sábado, novembro 10, 2007

Entrevista/JAMES MOLLISON



A Folha de S.Paulo publicou hoje, na capa do suplemento Mais!, a entrevista que fiz com o fotógrafo James Mollison, autor da genial biografia The Memory of Pablo Escobar. O texto segue abaixo, as fotos, apenas uma pequena amostra do que o livro traz, são de Mollison.

A verdade das mentiras


AUTOR DE "A MEMÓRIA DE PABLO ESCOBAR", QUE TRAZ FOTOS E DEPOIMENTOS INÉDITOS, JAMES MOLLISON DIZ QUE, AINDA HOJE, NEM A JUSTIÇA DA COLÔMBIA CONSEGUE SEPARAR O QUE É REALIDADE E O QUE É LENDA EM TORNO DA VIDA DO TRAFICANTE, MORTO EM 1993


EDUARDO GRAÇA

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE NOVA YORK


Fotógrafo britânico nascido no Quênia, James Mollison, 34, ficou conhecido do grande público pelo lançamento, há três anos, de "James and Other Apes" [James e Outros Símios], uma reunião de retratos comoventes de chimpanzés, gorilas e orangotangos que rendeu uma exposição no Museu de História Natural de Londres, além de um festejado livro de mesmo nome [ed. Chris Boot, 120 págs., US$ 19,95, R$ 35].
Catorze anos depois da morte de Pablo Escobar, ele agora se debruça sobre a trajetória do capo do Cartel de Medellín em "The Memory of Pablo Escobar" [A Memória de Pablo Escobar, ed. Chris Boot, 368 págs., US$ 60, R$ 104], que apresenta pela primeira vez fotografias da intimidade do traficante colombiano.

Graças a uma coincidência, Mollison, que havia viajado à Colômbia para realizar um ensaio fotográfico sobre a narcoarquitetura (as mansões de gosto duvidoso financiadas pelo dinheiro do tráfico de drogas), descobriu no edifício Monaco, principal casa de Escobar, bombardeada pelo Cartel de Cali e hoje sede da Procuradoria-Geral de Medellín, uma bolsa repleta de imagens, uma compilação dos arquivos da polícia que não batiam com a imagem de extravagância que se tinha de Escobar.
"Havia algo de patético e esquálido. Claro, as imagens de armas, brinquedos eróticos, esconderijos e telefones casavam bem com aquela figura presente no imaginário popular, o clichê do clichê do Scarface de Al Pacino. Mas havia também os chinelos de Mickey Mouse, as fotos de família, a de toda a gangue jogando futebol ou bebendo e dançando na discoteca da prisão por ele construída -tudo parecia tão comum", conta Mollison, em entrevista dada por e-mail de sua casa em Veneza, na Itália.

Às imagens sucederam as indagações: como aquele homem conseguira o direito de construir sua própria prisão? Onde estavam aquelas mansões luxuosas de que havia ouvido tanto falar? Quem, de fato, era Pablo Escobar? Sentado no antigo quarto de dormir do barão da coca, Mollison conta que teve a certeza de que havia uma discrepância entre o mito do gângster, o "mais perigoso criminoso que o mundo jamais viu", e a realidade. Escobar lhe pareceu mais complexo e menos glamouroso do que imaginara anteriormente. Para tentar "juntar os pedacinhos de sua história sugerida por aquelas fotografias", Mollison entrevistou, ao lado do jornalista Rainbow Nelson, britânico radicado na Colômbia, mais de cem pessoas em dois anos. Colecionou imagens e depoimentos que tornam "A Memória de Pablo Escobar" um estudo contundente sobre a violência urbana, a debilidade do Estado e as contradições da sociedade civil latino-americana.

FOLHA
- Escobar chegou a encabeçar a lista de procurados do FBI [polícia federal dos EUA], viveu recluso durante anos e ainda assim seu livro contém uma série riquíssima de imagens. Quão difícil foi convencer pessoas próximas a ele -família, amigos, amantes- a ajudá-lo na tarefa de documentar a trajetória do traficante?
JAMES MOLLISON - Logo no início do projeto tomei a decisão de que queria abraçar todos os lados da história: amigos, família, a polícia, comparsas, as vítimas. Mas foi extremante complicado encontrar pessoas que pudessem nos contar sua história, até porque boa parte dos que conviveram com ele havia sido assassinada pela polícia ou por seus inimigos. De um modo geral, todos os que combateram Escobar ficaram mais do que animados em dividir suas histórias comigo. Já amigos e família tiveram de ser convencidos de que este seria um livro que abordaria outros ângulos além do clichê do "mais rico e violento gângster de todos os tempos", como acontecera antes. Foi importantíssimo falar diretamente com os envolvidos, dado o grau de desinformação que existe na Colômbia sobre Escobar, incluindo a Justiça. Você simplesmente não pode confiar no que lê nos documentos do sistema judiciário ou nos jornais. Decidir o que é de fato verdadeiro é quase impossível. Mesmo agora, com o processo de pacificação do país, é arriscado acreditar nas informações que são divulgadas porque há muita gente interessada em que a verdade nunca seja de fato revelada. Um dos entrevistados me disse que a verdade ainda é um produto muito perigoso na Colômbia.

FOLHA
- Algumas das imagens mostram os anos em que Escobar se envolveu com a política...

MOLLISON - Esse é o único momento de sua vida, entre 1981 e 82, em que há abundância de imagens. Escobar era um mestre em apagar as pistas de sua passagem por qualquer lugar e, de maneira metódica, procurou destruir todos os registros de sua vida. Mas, honestamente, o livro é uma prova de que é impossível fazer uma contabilidade visual da vida de Pablo Escobar de forma compreensiva. Por isso, considero o que reunimos uma coleção fascinante de fragmentos de sua vida.

FOLHA
- É verdade que Escobar planejou se candidatar à Presidência da Colômbia?

MOLLISON - Quem nos contou sobre a candidatura foi Jamie, primo de Escobar. Ele adorava poder, e acho que o plano de se tornar presidente da República era mais uma fantasia -um exercício sobre o que o poder o traria de vantagens pessoais- do que um objetivo concreto.

FOLHA - Quais são as principais revelações sobre ele apresentadas no livro? MOLLISON - Diria que o livro preenche certas lacunas de sua trajetória. Um exemplo foi nosso encontro com o rapaz que dirigiu a motocicleta no assassinato do então Ministro da Justiça, Lara Bonilla, executado em 1984, deflagrando um dos mais violentos capítulos da história colombiana. Ele esmiuçou o planejamento do atentado, inclusive revelando detalhes mundanos, como a preparação da moto, que teria de ter um botão para que a luz do farol desligasse com apenas um clique. Outra revelação, feita por Popeye (Jairo Velásquez, chefe de segurança de Escobar e um dos poucos sobreviventes do Cartel de Medellín), esclareceu finalmente como se deu a destruição da sede da polícia secreta colombiana, o DAS (Departamento Administrativo de Segurança), em 1989, causando a morte de 89 pessoas. Ela foi executada de forma ousada, com um ônibus contendo oito toneladas de explosivos, o volante atado e um tijolo colocado no acelerador, sendo jogado contra o prédio.

FOLHA
- Durante sua pesquisa, chegou a perceber a importância do Brasil para os cartéis colombianos, não apenas como mais um mercado consumidor mas também como rota de saída da droga para o hemisfério Norte?

MOLLISON - O livro é mais centrado nos primeiros anos do tráfico de cocaína, incluindo o período em que a droga passava por Norman's Key, a ilha das Bahamas que Carlos Lehder (o visionário do cartel que adorava John Lennon) comprou para ser a parada estratégica do tráfico, ao lado de Miami. Também é importante mencionar que, embora rotulado como um grande "barão da droga", Escobar foi de fato um gângster exclusivamente interessado em se tornar o homem mais poderoso de Medellín. E Medellín estava no centro da explosão da cocaína na virada dos anos 1980. Mas ele não era um estrategista em busca de novas rotas, e sim alguém interessado em oferecer proteção, capital e segurança para aqueles que faziam o tráfico.

FOLHA
- Em 7 de agosto, foi preso em São Paulo o megatraficante colombiano Juan Carlos Abadía. Ele não é um personagem do livro, mas comprova o fôlego do tráfico na Colômbia ainda hoje. Algo mudou de fato desde a morte de Escobar?
MOLLISON - Diria que a morte de Escobar não foi sentida no tráfico de cocaína, pois o preço da droga caiu ainda mais desde então. Um dos entrevistados disse que nada mudou de fato, a não ser que anteriormente os corpos apareciam nas ruas e, hoje, são enterrados. Creio que a indústria mudou no sentido de que Escobar fazia parte da primeira geração de traficantes, na virada dos anos 70 para os 80, aquela que acreditava ter descoberto "o petróleo branco", que seria legalizado mais dia, menos dia. Ele mantinha um zoológico, a maior atração turística da região, e colecionava carros antigos. Hoje os barões da droga colombianos dirigem Renault Twingos para não chamar a atenção. Escobar achava que ele era como a família Kennedy, que fizera fortuna durante os anos da Lei Seca, nos EUA.

FOLHA - O sr. acredita que a tragédia do narcotráfico na América Latina pode ter fim?
MOLLISON
- A criminalização da cocaína está no núcleo do problema. Em uma de minhas temporadas na Colômbia, durante o trabalho de pesquisa, gastei US$ 10 mil com despesas de aluguel de apartamento, motorista, tradutor e alimentação. Com aquele dinheiro, compraria dez quilos de cocaína em Medellín. Se eu os carregasse comigo de volta à Itália e vendesse no mercado europeu, receberia 1 milhão. Com tal margem de lucro, sempre haverá gente disposta a entrar no tráfico.
O mesmo digo para a violência: nos primeiros anos de domínio de Escobar, o cartel obtinha US$ 26 milhões por vôo! E até hoje é usado para financiar os paramilitares e as Farc. Assim, é quase impossível acabar com a produção. A única possibilidade seria reduzir a demanda, e não há qualquer sinal de que isso esteja ocorrendo. Os consumidores de cocaína no Ocidente não estão muito preocupados com o fato de que o consumo está ligado à violência na América Latina. Muitos do consumidores são profissionais liberais que não acreditam estarem prejudicando suas vidas ao cheirar cocaína.

FOLHA
- O que nos leva à questão da legalização...

MOLLISON
- Acontece que essa não é uma opção realista. Você jamais conseguirá convencer a maioria conservadora nos EUA ou a classe média britânica de que a legalização da cocaína seria um preço ideológico justo a pagar pelos milhares de mortos na América do Sul.
Veja bem, nenhuma das terríveis ações praticadas por Escobar pode ser justificada pelo fato de que acreditava que a cocaína seria liberada a qualquer momento; mas, se isso tivesse ocorrido, o curso de eventos seria certamente outro.

FOLHA
- Virginia Vallejo, repórter que se tornou amante de Escobar e foi entrevistada para o seu livro, lançou neste ano "Amando a Pablo, Odiando a Escobar", em que revela os laços de amizade entre o traficante e o atual presidente da Colômbia, Álvaro Uribe -que negou ter tido relação com os líderes do Cartel de Medellín. O sr. se deparou com algo semelhante em sua investigação?

MOLLISON
- Não encontrei nada específico. Uribe foi, por pouco tempo, prefeito de Medellín e logo em seguida governador de Antioquia, cuja capital é Medellín. Ora, é quase certo que algum contato ocorreu. Aparentemente Escobar esteve no enterro do pai de Uribe.


FOLHA
- Qual a principal diferença entre a Colômbia de Escobar e a de Uribe?
MOLLISON - Houve um momento -da metade dos anos 80 à metade dos 90- em que Escobar estava de fato em guerra aberta contra o Estado, e toda a população colombiana foi afetada de modo brutal. Não tenho dúvidas de que para o público em geral e para os turistas o cenário é melhor hoje. Mas o problema das drogas não mudou muito, e a violência continua.


FOLHA - Em sua pesquisa, o sr. ouviu de pessoas próximas a Escobar que ele era assertivo quando falava da origem do boom do narcotráfico na Colômbia e culpava os Peace Corps, uma agência federal do governo norte-americano, pela popularização da droga...
MOLLISON
- Não se tratou de uma decisão deliberada, mas a lógica era a de que quanto mais voluntários chegavam à Colômbia e "descobriam" a cocaína, a nova droga, mais o tráfico ganhava poder, pois consideravam-na excitante e a levavam para os EUA, criando de fato a demanda.


FOLHA - O sr. diria que personagens como Escobar e Fernandinho Beira-Mar, no Brasil, são frutos das falhas das sociedades democráticas estabelecidas na América Latina durante a década de 80?
MOLLISON
- Diria que Estados debilitados, enfraquecidos, oferecem mais facilidades para o trabalho de criminosos.


FOLHA
- Livro editado, o sr. conseguiu responder a sua pergunta central? Quem foi, afinal, Pablo Escobar?

MOLLISON - Não. Não posso responder de fato a essa pergunta. Ele foi um homem diferente para cada pessoa que passou por sua vida.
Para sua família, era um homem repleto de amor, idolatrado como um deus vivo, a ser obedecido o tempo todo. Seus parceiros no Cartel de Medellín o temiam. As famílias de suas vítimas o odiavam intensamente. Ele queria ser o rei de Medellín. E o que mais me assombrou foi sua capacidade de se indignar com qualquer ataque a seus amigos e a sua família ao mesmo tempo em que cultivava um descaso ímpar pela vida das outras pessoas.

quinta-feira, novembro 08, 2007

Meu Nome Não É Selton

Não, eu ainda não vi. Mas quem viu já me disse que é para lá de interessante. Semana passada me chegou aos olhos este vídeo hilário de Selton Mello, o protagonista de Meu Nome Não é Johnny, dirigido por Mauro Lima e produzido por Mariza Leão, nos bastidores da filmagem, prestando uma homenagem a...Jim Carrey! Vale a espiada. Quem tiver a chance de ver o filme me conta mais?
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