domingo, dezembro 14, 2008

ENTREVISTA/Fareed Zakaria, para o Valor Econômico

Na semana que passou o Valor Econômico publicou a entrevista que fiz com a estrela da CNN e da Newsweek, Fareed Zakaria, que acaba de lançar no Brasil seu best-seller O Mundo Pós-Americano. A conversa foi por telefone, em meio ao fechamento da revista semanal que ele edita. Segue o bate-papo e, já pelo título, dá para ver que o homem é extremamente otimista em relação ao Brasil:

Um futuro absolutamente garantido
Por Eduardo Graça, para o Valor, de Nova York
04/12/2008

"O Mundo Pós-Americano" - Fareed Zakaria. Trad. de Pedro Maia Soares.

Companhia das Letras. 312 págs. R$ 49
Bloomberg
Zakaria: "A classe média brasileira estará em condições melhores do que a classe média do mundo industrializado"

Editor da "Newsweek International", Fareed Zakaria é um dos mais influentes intelectuais dos Estados Unidos. Durante o governo Bush, foi recebido inúmeras vezes na Casa Branca para discutir aspectos da política externa americana. Em seu programa na rede CNN, ele conversa com líderes mundiais e especialistas em relações exteriores sobre os novos protagonistas no teatro das potências, estrelas de seu "O Mundo Pós-Americano". Zakaria, que nasceu na Índia e naturalizou-se americano, saudou a revolução conservadora de Ronald Reagan e apoiou com entusiasmo a invasão do Iraque, é um ótimo papo e um entusiasta do Brasil, visto como uma das "novas potências emergentes" no tabuleiro mundial. E a crise financeira global, garante, apenas apressa o passo da "ascensão do restante do mundo", representada por sua Índia natal (a reportagem do Valor conversou com Zakaria antes dos ataques terroristas a Mumbai), a China, "que nada em dinheiro", e o Brasil, "estável como nunca antes em sua história".

Valor: De que modo a ascensão do restante do planeta será afetada pela crise financeira global?

Fareed Zakaria: O primeiro impacto da crise foi lembrar-nos de que o sistema financeiro é de fato globalizado. Não existe mais abrigo. O capital é de fato global e move-se de forma cada vez mais instantânea. Todas as bolsas de valores e sistemas financeiros do planeta estão interligados de um modo singular e novo. Mas nos próximos seis meses creio que começaremos a perceber uma diferença nas diversas performances econômica dos países.

Valor: Depois do choque da crise...

Sim. Não há dúvida de que os Estados Unidos e a Europa passarão por uma severíssima recessão. Será a pior recessão nos Estados Unidos em 40 anos. Mas não acho que o mesmo acontecerá nas economias emergentes. China, Índia e Brasil, especialmente, deverão sofrer menos. Seus consumidores não estão endividados em bancos, que, por sua vez, estão mais saudáveis do que as instituições daqui.

Valor: De onde vem essa certeza?

Zakaria: A China vinha crescendo 9%, os Estados Unidos 3% ao ano. A melhor projeção do PIB para os Estados Unidos em 2009 é de 0,5%, mas há a real possibilidade de decréscimo. No caso da China, os dados mais pessimistas prevêem um crescimento de 6%. Se a China crescia, antes da crise, em uma velocidade três vezes maior do que os Estados Unidos, tende a dobrar essa vantagem no mundo pós-recessivo. O Brasil deve crescer entre 2% e 4%. Mesmo com o planeta crescendo de modo mais vagaroso, a recessão vai acelerar a ascensão do mundo pós-americano. E creio que a estagnação dos Estados Unidos e da Europa Ocidental continuará por mais três ou quatro anos, talvez além, aumentando ainda mais a transferência do poder econômico para Brasil, China e Índia.

Valor: Há receio no Brasil de que a crise financeira possa jogar por terra algumas conquistas recentes, como a emergência da nova classe média. O sr. acredita em um retrocesso social no Brasil e em um achatamento do mercado consumidor interno?

Zakaria: Não. Não tenho dúvidas de que haverá uma retração no crescimento econômico e na qualidade de vida de todo o planeta. A Idade de Ouro acabou. Mas se você olha para o Brasil vê que nem a classe média está perigosamente endividada nem a economia depende intensamente da exportação. Diria que o setor exportador no Brasil será afetado de forma sensível, mas, sem exagero, a classe média brasileira estará em condições melhores do que a classe média do chamado mundo industrializado.

Valor: Assim que Obama começou a formar seu gabinete, o sr. escreveu em sua coluna na "Newsweek" que "o presidente eleito não deveria ouvir os conservadores e sim o novo mundo em ascensão". Pode explicar melhor suas palavras?

Zakaria: Não há nada mais importante para este novo governo do que entender como o mundo mudou nos últimos anos. Essa mudança é o cerne de meu livro. Os novos centros de poder, como China, África do Sul, Brasil e Índia, vieram para ficar. O Brasil pode passar até alguns anos difíceis, mas continuará sendo politicamente e economicamente estável, como nunca antes em sua história. Washington precisa aprender a interagir com esse novo mundo. Estes são tempos sensacionais, em que pela primeira vez vivemos em uma sociedade economicamente global de fato. Temos que aproveitar da melhor maneira possível esta realidade. Não há como pensar em voltar a padrões de conflito estabelecidos na Guerra Fria, como fez o governo de George W. Bush.

Valor: Mas há o outro lado da moeda. O professor Ian Buruma, por exemplo, bate na tecla de que a ascensão da China diminui o poder de pressão das democracias ocidentais em relação a questões de direitos humanos básicos ignoradas por Pequim. Como lidar com essa China tão poderosa?

Zakaria: De um modo genérico, Buruma está correto. Mas a China, uma civilização milenar, está passando por um processo de transformação social e econômica extremamente complexo. Insistir em que a China se transforme em um modelo de democracia ocidental da noite para o dia é ao mesmo tempo arrogante, historicamente equivocado e contraproducente. Não precisamos deixar de denunciar os abusos a prisioneiros políticos, mas você perde a perspectiva do desenvolvimento das sociedades humanas ao exigir que as novas potências sejam um espelho do chamado Primeiro Mundo. Muitos liberais são espantosamente cegos para esse aspecto da discussão.

Valor: O senhor apoiou a invasão do Iraque desde o início. Acredita de fato que os iraquianos se beneficiarão de alguma maneira da ocupação americana?

Zakaria: Talvez sim, a longo prazo. Talvez se construa um país mais moderno, mais democrático, mais aberto, que poderá influenciar de forma positiva o mundo árabe, que é quase na totalidade governado por ditadores ou monarcas autoritários. Concordo que a ocupação foi conduzida violentamente e com uma precariedade tal que o mundo árabe vê o Iraque não como um experimento democrático, mas como um governo tirânico de maioria xiita na região. Mas creio que se chegará à conclusão de que o processo foi, sim, positivo para o país. De qualquer forma, creio que a única possibilidade de intervenção hoje é uma ação multilateral, comandada pelos americanos. Um bom exemplo é a Bósnia, na Era Clinton, uma intervenção consensual, com a colaboração de dezenas de países com real legitimidade política e abençoada pela ONU. Creio que será feito um esforço em Washington para reestruturar o papel dos Estados Unidos na ONU, que é um sistema ainda antiquado, mas é o único órgão de fato global. Uma mudança necessária, por exemplo, é a inclusão urgente de Brasil e Índia no Conselho de Segurança. Daí a necessidade de novos fóruns para se resolver os problemas do planeta, como o G-20.

Valor: O presidente Lula, um dos maiores entusiastas do G-20, chegou a declarar que o G-8, que reúne as oito nações mais ricas do globo, é irrelevante...

Zakaria: Acho que o G-8 deve ficar, mesmo sendo cada vez mais irrelevante. Talvez o G-20 devesse se tornar um órgão institucional permanente, destinado exclusivamente a resolver problemas globais, sejam relacionados a meio-ambiente, economia ou terrorismo. Se você quer resolver os problemas econômicos do mundo, terá de contar com os países que têm "cash", como a China, o Japão e a Arábia Saudita, e com os que mais crescem, como Brasil e Índia. Acho que, no fim, a declaração do presidente Lula será vista como absolutamente certeira.

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