quinta-feira, dezembro 27, 2007

Entrevista/RICKY GERVAIS

A Folha de S.Paulo publicou hoje, na capa da Ilustrada, minha conversa com o comediante Ricky Gervais, uma das razões para se assistir tevê aqui nos EUA. Aí vai:

O bobo da corte

O comediante Ricky Gervais, criador da britânica "The Office", conversa com a Folha sobre sua estréia em Hollywood com "The Ghost Town" e diz "não ter prazer em ver seu rosto gordo na tela'

Ray Burmiston
O ator, cujo espetáculo novo, que começa em julho, já está esgotado em NY e LA


EDUARDO GRAÇA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE NOVA YORK

Ao deparar-se com o comediante britânico Ricky Gervais, 46, no entra-e-sai de um elevador cenográfico, a primeira reação da reportagem é de surpresa. Ele parece menos redondo do que na TV, na qual criou dois personagens únicos, David Brent, da versão britânica de "The Office", e o acre-doce Andy Millman, de "Extras", indicada ao Globo de Ouro. Gervais é hoje um midas do humor britânico prestes a estrear em Hollywood. Além das duas séries, que escreve e dirige ao lado de Stephen Merchant, ele estrelou três bem-sucedidas turnês de stand-up comedy. "The Ricky Gervais Show", que o ator comanda ao lado de Merchant e Karl Pilkington, foi o podcast mais baixado em 2007, segundo o "Guiness", enquanto sua série de livros "Flanimals" alcançou a condição de best-seller. No Youtube, dá para ver Gervais em diversas facetas. Basta fazer a busca por seu nome sozinho ou ao lado de Stephen Merchant, também um excelente provocador de risadas. "Não tenho prazer algum em ver meu rosto gordo na tela. Também não me interessa ficar podre de rico e muito menos famoso. O que quero é criatividade, criatividade e mais criatividade. Esta é a recompensa diária que busco o tempo todo", disse Gervais à Folha, no estúdio onde roda "The Ghost Town", o primeiro filme que protagoniza em Hollywood.

No longa, com Greg Kinnear e Téa Leone no elenco (e que deve estrear no Brasil em setembro), Gervais vive o dentista Bertram Pincus, que ressuscita sete minutos depois de ser declarado morto e passa a ver e ouvir fantasmas. O diretor David Koepp, que assina o roteiro do novo "Indiana Jones", revelou que tinha em mente Jim Carrey para o papel principal do filme. A aposta em Gervais, que estréia na direção em 2008, é o reflexo de seu imenso poder de fogo na indústria cultural americana. Seu novo espetáculo cômico, "The Out of England Tour", tem ingressos esgotados em Nova York e em Los Angeles, apesar de as apresentações só acontecerem em julho de 2008. Nem Chris Rock poupa elogios sobre o ator britânico. "Gervais é o comediante mais engraçado do planeta", disse.

"Meu senso de humor é uma arma", diz Gervais

Ator britânico fala sobre "This Side of the Truth", primeiro filme que irá dirigir, e que começa a ser rodado em 2008

Comediante diz que não se vê como um ator, mas um escritor acima de tudo; ele fala sobre a dificuldade de apenas interpretar

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE NOVA YORK

Exibido amanhã no Reino Unido, o último episódio de "Extras" trouxe um Ricky Gervais ácido, esculhambando as celebridades em uma dura -mas não menos hilariante- análise da televisão atual. "De certa forma, encaro meu senso de humor como uma espécie de arma. Minha comédia nasce de meu desejo de desabafar, de subverter o próprio meio em que circulo", disse Gervais à Folha, em uma conversa que contou com outros jornalistas, no estúdio onde filma "Ghost Town". Leia a seguir os principais trechos:

Comando
Não ter o controle do que eu vou falar, não ter escrito o roteiro do filme, não estar dirigindo, é duro pacas! É barra-pesada para mim não estar no comando, não poder dizer às pessoas o que fazer.

Futuro
Não me vejo como um ator, desses que a gente contrata para fazer um filme. É muito, muito difícil, eu embarcar em um projeto que não seja o meu, sabe? Quando penso em mim profissionalmente, me vejo como um escritor acima de tudo. Um roteirista, um escritor, um cara da caneta e do papel, sabe? Depois vem o diretor e o ator, nessa ordem.

"The Office"
Gosto muito da versão norte-americana de "The Office". Steve Carrell é sensacional e o personagem é dele, uma outra coisa. "The Office" era um projeto caseiro, mínimo. Nossa pretensão era a de levar para a TV algo que não havia sido tentado antes na Inglaterra. Até resistimos ao fato de sermos aprovados por um canal grande [a BBC], porque temíamos não ter a liberdade para fazer tudo o que pretendíamos. E, ironicamente, ele se transformou neste imenso produto.

Estréia na direção
No ano que vem dirijo meu primeiro filme, "This Side of the Truth". Vai ser passado em uma destas Springfields da vida. Nesta cidade, por uma questão genética, ninguém mente, é um mundo de honestidade completa e absoluta. Mas meu personagem descobre, para horror próprio, que, por conta de uma mutação, ele agora é capaz de mentir.
E isso o transforma em um super-homem! Ele se sente invencível e claro, passa por poucas e boas até aprender algumas lições de vida.

Processo de criação
Com "The Office" e "Extras", o processo de criação foi bem parecido. Eu e Stephen (Merchant) nos reunimos e fomos guardando tudo num gravador. Depois ouvimos de novo, fizemos anotações. Foi assim também quando fomos convidados para escrever um episódio de "Os Simpsons" (em que seu personagem faz uma famosa serenata para Marge).

Estrela de Hollywood
Fala-se muito nesse mito de fazer o protagonista de um filme. Mas aqui eu não faço um típico mocinho de filme de ação ou tento parecer mais novo do que sou. Estou apenas fazendo comédia e encarnando um idiota. O que, modéstia à parte, eu faço bem pacas, né?
(EDUARDO GRAÇA)

quinta-feira, dezembro 06, 2007

Entrevista/RENÉE ZELLWEGER


A Contigo! desta semana traz minha entrevista com a atriz Renée Zellweger. Apesar de seu sotaque texano, ela foi uma agradável supresa para o entrevistador que, confesso, tinha lá uma implicância com a dona Bridget Jones. Aqui vai a conversa completa:

Doce Como Mel

Eduardo Graça, de Nova Iorque, para a Contigo!

Renée Zellweger adora fazer o entrevistador rir. E, com um timing ímpar, que só os grandes comediantes têm, parece sorver com gosto cada gargalhada arrancada sem força entre uma resposta e outra. A conversa exclusiva com a Contigo! se deu na suíte de um hotel luxuoso de Manhattan durante a maratona de divulgação do filme Bee Movie: A História de uma Abelha, que chega aos cinemas brasileiros no dia 7.

Na animação idealizada pelo comediante Jerry Seinfeld ela dá voz a uma florista que acaba se tornando a amiga número um da abelha tinhosa vivida por Seinfeld. Sua próxima aparição de corpo inteiro na tela grande será como uma jornalista na comédia romântica Leatherheads, o novo filme de George Clooney, com estréia prevista para abril. O galã criou o papel especialmente para a amiga (e, dizem as boas línguas, ex-namorada), a quem só trata carinhosamente pelo apelido ‘jovem Ginger Rogers’, em uma alusão à parceira imortal de Fred Astaire.

Vencedora do Oscar de melhor atriz por Cold Mountain em 2003, Renée se casou dois anos depois com o cantor de música country Kenny Chesney em uma cerimônia realizada nas areias de uma praia nas Ilhas Virgens. O casamento foi anulado meses depois da festança e os boatos, nunca confirmados, davam conta de que Chesney era homossexual. Animada, a loirinha namorou Jim Carrey, o líder do White Stripes, Jack White, e foi vista no último verão acompanhada para cima e para baixo por ninguém menos do que sir Paul McCartney. Com o coração livre, leve e solto, a estrela de Chicago e O Diário de Bridget Jones revela sua paixão pelo Brasil, conta que se mudou de Los Angeles para não ‘alimentar os peixes insaciáveis’ da indústria da celebridades e diz que a gordinha mais amada de Hollywood - Bridget Jones! - pode um dia voltar para mais uma história. É aguardar para ver.



Você é dona de uma das vozes mais reconhecíveis de Hollywood. E pela segunda vez a empresta a uma animação. Quando percebeu que sua voz era assim tão especial?
Adoro saber disso, mas odeio dizer que não tenho a menor consciência de que tenho uma voz tão singular assim. Ju-ro! (pronuncia a exclamação com a voz bem fina e cai na gargalhada). Mas sabe que já ouvi várias vezes as pessoas dizendo, nas mais diversas situações: ouvi uma voz e sabia que era você mesmo sem vê-la! Agora, quanto a fazer um desenho animado, sabe que nunca me senti tão exposta no cinema?

Exposta? Mas seu corpo não aparece na tela!

Exatamente! E me senti mais vulnerável do que nunca. Você simplesmente não pode usar ferramentas amigas, como os figurinos, ou um corte de cabelo diferente que te protegem, te dão a idéia de que não é você se mostrando inteira na tela, é outra pessoa. Com Bee Movie era eu e o microfone, ali, sozinha, pronta para me sentir uma total idiota (risos). E fazia lá meus movimentos, se ela estava na cozinha, eu imaginava uma cozinha, se jogando tênis, jogava meu corpo para lá e para cá, mas, no fim, não prestava atenção de fato na voz. Diria que atuar em uma animação tem mais a ver com leitura do que com atuação. Você precisa ler de uma forma convincente e passar a verdade do personagem através desta leitura.

Você acabou de filmar Miss Potter, um outro filme voltado para crianças. Você não tem filhos, mas consegue perceber alguma conexão especial com crianças?

Você não tem idéia, sou a tia Renée, a dindinha Renée (risos)! Tenho meus afilhados, meus sobrinhos. E sempre converso com eles sobre os filmes. Meus afilhados Huckleberry e Louella vivem me perguntando: você já terminou o filme, dindinhaa? E já prometi que eles serão meus acompanhantes na estréia do filme (o que de fato aconteceu dias depois, com as duas crianças vestidas de abelhas atravessando o tapete vermelho com Renée no cinema de Manhattan).

E você acredita no tal do relógio biológico? Você acabou de fazer 38 anos...

Não mesmo. E não é que não haja espaço para maternidade em minha vida, não é isso! Se a vida naturalmente me guiar para este caminho, vou adorar. Mas seria como se eu dissesse a você que quero dirigir um filme apenas porque quero ser uma diretora, sem uma real motivação para tanto, sabe? Eu não quero apenas ser uma mãe e pronto. Aliás, de certa forma, já sou uma mãe!

Como assim?
Tenho um cão que amo de paixão por 15 anos e cada decisão sobre minha vida envolve o bem-estar dele (risos). Sério, o que quero dizer é que reconheço ter este sentimento de cuidado, de amor incondicional, que poderia em algum momento de minha vida ser sim realizado. Mas não acredito em pré-requisitos para ser feliz. E ficar aqui sentada neste hotel dizendo – ah, queria tanto ser mãe - me parece um pouco ridículo, quando minha vida é tão rica do jeito que ela é agora.

Há alguma chance de você nos presentear com mais uma Bridget Jones?
Esta é uma ótima pergunta! Teria de pensar muito, porque é um personagem que mexe muito com meu metabolismo, tenho de mudar a alimentação e o meu corpo de uma forma muito radical. É como se você vivesse, durante um ano, em outro corpo que não o seu. Mas sou tão apaixonada pelo personagem que, ai, meu Deus, acho que faria sim! (risos). Mas teria de contar com o roteiro certo, da Helen Fielding, que é a essência da Bridget, e a direção certa, assim como os filmes que Matt Damon faz com o agente Jason Bourne. Aí, acho que não resistiria.

Você estava me contando que quase não pára em sua casa, que vive zanzando de hotel para hotel. Existe alguma coisa de sua vida de menina no Texas, antes da explosão de Jerry Maguire, da qual você sente falta?
Sim, havia mais serenidade em minha vida naquele tempo. Tinha menos responsabilidades. Se fosse mais uma garota texana, poderia dançar a noite toda num show do Billy Joel e rir até cair de chorar, como fiz há pouco tempo, sem me sentir à venda. Sabia que estava sendo fotografada, sei que serei fotografada sempre enquanto estiver atuando em filmes, mas ainda odeio, ainda abomino, o fato de ser coisificada, de estar aparentemente à venda, sabe? À minha volta, tudo parece estar à venda – o que eu bebo, o que eu como, minhas expressões faciais, com quem eu falo, o que parece ser certa situação. Deus me livre de os papparazzi escutarem um dia o que eu realmente falo em minhas conversas!(risos).

Seria ainda mais complicado se você morasse em Los Angeles...
Sim, por isso me mudei de lá e vivo em Nova Iorque e em minha fazendinha em Long Island (a leste de Manhattan). Não queria mais alimentar os peixes famintos por novidades, sabe? (risos)

Você deveria então mudar-se para o Brasil...

Que boa idéia! (risos). Nunca fui ao país, mas tenho muita vontade de passar um tempo em seu país. Sabe que eu tenho uma amiga brasileira, Adriana Fadul? Oi, Adriana! (risos). Ela fazia escola de enfermagem no Rio e veio para o Texas para fazer um curso intensivo de inglês e ficamos muito próximas. Foi um verão sensacional, a gente dividiu um quarto e eu aprendi até umas palavrinhas em português.

Quais?

Por favor me desculpe, mas Adriana não está aqui no momento, por favor ligue mais tarde. (risos). Só isso, mas ajudava! (risos). Perdi o contato com ela, sei que Adriana se formou, deve hoje ser uma genial enfermeira, mas nunca mais nos falamos. Eu deveria tentar encontrá-la! Quem sabe vocês não conseguem encontrá-la, para mim, hein, povo da Contigo!? (risos).

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Arte Latino-Americana no MoMA


Saiu hoje na Folha de S.Paulo minha matéria sobre a exposição New Perspectives in Latin American Art, que fica no MoMA até fevereiro e apresenta uma compilação do acervo latino-americano do museu, considerado por especialistas o mais completo do gênero. A exposição reflete o bom momento que a arte contemporânea latino-americana vive aqui nos EUA. A imagem acima é uma das telas mais icônicas da exposição, do uruguaio Joaquín Torres-Gracia, de 1938.

Arte latina vive fase excepcional em Nova York
Um dos maiores museus do mundo, MoMa apresenta 200 obras de artistas contemporâneos da América Latina. Exposição, elogiada pela crítica, traz peças dos brasileiros Hélio Oiticica, Lygia Pape, Mira Schendel, Alfredo Volpi e Vik Muniz

EDUARDO GRAÇA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE NOVA YORK

Pela primeira vez em 40 anos, o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) apresenta uma retrospectiva exclusivamente dedicada a obras de arte latino-americana adquiridas pela instituição. Reunindo 200 peças -entre pinturas, esculturas, desenhos, gravuras, fotografias e instalações- incorporadas ao acervo do museu na última década (a partir de 1996), "New Perspectives in Latin American Art" ocupa dois andares do prédio da rua 53 até fevereiro do ano que vem e é o exemplo mais gritante do excepcional momento em que vive, nos Estados Unidos, a arte moderna e contemporânea produzida na região. Até o próximo dia 8, a Grey Art Gallery da Universidade de Nova York (NYU) está ocupada pelos destaques da coleção de arte latino-americana da venezuelana Patrícia Phelps de Cisneros (mulher de Gustavo Cisneros, uma das maiores fortunas do continente). E a primeira feira dedicada exclusivamente à arte contemporânea latino-americana em Nova York, a Pinta, ocupou por cinco dias de novembro o Metropolitan Pavillion, na rua 18.

Um dos conselheiros informais de Cisneros é justamente o idealizador de "New Perspectives", Luiz Pérez-Oramas, que no ano passado se tornou o primeiro curador de arte latino-americana do MoMA, o único cargo do museu definido por limites geográficos, e não por vertente artística. "Há algo singular em relação à arte moderna na América Latina. Os latino-americanos jamais negaram a concepção do objeto e se afastaram da idéia de desmaterialização da arte, tão intensa na realidade anglo-saxônica. A produção de objetos como conceitos sem dúvida fascina o espectador norte-americano", diz.

Brasil
Uma das salas mais impressionantes da mostra é a que dispõe, frente a frente, a "Caixa-Bólido 12 Arqueológica", de Hélio Oiticica, e o "Livro da Criação", de Lygia Pape. Entre os destaques brasileiros, estão obras de Mira Schendel (que em 2009 será tema da exposição, também no MoMA, "Leon Ferrari & Mira Schendel: Written Paintings/Objects of Silence"), Lygia Clark, Alfredo Volpi, Waltercio Caldas e Cildo Meirelles. Os dois últimos são exceções em uma mostra que excluiu a arte mais política dos anos de chumbo.

Aquisições
O período em que o MoMA menos adquiriu obras de artistas da América Latina foram as décadas de 70 e 80, em que as ditaduras militares sufocaram a região. "Ironicamente, trata-se da época em que as populações desses países migraram para os Estados Unidos de forma mais intensa. Ouso dizer que nenhuma instituição cultural norte-americana prestou atenção à arte da América espanhola e portuguesa nesse período. Queremos começar a mudar esse quadro", diz o venezuelano Pérez-Oramas.

Roberta Smith, severa crítica de arte do "The New York Times", teceu loas à mostra, que considerou riquíssima e com excelente seleção de obras (incluindo trabalhos do uruguaio Joaquín Torres-García, dos argentinos Xul Solar e Leon Ferrari e dos venezuelanos Rafael Soto, Gerd Leufert e Gego), indo além da exposição da NYU ao apresentar exemplos de produção mais recente da região. Dos artistas brasileiros pós-80 destacam-se em "New Perspectives" José Damasceno, Leonilson, Iran do Espírito Santo, Anna Maria Maiolino, Ernesto Neto e Vik Muniz, que comparece com nove obras, entre elas a imensa fotografia "Narcissus, after Caravaggio", de 2005, parte da série "Pictures of Junk", instalada na sala de entrada do segundo andar do museu. "A escolha dessa obra do Vik mostra que estamos, aqui, olhando para nós mesmos. A exposição é um grande espelho, uma conversa sobre o que se faz nos EUA e na América Latina neste exato momento. Ela pretende ajudar o espectador a entender a arte contemporânea como um todo, a partir de sua manifestação latino-americana", diz o curador.

O acervo de arte latino-americana do MoMA -com 3.591 obras (600 adquiridas na última década)- é considerado por especialistas o mais compreensivo dedicado à região no planeta.

domingo, dezembro 02, 2007

A Neve Chegou

Oficialmente o inverno somente começa no dia 21 de dezembro. Mas o frio já é intenso e hoje nevou pela primeira vez no segundo semestre do ano. As fotos são do Will.

A sala. Lá fora, neva...

A varanda, branquinha...
Bicicleta e jardim agora, só no ano que vem

O cantinho marroquino
Nosso quarto, com luz no fim de tarde e aquecedor-extra. É noite às 16h30...

Ah, e a lareira, indispensável...

sábado, novembro 24, 2007

Perfil/IRMÃOS CAMPANA

O Valor Econômico publicou na revista de fim-de-semana o perfil que fiz dos irmãos Fernando e Humberto Campana, a partir do encontro que tivemos aqui em Nova Iorque. Dois dos mais prestigiados designers brasileiros, eles me contaram um pouco de seus dois novos projetos - a exposição Manufacturing Emotions, aqui no Cooper-Hewitt, e a criação de figurinos e cenários para o novo espetáculo do Ballet Nacional de Marseille.


As metamorfoses dos irmãos Campana
Por Eduardo Graça, para o Valor, de Nova York

Fernando Campana se lembra bem quando ouviu pela primeira vez a frase atribuída ao general Charles de Gaulle sobre a nação deitada eternamente em berço esplêndido. E mais ainda de sua imediata reação. "Então não somos um país sério? Graças a Deus!", diz, com um sorriso maroto, no saguão apertado do Hotel W, em Manhattan. Os irmãos Fernando, de 46 anos, e Humberto Campana, de 54, dois dos mais respeitados designers brasileiros, acabam de chegar a Nova York depois de uma temporada na França, onde criam os figurinos e desenham o cenário do novo espetáculo do Ballet National de Marseille, baseado no longo poema épico "Metamorfoses" de Ovídio, com estréia mundial em Luxemburgo (a capital européia da Cultura) em dezembro, e paradas em São Paulo, Rio e Brasília em 2009, durante o Ano da França no Brasil. Antes disso os dois vão se encontrar com o público nova-iorquino na exposição "Manufacturing Emotions", um olhar bem brasileiro sobre o acervo do Cooper-Hewitt National Design Museum, a única instituição americana dedicada exclusivamente a obras de design históricas e contemporâneas.

Enquanto dribla o barulho ensurdecedor que vem das caixas de som instaladas acima da mesa do bar ironicamente batizado de Oasis - com a assinatura do arquiteto e designer David Rockwell - Fernando faz questão de refletir sobre sua "boutade" de um minuto atrás. Ela não se traduz, enfatiza, como uma rendição à esculhambação geral reinante em certas esferas do país. Ao contrário. "Indiscutivelmente, nossa obra é repleta de brasilidade. É, de certa maneira, um cultivo permanente deste Brasil livre de grilhões históricos, aberto às marés da criação e sem medo de margear as emoções mais intensas", afirma.

Humberto, ao lado, sorri. E lembra da reação um tanto surpresa de Frédéric Flamand, o diretor do Ballet National de Marseille, quando percebeu que os Campana não pretendiam de forma alguma enviar de seu estúdio, localizado no bairro de Santa Cecília, em São Paulo, desenhos e esboços do figurino a partir de um estudo inicial, a distância, sobre a obra imaginada pelo coreógrafo. "Nada disso. Nossa criação surge do caos nosso de cada dia. Fazíamos tudo na hora, ele nos mostrava a cena e desenhávamos na frente dele, no ato, muitas vezes nos corpos dos próprios bailarinos", relata.

É claro que o processo de criação de todo um aparato cênico e do trabalho com o corpo humano em movimento - algo inédito para a dupla em 23 anos de Estúdio Campana - não foi realizado na base do improviso. Durante oito meses os dois zanzaram pelos mercados de pulga provençais, lojas de materiais de construção de Marselha e, claro, pelos camelódromos das grandes metrópoles brasileiras. "Usamos velcro, plástico, muito fio-espaguete e sacos plásticos. Que viraram vestidos de ninfa. A idéia foi trabalhar com materiais específicos que deixassem aberta a possibilidade de cada bailarino ser encarado como mais uma parte do todo cenográfico", explica Humberto.

De certa forma, é como se os irmãos tivessem transportado para o Sul da França a rotina de trabalho do Estúdio, onde nove artistas, o time Campana, buscam diariamente a inspiração na pororoca formada pela degeneração paulistana e a fixação da cidade pelo contemporâneo, pelas novas modas. "Em Marselha, descobrimos que podemos criar para o corpo em movimento, mas foi uma evolução bem gradual. O mais bacana foi trabalhar diretamente no corpo dos bailarinos e, já que se trata das 'Metamorfoses', algumas vezes eles próprios confeccionaram os figurinos, que, também, podem mudar em cena, dependendo da vontade deles. Queremos proporcionar o máximo de flexibilidade", diz Fernando.

"Baixa tecnologia"

A companhia de dança de Frédéric Flamand é identificada pelo uso intenso de tecnologia visual nos espetáculos, como na cidade futurista projetada pela arquiteta iraquiana radicada no Reino Unido Zaha Hadid para o espetáculo anterior do grupo, "Metapolis". Os Campana resolveram nadar contra a corrente e apostar na redução de vídeos, sem esquecer o desejo de se comunicar através de novos meios, concentrados agora nos elementos do figurino, todos criados com o que eles chamam de "baixa tecnologia" made in Brazil.

"Quando tínhamos de representar a Medusa, por exemplo, que é um dos mitos retratados em cena, optamos por fazer algo com material reciclado, aparentemente bem pobre, mas com um efeito para as cobras que acaba sendo surpreendente, algo não muito distante de nosso trabalho com o mobiliário", explica Humberto.

A idéia de reciclagem está presente também em outra frente de trabalho do Estúdio Campana - o remodelamento do Royal Olympic Hotel, um dos mais badalados de Atenas, na Grécia, que deverá ficar pronto na segunda metade de 2008. "Lá a idéia foi incorporar todo o detrito originado quando o hotel se reinventou em uma grande reforma há dois anos. Paradoxalmente, queríamos criar algo mais "clean", mas a partir do lixo", conta Fernando.

Grandes projetos de design de prédios, assim como a criação de figurinos e cenários para um espetáculo de dança e a curadoria de uma exposição com objetos de outros artistas são novas atividades que apontam para um momento de reinvenção do Estúdio Campana.

Desde que conquistaram o mercado externo, os Campana são imediatamente lembrados pela famosa Cadeira Vermelha que projetaram para a Edra. Ou por outras peças icônicas, como os trabalhos criados especialmente para a Casa Swarovski, O Lucce, Fontana Arte, Capellini, Progetto Oggetto e Alessi. Isso, sem falar nas divertidas Poltronas Psicodélicas e nas cadeiras boladas para o estúdio Disney. A idéia mestra sempre foi a de interferir na vida das pessoas de uma forma original, até contemplativa, mas nunca exatamente suave. "Nossa capacidade de adaptação, testada mais uma vez nestes novos projetos, é, repito, a senha para nosso trabalho. Temos horror a regras, catecismos ou manuais", afirma, categórico, Fernando.

Às vezes, a espontaneidade dos artistas pode assustar quem espera deparar com estetas cosmopolitas, senhores de si e conscientes em demasia de sua história de sucesso em uma cena especialmente competitiva. Foi o que ocorreu, por exemplo, quando, em uma conversa recente com Flamand, Humberto pediu que o coreógrafo lhe contasse detalhadamente certa passagem das "Metamorfoses". Flamand percebeu que o designer não havia lido a obra de Ovídio, algo inacreditável para o artista europeu.

"Foi engraçadíssimo. Brincamos com ele, dizendo que o livro era muito longo, a versão reduzida tem 400 páginas, não teríamos tempo de ler e ele quase caiu para trás. Mas o que não queríamos, de forma alguma, era ficar especialmente comprometidos com o texto clássico. Queríamos imprimir o frescor brasileiro, a capacidade de não ser enciclopédico, esta coisa bem singular que é a de entender as coisas sem precisar saber", revela Fernando.

Mundo encantado

Nascidos e criados em Brotas, cidade localizada a 240 quilômetros de São Paulo, na região de Araraquara, filhos de um engenheiro agrônomo que ainda conseguiu aproveitar os últimos suspiros da economia cafeeira no Oeste paulista, os Campana parecem, aqui e acolá, personagens saídos diretamente de um livro de Monteiro Lobato. Em seu mundo encantado cabem tanto as reinações das grandes feiras de design européia quanto figuras mitológicas como o Saci-pererê e a mula-sem-cabeça.

"Quando nos debruçamos pela primeira vez sobre o acervo do Cooper-Hewitt, deparamos com uma biblioteca repleta de livros de história natural, uma paixão das irmãs Sarah, Eleanor e Amélia Cooper-Hewitt, que fundaram o museu em 1897. E lá estavam vários livros de história natural e outros, retratando os monstros que os primeiros descobridores imaginavam existir na América do Sul. Imediatamente pensamos na mitologia rural brasileira e demos início a nosso processo de curadoria", diz Humberto.

"Manufacturing Emotions" reúne 20 objetos selecionados por Humberto e Fernando a partir do gigantesco acervo do Cooper-Hewitt, reunidos em uma sala especial da instituição. "Decidimos fazer um estudo sobre o trançado, a base de nosso trabalho. Não por acaso, o pôster da exposição é a ilustração de Cupido feita por Robert John Thornton para o livro 'O Templo da Flora', uma imagem linda, no meio de uma floresta tropical, com muita banana e a frase em inglês 'o cupido ajuda os artistas a criar'", relata Humberto.

A parceria com o Cooper-Hewitt incluiu também a criação de uma cadeira a partir do processo curatorial, que será incorporada ao acervo de mobiliário do museu. A peça está vindo para os Estados Unidos, chama-se Cadeira Trans... (denominada assim mesmo, com a reticência) e é filha direta da TransPlastic, a cadeira de plástico colorida desenvolvida em Londres para uma exposição no prestigioso Victoria and Albert Museum, com acabamento em vime trançado, em um encontro explosivo do artesanal com o industrial.

"A cadeira explode, literalmente, com plástico e borracha. Ela vai soltando, como se fossem espinhos, tudo o que faz mal para o planeta, vai expelindo os recipientes nocivos", explica Humberto, com os olhos bem abertos, como se fossem saltar do rosto, para enfatizar o drama ecológico por que passa o planeta.

Se Humberto é o irmão reconhecido por sua capacidade manual e de experimentação com novos materiais, Fernando, formado em arquitetura, se debruça constantemente sobre a elaboração dos conceitos a ser desenvolvidos pelo Estúdio Campana. "Humberto foi mais resistente, no início, ao projeto do Cooper-Hewitt e eu queria fazer algo mais funcional, menos preso ao belo. Mas acabamos percebendo que esse seria um exercício interessantíssimo, no sentido de podermos olhar para o nosso processo criativo a partir das escolhas que fazíamos. Tudo foi tão interessante que ficamos imaginando como seria fazer algo em instituições brasileiras. Imagine um olhar sobre os retratos da Pinacoteca ou os objetos do Museu da Casa Brasileira, as obras do Museu do Inconsciente, as peças do Museu do Folclore, no Rio", diz.

As marcas pessoais dos irmãos Campana - a fabricação manual e o tributo ao trançado - estão presentes em cada detalhe de "Manufacturing Emotions", a sétima mostra dentro da série "Selects", que já levou para o Cooper-Hewitt os olhares de designers como a holandesa Hella Jongerius e o artista multimídia nigeriano-londrino Yinka Shonibare.

Gabinete de curiosidades

Os gostos dos Campana se revelam nos tecidos, nas jóias feitas de cabelo dos séculos XIX (uma tradição da nobreza inglesa, de imenso poder imagético e de memória sentimental), na porcelana quase kitsch, nos objetos de cerâmica, nos cestos de bambu, nas peças de mobiliário, como a cadeira Longhorn do século XIX atribuída a Wenzel Friedrich, e até nos livros e gravuras expostos. Não é exagero afirmar que o trançado está para os irmãos Fernando e Humberto Campana como a curva serve aos sonhos em concreto do arquiteto Oscar Niemeyer. E na exposição, que fica em cartaz entre fevereiro e agosto, a escolha dos objetos foi claramente mais emocional do que lógica.

Fernando lembra que a coleção das irmãs Cooper-Hewitt guiou-os nessa direção, já que é mais pitoresca do que rara. Os irmãos não se vexaram e optaram por criar um gabinete de curiosidades, apostando na variedade e na descoberta de um vocabulário específico, pronto para ser revelado.

Eles também levaram em conta o tempo dedicado a artistas muitas vezes anônimos, para completar certas obras, remetendo ao resgate de processos de fabricação manual perdidos no desvairado mundo pós-industrial, com um olhar bem característico. "É o nosso olhar que vem do Sul, para o qual há uma curiosidade cada vez maior, muito mais intensa do que quando começamos. A globalização pode ter vários males, mas houve, inegavelmente, uma abertura para outras formas de pensar. Aqui, exercemos nossa liberdade para deixar de lado qualquer compromisso com cronologias", comenta Humberto.

O resultado foi uma leveza que remete a valores centrais na trajetória de Humberto e Fernando, como a ética pessoal, a do trabalho, a da possibilidade de escolhas, sem precisar ser quadrado, rígido ou acadêmico. "Algo assim como o Fernando Gabeira faz na esfera política, sabe? Aliás, imagine quão interessante seria se essa nossa noção de brasilidade se estendesse de forma mais intensa na política. Já pensou?", perguntam, em coro, os irmãos Campana. Sim, mas esse seria um espetáculo quase tão improvável quanto o "causo" dos moços matutos de Brotas que reinstituíram o valor dos meios artesanais no processo de produção em massa de mobiliário fino, humanizando de forma elegante, lúdica e acachapante o design contemporâneo.

Entrevista/NATALIE PORTMAN

Natalie Portman

A nova queridinha da América

Por Eduardo Graça, de Nova York, para a Contigo!

Divulgação / Imagem Filmes

Molly Mahoney (Natalie Portman) em momento de descobrimento, em meio aos brinquedos


Natalie Portman, 26 anos, fala pelos cotovelos. Engraçada, charmosa, muito magra, com o cabelo até o ombro - ao contrário de Molly Mahoney, sua jovial personagem do longa A Loja Mágica de Brinquedos (em cartaz nos cinemas) - e um sorriso de rasgar o rosto, ela conta que viver cercada de crianças,durante as filmagens de seu último longa, estrelado também por Dustin Hoffman, 70, acelerou seu relógio biológico. "Terminei a última cena pronta para engravidar!", brinca, para logo depois contar que não existe nem planos, nem sérios pretendentes para o posto de papai do ano. Querida do público americano por personagens tão díspares quanto a stripper Alice de Closer - Perto Demais e a Rainha Padmé Amidala de Guerra nas Estrelas, ela vive no primeiro filme de Zach Helm, 32 (o talentoso roteirista de Mais Estranho que a Ficção, 2006), uma jovem doce e música talentosa, que busca encontrar dentro de si a mágica de viver. Algo que Portman, como prova neste bate-papo em um dia cinza do outono nova-iorquino, parece ter de sobra.


A Loja Mágica de Brinquedos é seu primeiro filme "para crianças". Gostou da experiência?
Estava em Berlim, filmando V de Vingança (2005), quando chegou um pacote branco todo bonito, com laçarote e tudo (risos). Era o roteiro da Loja Mágica, enviado pelo Zach. Dentro do embrulho tinha uma lista com 20 coisas que crianças adoram, incluindo maçãs do amor, Willy Wonka, montanha-russa e um bilhete do Zach dizendo que queria que o filme entrasse na lista também. Adorei, né? E pensei imediatamente: é isso! Corri para ler o roteiro e encontrei, ali, o mesmo que havia me maravilhado em Mais Estranho que a Ficção: uma proposta de reencontro com um mundo mágico do qual a gente vai se esquecendo quando fica adulto. A gente vai ficando tão blasé, né? Além do mais, Zach tem algo raro em Hollywood, que é a capacidade de ser engraçado e inteligente sem precisar recorrer o tempo todo ao sarcasmo. Ele é um antídoto ao mundo de cinismo em que vivemos.

E, como a Molly Mahoney, sua personagem, você se sente às vezes presa em uma realidade que não deveria ser a sua?
Sim, quase o tempo todo (risos)! Não, sério! Os medos, as ansiedades de quem acha que não vai evoluir, não vai parar de fazer as mesmas coisas sempre, sabe? Foi por aí que me identifiquei com a personagem. Ela tem a vontade de escrever seu próprio concerto. Mas isso é virar adulto, não? Saber quem é você. Que você tem alguma mágica. Quando tinha 19 anos, fiz a peça A Gaivota, no Central Park, dirigida por Mike Nichols, com quem voltaria a trabalhar depois em Closer. Ter aquela pessoa que passei a admirar e respeitar me levando a sério, me dando tanta confiança, dizendo que eu tinha, sim, alguma mágica, foi fundamental para minha carreira.

Você começou no cinema garota ainda...
Sim, e trabalhando de cara com o Luc Besson — no filme O Profissional (1994), estrelado por Jean Reno e Gary Oldman. Tive muita sorte, todos me trataram como uma princesinha, recebi todas as atenções dos adultos que estavam à minha volta. Durante as filmagens tinha apenas 11 anos, e lá estava eu vivendo em Paris, passeando pelos museus nas horas vagas, com mamãe, cada experiência tinha um elemento mágico. Foi uma vivência única. E acho, honestamente, que nunca perdi esse senso de magia. É claro que eu encontrei algumas pessoas neste ramo que não eram lá grande coisa, vamos dizer dois ou três elementos que não me trataram exatamente bem (risos) e poluíram a atmosfera. Mas isso foi tão raro que prefiro nem entrar em detalhes.

Em A Loja Mágica você está rodeada de crianças. O filme lhe fez lembrar como é ser uma criança no set de filmagem?
Totalmente! Um dos figurantes tinha de fazer uma cena com um caminhão de bombeiro, vermelho, e, ao fim, me disse: "que bom que acaboul. Agora vou fazer com o caminhão verde, estou de saco cheio do vermelho". E eu disse "ih, não vai dar. Tem uma coisa chamada continuidade e tal". E ele não entendia e me dizia com toda a propriedade: "mas por quê? Eu não quero mais brincar com o vermelho!"(risos). E eles também me perguntavam por que eu era tão chata de ficar perguntando as mesmas questões o tempo todo. Tive de explicar que haviam os takes diferentes, enfim. Saí do set do filme totalmente apaixonada pela idéia de ser mãe (risos)! Digo, rapidamente! De preferência, amanhã (risos). Mas não tem nada acontecendo ainda, nenhum plano. Acho que tem também o fato de a maioria de meus amigos estarem "engravidando". Aí, dá aquela vontade, né? (risos).

Sentiu-se adulta demais no meio das crianças?
Todas as vezes que penso "huuum, tenho 26 anos", me dá uma sensação de que ainda sou muito imatura para a minha idade, sabe? Deve ser porque sou baixinha (risos). Mas acho que é porque as pessoas ainda pensam em mim como uma adolescente. Mas sabe que alguns figurantes do filme, os meninos especialmente, vieram me perguntar se eu realmente fiquei grávida e tive filhos em Guerra nas Estrelas (risos)? Eu expliquei que não, que era apenas um filme, mas não resisti e também perguntei de volta: "mas vocês acham que eu tenho idade para ser mãe?" E eles todos respondiam: "mas é claro!" (risos) Engraçado, né? Eu acho que ando na rua e pareço ter 16 anos. Acho que as pessoas ficam se perguntando: "mas por que cargas d'água ela não está na escola?" (risos). Mas é a imagem que você tem de si mesma, né? Que, de repente, se congela. Ah, e um fato importantíssimo: meu corpo nunca mudou, desde os 16 anos visto as mesmas roupas. Uso o mesmo figurino há dez anos! (risos).

Hotel Chevalier, o curta-metragem que você estrela com Jason Schwartzman, é um grande sucesso, um cult na internet, com fãs do diretor Wes Anderson fazendo o download do filme antes de correr para ver na tela grande O Expresso Darjeeling...
Adoro saber que Hotel Chevalier é um hit! Foi uma experiência tão sensacional. Sempre quis trabalhar com Wes Anderson e Os Excêntricos Tenembaus é um dos filmes que mais amo na vida. Alguém havia me contado que ele escrevia papéis para os atores, não fazia o cast como é comum em Hollywood, não contactava agentes. Arrumei um jeito de conhecê-lo e fiquei ainda mais encantada. Mas achava que a recíproca não era verdadeira, porque ele nunca escrevera nada para mim! (risos). Mas um belo dia o telefone tocou, eu estava filmando Os Fantasmas de Goya na Espanha e ele me disse que tinha em mente este curta para mim e Jason e que era completamente diferente de tudo o que ele havia feito, que era muito mais cru e que seriam quatro dias de filmagem em Paris. Eu nem pensei. No dia em que terminei de filmar na Espanha já voei para Paris e começamos a filmar no dia seguinte. É interessante, ele trabalha em um esquema de family business que eu nunca havia visto. Todos os amigos dele estão no set trabalhando o tempo todo. Ele trabalha com o mesmo povo com que ele convive diariamente, e o processo todo é muito cool.

E agora você pensa em passar para o outro lado da câmera. Pode contar um pouco de seu projeto de levar para as telas o livro autobiográfico De Amor e Trevas, do escritor israelense Amos Oz?
Atuo em filmes há 15 anos, está na hora de fazer algo novo, diferente. Sou uma admiradora de Amos Oz por um longo tempo e este foi o primeiro livro que eu li em que eu conseguia de fato vizualizar os personagens em minha cabeça. Obviamente tem mais a ver com o talento dele de escritor do que com o meu e leitora, mas, não sei, para mim é o livro mais lindo de Oz. A narrativa que me interessa é a da história de uma família em um tempo específico, 1948, o ano da fundação de Israel, que representa algo muito maior. Já decidi que vou usar apenas atores israelenses, mas ainda estou distante de começar, e vou tentar apenas ver os filmes dos atores e decidir na hora, sem audições, que acho horrendas. E meu hebreu é fluente, pois nasci em Jerusalém, meu pai é israelense, então cresci em uma casa bilíngüe.

E você pretende de alguma maneira fazer, com o filme, um comentário sobre as querelas entre Israel e a Autoridade Palestina?
Sei que a situação lá é muito complexa, com corrupção tanto no lado israelense quanto no palestino, além de muita violência. Mas o filme não pretende ser político ao extremo, não acho que ninguém quer ouvir mais slogans políticos, ainda mais de mim. A idéia é dar uma noção do que aconteceu naquele momento histórico para o espectador, de apresentar uma época em que poucas pessoas lembram de fato, digo, os detalhes mesmo. O importante é que quero ir além das mitologias e das histórias de cada um dos lados.


terça-feira, novembro 20, 2007

The Age of Music is Past


Bem interessante a coluna de hoje do David Brooks, aqui no NYT, tratando da segmentação da música popular a partir da virada dos anos 80 e a diminuição de sua ressonância na sociedade. É um texto interessante, que ecoa um pouco a entrevista que fiz com o Chris Anderson, editor da Wired.

Alguns dos trechos mais interessantes da coluna de Brooks:

The 1970s were a great moment for musical integration. Artists like the Rolling Stones and Bruce Springsteen drew on a range of musical influences and produced songs that might be country-influenced, soul-influenced, blues-influenced or a combination of all three. These mega-groups attracted gigantic followings and can still fill huge arenas.

But cultural history has pivot moments, and at some point toward the end of the 1970s or the early 1980s, the era of integration gave way to the era of fragmentation. There are now dozens of niche musical genres where there used to be this thing called rock. There are many bands that can fill 5,000-seat theaters, but there are almost no new groups with the broad following or longevity of the Rolling Stones, Springsteen or U2.

People have been writing about the fragmentation of American music for decades. Back in the Feb. 18, 1982, issue of Time, Jay Cocks wrote that American music was in splinters. But year after year, the segmentation builds.

People who have built up cultural capital and pride themselves on their superior discernment are naturally going to cultivate ever more obscure musical tastes. I’m not sure they enjoy music more than the throngs who sat around listening to Led Zeppelin, but they can certainly feel more individualistic and special.

Steven Van Zandt, (the guitarrist guitarist for Bruce Springsteen and the E Street Band) believes that if the Rolling Stones came along now, they wouldn’t be able to get mass airtime because there is no broadcast vehicle for all-purpose rock. And he says that most young musicians don’t know the roots and traditions of their music. They don’t have broad musical vocabularies to draw on when they are writing songs. As a result, much of their music (and here I’m bowdlerizing his language) stinks.

He describes a musical culture that has lost touch with its common roots. And as he speaks, I hear the echoes of thousands of other interviews concerning dozens of other spheres.

It seems that whatever story I cover, people are anxious about fragmentation and longing for cohesion. This is the driving fear behind the inequality and immigration debates, behind worries of polarization and behind the entire Barack Obama candidacy.

If you go to marketing conferences, you realize we really are in the era of the long tail. In any given industry, companies are dividing the marketplace into narrower and more segmented lifestyle niches.

We live in an age in which the technological and commercial momentum drives fragmentation. It’s going to be necessary to set up countervailing forces — institutions that span social, class and ethnic lines.

Music used to do this. Not so much anymore.

sábado, novembro 10, 2007

Entrevista/JAMES MOLLISON



A Folha de S.Paulo publicou hoje, na capa do suplemento Mais!, a entrevista que fiz com o fotógrafo James Mollison, autor da genial biografia The Memory of Pablo Escobar. O texto segue abaixo, as fotos, apenas uma pequena amostra do que o livro traz, são de Mollison.

A verdade das mentiras


AUTOR DE "A MEMÓRIA DE PABLO ESCOBAR", QUE TRAZ FOTOS E DEPOIMENTOS INÉDITOS, JAMES MOLLISON DIZ QUE, AINDA HOJE, NEM A JUSTIÇA DA COLÔMBIA CONSEGUE SEPARAR O QUE É REALIDADE E O QUE É LENDA EM TORNO DA VIDA DO TRAFICANTE, MORTO EM 1993


EDUARDO GRAÇA

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE NOVA YORK


Fotógrafo britânico nascido no Quênia, James Mollison, 34, ficou conhecido do grande público pelo lançamento, há três anos, de "James and Other Apes" [James e Outros Símios], uma reunião de retratos comoventes de chimpanzés, gorilas e orangotangos que rendeu uma exposição no Museu de História Natural de Londres, além de um festejado livro de mesmo nome [ed. Chris Boot, 120 págs., US$ 19,95, R$ 35].
Catorze anos depois da morte de Pablo Escobar, ele agora se debruça sobre a trajetória do capo do Cartel de Medellín em "The Memory of Pablo Escobar" [A Memória de Pablo Escobar, ed. Chris Boot, 368 págs., US$ 60, R$ 104], que apresenta pela primeira vez fotografias da intimidade do traficante colombiano.

Graças a uma coincidência, Mollison, que havia viajado à Colômbia para realizar um ensaio fotográfico sobre a narcoarquitetura (as mansões de gosto duvidoso financiadas pelo dinheiro do tráfico de drogas), descobriu no edifício Monaco, principal casa de Escobar, bombardeada pelo Cartel de Cali e hoje sede da Procuradoria-Geral de Medellín, uma bolsa repleta de imagens, uma compilação dos arquivos da polícia que não batiam com a imagem de extravagância que se tinha de Escobar.
"Havia algo de patético e esquálido. Claro, as imagens de armas, brinquedos eróticos, esconderijos e telefones casavam bem com aquela figura presente no imaginário popular, o clichê do clichê do Scarface de Al Pacino. Mas havia também os chinelos de Mickey Mouse, as fotos de família, a de toda a gangue jogando futebol ou bebendo e dançando na discoteca da prisão por ele construída -tudo parecia tão comum", conta Mollison, em entrevista dada por e-mail de sua casa em Veneza, na Itália.

Às imagens sucederam as indagações: como aquele homem conseguira o direito de construir sua própria prisão? Onde estavam aquelas mansões luxuosas de que havia ouvido tanto falar? Quem, de fato, era Pablo Escobar? Sentado no antigo quarto de dormir do barão da coca, Mollison conta que teve a certeza de que havia uma discrepância entre o mito do gângster, o "mais perigoso criminoso que o mundo jamais viu", e a realidade. Escobar lhe pareceu mais complexo e menos glamouroso do que imaginara anteriormente. Para tentar "juntar os pedacinhos de sua história sugerida por aquelas fotografias", Mollison entrevistou, ao lado do jornalista Rainbow Nelson, britânico radicado na Colômbia, mais de cem pessoas em dois anos. Colecionou imagens e depoimentos que tornam "A Memória de Pablo Escobar" um estudo contundente sobre a violência urbana, a debilidade do Estado e as contradições da sociedade civil latino-americana.

FOLHA
- Escobar chegou a encabeçar a lista de procurados do FBI [polícia federal dos EUA], viveu recluso durante anos e ainda assim seu livro contém uma série riquíssima de imagens. Quão difícil foi convencer pessoas próximas a ele -família, amigos, amantes- a ajudá-lo na tarefa de documentar a trajetória do traficante?
JAMES MOLLISON - Logo no início do projeto tomei a decisão de que queria abraçar todos os lados da história: amigos, família, a polícia, comparsas, as vítimas. Mas foi extremante complicado encontrar pessoas que pudessem nos contar sua história, até porque boa parte dos que conviveram com ele havia sido assassinada pela polícia ou por seus inimigos. De um modo geral, todos os que combateram Escobar ficaram mais do que animados em dividir suas histórias comigo. Já amigos e família tiveram de ser convencidos de que este seria um livro que abordaria outros ângulos além do clichê do "mais rico e violento gângster de todos os tempos", como acontecera antes. Foi importantíssimo falar diretamente com os envolvidos, dado o grau de desinformação que existe na Colômbia sobre Escobar, incluindo a Justiça. Você simplesmente não pode confiar no que lê nos documentos do sistema judiciário ou nos jornais. Decidir o que é de fato verdadeiro é quase impossível. Mesmo agora, com o processo de pacificação do país, é arriscado acreditar nas informações que são divulgadas porque há muita gente interessada em que a verdade nunca seja de fato revelada. Um dos entrevistados me disse que a verdade ainda é um produto muito perigoso na Colômbia.

FOLHA
- Algumas das imagens mostram os anos em que Escobar se envolveu com a política...

MOLLISON - Esse é o único momento de sua vida, entre 1981 e 82, em que há abundância de imagens. Escobar era um mestre em apagar as pistas de sua passagem por qualquer lugar e, de maneira metódica, procurou destruir todos os registros de sua vida. Mas, honestamente, o livro é uma prova de que é impossível fazer uma contabilidade visual da vida de Pablo Escobar de forma compreensiva. Por isso, considero o que reunimos uma coleção fascinante de fragmentos de sua vida.

FOLHA
- É verdade que Escobar planejou se candidatar à Presidência da Colômbia?

MOLLISON - Quem nos contou sobre a candidatura foi Jamie, primo de Escobar. Ele adorava poder, e acho que o plano de se tornar presidente da República era mais uma fantasia -um exercício sobre o que o poder o traria de vantagens pessoais- do que um objetivo concreto.

FOLHA - Quais são as principais revelações sobre ele apresentadas no livro? MOLLISON - Diria que o livro preenche certas lacunas de sua trajetória. Um exemplo foi nosso encontro com o rapaz que dirigiu a motocicleta no assassinato do então Ministro da Justiça, Lara Bonilla, executado em 1984, deflagrando um dos mais violentos capítulos da história colombiana. Ele esmiuçou o planejamento do atentado, inclusive revelando detalhes mundanos, como a preparação da moto, que teria de ter um botão para que a luz do farol desligasse com apenas um clique. Outra revelação, feita por Popeye (Jairo Velásquez, chefe de segurança de Escobar e um dos poucos sobreviventes do Cartel de Medellín), esclareceu finalmente como se deu a destruição da sede da polícia secreta colombiana, o DAS (Departamento Administrativo de Segurança), em 1989, causando a morte de 89 pessoas. Ela foi executada de forma ousada, com um ônibus contendo oito toneladas de explosivos, o volante atado e um tijolo colocado no acelerador, sendo jogado contra o prédio.

FOLHA
- Durante sua pesquisa, chegou a perceber a importância do Brasil para os cartéis colombianos, não apenas como mais um mercado consumidor mas também como rota de saída da droga para o hemisfério Norte?

MOLLISON - O livro é mais centrado nos primeiros anos do tráfico de cocaína, incluindo o período em que a droga passava por Norman's Key, a ilha das Bahamas que Carlos Lehder (o visionário do cartel que adorava John Lennon) comprou para ser a parada estratégica do tráfico, ao lado de Miami. Também é importante mencionar que, embora rotulado como um grande "barão da droga", Escobar foi de fato um gângster exclusivamente interessado em se tornar o homem mais poderoso de Medellín. E Medellín estava no centro da explosão da cocaína na virada dos anos 1980. Mas ele não era um estrategista em busca de novas rotas, e sim alguém interessado em oferecer proteção, capital e segurança para aqueles que faziam o tráfico.

FOLHA
- Em 7 de agosto, foi preso em São Paulo o megatraficante colombiano Juan Carlos Abadía. Ele não é um personagem do livro, mas comprova o fôlego do tráfico na Colômbia ainda hoje. Algo mudou de fato desde a morte de Escobar?
MOLLISON - Diria que a morte de Escobar não foi sentida no tráfico de cocaína, pois o preço da droga caiu ainda mais desde então. Um dos entrevistados disse que nada mudou de fato, a não ser que anteriormente os corpos apareciam nas ruas e, hoje, são enterrados. Creio que a indústria mudou no sentido de que Escobar fazia parte da primeira geração de traficantes, na virada dos anos 70 para os 80, aquela que acreditava ter descoberto "o petróleo branco", que seria legalizado mais dia, menos dia. Ele mantinha um zoológico, a maior atração turística da região, e colecionava carros antigos. Hoje os barões da droga colombianos dirigem Renault Twingos para não chamar a atenção. Escobar achava que ele era como a família Kennedy, que fizera fortuna durante os anos da Lei Seca, nos EUA.

FOLHA - O sr. acredita que a tragédia do narcotráfico na América Latina pode ter fim?
MOLLISON
- A criminalização da cocaína está no núcleo do problema. Em uma de minhas temporadas na Colômbia, durante o trabalho de pesquisa, gastei US$ 10 mil com despesas de aluguel de apartamento, motorista, tradutor e alimentação. Com aquele dinheiro, compraria dez quilos de cocaína em Medellín. Se eu os carregasse comigo de volta à Itália e vendesse no mercado europeu, receberia 1 milhão. Com tal margem de lucro, sempre haverá gente disposta a entrar no tráfico.
O mesmo digo para a violência: nos primeiros anos de domínio de Escobar, o cartel obtinha US$ 26 milhões por vôo! E até hoje é usado para financiar os paramilitares e as Farc. Assim, é quase impossível acabar com a produção. A única possibilidade seria reduzir a demanda, e não há qualquer sinal de que isso esteja ocorrendo. Os consumidores de cocaína no Ocidente não estão muito preocupados com o fato de que o consumo está ligado à violência na América Latina. Muitos do consumidores são profissionais liberais que não acreditam estarem prejudicando suas vidas ao cheirar cocaína.

FOLHA
- O que nos leva à questão da legalização...

MOLLISON
- Acontece que essa não é uma opção realista. Você jamais conseguirá convencer a maioria conservadora nos EUA ou a classe média britânica de que a legalização da cocaína seria um preço ideológico justo a pagar pelos milhares de mortos na América do Sul.
Veja bem, nenhuma das terríveis ações praticadas por Escobar pode ser justificada pelo fato de que acreditava que a cocaína seria liberada a qualquer momento; mas, se isso tivesse ocorrido, o curso de eventos seria certamente outro.

FOLHA
- Virginia Vallejo, repórter que se tornou amante de Escobar e foi entrevistada para o seu livro, lançou neste ano "Amando a Pablo, Odiando a Escobar", em que revela os laços de amizade entre o traficante e o atual presidente da Colômbia, Álvaro Uribe -que negou ter tido relação com os líderes do Cartel de Medellín. O sr. se deparou com algo semelhante em sua investigação?

MOLLISON
- Não encontrei nada específico. Uribe foi, por pouco tempo, prefeito de Medellín e logo em seguida governador de Antioquia, cuja capital é Medellín. Ora, é quase certo que algum contato ocorreu. Aparentemente Escobar esteve no enterro do pai de Uribe.


FOLHA
- Qual a principal diferença entre a Colômbia de Escobar e a de Uribe?
MOLLISON - Houve um momento -da metade dos anos 80 à metade dos 90- em que Escobar estava de fato em guerra aberta contra o Estado, e toda a população colombiana foi afetada de modo brutal. Não tenho dúvidas de que para o público em geral e para os turistas o cenário é melhor hoje. Mas o problema das drogas não mudou muito, e a violência continua.


FOLHA - Em sua pesquisa, o sr. ouviu de pessoas próximas a Escobar que ele era assertivo quando falava da origem do boom do narcotráfico na Colômbia e culpava os Peace Corps, uma agência federal do governo norte-americano, pela popularização da droga...
MOLLISON
- Não se tratou de uma decisão deliberada, mas a lógica era a de que quanto mais voluntários chegavam à Colômbia e "descobriam" a cocaína, a nova droga, mais o tráfico ganhava poder, pois consideravam-na excitante e a levavam para os EUA, criando de fato a demanda.


FOLHA - O sr. diria que personagens como Escobar e Fernandinho Beira-Mar, no Brasil, são frutos das falhas das sociedades democráticas estabelecidas na América Latina durante a década de 80?
MOLLISON
- Diria que Estados debilitados, enfraquecidos, oferecem mais facilidades para o trabalho de criminosos.


FOLHA
- Livro editado, o sr. conseguiu responder a sua pergunta central? Quem foi, afinal, Pablo Escobar?

MOLLISON - Não. Não posso responder de fato a essa pergunta. Ele foi um homem diferente para cada pessoa que passou por sua vida.
Para sua família, era um homem repleto de amor, idolatrado como um deus vivo, a ser obedecido o tempo todo. Seus parceiros no Cartel de Medellín o temiam. As famílias de suas vítimas o odiavam intensamente. Ele queria ser o rei de Medellín. E o que mais me assombrou foi sua capacidade de se indignar com qualquer ataque a seus amigos e a sua família ao mesmo tempo em que cultivava um descaso ímpar pela vida das outras pessoas.

quinta-feira, novembro 08, 2007

Meu Nome Não É Selton

Não, eu ainda não vi. Mas quem viu já me disse que é para lá de interessante. Semana passada me chegou aos olhos este vídeo hilário de Selton Mello, o protagonista de Meu Nome Não é Johnny, dirigido por Mauro Lima e produzido por Mariza Leão, nos bastidores da filmagem, prestando uma homenagem a...Jim Carrey! Vale a espiada. Quem tiver a chance de ver o filme me conta mais?
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sexta-feira, novembro 02, 2007

Entrevista/DANIEL RADCLIFFE


A Contigo! que está nas bancas publicou minha conversa com o ator Daniel Radcliffe, 18, famoso por encarnar na tela grande o bruxinho inglês Harry Potter. Daniel, simpaticíssimo, esteve aqui em NY para o lançamento de seu filme Um Verão Para Toda a Vida, que estréia nos cinemas brasileiros hoje, e é uma desengonçada love story, uma produção independente australiana que não diz bem a que veio. Mas Radcliffe está bem como Maps, o mais velho de um grupo de adolescentes órfãos e consegue provar que podeir além das bruxarias de Potter. Aí embaixo vão os principais trechos da conversa que ele teve com a imprensa em um hotel de luxo nas proximidades do Central Park:


Sexualidade
"Agora que tenho 18 anos, sei que vão aparecer mais papéis vinculados à minha idade real e que tratarão da descoberta da sexualidade, por exemplo, como aconteceu com o Maps. Tudo bem. Também faria um personagem gay, desde que, claro, o papel e o filme fossem bons."

Inspiração e transpiração
"Tenho muita alegria de viver e me empolgo facilmente em conversas e discussões, assim como o Harry. Já Maps é o meu oposto. Para mergulhar no mundo dele gravei alguns CDs de música e os enviei ao diretor (Rod Hardy), para ver se estava no caminho certo do personagem. Ele me disse que era isso mesmo e que após ouvir aquelas músicas de meus queridos Elliott Smith, Willy Mason e Radiohead, ele quase cortou os pulsos (risos)! A música é fundamental no meu processo criativo, artístico. Sempre me ajuda a entender como o personagem vivencia determinada emoção ou situação."

Impondo respeito
"Quando tinha 11 anos, vivi o melhor dos mundos no set do primeiro longa de Harry Potter (E A Pedra Filosofal). Queria que Christian (Byers), Lee (Cormie) e James (Fraser, protagonistas, junto com ele, de Um Verão...) tivessem uma experiência semelhante. Então, mostrei a eles a importância de se trabalhar com seriedade total, para manter a atmosfera sempre calma no set. Quando dava 1h da manhã e queriam ir embora, conversava com eles e dizia 'meninos, concentração total, que temos de voltar para o hotel e dormir'. E eles foram brilhantes."

Amizade e paixão
"Sou muito ligado aos meus amigos. Alguns estão no mundo do cinema, outros, fora. Meu melhor amigo é Robin. Eu o conheço desde quando tínhamos 5 anos e ele não tem nada a ver com Hollywood. Robin não está nem aí para a minha carreira, o que é ótimo. Sobre paixões, é claro que já tive minhas desilusões amorosas, mas não vou contar quantas vezes, não (risos)".

Símbolo Sexual
"É engraçado como se falou do beijo que eu protagonizei no último Harry Potter! Mas que coisa (risos)! E olha que não foi nem meu primeiro beijo. O primeiro, rodei em Um Verão Para Toda Vida. Todas as cenas foram filmadas numa caverna em um único dia. Quando Maps (seu personagem no filme) tem um ataque nervoso, na parte final, já estávamos nesse lugar por 16 horas. Era quase manhã da véspera de Natal, então eu já estava quase tendo uma crise de nervos de verdade (risos)! E Teresa (Palmer, 21, que faz Lucy, por quem Maps se apaixona) foi ótima, pois ela já havia feito duas ou três cenas de sexo em outros filmes e me guiou. Apesar de ser 3h do dia 24 de dezembro, foi ótimo. Afinal, bem, você viu a Teresa, né? (risos)"

Nu no palco
"Foi uma experiência sensacional encenar Equus (a cena em que fica nu na peça foi apontada como um dos motivos de uma legião de fãs ter aparecido no Teatro Gielgud) no meu país e espero que ano que vem, na Broadway, em Nova York, seja ainda melhor - a peça deve estrear nos Estados Unidos no início de 2008. Tive que desenvolver muito meu poder de concentração. Não é como no cinema, em que o take acaba e você pode relaxar. Eu fico em cena o tempo todo! Foi o trabalho mais exaustivo da minha vida. Mas foi sensacional."

Harry Potter e as Relíquias da Morte
"Li e adorei! Meus fãs ficariam chocados se eu não tivesse lido ainda, né? Achei fantástico e, ao terminar, pensei imediatamente que vai ser estranho quando formos filmar a última parte desse épico. Não sei como vou me sentir quando tudo terminar. Vai ser triste, mas bom também. Eu prometo."

Maturidade
"Ainda me vejo como um menino. E ainda jogo Banco Imobiliário sempre que posso (risos). Não acho que a gente tem de crescer assim, de supetão. Tipo, fez 18 anos e pronto, ficou sério. Ainda tenho muito de imaturo e muito o que crescer."

quinta-feira, novembro 01, 2007

Perfil/BEBEL GILBERTO




A Bravo! que acabou de sair nas bancas traz o perfil que escrevi de Bebel Gilberto, 41 anos, a cantora brasileira de maior sucesso no exterior desde Carmen Miranda. A conversa com Bebel aconteceu no verão nova-iorquino, em uma tarde deliciosa e repleta de gargalhadas. Aí vai o texto, as fotos são do meu amigo Victor Affaro:

Moça de Família

Por Eduardo Graça

Já na primeira frase da música que abre Momento, seu mais novo disco, Bebel Gilberto diz para si própria, introspectiva: "Tem tanta coisa aí tão escondida que você não quer nem mais lembrar". Será mesmo? Faz um calor infernal no verão de Manhattan quando a filha de João Gilberto e Miúcha, imensos óculos escuros, se despede do porteiro do prédio onde vive, no Village, dando-lhe conselhos sobre um tratamento de saúde para um problema de bexiga. Bebel é uma bela mulher de 41 anos, que apresenta suas armas logo de saída: um sorriso maior do que o rosto queimado de sol e uma capacidade de falar com desenvoltura sobre o mais banal dos assuntos. Sem tempo nem para respirar, os passos ainda desafinados, fruto de um acidente inusitado, "coisas que só acontecem com a Bebel", ela recebe a reportagem de BRAVO! em sua "cozinha improvisada": um restaurante japonês da vizinhança, que também é o favorito de Tom Waits e David Byrne.

Duas semanas antes do lançamento de Momento, que fecha uma trilogia para o selo belga Crammed, Bebel estava saindo do Nublu, o templo underground da música mais interessante que é feita hoje em Nova York, quando um homem despencou sobre seus pés. Assim. No burburinho da noite do East Village, enquanto ela se preparava para entrar no táxi, o grandalhão, mais para lá do que para cá, se desequilibrou e caiu sobre os pés da cantora e compositora.

No início, ela achou engraçado. Mas a dor e o inchaço lhe mostraram que algo mais grave havia acontecido. O pé, as cirurgias, o gesso, a fisioterapia, a primeira noitada em que pôde novamente beber sua cerveja, a volta claudicante à sagrada rotina das caminhadas pelas ruas nova-iorquinas, tudo faz parte da geografia sentimental mais recente de Bebel. Logo depois da primeira operação, a cantora se apresentou em Londres com um gesso enorme. A crítica britânica pegou pesado. O jornal The Guardian chegou a dizer que, "em boa parte do espetáculo, ela foi incapaz de repetir o formato sensual da pop-bossa que lhe deu tanto prestígio". Bebel se submeteu depois a uma segunda cirurgia e ficou com o pé imobilizado até a primeira semana de junho. Já é tempo de deixar a bruxa para trás. Daí a vontade de fazer a sessão de fotos para a BRAVO! em pleno chafariz da Washington Square, um símbolo da anarquia organizada da metrópole que Bebel aprendeu a chamar de sua (na verdade, a cantora nasceu em Nova York, onde seus pais moravam na época, mas depois se mudou para o Rio).

"Os maiores lembram que, quando eu era pequena, sempre dizia que um dia iria viver em Manhattan. Na virada dos anos 80 para os 90, eu estava meio perdida no Brasil, mas o que me fez vir mesmo para cá foi a vontade de me aproximar do meu irmão." João Marcello, seu irmão mais velho, é filho de seu pai com a cantora baiana Astrud Gilberto, radicada há décadas nos Estados Unidos. "Passei a vida cultivando o desejo de conhecê-lo melhor e agora somos muito próximos. Estacionei na casa dele um pouco, em Nova Jersey, e depois atravessei o rio para me instalar em Manhattan", conta, entre uma e outra mordida nos petiscos preparados pela cozinha do restaurante favorito.

A roupa do dia, prática e casual, comprova a correria dos últimos meses: ela usa um biquíni resguardado por um top e uma calça ligeiramente dobrada na altura do tornozelo. Depois do almoço, voa para a fisioterapia e termina o dia ensaiando com sua banda na cobertura onde mora. O pé ainda é um estorvo para a cantora, que fez a primeira operação, no Brasil, em março, sob os cuidados da amiga Paula Lavigne. Como boa parte dos norte-americanos de sua idade, Bebel não tem um plano de saúde. "Paula é sensacional e me deu uma força enorme. Por ser poderosa e adorar botar ordem em tudo, definiu minha vida: passagem, o médico que iria tratar de meu pé, tudo. Depois do acidente, antes mesmo de ligar para minha mãe, telefonei para a Paula."

A ex-mulher de Caetano Veloso costuma brincar com Bebel, amiga dos bons tempos de Baixo Leblon, dizendo que ela é a única solteira feliz que conhece. Bebel acha graça do elogio truncado: "Tive recentemente alguns namoros mais sérios, mas em geral estive sozinha. O velho chavão da mulher-bem-sucedida-relativamente-conhecida assusta mesmo. E não sou exatamente maria-vai-com-as-outras, eu dou as cartas, né? Tem de ser muito homem para agüentar".

A virada dos 40 a presenteou ainda com outro clichê: o desejo incontrolável de se tornar mãe. "Pode escrever aí que meu próximo passo é congelar óvulos. Que nada, estou brincando! Agora, é possível que em seis meses você me encontre apaixonada e grávida, porque o tal do relógio biológico existe de fato, há uma urgência clara, embora jamais pensei em ter um filho sozinha. Família é tudo. É a chatice, é o compromisso, mas é tudo o que busco na vida. Com sinceridade total. Quero uma relação, sou monogâmica, gosto da coisa mais certa. Pensando bem, acho que esse é o único campo em que não sou louca...", brinca.

ALÔ, MAMÃE

Mesclando o mistério contemplativo de João Gilberto com a explosão descompromissada de Miúcha Buarque de Hollanda, Bebel pode passar três anos debruçada sobre uma canção como Words, outro destaque de Momento, ou decidir, no estúdio, de uma hora para a outra, intuitiva, modificar o planejamento do dia e migrar para uma idéia nova que lhe ocorreu naquele instante. Ela costuma cantar no banheiro e entrando no táxi, mas pára de ouvir música - qualquer música - quando começa a maratona de gravar seus discos. Algumas canções lhe chegam como um raio, outras demoram uma eternidade, carentes de polimento e dedicação. "Acho que tenho um tanto de João e um tanto de Miúcha. Sou introspectiva, mas também adoro ser o entertainer. Não tenho medo algum de palco. Trabalho muito no estúdio, sou caxias mesmo, mas gosto mais do palco. O barato é você estar ali, com o público."

Recentemente, num show em São Francisco, Bebel percebeu que um espectador mantinha seu telefone desafiadoramente ligado. A cantora desceu do palco, tomou-lhe o aparelho e ligou para sua mãe, no Brasil. Miúcha não estava em casa. A show woman não se fez de rogada e pediu que toda a platéia gritasse, em uníssono, "Miucha, I love you", para ficar gravado na secretária eletrônica.

Uma memória recorrente de Bebel são as ausências dos pais quando ela era mais nova. "Não tinha horário para fazer dever de casa nem para o almoço. Fui criada com a empregada, vendo televisão. Chico [Buarque, irmão de Miúcha], Marieta [Severo] e minhas primas eram minhas referências familiares mais próximas. Talvez teria sido menos complicado se tivesse tido um pouco mais de base em casa... Mas já reclamei muito disso. Chega! Finalmente percebi que também aprendi um monte de coisas mais rápido por conta dessa situação."

O palco, por exemplo, ela conheceu muito cedo. Aos 8 anos, se apresentou com a mãe e o saxofonista Stan Getz no Lincoln Center, em Nova York. Aos 11, estava no coro de um dos maiores sucessos do teatro musical brasileiro - Os Saltimbancos, do tio Chico em parceria com o italiano Sergio Bardotti. "Divido minha vida em dois períodos: antes e depois dos Saltimbancos. Imagina, ainda não era adolescente e já ganhava meu dinheiro!Todas as crianças me adoravam. Comprava roupas da moda, era uma peruinha total. E, por ser alta para a idade, ia de tarde dançar na matinê da New York Disco, no Rio, e curtia festinhas todos os fi ns de semana. Já sabia me divertir."

A quarta faixa de Momento, Os Novos Yorkinos, é uma homenagem aos Novos Baianos, que fizeram parte do catecismo lúdico-musical de Bebel. "Essa é a música mais sincera que já fiz. Fala de uma gente menos racional, mais louca, mais emotiva, tudo o que as pessoas não podem ser hoje em dia. Uma gente que não tem vergonha de dizer que já usou maconha, que bebe, que fuma um cigarro de vez em quando."

A convivência com Moraes Moreira, Baby Consuelo & cia. vem do tempo em que os músicos viviam numa chácara em Jacarepaguá, um dos endereços favoritos de João Gilberto. Ele levaria algumas vezes Bebel a tiracolo para madrugadas musicais inesquecíveis na então longínqua zona oeste do Rio de Janeiro. O clássico disco Acabou Chorare, de 1972 foi batizado a partir da expressão usada pela menina de 6 anos para tranqüilizar o pai, preocupado com um tropeço da filha e a choradeira que ela protagonizara.

Dois anos depois, o grupo gravaria o samba-choro Bebel, de João, em uma versão especialmente feliz. E uma década mais tarde, Marília Mattos, mulher de Moraes Moreira, apresentaria Bebel a Cazuza, um encontro que acabou definindo a trajetória musical da cantora. "Não seria quem sou, não seria nem artista, se não fosse por ele. Lembro que, quando lhe dizia estar com a idéia de uma letra, ele me impulsionava: 'Mas você tem de escrever, mulher!'. Cazuza virou uma estrela, se tornou famoso, e agora me pego pensando se existe essa coisa de os mortos verem a gente... Acho que ele e Suba ficariam orgulhosos de mim. Acho até que dão uma força!"

Bebel conheceu o produtor Mitar Subotic, o Suba, sérvio que morava em São Paulo, depois de uma apresentação de João Gilberto no Carnegie Hall, em Nova York. "Saímos para jantar, ficamos ouvindo música até as 5 da matina e decidimos que tínhamos de fazer algo juntos. Mudei-me para a casa do tio Sergito [irmão mais velho de Chico], na Vila Madalena, e lá ficamos produzindo o Tanto Tempo, meu segundo disco-solo, que seria lançado em 2000 [o primeiro é um EP de 1986]." Suba morreu pouco antes do lançamento, num incêndio, e não chegou a ver o enorme sucesso do trabalho. O álbum vendeu mais de 1 milhão de cópias e fez a carreira de Bebel finalmente decolar.

Não deixa de ser significativo o fato de Suba e Bebel terem se conhecido após uma noite regada a João Gilberto. Se há algo constante nos três discos mais recentes da cantora(Tanto Tempo, Bebel Gilberto e Momento) é a influência da batida gilbertiana do violão. Bebel lembra que, aos 4 anos, mudou-se com seus pais para a Cidade do México. Eles viviam em uma casa imensa, com poucos móveis, acústica perfeita para João, que tocava violão sem parar. O som do disco João Gilberto en México, com as clássicas interpretações de Farolito e Besame Mucho, a acompanharia por toda a vida.

Mas música, diz Bebel, não se discute na sala de jantar dos Gilberto ou dos Buarque de Hollanda. "Veja bem: a mamãe acaba de lançar um disco, eu não ouvi ainda o dela, nem ela o meu. É que a gente compete por espaço, sabe? (risos). Sempre foi assim. Mamãe sempre foi muito crítica comigo, então não procuro muito saber a opinião dela. A de meu pai, menos ainda. Meu tio também não costuma opinar. Quando tem muita gente envolvida no mesmo métier, você acaba, talvez, se fechando um pouco..."

Um dos pontos altos de Momento é a versão de Bebel para Caçada, pérola do cancioneiro de Chico Buarque presente na trilha sonora do filme Quando o Carnaval Chegar, de 1972. "Desde criança, essa música me chama a atenção. Fiz a versão e mostrei para o Chico meio de surpresa. Era aniversário de minha avó, ele foi me pegar em casa, eu estava com um namorado novo, aquele constrangimento, o clima meio tenso, e eu, para limpar a barra com ele, disse, ouve aí, e coloquei para tocar no carro mesmo. Ele não fez nenhum comentário mais direto, mas acho que gostou."

GLOBETROTTER

Dezesseis anos depois de ter deixado o Brasil, Bebel confessa que, apesar das visitas costumeiras, já se sente um pouco como "um peixe fora d'água". Graças ao sucesso de Tanto Tempo, o disco de uma brasileira que mais vendeu no exterior, converteu-se em artista de projeção planetária. "Às vezes acho que ninguém entende por que me dedico tanto à carreira, por que faço essas excursões todas pelo mundo, por que entro num ônibus e percorro cinco cidades da Alemanha. Loucura? Pode ser, mas assim vendo discos e ganho público. Você acha que o Caetano faria isso? Não. Ele vai apenas para Berlim, se for. Eu, só neste ano, já estive na Finlândia, Noruega, Bulgária, Turquia e Croácia. Todos também acham que fiquei rica. Nada disso. Os Gilbertos não são tão bem-sucedidos financeiramente. Mas, pelo menos, somos felizes e bons vivants."

Após duas cervejas, Bebel se solta de vez. "Momento é o disco em que apareço mais como letrista. Acho que estou ficando com menos medo de falar de mim... Busco a inovação o tempo todo. Ser livre e boêmia em Nova York faz com quevocê sempre se renove, não se prenda a formatos, não fique estagnada." Talvez esteja justamente aí o segredo da solteira mais feliz do Village que, caso tivesse de se explicar por meio de uma única música, não titubearia. Escolheria A Mulher, de Caetano Veloso, gravada por Gal Costa no álbum Água Viva: "Lá vai a mulher subindo/ a ponta do pé tocando ainda o chão/ já na imensidão/ é lindo/ ela em plena mulher/ brilhando no poço de tempo que abriu-se/ ao rés de seu ser de mulher/ que se abriu/ sem ter que morrer/ todo homem viu".