quinta-feira, março 17, 2005

Brazilian Girls - Bowery Ballroom - 16/03/2005

Uma noite com Sciubba no inverno congelante de Manhattan.

Acabo de chegar em casa depois do show das Brazilian Girls. Sensacional. A vocalista Sabina Sciubba entrou no palco do Bowery Ballroom empacotada em um pós-parangolé branco. Quando saiu de dentro do troço-pós-moderno a platéia, já hipnotizada, cantou junto, em francês, o coro de “Homme”. Sabina não via o público. Ela entrou em cena com uma fita adesiva xadrez sobre os olhos. Fita esta que ela não tira nem na volta ao palco, uma hora e meia depois, em um bis delicioso, com a vocalista sussurando, para alegria da galera: “I got a Problem. I got a Penis”.

Para quem chegou atrasado, Sabina é italiana e de brasileiro, além da dupla aqui do Brooklyn, podia-se reconhecer na platéia a Bebel Gilberto e o Pedro Baby, filho da Consuelo com o Gomes. Velhos baianos que somos, Will and I jantamos tarde no Havana Café, tempo suficiente para que as duas primeiras atrações – que incluíam um DJ underground cinqüentão – saíssem de cena.

As garotas espertas Meredith e Esther, com quem dividimos um dos sofás no espaço lounge do primeiro andar pouco antes de o show começar, disseram que não perdemos nada. Ou quase nada. Quando finalmente nos livramos do exército de seguranças vestidos de preto descobrimos que a casa do Lower East Side estava tão cheia, mas tão cheia, mas tão cheia que...não cabia mais um boné no locker room. Merda.

Casacos em punho – o plural aqui não é força de expressão, o inverno segue impiedoso em Nova Iorque – encaramos a pista do segundo andar, encontramos um bom espaço na boca do palco e dançamos, dançamos e dançamos a valer.

Sciubba e a banda mandam uma em inglês, outra em espanhol, mais uma em francês. Tem bossa nova, chanson, rap, música indiana, tango. E poesia. Declamada. Neruda. Também música de protesto dos camponeses alemães da idade média. Um mix da italiana doida que se traduz em um tributo moderníssimo ao fino da dance music dos anos 70.

E o melhor: apesar do hedonismo transpirado em cada movimento da vocalista, as Brazilian Girls têm horror à viadagem make-up oitentista. Elas não atraem somente os gays, felizes tributários da porção vamp de la Sciubba. O Bowery Ballroom está repleto de casais e de grupos de amigos vintões, trintões, quarentões e um ou outro cinquentão disfarçado de crítico de rock, com óculos de aro preto e boina vermelha. Ou amigo perdido do tal DJ que a gente não ouviu. Vai saber.

Não dá para ficar olhando muito para os lados. No palco, Didi Gutman nos teclados comanda uma farra que conta ainda com o baixo funkeado de Jesse Murphy, a bateria ensurdecedora de Aaron Johnston e o auxílio brejeiro de dois sopros em algumas músicas. E ela. A diva dos sujinhos de Manhattan. A italiana mais brasileira do Brooklyn. A performática que lembra a Rita Lee da época dos Mutantes, muleca que sabe tudo. Só não viu quem não quis. Ou quem preferiu fazer como Sciubba e dançou como Isadora, a noite toda, sem parar. Felicidade, hoje, foi um show das Brazilian Girls.

p.s: quem quiser pode entrar no http://www.braziliangirls.info/music.html e ouvir algumas das músicas do primeiro disco das B.G. Vale a clicada.

Um comentário:

Elle disse...

que delícia de texto...Edu, você nos faz ouvir os barulhos, sentir os cheiros...uma inspiração!