sábado, janeiro 05, 2008

A Gata Poderosa

Adoro Cat Power. The Greatest é um de meus discos favoritos. O novo de Chan Marshall, duplo, chama-se Jukebox e, como o título indica, vem repleto de covers. O lançamento por aqui é em duas semanas, estarei em Los Angeles ralando, mas vou arrumar um jeito de passar pela Amoeba para comprar o CD. Estas duas imagens da moça no estúdio de gravação da Hit Factory em Miami (adoro a citação a The Dark End of the Street, viva Gram Parsons!) já dão idéia do poder do fogo de Jukebox. Estou coçando as mãos.


Um Certo Comandante Fidel...

Vazaram na internet, aqui, as primeiras fotos de Demián Bichir encarnando Fidel Castro, de acordo com Steven Sordebergh, que, como se sabe, está filmando duas peças sobre Che Guevara (O Argentino e Guerrilha).

Originalmente, Sordebergh havia escalado Javier Bardem para viver o Comandante, mas a agenda do ator (que adora o Brasil e já já vai aparecer aqui no blog em entrevista concedida em Los Angeles por conta do lançamento do sensacional Onde Os Fracos Não Têm Vez) o impediu de acender um charo em Sierra Maestra.
O mexicano Bichir, 47, é conhecido do público por protagonizar Sexo, Pudor e Lágrimas, sucesso indie de 1999 que ganhou uma versão brasileira (Sexo, Amor & Traição), com Fábio Assumpção (que faz o papel que coube a Bichir no original), Murilo Benício, Marcelo Antony e Malu Mader. Não sei não, mas achei o Bichir menos fidélico do que o desejado.

Por falar em Che e Fidel, não sai do DVD Player aqui de casa o documentário Personal Che, da colombiana Adriana Mariño e do compadre e documentarista de mão cheia Douglas Duarte McMillan. Ao encontrar pedaços do Che na América Latina, nos EUA, no Líbano, e até em Hong Kong e entre os neo-nazistas alemães, a dupla refletiu sobre a globalização do Che e sua capacidade de transmutação nas mais imprevisíveis formas. Minha encarnação favorita: um taxista cubano. O filme, sensacional, deve chegar aos cinemas brasileiros (depois de ter passado pelas mostras do Rio e de S.Paulo) ainda este ano.

Ah, Noel!

Meu amigo Ivson (fala, autoridade!) acaba de nos contar - aqui - que ''desde terça-feira passada, 1º de janeiro, as obras nas quais o gênio de Vila Isabel trabalhou sozinho estão em domínio público, por terem completado 70 anos desde que começou a contar o tempo da Lei de Direito Autoral (por um motivo que só o Ecad pode explicar, esse tempo conta só a partir de 1º de janeiro do ano posterior ao da morte do último autor da obra. Como Noel morreu em 36, a contagem começou em 1º de janeiro de 1937)".

Aqui na vitrola de casa, o seu Rosa marca ponto especialmente através de Aracy de Almeida (em vários compactos simples lançados nos anos 30 e 40, mas também nos discaços Noel Rosa, um EP lançado em 1950 pela Continental e no me favorito Canções de Noel de Rosa, de 1955), mas também via Francisco Alves (em dezenas de 78 rotações) e Marília Batista (nos dois ótimos História Musical de Noel Rosa, Vol.1 e Vol.2, lançados em 1963). Isso sem esquecer do lindo A Dama do Encantado, em que Olívia Byington homenageia Aracy e nos presenteia com versões lindas e definitivamente almeidianas de várias pepitas de Noel.

Huuum...tenho horror a ficar pautando amigos, mas não seria este um bom mote para o meu podcast favorito, o sensacional Caipirinha Appreciation Society (fala, cabrocha Kika!alô, alô cumpádi Suíngue!), dedicar um programa ao bamba da Vila?

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Obama em Iowa: 'The time for change has come!'

Impressionou o discurso de Barack Hussein Obama ontem à noite depois de vencer a primária democrata de Iowa. Depois de um início messiânico, ecoando Martin Luther King, o senador negro do Illinois martela a mensagem, por nós bem conhecida, de que a 'esperança venceu o medo'. Coloquei o discurso, importante, aqui na íntegra:

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Obama: Vitória Histórica


Barack Obama venceu a primária democrata em Iowa e, mais importante, venceu com a ajuda das mulheres (35% das eleitoras preferiram ele, contra 30% para Hillary). Edwards ficou em segundo no reultado geral, com Hillary em seu calcanhar, em terceiro. Além das mulheres, o que pesou na vitória de Obama foi a presença de independentes e ex-republicanos que migraram em masssa para o lado democrata a fim de apoiar o senador negro. O resultado foi histórico e encheu de esperanças os democratas. Vamos ver o que acontece em New Hampshire na semana que vem.

Do outro lado o contraste não poderia ser maior: venceu o candidato mais conservador, à direita de Bush, o ex-governador de Arkansas, Mike Huckabee, evangélico que até anteontem achava que o principal problema do Paquistão era o número de imigrantes ilegais oriundos de Islamabad e adjacências tomando o emprego dos trabalhadores americanos. Em seu discurso de celebração, fez questão de contar com Chuck Norris, seu grande amigo, ao lado. Segunda as boas línguas, Norris é sua arma especial para enfrentar os imigrantes ilegais que tanto abomina. Pode? Pôde para a maioria dos eleitores republicanos em Iowa, que também apostaram em uma mudança, mas ainda mais para a direita. Vamos ver, novamente, o que acontece em New Hampshire na semana que vem, onde o senador McCain, mais moderado, estará no jogo.

As eleições começam a ficar interessantes por aqui.

A Miséria Só Muda O Sotaque

Os dados são chocantes e só aparecem na campanha do candidato democrata à presidência John Edwards, que tem como mote as duas Américas - a dos ricos e dos excluídos, aparentemente invisíveis. Hoje (olha só, Olga de Mello!) a Coalizão Nova-Iorquina contra a fome resolveu divulgar números que ganham pouco destaque na mídia (inclusive a brasileira, que pouco reporta sobre o lado menos glamuroso do império): em 2007, 1,7 milhão de nova-iorquinos viveram abaixo da linha de pobreza, de acordo com os padrões estabelecidos por Washington. Destes, 1,3 milhão (um em cada seis moradores da cidade), sendo 417 mil crianças e adolescentes, são fregueses assíduos do Programa de Ajuda Alimentar da Prefeitura, que distribui o sopão nos cinco distritos da cidade (Manhattan, Brooklyn, Queens, Staten Island e the Bronx).

A miséria, por aqui, só muda o sotaque. E, no frio, como agora, parece ainda mais desumana.

R.E.M novo - e assustador - em abril


Está confirmado. Sai mesmo no dia primeiro de abril (pois é) o novo R.E.M., com o título provisório de Accelerate. Michael Stipe & cia. vinham trabalhando desde o início de 2007 e a produção do décimo-quarto disco da banda da Georgia leva a assinatura de Jacknife Lee (U2, Bloc Party, Snow Patrol, Editors) no que seria um retorno às raízes mais roqueiras da banda. Vamos combinar que o R.E.M. não lança um disco decente desde Automatic for the People, no distante ano de 92 do século passado (com o hit Everybody Hurts). Depois de testar algumas músicas em Dublin, na Irlanda, Stipe mandou avisar que vai fazer uma turnê caprichada de Accelerate. Quem sabe eles não voltam ao Brasil? Enquanto isso, pode-se conferir aqui o pré-site que marca os 99 dias (contados desde ontem) para o lançamento do disco que, a se julgar pelas primeiras imagens, deve ter um clima assustador. Você entraria nesta casa? Eu, hein...

Giuliani e o Terror

Esta é a propaganda que Rudolph Giuliani vem mostrando na tevê daqui. Dá para se ter uma idéia do nível da disputa dentro do Partido Republicano.

Pérolas dos Republicanos

A mídia está deitando e rolando com as pérolas dos republicanos postulantes à presidência, de certa forma um reflexo do desnível desta corrida eleitoral.

Algumas belezuras, selecionadas hoje pelo DailyKos:

Mitt Romney (ex-governador de Massachusetts, pouco impressionado com o Iluminismo, a Revolução Francesa, os Grandes Descobrimentos, as Viagens Espaciais, vá lá, a Internet): Na próxima década o mundo verá mais progresso e mudanças do que nos últimos dez séculos (em propaganda voltada para os eleitores de New Hampshire).

Mike Huckabee (governador de Arkansas, fã das metáforas mais obtusas): Se eu vencer hoje em Iowa, com minha campanha humilde e sem grandes doadores, o impacto será sísmico na escala Richter da política norte-americana. A campanha de Romney é como o Império Britânico enfrentando os revolucionários norte-americanos entrincheirados em mei flanco.

Fred Thompson (ator e ex-senador): A maioria dos cidadãos norte-americanos sabem que os terroristas não sossegarão enquanto não jogarem uma bomba nuclear em uma de nossas grandes cidades (em seu vídeo mais recente).

É hoje!

Estas são as últimas tentativas dos candidatos democratas que aparecem embolados na largada das eleições presidenciais aqui nos EUA. Analistas dizem que se Edwards não vencer em Iowa, sua candidatura acaba. Se Hillary vencer, a eleição no flanco liberal está definida. Se der Obama, a briga entre os dois senadores será ainda mais dura.

Vejam a mensagem final de Dona Hillary:




A de Barack Obama, ainda não postada no YouTube, está aqui.

quarta-feira, janeiro 02, 2008

Para Além da Saúde Pública

Em boa análise no NYT de hoje, o colunista David Leonhardt (aqui, em inglês) mostra, na capa do caderno de Negócios, que as diferenças nas plataformas de governo entre os três principais candidatos do Partido Democrata à presidência dos EUA vão além do tema que mais vem interessando a mídia - seus ataques mais (no caso de Edwards e Hillary) ou menos (no caso de Obama) radicais aos planos de Saúde provados, uma das vergonhas nacionais.

Clinton - Sua filosofia econômica é a mais tradicionalmente (neo)liberal. Defende com brio o corte de taxas, embora tenha se rendido ao ideário (neo)conservador de que o indivíduo invariavelmente responde de modo racional aos incentivos econômicos. Um de seus projetos mais conhecidos é o de incentivo para a poupança, apostando que a classe média, subsidiada, voltará a considerar com carinho os fundos de aposentadoria a longo prazo.

Obama - É o mais próximo da chamada 'economia de comportamento', uma variante da escola liberal clássica que leva em conta os humores dos cidadãos quando estes se deparam com grandes programas ou medidas econômicas. Quiçá o economista mais importante em sua campanha hoje, Austan Goolsbee, da Universidade de Chicago, lembra que, para o senador negro, iniciativas que parecem boas no papel nem sempre funcionam na vida real. Para Obama, o atachamento da classe média nos EUA é causado pela diminuição da oferta de postos de trabalho e pelo aumento do custo da energia, educação e saúde, e não será resolvido pela diminuição de impostos, como defende a campanha Clinton.

Edwards - Está à esquerda de Hillary e de Obama e defende uma maior presença do Estado com o objetivo de fortalecer a combalida classe média norte-americana. Sugere uma série de medidas econômicas heterodoxas para atacar a crescente desigualdade social. Uma de suas principais bandeiras é a obrigatoriedade de cobertura de saúde - com incentivos públicos para trabalhadores e empregadores - nos 50 estados do país.

Quem é o mais progressista?

O site Daily Kos, um dos mais lidos por aqui na esfera liberal, saiu agorinha com editorial defendendo as candidaturas de John Edwards e Hillary Clinton. Ela, fundamentalmente, pelo desejo de vitória. O ex-senador, pela capacidade de apresentar soluções progressistas (que bem poderiam ser analisadas pela esquerda brasileira) para o gerenciamento do país.

Para o blog uma das questões centrais é justamente Qual dos candidatos é o melhor defensor dos ideais progressistas no flanco democrata? A resposta é Edwards, que teria a coragem de apontar com melhor desenvoltura os podres do império e tem mostrado com clareza por que, afinal, as soluções de esquerda são as mais viáveis para os EUA pós-Bush. Não se pode menosprezar este fato, lembra o blog, já que o Partido Democrata tem sido especialmente fraco ao tentar apresentar seu viés ideológico. Em longo termo, a triangulação retórica de um novo Clinton, sempre interessado em se ajeitar com as forças mais conservadores, tende a afundar novamente o partido e a abrir espaço para um retorno da direita mais raivosa, hoje combalida em Washington.

Curiosamente, mais do que Hillary, é Obama quem vem atacando duramente, lembra o Daily Kos, os 'pós-hippies de esquerda, os sindicatos, os verdes, os defensores de um plano amplo de saúde pública'. Em tempo: Obama lidera todas as pesquisas de voto em Iowa, com margem de mais de 7 pontos. Veremos o que vai ocorrer amanhã.

Eleições 2008 - Pobreza de Idéias e Baixaria Geral

Amanhã os eleitores de Iowa, no meio dos EUA, onde só se fala em milho e em etanol, começam a decidir quem serão os candidatos à presidência deste república onde reina o bipartidarismo. Fala-se o tempo todo em Obama, Hillary, Edwards, Huckabee, Romney, mas a verdade é que a baixaria na campanha, a pobreza de idéias e a sensação de que as diferenças entre os candidatos não são tão grandes resultam no escandaloso resutado da pesquisa divulgada hoje de noite pelo Rasmussen, mostrando que quase todos os postulantes à Casa Branca têm um índice de rejeição estratosférico. Metade do eleitores não vota em Hillary nem amarrada, 51% detesta Obama, 55% não quer nem ouvir falar em Giuliani, 51% abominam Romney e 47% não topam o candidato evangélico, Huckabee. Dos que de fato estão no páreo, os únicos que ficam um pouco melhor com os eleitores são o senador republicano John McCain (27% de rejeição) e o ex-senador democrata John Edwards (42%). Os norte-americanos não estão nem um pouco satisfeitos com os seus políticos. A pesquisa completa você pode ler aqui.

A Esquerda e o Islã

Na segunda metade de dezembro a revista italiana ResetDoc começou um debate interessantíssimo sobre a O Islã e a Esquerda Ocidental. A filósofa Nadia Urbinati, professora aqui da Columbia University e que lecionou na Unicamp, foi a primeira convidada a escrever e lançou um tijolaço contra o maquiavelismo reinante no lado de cá do planeta, advocando o diálogo e o multiculturalismo como únicas possibilidades para de fato afetar o jogo político no Oriente. Urbinati lembra que na Itália a tolerância e o diálogo fortaleceram a democracia local. "E foi o diálogo e a tolerância que fizeram, de certa forma, com que os 'pensadores vistos como corretos' (em outras palavras os liberais democratas) não se tornassem, eles mesmos, fanáticos do outro lado do muro", lembra. O debate continuou com artigos de gente como Michael Waltzer (da revista Dissent, que discorda de Urbinati e acha que é preciso estabelecer limites no diálogo, relegando stalinistas, nazistas e fundamentalistas islâmicos a um limbo merecido) eo professor Charles Taylor, aqui da New School. Todos interessados em pensar o papel da esquerda no conturbado mundinho globalizado. Quem quiser acompanhar o debate, é só clicar aqui.

Na Vitrola: Sharon Jones, a Carcereira do Ritmo, a musa de Denzel


Sharon Jones é o máximo. Você escuta a moça e sua banda - os Dap-Kings - e pensa que voltou aos anos 60. E volta feliz da vida. Ela é a Amy Winehouse com a cabeça no lugar certo, se é que me entendem. Adepta de uma estética retrô que pegou pelo ouvido os antenados do Brooklyn (a moça nasceu em Augusta, na Georgia, berço de James Brown, mas baixou por aqui ainda menina), Jones é a Tina Turner da fase Ike que não se rendeu ao pop. Já deveria ter sido levada para shows no Brasil. Iria arrasar.

Sua trajetória não foi das mais fáceis. As portas lhe foram fechadas nos anos 80 por fazer uma música que não cabia no universo disco-pop de então. Esnobada pela geração MTV, ela só chegou às paradas com os singles que lançou na segunda metade dos anos 90 pela Desco Records. Enquanto não conseguia viver de sua música, Jones foi trabalhar como carcereira no presídio da Rykers Island. Devia ser a prisão mais swingada dos EUA. Mas tudo mudou com o lançamento, há cinco anos, do ótimo Dap Dippin', que rolou na minha vitrola ainda no Flamengo com a constância merecida.

Mas ainda gosto mais do álbum lançado no fim de 2007, 100 Days, 100 Nights. O que me atrai é a ponte direta com o funk e o soul dos anos 70, bem distante do neo-soul ou do R&B contemporâneo, de gente como India.Arie e Alicia Keys, para quem, sorry periferia, torço mesmo o nariz. Tudo isso é para lamentar o anúncio que dona Jones acaba de fazer ao incluir um show nova-iorquino em sua turnê de inverno, justamente no dia 15 de fevereiro, quando estarei em praias cariocas.

Como não se pode ter tudo ao mesmo tempo agora, pode-se ver aqui uma amostra do poder de fogo de dona Jones, no clipe genial da faixa-título do discão, aqui. Para encontrar o granulado e o preto-e-branco ideal do vídeo, Sharon Jones deu um pulo no e-bay e comprou por US$ 50 câmeras da idade da pedra lascada. O resultado é sensacional. Vale a clicada.

Onipresente, a moça também é uma das melhores coisas de The Great Debaters, filme dirigido por Denzel Washington que estreou por aqui com boas críticas no Natal e que ainda não tem data de estréia no Brasil. No drama sobre os estudantes de uma escola de segundo-grau com alunos negros que derrota em uma competição de debates alunos brancos nos EUA da era Jim Crow, Sharon Jones brilha em seis faixas, duas delas acompanhada pelo Angelic Voices of Faith.

Detalhe: quando dona Amy Winehouse atravessa o Atlântico, ela só toca com os meninos dos Dap-Kings. De boba, ela não tem nada.

terça-feira, janeiro 01, 2008

Entrevista/MILTON GLASER


A ótima revista gaúcha Florense publicou em sua edição de verão (aí no Hemisfério Sul, aqui faz um frio do cão) a entrevista que eu e o fotógrafo Victor Affaro fizemos com o lendário designer Milton Glaser (responsável pelo logo I heart NY e pela reformulação gráfica de O Globo nos anos 90) em seu estúdio em Murray Hill, em Manhattan. Ó só que bonito que ficou:


ENTREVISTA
/Milton Glaser


Eduardo Graça, de Nova Iorque, para a Florense

Em sua edição de 29 de outubro, a revista semanal
New York publicou uma ‘lista de grandes revolucionários do design’, que acabou entupindo a caixa de correio eletrônico da seção de cartas da publicação. E por um motivo inusitado. Os leitores não entendiam como Milton Glaser, 78 anos, o criador do famoso logo “I heart NY” e um dos responsáveis pela elevação do pôster à categoria de alta cultura, não aparecia com destaque no tal compêndio. A justificativa para a omissão, que apareceria na edição seguinte, era singela: “nossa desculpa é a de que Glaser, embora fizesse obviamente parte do grupo de designers assinalado pela reportagem, está numa categoria diferente. Diretor responsável pela criação da revista, em 1968, ele é da família”. O episódio reforça a idéia do quão difícil é separar Glaser da cidade em que sempre viveu. Um dos maiores nomes do design do século XX, criador do Push Pin Studios, com obras nas coleções do Museu de Arte Moderna de NY (MoMA) e do Victoria and Albert Museum de Londres, ele é inegavelmente um dos lexicógrafos do design e da ilustração de nossos tempos. Mas Milton Glaser não é prisioneiro do passado. Com uma vistosa camisa de gola cor-de-rosa e um chapéu estiloso, ele recebeu a Florense em uma deliciosa tarde de outono em seu escritório localizado em uma townhouse em Murray Hill, em Manhattan, e falou sobre a rotina de trabalho, sua relação com Deus, sua paixão pelo ensino e suas mais recentes campanhas, como a que chama a atenção da opinião pública para os cidadãos iraquianos que colaboraram com o governo provisório estabelecido depois da invasão do Iraque e que agora correm risco de vida em seu país de origem. “É um escândalo! Eles nos ajudaram e agora não queremos lhes dar asilo. Um vexame total”, diz, com voz clara e forte, o artista indignado que simplesmente não acredita em design sem comprometimento social.

- O senhor mantém uma rotina de trabalho?
- Sim, e, acredite ou não, é a mesmíssima em 15 anos. Acordo cedo, tomo café da manhã com minha mulher, pego um táxi, sento na minha mesa religiosamente às 9h45 e começo a trabalhar. Como você pode ver meu estafe é todo composto por lindas e jovens designers, que eu tenho apenas um critério para contratar profissionais: a aparência física (risos). Trabalho até às 18h30 e todas as quarta-feiras, por quase 50 anos, dou minhas três horas de aula de design na School of Visual Arts (S.V.A.), e não trabalho às sextas-feiras. É o segredo da vida, sabia? Ouçam bem, meninos: não trabalhem às sextas-feiras!

- Então o senhor não passa aqui pelo escritório às sextas-feiras...
- Não, temos uma casa em Woodstock e passamos o fim de semana no campo. E lá eu desenho e faço outros trabalhos criativos, colaborações que geralmente não tem conexão com o dia-a-dia do escritório. Voltamos para casa aos domingos de tardinha e vamos a um restaurante. Agora você já sabe a minha inteira. Sabe há quanto tempo eu não vou cinema? Há 12 anos. Ao teatro? Há oito anos.

- E não sente falta?
- Nenhuma. Quanto teatro é bom, é sensacional, mas é raro você se encantar por uma peça hoje em dia. E acho também que você chega a um certa idade em que você quer apenas ter grandes experiências, nunca medíocres ou ordinárias. Hoje é profundamente entediante para mim pensar em passar duas horas vendo um filme apenas razoável. Eu trabalho e leio. Leio muito.

- O que tem lido recentemente?
- Acabei de terminar um grande livro, Deus não é Grande, do jornalista Christopher Hitchens, que é uma diversão séria.

- Hitchens centra seu livro na idéia de que religião é um mal que tomou conta de todos os aspectos da vida inteligente no mundo ocidental, o senhor concorda com ele?
- Sim, ele prova isso claramente no livro. É impossível ler o livro e defender uma posição lógica sobre a religião em nossa cultura. Não sou uma pessoa religiosa. Acredito que temos tal desconhecimento de nossa razão, de aonde a mente pode chegar que, por medo da morte, criamos esta idéia do criador, de Deus, que nada mais é do que um produto de nossas mentes. A idéia de Deus, tal qual nos é apresentada pelas religiões, é absurda, não faz o menor sentido. Agora, é claro que você pode me dizer que a fé tem a ver com o mistério, com o que não se explica, ou dizer que há uma força criadora no universo que não se explica, algo inteligente que ainda não conhecemos.

- Os especialistas consideram seu trabalho repleto de humanismo. Penso aqui na denúncia dos massacres de Darfur ou no trabalho que fez para a revista The Nation reunindo em um único avião de guerra todos os países que os EUA bombardearam nos últimos 50 anos. Depois de atravessar o século XX, o senhor ainda tem fé no ser humano?
- No fundo, sou um otimista. Alguém um dia escreveu que cada indivíduo percebe o mundo como sendo um lugar de abundancia ou de escassez. Eu sempre estive no primeiro campo. Jamais encarei o mundo como não sendo esta fonte generosa de possibilidades. Olhar grande, pensar grande, sempre foi a chave para mim...

- E já que estamos falando de fenômenos aparentemente inexplicáveis, e a inspiração, existe? Ela é fundamental em seu processo criativo ou o que existe é apenas trabalho árduo e focado?
- Inspiração é a manifestação daquela parte da mente que ainda nos é inacessível. Nós precisamos ser humildes para aceitar que apenas controlamos um terço de nossa mente. E não é só a inspiração que cabe nesta justificativa. Foi porque ainda não dominamos os dois outros terços que George Bush se elegeu presidente duas vezes. Você só entende o que acontece nos EUA hoje e considerar que o medo paralisou a capacidade de as pessoas raciocinarem. Não é consciente, não é lógico. Os EUA em que vivo hoje é produto de uma reação irracional dos meus compatriotas ao mundo que vivem.

- O senhor tem um discurso político muito claro. Acredita piamente na função social do design?
- Sim, nos últimos 30 anos esta tem sido a tecla em que tenho batido e acho que tem ficado mais na moda agora pensar no design como instrumento de transformação social. Em dezembro vou participar de uma reunião com outros designers aqui em Nova Iorque para tentarmos passar mais rapidamente das palavras para a ação. O designer trabalha com idéias e uma de suas questões fundamentais é como atingir o grande público. Por isso tenho feito vários trabalho que considero de ativismo social, como Darfur...

- E agora o senhor está trabalhando em uma campanha para conscientizar a opinião pública norte-americana sobre o drama dos refugiados iraquianos, cidadãos que apoiaram a deposição de Saddam Hussein e se tornaram alvos óbvios depois da invasão...
- Isto é um escândalo! Bush disse que nós abriríamos o país para 7 mil refugiados, mas até agora nem 100 pessoas foram abrigadas no país. E este é um número ínfimo. O clima nos EUA no momento, infelizmente, é o de não apoiar o asilo para ninguém, nem mesmo a quem nos ajudou em uma situação terrível como a da invasão do Iraque. Para a opinião pública americana os iraquianos são todos vistos como loucos e inconseqüentes. É um escândalo não adotarmos em regime de urgência uma legislação para ajudarmos estas pessoas que arriscaram suas vidas por conta dos interesses do governo dos EUA. Trata-se de um problema ético com o qual nós, norte-americanos, estamos lidando de forma vexaminosa. Por isso estamos fazendo neste momento cartas com o motivo escolhido para a campanha e enviando para todos os congressistas...

- Uma de suas idéias é a de colocar várias faces cobertas pelas mãos mostrando que o problema tem um caráter humanístico que ultrapassa a barreira de raças, credos ou nacionalidades...
- Sim! E também há o fato concreto de que nenhuma destas pessoas pode mostrar o rosto sob o risco de serem reconhecidas. A situação deles é muito perigosa e o norte-americano médio não está nem um pouco interessado na guerra. Ou nunca esteve ou já se cansou do que ouviu. Então estamos aqui para lembrar que o horror continua.

- Há sete anos o senhor foi um dos signatários do manifesto First Things First, publicado na revista Adbusters, em que discutia a importância dos valores dentro do design. Até que ponto a globalização leva os criadores a caírem ainda mais nas armadilhas dos interesses corporativos?
- Assim como a vida ficou mais contraditória nestes sete anos, o design também entrou em uma era ainda mais paradoxal. Aqui nos EUA temos rumado para o estabelecimento de uma sociedade menos liberal e mais totalitária, que, por exemplo, aceita a prática da tortura. Em contra-partida, houve uma natural reorganização de vozes contrárias a este movimento radical. O senso de crise, e penso aqui no aquecimento global, por exemplo, cresceu muito nos últimos cinco anos. Foi este cenário que me fez editar em 2005 o livro The Design of Dissent, reunindo trabalhos de designers que entendem que os cidadãos, ao opinarem sobre a realidade que os cerca, não estão apenas exercendo um direito básico, mas sendo responsáveis pelo mundo à sua volta. Eu ouvia muito dos designers que eles queriam fazer algo que ajudasse a mudar o mundo à nossa volta.

- Mas o trabalho de um designer pode de fato modificar a realidade?
- Ora, nós sabemos como comunicar uma idéia utilizando as engrenagens do sistema. Um sistema que nos força a vender banalidades o tempo todo, mas que pode ser trabalhado a nosso favor. Anos atrás, quando fazia as ilustrações para uma versão do Purgatório de Dante, criei uma lista que batizei de Caminho para o Inferno. Queria ver até onde os designers, incluindo eu mesmo, iriam para vender determinado produto. A lista começa com o desenho de um produto feito de tal maneira que pareça maior do que de fato é. Outra seria trabalhar para uma empresa que emprega trabalho infantil. E a última seria trabalhar em um produto que, no fim das contas, mataria o consumidor, como a indústria dos cigarros. E foi tão interessante ver o que meus colegas comentaram sobre a lista...

- O senhor enviou a lista como um questionário para seus pares...
- E descobri que 100% dos profissionais condenam o trabalho infantil, mas 10% dos designers não tinham problema algum em fazer uma logomarca para um produto que, no fim das contas, levaria à morte do consumidor, pois se tratava de uma escolha de foro íntimo de quem, por exemplo, decidia continuar fumando. Sim, é opcional. Mas você quer participar do processo de oferecer esta opção para o consumidor? Isto é pensar o design em nossos tempos.

- Uma de suas frases famosas é a de que profissionalismo é um objetivo muito pequeno para um designer. Ele precisa querer ser transgressor...
- Se você faz o que já sabe, não há conquista. Profissionalismo é meramente a repetição do que você já sabe fazer e, claro, muita gente é extremamente bem-sucedida seguindo esta filosofia. Mas ela não cabe no mundo das artes. Arte passa, necessariamente, pela violação do que você já sabe. Você precisa navegar pelo desconhecido, por aquilo que você não sabe quais conseqüências vai gerar. O ato de invenção é quase sempre um ato cego, mas fundamental no campo do design artístico.

- O senhor é professor em uma das mas importantes escolas de design do planeta, a School of Visual Arts (SVA), em Nova Iorque. Seus estudantes o procuram constantemente, pedem conselhos?
- Sim, tenho várias gerações de designers que, creio, me tiveram, de alguma maneira, como mentor. Como não tive filhos, acho que meu instinto é o de ajudar as pessoas. É a única maneira de crescer neste mundo – olhar para o outro, servir ao outro. Adoro ensinar, tenho grande prazer, não é apenas um ato de responsabilidade social para mim. Acho que é minha obrigação tentar mostrar a estes meninos que há assuntos mais importantes do que a carreira deles. Não há nada mais extraordinário na vida do que a capacidade de criar algo novo. Mas, claro, há uma certa dose de egocentrismo, de querer passar para a frente aquilo em que acredito, os valores que me são caros...

- O senhor é imediatamente identificado com o logo “I heart NY”, com a revista New York, com a alma de sua cidade. Ela ainda o inspira?
- O tempo todo. Ontem foi Halloween e acabei preso no meio da parada na Sexta Avenida, quando tentava voltar para casa, à pé, da universidade. Vi mais da parada do que havia pensado e foi fantástico, é nossa versão do carnaval brasileiro. A imaginação das pessoas, a energia, tudo é tão vivo. Todos querem estar aqui agora apesar de um barracão em Manhattan custar um milhão de dólares (risos). Mas a cidade está em forma, sabia? Surpreendentemente, mesmo depois do ataque de 11 de setembro, ela segue otimista e viva. Não há nenhum lugar no mundo como a Nova Iorque dos dias de hoje. A cidade é uma parte extraordinária de minha vida.
- E o senhor vê sua influência no design que é feito hoje por aqui?
- Sei que influenciei alguns designers, sei que meu trabalho tem alguma importância no cenário contemporâneo, mas não foram estes os motivos pelo qual me tornei um designer. O cerne de meu trabalho não tem a ver com a sua funcionalidade mas simplesmente com o fazer. Não há nada que ame mais do que sentar e criar algo novo. Mas as conseqüências do que faço são muito menos importantes do que o ato em si. Honestamente, nunca esperei chegar aos 78 anos. Ao mesmo tempo, não sinto que meu trabalho tenha perdido a importância, signifique menos hoje do que há tempos atrás. Não consigo simplesmente desaparecer do mundo em que vivo e gozar da vida pescando ou jogando golfe. Que idéia horrenda! O importante é que ainda me encanto, me surpreendo, pelas coisas que eu não sei, que ainda preciso descobrir. É isso o que me faz vir trabalhar todos os dias e repetir aquela rotina chatíssima que revelei a você lá no começo da conversa (risos).