domingo, maio 25, 2008

CARTA CAPITAL/O Teste de Obama

A Carta Capital desta semana sai com reportagem minha sobre os desafios que o senador Barack Obama enfrenta agora que é quase certa sua escolha pelo Partido Democrata para disputar a presidência dos EUA contra o republicano John McCain. Conversei com o cientista político Frederick C. Harris, da Universidade de Columbia, também negro, diretor de um dos centros de estudos políticos mais prestigiados do país. Ele me disse que a imagem da sociedade pós-racial defendida por Obama funciona mais para o cenário internacional do que para a realidade do dia-a-dia dos afro-americanos aqui nos EUA.

A reportagem segue abaixo:


O TESTE DE OBAMA
Por Eduardo Graça, de Nova Iorque


Cada vez mais perto de ser indicado a candidato democrata, o senador ainda precisa mostrar que é capaz de vencer a eleição



A escolha, pelo senador Barack Obama, da pequena Des Moines, no Meio-Oeste americano, para a celebração da conquista da maioria dos delegados estaduais à convenção nacional do Partido Democrata não foi apenas uma rendição ao simbolismo político. Sim, foi na capital de Iowa, em janeiro, que ele iniciou sua impressionante corrida à Casa Branca. Mas, ainda mais importante, lá ele recebeu mais de um terço dos votos dos eleitores brancos de classe média baixa, o que não se repetiu nos quatro meses seguintes. Detalhe: mais da metade desses eleitores em estados-chave para a vitória da oposição afirmaram, em pesquisas de boca-de-urna, logo após optarem por Hillary Clinton, que votarão em John McCain contra Obama em 4 de novembro.


Para o comando do Partido Democrata, o jogo de xadrez de 2008 está ficando cada vez mais complicado. Quanto mais Obama e sua mensagem de mudança ganham os setores progressistas do partido e parte do establishment, mais nebulosas ficam as perspectivas de vitória em um pleito com características únicas, aparentemente favoráveis à oposição.

“Não se iludam. As eleições deste ano serão disputadíssimas. Aqui interessa mais o colégio eleitoral do que o voto popular. E Barack Obama terá muitos problemas para vencer em estados importantíssimos, os que definem de fato quem chegará à Presidência, como Ohio e Pensilvânia, onde os eleitores são sensíveis à questão racial e foram afetados pela campanha que tenta caracterizá-lo como menos patriota do que Hillary ou McCain”, diz o professor Frederick C. Harris, diretor do Centro de Estudos de Política e de Sociedade Afro-Americanas da Universidade de Colúmbia.

Na quinta-feira 22, o Instituto Rasmussen anunciou nova pesquisa nacional na qual McCain tem 46% da preferência dos norte-americanos ante 42% de Obama. “Há todo um discurso sobre a sociedade pós-racial, que não levaria mais em conta a cor do indivíduo, que não se respalda na realidade. A candidatura Obama, assim como outras conquistas simbólicas dos negros nos EUA, são mais importantes em termos internacionais, exportando a idéia de que aqui há espaço para as minorias, inclusive os afro-americanos. Mas enquanto ainda tivermos a desigualdade social escancarada entre negros e brancos, o tratamento diferenciado pela polícia e a concentração de negros vivendo em conjuntos habitacionais país afora, esses símbolos têm um efeito menor quando pensamos na modificação das relações entre os diferentes grupos que formam os EUA”, diz Harris.

Políticos negros que chegaram às prefeituras de grandes metrópoles norte-americanas como David Dinkins, em Nova York, e Harold Washington, em Chicago, jamais conseguiram o apoio da classe média branca, especialmente de comunidades mais fechadas, como a de descendentes de italianos e poloneses, base do Partido Democrata nas duas cidades. Nos rincões do país, a barreira é ainda maior. E a decisão de Hillary Clinton de seguir em campanha apesar de suas chances diminutas de conquistar a indicação à Presidência na convenção de agosto não ajudam Obama.

Na terça 20, a senadora de Nova York recebeu 65% dos votos dos eleitores do estado sulista do Kentucky, uma repetição do que aconteceu na semana passada na Virgínia Ocidental. Mais de 50% deles avisaram que ou ficarão em casa ou votarão em McCain em novembro se Obama for o candidato. E o mesmo número considerava “importante” a ligação entre o candidato negro e o pastor Jeremiah Wright, visto como radical por boa parte da opinião pública e mídia nos EUA. Em meio século, nenhum democrata chegou à Casa Branca sem vencer na Virgínia Ocidental, incluindo Bill Clinton.

A vice-presidente na chapa de Dukakis, a primeira mulher indicada ao posto por um dos dois partidos majoritários, Geraldine Ferraro, acusou o senador Obama de “sexista” e anunciou que não votará nele para presidente em novembro. Em anúncio de página inteira nos jornais mais influentes do país, o grupo WomenCount pregava a necessidade de Hillary Clinton continuar na disputa até “o último voto ser contado”, para além das três derradeiras primárias, em junho, até a convenção de agosto. Pelas regras do Partido Democrata, além dos delegados eleitos em cada estado, um colégio à parte, formado por superdelegados (caciques políticos e detentores de postos eletivos) unge o candidato à Presidência. Obama lidera nos dois flancos, mas matematicamente Hillary ainda pode virar o jogo se conseguir 70% dos superdelegados que ainda não se comprometeram com candidato algum. Entre eles estão importantes formadores de opinião, como o ex-vice-presidente Al Gore, o ex-presidente Jimmy Carter e Nancy Pelosi, que detém um cargo que no Brasil seria o equivalente ao de presidente da Câmara dos Deputados.

Os Clinton apostam as fichas na reunião da cúpula do partido – que ainda pende para ela – no próximo fim de semana, para decidir se dois estados em que ela foi vitoriosa no voto popular por larga margem – Flórida e Michigan – entrarão na contagem final de votos. Como alteraram suas datas de votação sem permissão do partido, os estados foram punidos e seus pleitos considerados nulos. Obama não fez campanha na Flórida e nem sequer teve seu nome na cédula oficial em Michigan. O problema é que o comparecimento eleitoral foi massivo e pró-Hillary. Se considerados os eleitores dos dois estados, a senadora fica à frente no voto popular e cresce de importância o seu argumento de que é a candidata mais forte para enfrentar McCain.

Enquanto os democratas parecem se unir apenas nos discursos emocionados em apoio ao senador Ted Kennedy, um dos maiores símbolos do partido, diagnosticado com câncer no cérebro, McCain ri sozinho. O senador participou recentemente do programa Saturday Night Live e implorou a Hillary Clinton que “continue na disputa até o último segundo”. Ao mesmo tempo, iniciou uma série de duros ataques contra Obama, tentando transferir a discussão nacional da economia para a segurança nacional e a política externa.

Em um discurso voltado à comunidade cubana na Flórida, McCain garantiu que continuará o bloqueio econômico a Cuba e pinçou o que seria sua política para a América Latina, com uma presença ainda maior na Colômbia. Também insinuou que somente a inexperiência de Obama poderia justificar sua decisão de iniciar um processo de distensão com “a ditadura dos Castro” e de suspensão da Lei Helms-Burton, que proíbe o comércio entre EUA e Cuba.

A propaganda do Partido Republicano acusa o senador negro de antipatriota e usa uma declaração de sua mulher, Michelle Obama, como prova. A advogada disse, em emocionado discurso depois da histórica vitória do marido em Iowa, que, “pela primeira vez, sentira orgulho de ser norte-americana”. A reação foi imediata, com o candidato dizendo que “não admitiria ataques à sua mulher”, enquanto seus estrategistas denunciavam a relação íntima de McCain com lobistas e a recusa de sua mulher, Cindy, de tornar pública, como fizeram Obama e Michelle, sua declaração de imposto de renda, alimentando rumores de que ela teria investimentos ligados ao governo autoritário do Sudão.

Cindy McCain é a milionária herdeira de uma das maiores distribuidoras de bebidas do país. Obama também alertou que a eleição de McCain seria a continuação do governo Bush, seguindo uma política externa truculenta e unilateral, e comandada por um presidente ainda mais militarista do que o ex-governador do Texas. Trincheiras estabelecidas, candidatos quase definidos, a batalha pela Casa Branca parece mais quente do que nunca.

Um comentário:

Henrique disse...

A idéia de que as minorias poderiam ser sensíveis ao mesmo tempo por um único ideal sempre me vem a cabeça em situações como por exemplo um ex-metalúrgico de origem pobre que concorre a presidência de um país elitista ou um negro de origem muçulmana que se canditada a presidência de um país racista. Mas esa idéia ainda que pareça simpática e estratégicamente interessante nem sempre é o mais ético a ser feito né? Quer dizer no caso de Obama eu acho que valeria pena.

Agora que essa disputa entre Hilary e Obama com ataques públicos está sendo ótimo para os republicanos está.
abs
Henrique

www.semopiniao.blogger.com.br