Mas já falam inglês.

Uma menina de 9 anos, mas com feições de alguém muito mais vivida, foi a única a convidar o repórter da ABC para sentar em sua tenda estendida no chão, ao lado do escorregador. Encarando a câmera, disse que suas esperanças estavam todas com o Hezbollah. E voltou a brincar. Insatisfeito, o repórter procurou desvendar ali mesmo os mistérios da atração do fundamentalismo religioso. E voltou a abordá-la. A resposta da pequena cidadã libanesa à questão mais simples da noite – ‘mas por que você torce pelos terroristas do Hezbollah?’ – veio com objetividade desconcertante: “Porque eles não querem nos matar”. Silêncio. E antes que o repórter fizesse novo questionamento ela quase se corrigiu:”Porque eles não querem ME matar”.

A quem interessar possa, a imprensa americana não está cobrindo a invasão do Líbano travestida da vanguarda do neo-iluminismo cristão no atrasado mundo muçulmano. Já não era sem tempo.

sábado, julho 22, 2006

Guarnieri

Morreu hoje, aos 71 anos, em São Paulo, o ator, dramaturgo e letrista Gianfrancesco Guarnieri. Na semana passada encontrei-me em Manhattan com o grande mestre da fotografia de cinema Walter Carvalho, que me contou da emoção do reencontro este ano entre Edu Lobo e Guarnieri, por conta do documentário que minhas queridas Regina Zappa e Beatriz Tillman estão concluindo sobre a obra do genial compositor. Juntos eles criaram uma das mais fantásticas gemas da MPB, Upa Neguinho. O sábado termina mais triste.

Já Para Dentro!

Nunca tive o prazer de conhecer pessoalmente o escritor e grande jornalista Augusto Falcão. Mas mestre Moacir Andrade, meu querido Moa, nos tempos do JB da Avenida Brasil, me presenteou com uma coletânea de contos e causos do dito cujo. Li, adorei, e sempre que posso corro para o Estadão a fim de me deliciar com as novidades de seu Falcão. Hoje ele nos presenteia com uma série de histórias hilárias envolvendo a nata da MPB. A minha favorita eu reproduzo aqui:

Meia Volta


(...) O produtor musical Antonio Carvalho vinha no seu carro em companhia do cantor e compositor Rolando Boldrin. Quando passava pelo portão do Cemitério da Consolação, preceberam que duas velhinhas, bem velhinhas, bem magrinhas, iam saindo de lá. Boldrin, com a cabeça de fora do carro, gritou para elas: "Pra onde pensam que vão? Já pra dentro!". As duas, coitadas, obedeceram.

As outras histórias podem ser lidas aqui, infelizmente apenas para os assinantes do jornal paulistano.

quinta-feira, julho 20, 2006

Confinados nos Porões do Império

Saiu hoje no Valor Econômico a reportagem que fiz com os advogados norte-americanos que defendem, de graça, os cerca de 500 cidadãos confinados na prisão da base militar de Guantánamo, acusados de serem terroristas islâmicos. Além da reportagem principal, o jornal também publicou o depoimeto de um dos acusados, liberado pelos advogados.

Confinados nos Porões do Império
Por Eduardo Graça, para o Valor
21/07/2006


Os inimigos do Império agora são os advogados. E advogados americanos. Há duas semanas, o Departamento de Justiça dos EUA enviou uma petição à Corte Federal do Distrito de Columbia a fim de ter acesso à troca de correspondência entre os prisioneiros da base naval de Guantánamo e seus representantes legais. O ataque ao direito de sigilo é mais um capítulo da batalha travada entre Washington e um grupo de advogados que atazana o governo Bush desde junho de 2004, quando a Suprema Corte determinou que os homens confinados em Guantánamo teriam direito a representação legal. Eles são cidadãos americanos - como exige a legislação antiterrorista aprovada no Capitólio - que aceitaram defender de graça os 460 supostos terroristas oriundos de países como Arábia Saudita, Argélia e Egito, capturados pelos militares ianques. E como os republicanos seguem defendendo o controle da informação como premissa para se vencer a guerra contra o terror, tem cabido justamente a esses advogados a primazia de contar, pelo viés dos derrotados, a história dos quatro anos de existência da prisão especial de Guantánamo.

Zachary Katznelson, 32 anos, é um dos responsáveis pela defesa de 34 presos em Guantánamo. No ano passado, assumiu o posto de conselheiro-geral da Reprieve, organização criada em 1999 para defender réus sem condição financeira. Ele é um nova-iorquino da cepa, que perdeu amigos, há cinco anos, no ataque terrorista ao World Trade Center. "Quase toda minha família ainda vive na cidade e eles me apóiam em cada passo de meu trabalho com os prisioneiros", conta.

Advogados como Katznelson, o veterano Stephen Oleskey, de Boston, que representa seis prisioneiros argelinos capturados na Bósnia, e o legendário Bill Goodman, de Chicago, famoso pelas batalhas pelos direitos civis dos negros e primeiro a pedir habeas-corpus para quase toda a população carcerária de Guantánamo, enxergam no complexo de seis prisões da base naval instalada no extremo oriental de Cuba o símbolo mais óbvio do fracasso da estratégia do governo Bush na "guerra ao terror". "Guantánamo danificou sensivelmente nossa imagem, chegando a comprometer nossa capacidade de ação diplomática mundo afora. E quanto mais os americanos compreendem o que é, de fato, esse centro de detenção singular, mais eles querem que suas portas sejam cerradas. No entanto, o governo Bush tem sido primoroso em demonizar os homens lá confinados, e isso tem um impacto imenso na opinião pública. Por isso, tomamos a tarefa de tentar mostrar a verdade do que acontece em Guantánamo", disse Katznelson ao Valor.

Diretor-legal e fundador da Reprieve, o advogado Clive Stafford Smith escreveu para a "New Statesman" uma das peças mais pungentes sobre o cotidiano no complexo militar de segurança máxima, em que esteve uma dezena de vezes. Smith classifica Guantánamo como uma "zona fora-da-lei dentro dos EUA". Em uma ação que ecoa o gigante Sobral Pinto, Smith apelou à Suprema Corte americana, sem sucesso, para que seus clientes tivessem ao menos os mesmos direitos que os animais protegidos pela legislação ambiental no entorno da base. Ele lembrou que a multa para quem mata um iguana, réptil comum nas imediações da base, é de US$ 10 mil (pouco mais de R$ 20 mil). Entretanto, "se por acaso alguém sentir a necessidade de maltratar um dos prisioneiros de Guantánamo, não haverá nenhuma conseqüência".

Em junho, ele retornou à base para conversar com Mohammed "Yusuf" el Gharani, oriundo do Chad, capturado no Paquistão em 2002, quando tinha 14 anos. Outro prisioneiro havia revelado a Smith, em março, que Gharani tentara se matar duas vezes. Durante três meses, os advogados da Reprieve tentaram convencer o governo americano de que a visita era emergencial. "Os militares finalmente nos liberaram para podermos falar publicamente sobre Gharani, mas estamos proibidos de revelar o conteúdo da conversa de nosso mais jovem cliente com Smith. No entanto, Smith viu com seus próprios olhos os cortes profundos em seus pulsos e braços, uma evidência de que Gharani, em desespero, tentou se matar", conta Katznelson. Ele lembra que "não é nada fácil conversar com os clientes". Há a barreira da língua e, ainda mais grave, "a dificuldade em lhes ganhar a confiança, não apenas por ser americano, mas pelo fato de eles terem sido interrogados por falsos advogados anteriormente, uma técnica utilizada comumente pelos militares". Mês passado, logo depois da visita de Smith, a situação em Guantánamo chegou a seu ponto mais explosivo, quando o governo americano anunciou publicamente o suicídio, dentro de suas celas, de Manei al Habadi, 30, Yasser al Zahrani, 22, e Ali Ahmed, 29.

Na primeira semana de julho, os guardas revelaram que na cela de um dos presos foi encontrado um bilhete enviado por um outro prisioneiro com o título "informação privilegiada entre cliente e advogado". O texto dava dicas de como utilizar as próprias roupas para se enforcar, corroborando a tese defendida pelo governo de que o triplo suicídio teria sido uma "ação drástica de propaganda terrorista". Motivo suficiente para que se tentasse acabar com o privilégio do sigilo nas conversas entre defensores e acusados.

As reações ao triplo suicídio foram imediatas. O especialista David Nicholl, do Queen Elizabeth Hospital, da Inglaterra, declarou que considerava difícil acreditar, a partir do relatório divulgado pelo departamento de Defesa dos EUA, que os três prisioneiros tivessem, de fato, se matado. Diretor da Sociedade de Famílias Cuaitianas dos Presos em Guantánamo, Khaled al-Oudah, cujo filho Fawz está detido na base, sugeriu o que médicos já haviam insinuado: a grande possibilidade de os presos terem morrido por conta de ferimentos e maus-tratos. Em outro flanco, a Reprieve tratou de divulgar informações sobre os prisioneiros que pereceram na base militar. Para tanto, utilizou-se do depoimento de seus nove clientes britânicos liberados por falta de provas nos últimos anos. "Nós mantemos contato com todos eles, que, aliás, sequer foram indiciados", diz Katznelson. De acordo com eles, Habadi, Zahrani e Ahmed participavam de uma greve de fome, juntamente com outros 12 detentos, desde a metade de 2005.

Em novembro, o secretário de Defesa, Donald Rumsfield, dissera que não havia "greve de fome alguma" em Guantánamo. Alguns terroristas, afirmara, decidiram "entrar numa dieta" para chamar a atenção da imprensa. Mais tarde, o governo informou que as greves de fome eram "consistentes com o treinamento da Al Qaeda". Os presos, querendo ou não, seriam alimentados. A Reprieve denunciou então a violação à Declaração da Associação Médica Mundial de Tóquio, de 1975. Esta determina que a alimentação artificial em prisioneiros de guerra é comportamento antiético e pode levar a uma reação ainda mais desesperada dos detentos. Os advogados colheram depoimentos de presos que teriam sido amarrados a uma cadeira enquanto soldados inseriam um tubo com comida goela abaixo, causando uma dor insuportável, levando alguns deles a dizer que aquilo não era mais vida. Shaker Aamer, cliente da Reprieve recentemente liberado de Guantánamo, conta que um dos guardas disse a ele, em janeiro, que "estes rapazes perderam qualquer esperança de viver. Não há mais vida em seus olhos. Não há comida que os mantenha vivos. Eles são fantasmas, e querem morrer. Mesmo com quatro refeições ministradas diariamente, a diarréia não cessa".

Manei al Habadi, saudita, era cliente de outro advogado americano, Jeff Davis. Acusado de pertencer ao Jama'at Al Tablighi, um subgrupo da Al Qaeda com atividade no Quatar e no Egito, sua função seria a de recrutar soldados para ações anti-Ocidente. Outro ex-prisioneiro britânico, Tarek Dargoul, conta que Manei era muito querido, pelo hábito de recitar poesias para os outros prisioneiros. Yasser al Zahrani também era saudita. Quando chegou em Guantánamo, em 2002, mal havia saído da puberdade. Jeito de menino, cabelo comprido (antes de ser cortado pelos militares), tornou-se uma espécie de líder dos presos. Dargoul estranhou o suicídio. "Duvido que ele se mataria. Não era o tipo que se entrega. Ele foi dos que mais sofreu nas mãos dos guardas, mas sempre que voltava para sua cela nos animava com palavras de conforto", contou aos advogados da Reprieve. Zahrani foi um dos muitos presos de Guantánamo que nunca teve o luxo de contar com um defensor legal. Fora acusado de ser, aos 16 anos, um "soldado de destaque do Talibã", responsável pela compra de armas. Três semanas antes de sua morte, sua família recebera a notícia de que ele seria repatriado, por falta de provas.

Ali Ahmed era natural do Iêmen. Acusado de ser um "soldado raso" da Al-Qaeda, teria se mostrado extremamente hostil aos guardas. Para conseguir mais informação sobre ele, a Reprieve recorreu ao interrogatório do prisioneiro argelino Fahmi Ahmed (sem parentesco). Ele conta que tinha 22 anos quando foi preso por soldados paquistaneses, juntamente com Ali. E que os dois viviam em uma espécie de república de estudantes. Fahmi confessa que os dois jovens fumavam haxixe freqüentemente, que compravam de um traficante de drogas, o argelino Mohammed Al Qadir, atitude jamais tolerada entre muçulmanos ortodoxos. Preso poucos dias depois dos dois Ahmed, Qadir conta em outro depoimento que "um guarda de Guantánamo bateu a porta de ferro em minha mão e tive de ser levado ao hospital da base, para atendimento médico".

A tortura é tema central nas conversas com os advogados dos prisioneiros de Guantánamo. Outro advogado americano, Jameel Jafer, da União Americana pelos Direitos Civis (Aclu), centrou seus esforços em exigir a liberação de documentos que pudessem revelar a prática de tortura na base militar. Foi ele o primeiro a encontrar provas textuais de "abusos físicos" praticados contra os presos. Até o momento, graças aos esforços dos advogados da Aclu, mais de 90 mil páginas de documentos sobre a prática de tortura em Guantánamo foram liberadas e podem ser checadas na página da organização na internet. Esses documentos são parte do material utilizado por Stephen Miles, especialista em ética médica, autor do impressionante livro "A Traição do Juramento - Tortura, A Cumplicidade dos Médicos e a Guerra ao Terror", em que denuncia a participação de médicos no processo de tortura de presos em Guantánamo e no Afeganistão, e chega a detalhar os métodos utilizados para se extrair informação dos "prisioneiros da guerra ao terror". De acordo com Miles, mais de cem cidadãos não sobreviveram às torturas. A partir dos documentos revelados pelos advogados da Aclu, ele revela que o "monitoramento médico da tortura a terroristas", uma clara violação à Convenção de Genebra, foi autorizado pelo próprio secretário de Defesa.



"A primeira coisa que pensei quando comecei a ouvir o depoimento de meus clientes foi que, em 1984, quando entrei na faculdade de direito, jamais imaginei que um dia viveria para ver isto acontecer nos EUA. Mas os soldados da base parecem aceitar a realidade de Guantánamo sem pestanejar. E apenas uma minoria dos promotores americanos fica horrorizada. A maioria acha tudo isso normal mesmo", revela Clive Smith. Vem desta sensação de se "estar em outro país" a utilização pelos advogados de um aparato legal típico do combate a ditaduras militares e regimes fascistas. "Enquanto continuamos mantendo em cativeiro cidadãos sem qualquer embasamento legal, ferindo os direitos humanos mais básicos, a autoridade moral da nação é nula. E as chances de se convencer outros regimes a mudarem seus métodos de lidar com seus cidadãos são ainda mais tênues", diz Katznelson.

No dia 29 de junho, dois dias depois de o livro de Miles chegar às livrarias, a Suprema Corte reconheceu que os "tribunais militares" criados pelo governo Bush para julgar alguns prisioneiros em Guantánamo também violam a Convenção de Genebra e o Código de Justiça Militar dos Estados Unidos, atestando sua ilegalidade. Como lembrou Neal Katyal, professor de legislação da faculdade de direito de Georgetown, "existem poucos países em que um forasteiro com primeiro-grau incompleto pode processar o presidente da República. Este é nosso maior legado para o mundo".

Parecia ser uma vitória para os advogados e o prenúncio do fim de Guantánamo. Mas a Casa Branca reagiu rapidamente. A mais alta instância da Justiça americana também decidiu que o presidente não pode, unilateralmente, sobrepor-se a Genebra. Precisa do aval do Congresso. Pois na semana que passou os neoconservadores iniciaram uma investida para que, nas palavras do procurador-geral Alberto Gonzalez, os "legisladores dividam com a administração a responsabilidade pela criação dos mecanismos excepcionais, necessários para o combate ao terror".

Um desses mecanismos, sancionado em dezembro de 2005 pelo presidente Bush, recebeu de Katznelson o codinome de "buraco negro legal". "Trata-se de uma lei que barra novas ações legais dos presos de Guantánamo contra o governo americano. Todos os que não tinham entrado com uma ação até aquela data estão legalmente impedidos de questionar sua detenção. E, por causa da falta de informação oficial, não temos a menor idéia de quantos presos haviam acionado o governo. Ou seja, ficamos sujeitos a essa situação kafkiana", conta.

O argumento central dos advogados contra Guantánamo é que até agora não foi apresentada sequer uma prova de que os homens lá confinados são culpados de algum crime. "No fim da Segunda Guerra Mundial, nós, americanos, comandamos os julgamentos de Nuremberg. Lá, não havia qualquer dúvida de que estávamos lidando com criminosos nazistas de alto escalão. Agora não se pode sequer dizer com certeza que os detentos de Guantánamo são membros da Al Qaeda ou do Talibã, muito menos que cometeram qualquer ação contra outros cidadãos", diz Katznelson. Um exame dos próprios documentos de acusação oferecidos pelo Departamento de Defesa mostra que apenas 8% dos presos de Guantánamo foram capturados por pertencerem à Al Qaeda, e que 55% dos detentos não são sequer acusados de cometer um crime contra os EUA ou seus aliados.

Por isso mesmo, faz-se urgente a necessidade de a sociedade americana entender o significado do labirinto de Guantánamo. No momento em que Katznelson concede entrevista exclusiva ao Valor, as salas de cinema de Nova York estão abarrotadas de gente interessada em ver "Estrada para Guantánamo", de Michael Winterbottom e Mat Whitecross. Na tela, os diretores britânicos expõem de modo arrebatador o sadismo ianque. Para os advogados americanos, o documentário não traz grandes novidades. Debruçados diariamente sobre as histórias dos 460 homens confinados nos porões do Império, eles já compreenderam que, em seus quatro anos de existência, Guantánamo deixou de ser apenas um centro de detenção para suspeitos de atos terroristas. É, ao mesmo tempo, um símbolo terrível da opressão a seres humanos desprovidos de qualquer direito e uma representação de como o mundo percebe os EUA. E de como os americanos vêem a si mesmos.

"Estou Muito Triste Aqui Dentro"
Mohammed el Gharani
21/07/2006


Trabalho desde os 9 anos e meu maior desejo sempre foi ser médico. Mas sempre foi um sonho distante porque, pelas leis sauditas, eu, que nasci na Arábia, mas sou filho de cidadãos do Chad, sempre fui considerado um estrangeiro, sem direito a educação pública. Quando fui preso, estava rezando na mesquita com alguns amigos em Karachi, no Paquistão, onde tinha a chance de estudar inglês e informática. Naquele dia, os soldados paquistaneses cercaram o templo e avisaram, em árabe, que ninguém deveria se mexer ou mostrar resistência. Todos saíram da mesquita com as mãos para o alto.




Eles nos levaram para a prisão de Karachi e as perguntas e a tortura começaram. Tinha apenas um calção para me vestir e era obrigado a me manter na mesma posição de 10 a 16 horas, diariamente. Se me mexesse, era severamente castigado. Um peso foi colocado na minha cabeça e durante 20 dias fui espancado duramente nos interrogatórios. Uma das coisas que mais me humilharam foi quando eles me fizeram beber uma enorme quantidade de liquido e depois amarraram meu pênis. Assim, não era possível que eu urinasse. Então , colocaram uma venda em meus olhos e gritavam nos meus ouvidos: "Diga a verdade!" Isso durou três horas, até que eu me sujasse todo. Os guardas que me torturaram se alternavam no "serviço".

Uma noite, um sargento, que falava árabe, chegou com uma máquina fotográfica e pediu o número de meu telefone. Ele disse que seus colegas queriam me vender para "os americanos" por US$ 5 mil. Ele queria colocar minha foto na internet, revelar o que estava acontecendo e contar tudo para a minha família. Tirou várias fotos. Bem mais tarde, os militares americanos me torturaram e uma das perguntas era sempre sobre o nome do tal sargento paquistanês. Mas quando me disseram que eu iria para os EUA, apesar de soar como uma ameaça, pensei: "Que bom!" Eu só sabia dos americanos pelo que via na televisão, nunca havia conhecido um deles pessoalmente. Pensei que, por causa da democracia, eles fossem pessoas justas e de bem. Minha reação para com os guardas paquistaneses foi: "Mas quando? Quero ir já!"

Os americanos me levaram em novembro de 2001. Tinha 15 anos. As primeiras palavras que aprendi em inglês foram "negro sujo". Não entendia o que aquilo significava, por que eles continuavam me chamando de "nigger". Depois descobri que era uma maneira de me atacar por conta da cor de minha pele. As torturas continuaram quando fui levado pela primeira vez ao Afeganistão, para a prisão de Karachi. Lá, um militar egípcio certa vez queimou meu braço direito lentamente com um cigarro aceso.

Em Guantánamo, as condições não são melhores. Aqui, fui picado duas vezes por aranhas venenosas. Na primeira vez, apesar de todo pus verde que saía de meu braço, não tive qualquer acesso a médicos e fui levado a mais um interrogatório. Lá, desmaiei na cadeira. Minha pior experiência em todos estes anos preso, no entanto, aconteceria aqui em Guantánamo, quando fui transferido do campo em que ficavam os menores de idade para uma outra ala da prisão. Eu estava muito assustado e eles cobriram meus olhos e ouvidos, mas consegui ver uma porta imensa se fechando e eles me sentaram em uma cama. Isso aconteceu no meio da noite e eles me fizeram andar para lá e para cá por pelo menos 45 minutos. Não tinha a mais vaga idéia de onde estava. Cego, bati e bati na porta em busca de alguma resposta, para saber se havia alguém que pudesse me escutar. Nenhuma resposta. Naquela noite, não consegui dormir. Na manhã seguinte, quando perguntei ao guarda por que havia sido transferido, ele me disse que aquela ala fora construída para "os presos que ficarão aqui para sempre". Ele me disse que eu deveria parar de pensar em ir para casa, que eu ficaria aqui minha vida toda. E disse que queria mesmo me manter vivo para que eu sofresse mais. Então ele chamou os outros guardas e eles ficaram zombando de mim, mandando que eu parasse de chorar e que aprendesse a usar lenços.

Já estou aqui nesta cela há um ano. As luzes ficam acesas 24 horas por dia. Ventiladores gigantescos fazem um barulho imenso o tempo todo, para evitar que os presos se comuniquem. Uma vez por semana, posso sair para tomar um banho. Mas às vezes os americanos esquecem e eu fico duas semanas sem sair da cela. Quando perguntei aos guardas por que não tinha recebido nenhuma carta de minha família em todos estes quatro anos, me disseram que se eu colaborasse mais eles me dariam acesso às cartas. Estou muito, muito triste aqui dentro.


Depoimento de Mohammed el Gharani aos advogados da Reprieve, liberado pela organização para reprodução no Valor

segunda-feira, julho 17, 2006

Diretinho da Redação (47)


Amigos,

a coluna da semana já está no DR. A reportagem sobre os advogados norte-americanos que cuidam dos presos de Guantánamo sai no Valor Econômico desta sexta-feira.

TERRORISMO, AQUI E ACOLÁ

Por conta de uma reportagem que preparo aqui em Nova Iorque, conversei esta semana longamente com um dos advogados norte-americanos que defendem os presos encarcerados na base militar de Guantánamo.

Havia muito o que falar e o tempo, ainda que generoso, parecia conspirar contra nós. Enquanto conversávamos, a Suprema Corte decidia, em Washington, contra o governo Bush, que os confinados naquele pedaço nefasto do Caribe estavam sim, afinal de contas, sob a proteção da Convenção de Genebra. E, em São Paulo, o PCC levava o terror à maior cidade da América do Sul, comandando das cadeias novos ataques a uma população tão acuada quanto acéfala.

Depois de conversarmos longamente sobre os abusos cometidos contra seus clientes, disse a meu entrevistado, um campeão da denúncia de abusos cometidos pelo Estado contra cidadãos americanos e estrangeiros, que era difícil não pensar também nos presos brasileiros, tratados de forma sub-humana nas cadeias e presídios do país. Ele retrucou que “o cerne do problema não está do lado de dentro das celas.

É preciso que as pessoas, aqui e no Brasil, entendam de uma vez por todas que a maioria dos cidadãos que vão parar nas penitenciárias, nas cadeias, um dia vão sair de lá, vão voltar a viver no meio delas, do lado de fora. Não tem jeito. Não há Estado que sobreviva – ética, mas também economicamente– sem um planejamento inteligente visando a recuperação destas pessoas. Não há como mantê-las lá para sempre e, ao mesmo tempo, é preciso evitar que tenhamos de gastar ainda mais, seja prendendo-as novamente, ou, ainda mais grave, com a perda de novas vidas, de novas vítimas da violência”.

Dependendo de quem a utiliza, esta pode ser, obviamente, uma matemática perversa. Entrevista já terminada, lembro ao advogado que neste exato momento cresce o desejo, no Brasil, da implantação da pena de morte como solução – econômica e segura – a fim de exterminar monstros sociais como o PCC. Ele, que trabalhou durante muitos anos como representante legal, e sem honorários, de prisioneiros que estavam no corredor da morte e não tinham como pagar sua defesa, tem uma opinião clara sobre o tema: “A pena de morte não faz com que nenhuma comunidade fique mais segura ou menos violenta. Aqui nos EUA, 80% das execuções acontecem nos estados sulistas, aonde o número de casos de crimes violentos é o mais alto do país”.

Há seis anos, a então procuradora-geral Janet Reno revelou publicamente que passou sua vida adulta buscando um único estudo que provasse que a pena de morte fosse um inibidor do aumento dos crimes no país. “Eu jamais o encontrei”, disse.

Lembramos então que em uma recente pesquisa realizada com os mais importantes especialistas em violência urbana nos EUA, 84% dos entrevistados rejeitaram a noção de que a pena de morte diminui, em qualquer instância, a ocorrência de crimes violentos. Na maioria dos casos, acontece justamente o oposto.

Terminamos a longa conversa talvez mais desanimados do que quando a começamos, mas com o sincero desejo de que a sociedade brasileira, tão ciosa de suas qualidades morais e éticas, busque outra saída – quem sabe até mesmo uma solução - para a crise aparentemente insolúvel que a cerca.

terça-feira, julho 11, 2006

Carlos Fuentes

O mundo hispânico não veio aos Estados Unidos. Os Estados Unidos é que vieram até onde o mundo hispânico estava. Quiçá é um ato de justiça poética este retorno do mundo hispânico que hoje aqui vivenciamos.