quinta-feira, março 16, 2006

Alguém quer as novas Marisas aí, pelamordedeus?


Ninguém imagina o que o correio nos reserva quando se vive fora da terrinha. Mesmo descontando a internet, o skype e os cartões telefônicos de US$ 2 que dão para falar duas horas sem perder o fôlego. Vem de um tudo. De um tudo. Neguinho gosta de mandar cartas. E encomendas. E presentes. Não, não estou reclamando, longe de mim. Mas aqui minha amiga Kika Serra vai entender o desconforto com precisão: esta semana me chegou uma encomenda daquelas. Os dois – dois! – novos discos da Marisa Monte. Um preto, “Infinito Particular”. O outro todo, assim, milhazes. Cores, muitas cores. “Universo Ao Meu Redor”.

Pronto, falei: eu tenho mesmo problemas com a dona Marisa. Com o pop certinho, a voz colocada, a batida um tico mais do que perfeita, tudo limpo demais. O problema, claro, é meu, todo meu. Ouço na maior cara-de-pau o novo Donald Fagen – isso mesmo, o ‘cara do Steely Dan’ – sem problemas. Confesso, confesso. “Morph The Cat”, eu comprei outro dia, tem produção impecável, certinha, quase no limite, mas seu Fagen arrisca ao tratar de temas como a paranóia reinante aqui em Bushland e oferece uma deliciosa conversa com o fantasma do...Ray Charles! Parece que desviei o assunto, mas aí é que mora o problema: sou brasileiro, cara! E ‘muzakar’ samba me dá nos nervos.

Lá atrás, no ‘Mais’, eu ouvia ‘Ensaboa” e voltava correndo para a gravação do Cartola. Dona Marisa me mandava um “Preciso Me Encontrar” e eu queria mais era Candeia ou, de novo, a versão do Cartola. Olha, a culpa é tão minha, mas tão minha, que até nas releituras de sucessos da MPB eu travava o ouvido – “O Que Me Importa”, do Cury, na vitrolinha aqui de casa só mesmo na interpretação contida do Tim Maia. Nunca tentei, mas acho que até conseguiria passar um tempo feliz com ‘Cor de Rosa Carvão’. Lá, a receita da dona Marisa, creio eu, deu mais certo.

Depois de ouvir com calma (o que um brasileiro isolado no Brooklyn acaba fazendo. Amigos, mandem mais presentes!) os dois novos discos, reconheço que são melhores, bem melhores, que o insosso “Memórias, Crônicas e Declarações de Amor”. Parênteses: a onda tribalista, daquele povo feliz porque ‘já sabe namorar, chutar a bola e beijar de língua’, nunca me pegou. Pois bem, o disco preto, o ‘pop’, tem até uma sacada genial, “Pernambucobucolismo”, lenta, que transporta o ouvinte para um lugar estranhamente calmo em que a mãe do Mano Wladimir vai e volta de Londres, de longe, em um movimento repetido, belo, inspirado. Mas a passagem é para uma faixa só. Não viajei nas outras músicas do álbum negro. No da Milhazes, o da flor, há a intenção de se mexer no samba, ‘bebopeando-o’ com ukelelês, ‘beatboxes’ e baixos acústicos. Legal, mas...não me pega não. O mix de sofisticação da Zona Sul carioca com o tal neo-hippismo das releitura diminutivas dos Novos Baianos (aqui, em “Três Letrinhas”) me beira a indigestão. Inho, inho, inho, eu já fiquei de saquinho bem cheinho. De novo, eu sei, a culpa é minha, rigorosamente minha.

Então, sabendo de antemão que ninguém vai ficar ofendido com a oferta (nem mesmo o bem-intencionado sujeito que me mandou os cedês), que muita gente fina curte a neo-diva portelense, que eles precisam urgentemente de uma boa reciclagem, alguém aí quer ganhar os dois – dois! – novos discos da Marisa Monte? A oferta, claro, é por tempo limitada e durará apenas até que o primeiro incauto se manifeste. Os discos - os dois! - embarcam, felizes, via Fedex, voando, voando, diretamente aqui do Brooklyn.

A Volta do Caveirão

A querida Ana-C leu, gostou e mandou há pouco o artigo que o Demétrio Magnolli escreveu na Folha de S.Paulo de hoje. Para quem não viu, em "A Hora e a vez do Caveirão”, o geógrafo e cientista social, das bandas da USP, olha para os ‘dez dias em que os militares abalaram as favelas cariocas’ e diz, entre otras cositas, que:

1) A negociação ‘sigilosa’ entre o Exército e o narcotráfico, representado pelo ‘Estado Paralelo’ instituído pelo Comando Vermelho no Rio de Janeiro, foi tão explícita, mas tão explícita, que só faltou os dois lados ‘trocarem embaixadores’ para agilizar o retorno das armas roubadas.

2) A mídia, encastelada em Higienópolis ou no Alto Leblon, caiu – ou quis cair – na velha narrativa do mocinho contra bandido e embarcou na batalha patriótica do Exército contra os traficantes. Cada um tem o Iraque que merece, né mesmo?

3) Fato: em dez dias de ocupação o Exército não capturou sequer um, unzinho, dos chefes do tráfico na cidade. Mas, usando de mandados judiciais ilegais (os tais ‘mandados coletivos’), revistaram os pobres (inclusive crianças) e invadiram suas casas com a complacência do Ministro da Justiça do governo dos companheiros.

4) A volta da ‘normalidade’, para quem vive na favela, é apenas a substituição do urutu pelo ‘caveirão’. Saem os tanques, voltam os carros blindados da PM com seus mega-fones intimidadores, que resumem a política de segurança dos Garotinho: a criminalização da população (até que se prove o contrario, todo favelado é suspeito) e o ‘conluio tácito com os traficantes’.

5 )Este ‘acordão ’se dá nesta nova fase da novela das drogas no país: vive-se o momento da territorialização explícita do narcotráfico, espécie de embrião de uma ‘colombianização’ do país, onde manda quem pode, negocia quem tem juízo e obedece quem não tem mais saída.

Em suma, o velho discurso de que o Estado precisa fazer sua parte nunca foi tão urgente. Ou bem se incorpora a favela ao país – com hospitais, postos de saúde, escolas, creches e, ‘ahá’, delegacias de polícia – ou estamos rumando em velocidade máxima para uma crise de soberania sem mais tamanho. Aos antropólogos da Gávea resta o consolo de que, ao menos por enquanto, ainda não estamos importando soldados ianques para fazer o trabalho sujo.

Para assinantes da Folha ou do UOL, o texto completo do professor Magnolli, uma ótima leitura, está aqui.

Medo 10x0 Nova Iorque



Por aqui, segue a goleada do medo. O cenário no teatro nova-iorquino anda tão modorrento, mas tão modorrento, que o tema mais palpitante do momento é o cancelamento de uma das mais aguardadas estréias da primavera. Depois de apresentada com sucesso de público e crítica em Londres, pelo Royal Court Theater, e ganhar prêmios a rodo, “Meu Nome é Rachel Corrie” corre o risco de não ser vista pelo público americano. Harold Pinter já chiou. Tony Kushner (“Angels in America”) e Vanessa Redgrave também, alem de outros, muitos outros artistas dos dois lados do Atlântico. Todos indignados com a decisão do New York Theater Workshop de cancelar a estréia do espetáculo baseado no diário e nas mensagens eletrônicas da jovem Rachel Corrie. Hoje foi o terceiro aniversário da morte da ativista americana, que teria 26 anos, e foi assassinada pelo exército israelense na Faixa de Gaza, quando tentava proteger a propriedade de uma família palestina. Sob fogo cerrado, o diretor do NYTW, James C.Nicola, disse hoje que tudo é um grande mal-entendido e que a peça não foi cancelada, apenas adiada. Depois de conversar com ‘líderes religiosos da comunidade judaica em Manhattan’, Nicola, que não viu “Meu Nome é Rachel Corrie” nos palcos de Londres, conta que decidiu modificar o calendário de seu pequeno teatro no circuito off-Broadway por conta das mudanças no Oriente Medio, com Ariel Sharon em coma, o Hamas assumindo o governo palestino e o ‘caráter claramente político da peça'. É ruim, hein? Quer dizer que os diretores do NYTW não sabiam do ‘caráter politico’ do texto quando eles incluíram a peça, com uma antecedência nova-iorquina, no calendário-2006 de seu teatro do East Village? Os responsáveis pela adaptação teatral, o genial ator Alan Rickman (o sinistro professor Severus Snape dos filmes do Harry Potter)e a editora Katharine Viner, do Guardian, disseram que não há adiamento coisíssima nenhuma e acusaram os diretores do NYTW de covardia e de promoverem censura artística. No teatro do Nicola, eles avisaram, a peça não entra mais em cartaz. Como provincianismo pouco é bobagem, Nova Iorque vê o medo, mais uma vez, triunfar. Medo que Corrie, aliás, não teve, naquela manhã em Rafah, na fronteira egípcia, há exatos três anos, quando, de acordo com o The International Solidarity Movement, foi fuzilada pelo exército de Sharon à sangue frio.

quarta-feira, março 15, 2006

ENTREVISTA/Danuza Leão

Conversei com a colunista Danuza Leão em minha mais recente temporada carioca, no terraço do Hotel Everest, na Prudente de Morais, com direito à vista para a Praia de Ipanema. Dá até saudade! Danuza conversou comigo sobre o sucesso de seu mais recente livro, "Quase Tudo", e uma porção de outras coisas mais. O bate-papo foi para a revista semanal portuguesa "Sábado", que o publicou este mês. Aí vai uma versão 'abrasileirada', maior do que a publicada, de nossa conversa.

DANUZA LEÃO

Verão carioca, sol forte e céu azulado sem nuvens na cobertura do Hotel Everest, em Ipanema. Danuza Leão, 73 anos, me chega sorrindo, óculos de sol, cabelos curtos, calçando um par de ténis caprichosamente cor-de-rosa. E disposta a contar “Quase Tudo” (Cia. Das Letras, 224 páginas), título de sua autobiografia, há 13 semanas na lista dos campeões de audiência das livrarias brasileiras. Com mais de duas centenas de fotos, este é um livro de memórias diferente. Para começar, não há lugar para nostalgia. Sim, Danuza foi casada com o jornalista Samuel Wainer, um dos príncipes de Getúlio Vargas, quiçá o mais emblemático dos presidentes brasileiros. Sim, ela conta histórias dos poderosos da política brasileira e internacional nos anos 50 e 60. E também os tiques do jet set e dos intelectuais, suas festas, seus amores, suas esquisitices. Mas não há desejo de se lembrar de tempos doirados, que não voltam mais. Autora de um livro de reminiscências que detesta olhar para o passado, Danuza descreve com detalhe suas histórias de amor, especialmente com Wainer e com o compositor António Maria, seu segundo marido. E também suas narrativas de perda, concentradas em um mesmo espaço de tempo, com as mortes da irmã Nara Leão, a musa da Bossa Nova, atacada por um tumor no cérebro, o suicídio do pai e, especialmente, o acidente na Região dos Lagos fluminense que a tomou seu filho, o jornalista Samuca Wainer. “Naquele momento pensei que nunca passaria por sofrimento maior, mas passei, e quantas vezes, e durante quantos anos – como agora”, escreveu. “Quase Tudo” também oferece aos leitores um estilo danuziano de escrever, que ela nega reconhecer, e que já se esboçava em sua coluna social no "Jornal do Brasil", em suas crónicas semanais na "Folha de S.Paulo", assim como em seu livro de etiqueta, o também campeão de vendas "Na Sala com Danuza".

-O livro surgiu mesmo de um artigo sobre a sua relação com o Getúlio?
-Quando a Folha de S.Paulo me pediu para escrever um artigo contando minha visão da morte do Getúlio, 50 anos depois do suicídio, para um caderno especial, eu gostei do resultado, sabe? Achei que humanizou a figura do presidente, que deu a visão de quem estava de dentro. Bem, dez dias depois de meu artigo ser publicado quatro editoras haviam me procurado. Mas minha resposta era uma só: não, nem pensar!
-Imagino sua reacção ao passar as últimas semanas abrindo os jornais e dando de cara com “Quase Tudo” no topo das listas dos mais vendidos...
-Agora estou mais tranquila, mas no início foi muito estressante. Fiquei um pouco histérica. Achei tudo um pouco demais, sabe?
-Sei não. O livro já começa de forma arrasadora com você partindo para Paris adolescente, a primeira modelo brasileira internacional, dividindo as atenções na Discothéque com Simone Signoret e Anouk Aimée. E nos revelando detalhes picantes como a paixão de Marlon Brando pelo actor francês Christian Marquand...
-E ele acaba dando o nome de Christian para seu primeiro filho...
-Então! “Quase Tudo” é uma delícia...
-Mas sou insegura. E tenho a consciência de que o que escrevo é inteiramente banal. Fico muito mal quando me chamam de escritora, um título pomposo. Também não gosto que me nomeiem jornalista. Tive maridos que eram jornalistas de fato – Samuel Wainer, António Maria e Renato Machado. Eu apenas sento na minha cadeira e escrevo.
-Mas eu imagino que o Samuel deveria falar de jornalismo o tempo todo...
-Sim, mas não comigo! (risos). Eu tinha vinte anos, não tinha a menor ideia do que era fazer um jornal. Mas ouvia e via tudo. Quando fui convidada, décadas depois, para fazer uma coluna diária no JB, vi como não era nada perto deles. Como eles eram incríveis e eu era uma amadora.
-Mas quando você percebeu que o livro havia conquistado os leitores?
-Foi quando a primeira edição, de 40 mil exemplares, foi para as ruas no dia 19 de Novembro. Eu marquei uma viagem para o Natal e comecei a receber telefonemas de meu editor que dizia, mandei rodar mais 20 mil. E mais 30 mil. Até que ele me disse que era assustador o que estava acontecendo.
-E você tem alguma ideia do motivo deste sucesso?
-Nenhuma. A única coisa quhttp://www.blogger.com/img/gl.bold.gife posso dizer é que eu tinha um ano e três meses para terminar o livro. E eu entreguei em nove meses. Ou seja, ele estava pronto. Era só eu contar. E meu critério foi o mais simples possível: só incluí no livro as coisas importantes da minha vida.
- Mas você manteve anotações ou mesmo um diário durante algum tempo?
-Tudo estava apenas guardado na minha memória. Inclusive histórias como a do Aga Khan (líder espiritual do Paquistão). Já idoso, o Aga vivia na Côte d’Azur e, uma vez por ano, no dia de seu aniversário, ia a Karachi e, em uma cerimónia em praça pública, subia em uma balança. Ficava de pé num dos pratos até que o outro atingisse seu peso, com diamantes e barras de ouro lá colocados. Esta lembrança me fez literalmente voltar no tempo e me recordar, por associação, da história de uma amiga que passou uma temporada no palácio de um marajá, na Índia. Todas as manhãs ela acordava e via, da varanda de seu quarto, um jardim maravilhoso, e totalmente diferente! Porque uma das delicadezas do milionário com seus hóspedes era o de trocar o jardim todas as noites. E assim as coisas vieram vindo...
-Foi um exercício de memória saboroso ou doloroso?
-Foi mais sofrido do que gostoso. Bem mais sofrido.
-Porque existiam temas em que você preferiria não ter tocado...
-Temas como as mortes de meu pai, de meu filho e de minha irmã, ou mesmo o casamento com António Maria, eu nunca jamais havia aberto minha boca para falar com ninguém. Nem em conversas com amigos, nem com meu psicanalista. Percebi que sou uma pessoa que me exprimo melhor escrevendo, sozinha, do que falando. E de repente, quando comecei a escrever, estes temas foram surgindo e me fizeram bem. E, se eu iria escrever, de verdade, não poderia omitir fatos importantes da minha vida.
-O cineasta Cacá Diegues, que foi casado com sua irmã Nara, teve a sensação de que você escreveu ‘Quase Tudo’ na terceira pessoa, como se olhasse para sua vida do prisma do leitor...
-Sabe que não tive preocupação alguma com estilo? Apenas nos momentos mais difíceis, como quando eu falava da morte de meu filho Samuca, tive o cuidado enorme de não cair na pieguice, no sentimentalismo. Mas acho que ajudou o fato de eu não ser melodramática.
-A parte que mais me emociona é quando você resolve falar da sua impossibilidade de relacionamento com Felipe, seu neto que é a cara de Samuca...
-Eu acho que escrevi ali (Ele precisava de mim, mas eu não poderia dar o que ele queria. Quando o via, via Samuca. Nunca pude chegar muito perto dele. As dores podem até melhorar, mas passar, não passam. Nunca.) o que nunca consegui falar para ele, toda esta dificuldade que eu tenho de me relacionar com ele.
-Você conta que a morte de Samuca a tornou alcoólatra. Não há como deixar de pensar em um paralelo entre a sua própria experiência, você chegou a experimentar heroína, e o outro lado da história, quando tem de lidar com seus filhos adolescentes, experimentando drigas. Você trata do tema de modo tão natural...
-Natural, sim, mas complicado! Não foi fácil o que eu passei. Vivi o dia-a-dia das intervenções médicas. E lidei com isso do jeito que foi possível, sabendo de tudo, às vezes com esperança, às vezes descrente. A realidade é que, com drogas, você nunca sabe o fim da história. Nunca. Não tem jeito. A vida é que se encarrega de ir acertando as coisas. E, olha, as drogas que a gente usa são sempre diferentes daquelas que os filhos usam, sabia? É igualzinho a sofrimento. Me dê a dor toda para mim que eu seguro tudo, mas não vai me fazer meus filhos sofrerem...
- Você traça um perfil profundo de seu pai e trata do suicídio dele, planejado nos mínimos detalhes...
-Um bom tempo depois eu fiquei me cobrando, pensando como não havia pensado nisso antes, pois era claro que aquilo iria acontecer. E a gente sempre pensa que poderia ter evitado, que as mortes que acontecem perto da gente poderiam ser estancadas. Mas meu pai estava lidando mal com a velhice e quando ele soube da doença da Nara tudo ficou ainda mais complicado. Ele era uma pessoa muito profunda, ele não suportava a ideia de ver a agonia da filha.
-Ele não viu a morte da filha e você acabou perdendo, de uma forma brutal, seu filho, em um acidente. Você aguentou...
-Ah, mas eu tinha que aguentar. Eu tinha! Evidentemente que é muito difícil comparar dores, mas se por um lado a maior dor do mundo é você perder um filho, por outro lado eu sei que foi rápido para ele. Foi instantâneo. E a dor que eu tive com Nara foi a de saber que ela, durante tantos anos, sabia o que estava acontecendo. Ela esteve consciente até o último momento. Ela me deu um outro tipo de dor, mas que também foi de matar.
-Você praticamente diz que ‘a Bossa Nova passou lá em casa em eu nem percebi’ (risos). É verdade isso, Danuza?
-Mas é claro! Eu visitava meus pais e via aqueles meninos por lá, uma galera. Não teve uma época em que um povo fazia rock na garagem? Então, eles tocavam violão na sala lá de casa (risos). Tom Jobim, João Gilberto, Carlinhos Lyra. E eu não vi nada. Na-da! (risos)
-E quando você se deu conta que era irmã de uma das figuras mais importantes da música brasileira?
-Eu acho que a ficha caiu mesmo quando eu voltei da Europa e Nara ia estrear “Opinião”. Já a tinha visto em “Pobre Menina Rica”, uma coisa mais intimista. Mas quando a vi protagonizando aquele libelo contra a ditadura eu pensei – mas aquela menina tímida, quietinha, meu Deus, a minha irmãzinha, no palco, está lá, fazendo horrores!(risos)
-A sua mãe sai do livro como uma figura quieta, misteriosa...
-Mas até hoje quando me perguntam quem foi minha mãe eu não sei direito o que responder. Não sei quem ela foi. Mas tem um momento que eu conto no livro que, para mim, foi importantíssimo. Foi crucial na minha vida. É quando minha mãe toma, sozinha, uma condução no Rio e vai para Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo, e me conta que aquela foi a maior aventura da vida dela. Ali tive uma pena enorme de minha mãe, uma pessoa que não viveu. Ela simplesmente não viveu. Era como se ela lamentasse que tanta coisa havia acontecido na vida de nós todas e ela simplesmente não viveu nada.
-Você foi muito precoce, conheceu o jet set mundial com 17 anos. A cultura da celebridade mudou muito o ‘grand monde’?
- Acho que sim. Talvez a elite até tenha permanecido a mesma, mas o mundo mudou. Ela ficou ultrapassada.
-De onde vem esta naturalidade nas relações com os poderosos? Seu pai era um ser politico?
-Não. Isso vem de Samuel. Se eu não tivesse me casado com ele talvez jamais teria entrado neste mundo. E eu me interesso muito por política. Meu filho Samuca era muito interessado em politica...
-Falando em politica, como vai a cena brasileira, em que a corrupção com o PT no governo ganha aspectos até mesmo brejeiros, com os dólares sendo transportadas pelas cuecas?
-Bem, corrupção é corrupção, tem que se levar o dinheiro de algum jeito, não é mesmo? Aí não tem etiqueta (risos). Mas este facto que foi tão festejado, inclusive por mim, de eleger um operário para a presidência e que as coisas iriam mudar, se revelou uma frustração sem mais tamanho. E isso apesar do carisma de Lula, que convence, especialmente, hoje em dia, as classes menos favorecidas. Sabe o que é pior nisso tudo? É que eu nunca pensei que teria tanta saudades de Fernando Henrique Cardoso (risos).
-Então, nas eleições deste ano...
-Ainda não sei o que farei, mas não há a menor hipótese de votar novamente em Lula. E o que mais ouço com as pessoas com quem me dou, inclusive com os mais empolgados com o PT, é que eles não aguentam mais nem ouvir a voz de Lula. Quando ele aparece na televisão eles desligam o som. E Lula abusa, apela muito. Lá vem ele com as raízes, a mãe. Ah, chega, né? Esta sensação de ressaca eterna, nem com o FHC!
- Então vamos deixar a dor de cabeça para lá e falar de Portugal. Durante os anos 70 você trabalhou na TAP recebendo a elite portuguesa...
-Pois é! Eu era uma das juradas do Programa Flávio Cavalcanti, de grande sucesso na televisão. E uma das anunciantes era a a TAP, que queria melhorar sua imagem no Brasil. Tomara que ninguém fique bravo comigo em Portugal, mas o apelido da empresa por aqui era ‘tamancos aéreos portugueses’. Joaquim de Carvalho, que era o director da empresa no Brasil, começou a mudar esta imagem. Patrocinava actores que viajavam pela TAP e um dia me chamou para receber os V.I.P’s. Ele queria alguém conhecido para marcar presença e foi assim que minha história com Portugal começou.
-Um trabalho divertido...
-Sim, mas uma vez tive de recepcionar o Rui Patrício, ministro dos Negócios Exteriores do governo Marcelo Caetano. Lá, ele deu uma entrevista e disse algo como ‘nós não vamos deixar acontecer nas colónias africanas o que deixamos acontecer no Brasil’ (risos). Eu olhei para ele, mantive o sorriso, mas pensei: eu não acredito no que estou ouvindo!
-E você me contava que a publicação do livro a levou a descobrir suas origens lusas...
-Pois é. Meu pai saiu do Espírito Santo, foi para o Rio de Janeiro, e perdeu o contacto com a família. Depois que “Quase Tudo” foi publicado, recebi a carta de um primo, Zeca, que eu jamais conheci, me contando que nossa família era originalmente de Ericeira, os Barbosa Leão. E o filho que veio para o Brasil era um estroina, que estava jurado de morte. Agora, o melhor: o irmão que ficou em Portugal acabou virando Bispo de Porto. Fui para a internet e lá está o tal bispo e, apesar de não eu não ser aficionada por genealogias, fiquei impressionada com uma história que é um pouco demais para a minha cabeça – há um santo na família! Um dos Barbosa Leão foi canonizado!(risos)
-E não deu vontade de conferir isto em Ericeira?
-Eu quero muito ir a Portugal. Só tenho muito medo porque ouço dizer que está tudo muito moderno. Estou relendo pela quinta vez ‘A Cidade e As Serras”, e o que eu sonho é com o Portugal do Eça. Não quero ver auto-estrada! Queria percorrer a região do Douro. Hoje eu sei que não há nada mais que eu quero do que parar em uma quinta fantástica à beira do rio e por lá ficar.
-Você escreve que ‘deixar meus filhos livres foi uma forma de ser boa mãe’. Volta e meia você volta a esta mesma tecla - liberdade. Eu posso entender “Quase Tudo” como uma ode à liberdade?
-Pode. Pode, sim! Meu livro é uma comemoração do que eu acho que há de mais importante na minha vida – a liberdade. E esta noção da importância de ser livre me foi passada pelo meu pai, quando eu era menina. Ele me mostrou que a gente não deve se forçar a nada. Por exemplo, ontem, saí para jantar em um grupo de cinco pessoas. Que eu adoro, mas quando voltei para casa pensei: mas por que é que eu fui, hein? Estava tão feliz em casa lendo “A Cidade e As Serras”. Ora, não exerci a minha liberdade de dizer que estava felicíssima com meu . E isso é o que devemos fazer o tempo todo, na medida do possível, fazer exclusivamente o que queremos.
-Mas sem pensar na etiqueta social?
-Por favor! Não devemos fazer nada porque o social manda, as convenções ordenam. Isso é uma grande asneira. Faça só e apenas o que você quer. É engraçado, como me acham um pouco extravagante, as pessoas já encaram com naturalidade quando eu pergunto quem vai jantar, quantas pessoas estarão em tal festa. E muitas vezes eu digo ‘ah, querida, nem pensar!’. Agora, muita gente não me convida para eventos sociais por causa disso? Claro! Se é uma pena? Não, graças a Deus! (risos).
-As festas de hoje também são diferentes, não?
-Sabe que depois que o livro foi publicado eu me lembrei de algumas histórias que acabaram não entrando no livro? Outro dia li uma coluna social que era um merchandsing total. Assim: as flores são da casa fulano, o bufe de sicrano, o D.J. é a celebridade tal. Enfim, a festa é uma propaganda só. E eu dava muita festa. E não me lembro de nenhuma festa minha ter flor. Para quê flor, meu Deus? Tinha uísque, gelo e água. E as festas só tinham um objectivo: a gente se divertir, mais nada. E como nos divertíamos! Hoje as festas são para vender produtos. Não entendo isso.
-Você sente falta de algum personagem que era fundamental em suas festas?

-Eu sinto falta de mim mesma! Daquela que dava festas sem parar e que não dá mais.
- Mas, se fosse convidada, você voltaria a fazer uma coluna social?
-Nem morta! Coluna é uma pauleira e eu não estou disposta a enfrentar isso novamente. E só aceitei na época porque eu sou assim, quando o cavalo passa na minha frente encilhado, eu monto mesmo. Agora, eu adorei fazer a coluna, embora tenha apanhado muito. Por um lado, é muito vibrante fazer uma coluna. E a vida dentro da redação, especialmente aquela redação do JB dos anos 90, era uma maravilha. E tem algumas coisas que eu me lembro com grande satisfação, como as campanhas pela iluminação do morro Dois Irmãos e de se baptizar o aeroporto internacional do Rio de Janeiro com o nome de Tom Jobim. Claro, não é todas as vezes que eu olho para o morro e penso nisso, mas acho algo legal que eu fiz (risos). Eu tinha muita liberdade no JB para ter opinião, inclusive sobre política. Agora, por outro lado, é muito trabalhoso e difícil fazer uma coluna social como a que eu fazia. E você nunca vai saber, mas nunca, quem está tentando se aproveitar do espaço para se promover.
-Como é sua rotina hoje?
-Acordo todos os dias às sete horas em ponto. Como metade de um mamão papaia e corro na Lagoa. Volto, leio os jornais e às 11h faço um aula de uma hora de ginástica. Tomo banho, almoço e escrevo. Saio no máximo duas vezes por semana, para jantar fora. E volto para casa imediatamente.
-Nenhuma saudade da época em que você trabalhava na noite carioca, recebendo os famosos no Hippopotamus?
-Mas nem pensar! (risos) Outro dia eu estava saindo do jantar e passamos em frente à Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, um lugar agitado, repleto de jovens, e pensei quanto precisariam me dar para eu entrar em naquela boate. Cinco mil dólares? Não, não entrava. Dez mil? Hum, talvez entrasse, mas não ficaria mais que vinte minutos. Fiquei ali, fazendo estas contas.(risos)
-Apesar de ‘Quase Tudo’ ser um livro de memórias, ele não cai no saudosismo. E o Brasil vive uma onda nostálgica – a série sobre os anos dourados de Juscelino Kubitschek na TV Globo, o documentário sobre Vinícius de Morais...
-Está se vendo isso, não? As pessoas têm uma certa tendência em achar o passado melhor do que o presente, mas este não é o meu caso. Sabe quando eu fui mais feliz na minha vida? Agora! “Quase Tudo” foi uma ideia do Millôr Fernandes, que adorei, já que a editora não gostou de meu título, que seria “Por Enquanto”. Mas o cerne é o mesmo, ou seja, de que nada acabou.
-Como mostra o fim do livro, no encontro especial com um misterioso homem de Cuba, no Café de Buci, em Paris, com quem você vive um romance-relâmpago...
-E aquilo foi incrível. E aconteceu. E aconteceu comigo. E há alguns poucos meses. Eu não conseguia acabar o livro de jeito nenhum. Não queria terminar dizendo que vivo uma vida tranquila, em casa, escrevendo, que quase não saio e que estou muito bem assim. Não! Peguei então um avião e achei que longe do Rio poderia me vir uma ideia melhor. Mas o que me veio foi muito mais do que uma inspiração, foi um acontecimento, mais um! (risos).
-A biografia que um jornalista brasileiro escreveu sobre seu segundo marido, António Maria, acaba de ser reeditada por conta do sucesso de ‘Quase Tudo’. Nela ele conta o episódio de um aborto que você teria feito depois do fim da relação com Maria, quando você deixou o jornalista. Isso a chateou?
-Olha, eu soube disso. Ouvi dizer. Não li o livro dele e nem vou ler. Não fiquei chateada, não vou polemizar. Minha vida foi pautada pela elegância, e ela está toda contada em meu livro.

ENTREVISTA/Mario Vargas Llosa

A conversa com Mario Vargas Llosa foi publicada na revista semanal portuguesa 'Sábado' na última semana de dezembro. Aqui embaixo vai uma versão mais ou menos'abrasileirada' da entrevista.

MARIO VARGAS LLOSA

É peruano e tem nacionalidade espanhola - passa grande parte do tempo em Madrid. É escritor e também político - em 1990 candidatou-se à presidência do Peru, mas perdeu para Alberto Fujimori. Tem 69 anos e três filhos.

"Todos Temos Os Nossos Demônios"

Eduardo Graça, de Nova Iorque - Eterno candidato ao Prêmio Nobel de Literatura, Mario Vargas Llosa foi um dos participantes do Rolex and Mentor Protégé Arts Initiative, um incrementado programa de apoio às artes que teve sua noite de gala em Manhattan. Durante um ano, foi o mentor de um jovem escritor colombiano: Antonio García Ángel, 38 anos mais jovem do que ele, às voltas com seu primeiro romance. Um dos ícones do liberalismo na América Latina, Vargas Llosa conversou com a SÁBADO no Salão Verde do Teatro Estadual de Nova Iorque, dentro do Linclon Center. Confortavelmente instalado em uma cadeira de veludo, o escritor falou sobre o nome romance que acaba de escrever, o regresso de Fujimori à América do Sul e aquele que considera ser o maior problema de nossos tempos: a intolerância religiosa. "O que acontece hoje no Oriente Médio é muito, mas muito similiar com o que se viu em Canudos, no sertão baiano", diz o autor de "A Guerra do Fim do Mundo".

-O senhor passou o último ano trabalhando com um jovem escritor, às voltas com a publicação de seu segundo romance. Como o senhor se saiu no papel de tutor?
-Eu juro que me policiei para não interferir muito no ato íntimo de escrever do António. Sei que cada um de nós tem suas próprias manias, medos e demónios. Depois que ele me mostrava um capítulo, oferecia-lhe minha opinião, algumas sugestões, conversávamos sobre o tipo de problema que ele estava enfrentando em determinada etapa da criação. Mas sempre tinha em mente que o importante era ele descobrir o tipo de escritor que ele gostava de ser. E nós fomos descobrindo juntos que este escritor é bem diferente do que eu sou. Ainda bem! (risos)
-E que tipo de escritor o senhor é?
-Hum...Isso é mais bem observado por quem está de fora. Acho que pouquíssimos escritores tiveram uma ideia clara de que tipo de artista seriam quando estavam começando. É algo que se descobre escrevendo, publicando, enfrentando o mundo.
-E qual foi a maior surpresa neste trabalho a quatro mãos?
-O António me mostrou o projecto que tinha para um romance e eu o achei engraçado e inteligente. Mas o fantástico é que, neste ano em que trabalhamos juntos, ele mudou tudo. Aquele que seria um personagem pequeno na trama, por exemplo, se transformou no protagonista.
-E o senhor diria que também aprendeu com o António?
-Eu aprendi sim. Fiquei absolutamente fascinado, por exemplo, pela maneira como ele foi criando a história dele. E tive a oportunidade de observar como um outro escritor ia traçando, passo a passo, sua narrativa. E nossas conversas, nossas divergências de opinião ou entusiasmo comum sobre diferentes autores, se impregnaram em nosso trabalho.
-O senhor teve a oportunidade, quando jovem, de contar com um mestre?
-Faulkner! William Faulkner! (risos). Se eu pudesse, ele teria sido meu mestre. Mas acho que aprendi muito lendo seus livros. Eu li todo Faulkner acompanhado de um pedaço de papel e um lápis, fascinado com suas construções, com seu poder de invenção, sua noção de tempo, sua capacidade de criar atmosferas e de apresentar seu ponto de vista de uma forma exacta. Ah, como teria sido fantástico! Ou não. Pois quem sabe eu ficaria completamente paralisado pela presença do mestre? (risos)
-E o que o senhor tem escrito nos últimos tempos?
-Acabei de terminar um romance, que tem o título provisório de “Travessuras da Menina http://www.blogger.com/img/gl.bold.gifMá”, e o que posso adiantar é que se trata de uma história de amor. Um caso amoroso que dura décadas, começa em Lima nos anos 50, passa pela Paris dos 60, a Londres dos 70 e Madrid dos 80.
-Pelo roteiro dá para perceber que o livro tem um quê de autobiografia...
-Não! (risos) Apenas no cenário, porque de fato vivi nestas cidades naqueles períodos, mas o romance, que é o cerne do livro, é completamente fictício.
-António é colombiano, o senhor é peruano. Violência e miséria são características das duas sociedades andinas. Fico cá a pensar como se davam as suas conversas sobre a América Latina...
-Você pode imaginar, pois nós não vivemos uma situação lá muito brilhante, não é? Existe apenas um aspecto que preciso destacar sempre, e com voz alta: nós temos muito menos ditadores do que tivemos no passado. E este é um avanço importantíssimo. Por outro lado, recentemente há um aumento enorme do populismo no continente, muitas vezes conectado com corrupção, um obstáculo grande à democratização total do continente. Diria que falávamos o tempo todo de uma América Latina complicada, mas que não está mais em estado de desespero.
-O Peru vai eleger um novo presidente em Março e pesquisas de opinião mostram parte da população favorável ao retorno do ex-presidente Fujimori, acusado de assaltar o tesouro peruano. O senhor perdeu as eleições de 1990 para Fujimori e prometeu nunca mais voltar à politica. Como vê a aceitação popular de um homem que governou seu país como ditador?
-Não é algo que me surpreenda nem um pouco. O que me surpreende, na realidade, é o fato de menos de 50% das pessoas desejarem que ele retorne. A tradição do caudilho ainda é muito forte na América Latina. O próprio Trujillo, tema central de meu mais recente livro, “A Festa do Chibo”, era adorado na República Dominicana, apesar de toda repressão. Mas, sabe de uma coisa? Não são apenas os países do Terceiro Mundo que sucumbem a esta tentação do caudilho não. Até mesmo civilizações muito fortes se esquecem das tradições e abraçam, aqui e ali, o tipo do governo do homem forte, que poderá resolver todos os seus problemas. Basta olhar para os lados.
-Como o senhor viu a absorção da globalização nos diferentes países em que viveu?
-As experiências foram bem diversas. Eu acho que o país que entendeu melhor a globalização, que criou politicas mais adequadas para a nova realidade, e que prosperou mais, foi a Espanha. Quando penso na Espanha de hoje vejo uma das mais vibrantes e modernas democracias do globo, que se abriu economicamente e, ao mesmo tempo, se recusa a ser dependente. Já na França, houve uma resistência muito maior para se entender que o mundo mudou.
-O senhor faria uma relação desta dificuldade de aceitar a nova realidade com as recentes manifestações populares, algumas delas extremamente violentas, na França?
-Eu acho que um dos motivos fundamentais deste pandemónio é justamente o arcaísmo da sociedade francesa, que segue marginalizando milhares de imigrantes, pessoas que não têm uma possibilidade real de se integrar na sociedade.
-Mas e o aspecto religioso? Tanto na Espanha como na França está presente uma minoria religiosa, islâmica, que se sente excluída da Europa cristã...
-Este é o grandes problema de nosso tempo. E seu nome é fundamentalismo. O fanatismo religioso – seja islâmico, seja cristão – sempre cria tensões. Agora, não podemos desconsiderar que certas crenças são, por sua própria natureza, menos propensas à integração. O islamismo resiste à integração de forma intensa. Outras sociedades européias, como a holandesa e a britânica, fizeram um esforço imenso para integrar suas comunidades muçulmanas. E, como vimos, não deu certo. Infelizmente, não tenho uma receita para esta questão. Mas é sempre importante lembrar que a maioria dos imigrantes busca, sempre, a integração. E que foi um pequeno grupo de fanáticos que transformou o fundamentalismo no maior desafio do século XXI, na maior fonte de violência e de terror de nossos tempos.
-O senhor escreveu sobre o fanatismo de uma forma visceral em “A Guerra Do Fim do Mundo”, em que trata de António Conselheiro e seus seguidores em Canudos, no nordeste brasileiro, no fim do século XIX. Este é um tema que, de certa forma, o persegue?
-Ouso dizer que o que aconteceu no Brasil, no sertão baiano, é muito, mas muito similar com o que acontece agora no Oriente Médio. Um era cristão, o outro é muçulmano, mas o fundamentalismo é o mesmo. A pobreza e a ignorância são as mesmas. O messianismo é o mesmo. As raízes, meu caro, são exactamente as mesmas.

Diretinho da Redação (42)


A coluna da semana é sobre esta bobagem de que o Rio tem 'vocação de cidade aberta'. Ela também pode ser lida no Direto Da Redação.

Para Ser Gay No Rio É Preciso Ser Macho

É comum ouvir de amigos cariocas que o preconceito contra homossexuais no Rio de Janeiro é obra de ficção. Que a cidade está cada vez mais aberta para o ‘gay way of life’ e em eventos como o famoso festival de música realizado no Museu de Arte Moderna (MAM) uma gente bonita, livre e sem preconceitos curte a vida como se a capital fluminense fosse a Berlim dos anos 20. Não foi exatamente o que aconteceu neste carnaval em Ipanema.

Quando o casal Hyldo, 24, e Maurílio, 23, resolveu se beijar à luz do sol da Vieira Souto, o pau comeu. Os jovens não só foram agredidos por um grupo de ‘pit boys’ como ridicularizados por policiais. De acordo com testemunhas, os militares se recusaram a reprimir os agressores e sequer anotaram seus nomes. E os civis desencorajaram os namorados a registrar a ocorrência. Para quê? Afinal, não vai dar em nada mesmo, diziam.

Pode-se argumentar que este é um caso isolado. Não é. Esta semana a jornalista Paula Autran, do Globo, acompanhou o ‘beijaço’ que reuniu na mesma Ipanema namorados de todas as preferências sexuais em um protesto contra a agressão sofrida por Hyldo e Maurílio. A repórter conta que uma pesquisa fresquinha, realizada pelo Grupo Arco-Íris em parceria com a UERJ e Universidade Cândido Mendes com homossexuais cariocas, mostra que 60% dos gays da cidade já sofreram algum tipo de agressão física apenas e tão-somente por conta de sua sexualidade. Como se trata de uma das metrópoles mais violentas do planeta, a distinção é importante – para ser gay e viver no Rio de Janeiro é preciso ser muito, mas muito macho.

Hyldo e Maurílio engrossam a triste estatística. Levaram socos e pontapés e foram agredidos verbalmente, na frente de quem tentava apenas curtir o baticum na praia mais famosa da cidade. A cena, de acordo com o deputado Carlos Minc, uma das poucas vozes interessantes da depauperada cena política carioca, depõe contra a vocação de ‘cidade aberta’ do Rio, berço da democracia morena, em que todos têm voz e vez. Balela.

O Rio da ‘barbárie homofóbica’ segue sendo a província de sempre, em que o que é considerado imoral pela maioria da população é tolerado – vá lá, até festejado - em locais como o festival de música com ingressos a R$ 100, mas condenado ao menor risco de o comportamento virar discurso. Quando isso muda? Um bom começo é denunciar o comodismo perigoso dos guetos culturais e parar de acreditar que os modernosos do MAM fazem, sozinhos, o carnaval.

segunda-feira, março 06, 2006

Nem Aí

Quem escreve é o colunista Paul Krugman, no NYT de hoje, reagindo à receita de Bush, na Índia, para se incrementar a economia ianque (“menos impostos, mais livre mercado, menos entraves legais para se fazer mais negócios”):

Mas por que é que os norte-americanos não dão mais crédito algum à política econômica do governo Bush? Eu penso que é porque a maioria da população percebe, corretamente, que o presidente não está nem aí para o cidadão comum. Nós vivemos um momento em que a maioria dos americanos se sente inseguro, economicamente, mas uma minúscula elite cresce com pujança, ficando cada vez mais rica. E o problema do Bush é que ele se identifica tanto com estes felizardos - a minoria rica – que parece ter perdido qualquer habilidade de trocar dois dedos de prosa com o norte-americano comum. Ele não sofre como eles, e deixa isso cada vez mais claro.

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Diretinho da Redação (41)

De volta a Nova Iorque, aí vai a coluna da semana, já online no Direto da Redação. A camisa, aparentemente, ainda não está à venda.

Eles Não Se Emendam

“Eu fui caçar com o Dick Cheney e tudo o que consegui foi esta camiseta manchada de sangue”. Parece piada de mau gosto, mas a imagem que circulou pela internet nos últimos dias, com o texto impresso em uma camiseta branca, revela um pouco do sabor de fim de festa, da ressaca causada por uma administração trapalhona, inconseqüente e teimosa.

O acidente em que o vice-presidente se envolveu quando tentava abater animais no rancho de uma milionária republicana, no Texas, foi parar na primeira páginas dos jornais. Depois de mais de 24 horas de espera por uma declaração pública e de uma entrevista desastrosa na Fox News – a rede de televisão de seu compadre Rupert Murdoch – em que até reconheceu ter ‘alvejado um amigo’, mas em que enfatizou principalmente seu poder de ‘manter certas informações em segredo’, Cheney viu sua aprovação cair a 29% dos eleitores norte-americanos. Não se tem notícia de um vice-presidente tão impopular assim na história moderna do país. Em tempo, o ‘amigo alvejado’ passa bem e não corre risco de vida.

A situação do governo republicano, no entanto, parece cada vez mais terminal. O presidente viu sua própria aceitação chegar, esta semana, a 33 pontos percentuais abaixo de quando Bill Clinton enfrentava o processo de impeachment no Congresso, em meio ao escândalo Mônica Lewinsky. O bom leitor imagina então que a semana de Bush foi das mais nervosas, com os gênios da Casa Branca bolando uma reação de peso, especialmente em um ano eleitoral, com expressiva renovação do Congresso.

Qual o quê. Pouco se ouviu falar de Carl Rove, o principal estrategista da corte ‘neocon’, ainda às voltas com o processo de vazamento de informação que revelou a identidade de uma agente secreta da C.I.A. na tentativa de calar seu marido, um diplomata disposto a denunciar as armações do vice-presidente ruim de mira ao formatar seu caso contra o Iraque. Aliás, um humorista do primeiro time anunciou, com pompa, na televisão, que finalmente se descobriu uma das tais ‘armas de destruição em massa’ tão alardeada por Cheney– só que ela não foi encontrada em terras de Saddam e sim no sul do Texas, e o tiro saiu pela culatra.

George W. Bush parece ignorar a ópera bufa em que se transformou seu governo e passou as últimas horas viajando pela América Profunda, promovendo mais uma de suas cruzadas – a do fim da dependência de petróleo, promovendo fontes alternativas de energia. Visitou uma montadora de carros à base de energia solar no Michigan, passeou de carro híbrido em Wisconsin e até usou as câmeras de tevê para implorar a deputados e senadores, comovido mesmo, uma ajuda de custo de US$ 31 milhões para a pesquisa de novas baterias.

Mas o melhor da festa ainda estava por vir: no Colorado, sua excelência resolveu dar uma esticada no Laboratório Nacional de Energia Renovável, uma das muitas iniciativas públicas que seu governo sucateou, reduzindo verbas e incentivos. Como o novo plano de energia de Bush pegou a patota neocon de surpresa, Samuel Bodman, o secretário de Energia, lívido, teve de liberar às pressas cinco milhões de verdinhas para readmitir 32 funcionários que haviam sido dispensados pelos republicanos meses atrás.

Bodman foi o mesmo que, um dia após a declaração de Bush no discurso do Estado da União, em 31 de janeiro, apressou-se em corrigir o presidente. Seria impossível, ele lembrou, que os EUA substituíssem, até 2025, 75% da importação de petróleo do Oriente Médio por fontes alternativas de energia: “O que o presidente disse não deveria ter sido tomado ao pé da letra. Ele nos ofereceu apenas um exemplo do que poderemos fazer”. Então tá. Esta administração não se emenda mesmo. Por estas e outras, deve levar um revés histórico nas eleições legislativas do segundo semestre. A se conferir.

sexta-feira, janeiro 27, 2006

No Valor Econômico

Saiu no caderno deste fim de semana do Valor minha conversa com o diretor norte-americano Bob Wilson e a atriz francesa Isabelle Huppert. Olhem só:

Espetáculo em Preto-e-Branco

Inspirado em Virginia Woolf, nova montagem dirigida por Bob Wilson, "Orlando" estréia nos EUA e virá ao Brasil em 2007

Nova Iorque, teatro da City University (CUNY). Todos prendem a respiração quando o vídeo começa. No palco, Isabelle Huppert. E não muito mais. Pela primeira vez no continente americano o público confere trechos da encenação de “Orlando”, inspirada no livro de Virginia Woolf, apresentada na França em 1994. A peça foi um marco na incomparável trajetória do diretor norte-americano Robert (Bob) Wilson, radicado há muitos anos na Europa e que veio, com Huppert à tiracolo, prestigiar o evento e anunciar, em primeira mão, a remontagem do espetáculo, que deve excursionar pelos Estados Unidos em 2006 e chegar aos palcos brasileiros no ano seguinte.

Terno cinza, mãos escondidas nos bolsos, Wilson sorri sozinho ao observar a francesa recitando - vá lá, cantando - as palavras de Woolf. Depois de reclamarem do trânsito infernal da cidade – Huppert, 52 anos, atrasou 25 minutos contados na ponta do relógio enquanto Wilson, 64, a esperava pacientemente – os dois deixaram a modéstia de lado para se deslumbrarem com a gestação, em “Orlando”, de uma nova linguagem, algo que mais tarde seria identificado por críticos embasbacados como ‘verborragia huppertiana’. É que a atriz francesa interpretava “Orlando” em altíssima velocidade, entre eventuais pausas para respirar.

Wilson e Huppert se conheceram nos anos 70, quando o diretor americano era o ‘talk of the town’ de Paris, onde acabara de apresentar seu “O Olhar do Surdo”, uma espécie de ópera do silêncio, imaginada a partir de sua convivência com Raymond Andrews, um rapaz surdo-mudo que Wilson adotara. Críticos decidiram que o teatro do mais europeu dos diretores norte-americanos representava a vitória da ‘comunicação visual’ sobre a palavra. O tal do Teatro-Imagem. Da platéia, o escritor francês Louis Aragon (1897-1982) ia além: “Bob Wilson conseguiu fazer o que nós, criadores do surrealismo, imaginamos que poderia ser realizado. Ou melhor, ele ultrapassou nossos sonhos”.

Naquele momento, a Europa de Pina Bausch, Peter Brook e Peter Stein e do Théâtre du Soleil de Mnouchkine e a Nova Iorque do Living Theatre seriam os palcos per se do experimentalismo anunciado por Wilson. Questões como a apropriação de novas linguagens, o estudo do gesto, e a possibilidade da criação coletiva no mundo multifacetado que se seguiu ao desbunde criativo dos ‘sixties’ estavam na pauta do dia e, no Brasil, tocaram com maior e menor intensidade criadores como Antunes Filho, Zé Celso e Gerald Thomas. “Imagine, quando eu conheci a Isabelle nosso papo girava em torno da idéia que eu tinha de montar um espetáculo que duraria sete dias (risos). Pois é, ele não aconteceu, mas já pensávamos em fazer algo juntos. Primeiro seria a ‘Fedra’, de Racine, depois surgiram outras opções até que cheguei, duas décadas mais tarde, a Virginia Woolf. E Isabelle topou. Eu conseguia ver claramente nela o menino e, obviamente, a mulher do século XX, imaginados por Woolf. E o talento de Isabelle era perfeito para a peça”, conta Wilson.

Os artistas se reuniram em Nova Iorque graças à parceria entre o governo francês e a CUNY dentro da série “Carta Branca: Diálogos Franco-Americanos”. E a temporada parisiense de 1993-1994 esteve sempre presente no animado bate-papo. Huppert, que na época co-editava a mítica revista “Cahiers du Cinema” e tinha em Wilson um de seus interlocutores mais freqüentes, conta que o que a atraiu mais no projeto foi justamente a ‘aparente rigidez’ do teatro do diretor texano. “O interessante é que foi justamente a disciplina matemática do Bob que me permitiu voar. É, voar! As regras do Bob não têm muitas nuances, mas, ali, com ele no palco, nunca me senti tão próxima de mim mesmo”, revela a atriz.

Uma década depois do sucesso de público e crítica, Wilson gosta de pensar em ‘Orlando’ como aquele espetáculo em que ele queria muito contar com um ator que não ‘interpretasse’. “Já me explico. Eu queria que o público ‘lesse’ os personagens todos de Virginia Woolf através daquela atriz. Nosso papel seria o de ajudar o público a viajar através e dentro dos personagens imaginados por Woolf, que atravessassem conosco os séculos e as transformações de gênero daquele ser humano”, diz o encenador. Ele contou com três atrizes para realizar o feito: Jutta Lampe, Miranda Richardson e Isabelle Huppert. “E elas me proporcionaram lidar com três Orlandos completamente diversos. Foi muito divertido ver como cada uma se encaixava naquela idéia que eu tinha de Orlando”, lembra.

“Orlando”, curiosamente, foge de uma das mais famosas características do teatro de Wilson – a sua peculiar noção do ‘tempo’ teatral. Espetáculos como “A Vida e A Época de Stalin” chegaram a ter 12 horas de duração. “Aqui, eu decidi condensar o tempo, já que a narrativa atravessa séculos”, diz. “É, mas em nenhum momento você sacrificou a transmissão da informação”, interrompe Huppert. A atriz acha que esta é uma das razões pela qual esta parceria dá tão certo: “Quando penso no que faço, em atuar, cada vez mais acho que está muito mais próximo do ato de se transmitir informação. Acho que na maioria das vezes os atores não acreditam na história que estão transmitindo. E muito menos no passado daquela história. Eles querem adicionar coisas, trazer experiências que casem com o que já está ali, com o que já é. Eu acredito cada vez mais que a boa atuação tem muito mais a ver com suprimir do que com adicionar. Ora, em “Orlando”, você pode sugerir todos os personagens, o menino, a mulher, sem grandes modificações exteriores. Isso pode soar abstrato, mas eu juro, é justamente o oposto. Vou além: esta é a única possibilidade de se transformar o teatro em algo real. E para mim teatro só interessa quando é real”.

O realismo de Wilson a que Huppert se refere é conquistado às custas de ensaios exaustivos. “Sim, mas também muito divertidos. Bob exige disciplina total, mas estamos falando da disciplina de se encontrar aquela coreografia exata dos movimentos, você compreende? Porque o Bob busca a precisão. Isso pode levar as pessoas a pensar que há algum tipo de limitação. Não, não há! Bob trabalha com o paradoxo da liberdade infinita e do confinamento infinito. Nós trabalhamos separadamente a linguagem corporal, cada gesto”, diz. “Os olhos, os olhos!”, agora é a vez de Wilson interromper. Em “Orlando”, cada expressão de olhar de Huppert foi minuciosamente estudada pelo diretor. “É difícil explicar este estado de consciência inconsciente que nasce no teatro do Bob. É como tentar explicar quem é você. Eu falo muito rapidamente em cena, e ele acentuou isso em ‘Orlando’. É claro que eu sei que o público se perde aqui e acolá, deixa de entender uma ou outra palavra, mas ali criamos, de fato, uma ‘escultura da palavra’, em que o espectador apreende pela entonação da minha voz”, explica Huppert.

O diretor jura que é exatamente este estranhamento que o atrai no fazer teatral. “É que eu tenho um enorme problema com pessoas que vão aos espetáculos artísticos e, a cada cinco minutos, se entreolham e perguntam: você entendeu? Conseguiu pegar a idéia do que o artista queria passar? Parem! Parem! Não tem problema se você se perdeu. Nós, seres humanos, espectadores, não precisamos entender todas as sacadas. O que eu mais amei em nosso ‘Orlando” foi que a gente se perdeu no livro. E a audiência se perdeu junto, se entregou. Isso é que foi genial”, diz Wilson. Neste momento da conversa, visivelmente empolgado, encara a atriz francesa com o canto dos olhos e confessa: “Sabe que volta e meia me perguntam se há alguma diferença em se trabalhar com artistas de Hollwood? Eu digo que é muito melhor! Meu teatro é muito parecido com os filmes. Há marcas rígidas no palco, a luz que vem de trás, o zoom da câmera. O olhar vagando no palco que, de repente, foca-se em algum ponto específico”.

La Huppert sorri com gosto, dando a deixa para Wilson voltar a falar do que mais gosta. Do gesto: “Veja bem, o gesto e a coreografia, sozinhos, são chatíssimos, né? É como uma moldura vazia. São seus sentimentos, a maneira com que você os expressa, que importam. Eles são o conteúdo desta moldura. Meu teatro é físico. Ele precisa ser voluntário, essencialmente externo. Ele vem de fora. É gesto e mecânica. Olha, sabe que em 40 anos, eu nunca falei para um ator como ele deveria pensar ou falar no palco?”. À declaração segue-se novo riso. Wilson diverte Huppert. “Mas é a mais pura verdade, eles vão tomando conta do personagem, é algo muito pessoal. A forma é chatérrima, sempre. Pense nos 500 bailarinos que fazem ‘Giselle” todos os anos. Apenas um ou dois serão geniais e vão se destacar. Você vê algo que não estava lá. E uma coisa fortíssima sobre a Isabelle é que ela não tem medo de ser fria”, dispara Wilson.

Agora a atriz se esconde por um segundo nas vastas mangas da camisa negra. Pode-se ouvir um ‘ai, meu Deus!” charmoso antes que ela siga animada: “Ás vezes me perguntam se eu encaro certos convites que recebo como um desafio. Mas que bobagem! Não vejo nada em termos de risco. Não tenho a menor ambição de provocar os outros. Eu simplesmente vou lá e faço. Se quisesse riscos seria piloto de avião e não atriz (risos)”. Mas é interrompida pelo diretor, interessado em fazer com que sua nova platéia entenda – ou melhor, vivencie – o que é atuar como Isabelle Huppert. “É como se...olha, uma vez eu estava trabalhando com uma cantora lírica, que iria fazer a ‘Brunilda” e disse para ela que deveria deixar o corpo congelar, mas a música precisava seguir quente, fervendo. Esta capacidade de carregar os dois extremos dentro de si é que é fascinante. A primeira vez em que me encontrei com a Marlene Dietrich, na França, em 1971, eu disse, maravilhado: ‘Mas você é tão fria!”. E ela retrucou, curta e exata: “É, mas preste atenção na minha voz!”. É isso! Isabelle é quente, mas sabe ser fria”, encerra a discussão.

Ou quase. “Engraçado você dizer isso pois nunca me vejo depois de uma atuação. Hoje foi uma exceção com o vídeo. Simplesmente me recuso. Atuar já é algo tão voltado para si mesmo, para explorar o seu eu, que, se ainda precisar me ver depois é um pouco demais. Haja ego!(risos)”, diz Huppert. A atriz e o diretor concordam, no entanto, quanto ao alto teor poético das encenações de Wilson. “Mas, Bob, você sabe que uma das coisas em que eu mais peno é como atuar poeticamente em filmes? Como levar a poesia para o cinema? Um diretor de cinema se vê como um poeta? Hoje em dia? Difícil, não? Quando fizemos “Orlando” eu não pensava conscientemente – ‘Isabelle, você tem que se encaixar nesta poesia’. Não. Mas um de meus desafios mais nítidos foi o de descobrir que poesia era aquela, viva, ali, no palco. E...bem, não era poesia coisa nenhuma!(risos)Era algo que libertava a minha imaginação e buscava, ao mesmo tempo, captar o inconsciente do público. Era o público que me dizia quando eu deveria rir, quando tinha que chorar. E isso, para mim, é Virginia Woolf”, lembra Huppert.

Bob Wilson ressalta que, como o texto da escritora britânica já era tão rico em imagens, ele reduziu o número de elementos cênicos ao mínimo: “A linguagem era tão rica que decidi trabalhar apenas com linhas verticais, inventei uma arquitetura bem básica para o palco. Na segunda parte tínhamos uma árvore, ou melhor, um tronco, a idéia de uma árvore, que é quando se dá a transformação de gênero. E a parte final era toda branca. Taí. Esta é melhor definição que já cunhei para um espetáculo meu, inspirado em Isabelle: “Orlando” é meu espetáculo em preto-e-branco”.

Ma-fé ou Incompetência?

Por sorte minha, não li o tal ‘manual do terrorista contemporâneo’ publicado pela Abril, mas vejam o que fala o Hamilton Octavio de Souza, na Caros Amigos de janeiro:

Clara Charf, viúva do ex-deputado Carlos Marighela, líder da ANL morto pela ditadura militar, moveu ação contra a Editora Abril para que retire de circulação e corrija o livro Os 10 Maiores Terroristas do Mundo, pois o ex-guerrilheiro aparece como um dos dez, ao lado de terroristas como Bin Laden. O livro faz uma confusão danada entre luta armada, que é um direito de o povo se defender contra regimes de opressão, e as ações de terrorismo inconseqüente. Má-fé ou incompetência?

quarta-feira, janeiro 25, 2006

Diretinho da Redação (40)


Ei, Você Aí, Me Dá Um Dinheiro Aí!

Interrompi minhas férias no Rio para ler, com calma, a matéria de capa que a “Carta Capital” – da qual me orgulho de ser colaborador bissexto em Nova Iorque – publicou na semana passada com o ministro da Cultura, Gilberto Gil. Tanto o texto de Ana Paula Sousa quanto a entrevista dada a Pedro Alexandre Sanches são leituras obrigatórias para se entender o ‘melê’ em que a inteligência brasileira se meteu. Historicamente dependente do governo, parte da chamada ‘elite cultural’ (de pensadores? de criadores? de produtores?) chia feio desde que os companheiros chegaram ao poder, lá se vão quatro anos.

O motivo? As novas diretrizes do patrocínio cultural público, que vêm saindo das estatais (o ministério sempre teve um orçamento irrisório, duplicado graças aos esforços do ministro do Partido Verde) e chegando a novos bolsos, a partir de regras bem diversas das que foram estabelecidas nos governos Itamar e FHC. Fala-se em stalisnismo, totalitarismo e dirigismo político. Nas rodas de Ipanema, gente que se beneficia do mecenato público desde os tempos da Embrafilme acusa o governo Lula de um descaso especial com os chamados ‘nomes de apelo popular’. É natural que em um país sitiado pela cultura da celebridade, em que o período entre o Ano Novo e o Carnaval aparece no calendário como um gigantesco intervalo comercial dedicado ao Big Brother Brasil, reine a confusão entre o que é, de fato, popular – do Aurélio: ‘do, ou próprio do povo’; ‘democrático’ - e o que recebe atenção maior dos meios de comunicação de massa.

Em 2003-2004 participei indiretamente do que o ministro Gil classificou na entrevista à “Carta Capital” de ‘processo de criação de políticas públicas de fomento cultural mais abertas e democráticas’. O Programa Petrobras Cultural (PPC), que, como um dos assessores de imprensa responsáveis então pela área de Patrocínio Cultural da maior empresa do Brasil, acompanhei do nascedouro, é um claro exemplo de êxito desta nova ação pública de apoio à cultura brasileira. O balcão foi substituído por uma iniciativa séria, com as ações de mecenato da Petrobras se pautando por uma política cultural de alcance social e de nítida afirmação da identidade brasileira. Esta chegou ao público recentemente em filmes como o delicado “Cinema, Aspirinas e Urubus”, de Marcelo Gomes, espetáculos como os de Ivaldo Bertazzo, o indispensável Projeto Pixinguinha, espaço fundamental para o surgimento de novos músicos, e em livros como o que contou, pela primeira vez, aos brasileiros, a saga dos imigrantes poloneses no Paraná.

Mas, então, por que tanta chiadeira? E de artistas do gabarito de um Ferreira Gullar e de um Caetano Veloso, nomes que se confundem, para nossa alegria, com a própria idéia do ‘ser brasileiro’? Distorções existem, é claro. Nunca entendi bem por que motivo o PPC conta com consultores permanentes nas áreas de Cinema, Música e Patrimônio, mas nenhum especialista em Artes Cênicas. Há, por sinal, um consenso de que a produção teatral foi a mais afetada pela gestão petista. Pouco se fala ou se escreve, no entanto, sobre a diminuição do patrocínio das grandes corporações e empresas privadas à cultura em geral e ao teatro em particular.

Gilberto Gil disse a meu colega Pedro Alexandre que em sua gestão há mesmo uma ‘discriminação positiva’. Ele reconhece que nestes quatro anos tentou focar o patrocínio público em áreas deixadas de lado pelos governos anteriores: “estabelecemos um conflito com a chamada elite cultural com uma intensidade que não existia antes, pois estes tinham acesso a recursos que estão sendo redistribuídos”. Pois é.

A entrevista com Gil dá muito o que pensar. E contém ao menos uma epifania. Ela se dá quando o ministro da Cultura, tocado por algum anjo subversivo, destes que só descem à Terra nos momentos de crise mais intensa, assume que faz parte da ‘classe dominante’. A elite brasileira – política, cultural, econômica – mesmo quando sai em bloco exigindo o corte de cabeças, marchando desesperada ao som de ‘ei, você aí, me dá um dinheiro aí!”, receia vestir a carapuça. Devem ter lá os seus motivos.

segunda-feira, dezembro 26, 2005

Diretinho da Redação (39)



Esta foi a última coluna do DR de 2005. Já está no Direto da Redação. Estou de férias, no Brasil, e só retorno em fevereiro. A coluna conta exatamente como eu cheguei, via Varig, ao Rio de Janeiro...


Varig: A Decadência de uma Empresa


As histórias vêm se acumulando e o risco de a narrativa que segue parecer repetitiva ou, no pior caso, banal, é grande, eu sei. Mas chegar ao Brasil pela Varig, venha-se de onde vier, está se transformando em uma espécie de via-crúcis do passageiro desavisado, que sofre na pele os efeitos da decadência da empresa.

No domingo último, cometi a imprudência de pegar o vôo Nova Iorque-São Paulo-Rio de Janeiro da Varig, marcado para sair às nove da manhã do aeroporto JFK, no Queens. A empresa pedia, encarecidamente, por conta dos ‘procedimentos de segurança’, que eu e os demais passageiros chegássemos ao terminal de embarque com três horas de antecedência. Acordei às cinco da matina e às seis estava de pé, obediente e compenetrado, na fila do check-in. Lá fui informado por um funcionário de que o vôo sairia com um ‘pequeno atraso’ de três horas. Mas que tudo estava bem, não havia cancelamento algum.

Tudo estava bem para quem, cara-pálida? Por que é que a Varig não avisou aos passageiros do tal atraso com alguma antecedência? Em tempos de mensagens eletrônicas e celulares, a empresa gaúcha está mais para os Flintstones do que para os Jetsons. Pior para quem pegaria uma conexão para Buenos Aires ou Montevidéu. Estes teriam de dormir no aeroporto de Guarulhos e torcer para que o vôo do dia seguinte não atrasasse.

Mas a confusão não terminou aí. A viagem que começaria agora às 11 da manhã sofreria novo atraso, causado por ‘problemas com o transporte da tripulação do hotel para o aeroporto’. Peralá. Então a tripulação seguia relaxando no hotel enquanto, nós, abnegados clientes, esperávamos pelo milagre do avião no saguão impessoal do JFK? E se nós todos havíamos conseguido chegar ao aeroporto, porque não o piloto e os comissários de bordo?

Mistérios da Varig, que aumentaram quando da chegada em São Paulo, à meia-noite. Lá fomos avisados de que a empresa havia preparado um vôo especial para os otários que haviam desembolsado em média US$ 1.000 por uma passagem de classe econômica. Aliás, parte dos passageiros havia comprado seu tíquete em São Francisco, com preço ainda mais salgado e contabilizando seis horas a mais de torturas do que eu. Não dava nem para competir.

Mas voltemos a São Paulo. O tal vôo especial, curiosamente, sairia uma hora e meia depois de nosso pouso na capital paulista. Teimoso, fui indagar o motivo da nova espera. A resposta me veio em um sorriso constrangedor: ‘Na verdade, este é um vôo que vem do Peru, e também está atrasado. Então, vamos colocar os passageiros no avião assim que ele pousar, tá bem?”. Não, não tava. Pergunto, à beira de um ataque de nervos: ‘Mas então não há vôo especial coisa nenhuma, vocês mentiram para nós? “Sim”.

Jamais vou saber ao certo se há alguma relação entre minha expressão de ódio profundo e a mensagem que ouvi no alto-falante cinco minutos depois. A empresa ofereceria um lanche em uma cafeteria do aeroporto – até então, fora de nossas casas desde as 5 da manhã, nós, de Nova Iorque, apenas tivéramos um almoço frugal e um lanchinho rápido dentro do avião. Imediatamente uma multidão formou uma fila que dava voltas em um dos portões de embarque de Guarulhos para garantir um sanduíche e um refrigerante.

Ali encontrei viajantes oriundos dos mais diversos pontos do globo – Milão, La Paz, Frankfurt. E, claro, do Recife, de Manaus, de Porto Alegre. Convenhamos, se a Varig trata a ‘gringada’ com este desrespeito, imaginem vocês, leitores amigos, como ela lida com a gente da brava nação Tupi. Um dos depoimentos colhidos pelo colunista foi o de um vôo Recife-Natal que, depois de horas de atraso, se transformou em uma viagem de ônibus. Isso mesmo. Paga-se uma passagem de avião e encara-se, madrugada adentro, as esburacadas rodovias brasileiras. Detalhe: um dos passageiros desta aventura era uma criança de 17 dias.

Depois de descobrir que minha história estava longe de ser das piores, entrei aos trancos e barrancos no avião que nos levaria ao Galeão. Conquistei uma cadeira à tapa – cada vez mais enrolada, a empresa avisa no último segundo que ‘as cadeiras não serão marcadas no vôo SP-Rio’ – apenas para descobrir que teríamos de esperar mais um pouco por conta de um problema técnico. Mais um.

Paciência testada de todas as maneiras possíveis, chegamos ao Rio depois das três da manhã. Como a Varig atrasou inúmeros vôos, a fila na alfândega era tamanha que invadia a área do Free Shop. Resignado, um passageiro mais gaiato olha para mim e dispara: “Foi ou não foi o vôo dos infernos?”. Foi.

Às 4h30 da manhã, quase 24 horas depois de sair de casa, minha irmã abria a porta, cara de sono, cabelo em pé, no bairro das Laranjeiras. Eu não conseguia dizer nada. Da próxima vez que voar o dia inteiro, pensei, que ao menos eu vá para o Japão. E certamente não viajarei de Varig.

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Diretaço da Redação - o texto certeiro do Eliakim

Está na página do www.diretodaredacao.com o texto de Eliakim Araújo sobre a decisão do JN de ignorar a notícia que foi tema da coluna da semana do blogueiro aqui, a polêmica decisão da PDVSA (CITGO) - leia-se Hugo Chávez - de oferecer combustível subsidiado para comunidades menos favorecidas aqui de Nova Iorque e também em Massachussets. Vale ler o artigo na íntegra. Um trecho:

BONNER E O COMEDOR DE BISCOITOS

Façam suas apostas: Homer Simpson é um preguiçoso, de raciocínio lento, que passa o dia em frente a TV comendo biscoitos e bebendo cerveja ou um pai de família devotado, trabalhador, sem curso superior, que chega do trabalho cansado e quer se informar sobre os fatos do dia de maneira clara e objetiva?

A polêmica surgiu depois que o professor Laurindo Lalo Leal Filho publicou artigo na revista Carta Capital contando inconfidências dos bastidores do Jornal Nacional. Laurindo, junto com um grupo de nove professores da USP, visitou a redação da TV-Globo em 23 de novembro e foi convidado para participar como assistente de uma reunião de pauta do JN.

Além da superficialidade com que são tratados e escolhidos os assuntos que entrarão na casa de milhões de pessoas, Laurindo se mostrou perplexo ao ouvir de William Bonner, o editor-chefe, que uma pesquisa realizada pela Globo constatou que o telespectador médio do JN “tem muita dificuldade para entender notícias complexas e pouca familiaridade com siglas como BNDES, por exemplo”. Por isso, na redação da Globo o brasileiro médio é apelidado de Homer Simpson. Para o professor Laurindo, um obtuso personagem de raciocínio lento e preguiçoso. Para Bonner, em resposta ao professor, Homer é um paí de família trabalhador, responsável, que gosta de se informar de maneira clara e objetiva.

Em nome da clareza, invocada acertadamente por Bonner, é que me obriguei a fazer acima o pequeno resumo da história para aqueles que ainda não a conheciam. Como mandam os manuais de jornalismo.


Para ler na íntegra, como diz meu amigo Ivson, vai lá mané: www.diretodaredacao.com

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Arnoldão pegando no ganzê e no ganzá

Este vídeo é absolutamente imperdível. É de chorar de rir. Está circulando na internet aqui nos Estados Unidos e mostra o atual governador da Califórnia, um dos símbolos do Partido Republicano, zanzando pelo carnaval carioca nos anos 80 e aprendendo a falar 'bunnnnnda'.

Como diz meu amigo Ivson, vai lá mané, e veja um político conservador se esbaldando nos trópicos:

http://www.devilducky.com/media/38195/

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Diretinho da Redação (38)


A coluna da semana já está disponível lá no www.diretodaredacao.com e aqui embaixo também:

A Ousadia do Companheiro Hugo Chávez


As cartas chegaram às nove maiores companhias de energia dos Estados Unidos em outubro. Assinadas por 12 senadores democratas, dona Hillary Clinton à frente, apelavam para que parte dos lucros astronômicos das corporações fosse aplicada nos programas federais destinados a reduzir o preço da gasolina e do gás em comunidades mais pobres e locais estratégicos (como hospitais e escolas) do país. A lógica do pedido era simples: o preço do petróleo está nas alturas e a devastação causada pelo furacão Katrina no Golfo do México prometiam o inverno mais dispendioso das últimas décadas no já gélido nordeste dos Estados Unidos.

Com um olho na conta de gás e outro nos aquecedores, famílias vêm economizando aonde podem para enfrentar o inverno com alguma dignidade. Ninguém acreditava mesmo que empresas como Texaco ou Shell fossem oferecer energia subsidiada. Muito menos que a Citgo, o braço norte-americano da estatal venezuelana PDVSA, fosse responder de forma positiva à proposta democrata.

Pois no Bronx, o distrito mais pobre de Nova Iorque, a população quer saber mais sobre o companheiro Hugo Chávez. Ontem a Citgo começou a enviar gás mais barato para 75 projetos habitacionais da cidade – em uma parceira com a prefeitura, que deverá ser estendida logo, logo, para o Queens e o Harlem – assim como já faz há duas semanas nos guetos de Massachussets. O desconto é de 40% e, apenas no Bronx, 8 mil famílias serão beneficiadas.

Gente como Belkis Bejaran, de South Bronx, que vai economizar pouco mais de US$ 100 por conta da ajuda do companheiro venezuelano. E que vibrava nesta terça-feira com a chegada do caminhão verde-oliva da PDVSA na esquina da rua 176 com a Townsend Avenue, carregando os primeiros 500 galões de gás combustível a serem utilizados pelos moradores locais.

Assistencialismo barato? Quem faz as contas é o administrador de um dos projetos habitacionais agraciados pela parceira Venezuela-Bronx: a economia média dos condomínios será de 450 mil dólares neste inverno. Papi Noel Chávez, felicíssimo, ainda gastou uns trocados para anunciar nos principais jornais do país, em propaganda de página inteira, que a ajuda é humanitária e que nada poderia representar mais o espírito da América do que tal atitude. Ele ainda cutuca o desafeto George Bush dizendo que o governo federal americano abandonou seus pobres. Mas seu grande trunfo foi deixar a opinião pública norte-americana estupefata: nunca um dirigente de um país do Terceiro Mundo, ainda mais da pobre América Latina, havia ousado trocar de figurino com Tio Sam de forma tão clara.

Em setembro, Chávez visitou o Bronx e ficou chocado com o que viu. Ciceroneado pelo deputado democrata José E. Serrano, uma das figuras mais populares do distrito, ele prometeu pensar em algo para ajudar a combater a ‘pobreza latino-americana dentro da América”. A maioria da população abaixo da linha da pobreza no Bronx é de origem hispânica ou negra. Acusado de ajudar Chávez a infiltrar seu estilo populista no coração dos Estados Unidos, Serrano respondeu de imediato: “Se as pessoas acham que Chávez está aproveitando o Bronx para fazer propaganda, queremos deixar bem claro que ele é mais do que bem-vindo. Aliás, se as grandes corporações quiserem vir aqui e fazer propaganda também, por favor, não se avexem”.

A propósito: de acordo com o senador Jack Reed, de Rhode Island, a única companhia petrolífera que se deu ao trabalho de responder a carta dos senadores democratas foi a PDVSA.

sexta-feira, dezembro 02, 2005

ENTREVISTA/ CHUCK PALAHNIUK


Entrevistei o escritor Chuck Palahniuk, autor do best-seller "Clube da Luta" (que virou filme com Brad Pitt e Ed Norton) para o Valor Econômico. O conversê saiu hoje, no caderno Eu&Cultura:


O Brinquedo Assassino de Chuck

Eduardo Graça, de Nova Iorque, para o Valor

A cena se repete pela enésima vez. Enquanto o autor lê trechos de uma de suas histórias para o público, começam os desmaios. Um, dois, três, quatro! “Até este exato momento, 73 pessoas desmaiaram na turnê de divulgação do livro. Eu fico pensando que isto se deve mais ao calor das salas de leitura e, claro, ao tipo de curioso que resolve sair de casa para ir me ver. Agora, convenhamos, minha literatura não é mesmo, digamos assim, direcionada para leitores mais tímidos, né?”. Quem pergunta, quem escreve, quem causa tamanha comoção em leitores desavisados, é Chuck Palahniuk, 43 anos, o mestre por trás do “Clube da Luta” e que chega às livrarias brasileiras em dose dupla: “Sufoco”, escrita em 2001, sai esta semana pela Rocco e a recém-publicada coletânea de contos “Haunted” (Mal-assombrado) pode ser encontrada, infelizmente apenas em inglês, nas boas livrarias das capitais do país.

Os desmaios vêm transformando as mais recentes leituras públicas dos livros de Palahniuk nos Estados Unidos em eventos singulares, que pedem, invariavelmente, uma equipe de primeiros-socorros contratada pelas livrarias mais do que interessadas em transformar um simples encontro entre escritor e público em um evento performático e tão inconseqüente quanto sua literatura. “Tudo começa de uma maneira bem engraçada. Eu quase sempre tenho de recomeçar a ler os trechos escolhidos por conta do volume das gargalhadas. Mas assim que as pessoas começam a relaxar, a narrativa vai ficando mais pesada e, sim, incômoda. Quando as pessoas começam a perceber o que vai ocorrer com o narrador da história, os desmaios começam. E é claro que eu adoro ler algo que causa tanta histeria e drama”, conta o escritor.

Palahniuk está falando de um conto específico apresentado em ‘Haunted’, ‘Guts’, em que três histórias se sobrepõem: duas brincadeiras com cenouras e velas e uma outra conectando o sugador da piscina com a genitália masculina. Detalhe: as histórias realmente aconteceram, e os protagonistas foram conhecidos do escritor. ““Esta última quem me contou foi um senhor que estava em tratamento em um grupo de viciados em sexo. Eu o conheci justamente quando estava pesquisando para escrever ‘Sufoco” e achei que se tratava de uma história sensacional, engraçada e ao mesmo tempo realmente triste. Eu acabei não resisitindo e a incluí no meu livro de contos”, diz.

Quase toda ficção de Palahniuk é baseada em fatos que aconteceram na vida real. Mas ‘Sufoco” e “Haunted” surgem como um passo à frente (ou ao lado, como prefere Palahniuk) das odes ao niilismo que marcaram seus romances anteriores. “Sufoco” é considerado uma espécie de transição para um tipo de narrativa que contém, vá lá, valores mais positivos, quiçá a velha e boa esperança nossa de cada dia.

Aqui, o autor conta a história de Victor Mancini, um homem patético e viciado em sexo. Todo tipo de sexo, de papai-e-mamãe à simulação de estupro e até mesmo objetos inseridos nos orifícios mais variados. Em uma narrativa especialmente anti-erótica, vulgar no sentido íntimo do nome, ‘Sufoco” apresenta um mundo de infinitas possibilidades, de permissividade ilimitada. E, ao mesmo tempo, repete um bordão durante todos os seus capítulos: a total inabilidade de Victor de conseguir um relacionamento de verdade, em que não precise se ‘sufocar’, ou simular sua morte, para sobreviver, inclusive financeiramente.

“Sufoco” e “Haunted” não bebem da raiva do “Clube da Luta”, nem da grandiosidade de “Survivor”. Mas a mística de seu livro mais famoso, é claro, ainda rende dividendos a Palhaniuk. Não por acaso seu endereço eletrônico começa com Tyler, exatamente o nome do personagem mais emblemático e fantasioso do filme, vivido por Brad Pitt. Quando o livro foi transportado para Hollywood, o escritor se transformou em uma das principais vozes de um certo inconformismo americano, representando com convicção os nostálgicos por um dia-a-dia mais concreto e direto. Sua literatura chegou a ser acusada de ‘auto-ajuda para machões’, ao mesmo tempo em que era alçado à categoria de ‘novo Don DeLillo’. “Eu acho que o diretor David Fincher fez algo fabuloso com o ‘Clube da Luta’. O filme dele acabou sendo muito, mas muito melhor que meu próprio livro e ele é o modelo que tenho em mente para qualquer adaptação a ser feita de algo que eu escrevi”, diz o autor, jurando, em entrevista exclusiva para o Valor, que não anda freqüentando nenhum curso de aprenddizado de modéstia por correspondência.

- Eu li que que o senhor chegou a autografar vômito nesta sua última sessão de autógrafos. Quão estranhas elas são?
- Você não vai acreditar, mas tenho tanto medo de aparecer na frente das pessoas que eu comecei a levar brindes para minhas leituras e a presentear o público. Coisas assim como corvos empalhados (centenas deles), margaridas imensas, mamadeiras tamanho-família, buquês de noiva, pedaços de pernas e braços de brinquedo com sangue. São meus amuletos de sorte, que me ajudam a perder o medo quando eu entro no ‘palco’.
- Lendo seus dois livros podemos pensar nos vícios da sociedade contemporânea, na compulsão pela representação, na natureza cada vez menos íntima do sexo. Quais os pontos centrais de “Haunted” e “Sufoco”?
- O ponto central é a crise de nosso tempo, em que há uma falta de credibilidade total. E agora que a Internet transformou cada indivíduo em uma fonte de notícias, todos vêm sofisticando a técnica de abusar da verdade para seu próprio benefício.
- E o senhor está escrevendo algo agora?
- Sim! Uma ficção científica na forma de uma biografia. O que eu posso adiantar é que o livro documenta a vida curta de um jovem vivendo em um futuro nem tão distante assim, provavelmente cerca de duas décadas à nossa frente.
- Seus livros pegam pesado na violência. Há auto-mutilação em “Haunted” e abuso sexual em “Sufoco.” Você acha que a violência é mais presente do que nunca nos dias de hoje?
- Outro dia eu li um artigo indignado dando conta do retorno dos tratamento de choque para pacientes sofrendo de depressão. Isso não me surpreende nem um pouco. Eu sempre precisei de um ato físico para aliviar meu estresse. Se não fosse uma luta, pelo menos um dia inteiro carregando pedras ou pesos. As pessoas passam tanto tempo evitando o estresse dos conflitos que acabam perdendo a chance de desfrutar de seus benefícios. Conflito e batalha consensual trazem consigo um senso de paz e uma aceitação do descanso fundamentais.
- Boa parte de seus leitores brasileiros, pensam no senhor como ‘aquele escritor macho’. Isso o incomoda?
- Vai ver que quando eu escrevi o ‘Clube da Luta’ eu era mesmo ‘aquele escritor macho’. Ou pelo menos mais macho do que sou hoje. Aquele livro foi minha maneira de lidar com o tédio e a frustração que eu sentia quanto tinha 30 anos. Eu jamais conseguiria escrevê-lo hoje. E eu espero que os próximos cinco filmes que já estão sendo produzidos sobre a minha obra – “Sufoco”, “Survivor”, “Diary”, “Invisible Monsters” e “Lullaby” – modifiquem minha reputação. E que eu vire o ‘escritor insano’. Eu posso agüentar melhor esta!

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Connecticut: Lobista e Empreiteiro ficam de fora

Parece notícia paroquial, mas deveria interessar a quem trata do tema no Brasil. Esta semana aqui em Connecticut - onde, aliás, vive uma cada vez mais atuante comunidade brasileira - o legislativo local aprovou uma série de reformas no financiamento de campanhas eleitorais, que passa a ser basicamente público. Entre outras determinações, fica proibida a doação às campanhas por lobistas profissionais e empreiteiros. E o limite para a gastança declarada ficou menor, chegando a US$ 3 milhões para governador e US$ 10 mil para o que equivaleria ao cargo de deputado estadual no Brasil.

Connecticut também criou um 'sistema de financiamento voluntário'. Funciona mais ou menos assim: para poder receber dinheiro do Estado os candidatos precisarão primeiro passar o chapéu para pessoas físicas, em valores que não podem ser superiores a US$ 100 por cabeça. Quem receber mais, provando ter mais apoio popular, recebe mais ajuda pública. Fugiu-se assim da partilha do dinheiro da Viúva pelo número de cadeiras no Congresso estadual. A idéia é evitar, mesmo em um sistema basicamente bipartidário, o nosso velho conhecido troca-troca de legendas.

Em Connecticut o governador é republicano mas o Legislativo é dominado pelos democratas. Os dois lados apóiam as novas regras eleitorais. Dois outros estados, Maine e Arizona, também aprovaram o financiamento público recentemente, mas não proibiram a grana amiga de lobistas e empreiteiros. Se vai dar certo? No ano que vem a gente vai saber.

Chavez, mais um gol de placa

Hoje o governo venezuelano publicou anúncio de página inteira nos principais jornais aqui dos Estados Unidos. O título era Como a Venezuela Mantém os Aquecedores Funcionando nas Casas de Massachusetts, dando conta do acordo feito entre a PDVSA, a estatal venezuelana, e o governo de um dos estados mais liberais da Nova Inglaterra (embora comandado por um republicano), para levar gás mais barato às casas dos pobres americanos. Pois é.

O anúncio, na íntegra, com tradução livre do blogueiro aqui:


Quando acontecem disastres, o povo americano têm sido sempre o primeiro a oferecer seus corações e suas economias. Agora que os Estados Unidos foram atingidos com uma série de catástrofes naturias, a Venezuela e a CITGO estão oferecendo combustível - 12 milhões de galões de petróleo a preços muito abaixo do mercado - para ajudar os pobres de Massachusetts a se aquecerem neste inverno. Insituições públicas como escolas, hospitais e enfermarias também serão agraciadas com o combustível barato, em uma economia estimada de 80 centavos por galão, ou milhões de dólares economizados pelo Estado de Massachusetts nos próximos meses.

Nós já estamos preparando um plano especial para Nova Iorque e outras regiões temperadas, onde os residentes mais pobres enfrentam, ao mesmo tempo, o alto preço da conta do aquecimento e a precária assistência do governo federal. A Venezuela vem fornecendo a maior parte do combustível utilizado para o aquecimento das casas do Nordeste americano por muitos, muitos anos.

Por que estamos fazendo isso? Por que colocaríamos pessoas à frente dos lucros?

Porque nós não somos apenas uma companhia de energia. CITGO é uma subsidiária da PDVSA, a empresa estatal controlada pelo povo venezuelano. Por isso a PDVSA, em parceira com o governo do presidente Hugo Chavez, investe todos os anos uma boa parte de seus lucros para apoiar a educação, o combate ao analfabetismo e programas especiais para trabalhadores que ajudam milhares de venezuelanos. E a Venezuela, assim, tem dado às mãos a outros parceiros, na Ameerica do Sul e no Caribe, fortalecendo a região através do comércio externo justo, do desenvolvimento social e de parceiras econômicas.

O que nós leva de volta aos Estados Unidos, nosso antigo parceiro comercial e amigo. O programa de assistência da CITGO é um simples ato de generosidade para ajudar a população de Massachusetts por conta dos desastres dos furacões Katrina e Rita.

Nosso programa de assistência não é um programa político. Ele oferece ajuda humanitária aos necessitados. O que poderia ser mais americano do que isso?


Ligue-se o aquecedor com um recado destes...

Momento Blog

Eu sei, eu sei, ele só chega oficialmente no dia 21 de dezembro. Mas os meteorologistas anunciam, com garbo e pompa: começa hoje, de fato, o inverno no Hemisfério Norte. Agorinha mesmo entrou em cena o tal do Inverno Astronômico, que só acaba no dia 26 de fevereiro de 2006. Resumo da ópera: às quatro da tarde começa a escurecer e aumenta a vontade de ficar em casa, quietinho, enrolado nos cobertores da vida. Haja ânimo!

Diretinho da Redação (37)


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Da Alegria de se Viver em uma Democracia


Nos EUA, só falta a opinião pública sair do armário e as bengalas começarem a bater no cocoruto dos políticos. A picaretagem é a mesma!


A sensação foi de filme repetido. Quando vi a imagem na televisão, imediatamente me veio à cabeça a conversa que tive recentemente com o jornalista britânico Andrew Gumbel. Tratávamos do escândalo do mensalão em Brasília e ele saiu-se com a pérola de que ‘ao menos no Brasil a prática de pagar legisladores para votar com o governo ainda é ilegal’. Correspondente do jornal "The Independent” aqui nos Estados Unidos, Gumbel escreveu o ótimo "How To Steal A Vote”, infelizmente apenas em inglês, sobre a precariedade do sistema eleitoral norte-americano.

Esta semana, aqui na tevê de casa, me aparece o deputado republicano Randy Cunningham, o Duke, um dos principais aliados do governador-exterminador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, constrangido, coçando os olhos por detrás dos óculos de bom-moço, renunciando publicamente ao mandato. Foi pego com a mão na botija – recebeu pelo menos US$ 2,4 milhões em propinas para ajudar contribuintes de sua campanha a conseguirem contratos vantajosos com o Pentágono.

Mas logo o Duke? Respeitado herói da guerra do Vietnã, do alto de seus 63 anos, ele seguia na televisão, pedindo perdão à família e aos colegas. Mas esqueceu de se desculpar com os eleitores. Ato falho? Nem tanto. A democracia norte-americana, afinal, ostenta o título inglório de menos representativa (uma média de 40% dos eleitores saiu de casa para votar nos últimos três pleitos) do ocidente. Com raríssimas exceções, os deputados não respondem ao eleitorado e sim aos lobistas e às grandes corporações, que financiam suas campanhas.

Até esta semana sabia-se que Duke, em seu sexto mandato, era um dos pilares do conservadorismo do oeste americano, um estudioso de temas espinhosos como a segurança nacional e o terrorismo. Também sabia-se, por conta das reportagens do tinhoso “The San Diego Union-Tribune”, que sua casa em Del Mar fora comprada pela MZM Inc., uma das empresas especializadas em prestar serviços para os militares, por US$ 1,7 milhão em 2003. E, que, mesmo com a mega-valorização imobiliária no pais, ela fora vendida, nove meses depois, por US$ 700 mil a menos.

O que parecia estranho revelou-se tenebroso. Hoje, descobre-se que Duke viveu durante anos em um luxuoso iate em Washington às custas de uma das empresas interessadas em fechar contratos vantajosos com o governo Bush. Que, entre outros presentes, ele ganhou um Rolls Royce avaliado em US$ 200 mil, móveis, a festa de formatura de sua filha, o pagamento de seu condomínio, férias e viagens. Tudo saiu da conta de seus satisfeitos parceiros eleitorais. E Duke, é claro, não declarou nada, nadinha mesmo, em seu imposto de renda.

A opinião pública norte-americana, cada vez mais voltada para o atoleiro do Iraque, parece mais estarrecida do que indignada. Um amigo conservador me disse, no feriado do Dia de Ação de Graças, que tão pouca gente vota nas eleições ianques porque a maioria da população está satisfeita. Vai-se às urnas, ele me dizia, para se protestar contra alguma coisa.

Ainda não apareceu, é certo, um idoso americano para dar uma bengalada bem-dada no Duke, mas ele pode pegar até 10 anos de cana. E olhem que seu caso é apenas mais uma peça no quebra-queças da crise da representação legislativa que tanto preocupa as democracias ocidentais! No senado, Bill Frist, virtual candidato à sucessão de Bush, se enrolou em uma negociação para lá de suspeita que valorizou as ações da companhia de seguro-saúde da qual era proprietário. Ela acabou sendo vendida por um montante estratosférico. Outro republicano encalacrado é o deputado Tom DeLay, do Texas, que teve de abandonar a liderança do governo depois de acusado de chefiar um esquema que garantia votos no Capitólio a partir dos interesses de financiadores de campanha. Soa familiar?

Bem, no meio de tanta lama, o governo Bush ignorou a sugestão de se criar uma legislação específica para punir os corruptores, que elegem deputados e senadores país afora. Também deixou para lá os projetos de se criar uma Justiça Eleitoral independente dos governos do Estado e do financiamento público das campanhas eleitorais em todos os níveis. Não. Cenho franzido, o presidente anunciou a instalação de uma série de seminários na Casa Branca sobre ética. Isso mesmo. Altos funcionários e grandes figurões republicanos foram convocados para comparecer a uma sala de aula improvisada em Washington. Ele jura que, agora, os ‘deslizes’ dos companheiros neo-conservadores vão acabar. Ufa! E eu aqui preocupado. Como é bom a gente viver em uma democracia de verdade, não?

domingo, novembro 27, 2005

Diretinho da Redação (36)


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DA POBREZA AMERICANA, AINDA INVISÍVEL

Nesta segunda-feira o prefeito de Camden, aqui ao lado em New Jersey, convidou um grupo de jornalistas para passear pela cidade. A idéia era mostrar como a localidade, eleita nos últimos três anos a mais violenta e perigosa dos Estados Unidos, estava lutando para vencer o estigma. Não deu lá muito certo. Novidades apresentadas como trunfos – a construção de uma nova biblioteca, a primeira em um século, de um novo hospital e de um clube para jovens - não apagaram a forte imagem dos muitos meninos negros mal-vestidos e à toa, espalhados pelas casas mal cuidadas da cidade.

Todo o outono aqui no hemisfério norte uma empresa do Kansas, a Morgan Quitno, divulga seu ranking de perímetros urbanos, a partir do número de crimes per capita. O maior peso é dado para assassinatos, estupros, assaltos à mão-armada, invasão de propriedade alheia e roubo de carros. O anúncio de que tal local é mais ou menos violento acaba influenciando os preços de um mercado imobiliário mais do que quente, uma das âncoras da economia norte-americana na última década.

Camden tem cerca de 80 mil habitantes e, em 2004, registrou 54 homicídios, incluindo o de um menino de 12 anos, assassinado em sua varanda. O bandido queria roubar seu rádio de pilhas. Parece um outro mundo. E é. Logo atrás de Camden no ranking do medo aparecem duas grandes metrópoles – Detroit e Saint Louis – que, não por acaso, também contam com uma grande população negra.

Os negros também eram maioria em New Orleans. Três meses após o furacão Katrina destruir a cidade, ativistas da Louisiana contam que pouco foi feito para recuperar a capital do jazz americano. Pior: os moradores já temem que o desvio da pauta nacional para temas como a retirada das tropas federais do atoleiro do Iraque e as eleições legislativas de 2006 façam com que o país esqueça a tragédia ainda mais rapidamente. Capa da revista ‘Time’ desta semana, os flagelados de New Orleans se desesperam: “os americanos se recusam terminantemente a enxergar a pobreza americana’.

Não é diferente em Camden. O destino da cidade, famosa por ser sede da fábrica das sopas Campbell, foi traçado na década de 70, quando os empregos migraram para a Ásia e a classe media desapareceu. O que se vê hoje são janelas gradeadas, lixo espalhado pelos gramados e uma sensação de medo que lembra a do inferno carioca.

O irônico é que, nos mesmos jornais em que espantados repórteres davam conta de mais um capítulo da desigualdade ianque, a atriz Sigourney Weaver, em anúncio de página inteira, fazia propaganda de um grupo assistencialista avisando que, para 1,5 milhão de nova-iorquinos, o “problema não é o que escolher para jantar, mas saber se haverá alguma comida na mesa”.

Mande sua ajuda à África, mas não esqueça dos miseráveis aqui de casa, lembrava a atriz. Camden fica localizada na Grande Filadélfia, duas horas ao sul de Nova Iorque. A pobreza na maior potência mundial só muda de sotaque. O mau cheiro e o desespero são os mesmos, nossos velhos conhecidos.

Verissimo e a Americanização da Política Brasileira

No "Globo" do dia 25 de novembro:

...Nos Estados Unidos, o paradoxo de a maioria democrata votar no partido dos ricos contra seus próprios interesses econômicos se explica pelo truque republicano de valorizar o economicamente irrelevante — aborto, direitos dos gays, religião — e ser o partido dos bons costumes acima de tudo. No Brasil, o que parece unir as classes e se impor a qualquer outra conveniência é o moralismo, que em certos casos também é uma astúcia para desviar a atenção do que interessa.

sexta-feira, novembro 18, 2005

Diretinho da Redação (35)


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Dois Grandes Filmes Chegando ao Brasil

Acontece em um átimo de segundo. São detalhes de cenas maiores e aparecem por ali quase que por descuido, mas a intenção dos diretores é clara. Em “Walk The Line”, um quadro emoldurado com a foto de Johnny Cash, e não do ator que o encarna nas telas, Joaquin Phoenix, escorrega por suas mãos quando ele tenta resgatar suas memórias em mais uma batalha contra a dependência química. Em “Capote”, a contra-capa de ‘A Sangue Frio’, o livro que mudou para sempre a literatura e o jornalismo contemporâneo, revela a foto de Truman Capote enquanto olhamos para Philip Seymour Hoffman, o ator que investiu todos os seus dimes na produção da biografia do escritor de Nova Orleans.

Os filmes, que estréiam no Brasil no início do ano que chega, receberam um tratamento mais do que especial da crítica e dos colegas de Hollywood. “Capote” não é um sucesso de público. A narrativa é mais lenta do que os grandes estúdios gostariam e os americanos ainda se incomodam com uma história centrada no assassino Perry Smith e não na família por ele dizimada na zona rural do Kansas. “Walk The Line” estréia por aqui nesta sexta-feira, mas na noite de gala a surpresa ficou por conta da maneira com que o filme evita a tentação de se contar a velha do história do ídolo pop que encontra na religião e no casamento convencional a salvação para seus temores.

“Capote” e “Walk The Line” se destacam, nestes tempos de fundamentalismo religioso, pela ausência da lição de moral. Truman Capote é um homossexual afetado na virada dos anos 50, manipula habilmente os assassinos para conseguir fama e produzir uma obra-prima, mas em nenhum momento é demonizado por Hoffman. E o Johnny Cash de Phoenix – que, sim, dá a voz, de forma brilhante, aos sucessos do ‘homem de negro’ – se redime pela bondade, pelo contato humano, pela concessão à intimidade, mas que jamais perde a nuvem negra que o acompanhou vida afora. Os dois atores têm sido saudados como candidatos fortes ao Oscar de março. Não por acaso, os diretores Bennett Miller e James Mangold nos mostram, ainda que rapidamente, as imagens das personalidades que de fato existiram, oferecendo ao espectador a possibilidade de embarcar, com conhecimento de causa, na fantasia de duas horas de cinema. Nos dois casos, vale a pena comprar o tíquete.