terça-feira, outubro 30, 2007

TROPA DE ELITE

Aqui no blog tivemos textos de Márcia Pereira, Rozane Monteiro, Teté Ribeiro e Olga de Mello sobre o filme do momento no Brasil. Vi Tropa de Elite na semana passada e tento acompanhar as meninas aqui com uma pensata sobre o filme do José Padilha. Taí:

Justiceiros, aqui e acolá


Na semana em que finalmente vi Tropa de Elite fugi para o cinema aqui do bairro e passei pouco mais de duas horas me segurando na poltrona enquanto tentava engolir Valente, em que Jodie Foster, armada, faz justiça com as próprias mãos na Nova Iorque do doutor Bloomberg. O filme, que estréia nesta sexta-feira no Brasil, gerou uma discussão interessante por aqui. Até que ponto a trajetória da personagem de Foster, uma radialista pacata quase assassinada pelo brutal ataque de uma gangue no Central Park, representa um sentimento catártico do americano médio, insatisfeito com as instituições, o Estado, a Justiça, a polícia, os mecanismos arcaicos das democracias ocidentais? A.O. Scott, o crítico de cinema do New York Times de que mais gosto (sim, eu gosto de críticos de cinema!), escreveu que Valente, como se tal paradoxo fosse possível, era um “filme pró-linchamento que até os liberais podem amar”. Já Stephen King, em sua coluna na Entertainment Weekly, em um delicioso mea-culpa sobre o fetichismo da violência tão corriqueiro na cultura popular norte-americana (e em boa parte de seus livros), lembrou que até o título do filme sugere uma aprovação imediata, uma identificação óbvia com o protagonista do filme.

Valente, em menor escala, e Tropa de Elite, até o momento o mais popular produto de consumo da indústria cultural produzido no Brasil este ano, têm o mérito inegável de gerar discussão, de virar tema de conversa de bar e das páginas de opinião e dos cadernos de cultura da imprensa. Neste sentido, deixar o José Padilha em paz, como pedia minha querida amiga Márcia Pereira no artigo que iniciou a série de textos sobre o filme aqui no blog, seria negar justamente o maior atrativo deste filme de ação muito bem produzido e com uma campanha de marketing de primeiríssima qualidade.

Tanto o documentário Ônibus 174, filme que apresentou Padilha a seus primeiros fãs, quanto o livro Elite da Tropa, escrito pelo antropólogo Luiz Eduardo Soares e pelos ex-capitães do BOPE André Batista e Rodrigo Pimentel, são obras que nos levam a uma profunda reflexão sobre como a desigualdade social, a ausência do Estado, a falta de vontade política da sociedade, o esvaziamento econômico e a corrupção das instituições alimentam a escalada da violência na cidade de São Sebastião. Tropa de Elite, ao contrário, é refém da narração onipresente do Capitão Nascimento de Wagner Moura, uma espécie de Robocop tropical, desprovido de qualquer humanismo, amputado emocional que segue adiante apenas pelo medo de se transformar em mais uma vítima na guerra sem fim da cidade. É pouco.

A tortura é apresentada como método necessário para se adquirir informações nos dois lados da guerra. Todas as vezes que alguém é sufocado com um saco plástico, apanha brutalmente ou leva um cabo de vassoura ao ânus alcança-se o prêmio da informação certeira que nos poupará tantas outras vítimas. Aparentemente, nos cinemas cariocas, parte do público aplaude com gosto as cenas de seviciamento. Na sala de exibição aqui do Brooklyn a audiência também urrou em uníssono apoiando as execuções sumárias dos bad boys conduzida por Foster, um Rambo urbano de saias, vazia de idéias na selva de pedra de Manhattan.

Tropa é um filme feito à imagem e semelhança de Hollywood, para o bem (a qualidade técnica primorosa) e para o mal, com sua ausência de nuances e adoção do estereótipo fácil. Pobre não tem opção e cai no crime, mauricinho é alienado, maconheiro é traficante incubado, ongueiro é o ingênuo útil e policial militar é corrupto. E pronto. O roteiro reflete o desespero e a sensação de impotência de uma cidade sufocada de forma desigual, sedenta por encontrar algum arrego, algum ponto de contato com realidade tão grotesca, quiçá o piratão comprado na esquina por dois merréis. O piratão que nos mostrará na tela. Eis aí a perversidade maior do filme de Padilha. Em um retrocesso histórico, a voz do morro, em duas horas de entretenimento, resume-se a um único personagem adulto, oriundo da favela, com direito a fala, não imediatamente identificado como bandido - a mãe de um meliante assassinado pelo BOPE.

Tropa de Elite exclui a possibilidade de diálogo entre os diferentes personagens envolvidos na desgraça carioca. Padilha não abre janelas para esperanças ou denúncias e tampouco oferece um novo elemento de reflexão para seus espectadores. Seu simplismo é tão gritante que não pode sequer ser apreendido como uma obra de viés conservadora. Não há transformação a ser vislumbrada, à direita ou à esquerda – é matar ou morrer. Tropa é cinema de conteúdo pobre, vazio, um olhar de um ângulo só para um problema extremamente complexo, que passa fazendo um barulho maior do que merecia. Sinal dos tempos.

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