sexta-feira, setembro 29, 2006

ENTREVISTA/NICHOLAS CAGE

Hoje o Valor Econômico publicou a entrevista que fiz com Nicholas Cage, estrela do novo filme de Oliver Stone, Torres Gêmeas, que estréia este fim de semana nos cinemas brasileiros.

Para Cage, Dor Não É Política

29/09/2006

Valor
: "As Torres Gêmeas" foi recebido com festa pela direita americana. Como se posiciona sobre a reação do governo Bush aos ataques de 11 de setembro?
Nicholas Cage: Nosso filme termina no dia 12 de setembro. Não quero de modo algum pensar neste filme de forma política. Acho que seria desonesto com Oliver [Stone] e com a força de "As Torres Gêmeas". O filme trata da luta pela sobrevivência e da coragem de dois policiais.

Valor: Há o aspecto religioso. O personagem do policial Will Jimeno chega a ver Jesus Cristo. Isso o incomodou?
Cage: Um de meus principais exercícios antes de começar a filmar foi me encontrar com o policial John McLoughlin, ver sua família. Gravei em vídeo o encontro e fiz milhares de perguntas. Uma das coisas de que ele se lembra é que ele e Will pediam a Deus por suas vidas, pela chance de saírem daqueles escombros com vida. Quis entender como sua mente venceu a luta. Minha busca foi entender isso, observar e aprender com seus momentos de desespero e, sim, claro, de fé. "As Torres Gêmeas" é um filme emocional. Não é, no entanto, uma obra que o deixará para baixo quando sair do cinema. Você sai com a sensação de que anjos, de fato, existem. John e Will são heróis. Para sobreviver, tiveram de virar um só. Tentar politizar a história é um erro.

Valor: É sua primeira colaboração com Oliver Stone, um diretor marcado por filmes como "Platoon", "JFK" e "Nixon". Não passou por sua cabeça que ele aumentaria o teor político da história?
Cage: Sabe que a gente não conversou sobre o aspecto político dos ataques, Al-Quaeda, Osama, Bush? Até porque John McLoughlin não sabia de nada disso quando estava soterrado nos escombros. Oliver é sensacional. A principal característica de seus filmes, para mim, é que nos fazem pensar. Meu maior receio seria o foco na violência, no desastre. Ele tem interesse zero nisso.

Valor
: Houve chiadeira de parte da opinião pública americana contra o que seria a exploração econômica da tragédia...
Cage: Aquelas imagens foram reais e é sempre melhor enfrentar a realidade do que abraçar a ignorância. Quero saber o que aconteceu nos escombros do World Trade Center. É claro que entendo a preocupação das famílias dos sobreviventes e a dor de reviver a história. Quanto à exploração econômica, doei o cachê para diversas instituições. Boa parte da bilheteria irá para a caridade.

Valor: Foi bom exercício trabalhar apenas com o rosto na maior parte do filme?
Cage: Usei a imaginação para tentar representar aquilo que John me contou que tinha sentido durante as horas em que ficou soterrado.

Valor: Como Nicholas Cage, cidadão americano que estava em casa quando os ataques aconteceram, vê o filme?
Cage: O longa-metragem foi uma boa resposta a minhas preces. Pretendia fazer algo que inspirasse as pessoas, que ajudasse outros seres. Espero ter atingido o objetivo. Acho que contar a história de John McLoughlin e Will Jimeno é uma boa maneira de nos purificar, de curar nossas feridas.
(Eduardo Graça, para o Valor, de Nova York)

4 comentários:

Musso disse...

Eduardo, quem você listaria hoje como os 10 intelectuais americanos fundamentais do século XXI? Estou fazendo uma pesquisa, e se puder me ajudar, agradeço.

Eduardo Graca disse...

Olá Musso, e quem é você? Ajudo com o maior prazer. Abraço,
Eduardo

Musso disse...

Sou psiquiatra e psicanalista em Belo Horizonte, tenho uma clínica (Casa Freud),faço doutorado em Ciências da Saúde na UFMG, participo de uma ong que promove experiências em vídeo comunitário para jovens da periferia, e tenho participado de pesquisas acerca da criação artística entre pacientes psiquiátricos. O que me fez te perguntar sobre os intelectuais americanos foi uma recente possibilidade de bolsa nos Estados Unidos, com acesso a pensadores que me interessem (e minhas áreas de interesse são bem variadas...). Listei até agora Richard Semmett, Michael H. Hart, Thomas Sowell, Noan Chomsky, Geoge Stone e Gore Vidal (que não vive mais nos EUA, mas não custa tentar). Pensei que você pudesse me apresentar algumas idéias. Não se preocupe se pareço vago e tateante, pois é isso mesmo: a tal bolsa permite viagens costa a costa, se eu costurar bem a lógica dos nomes dos intelectuais, pois é muito mais um "banho de cultura" que uma orientação de tese. Acha possível me ajudar, ou está te parecendo muito doido o pedido?

Musso disse...

Acabei desistindo de tentar a tal bolsa(Fundação Eisenhower), porque achei o tempo largo demais (2 meses!), incompatível com minha disponibilidade. Obrigado, mesmo assim.