segunda-feira, junho 14, 2010

VALOR ECONÔMICO/Fela!




Depois de longo inverno - mais precisamente dois verões - volto a postar provisoriamente aqui até que o design do novo blog fique pronto (provavelmente na primeira quinzena de julho). Ontem, Fela! não levou o prêmio de melhor musical no Tony, mas saiu com o de melhor coreografia, do genial Bill T. Jones. Segue o texto publicado no caderno de Cultura do Valor Econômico neste finde:

Teatro: Em "Fela!", com 11 indicações para o Tony, a plateia é convidada a cantar, rebolar, rir e chorar com as muitas vidas de Fela Kuti.

Por Eduardo Graça, para o Valor, de Nova York


"Mas como é que vivi metade da minha vida sem nunca ouvir falar de Fela Kuti?" Oito anos depois de se indignar com a própria ignorância, o produtor Steve Hendel comemora as 11 indicações para o prêmio Tony, o

Oscar do teatro americano, cuja festa ocorre neste fim de semana, com a constatação óbvia dos que passam pela Broadway: "Fela!" é o musical do momento e o espírito do criador do afro-beat nunca esteve tão

presente nas principais capitais do planeta. Em Londres, o diretor Steve McQueen (cujo polêmico "Hunger" passou na mais recente Mostra Internacional de Cinema de São Paulo) pré-produz uma cinebiografia do homem que em certo momento contou com 27 mulheres, todas vivendo na mesma casa. O tom do filme, de acordo com os executivos da Focus, o braço da Universal responsável pela produção, será mais político do que o do musical. A narrativa pós-colonialista africana trazida pelo astro nigeriano, morto em 1997 por complicações de saúde causadas pela aids,

curiosamente volta a encantar o público na Europa e nos Estados Unidos no momento em que experiências democráticas na África do Sul, no Malaui e na Libéria parecem diminuir a desatenção da grande mídia para com o continente negro.


Em Manhattan, quem se dirigir para a rua 49 encontrará o palco do Eugene O'Neill virado de pernas para o ar. Menos um teatro e mais um clube

de funk africano, uma reedição do lendário New Africa Shrine, tal qual na Lagos dos anos 70, a quizomba imaginada por Hendel recebeu do

"The New York Times" o melhor dos elogios. O temido Ben Brantley disse que "nunca se viu nada parecido na Broadway" e se espantou: "Mas

como é que não há gente dançando nas ruas do Theater District ao fim do espetáculo?"


Em "Fela!", a plateia é convidada a cantar, rebolar, dançar, rir, chorar e se deslumbrar com as muitas vidas, as muitas mulheres, os muitos

deuses e a ética una de Fela Anikulapo (Ransome) Kuti. Na utópica Kakaluta Republic, governada pelo Presidente Negro, a esperança pode até não vir das antenas de TV, mas chega, toda serelepe, por meio da coreografia de Bill T. Jones e das vozes poderosas dos dois atores que se

revezam na pele de Kuti - Sahr Ngaujah, cuja família é de Serra Leoa, e Kevin Mambo, com raízes no Zimbábue. Ngaujah é a voz do CD com a

trilha sonora do espetáculo e Mambo aparece nas faixas vendidas avulsas no mercado americano na loja virtual iTunes.


Ngaujah foi quem iniciou a trajetória vitoriosa de "Fela!", com as primeiras apresentações do musical em um espaço alternativo na rua 37. Um

de seus trunfos, desde o início, foi o entrosamento com o grupo Antibalas Afrobeat Orchestra, do Brooklyn, seguidores fiéis das emblemáticas

bandas de Kuti-Koola Lobitos, Nigeria 70, Afrika 70 e Egypt 80. Como não poderia deixar de ser, a cozinha do show é parte essencial de "Fela!",

exatamente como é impossível imaginar as emblemáticas gravações de Fela entre 1965 e 1979 sem a percussão e a direção musical inventiva

de Tony Allen.


O pulo da cena alternativa para a Broadway se deu com o auxílio luxuoso de nomes de peso do showbiz americano. O ator Will Smith e a estrela

do rap Jay-Z entraram como produtores associados da versão apresentada na Broadway, mas não transformaram um espetáculo essencialmente

subversivo em algo mais maquiado para o mainstream. A febre "Fela!" levou à ressurreição do selo alternativo Knitting Factory, que iniciou no

fim do ano passado a reedição de todo o catálogo do mestre dos sopros nigeriano, com a recuperação das capas e dos encartes originais de

cada disco.


Em recente entrevista, o diretor do selo, Brian Long, disse que não há dúvida alguma de que Kuti está fazendo pelo afro-beat o que Bob Marley

fez pelo reggae nos EUA e na Europa há três décadas. "Também houve um primeiro revival nos anos 90, logo depois da morte de Fela,

estimulada pelo mundo club. Na década passada foi a vez de o rap se identificar com seu estilo de vida antiautoritário, que o legitima entre os

hip-hoppers", acrescenta.


Um dos prazeres de se reencontrar com "Fela!" no Eugene O'Neill é a possibilidade de comunhão com personalidades retratadas no palco que

surgem na plateia, emocionadas, acompanhando uma parcela de sua trajetória sob a luzes da Broadway. No dia em que a reportagem do Valor

se juntou ao coro africano, dois dos filhos de Fela, Kunle e Seun Kuti, dançavam na fileira ao lado, como se fossem fiéis anônimos do culto feliz

do showman africano. Em uma sessão mais recente, foi a vez de as irmãs Rezende, a poeta Maria e a cineasta Júlia, dançarem com a ativista

Sandra Isidore. Voz na gravação de "Upside Down", do disco homônimo de Fela Kuti & Nigeria 70, foi ela quem apresentou a Kuti a biografia de

Malcolm X e o aproximou tanto do movimento pelos direitos civis dos negros nos EUA quanto do grupo radical Pantera Negra, fundamentais para sua formação política.


"Quando ouvi as músicas todas de seu catálogo, prestei atenção nas letras e me deparei com um outro tipo de indignação - como é que Kuti

jamais foi consagrado nos EUA? Sua história é das mais emblemáticas do século XX. Retrata o comprometimento de um artista com seu país,

seu público, sua gente, e fiquei completamente obcecado em levá-la para os palcos", conta Hendel. Em Bill T. Jones, o coreógrafo responsável

por "Blind Date" e "Still/Here", ele próprio portador do vírus da aids, o produtor encontrou o parceiro disposto a combinar elementos cênicos -

desenho de cena, figurino, projeções de vídeo, texto e música - com o objetivo de quebrar o muro entre o performer e seu público,

exatamente como pregava Kuti. É o que T. Jones chama de "teatro visceral".


"Nossa ideia é que a audiência se interesse por Fela e saia pensando sobre sua vida, sobre o colonialismo, a música nigeriana, e também

aprecie a forma não linear de contar essa história. Que pense como nossa educação e exposição sobre a cultura africana é monumentalmente

limitada e míope. Em nossas pesquisas, descobrimos que 95% dos consumidores de música nos EUA não teve nenhum contato com o catálogo musical africano. Isso é um crime!", diz Hendel. O produtor James Schamus, da Focus Pictures, também quer multiplicar os fãs de Kuti, por meio de seu filme. Em entrevista ao britânico "The Guardian", ele diz que o africano é "provavelmente o artista pop com maior poder de

influência global nos últimos 50 anos depois dos Beatles".


Exageros à parte, não há dúvida de que a vida de Kuti foi bem mais trágica do que a dos quatro meninos de Liverpool. Um ano depois de Sandra

Isidore gravar na Nigéria "Upside Down", cerca de mil soldados da ditadura de Olusegun Obasanjo invadiram a comunidade Kalakuta Republic,

estupraram várias mulheres que viviam nesse refúgio símbolo da contracultura africana e jogaram da janela do segundo andar a mãe do artista, a intelectual Funmilayo Ransome Kuti, de 77 anos, renomada ativista anticolonialista, que morreu em decorrência da queda. A cena,

reproduzida no palco do O'Neill, é das mais impressionantes de "Fela!".


Trinta e três anos depois, o cenário político no país dos Kuti não é exatamente alentador. Em novembro, o presidente Umaru Musa Yar'adua, eleito em 2007 em meio a acusações de fraude, foi se tratar de problemas cardíacos na Arábia Saudita e a população não teve nenhum acesso a informações sobre seu estado de saúde. Com sua morte, pouco depois de retornar ao país, foi sucedido pelo vice-presidente Goodluck

Jonathan, cuja mulher já foi indiciada pela Justiça por lavagem de dinheiro.


Femi Kuti - astro da música internacional pelos próprios méritos - e sua irmã Yeni enfrentaram a fúria do atual governo, que tentou fechar o

novo New Afrika Shrine, por eles gerenciado, parte de um bota-abaixo nas áreas mais pobres de Lagos. Em uma entrevista no início do ano ao

"The Independent" britânico por causa da reabertura do quartel-general dos Kuti, em Lagos, Femi lembrou que tinha 12 anos quando o pai

começou sua pregação política. "Hoje sou um senhor de 48 anos e a situação na Nigéria não melhorou nem um pouco", disse.

Enquanto outros países do continente apostam em projetos ambiciosos, como a política de reconciliação nacional da África do Sul, a

redemocratização da Libéria e o movimento constitucionalista do Malaui, a Nigéria segue dependendo do petróleo e imersa em conflitos

regionais e religiosos.


Do repertório de Kuti, canções de protesto como "International Thief Thief" e "Zombie" continuam tristemente atuais. Femi não sabe se a "bobmarleyzação" de seu pai é algo positivo. "Talvez os fãs se interessem não apenas pelo ritmo, mas pela história. Talvez eles queriam saber mais deste país rico em petróleo, mas onde o povo não tem acesso à eletricidade. Fico feliz em saber que 'Fela!' é um sucesso na Broadway, mas o mais importante seria o musical vir para cá, para o Shrine, que, para nós, é mais importante do que a Broadway. Ainda não vi o espetáculo e só o farei quando ele vier para cá, quando fizer parte de fato da luta pela emancipação africana", afirmou.


Ele também acha graça de a elite africana viajar a Nova York e, a partir do segundo semestre, a Londres e outras capitais europeias, para

conferir "Fela!" nos palcos chiques das grandes metrópoles: "Eles querem ouvir o Fela tocando para eles? Tudo bem, mas ele continuará

dizendo, em suas músicas, que eles são todos uns grandes picaretas".

Para Steve Hendel, só existe um outro lugar, além da Nigéria, em que clássicos como "Water Gets no Enemy" ganhariam amplidão semelhante: o segundo país com maior população negra do planeta, onde as raízes iorubás, tão caras a Fela, também estão vivas. "Nosso sonho é levar 'Fela!' ao Brasil. Além da presença negra, há o fato de arte e cultura terem uma força orgânica, vista em poucos cantos do planeta. Imagine o que

seria para nós apresentar 'Fela!' no país que teve a coragem e a sapiência de ter um artista da estatura de Gilberto Gil como ministro da

Cultura?"


No Brasil, a biografia "This Bitch of a Life", escrita pelo professor Carlos Moore, chefe de pesquisas da Escola de Estudos para Pós-Graduação da

Universidade das Índias Ocidentais, em Kingston, Jamaica, está em processo de tradução pela editora mineira Nandyala. A ideia dos organizadores é que Gilberto Gil assine o prefácio do livro. E o Fela Day, realizado pela primeira vez no Brasil no ano passado, voltará a ser promovido em outubro com uma série de atividades em várias capitais do país. Nos dois lados do Atlântico, a música e as ideias de Fela Anikulapo (Ransome) Kuti seguem mais vivas do que nunca.


Pequeno roteiro do pop africano


Quem sentenciou foi a "Rolling Stone" americana: a maior estrela da Broadway é sexy e está morta. No rastro de "Fela!", artistas africanos tomaram de assalto o verão nova-iorquino e o relançamento de toda a discografia do Black President animou selos independentes a pôr no mercado compilações bem sacadas de diversos ritmos e estilos. Segue uma amostra de pérolas da música africana de fácil e médio alcance para os brasileiros.

Na área de shows, neste mês se apresentam em Nova York o senegalês Baaba Maal, além da Tinariwen (genial banda tuaregue do Mali). Em julho é a vez do rapper Blitz the Ambassador, que faz a ponte Brooklyn-Gana; da estrela de "Fela!", Sahr Ngaujah; de Femi Kuti com a Positive Force; dos congoleses do Konono nº 1; do cantor folk senegalês Omar Pene; da bela Chiwoniso, do Zimbábue; da banda mais africana do Brooklyn, o Antibalas; do mestre do "ngoni" (espécie de ancestral do banjo) Bassekou Kouaté, do Mali; e da eletrônica do Burkina Electric.

Entre os discos, a coletânea dupla "Best of the Black President" é ótimo primeiro contato com a obra de Fela Kuti. A versão em DVD inclui imagens raras dos anos 70 e 80 e entrevistas, oferecendo um belo contexto da Nigéria pós-independência (1960) até os anos finais do pai do afro-beat, na década de 90. Já "Confusion" (1975) o traz em estado psicodélico. O reverb na sua voz aumenta o clima fantástico do álbum e funciona como um comentário à confusão da Nigéria pós-colonial.

Outro grande do pop nigeriano é King Sunny Adé, pai da "juju music", mix de dance music e cordas tradicionais africanas que ganhou o mundo como afro-pop. É de 1982 sua obra-prima, "Juju Music", com a African Beats.

Há, ainda, a "Nigeria Special", série da Soundway Records, com destaque para o "Nigeria Rock Special", com o melhor garage rock africano, como BLO, Mono Mono e Action 13. É psicodelia com swing e batuque africano, originada da parceria de Ginger Baker, do Cream, com africanos, primeiro na banda Airforce e depois com Kuti, que em 1971 gravou o arrebatador "Fela with Ginger Baker Live!". (EG)


4 comentários:

o gordo disse...

Demais!!

Sabryn disse...

Eduardo, estou adorando suas colunas n'O Globo. Parabéns. Já torço para que mais adiante seus textos se transformem num livro com dicas de NY, principalmente do Brooklyn. Também sou apaixonada pelo borough, apesar de conhecer bem só Dumbo e a ciclovia da Manhattan Bridge (que é bem melhor de atravessar de bicicleta do que a Brooklyn Bridge, concorda?).

Bom, agora que descobri seu blog, vou passar a acompanhá-lo também. Mais uma vez parabéns!

Eduardo Graca disse...

Oi Sabryn, cocordo com você! É que sou um andarilho, não um bikeiro. Quem sabe a gente não se encontra aqui em nY? OLha, este blog está mudando, em no máximo duas semanas terá novo endereço e um design bem mais legal! Me aguarde! Obrigado pelo comentário e pelo elogio. Beijos!

Sabryn disse...

Ok, vou ficar de olho! Te achei no Facebook. Vou te adicionar, tá? Temos vários amigos em comum. Eu moro no Rio, mas quando for a NY da próxima vez te aviso! Beijos.