quinta-feira, novembro 01, 2007

Perfil/BEBEL GILBERTO




A Bravo! que acabou de sair nas bancas traz o perfil que escrevi de Bebel Gilberto, 41 anos, a cantora brasileira de maior sucesso no exterior desde Carmen Miranda. A conversa com Bebel aconteceu no verão nova-iorquino, em uma tarde deliciosa e repleta de gargalhadas. Aí vai o texto, as fotos são do meu amigo Victor Affaro:

Moça de Família

Por Eduardo Graça

Já na primeira frase da música que abre Momento, seu mais novo disco, Bebel Gilberto diz para si própria, introspectiva: "Tem tanta coisa aí tão escondida que você não quer nem mais lembrar". Será mesmo? Faz um calor infernal no verão de Manhattan quando a filha de João Gilberto e Miúcha, imensos óculos escuros, se despede do porteiro do prédio onde vive, no Village, dando-lhe conselhos sobre um tratamento de saúde para um problema de bexiga. Bebel é uma bela mulher de 41 anos, que apresenta suas armas logo de saída: um sorriso maior do que o rosto queimado de sol e uma capacidade de falar com desenvoltura sobre o mais banal dos assuntos. Sem tempo nem para respirar, os passos ainda desafinados, fruto de um acidente inusitado, "coisas que só acontecem com a Bebel", ela recebe a reportagem de BRAVO! em sua "cozinha improvisada": um restaurante japonês da vizinhança, que também é o favorito de Tom Waits e David Byrne.

Duas semanas antes do lançamento de Momento, que fecha uma trilogia para o selo belga Crammed, Bebel estava saindo do Nublu, o templo underground da música mais interessante que é feita hoje em Nova York, quando um homem despencou sobre seus pés. Assim. No burburinho da noite do East Village, enquanto ela se preparava para entrar no táxi, o grandalhão, mais para lá do que para cá, se desequilibrou e caiu sobre os pés da cantora e compositora.

No início, ela achou engraçado. Mas a dor e o inchaço lhe mostraram que algo mais grave havia acontecido. O pé, as cirurgias, o gesso, a fisioterapia, a primeira noitada em que pôde novamente beber sua cerveja, a volta claudicante à sagrada rotina das caminhadas pelas ruas nova-iorquinas, tudo faz parte da geografia sentimental mais recente de Bebel. Logo depois da primeira operação, a cantora se apresentou em Londres com um gesso enorme. A crítica britânica pegou pesado. O jornal The Guardian chegou a dizer que, "em boa parte do espetáculo, ela foi incapaz de repetir o formato sensual da pop-bossa que lhe deu tanto prestígio". Bebel se submeteu depois a uma segunda cirurgia e ficou com o pé imobilizado até a primeira semana de junho. Já é tempo de deixar a bruxa para trás. Daí a vontade de fazer a sessão de fotos para a BRAVO! em pleno chafariz da Washington Square, um símbolo da anarquia organizada da metrópole que Bebel aprendeu a chamar de sua (na verdade, a cantora nasceu em Nova York, onde seus pais moravam na época, mas depois se mudou para o Rio).

"Os maiores lembram que, quando eu era pequena, sempre dizia que um dia iria viver em Manhattan. Na virada dos anos 80 para os 90, eu estava meio perdida no Brasil, mas o que me fez vir mesmo para cá foi a vontade de me aproximar do meu irmão." João Marcello, seu irmão mais velho, é filho de seu pai com a cantora baiana Astrud Gilberto, radicada há décadas nos Estados Unidos. "Passei a vida cultivando o desejo de conhecê-lo melhor e agora somos muito próximos. Estacionei na casa dele um pouco, em Nova Jersey, e depois atravessei o rio para me instalar em Manhattan", conta, entre uma e outra mordida nos petiscos preparados pela cozinha do restaurante favorito.

A roupa do dia, prática e casual, comprova a correria dos últimos meses: ela usa um biquíni resguardado por um top e uma calça ligeiramente dobrada na altura do tornozelo. Depois do almoço, voa para a fisioterapia e termina o dia ensaiando com sua banda na cobertura onde mora. O pé ainda é um estorvo para a cantora, que fez a primeira operação, no Brasil, em março, sob os cuidados da amiga Paula Lavigne. Como boa parte dos norte-americanos de sua idade, Bebel não tem um plano de saúde. "Paula é sensacional e me deu uma força enorme. Por ser poderosa e adorar botar ordem em tudo, definiu minha vida: passagem, o médico que iria tratar de meu pé, tudo. Depois do acidente, antes mesmo de ligar para minha mãe, telefonei para a Paula."

A ex-mulher de Caetano Veloso costuma brincar com Bebel, amiga dos bons tempos de Baixo Leblon, dizendo que ela é a única solteira feliz que conhece. Bebel acha graça do elogio truncado: "Tive recentemente alguns namoros mais sérios, mas em geral estive sozinha. O velho chavão da mulher-bem-sucedida-relativamente-conhecida assusta mesmo. E não sou exatamente maria-vai-com-as-outras, eu dou as cartas, né? Tem de ser muito homem para agüentar".

A virada dos 40 a presenteou ainda com outro clichê: o desejo incontrolável de se tornar mãe. "Pode escrever aí que meu próximo passo é congelar óvulos. Que nada, estou brincando! Agora, é possível que em seis meses você me encontre apaixonada e grávida, porque o tal do relógio biológico existe de fato, há uma urgência clara, embora jamais pensei em ter um filho sozinha. Família é tudo. É a chatice, é o compromisso, mas é tudo o que busco na vida. Com sinceridade total. Quero uma relação, sou monogâmica, gosto da coisa mais certa. Pensando bem, acho que esse é o único campo em que não sou louca...", brinca.

ALÔ, MAMÃE

Mesclando o mistério contemplativo de João Gilberto com a explosão descompromissada de Miúcha Buarque de Hollanda, Bebel pode passar três anos debruçada sobre uma canção como Words, outro destaque de Momento, ou decidir, no estúdio, de uma hora para a outra, intuitiva, modificar o planejamento do dia e migrar para uma idéia nova que lhe ocorreu naquele instante. Ela costuma cantar no banheiro e entrando no táxi, mas pára de ouvir música - qualquer música - quando começa a maratona de gravar seus discos. Algumas canções lhe chegam como um raio, outras demoram uma eternidade, carentes de polimento e dedicação. "Acho que tenho um tanto de João e um tanto de Miúcha. Sou introspectiva, mas também adoro ser o entertainer. Não tenho medo algum de palco. Trabalho muito no estúdio, sou caxias mesmo, mas gosto mais do palco. O barato é você estar ali, com o público."

Recentemente, num show em São Francisco, Bebel percebeu que um espectador mantinha seu telefone desafiadoramente ligado. A cantora desceu do palco, tomou-lhe o aparelho e ligou para sua mãe, no Brasil. Miúcha não estava em casa. A show woman não se fez de rogada e pediu que toda a platéia gritasse, em uníssono, "Miucha, I love you", para ficar gravado na secretária eletrônica.

Uma memória recorrente de Bebel são as ausências dos pais quando ela era mais nova. "Não tinha horário para fazer dever de casa nem para o almoço. Fui criada com a empregada, vendo televisão. Chico [Buarque, irmão de Miúcha], Marieta [Severo] e minhas primas eram minhas referências familiares mais próximas. Talvez teria sido menos complicado se tivesse tido um pouco mais de base em casa... Mas já reclamei muito disso. Chega! Finalmente percebi que também aprendi um monte de coisas mais rápido por conta dessa situação."

O palco, por exemplo, ela conheceu muito cedo. Aos 8 anos, se apresentou com a mãe e o saxofonista Stan Getz no Lincoln Center, em Nova York. Aos 11, estava no coro de um dos maiores sucessos do teatro musical brasileiro - Os Saltimbancos, do tio Chico em parceria com o italiano Sergio Bardotti. "Divido minha vida em dois períodos: antes e depois dos Saltimbancos. Imagina, ainda não era adolescente e já ganhava meu dinheiro!Todas as crianças me adoravam. Comprava roupas da moda, era uma peruinha total. E, por ser alta para a idade, ia de tarde dançar na matinê da New York Disco, no Rio, e curtia festinhas todos os fi ns de semana. Já sabia me divertir."

A quarta faixa de Momento, Os Novos Yorkinos, é uma homenagem aos Novos Baianos, que fizeram parte do catecismo lúdico-musical de Bebel. "Essa é a música mais sincera que já fiz. Fala de uma gente menos racional, mais louca, mais emotiva, tudo o que as pessoas não podem ser hoje em dia. Uma gente que não tem vergonha de dizer que já usou maconha, que bebe, que fuma um cigarro de vez em quando."

A convivência com Moraes Moreira, Baby Consuelo & cia. vem do tempo em que os músicos viviam numa chácara em Jacarepaguá, um dos endereços favoritos de João Gilberto. Ele levaria algumas vezes Bebel a tiracolo para madrugadas musicais inesquecíveis na então longínqua zona oeste do Rio de Janeiro. O clássico disco Acabou Chorare, de 1972 foi batizado a partir da expressão usada pela menina de 6 anos para tranqüilizar o pai, preocupado com um tropeço da filha e a choradeira que ela protagonizara.

Dois anos depois, o grupo gravaria o samba-choro Bebel, de João, em uma versão especialmente feliz. E uma década mais tarde, Marília Mattos, mulher de Moraes Moreira, apresentaria Bebel a Cazuza, um encontro que acabou definindo a trajetória musical da cantora. "Não seria quem sou, não seria nem artista, se não fosse por ele. Lembro que, quando lhe dizia estar com a idéia de uma letra, ele me impulsionava: 'Mas você tem de escrever, mulher!'. Cazuza virou uma estrela, se tornou famoso, e agora me pego pensando se existe essa coisa de os mortos verem a gente... Acho que ele e Suba ficariam orgulhosos de mim. Acho até que dão uma força!"

Bebel conheceu o produtor Mitar Subotic, o Suba, sérvio que morava em São Paulo, depois de uma apresentação de João Gilberto no Carnegie Hall, em Nova York. "Saímos para jantar, ficamos ouvindo música até as 5 da matina e decidimos que tínhamos de fazer algo juntos. Mudei-me para a casa do tio Sergito [irmão mais velho de Chico], na Vila Madalena, e lá ficamos produzindo o Tanto Tempo, meu segundo disco-solo, que seria lançado em 2000 [o primeiro é um EP de 1986]." Suba morreu pouco antes do lançamento, num incêndio, e não chegou a ver o enorme sucesso do trabalho. O álbum vendeu mais de 1 milhão de cópias e fez a carreira de Bebel finalmente decolar.

Não deixa de ser significativo o fato de Suba e Bebel terem se conhecido após uma noite regada a João Gilberto. Se há algo constante nos três discos mais recentes da cantora(Tanto Tempo, Bebel Gilberto e Momento) é a influência da batida gilbertiana do violão. Bebel lembra que, aos 4 anos, mudou-se com seus pais para a Cidade do México. Eles viviam em uma casa imensa, com poucos móveis, acústica perfeita para João, que tocava violão sem parar. O som do disco João Gilberto en México, com as clássicas interpretações de Farolito e Besame Mucho, a acompanharia por toda a vida.

Mas música, diz Bebel, não se discute na sala de jantar dos Gilberto ou dos Buarque de Hollanda. "Veja bem: a mamãe acaba de lançar um disco, eu não ouvi ainda o dela, nem ela o meu. É que a gente compete por espaço, sabe? (risos). Sempre foi assim. Mamãe sempre foi muito crítica comigo, então não procuro muito saber a opinião dela. A de meu pai, menos ainda. Meu tio também não costuma opinar. Quando tem muita gente envolvida no mesmo métier, você acaba, talvez, se fechando um pouco..."

Um dos pontos altos de Momento é a versão de Bebel para Caçada, pérola do cancioneiro de Chico Buarque presente na trilha sonora do filme Quando o Carnaval Chegar, de 1972. "Desde criança, essa música me chama a atenção. Fiz a versão e mostrei para o Chico meio de surpresa. Era aniversário de minha avó, ele foi me pegar em casa, eu estava com um namorado novo, aquele constrangimento, o clima meio tenso, e eu, para limpar a barra com ele, disse, ouve aí, e coloquei para tocar no carro mesmo. Ele não fez nenhum comentário mais direto, mas acho que gostou."

GLOBETROTTER

Dezesseis anos depois de ter deixado o Brasil, Bebel confessa que, apesar das visitas costumeiras, já se sente um pouco como "um peixe fora d'água". Graças ao sucesso de Tanto Tempo, o disco de uma brasileira que mais vendeu no exterior, converteu-se em artista de projeção planetária. "Às vezes acho que ninguém entende por que me dedico tanto à carreira, por que faço essas excursões todas pelo mundo, por que entro num ônibus e percorro cinco cidades da Alemanha. Loucura? Pode ser, mas assim vendo discos e ganho público. Você acha que o Caetano faria isso? Não. Ele vai apenas para Berlim, se for. Eu, só neste ano, já estive na Finlândia, Noruega, Bulgária, Turquia e Croácia. Todos também acham que fiquei rica. Nada disso. Os Gilbertos não são tão bem-sucedidos financeiramente. Mas, pelo menos, somos felizes e bons vivants."

Após duas cervejas, Bebel se solta de vez. "Momento é o disco em que apareço mais como letrista. Acho que estou ficando com menos medo de falar de mim... Busco a inovação o tempo todo. Ser livre e boêmia em Nova York faz com quevocê sempre se renove, não se prenda a formatos, não fique estagnada." Talvez esteja justamente aí o segredo da solteira mais feliz do Village que, caso tivesse de se explicar por meio de uma única música, não titubearia. Escolheria A Mulher, de Caetano Veloso, gravada por Gal Costa no álbum Água Viva: "Lá vai a mulher subindo/ a ponta do pé tocando ainda o chão/ já na imensidão/ é lindo/ ela em plena mulher/ brilhando no poço de tempo que abriu-se/ ao rés de seu ser de mulher/ que se abriu/ sem ter que morrer/ todo homem viu".

6 comentários:

Anônimo disse...

edu

quem dirigiu o clip da bebel foi o mauro lima, diretor do MEU NOME NÃO É JOHNNY. bjs

Eduardo Graca disse...

Filme aliás, que estou louco para ver, Anônimo! Quem já viu me disse que é o máximo! Mas desconfio que só vou poder conehcer mais o Johnny em fevereiro! Haja paciência...

morango disse...

.. li essa matéria na BRAVO! [sou assinante].. e fiquei extasiada com a forma como você escreve.. sou estudante de jornalismo e tenho um fanzine cultural [UHU! fanzine]..
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=37417759

e a minha especialidade é música.. se pudermos manter contato, ficaria mutíssimo grata..
.. ah! visite meu blog se possível, ok??

.. e parabéns!

Anônimo disse...

Edu, adorei a entrevista com a Bebel. Sensacional! Sou fã da Bebel e não vejo uma entrevista tão boa com ela há algum tempo.
Adorei as fotos também Victor Affaro está de parabéns.
Tenho um blog sobre a Bebel e gostaria de saber se posso publicar a sua entrevista nele.
Obrigada
http://blogbebelgilbeto.blogspot.com

Eduardo Graca disse...

Olá Anônima! Obrigado pelo elogios e sim, claro, pode publicar o texto no seu blog, dando os créditos devidos. E volte sempre!

K. disse...

Foi por causa desse perfil que comecei a gostar da Bebel. Ontem fui ao show dela no sesc pinheiros e notei que vc tem razão: ela tem o sorriso maior do que rosto. Parabéns pela matéria