sexta-feira, outubro 26, 2007

ENTREVISTA/Chris Anderson


O Valor Econômico publicou hoje minha entrevista com o jornalista Chris Anderson, editor-chefe de uma das revistas mais interessantes dos EUA, a Wired. Aí vai:

A era dos mercados infinitos
Por Eduardo Graça, para o Valor
26/10/2007


Ele foi um dos primeiros a usar a internet, muito antes de a "Wired", revista da qual é editor-chefe, ser lançada em 1993. Chris Anderson, de 46 anos, acredita que a melhor definição para tecnologia é "a capacidade de dar poder ao indivíduo para modificar o mundo". Um típico libertário do Vale do Silício, opositor ferrenho a qualquer interferência governamental na vida dos cidadãos, o ex-editor de tecnologia da revista "The Economist" lançou neste ano um dos livros mais comentados no mundo dos negócios: "A Cauda Longa" (Campus/Elsevier, 256 págs., R$ 57,50). A obra nasceu como uma pesquisa sobre as transformações na indústria musical, transmutou-se em um artigo, o mais comentando da história da "Wired", e finalmente chegou às livrarias anunciando o fim do monopólio da sociedade de consumo de massas e o apogeu dos mercados infinitos.

O título do livro refere-se à sua apropriação da convencional curva de demanda utilizada pelos economistas: no topo estão os hits, na cauda os produtos de aceitação menor. O raciocínio convencional é o de que é preciso fazer que a maioria dos consumidores se dirija para a cabeça da curva, pois é mais custoso trabalhar um número maior de produtos. Anderson propõe que a máxima não vale mais no mundo da sociedade de nicho.

A diminuição dos custos com a distribuição de bens tem modificado essa curva de forma radical - um novo animal surge, com a cabeça cada vez mais diminuta e a cauda mais extensa. Parece conversa de ficção científica? De sua casa, em São Francisco, Anderson jura que não há nada de anormal no fenômeno que afeta a indústria cultural tal qual a conhecemos, assim como nossa noção de identidade nacional e a maneira pela qual nos expressamos politicamente.

Fã do ministro Gilberto Gil, o jornalista, que participa em São Paulo de um seminário sobre o futuro da economia mundial durante a ExpoManegement, conversou pelo telefone com o Valor.


Valor: Não é uma ironia imensa o fato de seu livro, que trata do fim da era dos blockbusters, ter se tornado um best-seller?
Chris Anderson: Sim, mas esta é apenas uma das ironias sobre o livro. Há muitas outras. Pense no fato de eu trabalhar para a mídia convencional, como a "Wired", a maior revista de tecnologia do planeta, parte da Condé Nast, por sua vez a maior editora de publicações jornalísticas dos Estados Unidos, que vende mais de dez milhões de revistas todos os meses. Mas esse é meu trabalho diurno. De noite, você me encontra celebrando a economia do nicho em meu blog, na micromídia, nos meus escritos.

Valor: Ou seja, o mundo mais especializado, muitas vezes mais sofisticado, vive hoje lado a lado com a velha sociedade de massas que imperou durante o século XX...
Anderson: Sim, não se trata de anunciar a morte da economia de consumo de massas e sua substituição por algo mais segmentado. Mas é o momento de constatar o fim do monopólio dos blockbusters. Isso acabou. Hoje é preciso considerar a extensão e o tamanho da cauda do mercado e não apenas sua cabeça gigantesca.

Valor: O sr. acredita que sociedades mais periféricas, com poder de consumo mais reduzido, como o Brasil, vivem esse fenômeno de forma igualmente intensa?
Anderson: Se estamos pensando no poder de escolha do consumidor, é claro que faz uma diferença grande se considerarmos o poder de compra e o acesso à internet em cada país. Quanto mais renda você tem, acompanhada do acesso à rede de computadores, mais oportunidade você terá de fazer parte do mercado segmentado e essa equação pode ser problemática quando pensamos no chamado mundo desenvolvido. Mas, por outro lado, a demanda mundial por produtos oriundos dos mercados ditos periféricos aumentou muito. Um exemplo claro é a cultura brasileira. Todos querem consumir cultura brasileira, de um modo ou de outro, no mundo desenvolvido. A audiência global - e o potencial número de consumidores - para tudo o que for ligado ao Brasil cresceu incrivelmente nos últimos anos. E são consumidores que não tinham acesso a esses produtos, como, por exemplo, a gigantesca produção musical produzida no país ou mesmo o esporte.

Valor: Hoje um americano pode assistir a um jogo de futebol da Copa Libertadores da América em tempo real tanto na TV quanto na internet...
Anderson: Exatamente! No novo mercado, consumidores de todo o mundo podem entrar em contato com aspectos específicos da vida de outros países de uma forma inédita. Pense na "diáspora do críquete". Trata-se de um esporte completamente obscuro nos EUA. Mas hoje temos aproximadamente 40 milhões de pessoas oriundas da Índia, do Paquistão, da Austrália, Nova Zelândia e Grã-Bretanha, países em que o esporte é muito popular, trabalhando e vivendo por aqui, embora não concentrados em uma única região do país. Pois bem, agora essa gente toda - um mercado considerável em qualquer estimativa - pode ver os jogos de críquete em tempo real. É uma audiência global para um típico produto da sociedade de nicho.

"Vejo Gilberto Gil como antídoto à velha economia dos blockbusters. Nós o vemos como modelo para os brasileiros e para o planeta".

Valor: O sr. viaja ao Brasil pela primeira vez. Há alguma expectativa em se aprofundar em relação a casos típicos do mercado segmentado no país?
Anderson: Ficarei no Brasil apenas por algumas horas e não acredito ser possível fazer maiores reportagens. Fui convidado pessoalmente para o evento pelo ministro Gilberto Gil e minha única expectativa é a de tentar me encontrar com ele e ouvi-lo um pouco. Em 2003 a "Wired" foi uma das patrocinadoras de um show em benefício do Creative Commons, projeto elaborado pelo professor Lawrence Lessing, da Universidade de Stanford, que gera instrumentos legais para titulares de direitos autorais, como Gil, liberarem sua obra para usos dos mais variados. E ele se apresentou com David Byrne. Gil está constantemente em nossas páginas, por ter colocado o Brasil na posição de pioneiro na adoção do Creative Commons no mundo e por sua visão lúcida sobre a nova realidade dos direitos autorais na sociedade do remix. Ele está em meu radar por um longo tempo. Ele é único ao representar hoje, ao mesmo tempo, a cultura do remix, a cultura popular, a cultura segmentada. Gil entende a importância da diversidade em todos os níveis, não apenas no cultural. Vejo-o como um antídoto à velha economia dos blockbusters e, por isso, nós o vemos como um modelo não só para os brasileiros, mas para o planeta. Não vejo a hora de encontrá-lo.

Valor: Gil é um dos maiores nomes da música popular brasileira e o sr. iniciou a pesquisa de "A Cauda Longa" justamente pela indústria musical...
Anderson: É que este é um dos mercados em que variedade, por incrível que pareça, era um item raro antes da explosão do mercado de nicho. O Wal-Mart vende hoje cerca de mil títulos musicais em CDs. Mas na internet há algo estimado como 3 milhões de faixas disponíveis legalmente nos serviços de venda digital. A indústria musical é um exemplo claro do blockbuster desagradando tanto ao consumidor quanto ao artista. Foi ao perceber o tamanho do mercado musical localizado na "cauda" da curva de consumo que as majors da música teimavam em ignorar que encontrei a idéia para escrever o livro.

Valor: Em seu blog o sr. tratou com especial interesse da decisão da banda inglesa de rock Radiohead de vender seu novo trabalho exclusivamente na internet e de deixar para os compradores a tarefa de definir o preço a ser pago, incluindo a possibilidade de baixá-lo gratuitamente...
Anderson: Esse movimento reflete o cada vez mais diminuto poder do modelo de venda de música tradicional, criado pelas grandes gravadoras. Trabalhar as músicas no rádio e colocar CDs nas melhores lojas do gênero não vale mais. O formato digital permite maior flexibilidade na hora de estabelecer os custos do produto. A indústria musical não é mais simplesmente fundamentada na venda de músicas. Seu produto, atualmente, é a venda de performances. O Radiohead ganhará muito mais dinheiro em seus shows, levando as pessoas que ouviram suas músicas para os estádios, do que com a venda online. A Madonna acabou de encerrar um contrato de décadas com uma grande gravadora para fechar com uma produtora de eventos musicais. Os Rolling Stones faturam mais de 90% de seu orçamento com as turnês mundiais. O iPod é hoje parte importantíssima da indústria musical do século XXI, embora completamente ignorado pelas grandes gravadoras.

Valor: Mas não há o risco de esse mundo maravilhoso das opções sem fim enterrar a possibilidade de identificação nacional por meio de um produto específico da indústria cultural, fenômeno típico da sociedade de massas?
Anderson: Você está correto. Fragmentação, inevitavelmente, impõe uma diminuição no poder de atração da cultura popular.

Valor: Penso, no Brasil, no caso da diminuição crescente da audiência das telenovelas, que nos anos 1970 e 80 foram, talvez mais do que qualquer outro produto da indústria cultural local, o termômetro social e político do país...
Anderson: Nos Estados Unidos dos anos 1950 os americanos estavam todos vendo "I Love Lucy" e se encontravam como nação, de certa maneira, naquele programa. Mas nós não podemos limitar nossa identidade como nação àquela cola poderosa que nos gruda ao aparelho de TV. Não existe mais apenas uma cultura nacional, uma cultura de massa. Mas este é apenas um aspecto de nossa cultura. E vai haver sempre algo, creio, que nos unificará como nação. No Brasil, por exemplo, pode ser a seleção nacional e a Copa do Mundo. A televisão, certamente, não o será mais. Ela só existia daquela maneira porque a oferta de produtos era diminuta.

Valor: Aplicando esta regra para o mundo da política o senhor acredita que a sociedade de nicho nos faz cada vez mais interessados em pessoas que representam certos interesses específicos e menos em partidos políticos que ainda trabalham com a idéia de representação de classe social?
Anderson: Sem dúvida alguma. Em cada país, obviamente, o impacto da sociedade de nicho tem um peso diferente. Nos EUA, ao contrário do Brasil, temos um sistema de bi-partidarismo que é o oposto exato da possibilidade de escolhas. A limitação é óbvia, mas cada vez mais aumenta o número de eleitores e políticos que não se identificam mais com partido algum, como o prefeito de Nova Iorque, Michael Bloomberg, ou o próprio governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, adeptos de uma política mais granular, distantes de modelos estanques. Em geral, mesmo em países que vivem um sistema de partido único, como na China, ou de dezenas de legendas, como no Brasil, os eleitores pensam hoje de forma mais independente, menos ligada a cânones estabelecidos de cima para baixo. Hoje em dia acho que não podemos mais pensar na massa popular, e sim nas massas populares, que competem entre si em busca de mais representatividade. Não estou profetizando o fim da sociedade de massas, e sim a deterioração de seu protagonismo, de seu monopólio, em todos os setores de nossa sociedade.










quarta-feira, outubro 24, 2007

Cool in NYC

A revista CasaClaudia, em sua edição de luxo, publicou um texto-legenda meu sobre o Monkey, um bar sensacional aqui de NYC, oitentão mas cheio de bossa. A foto é de meu amigo Victor Affaro. O Monkey fica na Rua 54, uma das poucas atrações realmente recomendáveis de Midtown East.



terça-feira, outubro 16, 2007

Elitismo no Cinema - Artigo de Olga de Mello

Colaboradora assídua deste blog, Olga de Mello viu, gostou e escreveu no ótimo Arenas Cariocas mais um artigo sobre Tropa de Elite, em que pergunta: por que o espectador aplaude o extermínio de bandidos?


Elitismo no cinema, por Olga de Mello

O mais incômodo em "Tropa de Elite" é ouvir aplausos ao fim da sessão. O filme é bom, bem feito, atores em excelente forma, a ponto de Wagner Moura não se destacar dos coadjuvantes. Talvez o destaque fique para Milhem Cortaz no papel do Capitão Fábio, corrupto até o fundo da alma. Cortaz lembra Nuno Leal Maia fazendo aqueles tipos brutos. A violência grassa solta, torturas, execuções perpetradas tanto por policiais quanto por bandidos.E assina embaixo do discurso que só a classe média faz passeata pela paz, enquanto compra drogas e financia o tráfico, enquanto existem diversos estudos que afirmam que algo em torno de 40% da droga ficam atualmente nos morros, para abastecer moradores que são dependentes. Não que isso justifique a utilização da droga pelo asfalto, porém é um dado.

Por que o espectador aplaude o extermínio dos bandidos? Porque onde o Estado não se faz presente, a barbárie impera, claro. O Estado omisso leva ao banditismo generalizado. Ou são eles ou somos nós, pensa quem está no foco da violência.

Nós, Zona Sul, brancos, do asfalto, estamos ainda a anos luz de distância do que sofre a classe média na Zona Norte e subúrbios. Mas corremos riscos. É fácil apontar a existência dessa violência e pregar a eliminação dela, pura e simplesmente. Jogar napalm nas favelas, mas tirando, naturalmente, a família da nossa empregada, é uma das soluções que já ouvi proferidas em alto e bom som, numa conversa com desconhecidos no Aeroporto do Galeão. Tive que me afastar, porque esse tipo de argumento nem merece resposta.

O filme é bom, repito. Vale a pena ser visto como cinema. A realidade é dura e eu jamais aplaudirei corrupção ou assassinato em massa, mesmo podendo ser morta pelo bandido ou pela bala perdida da PM.

Os impostos não deveriam pagar o salário de pistoleiros. O filme mostra um Bope violentíssimo, justiceiro, com total desprezo pelo ser humano. Quem não vê isso na criação de José Padilha e Rodrigo Pimentel só quer enxergar um lado da história e aplaudir atitudes simplistas e criminosas que jamais serão uma solução para a violência urbana.

Minha Primeira Vez - artigo de Teté Ribeiro

A querida Teté Ribeiro, jornalista brasileira baseada em Washington D.C. (ou Osasco City, como ela prefere), acabou de enviar um delicioso artigo sobre os prazeres de se conferir Tropa de Elite a quilômetros de distância e utilizando métodos pouco convencionais para conseguir assistir ao filme da hora.

O texto me chegou às mãos no mesmo dia em que entrevistava uma das grandes cabeças pensantes do Vale do Silício, que acabou de lançar um livro em que entra na questão dos direitos autorais nos tempos da economia de nicho, pós-blockbuster. Mas esta é uma conversa para depois. O importante aqui é Teté, que nos reafirma - a primeira vez, para o bem e para o mal, a gente nunca esquece:


Minha primeira vez

Teté Ribeiro, de Washington, para o edudobrooklyn

É sempre estranho fazer uma coisa pela primeira vez. Tanta expectativa, tantas idéias pré-concebidas, tantos medos, tantos desejos, quase todos com pouca ligação com o que a realidade vai desvendar dali a pouco. Foi assim comigo também, e aconteceu nesse último sábado, dia 14. Tinha passado uma sexta-feira 13 daquelas, imaginando que minha primeira vez ia ser adiada e complicada, e, fala a verdade, quando uma coisa acontece na vida pela primeira vez quase sempre já está pelo menos uns meses atrasada, e você só com aquilo na cabeça, sem lugar para mais nada.

Daí, como em uma ficção, quando eu já não tinha mais nenhuma esperança, tocou a campainha. Era mais ou menos meio-dia, eu estava pensando em como escapar da faxineira que vem aos sábados e fica na casa exatamente duas horas, entre duas e meia e quarto e meia. Uma sessão de “Elizabeth 2”? Ou quem sabe “The Jane Austen Book Club”? Ou ler os jornais em um parque, já que o verão no hemisfério norte resolveu dar uma esticadinha esse ano? O que eu queria mesmo, até onde eu sabia, era inatingível. Eu queria ver “Tropa de Elite”! Mas aquela campainha era do carteiro, que tinha um envelope registrado – daqueles que você é obrigada a abrir a porta, dizer bom dia e assinar uma traquitana tipo de cartão de crédito, ou ele não deixa o pacote. E – alegria, alegria – era ele. Meu tão esperado DVD pirata, vindo de São Paulo, mandado por um amigo que me fez jurar que eu não revelaria seu nome, porque, como eu, em princípio ele também é contra a pirataria, onde já se viu uma coisa dessas, e os direitos autorais já tão judiados no Brasil, quem compra é cúmplice, assim como quem assiste.

Então tá, querido, fique você na sua bat-caverna, porque eu vou declarar, aqui em alto e bom tom – e a milhas e milhas distante de qualquer autoridade brasileira – que vi, pela primeira vez, um DVD pirata. E foi bom. Eu estava tão, mas tão curiosa para ver o novo trabalho do ator Wagner Moura e do diretor José Padilha, do grande “Ônibus 174”, que na minha última passadinha pelo Brasil, no meio de setembro, fui ao Rio e nem olhei direito pro mar – meu olho não saía das calçadas, a fim de dar de cara com um camelô que tivesse uma cópia para me vender. Pensei comigo que eu não pagaria mais de R$ 50, era meu teto. E o DVD acabou sendo de graça, porque meu amigo não teria nem coragem de cobrar os ralos R$ 5 que pagou pela cópia do filme, devidamente disfarçado de “BOPE” (o nome que veio na capa, não me pergunte o motivo).

E essa discussão a respeito da pirataria é só uma entre as muitas, todas interessantes, que o filme provoca. Só por isso, ponto para “Tropa”. Qual foi a última vez que um longa-metragem deu tanto pano para a manga desse jeito? Nem “Lust, Caution”, o novo do Ang Lee (o diretor de “Brokeback Mountain”), que estreou aqui nos EUA há duas semanas, e que apesar de ter sido o primeiro filme de grande estúdio em anos a receber o temido PG-17, que proíbe mesmo a entrada de qualquer menor de 17 e espanta uma enorme fatia da audiência, deu tanto o que falar.

Que chova público para o “Tropa”. Que chovam opiniões a respeito, contra, a favor, absurdas. Tudo menos sossego para o diretor, o roteirista Bráulio Mantovani e a equipe técnica e de atores. Que cineasta quer paz, afinal de contas? O Babenco, na última edição que eu recebi pelo correio da revista Set (que por sinal tem uma ótima matéria de “Tropa”), diz em entrevista que ficou frustradíssimo porque seu “Coração Iluminado”, de 1996, não provocou nenhum tipo de reação nem da crítica nem do público. Disso, nem o José Padilha nem nenhum fã do filme (pode me incluir nessa lista) podem reclamar.

Ah, claro, e juro que não faço mais. Também juro que tentei outros métodos antes de partir para a pirataria, mas não tive sorte. Na clandestinidade, bastam R$ 5 e um amigo. E a recompensa é um filmaço. Irresistível. Pelo menos uma vez.

sexta-feira, outubro 12, 2007

ECONOMIA/Os Hetereodoxos Apertam o Cerco

O Valor Econômico publicou hoje minha reportagem sobre os combatentes, na academia norte-americana, do culto excessivo aos cânones da economia de mercado. Conversei com os professores Robert B. Reich, da Universidade de Berkeley (que foi secretário do Trabalho na administração Clinton); Thomas McCraw, de Harvard (autor de ótima biografia de J.Shumpeter); Frederic S.Lee, da Universidade do Missouri-Kansas (principal voz dos chamados heterodoxos); e Philip J.Reny, da Universidade de Chicago, um dos grandes nomes do mainstream, que reage com uma certa ironia à desconstrução do ideário do laissez-faire realizada por seus colegas à esquerda do espectro político.

Abaixo as fotos são de Paul Krugman e Alan S.Blinder, ambos da Universidade de Princeton; e de Reich, três das mais fortes vozes de oposição ao modo Bush de pensar Economia.


Os heterodoxos apertam o cerco
Por Eduardo Graça, para o Valor
12/10/2007

Enquanto o céu era de brigadeiro, poucas vozes dissonantes ousaram questionar o catecismo filosófico do laissez-faire em terras de George W. Bush. Mas o aumento da desigualdade social, a explosão da bolha do mercado de crédito imobiliário, a redução do número de postos de emprego e a ameaça de uma recessão têm levado parcela significativa de economistas de prestigiosas universidades do país a questionar de forma mais incisiva a ortodoxia dos apóstolos mais ferrenhos da não-interferência governamental na maior economia do planeta. Para Robert B. Reich, da Universidade de Berkeley, o consenso da economia de livre mercado "simplesmente acabou". Paul Krugman, estrela do "New York Times" e da Universidade de Princeton, reza por um novo "New Deal", e até mesmo os laureados Lawrence Summers, ex-presidente da Universidade de Harvard, e George Akerlof, Nobel de Economia em 2001, vêm tratando das falhas do modelo neoclássico (o "maistream" ortodoxo) em seus artigos.

"Durante décadas, a economia neoclássica recebeu críticas de um número muito pequeno de pensadores. Hoje, economistas sérios questionam certos princípios porque estes simplesmente não parecem de acordo com o mundo em que vivemos", diz Reich. Secretário do Trabalho na administração Bill Clinton, o professor de políticas públicas na faculdade de economia de Berkeley argumenta que fatores como a transferência de empregos para países com mão-de-obra barata, como Índia e China, possibilitada pela globalização, e as mais recentes revoluções tecnológicas, destruiram o esboço da sociedade de livre-comércio estabelecido nos anos 1970.

O professor Thomas McCraw, de Harvard, autor de uma festejada biografia de Joseph Schumpeter, disse ao Valor que o predomínio "asfixiante" do não-intervencionismo do Estado na economia americana foi fundamental para o crescimento da desigualdade social nas últimas duas décadas. "McCraw está correto. Para diminuir a diferença cada vez maior entre o rendimento de ricos e pobres no país, por exemplo, é necessário criar um imposto de renda progressivo (quem ganha mais, paga mais), combinado com um subsídio governamental dado para trabalhadores com renda mais baixa. Os primeiros US$ 15 mil seriam isentos de taxas da previdência social, mais a partir daí o imposto seria cobrado de forma crescente. Outro passo fundamental é a garantia de um sistema educacional que de fato beneficie toda a sociedade", diz Reich.

Mas ainda há terreno para um namoro aberto com o Estado do bem-estar social europeu nos EUA do século XXI? O que parecia ser um delírio depois de sete anos de domínio do neoconservadorismo ganha algum fôlego com a impopularidade do governo Bush, a dinâmica corrida eleitoral para a Presidência em 2008 e um ineditismo histórico: a totalidade dos candidatos democratas - incluindo os três mais fortes, Hillary Clinton, Barack Obama e John Edwards - defendem uma reforma radical no sistema de saúde, com o aumento do poder decisório do Estado. Paul Krugman lembra que é justamente na hora de se ter acesso aos melhores hospitais e médicos dos EUA que se detecta com mais exatidão o crescimento da disparidade entre ricos e pobres e o achatamento da classe média.

Krugman é um crítico severo do pacote de redução de impostos enviado ao Congresso pelo presidente republicano, "o mais elitista já visto em Washington". De fato, o Tax Policy Center, uma organização não-vinculada a partidos políticos, informou este ano que mais da metade das reduções de impostos aprovadas no governo Bush beneficiaram exclusivamente os que embolsam mais de US$ 1 milhão por ano. "Boa parte dos economistas ainda defende a tese de que, ao diminuir os impostos dos mais ricos, aumenta-se imediatamente o poder de crescimento da economia nacional, beneficiando toda a população.

De fato, desde 2003, surgiram 8 milhões de novos postos de trabalho, mas boa parte é uma recuperação dos que desapareceram nos primeiros anos do governo Bush. E não se comparam aos 21 milhões que surgiram logo após Bill Clinton enveredar pelo caminho oposto, ou seja, aumentar os impostos dos ricos. A matemática é simples: quando você diminui impostos dos ricos, eles pagam menos. Quando você aumenta os impostos, eles pagam mais. Fim da história", escreve Krugman, em meio ao que considera ser o fim do "boom" econômico de Bush.

Os críticos da ortodoxia neoclássica encaram os últimos quatro anos de pujança econômica como um desastre sem tamanho comparável na história do país, um período de crescimento incapaz de produzir qualquer ganho real para o trabalhador comum. "Nem na Gilded Age, nem nos anos Reagan havíamos experimentado tal contradição. Precisamos urgentemente de um novo New Deal. Crescimento econômico não pode ser um esporte feito apenas para espectadores passivos", ataca Krugman.

O debate sobre essas questões ganha importância na medida em que a economia volta, depois de quatro anos, ao centro da agenda política nos Estados Unidos, até então dominada com exclusividade pela atrapalhada ocupação do Iraque. A contaminação da economia como um todo, infectada pela crise do mercado de crédito imobiliário, trouxe de volta à vitrine economistas dispostos a advogar a necessidade de o governo intervir de forma incisiva para evitar a recessão e ajudar os milhares de cidadãos encalacrados com o aumento dos juros no pesadelo que se tornou a conquista da casa própria.

As vozes mais críticas já perceberam que nunca foi tão impopular o discurso de corte de impostos e diminuição de gastos com projetos sociais bancados pelo Estado. Uma das estrelas do grupo de economistas heterodoxos, termo cunhado para identificar os dissidentes da economia neo-clássica, é o professor Frederic S. Lee, da Universidade do Missouri-Kansas City, editor da popular publicação eletrônica "Heterodox Economics".

"A perspectiva heterodoxa desconhece, por exemplo, a desregulamentação de preços. Para nós, os preços são sempre regulados, seja pelas corporações, por cartéis ou pelo Estado. Ao contrário dos ortodoxos, modelos, para nós, não são mais importantes do que fatos. Temos uma percepção, grosso modo, mais plural quando pensamos na aplicação dos conceitos econômicos", diz Lee. Para ele, são as grandes corporações, não o mercado, que determinam, em última instância, por exemplo, o preço do petróleo.

Nada mais distante do que pensa o professor Philip J. Reny, chairman do departamento de economia da Universidade de Chicago, catedral dos neoclássicos. "Não há um economista sério disposto a negar o fato de que o livre-comércio pode ser custoso para os que se encontram no furacão que chamarei aqui de período de transição. Por exemplo, empresários que precisam lidar com o fato de que seus produtos são mais caros do que os similares produzidos no exterior serão prejudicados seriamente se não receberem algum subsídio. E na maioria das vezes eles não recebem mesmo ajuda alguma. Mas os benefícios a longo prazo para a economia do país são substanciais. Aliás, se mais atenção fosse dada à diminuição das perdas dos que sofrem com o processo, haveria muito menos interesse neste debate. E tudo isso é perfeitamente consistente com uma perspectiva neoclássica", garante.

Reny também redimensiona a crítica centrada nos resultados desastrosos da aplicação de preceitos neoclássicos quando se trata do aumento da desigualdade social nos Estados Unidos. "É preciso levar em conta outros aspectos, como a renda média no país como um todo e a renda média dos 25% mais pobres, que vêm crescendo em termos reais. Não sou um especialista no tema, mas aposto que, se um estudo fosse feito, se chegaria à conclusão de que tanto a renda média dos cidadãos como um todo quanto as dos 25% mais pobres crescem mais na economia de livre mercado". Lee até concorda com a primeira parte da argumentação de Reny, desde que "se considere que a economia-padrão ensinada nas escolas americanas tem alguma relação com o mundo real". Mas o professor da Universidade do Missouri-Kansas City diz que os benefícios do laissez-faire "não chegam às classes e indivíduos com os quais me preocupo".

Apesar de contar com mais de dois mil economistas heterodoxos dos quatro cantos do globo colaborando em sua newsletter (entre eles, muitos pós-keynesianos e um punhado de marxistas), Lee reconhece que ainda é complicado bater de frente com o status quo, lembrando que "a maioria das universidades americanas não conta com professores heterodoxos".

O professor Alan S. Blinder, de Princeton, a segunda voz no Federal Reserve Board na primeira metade dos anos 1990, disse recentemente que passou a ser tratado como um apóstata por seus colegas ao criticar o livre mercado globalizado, que, em seus cálculos, pode levar a uma diminuição de até 40 milhões de postos de trabalho nos Estados Unidos, nos próximos anos, e ao defender temas-tabu como a instituição de um salário mínimo nacional (há estados no Sul que não adotam nem um valor mínimo local), a instituição de uma política industrial transparente e um ajuste mínimo de preços. Em entrevista recente ao "New York Times", Blinder sintetizou a crise na academia afirmando que, hoje, "as ciências econômicas são freqüentemente um triunfo da teoria sobre os fatos".

Outra voz dissidente, o professor David Card, também de Berkeley, reconhecido por seus estudos sobre os efeitos no mercado do estabelecimento do salário mínimo (ele defende a tese de que, ao contrário do que prega a economia neoclássica, a oferta de emprego aumenta quando se estabelece um piso salarial) foi ainda mais específico ao dizer que, no mundo acadêmico americano, "você perde sua posição como um economista sério se não concordar que qualquer tipo de regulação de preços é maléfica e que o livre comércio é sempre benéfico". "Blinder e Card estão corretíssimos. Tem sido mesmo difícil discutir estes preceitos econômicos básicos. Mas os tempos estão mudando", acredita Reich.

O professor de Berkeley enfatiza, por exemplo, que, ao contrário do que defende o comandante da faculdade de economia da Universidade de Chicago, quem precisa de ajuda neste período de transição da economia americana não são os empresários, e sim "os trabalhadores, forçados a deixar a velha realidade pré-globalizada". Reich vai além: diz que não percebe qualquer interesse dos economistas neoclássicos em se aprofundar neste ponto. "Eles se preocupam muito em ser eficientes, mas não estão interessados em apresentar uma análise balanceada, justa", diz. Ele também aponta o revival da chamada economia comportamental como uma bem-vinda reação à ditadura neoclássica, que teria vivido seu auge com Milton Friedman e durante os anos mais felizes do governo Reagan.

Os economistas comportamentais não se afastam do pensamento "mainstream" como os heterodoxos, mas levam em conta as complexas reações psicológicas do indivíduo a eventos como uma queda brusca na bolsa de valores ou uma crise de liquidez como a enfrentada neste momento nos Estados Unidos. "Eles entenderam que os seres humanos não são, necessariamente, racionais em suas escolhas. Ao contrário, muitas vezes são mais o resultado da emoção do que da razão, e, dependendo das circunstâncias, as pessoas podem agir com mais ou menos empatia e generosidade. É um rompimento importante com o modelo neoclássico ortodoxo, racional e egoísta", diz Reich.

Para Reny, ainda é cedo para avaliar as contribuições que economistas comportamentais, como seu colega Richard Thaler, da Universidade de Chicago, podem oferecer para uma melhor compreensão do mundo contemporâneo. "Parece improvável, por exemplo, que a economia comportamental vá nos ajudar a entender algo significativo sobre os grandes investidores institucionais, que se preocupam acima de tudo com sua margem de lucro e que usam modelos matemáticos sofisticados para conduzir seus negócios. Mas, no fim, teremos de ver para crer", diz. A discussão, afinal, está apenas começando.

Entrevista/MICHELLE PFEIFFER

Michelle Pfeiffer está dando um show tanto em Hairspray quanto em Stardust. Minha conversa com a atriz de 49 anos - e linda de morrer - foi publicada na Contigo! que está nas bancas esta semana e é reproduzida abaixo na íntegra.

Ela estava cansada, tinha acabado de dar uma gafe imensa (disse à incansável imprensa londrina que não tinha idéia de quem era a banda Take That, que está na trilha sonora do filme) mas ainda assim foi difícil não desviar a atenção de seus olhos. Serena, la Pfeiffer foi uma bela surpresa numa tarde de sol e céu azul, nada ordinária para os padrões londrinos.




Michelle Pfeiffer: Linda aos Quase 50

Por Eduardo Graça, de Londres, para a Contigo!

O belo rosto já lhe valeu o título de atriz de cinema mais linda do mundo, segundo um estudo científico que analisou suas proporções, consideradas perfeitas. Mas Michelle Pfeiffer, 49 anos - faz 50 em abril do ano que vem - não está muito preocupada em manter a todo custo esse patrimônio. Para provar, ela encarna, no filme Stardust - O Mistério da Estrela, que estréia sexta-feira (12), Lamia, uma bruxa horrenda, com mais de 400 anos, doida para recuperar a beleza e o vigor perdidos com o passar dos anos.

Michelle também brilha em outras duas personagens em cartaz nos cinemas: Rosie, uma quarentona que se apaixona por um garotão, em Nunca É Tarde para Amar, e Velma von Tussle, ex-Miss Baltimore e diretora racista de uma emissora de TV no filme Hairspray - Em Busca da Fama.

Mas quem ficou feliz mesmo com sua volta ao batente, depois de quase cinco anos sem mostrar a bela estampa nos cinemas, foram seus filhos, Claudia Rose, 14, e John Henry, 13. "Eles não me agüentavam mais zanzando pela casa e viviam me perguntando: 'Mãe, quando você volta a trabalhar?'", conta a atriz. A seguir, a atriz revela o segredo de sua beleza eterna, em entrevista dada no hotel Claridge's, no coração de Londres.

Seus fãs vão levar um susto ao ver como o trabalho de envelhecimento a deixou horrenda...
Puxa, muito obrigada (risos)! Eu mesma fiquei preocupada quando me vi quase como uma monstra. Tanto que até decidimos diminuir os efeitos da maquiagem. De qualquer forma, não tenho a menor ideia da imagem que o publico tem de mim. Só sei que voltar a filmar depois de 4 anos parada e fazer duas vilãs tao asquerosas, cada qual à sua maneira, foi um movimento arriscado meu.

Por que arriscado?
Porque, para ser bem sincera, tive um certo receio de fazer dois personagens que brincam com temas que as pessoas evitam lidar de uma forma mais irônica – racismo e a obssessão feminina pela beleza e eterna juventude. Tive de confiar nos meus insitintos e no fim gostei muito do resultado. Mas, pensando bem, vai ver que temia encarnar estas duas personagens porque estou ficando mais velha, mais prudente. É isso, meu caro, você percebe que está envelhecendo quando começa a ficar mais precavido (risos).

Imagino que envelhecer em Hollywood deva ser preocupante. Os espaços diminuíram?
Acho que vai além de ser atriz. As pessoas, especialmente as mulheres, cobram muito essa receita de beleza eterna. E a indústria dos cosméticos, é claro.

Imagino que não viva sem seus cremes...
Pois aí é que você se engana! Vivo muitíssimo bem sem eles. Até porque cremes e modernas poções mágicas de beleza me dão uma tremenda alergia! Ou seja, tenho de viver sem eles! Mas o mundo hoje mudou tanto, não? Quando eu cresci na Califórnia ninguém sabia o que era um estilista de moda. A gente só sabia quem era o Armani. E assim mesmo quando me disseram que, para um evento no início de minha carreira, eu iria vestir Armani, minha reação foi a de perguntar por que eu não poderia me vestir por conta própria! Simplesmente nao entendia o conceito (risos).

O vestido que você está usando é belissimo...
Ai, meu Deus! E eu continuo a mesma. Não tenho a menor ideia de quem o projetou. (A reportagem de Contigo! descobriu que Michelle vestia um Vena Cada azul-marinho com cardigans Prada).

Mas você quer me convencer de que nunca se preocupou com o passar da idade?
Claro que me preocupei! Tive uma crise quando as minhas primeiras rugas apareceram. Mas, depois, acostuma-se a elas. Estou muito feliz comigo mesma. E aprendi que beleza é uma outra coisa.

Como assim?
Beleza vem da confiança em si mesma. E isso se reflete na maneira como voce se veste, em como voce trata as pessoas, em seu gestual. E também vem de uma certa devoção à preguiça. Sou muito preguiçosa. Com o passar dos anos desenvolvi a capacidade de relaxar mais e cobrar menos de mim. Isso ajuda a me sentir bonita (risos).

Não estou fazendo nenhum paralelo com seu culto à preguica, mas você ficou quatro anos sem filmar. Sentiu falta das câmeras?
Nenhuma!(risos). Não mesmo. Adoro pintar e viajar e quando descobri que vivo o luxo de não precisar ser atriz o tempo todo, minha vida melhorou tanto. Li muitos roteiros nestes anos todos e não gostei de nada. Quando finalmente achei algo interessante veio em dose tripla. Agora, sabe como eu descobri que precisava voltar a trabalhar? Quando meus dois filhos começaram a me inquirir sobre a volta ao trabalho. "Mãe, você não vai voltar ao set de filmagem nunca mais?" (risos). Ali eu precebi que era hora de voltar.

Se você pudesse ter poderes mágicos como a Lamia, seu personagem em Stardust, o que faria?
Sei que não gostaria de ler mentes. Aliás, sou tão racional que meu primeiro ímpeto foi o de responder que poderes mágicos nao existem, menino, que é tudo ficção, sabia? (risos). Mas, de verdade, acho que seria uma boa fazer umas viagens no tempo. Para o passado e para o futuro.

Então, se pudesse, faria como Lamia e retrocederia no tempo?
Jamais gostaria de voltar a ter 25 anos. Se tivesse a oportunidade, pararia nos 40. Passei realmente a aproveitar a vida depois dos 35 anos. Antes era boba demais e não era nem madura o suficiente para reconhecer isso. Hoje sei, e gosto de saber, que a gente nao precisa ter tudo ao mesmo tempo agora.

Lamia sente-se poderosa quando bela e jovem. E você?
Eu? Ora, sinto-me poderosa o tempo todo (risos)!

(o crédito da foto acima é de David James/Paramount)

Entrevista/NEIL GAIMAN

O Valor Econômico publicou hoje, no caderno Eu&Cultura, minha entrevista com Neil Gaiman. O escritor britânico falou da adaptação cinematográfica de Stardust, uma delícia, que estréia hoje nos cinemas brasileiros, e também das diferenças de seu universo fantástico e do mundo de batalhas sem fim do Senhor dos Anéis. Já já posto a outra entrevista que fiz em Londres, com dona Michelle Pfeiffer.

A bruxa de Gaiman à solta na tela
Por Eduardo Graça, de Londres, para o Valor
12/10/2007



Quem disse foi Norman Mailer, logo após devorar todo "Sandman". Neil Gaiman faz algo extremamente raro: escreve história em quadrinhos para intelectuais. Camisa de manga, calça larga, cabelos encaracolados negros, cotovelo largado sobre a mesa de madeira, o escritor de 47 anos tenta achar graça do circo armado em torno da adaptação para o cinema de "Stardust", outro de seus best sellers. O filme chega aos cinemas brasileiros nesta sexta-feira e conta com elenco de primeira. Robert DeNiro vive um pirata cheio de trejeitos; Michelle Pfeiffer, uma bruxa centenária obcecada pela beleza física; e ainda há espaço, embora não muito, para Ian McKellen, Peter O'Toole, Rupert Everett, Ricky Gervais, Sienna Miller e Claire Danes.

Todos largaram o que faziam no momento para tirar uma casquinha do universo imaginado pelo escritor britânico em uma produção encabeçada pelo diretor Matthew Vaughn, do hilário "Nem Tudo É o Que Parece", mas mais conhecido por ser o produtor dos filmes de Guy Richie e ter-se casado com a modelo Claudia Schiffer. "Fiquei envaidecido, mas preciso ser sincero: nem sempre gosto do que fazem com minhas histórias", diz Gaiman. "Lembro-me de que Matthew estava na oitava semana de filmagem quando tomei coragem de ir ao set. Fiquei confinado numa salinha vendo o que ele havia feito e ali tive certeza de que, após um ano prendendo a respiração, poderia suspirar aliviado."

"Stardust" surge na tela como se aquela trama já fosse conhecida de antemão. O livro, que teve mais de 3,5 milhões de exemplares em formato de bolso vendidos, é um dos cinco romances escritos por Gaiman, reverenciado por suas graphic novels (como "Sandman", um dos maiores sucessos da história da DC Comics, e "Death"). Quando escreveu "Stardust", há dez anos, queria alcançar reação típica dos contos de fadas clássicos: a de que o leitor tateasse por caminhos conhecidos, que tivesse a sensação de já ter visitado determinada história, de já estar familiarizado com um ou outro personagem. "O filme consegue alcançar esse estado de espírito", diz.

O enredo de "Stardust" é simples: um jovem apaixonado pela moça mais linda da cidade promete presenteá-la com a estrela cadente que acaba de despencar do outro lado do muro que separa a cidade de uma área proibida, repleta de magia. Logo ele descobrirá que a tal Estrela Cadente é uma mulher interessante, personagem fantástico num mundo povoado por gente como a bruxa Lamia e suas duas irmãs asquerosas, claramente inspiradas na mitologia grega.

"Enquanto escrevia 'Stardust', já imaginava como seriam os personagens no cinema. Mas a bruxa da minha imaginação teria cabelos negros desgrenhados e um vestido vermelho imenso. E jamais seria linda como Michelle. Lamia, no livro, discute a obsessão que temos em nos mantermos poderosos. É claro que queria falar sobre o culto da beleza eterna imposta por nossa sociedade. Mas isso quem mostrou foi Michelle."

Para os fãs do livro de Gaiman, uma das grandes novidades é o Capitão Shakespeare de DeNiro, que ganhou fôlego extra, com um guarda-roupa repleto de vestidos tamanho família à disposição do genial ator. "Quando Matthew me disse o que pretendia fazer com o Shakespeare, fiquei tenso, achei que poderia desandar tudo. Mas como ele me disse que somente dois atores seriam capazes de viver um pirata desmunhecado, Jack Nicholson ou Robert DeNiro, fiquei calmo, pois achei que nenhum dos dois iria querer fazer algo que perigosamente beirava o ridículo. Até saber que DeNiro havia topado de primeira! Mas ele conseguiu, de fato, imprimir uma candura que revela na essência o que imaginei: alguém que finge desesperadamente ser o que não é para ser aceito, quando todos estão cansados de saber em que time ele joga e têm o maior orgulho de tê-lo como comandante daquele navio", conta.

O escritor de HQ para intelectuais termina, ainda neste semestre, seu mais novo livro: "The Graveyard Book", sua segunda obra dirigida para adolescentes (a primeira, "Coraline", de 2002, chega aos cinemas no ano que vem, em adaptação de Henry Selick, com música da cultuada banda nova-iorquina They Might Be Giants). "O livro vai se passar todo em um cemitério e posso adiantar apenas que é uma brincadeira com o Mogli, só que, em vez de ser criado pelos lobos, a criança abandonada será criada pelos mortos", revela, com uma piscadela de olho que lembra a marotice delicada de "Stardust".

quinta-feira, outubro 11, 2007

Abaixo o Patrulhismo! - Artigo de Olga de Mello

Outra jornalista supimpa, a querida Olga de Mello, minha colega de Eu&Cultura no Valor Econômico, baseada no Rio, aproveita a carona do artigo de Márcia Pereira e me mandou o dela. Com vocês, Olga de Mello, que vai ver o filme amanhã. Ela trata de outro aspecto interessante do filme do Padilha: a de centrar a narrativa do ponto-de-vista do policial. Vamos ver se ela muda de opinião após conferir a Tropa de Elite no cinema:

Abaixo o Patrulhismo!
Por Olga de Mello, para o edudobrooklyn

Essa polêmica está parecendo aquela história do filme do Mel Gibson sobre Cristo, que "acusava os judeus de matarem Cristo". Enquanto transcorria essa discussão, alguns críticos falaram que o filme era bom. Não vi. Também não vi ainda a Tropa de Elite. Mas eu detesto patrulhismo. Se fosse assim, ninguém poderia ver A Queda, com Bruno Ganz vivendo um Hitler absolutamente maluco - o que o isentaria de todos os crimes cometidios.
Enquanto neguinho patrulha, como se cinema tivesse que ter moral da história (e televisão, não. Lá, os vilões acabam virando mocinhos, quando interpretados por atores que defendem o personagem convictamente), se esquecem de dizer se o filme é bom ou ruim. Aqui, se uma história toca numa ferida aberta, tendemos a ir contra quem trouxe o assunto à baila. Foi assim com Cidade de Deus, lembram? "Favela High-Tec", "glamourização dos bandidos". Existe algum glamour no "Dadinho é o caralho, meu nome agora é Zé Pequeno"? Dá é medo mesmo. Eu fiz uma ressalva ao filme, aquela festinha de despedida de um bandido à qual todos na favela vão, incluindo os crentes. Isso não existia na década de 70. Bandido não era tão amado assim, não. Mas o filme é mais do que um documentário.

O mesmo deve ocorrer com a Tropa, que verei amanhã. O filme é uma obra de ficção, infelizmente, muito semelhante aos fatos reais. Não é mera coincidência. E, pela primeira vez temos um filme contado sob o ângulo da polícia. Aqui, só apóia policial jornalista escandaloso de TV. Mas mostrar uma história pelo ponto de vista deles, ninguém quer. E policial linha dura, mau-caráter, endeusado, o cinema americano tem milhares. Haja filme de pancadaria com filosofia Sivuca. Tá na hora de termos o nosso também.

De Tropas e Elites - Artigo de Márcia Pereira

Minha amiga Márcia Pereira, editora da revista Contigo! em São Paulo, da qual sou colaborador assíduo, acaba de me enviar este artigo-desabafo sobre a polêmica em torno do filme Tropa de Elite, que eu ainda não tive a chance de ver aqui pelos states. Não chegaria a defender a tortura contra os políticos de Brasília (calma aí, Marcinha!), mas acho interessantísimo o paralelo que ela faz com a reação da mídia ao ótimo filme de Helvécio Ratton, Batismo de Sangue, acusado de fazer a apologia da violência em sua postura hiper-realista ao retratar a tortura aos militantes políticos de esquerda durante a ditadura militar. Enfim, o tema é interessante, está rendendo muito bafafá no Brasil, e espero que dê pano para manga aqui no blog também.

Com vocês, Márcia Pereira:

Deixem o José Padilha em paz!!!
Por Márcia Pereira, para o edudobrooklyn

Antes de mais nada, quero deixar claro aqui que não conheço o diretor José Padilha (e nem ninguém envolvido na produção do seu longa Tropa de Elite), não vi seu documentário Ônibus 174, mas assisti ao afamado longa-metragem de ficção sobre as ações do Bope carioca numa sessão oficial, organizada pela Paramount — a distribuidora da obra em solo brasileiro — e em um cinema, como manda o figurino de uma cidadã realmente honesta.

Bom, dito isso, vamos lá.

Será que é pedir muito aos intelectuais e cineastas de plantão que, em vez de ficarem criticando, execrando, jogando na lama a obra de um colega, de um profissional que tenta ganhar a vida com o seu trabalho, produzam e continuem produzindo obras realmente significativas dentro de suas áreas? Sinceramente, não entendo porque essas pessoas canalizam sua fúria (que pelo visto é sazonal e pessoal) para cima do novo filme de Padilha, Tropa de Elite, em vez de escreverem mais roteiros contundentes ou de rodarem filmes tão atraentes e instigantes, que façam com que mais de 1 milhão de brasileiros o vejam (mesmo antes de sua estréia oficial) e saiam pelas ruas e bares comentando seus detalhes, suas cenas, seus diálogos. Filmes que surtam algum efeito, mesmo que seja simplesmente o de rir ou chorar.

Não entendo também a resistência dos profissionais brasileiros de cinema em viver a vida de seu trabalho como cineastas. Ou, para ser mais clara, de ganharem dinheiro (muito dinheiro) dirigindo e roteirizando filmes que sejam comerciais e, portanto, hollywoodianos — traduzindo mais ainda, rentáveis, lucrativos. Que eu saiba, os diretores brasileiros não possuem empregos paralelos de analistas financeiros, cabeleireiros, médicos ou mesmo de professores, para lidarem com o cinema como se fosse um hobby.

Não entendo também porque a maioria segue rotulando sua atividade profissional como arte. Pô galera, a tela do cinema não é de canvas. Cinema nasceu business, é business e vai continuar business. Cinema, como já disse o diretor Cláudio Torres – em declaração na época de lançamento de seu filme O Redentor –, é entretenimento! Não que não exista espaço para o cinema-arte, claro que tem. Mas por que só essa categoria merece os elogios rasgados da classe?

Cinema não é sala de aula — se bem que ensinar via telona é mais interessante e eficaz. Mas essa não é a vocação do cinema. Se um filme informa, educa, lindo. Mas tá no lucro. E lucro faz parte do… business. E vamos combinar que a função social do cinema é dar emprego para diretor, roteirista, ator, maquiador, preparador de elenco, dublê, motorista, produtor…

Que mania chata de impingir à deliciosa forma de entretenimento essas obrigações que pertencem a outras atividades e setores! Só porque as que deveriam se ocupar delas não as fazem? Quer dizer que se o BNDES não empresta dinheiro para um empresário construir uma fábrica de rapadura no meio do sertão nordestino, e com ela promover o desenvolvimento de uma região — bem como de quem vive nela e dela —, eu tenho que assaltar minha conta e emprestar?

Queridos cineastas, parem de julgar as intenções do diretor José Padilha — intenções estas que vocês devem desconhecer, mas discorrem sobre elas como se dividissem a alcova com Padilha. Deixem ele, seu filme e as páginas do meu jornal em paz! Deixem o filme respirar, ser degustado, ingerido, absorvido pelas pessoas. Quanto mais fizerem isso, melhor para o cinema nacional, como também bem comentou Fernando Meirelles — será que é por essas e outras declarações e atitudes que talvez só ele trabalhe fora do Brasil?

Parem de reclamar, de ficarem colocando o filme no divã e analisando sua veia fascista, de direita, de apologia ao Estado policial. Que saco!

Ah, descobri! A profissão (e vocação) paralela dos cineastas brasileiros é a de psicólogo! E depois passam — para quem tem o Tico e o Teco funcionando perfeitamente — a impressão de que são obtusos. Sim, porque, alguém aí se deu conta (ninguém menciona, pelo menos) que Tropa de Elite é uma adaptação de uma outra obra, do livro Elite da Tropa, escrito por Luiz Eduardo Soares, Rodrigo Pimentel e André Baptista? E que o senhor Pimentel, ex-policial e integrante do Bope, é co-autor do roteiro do filme?

Quer dizer, não é uma idéia original de Padilha. Por mais que ele seja diretor do longa, não o inventou sozinho. É, no máximo, co-autor da história toda. Ele retrata o que está escrito num livro, que, por sua vez, segundo seus autores, retrata uma realidade que está na cara das pessoas — pessoas, aliás, que insistem em não ver. Pior do que o olhar policial de Pimentel e Baptista é o de quem olha para o lado, para não o ver o que está acontecendo.

E também, parem de ficar pensando pela gente. Nós não queremos!!! ! Isso ofende!!!

Para vocês o filme do José Padilha é fascista, moralista mistificador, faz apologia do Estado policial, heroiciza e humaniza o Bope etc. etc. Nada disso! O script de vocês fica melhor assim, ó: "eu acho que o filme do José Padilha, na minha humilde opinião e vivência, enquanto colega cineasta, me parece que…"

Pois é, sei que cineastas, acostumados que estão com a ficção, também adoram imaginar coisas. Eu vi o filme e não enxerguei apologia nenhuma ao Bope, nem achei ou acho que o Capitão Nascimento seja meu herói. Credo! Um cara que sua em bicas quando a responsabilidade chama, por causa do pânico — os dois, o sentimento e a doença. E aqui, por favor, nada de me acusarem de nutrir preconceito com quem tem síndrome do Pânico —treme que nem vara verde, grita com a mulher “recém-parida” e trata seus alunos que nem bicho — se bem que todo homem pertence ao reino animal. Mas a gente tem mesmo essa arrogância de achar que é melhor que o leão ou o urubu…

E nem achei bonito enfiar um saco na cabeça de uma pessoa para obter informações. Se bem que, às vezes, é bem eficiente (e tem muita gente que merece. No Congresso Nacional, antro de covardes, tenho certeza que o uso dessa tática ia agilizar bastante as CPIs). Assim como foi eficiente torturarem os presos políticos (obviamente, não foi com todos que a tática funcionou. Eu diria até que foi com a minoria) durante a ditadura militar, como mostraram, aliás, pouquíssimos filmes (é preciso mais! Tem muuuuita gente que não sabe o que aconteceu naquele período e muita gente que sabia e parece ter se esquecido. É que fazer filme sobre ditadura militar e preso político não dá ibope e nem rende polêmica ou indicação para o Oscar, né?).

Engraçado que nenhum cineasta defendeu o excepcional e comovente Batismo de Sangue, de Helvécio Ratton, quando a mídia o rotulou de ser violento demais, recheado de torturas exageradas, encharcado de sadismo cinematográfico — como se fosse possível torturar sem ser cruel, violento ou sádico. Quer dizer que fritar os testículos de estudantes (mesmo) e freis que acreditavam numa causa, que tinham consciência social (esses sim), tudo bem, só porque não eram pobres, favelados?

Torturar não é legal para ninguém. E enxerguei que o filme de Padilha mostra isso. Assim como polícia corrupta não é legal, nem políticos sacanas, nem traficante e nem quem também alimenta o tráfico — e depois tenta se redimir fazendo passeata a favor da paz.

Legal é arrumar solução, é brigar, cobrar por ela. Fazer efetivamente alguma coisa. E não ficar usando papel-jornal para lavar roupa suja. Mas fazer tudo isso dá mais trabalho e a Petrobras não vai financiar…

quarta-feira, outubro 10, 2007

Entrevista/NICHOLAS CAGE

Nicolas Cage

Mágico e sedutor

Por Eduardo Graça, de Nova York, para a Contigo!

Divulgação / Paramount

Em seu novo filme em cartaz, O Vidente, o astro de Hollywood mostra os músculos e continua irresistível

Reza a lenda que o contrato de Nicholas Cage, 43 anos, com os grandes estúdios de Hollywood inclui uma cláusula capciosa: o ator teria de aparecer pelo menos uma vez sem camisa na telona - sabe-se lá a razão, já que ninguém ainda teve coragem de perguntar (até porque, apesar de educadíssimo, é seco, sucinto e encerra imediatamente suas entrevistas quando alguém resolve perguntar algo mais invasivo. Como, por exemplo, o que ele acha da diferença de 20 anos que o separam da sua atual mulher). Pois em O Vidente, seu novo filme em cartaz por aqui, ele não decepciona as fãs, principalmente, e revela sua boa forma na pele do mágico Cris Johnson - mostra seus músculos (e também um cabelo ridículo à moda do professor Robert Langdon de O Código Da Vinci), mas esconde suas muitas tatuagens.

No novo longa, ele expõe também sua mulher, a ex-garçonete e aspirante a designer de jóias Alice Kim, 23, mãe de seu caçula, Kal-el, 2. Alice faz uma ponta, a sua primeira como atriz.

Sobre esses e outros assuntos, Cage conversou com a imprensa mundial num luxuoso hotel em Manhattan, Nova York. A seguir, a entrevista.

O Vidente marcou a estréia de sua mulher, Alice Kim, em Hollywood. A participação dela no filme foi uma idéia sua?
Foi. Ela não tem a menor vontade de seguir a carreira artística. Mas vamos guardar para sempre a lembrança de termos trabalhado juntos em um filme. Poderemos mostrar isso ao nosso filho, Kal-el, no futuro. Foi muito, muito divertido tê-la no set.

Você já teve alguma experiência de vidência ou, durante a preparação para as filmagens, entrou em contato com alguém que tivesse tido alguma possível experiência paranormal?
Apesar de ser um céptico nesses assuntos, tenho a cabeça aberta. Tudo é possível neste mundo. Por exemplo, pense naquele momento em que sente que uma pessoa do outro lado da rua está olhando para você. Daí você vira o rosto e lá está ela, te encarando. O que é isso? Premonição? Não sei. Ou quando se acorda todos os dias um segundo antes do despertador tocar. Ou quando se pensa muito em alguém, o telefone toca e ao atender percebe ser a pessoa na qual acabou de pensar do outro lado da linha. Seria irresponsável ou, melhor, ignorante, negar a existência de algo inexplicável como isso.

E como você se preparou para encarnar Cris Johnson, o mágico vidente do filme?
Ele pode prever o futuro imediato e foi essa característica que quis explorar ao máximo, me preocupei até como ele deveria andar, sabendo tudo o que ia acontecer 2 minutos à sua frente. Para isso, contratei uma coreógrafa de dança moderna, para adquirir mais agilidade. Também fiz uns exercícios por conta própria, como rir sem um motivo especial, já que ele saberia o que aconteceria de engraçado minutos depois. Uma de minhas cenas favoritas é quando ele vai se encontrar com o personagem da Jessica (Biel) em um restaurante e pode prever o quão desastroso será esse primeiro encontro. Quem nunca desejou fazer os movimentos certos para cortejar a mulher pela qual se interessou? Seria ótimo (risos)!

Gostaria de poder ver o futuro?
Neste momento de minha vida, sim. Tentaria estar pronto para tudo e assim viver sem medo. E se pudesse mesmo ter o dom de ver o futuro, bem, gosto de pensar que o usaria para ajudar os outros.

E o futuro de sua carreira? Como você o vê?
Trabalhando cada vez menos, fazendo menos filmes e mais focados em meu trabalho por trás das câmeras, dirigindo ou treinando atores.

Você prefere fazer filmes mais hollywoodianos, como O Vidente, ou trabalhos mais independentes como Grindhouse, de Quentin Tarantino e Robert Rodriguez?
A grande vantagem de se fazer filmes independentes é que as suas chances de ser demitido são bem menores (risos). Mas acho que ainda tenho liberdade para atuar da maneira que eu quero nos filmes de estúdio. Lembra de Peggy Sue, Seu Passado a Espera? Eu resolvi atuar como se estivesse dentro e uma história em quadrinhos dos anos 80 e quase fui limado. Ainda bem que o diretor era meu tio (Francis Ford Coppola) e ele segurou minha onda (risos). Mas o importante é que você deve sempre arriscar e tentar fazer o que acha correto para cada papel.

Anda fazendo vários heróis na tela recentemente, como no Motoqueiro Fantasma, As Torres Gêmeas e agora em O Vidente...
De fato, se a gente concordar que herói é aquela pessoa que se sacrifica para beneficiar os outros, o que acaba acontecendo com muito custo com o Cris, podemos considerá-lo um herói também. Gosto de pensar que todos nós passamos por momentos em que podemos fazer algo heróico na vida, em maior ou menor escala. Por exemplo, quando se conta a verdade para alguém sobre determinado assunto, mesmo sabendo que a história vai deixar você em maus lençóis com o outro, se está sendo um pouco herói.

E no cinema, cultiva seus heróis?
A maioria dos meus heróis do cinema estão mortos. Adoraria ter tido a chance de trabalhar com Federico Fellini (1920-1993), Stanley Kubrick (1928-1999), Marlon Brando (1924-2004) e Walt Disney (1901-1966). Eles mudaram a maneira da gente pensar e transformaram nosso mundo de uma maneira impressionante.

Existe algum algum personagem, dos muitos que você interpretou, do qual se sente mais próximo?
Vai parecer estranho, mas Johnny Blaze, de Motoqueiro Fantasma (risos). Creio que é porque boa parte do personagem é o resultado de minha própria vida. Literalmente, um belo dia estava comendo jujubas, em uma taça de martini, escutando Karen Carpenter e pensando sobre este dom ou praga que me jogaram e que me permite ser um ator de Hollywood. Mais Motoqueiro Fantasma, impossível.

Apesar de todas as críticas negativas, O Motoqueiro Fantasma transformou-se em um grande sucesso de bilheteria. Você pensa em fazer uma seqüência? E ainda tem planos de levar o desenho animado japonês Astro Boy para a tela grande?
Claro! Adoraria fazer o pai no filme do Astro Boy. Imagino algo como uma versão ficção científica do Pinóquio. E um Motoqueiro 2? Hum... Depende. Se o roteiro for bom, digo sim na hora!

quarta-feira, setembro 26, 2007

Setembro em Paris


O blogueiro aqui estacionou por 12 dias em Paris. Esta é a primeira imagem de uma viagem sensacional. O dia nascia em Père Lachaise nesta segunda de manhã. Will and I deixávamos a cidade e os amigos velhos e novos para trás a caminho do aeroporto. Não resistimos e registramos uma última imagem da cidade querida. Já já a gente volta.

sexta-feira, setembro 07, 2007

ENTREVISTA/Ridley Scott

O Valor publicou hoje minha segunda entrevista com Sir Ridley Scott. A primeira foi aqui em NYC, por conta do lançamento de Um Bom Ano. Na época ele já estava filmando O Gângster, filme que estréia no Brasil em janeiro, com Denzel Washington e Russell Crowe nos papéis principais, e que é uma das primeiras apostas do mercado para o Oscar-2008. Eu vi e gostei muito. A conversa da semana passada, em Los Angeles, segue abaixo:

O Herói e a Heroína
Por Eduardo Graça, para o Valor
06/09/2007

No penúltimo encontro entre a reportagem do Valor e sir Ridley Scott, de 69 anos, o diretor britânico responsável por pérolas da indústria do entretenimento como "O Gladiador", "Alien", "Thelma & Louise" e "Blade Runner" estava às voltas com as filmagens, em pleno Harlem, de "O Gângster". Ao mesmo tempo ajudava a divulgar seu projeto anterior, "Um Bom Ano", sobre os vinhedos do sul da França. Mais paradoxal impossível. Agora, no saguão de um hotel em Los Angeles, cidade que adotou, ele se lembra com uma mescla de carinho e alívio do período em que se radicou em Manhattan para levar ao cinema a história do traficante Frank Lucas e seu confronto com o policial Richie Roberts.

Lucas trazia heroína do Sudeste Asiático, durante a Guerra do Vietnã, escondida nos caixões dos soldados americanos mortos no confronto armado. Ele chegou a amealhar uma fortuna de US$ 50 milhões até ser pego por Roberts, já uma lenda em Nova Jersey por ter recusado um suborno de US$ 1 milhão em dinheiro vivo. Depois de prender o Rei do Harlem, Roberts concordou em defender Lucas nos tribunais, desde que ele entregasse os policiais de Manhattan que faziam parte de seu esquema criminoso. O resultado é impressionante e este talvez seja o filme mais violento de Scott. "Você achou mesmo? Olha que ele poderia ter sido muito mais cru", desconversa o diretor, felicíssimo com as escolhas que fez para os papéis principais: Denzel Washington (desde já um favorito ao Oscar, soberbo como Lucas) e, mais uma vez, Russell Crowe. O filme estréia no Brasil em 25 de janeiro.


Valor: "O Gângster" seria inicialmente dirigido por Antoine Fuqua ("Dia de Treinamento") e com Benicio del Toro no papel do mulherengo Richie Roberts, até ser cancelado pelo estúdio, assustado com um orçamento de mais de US$ 90 milhões...
Ridley Scott: É verdade, e depois o filme seria dirigido pelo Terry Hughes, mas era um projeto abandonado quando entrei nele. Estava em Jerusalém filmando "Cruzada", quando recebi o roteiro do Steve Zaillan [o mesmo de "A Lista de Schindler"], li correndo, adorei e quando fui filmar "Um Bom Ano" com o Russell mostrei para ele. Ele então me disse que havia adorado e queria muito fazer o Frank Lucas. Eu tive de explicar-lhe que seria impossível, pois o Rei do Harlem, afinal de contas, era negro.

Valor: Já que o sr. citou essa incompatibilidade óbvia, como foi mergulhar no universo das gangues nova-iorquinas sendo um lorde da coroa britânica? O sr. acha que um outsider, às vezes, vê nuanças que os mais próximos daquela realidade deixam de perceber?
Scott: Não. Veja bem, moro a 20 minutos deste hotel, estou há 25 anos inserido na vida deste país. De fato, tento, sempre que posso, filmar fora dos Estados Unidos, tento observar o mundo de uma perspectiva diferente da que minha rotina me ofereceria, mas esse não era o caso.




Valor: Tanto Frank quanto Richie estão vivos. Até que ponto eles ajudaram o sr. na composição dos personagens?
Scott: Assim que terminei de ler o roteiro, quis conversar com Frank. Marcamos um papo de duas horas que acabou durando mais de seis. Ele é fascinante. Chegou em uma cadeira de rodas, efeito dos anos em que passou na cadeia. Ele quase não anda.

Valor: Denzel o apresenta como um bandido charmoso, cheio de classe, ainda que brutal. Admite que acabou gostando de Frank?
Scott: Mas é claro! Se você conversar com ele, se esquecerá completamente do que ele foi capaz e se concentrará na sua capacidade de entreter o interlocutor, no seu charme. O que, provavelmente, revela o sociopata que ele é. Aliás, lembro-me de que disse a ele o quão assustador me parecia. Ele me devolveu: mas por quê? Eu disse, ora, alguém que viaja para o Camboja em meio à Guerra do Vietnã, encontra um fornecedor chinês de heroína e transporta a droga para os EUA nas barbas das Forças Armadas ianques? E ele me disse: mas e daí? (risos) Ou seja, ali tive a certeza do quão perigoso ele era.


Valor: Ele e Richie viraram grandes amigos?
Scott: Oh, mais do que isso! Richie não estava nem aí para o encarceramento dos gângsteres. Ele queria era colocar os policiais corruptos na cadeia. E por isso, assim que se tornou um promotor público, trocou de lado especificamente para defender Frank. Sabe, teríamos um outro fim, que acho que não funcionaria tão bem, mas mostra bem essa relação.

Valor: Como seria?
Scott: Frank sai da prisão e Richie o convida para um café. Ele descobre que agora tem de tomar um latte por US$ 2,50 (risos). E diz a Richie: basta eu dar um telefonema para voltar aos negócios, para ouvir, de volta, um não, você não fará isso. Frank então vê alguns jovens na rua ouvindo hip-hop e pensa que eles são os novos gângsteres. Mas esse fim, que todos acharam hollywoodiano demais, você só vai ver no DVD (risos). É que fizemos um teste com a seqüência final que está no filme, incluindo a cena-surpresa depois dos créditos, e ninguém piscou na platéia. O que me leva a pensar que ela chega mais perto da verdade que eu queria passar para o público, sem manipulações. Aprendi que, em um filme como este, você precisa descobrir qual é a sua verdade e se agarrar a ela até o fim. Acho que fiz isso.

Valor: Que exame que o sr. faz da violência urbana em "O Gângster"?
Scott: Não centrei o filme na questão da violência, mas na história de um negociante. O filme apresenta Frank como um senhor homem de negócios e esse ponto, aliás, foi minha grande modificação no roteiro original, especificamente na cena em que Richie explica a ele a revolução que havia feito no mercado das drogas, ao ser um negro no comando da organização. Um homem que começou dirigindo o carro de um bandido e se transformou em um milionário do crime e, durante seis anos, teve toda a máfia da cidade trabalhando para ele.

Valor: O sr. viaja para o Marrocos em duas semanas para filmar novamente...
Scott: Sim,vou adaptar para o cinema o livro de espionagem "Body of Lies", de David Ignatius, que trata, no fim, da brutal americanização do mundo nas últimas décadas e, do mesmo modo, de como os muçulmanos penetraram os EUA. Estou muito animado e espero que não aconteça o mesmo que vi em "Cruzada", quando as pessoas esperavam uma história de ação de príncipes e princesas e não uma conversa sobre fanatismo religioso. Agora vamos falar de política e religião nos dias de hoje, tendo como pano de fundo a relação entre os personagens de Leonardo DiCaprio e, novamente, o Russell.

Valor: Essa é uma parceria que chega ao quarto filme...
Scott: Russell é tão inteligente e creio que hoje o entendo mais do que nunca. Diria que já não precisamos mais dançar a valsa, sabe? (risos). E acho que ele entendeu que "Body of Lies" trata de um tema fascinante, até porque estou certo de que sofreremos outro ataque terrorista aqui nos Estados Unidos.

Valor: De onde vem essa certeza?
Scott: Não faça esta cara de medo! É óbvio. Os terroristas estão se organizando cada vez mais, a invasão do Iraque deu-lhes mais um campo de batalha e acredito que estejam mais fortes do que nunca, nada foi feito no Paquistão para deter a Al-Quaeda de uma vez por todas. Estamos apenas aguardando, mas o ataque virá.

Valor: A retirada das tropas americanas do Iraque, como defendem os líderes do Partido Democrata, não diminuiria o risco de novo ataque?
Scott: De modo algum. Seria um desastre completo, teríamos um banho de sangue sem proporções, civis seriam chacinados diariamente. Nós começamos esta confusão e não podemos simplesmente pedir desculpas, dizer que cometemos um erro e abandonar o país.

sexta-feira, agosto 24, 2007

LIVRO/Obama, de David Mendell


O Valor Econômico publicou no caderno deste fim de semana meu texto sobre a biografia que o ótimo repórter do Chicago Tribune, David Mendell, lançou por aqui na semana passada sobre o senador Barack Obama, quiçá o primeiro presidente negro dos EUA. Conversei com Mendell duas vezes e o perfil que ele me ofereceu de Obama - a quem acompanha desde os primeiros tempos no legislativo estadual de Illinois - é o de um homem obcecado em diminuir a agonia dos miseráveis do Império, mas também vaidoso, egocêntrico e que elaborou meticulosamente sua ascensão política. O texto segue abaixo:

Carismático e egocêntrico

Por Eduardo Graça, para o Valor
24/08/2007
Para autor de biografia, Obama não é mais o mesmo: "Ele se moveu para a área moderada, que o deixou mais presidenciável, distante do início de sua trajetória", diz Mendell


O maior fenômeno eleitoral da política americana contemporânea é um advogado calculista, obcecado em conter o avanço da pobreza em seu país, com traços autoritários de caráter e que planejou a chegada à Casa Branca levando em conta a possibilidade de se projetar como vice-presidente em uma chapa liderada pela senadora Hillary Clinton. Lançado na semana passada, "Obama: from Promise to Power" é o resultado dos cinco anos em que o repórter David Mendell, do "Chicago Tribune", seguiu cada passo do democrata Barack Houssein Obama para oferecer um raio X impressionante daquele que pode se tornar o primeiro presidente negro dos Estados Unidos.


Alto, cabelos negros repartidos ao meio, nariz aquilino e pronunciado, Mendell conversou com eleitores de todos os naipes no lançamento de seu livro, em um evento realizado na semana passada no Bryant Park, em Manhattan. O resultado de sua investigação é bem diverso dos dois volumes autobiográficos - "A Audácia da Esperança" e "Dreams from My Father" (inédito no Brasil) - lançados nos últimos três anos pelo senador de Illinois. Uma das principais surpresas é a revelação de que o chamado grupo de Chicago, incluídos aqui os poderosos assessores David Axelrod e Jim Cauley, traçou um ambicioso plano político logo após o famoso discurso de Obama na convenção do Partido Democrata em 2004, em Boston, quando do lançamento da fracassada candidatura de John Kerry. A idéia era prepará-lo para disputar a Presidência já em 2008.


Escondeu-se do público que o político era um fumante inveterado até que ele deixasse o cigarro de lado, definiu-se que o gabinete em Washington seria voltado para abastecer a imprensa de seus feitos legislativos e preparou-se nos mínimos detalhes uma viagem ao Quênia, terra natal de seu pai. "Em Nairóbi, ele foi recebido como uma entidade, uma deificação. Algo inédito na nossa cena política que causou enorme impressão nos repórteres americanos que o acompanharam", conta Mendell.


A estratégia, de acordo com o repórter, uma das estrelas do "Chicago Tribune" desde 1998, incluía a possibilidade de ele sair como vice na chapa de um democrata mais experiente, possivelmente a senadora Hillary.


"Hoje uma chapa Hillary-Obama parece distante, especialmente por conta dos embates que os dois vêm protagonizando e pela lógica de que, no fim, eles disputam os mesmos eleitores e não agregariam votos", explica Mendell. "Tanto Hillary quanto Obama precisam de mais votos entre os eleitores masculinos de origem caucasiana. Mas a estratégia de Obama considera essa possibilidade e ele sabe que, se for convidado publicamente, não terá como explicar à comunidade afro-americana a desistência de tentar ser o primeiro negro vice-presidente do país."


O Obama que surge em "From Promise to Power" lembra menos o herdeiro de John Kennedy apresentado por seus aliados e o aproxima mais de duas habilidosas raposas políticas - Ronald Reagan e Bill Clinton. Nenhuma contradição aqui. "Os dois surgiram com mensagem de otimismo, os antípodas da burocracia de Washington, o novo necessário para reagrupar um país dividido", lembra Mendell. E, como os dois, Obama teria um temperamento bem menos afável de perto do que deixa transparecer em eventos públicos.


De forma jocosa, o repórter abre o livro com Obama ultrapassando as barreiras de segurança da convenção de Boston, sendo recebido aos urros pelo público e se comparando a LeBron James, um dos maiores astros da NBA. "Eu sou LeBron! Posso jogar nesse nível. Sou um craque", teria dito, ao entrar na arena.


Outro ponto alto do livro é o perfil apresentando de Michelle Obama, a mulher do senador. "Ela funciona bem ao mostrar ao senador que ele não está certo o tempo todo. Na prática, ela é a única a exercer esse papel", conta. Mendell revela que um dos maiores receios de Michelle é com a segurança do maior líder político negro do país. Há até discussões abertas sobre ajuda financeira à família em caso de um atentado político contra Obama: "Não penso nisso todo dia, mas a possibilidade está lá e eu preciso garantir que meus filhos ficarão seguros se o pior acontecer", diz.


Filho de um africano com uma americana branca criado no Havaí, Obama sempre se sentiu alijado da comunidade negra nos Estados Unidos. "Foi o que o impulsionou a trabalhar nos projetos habitacionais em Chicago e conseguir uma série de benefícios para os moradores, em sua maioria negros. Mas logo ele percebeu que poderia fazer mais se fosse, por exemplo, prefeito. Imediatamente ele traçou um plano que incluiu a prestigiosa Faculdade de Direito de Harvard, onde se graduou, e entrou decididamente na política local".


Dali para a surpreendente vitória na candidatura ao Senado e as aspirações presidenciais seria um pulo. "Ele parece ser o candidato que acredita de fato, com uma fé cega, que deveria estar na Casa Branca. Obama está convicto de que será um grande presidente", afirma Mendell. O repórter não tem dificuldade alguma para recitar as qualidades que detectou no senador ao acompanhá-lo de perto - carismático, fantástico orador, sério, ético e com uma capacidade de se cercar de pessoas extremamente competentes (o que se revela na sua arrecadação recorde de fundos). E sua obsessão em atacar de frente a crescente desigualdade social americana, de acordo com o jornalista, nada tem de hipocrisia social. Sua missão central, acredita, é a de comandar um gigantesco combate à pobreza, em uma extensão ainda maior do que o último grande projeto tocado por Washington nesse sentido, durante o governo de Lyndon Johnson.


Mas Mendell também não é econômico ao revelar os pontos fracos do político. Na capa da edição de setembro da revista masculina "GQ", uma das mais influentes em seu segmento, Barack Obama é direto: "Estou na corrida presidencial para vencer, quero vencer e acredito que vou vencer. Mas também vou sair desta campanha intacto. Continuarei sendo Barack Obama e não uma paródia de mim mesmo."


Ora, Mendell lembra que o Obama que ele conheceu há três anos já não é o mesmo a desejar a Casa Branca com tanto ardor. Sua chegada ao Capitólio forçou-o a uma acomodação política. "Ele se moveu claramente para uma área mais moderada, mais de centro, que o deixou mais presidenciável, distante do início de sua trajetória. E agora ele tem de lidar com a horda de jornalistas o seguindo para todos os cantos. A irmã dele me contou que desde então o senador costuma passar alguns dias inteiros sozinhos, em silêncio absoluto, nada acessível, selecionando cuidadosamente possíveis interlocutores, expressando uma desconfiança que não havia anteriormente", relata. Mendell ainda o descreve como "severo, egocêntrico e propenso a humilhar interlocutores menos preparados intelectualmente". "E algumas vezes eu percebi uma certa ingenuidade, por exemplo, em encarar o quão cruel e cínico o mundo é. Obama é o otimista eterno e prefere enxergar apenas o lado bom das pessoas", completa.


"From Promise to Power", com suas 406 páginas, revela-se uma fonte imprescindível para os interessados em descobrir quem é, afinal, o homem que quase não compareceu à convenção do partido que oficializou a candidatura de Al Gore em 2000 porque não tinha como pagar a passagem de avião e se transformou no candidato que vem tirando o sono dos Clinton no verão de 2007. O livro ainda não tem lançamento previsto no Brasil, mas já pode ser encomendado na Livraria Cultura, em São Paulo.

quarta-feira, agosto 22, 2007

ENTREVISTA/ Matt Damon

A Contigo! publica na edição desta semana a entrevista que fiz com Matt Damon, sempre simpaticíssimo, falando de Jason Bourne, da vida de celebridade e de novos projetos. Olhem só:

Matt Damon

Cover sinistro de 007

Por Eduardo Graça, de Los Angeles

Divulgação / Universal Pictures

O ator encarna pela terceira vez Jason Bourne, o agente secreto que não deveria mais existir, mas que está vivinho e arrebentando as bilheterias do cinema



Não é exagero algum dizer que O Ultimato Bourne é o melhor dos três filmes da cinessérie estrelada por Matt Damon, 36 anos. Em quase duas horas, o diretor Paul Greengrass, 52, - que também dirigiu Supremacia Bourne (2004), além de, entre outros trabalhos, os impactantes Domingo Sangrento (2002) e Vôo United 93 (2006) -, desvenda todos os mistérios sobre a vida do agente rebelde Jason Bourne. Alguns bem cabeludos.

E nessa nova aventura intercontinental, que já arrecadou 143 milhões de dólares em 11 dias de exibição - e deixou Damon mais famoso e rico ainda; ele até foi eleito pela revista Forbes como o astro de Hollywood mais rentável do momento -, pelo menos duas seqüências de cenas já chegam à tela grande como clássicos do cinema de ação: a da estação de trem de Waterloo, em Londres, e a perseguição frenética sobre tetos de casas de Tânger, no Marrocos.

Depois de zanzar os três continentes e dar duro filmando com Greengrass (fizeram parte do roteiro de produção Rússia, Alemanha, Espanha, Estados Unidos, norte da África, Inglaterra, França e Letônia), Damon tirou férias com a família e o amigo inseparável Ben Affleck, 35, no Havaí. Foi com um bronzeado de praia, resultado dessa merecida folga, e seu costumeiro sorriso aberto que Damon conversou com exclusividade com a Contigo!, em uma suíte num hotel luxuoso de Beverly Hills, em Los Angeles.

Você acaba de declarar que está cansado da superexposição das estrelas de Hollywood. E chegou a dizer que jamais sairia "prostituindo sua própria filha nas páginas das revistas para aumentar a bilheteria de Bourne". Forte, não?
É, acho que eu peguei um pouco pesado, né? Depois, quando vi impresso, achei que minha declaração ficou estranha. Mas como lidar de modo racional com esta invasão de privacidade a que somos submetidos o tempo todo? Sabe, olhando para trás, penso em Gênio Indomável (1997), por exemplo. Todos exploraram até a última gota o fato de que eu e Ben (Affleck) éramos melhores amigos e tínhamos desenvolvido juntos o projeto desde o início, que estávamos vivendo nosso conto de fadas. E aquilo virou a coisa mais importante do filme. Era verdade, claro, mas hoje, pensando bem nisso, parece vulgar.

De que modo?
Era como se estivéssemos utilizando nossa amizade para promover o filme, uma coisa oportunista, que não foi intencional, mas acabou ganhando vida própria. E quanto mais experiente você vai ficando, mais se vê submetido a essas armadilhas. Olha, eu não quero dividir com os leitores do mundo, por exemplo, como eu crio minha filha (Isabella, de 1 ano). Acho uma chatice ver isso impresso nos jornais mundo afora.

Mas esta obsessão da imprensa pela vida pessoal das celebridades não é, muitas vezes, cultivada pelas próprias estrelas?
Você está certíssimo! É isso mesmo, uma via de mão dupla. Mas eu, oficialmente, estou fora. Escreve isso aí, hein (risos)!

O diretor Paul Greengrass disse que o segredo da trilogia Bourne é ela contar com o melhor ator de Hollywood de sua geração, ou seja, você, como protagonista. E ele enfatiza que suas interpretações mais brilhantes estão em filmes que ele não dirigiu, como Os Infiltrados e O Talentoso Ripley. Sua colega Joan Allen (que faz a agente Pamela Landy no filme) disse o mesmo. Deve ser bom para o ego, não?
Eles são muito generosos e é claro que eu fico felicíssimo. Mas somente posso entender esses elogios se levar em conta que foi justamente a trilogia que me ofereceu uma vitrine singularíssima. Devo ao Bourne, e às minhas escolhas, este momento especial de minha carreira.

Alguma chance de você rodar mais um Bourne ou trabalhar de novo com seu amigo Paul Greengrass?
A única chance disso acontecer é se aparecesse um roteiro sensacional e ele fosse dirigido pelo Paul. Mas acho complicado, pois O Ultimato é o grande desfecho da série, revelando todos os mistérios. Agora, eu e Paul vamos voltar a filmar juntos no ano que vem! Mal posso esperar. Vai ser um filme todo baseado em A Vida Imperial na Cidade Esmeralda: Dentro da Zona Verde, best-seller do jornalista Rajiv Chandrasekaran, do The Washington Post. Conta, de dentro da área aparentemente mais segura de Bagdá, o desastre da ocupação norte-americana no Iraque.


ENTREVISTA/Paul Greengrass

A Folha de S.Paulo publicou hoje , na capa da Ilustrada, minha conversa com o diretor Paul Greengrass, do ótimo O Ultimato Bourne, que estréia nos cinemas nesta sexta-feira. O diretor de Domingo Sangrento e Vôo United 93 é um papo delicioso, que segue aqui embaixo:

"Não há filmes amorais", diz Greengrass

Diretor de "O Ultimato Bourne" defende o cinema como palco para se debater os grandes temas sociais de nosso tempo

Com o ator Matt Damon, cineasta prepara filme que fará relato da falência do governo implantado pelos EUA no Iraque pós-invasão

Jasin Boland/Universal Studios
O ator Matt Damon, que faz o ex-agente da CIA Jason Bourne, recebe instruções do diretor Paul Greengrass nas filmagens de "O Ultimato Bourne"


EDUARDO GRAÇA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM LOS ANGELES

Com óculos redondos, cabelos desgrenhados e uma camisa pólo azul que não chega a cobrir a proeminente barriga, o cineasta Paul Greengrass, 52, se considera um subversivo.
Seu mais novo filme, "O Ultimato Bourne", terceiro capítulo da série sobre o angustiado ex-agente da CIA Jason Bourne, vivido por Matt Damon, estréia nesta sexta no Brasil, após ter arrecadado US$ 131,6 milhões nas bilheterias em apenas duas semanas nos EUA.
"A melhor definição que encontrei para Bourne é a de franchising subversiva. Fui surpreendido em Hollywood. Aqui fiz sempre o que quis. Bourne não é James Bond. Ele tem um componente moral fortíssimo, está corroído pelo remorso, sabe que fez algo condenável e busca desesperadamente a redenção", diz Greengrass.
As cenas de ação de "O Ultimato Bourne", passadas nos quatro cantos do mundo (Rússia, Inglaterra, Marrocos, EUA, França, Alemanha), buscam o impacto. "O tema de meus filmes é um só: o mundo como ele é. Urgente, perigoso, incerto."
Em 2002, o diretor escreveu no jornal inglês "The Guardian" um texto em homenagem a seu conterrâneo Alan Clarke (1935-1990), onde afirmava que as qualidades essenciais de um grande diretor estão ali: a ausência de notoriedade pública, a compaixão e a subversão.
Seus filmes expõem as incongruências dos tempos de George W. Bush com uma intensidade semelhante às obras de Alan Clarke, notório por uma crítica crua a Margaret Thatcher na Inglaterra do fim dos anos 70.
"A compaixão, em meus filmes, se revela tanto em minha aversão ao cinismo quanto no senso de verdade que procuro imprimir. Em "Vôo United 93", uma das maiores dificuldades foi retratar aquela tragédia [o seqüestro de um avião no 11 de Setembro] sem apresentar os terroristas como monstros.
Não acredito em filmes amorais e talvez este seja um aspecto subversivo de minha obra." A paixão pelo realismo social e a câmera frenética aproximam Greengrass do brasileiro Fernando Meirelles. ""Cidade de Deus" me impressionou. Na seqüência da galinha, soube que estava diante de um mestre, de alguém que procura, como eu, revelar o pulso da vida."

Cinema engajado
Greengrass afirma que acredita piamente na relevância do cinema que faz. "Não é que tenha a pretensão de mudar o mundo. Mas acho que a televisão, ao se transformar no refúgio dos reality shows e dos games, deixou para o cinema o papel de contar histórias que revelem de fato quem somos na sociedade. Pense em "Syriana", "Boa Noite, e Boa Sorte", e nos filmes de Michael Moore. Cabe a nós encarar novamente o cinema como um palco para se debater os grandes temas sociais de nosso tempo. E adoro estar no meio disso", avalia.
O diretor já tem um novo projeto: levar para as telas o livro "The Imperial Life in the Emerald City", do repórter Raji Chandrasekaran, do jornal "The Washington Post". A obra faz um relato cáustico da falência do governo implantado pelos EUA no Iraque depois da invasão de 2003. "The Imperial" terá Matt Damon no elenco.
"O que nos falta para encararmos melhor a divisão forçada do Ocidente e Oriente é um pouco mais de compaixão. A Folha pode me cobrar. Porque só há uma saída para mim: meu cinema precisará transbordar de compaixão ao falar da tragédia do Iraque."

Sucesso faz de Matt Damon o ator com maior rentabilidade em Hollywood

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM LOS ANGELES

Jason Bourne chama-se Gilberto e nasceu em Osasco. Não, não é verdade. Mas esta é uma das muitas identidades falsas usadas pelo personagem de Matt Damon em "O Ultimato Bourne". O ator, de 36 anos, diz que vê o renegado assassino da CIA como um James Bond "mais sofisticado, com cérebro, e sempre pronto para questionar a lógica do Estado". Ou seja, a antítese do bom e velho 007.
Em 2002, quando foi lançado o primeiro filme da série, "A Identidade Bourne", Damon tentava entender onde sua carreira havia estacionado após o sucesso de "Gênio Indomável" (1997). "Estava há seis meses sem receber um único convite para filmar. Ainda hoje, não me acho alto o suficiente para o típico mocinho de filme de ação, mas gosto do fato de que um dos atributos do Bourne é o de que ele tem de ser inteligente."
O sucesso da grife Bourne transformou Damon no astro "com maior rentabilidade em Hollywood", segundo a revista "Forbes". Ele não é o mais bem pago -está atrás de Will Smith, Tom Cruise e Leonardo DiCaprio. Mas seus filmes são os mais rentáveis. "Devo tudo a Jason Bourne. Ele foi meu passaporte para a liberdade. Depois dele, pude escolher todos os projetos em que trabalhei."
Damon enfatiza que "Ultimato" é um belo veículo para tratar de tema que lhe é caro: o ataque do Estado às liberdades civis das democracias ocidentais. Ou seja, por detrás do entretenimento, há a obra séria. O ator anunciou seu apoio a Barack Obama nas prévias do Partido Democrata às eleições presidenciais de 2008. Uma das propostas do senador negro é aumentar a tributação dos ricos, a fim de diminuir a desigualdade social no país. Embolsando US$ 23 milhões por filme, o ator seria afetado pela medida. "Não vejo contradição. Fui educado por uma típica família de classe média. Obama percebe que um dos maiores problemas dos EUA é o encolhimento da classe média." (EG)

O ULTIMATO BOURNE
Direção:
Paul Greengrass
Produção: EUA, 2007
Com: Matt Damon, Julia Stiles
Quando: em cartaz a partir de sexta