segunda-feira, março 05, 2007

A Guatemala de Bush: extermínio, limpeza social e ato de fé


No ano passado o governo Bush jogou pesado para que a Guatemala do presidente Óscar Berger, fiel aliado de Washington, levasse a vaga reservada para a América Latina no Conselho de Segurança da ONU. A justificativa era a de que o outro candidato - a Venezuela de Hugo Chávez, apoiada por Brasil e Argentina - carecia de credenciais democráticas essenciais para se postular o cargo. E que a Guatemala era um exemplo do que os republicanos gostariam de ver in latin american way.

No fim das contas e depois de muito teretetê chegou-se a um candidato 'neutro'. Mas os recordes democráticos do país centro-americano - que viveu de 1960 a 1996 sob uma ditadura sustentada pelos E.U.A. - alardeados pelos neo-cons ficaram engasgados na garganta dos que seguem chocados com as ossadas de militantes oposicionistas descobertas em 2005. Estima-se que mais de 100 mil guatemaltecos tenham sido assassinados nos quase 40 anos de arbítrio.

Pois hoje o NYT traz matéria de capa dando conta de como anda a vibrante democracia centro-americana. O repórter James C. McKinley Jr. escreve uma daquelas histórias tristíssimas, típicas de republiquetas das bananas. Ela começa com três parlamentares salvadorenhos assassinados na Cidade da Guatemala no mês passado. Eles teriam sido confundidos com traficantes de droga colombianos, seqüestrados e executados por quatro policiais locais. Assim que se entregaram, estes foram imediatamente enviados para o presídio de segurança máxima El Boquerón. E quatro dias depois também apareceram mortos.

O governo diz que os policiais foram atacados por presos revoltosos. Mas detentos contam que eles foram assassinados por homens encapuzados, vestindo uniformes militares. Para piorar, há mais de uma reportagem sugerindo que os tais deputados salvadorenhos eram, afinal de contas, parte de uma das mais importantes quadrilhas de tráfico da América Central.

Nos últimos 30 dias o escândalo levou a duas demissões no gabinete Berger e à instalação de uma CPI no Congresso para se investigar a existência de um esquadrão da morte financiado por dinheiro público. A Guatemala conta com pouco mais de 12 milhões de habitantes e cerca de 5 mil homicídios/ano. Destes, apenas 2% resultam em prisões de suspeitos. Estima-se que pelo menos 2/3 da cocaína que entra nos EUA passa pela Guatemala.

Grupos de direitos humanos têm feito um barulho danado por aqui, denunciando que os esquadrões anti-drogas financiados por Washington se transformaram em milícias informais. Estas entraram na luta pelo lucrativo negócio do tráfico sob o manto de 'proteção à população civil'. Um oficial da ONU revelou, sob a condição de permanecer anônimo, que as milícias foram criadas nos últimos três anos por 'gente ligada ao governo' preocupada com o aumento da violência urbana. E, o mais inusitado, seus soldados seriam ligados a igrejas evangélicas que vêem no extermínio de bandidos mais do que 'limpeza social', mas um 'ato de fé'. Com dinheiro ianque, o governo Berger, denuncia o funcionário da ONU, criou um Frankenstein cristão.

É a guerra santa subsituindo a guerra suja em plena América Central.

No meio do furacão, Bush chega à Guatemala na semana que vem, após seu encontro com o presidente Lula. Podia pedir conselho ao petista e levar uma mensagem amiga ao companheiro Berger. No Rio, ao menos até agora, não se ouviu falar de milícia evangélica. Será este o próximo capítulo do descaso com que a ralé é tratada em Pindorama?

Em tempo: o diretor da Human Rights Watch, Dan Wilkinson, diz que a ONG classifica a Guatemala de Berger como 'uma democracia fracassada'.

Chavez, este autoritário, deve estar rindo à toa.

Um comentário:

Henrique disse...

Não sei se existe alguma conexão envagélica nelas, mas aqui no Rio pipocam milícias. Pelo menos vivem nas manchetes dos jornais diários. O Haiti... ops A Guatemala é aqui.