sexta-feira, novembro 11, 2005

Que Mensalão Que Nada!


Hoje o Valor publica reportagem do blogueiro aqui sobre o sistema eleitoral norte-americano. Conversei com o correspondente do "The Independent" aqui nos Estados Unidos, Andrew Gumbel, que lançou um livaço, "Steal This Vote", em que conta a história das falcatruas eleitorais por aqui. Na terça-feira, em média, menos de 40% dos americanos compareceram às urnas - aqui o voto não é obrigatório - e elegaram novos governadores (de Nova Jérsei e Virgínia, duas vitórias democratas) e prefeitos de cidades importantes como Nova Iorque, Boston e Atlanta. A matéria está ai:


O PODER DAS CORPORAÇÕES NAS ELEIÇÕES

Eduardo Graça, de Nova Iorque, para o Valor Econômico

Nesta terça-feira, menos de 40% dos americanos, em média, compareceram às urnas para decidir quem vai governar nos próximos anos os estados de Nova Jérsei e Geórgia e metrópoles como Nova Iorque e Boston. Esta imensa minoria também se posicionou sobre temas que alteram de forma significativa o dia-a-dia dos cidadãos, como a criação de linhas de transporte e o redirecionamento de polpudas fatias do orçamento público. “Os EUA são a democracia com menor participação popular do Ocidente. Se o voto aqui fosse obrigatório, como no Brasil, a coisa seria diferente. Mas este sistema serve a democratas e a republicanos, que preferem manter o eleitorado reduzido. A conseqüência é que os interesses econômicos e políticos dos menos abonados são completamente ignorados em Washington”. A afirmação, em entrevista exclusiva para o Valor, é do jornalista britânico Andrew Gumbel, correspondente do jornal ‘The Independent’ nos Estados Unidos e autor do livro definitivo sobre o processo eleitoral norte-americano, “Steal This Vote: Dirty Elections and the Rotten History of Democracy in América” (”Roube este voto: eleições sujas e a história podre da democracia norte-americana”).

A análise de Gumbel ajuda a preencher a lacuna de investigações sobre o controverso pleito de 2004. Enquanto a imprensa americana preferiu centrar fogo nas chamadas ‘guerras culturais’, apontando como razão central da vitória republicana temas como o aborto, o casamento gay e a relação cada vez mais nebulosa entre religião e Estado, quatro jornalistas, um acadêmico especializado no estudo das grandes corporações de mídia norte-americana e um respeitado político liberal de Illinois chegaram à conclusão de que os conservadores apenas se aproveitaram com mais esperteza de um sistema eleitoral viciado e anti-democrático.

Os livros também saem do forno no exato momento em que os brasileiros têm de lidar com a aparente falência de seu sistema representativo, em uma das mais vergonhosas legislaturas da história do Congresso Nacional. “Ao menos a virtual mesada que os deputados estariam recebendo para votar com o governo é uma prática completamente ilegal no Brasil. Nos EUA o sistema de financiamento eleitoral através das corporações é como uma mesada dentro da lei, desde que você respeite certos limites. Os congressistas não precisam receber um mensalão da Casa Branca porque os compromissos assumidos com seus financiadores são definidos de forma tão clara que eles votarão com o governo de forma automática”.

“Steal this Vote” mostra que dois aspectos do atual sistema eleitoral americano são especialmente funestos: o poder de influência das corporações, associado aos esquemas cada vez mais sofisticados de propaganda, e a ameaça das urnas eletrônicas. Como nos Estados Unidos os computadores não permitem uma recontagem manual, Gumbel lembra que é possível alterar o resultado de qualquer eleição de forma muito mais drástica: não apenas em uma seção, mas em centenas e centenas de distritos ao mesmo tempo, com a ajuda de um simples programa malicioso. Pior: as empresas que entraram na disputa para fornecer as urnas são grandes contribuintes dos partidos. E uma comissão eleitoral controlada pelos governos estaduais decide como as unidades devem ser distribuídas.

Assim, em Ohio, um estado decisivo nas eleições do ano passado, as filas nas grandes cidades, redutos democratas, impediram milhares de eleitores de votar, enquanto zonas eleitorais nas áreas menos populosas, de forte apelo republicano, receberam muito mais computadores, como mostra “O Que Deu Errado no Ohio?”, o relatório final de um aguerrido participante da comissão parlamentar que investigou o caótico pleito. Entre outras irregularidades que manchariam qualquer disputa realizada em países do Terceiro Mundo, zonas eleitorais registraram um comparecimento de mais de 98% e um distrito apurou os votos ‘em segredo’ por conta da ‘ameaça de um ato terrorista’. O comando das eleições em Ohio ficou nas mãos do secretário de Estado do governo local, que, exatamente como na Flórida em 2000, fazia parte do comitê executivo da campanha de Bush.

Para além de artimanhas e fraudes, todos tratam do destaque cada vez maior do dinheiro nas eleições americanas. Esta semana, dois milionários foram consagrados nas urnas: o republicano Michael Bloomberg, reeleito prefeito de Nova Iorque, e o democrata John Corzine, que fez sua fortuna na Goldman Sachs e troca o senado pelo governo de Nova Jérsei. Seu adversário foi o magnata da indústria farmacêutica Douglas Forrester. Eles gastaram oficialmente US$ 72 milhões nas campanhas, um recorde nacional. Bloomberg queimou US$ 66 milhões. “Democracia também pode ser definida pela distinção entre poder político e econômico. Era exatamente por isso que Thomas Jefferson prevenia os americanos da ascensão da tal ‘aristocracia dos endinheirados’. O montante investido nas candidaturas dos dois lados é a maior ameaça à democracia americana desde a década de 20”, ressalta Gumbel.

O jornalista aponta como única solução para a crise das democracias contemporâneas o financiamento público exclusivo das campanhas eleitorais. Para ele as eleições que presenciou desde que chegou ao país em 1998 deixaram claro que, nos EUA, nem republicanos nem democratas estão interessados no jogo limpo da democracia. E que a polarização entre duas forças políticas, seja de conservadores e liberais ou de socialistas e social-democratas, acaba por estabelecer um perigoso padrão maniqueísta eleitoral em que o perdedor é, sempre, o eleitor. “Democratas e republicanos querem vencer a qualquer custo e construíram um sistema eleitoral que não permite sequer a viabilização de uma terceira força política, no que talvez seja a maior traição ao mais básico princípio democrático”, diz Gumbel, um ardoroso defensor do direito de escolha.


AS ELEIÇÕES AMERICANAS E SEUS LIVROS


“Steal This Vote” – Lançado no ano passado, acaba de chegar às livrarias em formato de bolso. O livro de Andrew Gumbel foi uma coqueluche nas semanas que antecederam as eleições desta semana. A narrativa começa com a declaração do ex-presidente Jimmy Carter de que reprovaria sem hesitar o sistema eleitoral norte-americano, a começar pela inexistência de dois quesitos considerados fundamentais pelo Carter Center para um pleito justo: a igualitária exposição dos candidatos na mídia e a possibilidade de uma recontagem exata dos votos. Nation Books. US$ 16.

“Did George Bush Steal America’s 2004 Election? – Essential Documents” (“Bush surrupiou as eleições americanas de 2004? Documentos Essenciais”) - Bob Fitrakis, Henry Wasserman e Steve Rosenfeld, repórteres de Ohio, mostram como a vitória no pleito presidencial está ligada umbilicalmente ao controle das máquinas estaduais, em uma desconcertante semelhança com a República Velha brasileira. CICJ Books. US $40

“What Went Wrong In Ohio?” (“O Que Deu Errado em Ohio?”) – Com introdução de Gore Vidal, o livro é a reprodução do relatório final de John Conyers, deputado democrata de Detroit que investigou detalhadamente as eleições de 2004, revelando a manipulação do resultado especialmente através do controle das listas de votação. Academy Chicago. US$10.95.

“Fooled Again: How the Right Stole the 2004 Election & Why They’ll Steal the Next One Too (Unless We Stop Them)” (“Tapeados de novo: como a direita fraudou as eleições de 2004 e por que ela vai nos roubar a próxima, a não ser que a gente a impeça”) – O professor Mark Crispin Miller, da New York University, escreveu o livro em que conta como estrategistas democratas convenceram John Kerry a reconhecer a derrota imediatamente, para evitar a repetição da batalha de 2000. Em um encontro com o senador, na última semana de outubro, Miller conseguiu fazer com que Kerry, pela primeira vez, revelasse que acredita ter sido de fato garfado em 2004. Basic Books. $24.95.

O Massacre Que Ninguém Viu?

Esta semana o repórter Peter Popham, do jornal britânico "The Independent", escreveu uma bela reportagem sobre as novas evidências de que os EUA utilizaram armas químicas - em quantidades massivas - contra civis na cidade iraquiana de Falluja em novembro de 2004. Apesar de a história só aparecer na imprensa ocidental um ano depois do ocorrido, o que começa a ser chamado pelos jornalistas americanos de 'o massacre que ninguém viu' já era motivo de conversas mais ou menos sérias entre soldados que voltavam do Iraque e os poucos jornalistas independentes que seguem mandando notícias do país ocupado.

Popham lembra da terrível ironia de que o possível ataque a Falluja - um dos bastiões da resistência sunita - com armas químicas lembra o massacre dos curdos por Saddam Hussein, que teria utilizado o mesmo método para dizimar opositores da etnia no outro extremo do país.

A coisa ficou ainda mais feia quando outro repórter, Sigfrido Ranucci, da RAI italiana, colocou no ar imagens e uma série de entrevistas com jovens soldados americanos que participaram da 'tomada de Falluja' e que qualificam a ação de novembro de 2004 de 'matança de árabes'. Um dos soldados diz que 'viu os corpos de mulheres e crianças queimando depois do uso de armas químicas. Em um raio de 150 metros forma-se uma nuvem e ninguém sai dela vivo'.

A Rai também afirma que há provas de que se usou Napalm - uma violação à Convenção da ONU de 1980, que proíbe seu uso em perímetros urbanos - contra a população civil de Falluja.

As reportagens de Popham e de Ranucci podem ser lidas e vistas (o vídeo é especialmente forte) no endereço da sempre atenta TruthOut, é só clicar:

www.truthout.org/docs_2005/110805Z.shtml

quinta-feira, novembro 03, 2005

Chavito!


O jornal argentino "Pagina 12" anunciou com toda pompa domingo o objeto mais popular entre os militantes de esquerda em Mar del Plata: o bonequinho do Chavez. Pode?

Do meu iPod - Leroy Carr


Uma de minhas alegrias tem sido ouvir Leroy Carr (1905-1935). Foi ele, mais do que qualquer outro bluesman, quem fez a ponte, nos anos 30, do blues rural para o urbano, dando o tom do que seria a cena da música popular americana depois da Segunda Guerra Mundial. E fez tudo isso de seu piano. Carr formou em 1928, em Indianápolis, uma dupla com o guitarrista Francis Scrapper Blackwell que rendeu mais de 200 composições, coisas finas como “How Long, How Long Blues”, cantadas um tom abaixo de seus ídolos do blues rural. Esta, aliás, não por acaso, era a musica favorita de Robert Johnson.

Antes da fama, o adolescente Carr tocou seu piano em circo, passou um tempo no exército e, claro, participou da indústria do ‘bootleggin’ no sul americano, destilando e vendendo seu uísque ilegalmente durante a Lei Seca. Mas sua vocação principal era mesmo o blues. Muito se fala no piano de Carr. Eu ando mais fixado em sua voz. Na cadência mais rápida e menos lânguida de quem quer dar o recado com a maior rapidez possível. Uma voz nasal, tensa, furtiva. Mas divina.

Durante sete anos, entre 1928 e 1934, Carr e Blackwell gravaram para o selo Vocalion alguns dos mais belos blues jamais escritos pelas bandas de cá. E também, vá lá, outra razão para minha paixonite por Carr, baladas e coisas mais ou menos similares ao vaudeville e ao ragtime. Seu desprezo pelos clubes fechados e pepitas como “Midnight Hour Blues” e ‘Shady Lane Blues’ o transformaram em algo como uma estrela pop da época. Derrotado pelo alcoolismo, ele morreu em abril de 1935, no auge da fama. Para ele Amos Easton escreveu, a doída “The Death of Leroy Carr”, que diz assim:

“Agora gente, eu vou contar, da maneira mais fiel possível, como Leroy Carr morreu. Ela era meu melhor amigo. Em um domingo, exatamente às nove da manhã, aquele trem passou por cima dele, e ele começou a estrebuchar. Ele então disse: Senhor, tenha piedade, estou tão desesperado! E me pediu, por favor, que fizesse tudo o que pudesse por ele. Na segunda-feira de manhã bem cedo, logo que o dia nasceu, nós começamos a chorar, quando ele começava a morrer. Eu então liguei para o médico e quando ele chegou, minha gente, Leroy já havia morrido e nos abandonado”.

Blackwell seguiu carreira, e até hoje é considerado um dos maiores compositores da primeira geração do blues urbano. Mas pouco se fala de Carr. Quando o blues virou notícia de jornal, ele já era uma lenda. Ray Charles e Elmore James regravaram seu "Blues Before Sunrise", em inspiradas versões. Muddy Waters contou que a primeira música que aprendeu a tocar na guitarra foi "How Long". Count Basie fez versões apenas para o piano dos sucessos de Carr. E o primeiro hit de Nat King Cole, "That Ain't Right", era, como conta o crítico Eliah Wald, 'infestado da música de Carr'. E o especialista Arnold Shaw diz que a balada soul começa em Carr, passa por Dinah Washington e Sam Cooke, desaguando em Otis Redding e Jerry Butler.

Favorito de gente como T-Bone Walker, Otis Spann e, acima de todos, John Lee Hooker, o gênio esquecido dos anos 30 sobrevive em coletâneas lançadas a partir dos anos 90. Meu disco favorito saiu por aqui pela Magpie e se chama ‘The Piano Blues 1930-1935’, reunindo o que ele e Blackwell produziram de mais interessante e que, uma década depois, seriam a base para o que de melhor se tocou numa certa Chicago.

Quem quiser ouvir um pouco do blues suave e urgente de Carr pode aproveitar e correr lá no “The Smudge of Ashen Fluff”, do blogueiro de muito bom gosto Canowine.

“New How Long, How Long Blues, Part 2” e “Sloppy Drunk Blues” valem a clicada: http://popdrivel.blogspot.com/2005/10/sloppy-drunk-blues.html

quarta-feira, novembro 02, 2005

Diretinho da Redação (34)



A AMERICANIZAÇÃO DA POLÍTICA BRASILEIRA

Já são favas contadas o referendo do dia 23 de outubro. Sim ou não? Ora, o que menos importou, já é consenso, foi se posicionar sobre a livre comercialização de armas de fogo e munição no território brasileiro. Mas, para além de uma derrota do governo ou de um recado dado pela população à classe política – uma versão verde-e-amarela do “Que Se Vayan Todos” – chama a atenção um aspecto pouco explorado das seqüelas deste plebiscito inoportuno: a galopante americanização da cultura política brasileira.

Um dos melhores textos sobre o que de fato aconteceu no dia 23 de outubro foi a análise de Wilson Tosta, no site ‘Vida & Política’, sobre a consolidação de um novo pensamento conservador brasileiro, ‘supostamente racional e capaz de dialogar com faixas do eleitorado que chamamos de progressista’. O jornalista chama a atenção para a tática de apreensão do imaginário popular a partir da ‘racionalização do irracional’. A direita brasileira deixa de lado os Sivucas e os Bolsonaros e substitui o ‘bandido bom é bandido morto’ por um discurso ‘aparentemente’ não-emocional, com ênfase no direito individual.

Depois do fim da ameaça vermelha, foi justamente este movimento – a substituição do medo dos comunistas, dos pobres, das massas, dos imigrantes, pela aversão aos homossexuais, aos pró-aborto, aos verdes – que impulsionou a sociedade americana a eleger por três vezes um presidente com sobrenome Bush e a transformar o Capitólio – inclusive nos dois governos Clinton – em domínio absoluto dos republicanos. Aqui, as chamadas ‘guerras culturais’ são centradas na idéia de que a ‘elite liberal’ é formada por milionários da Park Avenue e estrelas excêntricas de Hollywood, interessados em impregnar a sociedade de valores alienígenas à grande massa ordeira e trabalhadora. Valores que não se coadunam com a tradição puritana de um pais imaginado por missionários.

E o que nós temos com isso? Tosta conta que no Brasil vai-se erguendo diariamente um muro entre as ‘elites esclarecidas’ e o povo ‘abandonado’. A propaganda do ‘sim’ menosprezou este aspecto: o que pode me dizer esta gente que vive em condomínios fortemente protegidos com seguranças por todos os lados ou em suas coberturas na Vieira Souto, de frente para o mar? Se é bom para o Chico Buarque e para a Fernanda Montenegro, porque é que seria para mim também? Os defensores do não se apresentam como ‘gente comum’, distante dos privilégios das ‘celebridades’, interessados em preservar os ‘direitos individuais’ do grosso da população. Este raciocínio encontra campo naturalmente fértil no Brasil, com a notória incompetência do setor público para resolver nossos gigantescos problemas sociais.

Em um movimento raro na política brasileira, o plebiscito do dia 23 marca o avanço do conservadorismo para além de seu gueto social e político. Mais: ele se consolida como primeiro herdeiro oficial do PT ao tomar deste o discurso moralista que o impulsionou – na definição brizolista da ‘UDN de macacão’ – nas décadas que passaram. Esta inversão de papéis no tabuleiro político revela-se tão instigante quanto perigosa. Não é por acaso que próceres da ‘nova’ direita já decidiram centrar sua munição em alvos bem específicos: a redução do limite de idade (fala-se em 12, 13 anos) para a penalização de infratores jovens, a oposição à união civil dos homossexuais, o combate à regulamentação do consumo e venda de drogas e do aborto. Vem mais por aí.

links: DR: www.diretodaredacao.com
Vida & Política: http://www.blog-se.com.br/blog/conteudo/home.asp?idBlog=11888

sexta-feira, outubro 28, 2005

Eu & Cultura - Valor Econômico de 28/10




Amigos, deixei o blog um pouco de lado, por conta da quantidade de reportagens que estive tocando nas duas últimas semanas. Esta aqui, sobre a ascensão da pornografia digital em terras de Uncle Sam, que inclui um bate-bola com a jornalista Pamela Paul, autora de 'Pornified", acaba de sair, neste fim de semana, no Valor Econômico.

TUDO O QUE VOCÊ GOSTARIA DE SABER SOBRE SEXO

Eduardo Graça, de Nova Iorque, para o Valor

Eles são jovens e decidiram encarar de frente o que consideram ser um aspecto sufocante da atual cultura pop americana: a pornografia. Colaboradora da revista “Time”, Pamela Paul escreveu ‘Pornified: How the Culture of Pornography Is Changing Our Lives, Our Relationships and Our Families’, um libelo contra os efeitos da exposição à pornografia vinte e quatro horas por dia que será lançado no Brasil pela Editora Cultrix. Repórter da “New York”, Ariel Levy acaba de lançar ‘Female Chauvinist Pigs: Women and the Rise of Raunch Culture’, em que cerra fogo contra uma visão vulgarizada da sexualidade feminina. E dois pastores da costa oeste, Craig Cross e Mike Foster, criaram a única igreja do mundo dedicada exclusivamente ao combate da pornografia. Afinal de contas, o que está acontecendo de tão intrigante assim na vida sexual dos americanos?

Pamela Paul, ‘trinta e poucos anos’, decididamente não gosta do que vê. Ela decidiu escrever ‘Pornified’ depois de terminar, há pouco menos de dois anos, uma reportagem para a ‘Time’ intitulada ‘O Elemento Pornô”. Os anos 90, conta, trouxeram o que ela qualifica de ‘massificação da pornografia’, com sua transformação em valor positivo, libertador e ‘cool’ dentro da cena cultural americana.

“O Elemento Pornô” se tornou a reportagem mais procurada e enviada por e-mail pelos assinantes da “Time”. Todos queriam ler a história dos homens que admitiam não conseguir mais manter uma ereção com suas esposas de 40 anos ou namoradas de 25. O motivo: elas não se pareciam nada com as estrelas pornográficas que passavam o dia, fogosas e lampeiras, nas telas de seus computadores.

Para investigar os efeitos da pornografia no cidadão comum, a repórter entrevistou mais de uma centena de pessoas e contratou um instituto de pesquisas. Os dados encontrados resultaram em um livro controverso, desde a capa – uma calcinha com as cores da bandeira americana, de dimensões mínimas, pendurada por pregadores em um varal. Por “Pornified” passam personagens como as meninas interessadas em criar seu próprio site erótico, a mulher que descobre a caixa secreta do marido com disquetes repletos de imagens de pornografia infantil e os garotos que gravam, exatamente como em um caso recente no Rio de Janeiro, suas relações sexuais com as adolescentes da escola.

Um mundo em que a intimidade é substituída pela valorização extrema da fantasia, do cinismo, da constante insatisfação e do isolamento emocional. E em que espectadores passivos vêem de casa, em rede de tevê aberta, os seios de Janet Jackson, para logo depois correr para a internet a fim de conferir o vídeo explícito de Paris Hilton, guardando um tempinho para devorar a autobiografia da atriz pornô Jenna Jameson, durante meses na lista dos mais vendidos na categoria não-ficção dos principais jornais do país. “A pornografia está em todos os lugares. Ela se tornou ‘hip’, sensual e divertida. É, oficialmente, parte de nossa rotina e interfere de modo inequívoco com a vida real”, diz a autora.

Se “Pornified” foi recebido por liberais como uma apologia alarmista dos tempos ‘neo-conservadores’ de Bush & cia, “Female Chauvinist Pigs” percorre caminhos diversos para chegar a conclusões parecidas. Para Ariel Levy, 30, o problema se agravou com as políticas neo-conservadoras: “Eu discordo de que a cultura americana seja sexualizada em demasia. É exatamente o oposto. Nós ainda estamos tão desconfortáveis com a complexidade do sexo que precisamos nos cercar destas caricaturas de ‘gostosonas’ para aceitarmos o prazer e a paixão. E agora, com a educação sexual pública direcionada para a abstinência, os adolescentes ficam espremidos entre duas mensagens opostas e radicais – a política conservadora do ‘apenas diga não’ e o discurso do ‘quanto mais selvagem melhor’”.

Ariel batizou uma personagem já conhecida da maioria dos americanos– a ‘mulher chauvinista’. Se o ‘porco chauvinista’ era aquele que tratava o sexo oposto como mercadoria, as meninas agora se apresentam felizes como objetos sexuais. Um dos exemplos de ‘mulheres chauvinistas’ usados por Ariel são as protagonistas do filme “As Panteras”, que chegou ao topo da bilheteria em 2000: “As atrizes falavam o tempo todo de estarem encarnando ‘mulheres fortes’, ‘senhoras de si’, enquanto seu figurino era baseado no estilo ‘soft-porn’. E a seqüência, em 2003, exigiu que elas fizessem um strip-tease para vencer os antagonistas”.

Mas Ariel sabe que ali mesmo, no mundo das revistas, um novo gênero emerge como sucesso de público – as ‘Lad Mags’, que incluem títulos como ‘Maxim’ e ‘Stuff’, oferecendo celebridades fotografadas em minúsculas roupas nas posições mais ousadas. Quando conversou com as editoras das revistas, Ariel ouviu que ‘finalmente as mulheres conseguiram o direito de ler a ‘Playboy’, de não se preocupar com a fetichização e a misoginia’. Se os homens tinham o direito de se afirmarem como ‘porcos chauvinistas’, por que não as mulheres?

Os dois estudos chegam às livrarias ao mesmo tempo em que a Universidade da Califórnia divulga uma pesquisa comparativa sobre os hábitos sexuais dos jovens americanos. De acordo com o estudo, , publicado pela ‘Review of General Psicology” e que se debruça sobre um universo de mais de um milhão de jovens entrevistados em cinco décadas, de 1943 a 1999, a idade em que a maioria das mulheres perdeu a virgindade caiu dos 19 para os 15 anos de idade. E a porcentagem de adolescentes sexualmente ativa subiu de 13 para 47%. Se a geração do ‘baby boom’ teve sua iniciação sexual na universidade, a garotada de hoje começa a manter relações sexuais na escola secundária.

Uma mudança cultural, observa Ariel, muito veloz: “Apenas trinta anos atrás minha mãe estava queimado sutiãs e comandando um boicote à ‘Playboy’. Agora minhas amigas estão colocando prótese e vestindo camisetas do coelhinho como símbolo de liberação. Para mim, liberada e libertária ainda são termos bem díspares. E acho válido perguntar a nós mesmas se este mundo de ‘peitolas’ e ‘coxões’ que ressuscitamos reflete o quão longe nós chegamos ou apenas o quão longe nos deixaram chegar”.

Em uma de suas edições deste outubro, outra revista, a insuspeita semanal ‘Time Out-New York’ dedicava-se justamente a mapear a invasão da indústria pornográfica no cotidiano cidade. “Talvez por nossa herança puritana, nós lidamos com a pornografia em um arco que vai da hipocrisia à esquizofrenia”, justificou o editor Howard Halle, ao explicar aos leitores por que a revista decidira abrir na capa uma foto de uma perna não-identificada, usando meia arrastão com o carimbo: ‘cuidado, contém material explícito!’.

Halle lembrou que até mesmo os conservadores já se renderam ao vocabulário da pornografia como uma maneira mais direta de se comunicar com seu rebanho. Uma dupla de pastores da Costa Oeste, Craig Gross, 29 e Mike Foster, 34, decidiu, com sucesso, se dedicar ao ministério da anti-pornografia.“Um dia eu estava no chuveiro e Deus disse uma única palavra – pornografia. E assim tudo começou”, lembra Foster no documentário “Missionary Positions”, hit entre jovens cristãos.

No filme, o diretor Bill Day acompanha os pastores em suas peregrinações por feiras de eventos eróticos em Las Vegas, sets de filmes de sexo explícito em Hollywood, casas de reabilitação para viciados em sexo no Kentucky. A dupla revela sua missão: “recuperar os profissionais do sexo e ajudar a pobre massa de sofredores afetada pela praga pornô que toma conta do planeta”.

O que atraiu Day para o projeto foi a transformação de dois surfistas que se utilizam das gírias da chamada ‘geração Jackass’ para difundir uma mensagem religiosa de grande aceitação nos flancos conservadores do país. No endereço www.xxxchurch.com, com a paginação gráfica típica dos sites de sexo pago, seios são substituídos por sermões, atos sexuais por salmos, contos eróticos por depoimentos de gente que deixou de lado a ‘dependência pornográfica’ para seguir ‘uma nova vida’. O sucesso da ação da dupla pode ser medido pela centena de igrejas que já aderiram ao “Porn Sunday”, um pacote de pregações que inclui um ‘kit-pornô’ para se discutir o tema e a apresentação do documentário. Tudo a módicos US$ 2.500, utilizados para a compra de materiais eveangélicos. “As pessoas ainda pensam que a pornografia é apenas uma questão de foro íntimo. Mas de acordo com nossa experiência ela é a responsável por um terço dos divórcios neste pais”, prega Gross.

Halle lembra que o ‘Journal of Religion and Society’ acaba de publicar uma pesquisa mostrando que os Estados Unidos são a nação do Primeiro Mundo que têm a maior incidência de aborto e doenças sexualmente transmissíveis, exatamente pela presença maciça de campanhas religiosas conservadoras: “Vai ver que isso também explica nosso caso de amor e ódio com a pornografia”.

ENTREVISTA/ PAMELA PAUL

- Qual a diferença entre o momento que vivemos agora e os anos 80, quando os vídeo levou a pornografia para dentro de casa?

- É muito importante destingir sexualidade e pornografia, que é a representação comercial de certas formas de sexualidade. Tende-se a pensar na pornografia como um entretenimento inofensivo, mas há efeitos colaterais extremamente negativos para quem a consome, particularmente em quantidades cavalares e em tempo real. A invenção do vídeo-cassete mudou sim a maneira das pessoas lidarem com a pornografia. Mas os canais à cabo e a internet intensificou este processo. Ninguém precisa mais ir ao cinema de filmes adultos, diminuindo-se, assim, o risco e a vergonha. A indústria pornográfica é hoje um negócio anônimo, acessível e razoavelmente barato, muito diferente de vinte anos atrás.

- Quando uma pessoa pode começar a pensar que a pornografia é um problema em sua vida pessoal?

- Alguns homens que eu entrevistei para o livro me contaram que para conseguir chegar ao orgasmo eles tinham de imitar os movimentos do que viam na internet. Outros contavam que perdiam horas no computador, viciados na pornografia, e que não conseguiam se dedicar da mesma forma ao trabalho. E outros se descobriam assustados com seu excitamento por um lado mais ‘hardcore’, incluindo falsas cenas de estupro.

- - “Pornified” defende a tese de que, hoje em dia, é mais difícil evitar a pornografia do que encontrá-la...

- É muito difícil evitar a pornografia on-line porque ela surge nos lugares mais inesperados. Trata-se de um negócio lucrativo e seus criadores são insaciáveis na promoção de seu produto. Há detalhes perniciosos como os sites com nomes de personagens de Disney, com a pronúncia alterada, criados especialmente para atrair crianças.

- Você diria que a pornografia na rede afeta a educação sexual de adolescentes?

-Ela é bem diferente das velhas imagens de mulheres nuas da “Playboy”, é mais extrema e mais literal. Adolescentes muitas vezes não conseguem realmente entender o que estão vendo. Pior: muitas crianças entram em contato com este mundo antes da puberdade. Outro dia eu conversei com uma pediatra que tratou de crianças que repetiam cenas pornôs que viram nos computadores de seus pais.

- 11 milhões de vídeos pornográficos são alugados todos os dias nos EUA. Você não acha que é um tempo imenso dedicado à pornografia?

- O tempo aumenta com o incremento da oferta. Imagine se as bebidas alcoólicas passassem a ser aceitas normalmente durante o dia. Se, ao invés de cafés, os bares abrissem de manhã e todos tomassem um coquetel antes de ir para o trabalho. E, no escritório, ao invés do cafezinho, as pessoas bebessem goles do seu drinque favorito o dia todo. Obviamente, o consumo de álcool seria elevado ao cubo! É exatamente o que está acontecendo com a pornografia. Ela é tão acessível, tão naturalmente aceita, que as pessoas estão consumindo-a aos borbotões.

- E por que você acha que um governo tão cioso da moral e dos bons costumes não se dedica a uma cruzada contra a pornografia?

-Porque estamos lidando com uma indústria imensa, poderosa, com um lobby muito eficiente. A maioria das empresas de comunicação a vê como uma cliente endinheirada, disposta como poucas a investir em propaganda. E os republicanos são ardentes defensores do mercado livre, contrários a qualquer medida reguladora. Mais: a pornografia ainda é vista por muitos como um assunto ‘feminista’.

- Mas você não acha que, de fato, a pornografia heterossexual retrata as mulheres de uma maneira ofensiva?

- Claro que sim, e o livro da Ariel(Levy) trata com atenção deste aspecto. Eu penso que a pornografia apresenta uma visão limitada e negativa da sexualidade feminina. Não concordo que ela possa ser sensual ou liberalizante. Ela é estreita, comercial e estereotipada. Mas ela limita igualmente o papel do homem.

- Mas não há nenhum momento em que a pornografia possa ser saudável?

- O sexo é saudável, a fantasia pode ser saudável, a masturbação é saudável e representações artísticas e sexualizadas da realidade podem ser maravilhosas. A pornografia, não. É terrível viver em uma sociedade em que nossas idéias sobre sexualidade são mediadas pela indústria pornográfica a um ponto tal que muitos pensam no consumo de seu produto como um sinal de saúde sexual.

domingo, outubro 23, 2005

O tempo, danado, tinhoso, certeiro.

Hoje é aniversário de Charly Garcia. O roqueiro argentino faz 54 anos e comemora com um show no Gran Rex, em Buenos Aires. Se eu pudesse, estaria sacolejando por lá. O 'Pagina 12' brindou a data publicando uma de suas letras mais doídas, do disco Filosofía barata y zapatos de goma, de 1990, sobre ele, o danado, o tinhoso, o certeiro:

Reloj de Plastilina

Una vez creí que nada iba a pasarme.
Una vez pensé que nadie iba a matarme.

El tiempo pasó
entre rayuelas y cometas
entre un amor y bicicletas
y aunque estuviera solo sabía jugar
aunque quisiera llorar.

Yo te quería amar y no sabía tu nombre.

Te quería encontrar, pero no sabía dónde
yo te fui a buscar
quería que todo fuera eterno
se fue el amor
llegó el invierno
y anduve tiritando en cualquier lugar
y sólo pude llorar.

Alcanzar lo interminable
rebotando en la pared
dando vueltas en el aire
mientras el payaso hace la red.

Nadie pudo ver que el tiempo era una herida
lástima nacer
y no salir con vida
yo quiero llorar.

Reloj de plastilina
no existes más
ya no te puedo esperar
mientras el payaso hace la red.

Salgo a caminar
y sigo imaginando
fui lo que creí
soy lo que está pasando
No quiero llorar.

No quiero estar envuelto en penas
siempre arrastrando estas cadenas
si el tiempo no es amigo
no importa más
yo sólo quiero jugar.

Jugar, jugar
sólo quiero ver jugar
yo sólo quiero jugar
sólo quiero jugar.

quinta-feira, outubro 13, 2005

Pobreza...aonde mesmo?

Hoje o NYT traz uma reportagem de Celia W.Dugger analisando os dados do Banco Mundial que mostram uma redução significativa dos níveis de pobreza na...antiga União Soviética. Desde 1998, quando a Crise Russa derrubou mercados em todo o mundo, 40 milhões de pessoas deixaram a pobreza para trás no Leste Europeu e nos países da antiga URSS. Os pobres ainda são 61 milhões, mas a proporção de miseráveis caiu de um para cada cinco habitantes para um e cada oito.

As razões para a melhora? Para o neo-con Banco Mundial foram duas: crescimento econômico e aumento da oferta de empregos. Mas pesquisadores locais falam do nível educacional dos trabalhadores da antiga União Soviética, mais alto do que o padrão, como um fator fundamental para a mobilidade social.

Os dados mostram um crescimento desigual: enquanto Rússia, Hungria, Moldávia, Romênia e Cazaquistão diminuem a pobreza a passos largos, a Polônia e a Geórgia continuam a aumentar as desigualdades sociais.

Enquanto isso, no Brasil e nos Estados Unidos...

A reportagem, em inglês, pode ser encontrada, para leitores cadastrados (de graça), no endereço http://www.nytimes.com/2005/10/13/international/europe/13russia.html

Pinter, sempre Pinter


"Os Estados Unidos são o mais perigoso império da história planetária. Eles são o autêntico Estado Bárbaro"

Harold Pinter, dramaturgo inglês, que acaba de ganhar o Nobel de Literatura-2005, em 10 de setembro de 2001, poucas horas antes do atentado contra as Torres Gêmeas, aqui em Nova Iorque.

Diretinho da Redação (33)




VOU VOTAR SIM

Os americanos estão morrendo de rir. Nas pequenas notas que aparecem nos jornais de cá sobre o plebiscito do dia 23, o deboche tem sido a regra. Ninguém consegue compreender como um país envolto em um gigantesco escândalo de corrupção e em uma perigosa crise institucional pode gastar mais de R$ 200 milhões no referendo sobre o desarmamento de seus cidadãos. Só no Brasil, me dizem.

Não, eu não sou apostolo do não. Não mesmo. Se o controle de venda de armas e munições estivesse valendo aqui nos Estados Unidos, não teríamos testemunhado a barbárie de Nova Orleans, quando um dos maiores problemas da polícia foi justamente lidar com cidadãos armados. O Centre for Humanitarian Dialogue, uma ONG seriíssima sediada em Genebra, acaba de lançar uma publicação em que mostra como a posse de armas por civis atravanca e muitas vezes impede mesmo a ajuda a necessitados em todo o mundo. Um em cada cinco trabalhadores engajados em programas de auxílio a populações afetadas por desastres já foram baleados por civis.

É claro que o desarmamento é uma pedra enorme no sapato dos americanos. Há todo o catecismo liberal de que uma consulta popular como a do dia 23 atenta contra a liberdade do indivíduo. Mas o buraco é mais embaixo. Os Estados Unidos são, desde 1993, o líder na exportação de armas para países ‘em desenvolvimento’, com lucros de US$ 61,5 bilhões. O negócio mobiliza mais de 300 fábricas e o mercado doméstico é considerado o maior do mundo. Estima-se que 34% dos americanos (uma multidão de 95 milhões de pessoas) possuem ao menos uma arma de fogo em casa. Existem hoje mais de 200 milhões de armas nas mãos de civis por aqui e pesquisas mostram que a maioria não se sente mais segura ao adquirir seu armamento.

Como não há legislação específica – o plebiscito brasileiro é pioneiro no mundo – a revenda de armas é hoje um dos grandes problemas da polícia norte-americana. A cada chacina em colégio de segundo grau ouve-se especialistas em segurança pública reclamando que não há como prevenir a compra de armas por adolescentes ou gente que já passou algum tempo no xilindró.

Aqui, vende quem quer, compra quem pode. E os crimes hediondos têm diminuído na mesma proporção em que aumentam os casos fatais de violência doméstica com o uso de armas.

Não me iludo achando que este desarmamento vai acabar com a violência urbana no país.

Mas, vem cá, afinal de contas, de que tanto riem os americanos?

Eu voto sim no dia 23.

Regina é de Morte



Minha amiga Regina Zappa lança dia 19 de outubro, na Argumento, seu mais novo livro, 'Doce Lar". Um suspense delicioso. Tô doido para chegar dezembro e poder ler este e o próximo que vem por aí...o perfilzão de Hugo Carvana.

Viva Regina!

sexta-feira, outubro 07, 2005

Ti-ti-ti (com Ivson Alves)

Amigos,

Ti-ti-ti é o que o nome sugere: um papo informal com gente, daqui e daí, que pensa, escreve e tem algo a dizer.

A estréia é neste segundo com o jornalista Ivson Alves, que, além de muitas outras coisas, criou em 1996 o site ‘Coleguinhas”, um dos pioneiros no jornalismo interneteiro no Brasil. Para quem não sabe, ele pode ser encontrado facinho, facinho, no blog ‘Picadinho”, garantia de boa informacão na rede.

Quer saber mais sobre ele? Vai lá, mané: http://www.coleguinhas.jor.br/picadinho.html


e: Vota SIM ou NÃO no dia 23?

i: Voto sim.

e: Quem resolveu buscar na imprensa brasileira uma orientação sobre
como votar no plebiscito saiu feliz da vida ou mais perdido que cego em
tiroteio?

i: Deve ter ficado puto, pois não conseguiu encontrar um debate real, com argumentos de um e de outro lado.

e: O projeto de transposição do São Francisco é a Transamazônica do
Lula?

i: Como vou saber? Ninguém bota os dois lados da questão. Só sei que ouço essa idéia tem pelo menos uns 30 anos e, pelo que entendi até agora, tem uma parte que nem é contra o projeto totalmente, quer apenas que ele leve mais tempo, havendo uma revitalização do rio primeiro, para depois modificar-lhe o curso.

e: E este Bispo Cappio, hein? Está mais para herói dos sertanejos ou para instrumento político de ACM?

i: Mais uma encarnação do messianismo típica do Nordeste - Padim Ciço, Frei Damião... - usado como arma política pelos poderosos de sempre.

e: Lula, nosso guia ou rei do trambique?

i: Um brasileiro comum que, como brasileiro comum, não entende os mecanismos do poder.

e: Remoção de favelas ontem, esterilização dos pobres hoje, o que está acontecendo com a direita festiva carioca?

i: Não tenho idéia. Não faço parte da corrente. Experimenta perguntar pro Millôr.

e: Denise Frossard ou Rosinha?

i: Passo.

e: Hillary ou Condoleezza?

i: Dureza...Hillary, mas só pra contrariar o Bush.

e: Castro ou Chavez?

i: Castro. Práxis muito superior

e: Os americanos agora estão chiando por conta da nova legislação venezuelana, que obriga as estações a tocar música produzida no país. A fiscalização é intensa e gente como Simon Diaz, que estava esquecida, voltou às paradas. Acha que responsabilidade social passa pela determinação do que deve ou não tocar no rádio?

i: Não, mas passa por determinar uma cota razoável - uns 35, 40% -, pois não dá pra encarar a indústria cultural americana na cara limpa.

e: Uma nota, maestro, para a política externa do governo Lula. E explica um tiquinho seus critérios.

i: Nota Oito. Ela procura um caminho próprio, diversificando parceiros, na política do "nunca segurar apenas numa Alca só". Não leva Dez, nota Dez, pela mania de "liderança". Como entre gente, liderança não se impõe também em política internacional.

e: Os blogs políticos são uma realidade por aqui e são vistos como meio importantíssimo nas eleições de 2008. E aí em Lulalândia? Eles terão alguma importância no pleito do ano que vem?

i: Cê só pode tá de sacanagem. Só uns 10% da população tem acesso à Internet e 90% desses tem como maior exercício intelectual escrever scraps no Orkut.

e: Qual foi a mais recente epifania que você viveu a partir de uma obra de arte produzida em 2005?

i: Produzida? Nenhuma. Mas lida, agora, "Fronda dos Mazombos", de Evaldo Cabral de Melo.

e: O peão gay se assume em ‘America’?

i: Não vejo novela. Não é pernosticismo não. Prefiro a Série B do Brasileiro, onde o Náutico vai bem, e as séries do Universal Channel.

e: E a esta altura do campeonato, o que você faria com o corpo de Lênin?

i: Botaria em praça pública e levaria crianças para elas verem que houve tempos em que os homens viam que o mundo estava indo pro brejo e faziam algo a respeito para impedir.

Diretinho da Redação (32)

O texto abaixo já pode ser lido no Direto da Redação (www.diretodaredacao.com)

TOLERÂNCIA ZERO COM O PREFEITO MALUQUINHO

Nada mais desigual. Enquanto o prefeito César Maia resolve desenterrar a idéia fascista de remoção de populações inteiras das favelas cariocas, por aqui a campanha municipal esquenta com o republicano Mike Bloomberg ostentando uma arma poderosíssima na luta pela reeleição: o índice de criminalidade nunca esteve tão baixo em Nova Iorque.

Na semana passada, aqui no Brooklyn, ele comemorou com uma platéia atenta o fato de que ‘nós somos a metrópole mais segura da América”. É claro, você vai me lembrar que tudo isso começou com Rudi Giuliani, o prefeito conservador que fechou sex shops, acabou com o vale-tudo da Rua 42 e cunhou um termo para as prisões em massa com pesadas penas dadas aos infratores: a tal da tolerância zero. De fato, Giuliani se elegeu com uma plataforma que esculhambava com a política de segurança do alcaide da vez, o negro democrata David Dinkins, perdido em uma batalha aparentemente sem fim contra a epidemia de crack na cidade.

Com Giuliani, o tráfico realmente deixou as ruas, mas para se confinar nos projetos habitacionais, e nunca tantos negros foram passar uma temporada no xilindró. Afinal, só entra para o ramo das drogas quem está nos patamares mais baixos da economia local. O republicano foi canonizado no exterior e é uma das possíveis opções do partido situacionista para a sucessão de Bush, mas os efeitos colaterais de sua política do ‘big stick’ local, copiadas da costa leste à Califórnia, são chagas ainda não cicatrizadas aqui na Big Apple.

O numero de adolescentes confinados para sempre na cadeias americanas é o maior do mundo – um dado que envergonha o país – e as tensões sociais criadas pela tolerância zero levaram o Harlem e os cafundós do Queens, do Bronx e do Brooklyn a uma sensação de segregação que não se via desde os anos 60. Quando um judeu ortodoxo apanhou mais do que Judas em sábado de Aleluia depois de atropelar um estudante negro em Crown Heights e, meses depois, seis brancos lincharam um negro no Queens em frente a um bar, a rica fauna de Park Avenue absorveu estas tragédias como ‘seqüelas inevitáveis’ de uma cidade de 8 milhões de habitantes e mais de 50 nacionalidades diferentes. Coisas da vida. Dos outros, é claro.

Bloomberg, um republicano de última hora, que só abandonou o Partido Democrata para conseguir legenda, pensa diferente. Sua estratégia, em um primeiro momento, parecia suicida. Ele reduziu o número de policiais, diminuiu o orçamento e a munição da polícia, concentrando sua ação nas áreas mais conflituosas, na chamada “Operação Impacto”. No entanto, desde que ele tomou o poder, os crimes reduziram em 20% . Mais: uma pesquisa acaba de mostrar que 53% dos negros aprovam a atuação de sua polícia, contra 21% no caso de Giuliani.

Semana passada o alcaide bilionário andava tranqüilamente pelo Harlem, uma área tradicionalmente hostil a políticos conservadores. Bloomberg lembrava os eleitores de que seu principal investimento na corporação foi em inteligência e tecnologia: hoje a polícia nova-iorquina mapeia melhor a cidade, identifica mais rapidamente as ameaças, conhece melhor os criminosos. As ligações para o 911 são agora todas digitalizadas – e usadas como evidência nos tribunais – , o uso de testes de DNA para evitar injustiças baseadas em preconceitos raciais é corriqueiro, e foi criado o ‘real time crime center’, que envia informações sobre suspeitos em tempo real, quase igual ao que se vê nas séries de televisão.

É claro que este é um investimento maciço de dinheiro que cidades como o Rio de Janeiro talvez não pudessem arcar. Mas quem disse que Nova Iorque tinha tudo isso em caixa? No exato momento a administração republicana projeta para 2006 um déficit de US$ 6 bilhões. Seus moradores, sentindo-se muito mais seguros, não parecem estar nem aí.

Com um índice de aprovação que beira os 70%, Bloomberg pensa agora em integrar mais os projetos habitacionais, aumentando as opções de transporte público e deslocando policiais para as escolas em que a população de renda mais baixa matricula seus filhos. Como se vê, até mesmo para um político conservador e com um terrível cacoete de desrespeitar as liberdades civis como Bloomberg, é possível executar uma política de segurança racional e efetiva ao mesmo tempo em que se combate o apartheid social. Tolerância zero com o prefeito maluquinho, minha gente!

Deda & Zuenir

Hoje o Correio me trouxe uma surpresa deliciosa: uma edição de sábado do jornal "Público", de Portugal. Lá dentro, na capa do suplemento-cabeça 'Mil Folhas', uma entrevista sensacional da querida amiga Andréia Azevedo Soares com seu colega Zuenir Ventura. Uma conversa carinhosa, animada, repleta de informação e que ocupa quatro páginas, destas que a gente raramente vê nos cadernos culturais dos jornais brasileiros.

Infelizmente, o bate-papo, ilustrado por imagens clicadas pelo fotógrafo Pedro Vilela, não está disponível na rede. Mas...a Deda, colega de outros tempos de outro 'Jornal do Brasil', pode ser encontrada a um clique do mouse em seu blog "Notícias do Cais", diretamente de Porto, Portugal:

www.noticiasdocais.blogspot.com

quinta-feira, outubro 06, 2005

Una Republica Bananera

O indispensável poeta argentino Juan Gelman desceu a lenha no governo norte-americano em artigo hoje no jornal argentino 'Pagina 12'.

Algumas tiradas:

* se um país se torna uma República das Bananas pelo tamanho de sua corrupção, os Estados Unidos são membros honorários do clube. Nada menos do que 273 ex-funcionários públicos deixaram seus postos entre 1998 e 2004 e conseguiram fechar contratos acima da casa dos milhão de dólar com a Casa Branca.

* o número de lobistas em Washington nunca foi tão grande: são 4.600 escritórios dedicados à prática de convencer legisladores, o Executivo e o Judiciário, de que suas idéias são as melhores. Para quem, é a questão mais capciosa, lembra Gelman.

* pelo menos cinco figurões ligados ao governo Bush respondem a procesos judiciais e foram afastados do poder por conta de corrupção.

O artigo, infelizmente apenas em espanhol, pode ser lido na íntegra em

http://www.pagina12.com.ar/imprimir/diario/contratapa/13-57506-2005-10-06.html.

segunda-feira, outubro 03, 2005

O Maravilhoso Mundo do Design

www.wmwmwm.com



O site do meu parceiro William Morrisey, reunindo sua produção mais recente e suas invencionices geniais já está no ar.

Eu sou mais do que suspeito - mas acho que vocês deveriam ir lá no http://www.wmwmwm.com/

Vale o passeio.

Santa Sinead do Reggae




"Throw Down Your Arms" - quando o reggae ganha um charme para lá de celta







Depois de uma entrevista nervosa à "Mojo" de outburo, Sinead O'Connor, a própria, foi destaque no caderno de Artes do "The New York Times" de hoje. Depois de ser ordenada 'sacerdotisa' por um dissidente da Igreja Católica e anunciar que jamais voltaria a gravar um disco de música, a irlandesa acaba de lançar "Throw Down Your Arms", inteiramente dedicado ao..reggae!

Pois o que poderia ser o dancehall da irlandesa maluca é um achado. O crítico Ben Ratliff, do NYT, chama o disco produzido por Sly Dunbar e Robbie Shakespeare de uma deliciosa surpresa.

- É conciso e elegante, com uma economia de sopros e de elementos característicos do ritmo. Seu sotaque irlandês e sua óvia crença no que canta fazem de "Throw Down Your Arms" uma obra-prima de interpretação pop.

Ou seja, a moça conseguiu mesmo traduzir no estúdio sua concepção de reggae - música popular para se rezar.

Quem quiser ter uma idéia do som, basta ir lá no http://www.scissorkick.com/2005/08/sinead-oconnor.html e baixar 'He Prayed", uma versão caprichadíssima de Burning Spear, que oferece quase metade dos clássicos revistos por Sinèad.

domingo, outubro 02, 2005

Tracy Chapman & America

Tracy Chapman, voz negra da América Contemporânea


Parece que foi ontem, mas lá se vão dezessete anos desde que aquela menina bochechuda, dos subúrbios da Nova Inglaterra, invadiu os aparelhos de som do mundo todo com seu violão afiado, uma voz poderosa e letras fortes em músicas como 'Talkin' Bout a Revolution", "Across The Lines", a grudenta "Baby Can I Hold You" e sua obra-prima, a delicada 'Fast Car".

Mês passado, Tracy voltou a pegar pesado com a América em seu "Where You Live". Não chega nem perto do discaço de 1988. Mas uma das faixas mais lindas, batizada apenas de "America", diz, em meio a fúnebres batidas afro, que "nós estamos cansados e de saco cheio, famintos e pobres, porque vocês ainda estão conquistando a América'".

Depois do que aconteceu em Nova Orleans, o timing de Chapman não poderia ser mais exato. Ela soa como um dedo apontado na cara de um país dividido e miserável.

Para ouvir "America", cá entre nós, basta ir lá no http://www.streetknowledge.net, um ótimo site-cabeça de uns amigos que adoram boa música. A foto de Tracy, que ilustra o post, é deles.

quinta-feira, setembro 29, 2005

O Banquete da Vergonha

Convidada para tomar um café da manhã com a primeira-dama Laura Bush no último sábado - coincidentemente o mesmo dia em que a grande manifestação contra a invasão do Iraque estava programada em Washington - a poeta e professora da NYU Sharon Olds não só recusou o 'privilégio' como publicou, na 'The Nation', uma carta aberta à primeira-dama norte-americana, com o sugestivo título 'Não Há Lugar para uma Poeta no Banquete da Vergonha'.

Vencedora do prêmio da National Books Critics Circle, ela desceu lenha na administração republicana, com tradução livre do blogueiro aqui:

_ Não poderia passar pela minha cabeça dividir o pão do café da manhã com a senhora. Eu sei que se sentasse para dividir uma refeicão com a senhora, pareceria para mim que eu estava, de alguma maneira, concordando com a barbárie promovida pela administração do seu marido. Muitos cidadãos que se sentiam orgulhosos por serem norte-americanos agora se sentem angustiados e envergonhados, por conta do atual regime de sangue, tortura e agressão. Quando recebi seu convite, eu pensei na impecável toalha de linho de sua mesa, na louça brilhante e nas velas tão bem cuidadas e, sinceramente, eu não teria estômago para tanto.

A carta, excepcional, pode ser lida na íntegra, infelizmente apenas em inglês, no www.thenation.com/doc/20051010/olds.

quarta-feira, setembro 28, 2005

Perversão Democrática

Acaba de chegar às ruas de Nova Iorque o semanário Village Voice com o título 'Quantos Mais Devem Morrer'?. A pergunta, sem rodeios, é feita pelo jornalista Sydney H.Schanberg, vencedor do Prêmio Pulitzer por suas reportagens sobre o Camboja, no fim dos anos 70, e um dos grandes repórteres que ajudaram a fazer a fama da revista dominical do The New York Times.

Em seu texto, Schanberg qualifica a situação atual - em que a maioria do país parece 'esquecer' que está em guerra em quatro continentes (contra os insurgentes iraquianos e afegãos na Ásia, terroristas na Ásia, África e Europa, e contra Castro e, extra-oficialmente, Chavez na América) - de 'perversão democrática'.

Em determinado momento, Schanberg, que viveu os horrores da guerra no Sudeste Asiático, pergunta aos americanos: "Estes homens e mulheres que se alistaram para lutar no Iraque e no Afeganistão serão tratados por nós como mercenários que lá nos representam? Ou nós verdadeiramente nos preocupamos com eles?"

Até hoje, 2.154 soldados americanos morreram nas incursões de Bush pela Ásia. Os feridos são mais de 15 mil. Não há qualquer estimativa oficial para o número de civis iraquianos mortos, mas grupos independentes afirmam que mais de 30 mil cidadãos pereceram desde a invasão militar de 2003.

Em tempo: o belo texto de Schanberg pode ser encontrado, de graça, no seguinte endereço: http://villagevoice.com/news/0539,schanberg,68215,6.html.

No site, o leitor ainda ganha um outro presente: a fantástica ilustração de Viktor Koen, em que um capacete militar é carimbado com os nomes de todos os americanos mortos na mais recente aventura militar do doutor George Bush.