quarta-feira, agosto 03, 2005

Diretinho da Redação (23)




O texto abaixo, sobre a atualíssima fábula de Mia Couto, acaba de ser publicado no site do Direto da Redação.

Ai de ti, Brasília!

Quem diz é Ana Deusqueira: “Quando se quer limpar um país, tudo o que se encontra é sujeira”. A autora da frase não é uma intelectual européia radicada aqui em Nova Iorque. Ela é uma prostituta da pequena cidade de Tizangara, em Moçambique, na África. Ela é uma personagem genial de meu fabulista favorito, o moçambicano Mia Couto.

Em “O Último Vôo do Flamingo”, que saiu no Brasil este ano, Deusqueira é uma das cidadãs que observam, sem muita surpresa, a morte misteriosa dos soldados da força de paz da ONU, enviados para o país durante a guerra civil que já dura décadas. Logo descobre-se que os corpos dos soldados explodem do nada mas suas genitálias, intactas, surgem aqui e acolá, nos mais improváveis locais.

Em Tizangara é difícil saber quem é morto, quem é vivo, quem é vivo demais. Lá, a esquerda chega ao poder de modo festivo e sucumbe a um populismo vazio e ao ritmo inconfundível do capitalismo de periferia. Lá, na parte meridional do país, os flamingos, quando voltam de suas longas viagens pelo imenso continente, são recebidos com júbilo. Eles são os anunciadores da esperança, de que tempos melhores virão.

E se os flamingos não voltarem? E se a esperança partir de vez? Ana Deusqueira, uma atenta especialista, se debruça sobre as genitálias e não chega a conclusões definitivas. Mas segue dizendo: “A moral aqui é assim: enriquece-se, sim, mas nunca sozinho. São perseguidos pelos pobres de dentro, desrespeitados pelos ricos de fora. Tenho pena deles, coitados, sempre moleques”.

E quando a esperança trazida pelos flamingos revela-se uma falácia, como ficam os pobres? Com seus históricos defensores agindo do mesmo modo que os opressores da direita conservadora, não lhes resta mais nada. Os flamingos não voltam mais. Cansaram-se de tanta molecagem. E aquele Moçambique é entregue ao passado, governado pelos mortos. Acaba dissolvido nas brumas, levado pelos deuses africanos para lugar longínqüo, em que mantém-se invisível pela incompetência dos vivos, dos muito vivos. Deusqueira que Ana já não esteja pregando, sem que possamos ver e ouvir, pelas amplas avenidas de Brasília.

6 comentários:

Anônimo disse...

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Ivson Alves disse...

Bacanérrimo o texto.
Ah! Ana fala do Brasil sim, mano. Vc deve ter ouvido sempre falar, como eu, que o Brasil estava fadado a um futuro extraordinário, um país com encontro marcado com o futuro, com a História, né? Pois é verdade, velho. Seremos conhecidos como o maior fracasso coletivo da História, o incrível país que
escorreu pelo ralo. Não é tão poético como o destino do país do Mia Couto, mas, também, o que vc queria do Bananão?

ipaco disse...

Pertinente sacação.

Olga disse...

Edu, você colou direto do Mia ou o texto é seu?
Que texto bonito, irmão.
Ah, Ives, será que vamos perder toda a esperança, amigo? Acho que, no fim, conseguiremos, como sempre, fazer blague de nossa má sorte. Ou então, morreremos de tristeza. Rir do drama é a melhor maneira de transformarmos em dias ensolarados o inverno de nossa desesperança.
beijo

Olga disse...

Explanation da mais nova atacada pelo alemão de quem não ousamos dizer o nome:
Achei tão lírico este parágrafo que o imaginei retirado diretamente do relato do moçambicano.
"Em Tizangara é difícil saber quem é morto, quem é vivo, quem é vivo demais. Lá, a esquerda chega ao poder de modo festivo e sucumbe a um populismo vazio e ao ritmo inconfundível do capitalismo de periferia. Lá, na parte meridional do país, os flamingos, quando voltam de suas longas viagens pelo imenso continente, são recebidos com júbilo. Eles são os anunciadores da esperança, de que tempos melhores virão."
NUNCa quis dizer com isso que você teria usado um texto de outro como seu. Até porque você escreve belamente, mas, por culpa talvez de algumas redatoras chatas, raramente solta sua veia poética.
Beijo!

Ivson disse...

Olguinha, minha flor, fazer parte da História como parte do povo que desconstruiu uma possibilidade humana por 700 anos de incompetência seguida (dou ainda mais 200 anos para, de repente, o mundo passar a sentir falta dos nossos jogadores de futebol), não é engraçado? Amargamente hilário, ok, mas ainda assim gozado, não?

O mais lamentável é que não teremos um Bardo para nos cantar. Mas quem sabe não haverá um cientista político coreano ou um historiador sueco para fazer uma piada?

Hmmm...Acho que não...É melhor esquecer isso também.