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terça-feira, setembro 29, 2009

Honduras

Boa, do Jânio de Freitas, na Folha de hoje:

"Os opositores ao governo Lula, os de visão mais convencional e conservadora, são incessantes na opinião de que Zelaya fazer política de dentro da embaixada 'é um absurdo'. 'transformou a embaixada na casa da mãe joana', e por aí. Mas se Zelaya é o presidente legítimo de Honduras e está na embaixada apenas na condição de hóspede, como considera o governo Lula, então o absurdo estaria em tolher-lhe a palavra e o direito de usá-la em defesa da causa democrática"

domingo, agosto 02, 2009

TERRA: Crise no Senado, lá e cá

Batendo recordes de comentários no Terra Online com reportagem política. Gostei:

De Nova York a Brasília, democracia pan-americana vive crise

31 de julho de 2009 • 07h51 • atualizado às 10h01
Fac-símile da capa do conservador New York Post do dia 24 de junho último que mostra uma imagem alterada do Senado estadual de NY ocupado por ...
Fac-símile da capa do conservador New York Post do dia 24 de junho último que mostra uma imagem alterada do Senado estadual de NY ocupado por parlamentares com rosto de palhaços
31 de julho de 2009
New York Post/Reprodução

Eduardo Graça

Direto de Nova York


Um senador da velha-guarda com métodos políticos para lá de duvidosos. Uma campanha popular para a substituição imediata do comando do Senado, incluindo presidente, vices e secretários. O governo ameaçando não pagar mais os custos exorbitantes das viagens dos legisladores para fora da capital. O jornal de maior vendagem na cidade apresentando em sua primeira página a imagem de senadores no plenário com seus rostos pintados como se fossem palhaços.

Não, o cenário acima não é a terra de Kubitschek. Trata-se do verão nova-iorquino. Albany, a sede do legislativo de Nova York - nos Estados americanos, como no Brasil, os parlamentos locais são bicamerais - virou de pernas para o ar quando o senador Pedro Espada, acusado de corrupção e de receber propina de lobistas, decidiu deixar os democratas a ver navios e se juntar aos republicanos. A correlação de forças do Senado do Estado de Nova York mudou completamente.

Depois que os legisladores democratas decidiram vetar a verba de US$ 2 milhões que Espada - apelidado de Dino, tanto por conta de seus modos pré-históricos de fazer política quanto pela forma física - pretendia usar na capitalização de um plano de Saúde organizado pelo próprio senador, ele simplesmente mudou de lado, deixando o Senado em um empate de 31 votos para situação e oposição e interrompendo por um mês o funcionamento do Legislativo até que se chegasse a uma solução para um impasse.

No que já é considerada uma edição histórica, o conservador New York Post publicou foto em sua primeira página modificando graficamente o rosto dos senadores em plenário: todos apareciam maquiados tal qual palhaços em um estranho circo. Uma das reações mais interessantes - e indignadas - veio do ex-secretário municipal de Comunicações de Nova York, Bill Cunningham.

Cientista político que comandou a campanha de vários medalhões da cena política nova-iorquina, Cunningham escreveu um editorial em que protesta "em nome dos profissionais do circo, especialmente os palhaços. Comparar estes trabalhadores honestos e dedicados com os políticos de nosso Senado estadual é um insulto. Um insulto a qualquer trabalhador de nome Bozo ou Clarabelle. Na verdade, Jerry Lewis, nosso símbolo cômico mais famoso, deveria comandar um protesto em Albany. Estes senadores espertalhões estão jogando o nome de comediantes e palhaços na lama".

Curiosamente, a crise no Senado nova-iorquino somente chegou ao fim depois que o controlador-geral do Estado de NY anunciou que os contra-cheques dos senadores seriam sumariamente cortados, juntamente com vouchers de viagens no valor total de US$ 560 mil. O salário médio de um senador no estado de NY é de US$ 6,7 mil, sem contar os incentivos. A pensão vitalícia ultrapassa os US$ 8,3 mil dólares.

Em editorial, o The New York Times lembrou, em texto duro, que os eleitores não podem esquecer que o Senado estadual será renovado novamente no ano que vem :"E se esta gangue quiser reconquistar seus eleitores, terá de reformar o sistema corrupto que gerou esta crise, a desgraça total do financiamento das campanhas, a falta de disputa real pelas cadeiras do Senado e a completa falta de transparência no exercício do legislativo. Nós não estamos otimistas".

O Instituto Gallup anunciou na semana passada que 48% dos americanos tem uma imagem negativa da presidente do Congresso - e terceira cidadã na linha de sucessão de Barack Obama - a democrata Nancy Pelosi. E que apenas 33% dos eleitores tem uma imagem positiva do Poder Legislativo.

A reportagem do Terra conversou com o cientista político Cristian Klein, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ), sobre a crise da democracia representativa que assola o mundo democrático ocidental e as semelhanças entre a crise no Congresso brasileiro - uma das campanhas de caráter político mais difundidas na internet é a "Fora Sarney", que pede a renúncia do presidente do Senado, o ex-presidente da República José Sarney (PMDB-MA) - e o total descrédito dos norte-americanos em relação ao poder legislativo em todos os níveis.

No Brasil e nos EUA há uma clara insatisfação da população com deputados, senadores e vereadores. No México, as eleições legislativas tiveram um recorde de votos em branco. Em Honduras vive-se a maior crise política das Américas. Vivemos uma crise da democracia representativa no hemisfério ocidental?
A democracia representativa sempre foi suscetível a críticas e crises agudas. Vide a Alemanha do entre-guerras, quando o governo da República de Weimar foi solapado tanto pelas armas dos grupos paramilitares quanto pelas idéias de pensadores como Carl Schmitt. O Parlamento, coração da democracia representativa, era visto como um aglomerado de políticos sem brilho e voltado para discussões longas e inócuas. Rogava-se por um líder forte, carismático. Quase todas as crises envolvendo o Legislativo carregam, em certo grau, críticas semelhantes. É o poder em que as decisões demandam mais tempo, mais negociação e cujos membros não representam a maioria da população, mas fragmentos do eleitorado. Na América, continente formado por países que adotaram majoritariamente o sistema presidencialista, o contraste entre um presidente popular e um Parlamento abalado por escândalos pode sugerir um quadro de desolação. Mas é preciso lembrar também que o Legislativo é por princípio um poder mais aberto, mais transparente que o Executivo.

O historiador Alejandro Velasco disse há algumas semanas que o golpe em Honduras foi a primeira conseqüência real de uma luta entre duas visões que vão se tornando homogêneas na América Latina: uma mais à esquerda, outra mais à direita no modelo da Europa Ocidental e dos EUA. Você concorda?
A centralização, o fortalecimento do Executivo, tradicionalmente é um tema mais caro à esquerda do que à direita, pois é o poder cuja fonte de legitimação vem da maioria da população. E cuja intervenção em políticas de redistribuição de renda pode se dar de modo imediato. Mas isso não significa, para a esquerda, que ao chegar ao Executivo ela controle o Estado ou a maioria de seus aparelhos. Como apontou corretamente Poulantzas, o Estado não é um bloco monolítico, mas um campo estratégico. Uma vez que tenha perdido o poder central, a classe dominante pode trocar os lugares de poder real e poder formal, deslocando o centro de decisões de um aparelho para outro, como o Judiciário e o Exército. Honduras parece ser um caso exemplar de como, no limite, a luta política se dá neste campo estratégico.

Há algum novo modelo apresentado aos brasileiros para substituir o atual, com um Congresso desrespeitoso e desrespeitado? Há salvação para o Legislativo no Brasil?
Há quem defenda, de modo radical, a extinção do Senado. Há países que são unicamerais. Mas será que essa é uma opção factível? Se a cada crise, em qualquer casa legislativa do país, a solução fosse defenestrar a instituição, onde iríamos parar? É preciso melhorar a qualidade dos representantes, e mais do que isso, reprimir a cultura política arcaica, nepotista, fisiológica, que ainda persiste. A contínua pressão da imprensa, com a revelação dos escândalos, pode surtir algum efeito sobre o comportamento dos políticos. Mas sem um sistema de punição eficiente, com o fim das imunidades parlamentares, por exemplo, de pouco adiantará.

Especial para Terra

sábado, julho 25, 2009

CARTA CAPITAL/24 de Julho

Segue o drama em Honduras. A teceira reportagem da série para a Carta Capital foi publicada esta semana pela revista, escrita antes da frustrada tentativa de Manuel Zelaya de entrar no país via Nicarágua:

UM ATALHO PARA O CONFLITO

Eduardo Graça, de Nova York

Tempo. Eis o artigo mais valioso na crise que se instalou em Honduras há três semanas quando as Forças Armadas, com aval do Judiciário e do Legislativo, derrubaram o governo constitucional do presidente Manuel Zelaya e enviaram o ex-oligarca travestido de esquerdista, de pijamas, para o exílio. O que parecia ser mais uma quartelada latino-americana revelou-se uma anomalia em um continente aparentemente imunizado contra salvadores da pátria sem mandato popular. Mas se a reação uníssona da ONU, da OEA e de Washington – todas contrárias ao golpe de Estado – não acelerou a volta do aliado de Hugo Chávez ao poder, ao menos parece ter iluminado a discussão em torno da crise das democracias representativas na América Latina.

Na quarta-feira, tanto o governo Micheletti quanto as forças pró-Zelaya rejeitaram a chamada Proposta de San José, elaborada pelo presidente costa-riquenho Oscar Arias. O estadista, vencedor do Prêmio Nobel da Paz, propunha a volta de Zelaya a Tegucigalpa com poderes reduzidos, anistia limitada de seis meses e eleições presidenciais antecipadas para outubro, sem possibilidade de reeleição.

O gabinete de Micheletti só aceita a volta de Zelaya se o presidente concordar em enfrentar os processos judiciais contra ele movidos pela tentativa de alterar a Constituição enquanto no poder. Rixi Moncada, chefe da equipe de negociação de Zelaya, acusou Micheletti de intransigência e de emperrar as negociações em busca de tempo. “Nada aconteceu desde que começamos as conversas no sábado passado. A Proposta de San José fracassou”, decretou.

Nenhum governo reconheceu Micheletti como presidente provisório e na segunda-feira a Comunidade Européia anunciou o corte de 90 milhões de dólares em programas de ajuda humanitária para o país. Recente pesquisa do Gallup mostra que o golpe alavancou a popularidade de Zelaya, que teria o apoio de 46% dos entrevistados, contra apenas 30% para os golpistas. Micheletti é rejeitado por 49% dos hondurenhos. Demonstrando o cansaço da nova administração, o ministro das Relações Exteriores, Carlos Contreras, usou um argumento de péssimo gosto para defender a causa dos golpistas, lembrando que outros países latino-americanos, notadamente o Equador, já viveram situação semelhante no passado e não receberam tamanha condenação da comunidade internacional. “É preciso investigar a manipulação que ocorre na OEA”, disse.

O escritor peruano Santiago Roncagliolo, vencedor do Prêmio Alfaguara por Abril Rojo, uma viagem pelos porões do governo Fujimori, e crítico severo do bolivarianismo, discorda de Contreras. Para ele, com a expulsão de Zelaya, o Judiciário, o Legislativo e as Forças Armadas hondurenhas colocaram em questão a própria definição de democracia.

“Os últimos acontecimentos atacam a credibilidade das democracias liberais e reforçam a popularidade de Chávez. Milhões de pobres e índios constatam que o liberalismo não lhes oferece justiça”, escreveu Roncagliolo esta semana em artigo no El País. O texto une à deposição de Zelaya o vídeo do falecido advogado Rodrigo Rosenberg acusando o presidente guatemalteco Álvaro Colom de seu assassinato, a vitória eleitoral do PRI nas eleições legislativas mexicanas e os conflitos entre líderes indígenas e o governo na demarcação de terras no Peru para afirmar que a realidade abaixo do Rio Grande parece um “filme de James Bond, com o herói lutando contra um temível ditador aliado do terrorismo”.

Roncagliolo usa figuras de efeito fortes. Ao pensar no fortalecimento do Executivo frente os demais poderes, uma das justificativas dos golpistas para a deposição de Zelaya, o peruano defende que o modelo da democracia liberal no continente perdeu qualquer crédito de transparência e legalidade com a população. “Se Micheletti temia um Chávez mais influente em Honduras, ele pode ficar tranqüilo. Agora o venezuelano aumentou sua legitimidade em toda a região”, escreve.

É justamente este fortalecimento do chavismo que tem guiado as conversas de bastidores em Washington. Deputados republicanos já tratam abertamente de sua preferência pela manutenção do governo Micheletti, que seria ameaça menor à democracia do que o próprio Zelaya e questionam a postura da OEA, mais branda com o regime cubano. Mas, curiosamente, a face mais visível nos corredores do Capitólio em defesa dos golpistas é a de Lanny J. Davis, medalhão do Partido Democrata de Maryland, conselheiro especial na Casa Branca nos anos 90 e principal advogado da equipe que defendeu Bill Clinton durante o processo de impeachment. Davis depôs no comitê de Relações Exteriores da câmara baixa do congresso americano em nome de clientes membros da seção hondurenha do Conselho Empresarial da América Latina (CEAL), que reúne lideranças empresariais do continente. Os empresários estão na linha de frente da defesa do golpe.

Do outro lado do flanco, o Comitê de Famílias de Desaparecidos e Presos em Honduras (COFADEH) divulgou um documento denunciando 1.100 casos de abuso contra cidadãos desde a deposição de Zelaya. Entre os crimes estão quatro assassinatos (entre eles o jovem Isis Obed Murillo, de 19 anos, dois líderes sindicais, e o jornalista Gabriel Fino Noriega, baleado quando deixava a redação de sua emissora de rádio em San Juan Pueblo), prisão arbitrária, violência física e censura à imprensa. O chefe da segurança do novo governo é Billy Hoya, acusado de ser o responsável pelo desaparecimento de líderes esquerdistas durante a guerra suja dos anos 80.

Em entrevista na The American Prospect, o jornalista hondurenho Jose Luiz Galdamez, da Rádio Globo, uma das poucas a apoiar Zelaya, conta que teve de se esconder depois que os militares ocuparam a sede da emissora. “Gostaria que lobistas como Davis viessem me visitar para ver como é ser ameaçado não apenas pelo novo governo e pelos militares, mas também pelos empresários e grupos poderosos que ele representa em Washington. Davis está representando os grupos que controlam a grande mídia, o Judiciário e, agora, novamente, o Executivo. Ele está representando o Estado de terror que se estabeleceu em Honduras ”, denunciou.

Os partidários de Zelaya acreditam que a estratégia dos empresários é minar o apoio do governo Obama ao presidente deposto e desviar a atenção da opinião pública dos abusos cometidos em Honduras desde o golpe, afim de ganhar tempo até as eleições de novembro. Por isso o advogado e ativista de direitos humanos Robert Kovalik, que acaba de voltar de Honduras, onde acompanhou um grupo de cidadãos norte-americanos em visita ao país, defende em sua coluna no Pittbsburg Post-Gazette a urgência de se restabelecer a democracia em Tegucigalpa.

Kovalik iniciou uma campanha pública de pressão sobre o governo Obama. Ele pede a retirada dos 600 soldados norte-americanos estacionados no país, a revogação do visto dos hondurenhos que apóiam o governo golpista (o que afetaria a movimentação dos empresários do CEAL) e a remoção – como fizeram todos os países europeus – do embaixador norte-americano de Tegucigalpa. Seu receio é de as virtuais eleições de novembro tragam uma nova complicação para a novela da crise das democracias representativas no continente, com a comunidade internacional tendo de lidar com um referendo eleitoral promovido por um governo fora-da-lei. Um roteiro de luxo para uma aventura de James Bond na América Latina do século XXI.

segunda-feira, julho 20, 2009

CARTA CAPITAL/Perfil - Dick Cheney na Oposição

Dick Cheney foi o Imperador

17/07/2009 14:12:11

Eduardo Graça, de Nova York

A história quem conta é George Lucas. Em conversa com a colunista Maureen Dodd, do New York Times, o criador do épico Guerra nas Estrelas e da série de aventuras do Indiana Jones se disse lisonjeado pelo uso de um de seus mais caros personagens, o afônico Darth Vader, nos textos da jornalista sobre o então vice-presidente Dick Cheney, mas alertou que era preciso fazer uma reparação. “Cheney não é Vader. Anakin Skywalker era, no fim, um menino de um planeta árido e isolado que se transforma em Darth Vader pela influência de uma velha raposa política. O Vader é o Bush. Cheney é o Imperador”, disse.

Pois nos primeiros seis meses da era Obama a face mais visível da antiga administração foi justamente a de Dick Cheney. Em programas de tevê, o rejuvenescido “imperador do Wyoming”, 68 anos, bateu impiedosamente no governo Obama, criticando a economia, o projeto de reforma da Saúde e especialmente a segurança nacional. Mas esta semana o ex-vice foi acusado pelo novo diretor da CIA, Leon Panetta, de manter um programa secreto de extermínio de terroristas. De acordo com a nova administração, Cheney ordenou que a CIA omitisse do Congresso a existência de tal programa, o que seria ilegal. “E, curiosamente, no momento em que volta a ser alvo da imprensa por conta de revelações comprometedoras, ele desapareceu. Outorgou à filha, Lynn, a tarefa de responder pela ilegalidade que cometeu. Aonde está Cheney?”, pergunta, sarcástica, a atual estrela do telejornalismo liberal nos EUA, Rachel Maddow, da rede MSNBC.

Nos corredores do Capitólio diz-se que Cheney está em casa, escrevendo -suas memórias. Crê-se que embolsará pelo menos 2 milhões de dólares pelo livro. “O episódio mais recente prova que Cheney captura a ambivalência que nós, norte-americanos, temos em relação à ideia de democracia. Seus defensores valorizam o homem que carrega o fardo do trabalho sujo nas costas, que não tem medo de fazer o que é preciso para nos proteger. Já seus detratores confirmaram as mais fortes suspeitas de que ele passou por cima da Constituição, tratando a democracia como uma abstração, um teatro. Cheney é um personagem que catalisa como ninguém o medo do americano comum”, diz o sociólogo Stephen Duncombe, da Universidade de Nova York (NYU), estudioso da simbologia política nos EUA.

Jamais figura popular, o único cargo eletivo de Cheney foi o equivalente no Brasil a deputado federal, eleito cinco vezes por Wyoming. Hábil articulador, chegou a ser o líder da minoria na Câmara. Sempre atraí-do pelos bastidores, foi chefe do estafe do presidente George Ford (que assumiu o governo no turbilhão do Watergate e se notabilizou pelo perdão concedido a Richard Nixon), secretário de Defesa de Bush I e, durante os anos Clinton, CEO da Halliburton, a corporação texana, uma das maiores beneficiárias de contratos de reconstrução do Iraque ocupado quando o Imperador já dava expediente na Casa Branca. Um CV que ajudou-o a bater, ao fim do governo Bush, todos os recordes de reprovação popular na história contemporânea dos EUA.

Alvo preferencial de humoristas por ser considerado o cérebro por trás da desastrosa política externa do governo Bush II, ele se tornou a piada do ano quando, em 2006, atirou por acidente em um advogado septuagenário durante uma caçada em um rancho no Texas. O amigo de Cheney foi alvejado no rosto, no pescoço e no torso. A acusação de que ele ultrapassou os limites constitucionais de seu posto ofereceu munição extra para seus críticos. “Se entendi direito, ele ligou para a direção da CIA e disse: ‘Meus meninos, se vocês encontrarem alguma coisa suspeita, me informem, o.k.?’ E ele, sozinho, resolveria tudo com suas próprias mãos. É assim que eles achavam que a coisa deveria funcionar!”, ironizou David Letterman.

Com Dick Cheney recusando-se a falar com a imprensa, Letterman ofereceu dez possíveis desculpas para o lapso de Cheney em uma imaginária entrevista coletiva. Em uma possível resposta o ex-vice-presidente diria “Como assim? Vocês acreditam mesmo que eu poderia violar o direito individual e constitucional dos cidadãos americanos? Vocês acham que estamos aonde, na Rússia?”. A mais capciosa ficou para o fim: “Se eu tivesse de revelar todas as coisas diabólicas que fiz, não teria nem tempo para atirar na cara de velhos amigos”.

Em artigo na Slate, Shane Harris, especialista em assuntos de inteligência e segurança do National Journal, semanal devorado pelos políticos de Washington, escreve que a investigação sobre os abusos de autoridade de Cheney poderá ser o primeiro grande fiasco na área da inteligência do governo Obama. “A CIA tem uma longa história de manter programas secretos e de omitir informação ao Congresso. Mas ficam algumas perguntas: mesmo com o Ato de Segurança Nacional, aprovado após os atentados de 11 de Setembro, e com os poderes especiais dados pelo presidente Bush a Cheney, não há qualquer especificação sobre a omissão de um programa deste porte ao Poder Legislativo. Com que autoridade Cheney manteve o sigilo sobre este programa? E como é que o novo diretor da CIA só foi descobrir este programa quatro meses depois de assumir a agência?”, questiona.

O presidente Obama já declarou mais de uma vez que “quer olhar para o futuro”, irritando liberais, ansiosos por uma faxina geral em Washington, com CPIs e pedidos formais de desculpas pelos oito anos de ataques aos princípios democráticos do país, e despetando a suspeita de que evitaria conflitos com figurões da administração passada. Mas depois das revelações do programa secreto de assassinato de terroristas, o procurador-geral Eric Holder anunciou que pensa em nomear um jurista para tratar exclusivamente de possíveis casos de tortura e desmandos durante os anos Bush. A direita teme que virtuais punições não parem em funcionários de baixo escalão e atinjam símbolos do partido no momento em que tenta se reestruturar para as eleições legislativas de meio-termo no ano que vem.

“A ultra-exposição de Cheney na tevê neste semestre, enquanto Bush manteve-se no ostracismo, parece-me uma tática de inoculação. Ele bateu duro em Obama para que seu próximo ato seja o de qualificar qualquer investigação que envolva seu nome como vingança pessoal. Qual o próximo passo? Ignorar Cheney ou puni-lo? Se optarem pela primeira opção, os democratas perderão legitimidade. Se investirem na segunda, a caça às bruxas pode galvanizar uma oposição que, neste momento, está em frangalhos”, pondera Duncombe.

O imperador, disposto a virar dublê de mártir, mais uma vez teria emparedado os democratas, divididos entre abrir as gavetas do governo Bush e oferecer munição para uma direita acuada ou enfrentar o desânimo dos liberais, interessados na transparência do poder público cantada até pouco tempo em prosa e verso por um certo senador de negro de Illinois.

segunda-feira, julho 06, 2009

CARTA CAPITAL - edição de 3/07


Internacional

Não será como nos anos 60

03/07/2009 14:55:24

Eduardo Graça, de Nova York


Para desconsolo de alguns imitadores brasileiros do estilo neocon, ninguém teve a coragem de defender o golpe militar que depôs Manuel Zelaya da Presidência de Honduras. Ao contrário. Houve uma inédita convergência entre os Estados Unidos e a Venezuela na condenação aos golpistas. A Organização dos Estados Americanos (OEA) exigiu a recondução de Zelaya ao poder até sábado 4, caso contrário Honduras será suspensa pelo organismo.


Analistas concordam que a veemência com que o presidente Barack Obama condenou o movimento armado redimensionou a extensão das mudanças da política externa norte-americana. Em 2002, o governo Bush reagiu de forma mais do que simpática à quartelada contra Hugo Chávez na Venezuela. “A reação é parte da tentativa de se diminuir os danos causados pela desastrosa política de Bush para a região. Foi na tomada de posição de Obama, aliás, que a reação decidida do presidente Lula contra o golpe teve mais impacto. Brasília ajudou Obama a dar o tom de sua resposta, menos presa à linha moderada da secretária Hillary Clinton”, diz o professor
Alejandro Velasco, especialista em América Latina na Universidade de Nova York e autor de celebrado trabalho sobre protestos urbanos na Venezuela entre 1958 e 1989.

Os EUA, que mantém em Honduras a Base Aérea de Soto Cano, sua principal unidade militar na América Central, considera a administração Roberto Micheletti ilegal. O político assumiu o executivo após uma “declaração de ausência” do presidente Zelaya votada no Congresso. Zelaya fora enviado de avião para Costa Rica, de pijamas, em uma seqüência de acontecimentos que lembrava a Brasília de abril de 1964. O governo Obama também adiantou o corte da ajuda econômica ao país se o ultimato da O.E.A. não for respeitado. Um oficial do departamento de Estado disse ao New York Times que a administração democrata aposta no isolamento total do novo governo, pois “não há mais espaço no século XXI para este tipo de golpe”.


Sinal dos tempos. De acordo com documentos oficiais, o golpe militar contra o governo esquerdista democraticamente eleito de Jacobo Arbenz em 1954 na Guatemala foi arquitetado pela C.I.A. a partir de Tegucigalpa. Meio século depois, veio de Washington a pressão para que o Banco Mundial anunciasse a suspensão de uma linha de crédito de 270 milhões de dólares que seriam usados em projetos sociais em Honduras. O incremento da atuação do Banco Mundial na América Latina é uma prioridade do governo Obama e são cada vez menos secretas as conversas nos EUA para que a instituição receba o comando de um líder latino-americano a partir de 2011. O nome favorito de Obama seria justamente o do presidente Lula. O Banco Inter-Americano de Desenvolvimento também anunciou pausa por tempo indeterminado de todos os projetos no país centro-americano, um dos mais pobres da região, com 50% da população vivendo em extrema pobreza, de acordo com a ONU.


Fica a dúvida de até quando os golpistas agüentarão a pressão internacional. Em Honduras, o novo governo não parece interessado em ceder um milímetro a sua posição: militares, a maioria conservadora no legislativo e a Suprema Corte entendem o ato militar de domingo como um contra-golpe, uma reação à tentativa de Zelaya de estabelecer um governo nos moldes do bolivarianismo chavista, desrespeitoso do equilíbrio entre os três poderes e fincado em uma prática de plebiscitos permanentes reduzindo a força da democracia representativa.


Tal linha de raciocínio não ganhou eco na mídia internacional. O NY Times destacou a manchete do Estado de São Paulo da terça-feira dando conta de que “Obama lidera a reação contra o golpe em Honduras” como um exemplo da política multilateral prometida pelo democrata na campanha eleitoral posta em prática em um momento de crise. Já o Washington Post pediu em editorial que Obama vá “além de Brasil e Chile” e condene tanto o golpe quanto a tentativa de ataque democrático de Zelaya à democracia representativa. O jornal não entrou no mérito da aprovação das reeleições pelos legislativos sem participação popular, como no caso do Brasil em 1998. Nem informou seus leitores que o plebiscito de domingo em Honduras daria aos eleitores o poder de convocar uma Assembléia Constituinte.


No jogo de xadrez da política externa nas Américas, Washington teria aumentado seu poder de pressão na hora de denunciar futuros abusos de governos eleitos democraticamente, como os da Bolívia, Nicarágua e Venezuela. Não por acaso, ganhou destaque na cobertura do golpe nos EUA as declarações dos líderes da oposição em Caracas, com a Acción Democrática rebatizando Hugo Chávez de “o George Bush da América Latina” por conta de sua ameaça de enviar tropas para Honduras. “Na batalha entre as visões de democracia que imperam hoje na região, o golpe em Honduras é uma derrota para Chávez na medida em que ele consolida Obama como defensor do princípio democrático”, diz Velasco.


Além de anunciar que não há a menor possibilidade de aceitar o retorno de Zelaya - um rico fazendeiro eleito com apoio da elite em 2006 e que deixou de lado o credo neo-liberal pelo evangelho chavista nos últimos dois anos depois de bater de frente contra o tratado de livre-comércio firmado com os EUA - o governo provisório de Honduras afirmou também estar preparado para defender a democracia hondurenha pela força das armas.

Na quarta-feira, Micheletti decretou estado de emergência e derrubou direitos constitucionais como a inviolabilidade de domicílio e o limite de 24 horas para prisões preventivas. O toque de recolher, em vigor desde domingo, permanecerá pelo menos até sábado, quando se encerra o prazo dado pela OEA para o retorno de Zelaya, que foi longamente aplaudido em seu discurso esta semana na sede da ONU.
Na quinta-feira, o secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, partiu para Tegucigalpa com sugestões como a anistia geral para os golpistas e a garantia de que Zelaya seja impedido de disputar a reeleição.

Se o impasse persistir, a pior opção, garante o historiador Greg Grandin, é a intervenção armada. Em comentado artigo na The Nation, o diretor do programa de pós-graduação de História da NYU diz que o departamento de Estado já trabalha com uma “alternativa Haiti”.


“Em 1994, Bill Clinton trabalhou para a volta de Jean-Bertrand Aristide ao poder. Foi um desastre, com aumento da pobreza e polarização política que prepararam o terreno para um segundo golpe de estado, em 2004, apoiado por Bush”, lembra. Washington, diz Grandin, deveria manter a posição de seguir o restante da América e evitar a todo custo uma saída militar para a crise: “Quando a presidente do Chile visitou Washington no mês passado um repórter perguntou a Obama se ele pediria desculpas em nome dos EUA pelo golpe contra Allende em 1963. Ele disse que estava interessado em olhar para o futuro. Pois bem, esta é uma oportunidade de ouro para Obama mostrar que ele rompeu mesmo com o passado e alinhou os EUA com a democracia em todos os seus tons, ainda que não se goste do ator principal escolhido pelos cidadãos de seus povos”.

quarta-feira, maio 20, 2009

Obama: Saúde

A Carta Capital desta semana saiu com um textinho meu sobre a prioridade número um de Barry O. em termos de política doméstica: revolucionar o sistema de saúde nos EUA. Não vai ser fácil. Mas uma virada de mesa é fundamental para o democrata combater, a médio prazo, a imensa dívida pública da maior economia do planeta.

Ó só o texto:

Diga trinta e três

Eduardo Graça, de Nova York


Não pareceu obra do acaso. Na segunda-feira 11, o presidente Barack Obama reuniu-se com os barões dos planos de saúde na Casa Branca e anunciou um acordo histórico com o objetivo de reduzir os custos anuais de tratamentos médicos em até 2,5 mil dólares para as famílias norte-americanas. Em meio à recessão, a terça-feira surgiu com o governo anunciando a acelerada deterioração financeira do Medicare, em consequência do crescimento brutal do desemprego verificado desde dezembro.

Em 2017, dois anos antes do previsto, o único programa federal público de seguro de saúde para idosos e inválidos nos EUA estará insolvente. O mesmo acontecerá com a Previdência Social, se nada for feito, em 2037. A erosão dos dois maiores fundos de segurança social do país é a mais nova arma usada pela administração democrata para avançar a sua agenda prioritária na política doméstica: a reforma do falido sistema de saúde norte-americano.

A ex-governadora do Kansas Kathleen Sebelius, que ocupa o equivalente ao cargo de ministro da Saúde na administração Obama, foi direto ao ponto, afirmando na quarta-feira 13 que o presidente vai fazer absolutamente tudo para que idosos e cidadãos mais pobres “finalmente tenham acesso à saúde”. “Queremos abandonar um sistema doentio para apresentar uma opção saudável para todo o país”, disse.

A secretária da Saúde celebrou o compromisso firmado por redes hospitalares, indústria farmacêutica, companhias de seguro de saúde e médicos em reduzirem em até 2 trilhões de dólares os custos do setor nos próximos dez anos. E refutou as críticas de que o plano democrata representará um ataque à livre concorrência, ao reforçar uma opção pública aos planos privados, hegemônicos no mercado. “A oposição dizer que se trata de um ataque ao capitalismo americano é uma falácia. A decisão final seguirá sendo a do cidadão”, afirmou, em entrevista ao principal programa jornalístico da rede de tevê pública dos EUA.

O governo estima que ao menos 45 milhões de norte-americanos (cerca de 15% da população) estejam sem qualquer plano de saúde no momento. Um profissional liberal em Nova York, por exemplo, paga até 800 dólares por mês – cerca de 1,7 mil reais – para garantir uma cobertura total, com leito exclusivo e atendimento em clínicas especializadas. Um custo que, com a recessão, vem sendo apelidado de “pesadelo americano”, em oposição ao american dream dos anos 50. Números que fizeram com que o setor engolisse a seco a frase de Obama na reunião de segunda-feira: “Os senhores assumiram aqui um compromisso. E nós esperamos que ele seja cumprido”.

O colunista Joe Klein, da Time, um dos mais influentes do país, escreveu esta semana que a esquerda democrata está correta ao argumentar que a margem imensa de lucro das seguradoras é parte fundamental dos altos custos do serviço para o cidadão comum. “Mas minha opinião é que a opção de um plano público é apenas um elemento de barganha do governo para incluir nas discussões moderados e até republicanos conservadores, criando um plano consensual, bem ao estilo de Obama”, arriscou Klein.

A pressão por uma regulamentação do setor já começou. A Organizing For America (OFA), organização criada por Obama a partir da lista de milhares de contribuintes de sua campanha à presidência, iniciou esta semana uma campanha de abaixo-assinados – e são mais de 3 milhões de e-mails associados à lista do grupo - pedindo que o Congresso vote um Plano de Reforma da Saúde ainda este ano. A OFA pretende pressionar especialmente os parlamentares de 37 distritos eleitorais representados por republicanos, mas que votaram em Obama no ano passado.

Mas a primeira grande batalha do braço político do presidente democrata não será das mais fáceis. Em análise publicada no The New York Times, Robert Pear lembrou que “se a história for levada em conta, as seguradoras não cumprirão as reduções de custo sugeridas, o que já se anuncia pelas propostas vagas de cortes. Neste exato momento, controle de custos é uma aspiração de todos os envolvidos. E nada mais”. Para o correspondente da The Nation em Washington, Ari Melber, o maior problema é justamente a falta de profundidade do plano. “Temos apenas três princípios básicos, redução de custos, a manutenção do direito de escolha do cidadão entre um número de planos e o compromisso do governo de levar a cobertura para todos. Como mobilizar o público a partir de noções tão vagas?”, pergunta.

Uma das primeiras pistas de como o Plano Obama funcionará foi dada por Sebelius nas entrevistas que concedeu esta semana. “Não há dúvidas de que os que têm mais possibilidades de pagar um plano de saúde arcarão com uma parte dos subsídios para os mais pobres, por exemplo, pagando mais caro por remédios. O valor do incremento será desviado para subsidiar os que comprovem não ter como pagar um plano privado nas condições de hoje”, disse.

Transferência de renda através de uma reforma na Saúde é justamente o que assusta a parcela de democratas eleitos em áreas mais afluentes, tradicionalmente ligadas aos republicanos. São eles, que, no fim das contas, garantem a maioria governista no Congresso. Já na terça-feira, 45 governistas, todos parte do grupo de austeridade fiscal conhecido como Blue Dog Coalition, anunciaram seu desagrado com a ausência de representantes das alas mais conservadoras do partido nas discussões em curso em Washington. Um dos líderes da banda moderada, Mike Ross, do Arkansas, já disse que o custo das reformas, que poderia chegar a US$ 1 trilhão em 10 anos, será uma pedra no sapato do governo na hora da votação no plenário. Entre os moderados, há médicos como Parker Griffith, do Alabama, que já se manifestou céptico quanto à criação de um plano de saúde público e universal.

Por se tratar de um dos temas mais contenciosos na atual legislatura, o ex-líder democrata no Senado, Tom Dashcle, nome inicialmente cogitado por Obama para ocupar a secretaria de Saúde, acredita que haja 50% de possibilidade de o plano democrata passar pela casa. Sebelius é mais otimista. “O presidente deixou muito claro que esta é sua prioridade número para política interna. Com os dados do Medicare e da Previdência, vimos que não há a opção de se jogar este problema pra frente. Também há uma lógica irrefutável aqui: tratando de mais americanos antes dos 65 anos, deixamos o Medicare menos sobrecarregado, pois as pesquisas mostram que os idosos serão mais saudáveis. Hoje, diria que temos 75% de chances de aprovar as novas regulamentações”, afirmou.

No Senado, outro quadro mais à esquerda do partido, o senador Charles Schumer, do Brooklyn, tenta estabelecer um compromisso em que as margens de lucro da indústria dos planos de saúde não seja reduzida drasticamente ao mesmo tempo em que o cidadão tenha a oportunidade de optar pelo plano público. Parte da oposição aponta a reforma no sistema de saúde como a prova das ‘tendências socialistas de Obama’, como vem martelando o comentarista de rádio Rush Limbaugh, o de maior audiência no país. Mas as vozes dissonantes, mesmo no reino da direita, começam a aparecer. O historiador Bruce Bartlett, que trabalhou nas administrações de Ronald Reagan e Bush pai, publicou texto no site Político defendendo uma postura diferente dos republicanos da que tiveram em 1993, quando os esforços de reforma comandados pela então primeira-dama Hillary Clinton foram duramente combatidos pela direita e acabaram sendo rejeitados pela opinião pública.

O encontro de segunda-feira teria sido justamente uma tentativa da administração Obama de se distanciar da batalha entre progressistas e conservadores que caracterizou o debate sobre a saúde na década passada. O especialista em saúde pública Greg Dworkin, um dos fundadores do site Daily Kos, quiçá o mais popular na porção liberal da blogosfera, concorda com Bartlett e avalia que o Congresso irá legislar sobre o tema ainda este ano. “A direita está esfacelada e os democratas têm maioria nas duas casas do Congresso, então os republicanos deveriam ao menos sentar-se à mesa para não terem de se debater com temas críticos depois de virarem lei”, diz.

Dworkin concorda com Joe Klein no ponto mais importante do Plano Obama – o oferecimento de uma real alternativa do governo para a massa de americanos abandonadas pelos planos de saúde e confinadas em imensas filas nos setores de emergências dos grandes hospitais. “Considero importante termos a opção de um plano de saúde público, mas ainda não podemos afirmar se esta administração nos oferecerá uma opção séria ou se este será apenas mais um tópico para se barganhar no Congresso”, diz.

sábado, maio 02, 2009

ENTREVISTA/Barry Libert

O Valor Econômico publicou neste fim de semana, na revista Eu&Cultura, a entrevista que fiz com o especialista em redes sociais Barry Libert. O homem lançou aqui nos EUA em janeiro Obama Inc., em um lance inegavelmente oportunista, transportando o fenômeno Obama às prateleiras de auto-ajuda para empresários e políticos. Como sabemos, desespero não falta, aqui e aí, nas duas classes.

O resultado é uma espécie de manual em que as virtudes de Obama servem de fórmula para o sucesso de empreendedores mundo afora. Tenho lá minhas dúvidas, mas Libert é simpático e fala bem, até dando dicas para virtuais candidatos ao Palácio do Planalto no ano que vem.


Ó só:


Na quarta-feira, o presidente Barack Obama completou 100 dias na Presidência dos Estados Unidos, marco simbólico presente no imaginário americano desde quando Franklin Delano Roosevelt chegou à Casa Branca, em meio à Grande Depressão, no começo dos anos 1930. Celebrado pelos democratas por conta de sua aceitação popular na casa dos 65%, o ex-senador de Illinois e sua meteórica ascensão são a matéria-prima de A Estratégia de Barack Obama, lançado nos Estados Unidos em janeiro e que a Campus/Elsevier publica
esta semana no Brasil.

Barry Libert e Rick Fault, os autores do livro (cujo título original é o mais inspirado "Obama, Inc."), são nomes imediatamente relacionados ao desenvolvimento e à administração de comunidades interativas no mundo digital: ocupam, respectivamente, a presidência e a chefia executiva da empresa Mzinga, especializada em criar soluções de software para redes sociais de empresas.

O
Valor conversou com Libert sobre as iniciativas de Obama nos primeiros três meses de governo e o impacto que sua vitoriosa estratégia de campanha, em grande parte apoiada em recursos de comunicação encontrados na internet, pode ter causado nos modos de se pensar o gerenciamento de empresas e também na formatação de disputas eleitorais em outros países.

Valor: O sr. teve a ideia para escrever o livro durante a campanha eleitoral?
Barry Libert: O senador John McCain, o candidato republicano, sequer sabia como usar a internet. E em um primeiro momento, a senadora Hillary Clinton parecia, até por ser mulher, saber como se comunicar melhor com o eleitor. Mas o livro surgiu quando comecei a escrever em meu blog sobre a emergência do primeiro líder social dos Estados Unidos no século XXI. Um político que se apropriava das novas tecnologias de forma brilhante, que entendeu como poucos o poder da interação social no mundo digital. Quando ele foi eleito, decidi que queria escrever um livro que tratasse dessa revolução na administração de uma campanha eleitoral, mas que não apenas registrasse o fato de ele ter usado o Myspace, o Youtube e seu próprio Mybarackobama.com com maestria, mas que mostrasse que todo profissional com papel de liderança poderiam aprender a importância de ser um líder social.

Valor: Quais as qualidades do líder social?
Libert: Ele é aquele que entende que negócios - e governo - são, sim, assuntos pessoais. Quando alguém diz a Barack Obama "eu te amo", e ele responde "eu te amo também", está aí uma mensagem tão íntima quanto efetiva. Já vivemos a era daquele que se dizia não ter nada de que se desculpar, por que era o comandante-em-chefe do país. Essa época acabou. Se eu disser para minha mulher, depois de 27 anos de casamento, "querida, sou o comandante-em-chefe", ela me despacha na hora. Não consigo pensar em nenhum outro governante com a capacidade de
comunicação de Obama, o único líder social planetário no momento, ao mesmo tempo transparente e com força pessoal.

Valor: O USA Today, em sua edição que marca os primeiros 100 dias de Obama na Casa Branca, diz que o segredo de seu sucesso parece ser "um equilíbrio entre descontração e firmeza, a vontade de exercer o poder e a capacidade de sedução, o cultivo de um tom professoral, quase ao ponto de se mostrar alheio aos interlocutores, sem perder a capacidade de negociar pequenos detalhes, jamais esquecendo de seus objetivos centrais à frente". São estas as características fundamentais, hoje, na administração de um país ou de um negócio de ponta?

Libert: Sim. Obama compreende que o grande desafio de seu governo - e de qualquer modelo de administração nos dias de hoje - é se mostrar próximo de todos, mas sem deixar de fazer o seu trabalho, de cumprir seus objetivos. E este é um equilíbrio muito difícil de alcançar.


Valor: Uma das grandes inovações da nova administração tem sido o uso do YouTube como ferramenta de comunicação direta com o público. Não há aqui um risco de populismo no contato direto do presidente com os cidadãos, com a eliminação da figura do jornalista como mediador?
Libert: Obama não usa mais nem mesmo a bancada do governo, na Casa dos Representantes, onde tem folgada maioria, por exemplo, para levar sua mensagem para o público. Os congressistas, como sabemos, têm seus próprios interesses. E nas democracias contemporâneas o mundo dos negócios e o da política têm sido cada vez mais voltados para o interesse desses protagonistas, e não da comunidade ou dos consumidores. Obama oferece uma volta à ideia do governo do povo, com o povo, para o povo. E o mundo dos negócios precisa entrar nesse barco: negócios do povo, para o povo, com o povo. O descompasso, aí, foi uma das razões da atual crise financeira. Não por acaso, muitos dirigentes empresariais e financeiros estão assustados com a realidade dos novos modos sociais de comunicação.

Valor: Quais são as principais lições que as empresas podem tirar da vitoriosa campanha de Obama?
Libert: São três lições básicas. A primeira, manter-se sempre calmo. Comandar não pressupõe raiva, zanga. Outra: liderar pelo exemplo. Seja coerente. E a terceira: use toda a tecnologia disponível para se conectar com as pessoas individualmente, abrindo espaço para que cidadãos se conectem diretamente com você de forma íntima. Pense na Garota Obama, que se transformou em fenômeno na internet ao gravar vídeos confessando que tinha uma queda pelo senador. Pense que campanha de base, hoje, também é feita na mídia eletrônica. E você precisa ser o agente da mudança. Se você quer que as pessoas usem "twitter" ou achem você e sua empresa no myspace, o movimento tem de começar com você.

Valor: A internet de banda larga, no Brasil, é considerada por especialistas uma das piores do mundo, lenta e cara. As lições pinçadas em seu livro não seriam menos aplicáveis à realidade brasileira?
Libert: De modo algum. O livro oferece aos brasileiros pistas de para onde o mundo dos negócios está indo. É impossível evitar as novas tecnologias. A internet, mesmo a que chega através dos celulares, aumenta a velocidade de tudo e oferece mais oportunidades de que a voz do eleitor, do consumidor, do cidadão, seja melhor ouvida. É inevitável. E, exatamente, como democracia, se espalha por conta própria.

Valor: Várias empresas brasileiras sequer permitem que seus funcionários tenham acesso a redes sociais como myspace ou que usem ferramentas como mensagem instantânea no local de trabalho...
Libert: Isso acontece nos Estados Unidos também, e é um erro. Construo redes sociais para as mais diversas companhias e a resistência é enorme. É a visão tradicional, de quem não quer dar voz aos funcionários. Comete-se o claro e terrível erro de se preferir não ouvir o que o empregado tem a dizer. O benefício de se abrir uma rede social para funcionários e clientes é o de se contar com consumidores mais integrados, que comprarão mais, empregados mais conscientes do projeto da empresa e acionistas cientes do caminho trilhado pela instituição.

Valor: De que modo os candidatos à sucessão do presidente Lula podem se inspirar na campanha de Obama para a disputa presidencial de 2010 no Brasil?
Libert: Obama conseguiu a contribuição recorde de US$ 800 milhões fazendo com que as pessoas acreditassem estar criando, de fato, o sucesso daquele político. Ele apostou, de modo certeiro, que o futuro é das grandes comunidades sociais. Um candidato ao poder em Brasília, sendo inteligente, vai deixar que as pessoas criem suas próprias marcas relacionadas a ele, como fez a Garota Obama. Vai abrir um espaço real para que as pessoas tenham voz em sua campanha. Vai redefinir a noção de participação. E vai deixá-las usar a criatividade em seu benefício. Enfim, a ordem é deixar que eleitores e consumidores carreguem a sua marca por você.

quinta-feira, abril 23, 2009

ENTREVISTA/David P.Gushee

O Terra Online publicou minha entrevista com o simpático professor de Ética Cristã da Universidade de Mercer, David P. Gushee, presidente da ONG Evangelicals For Human Rights, um dos nomes mais conhecidos do grupo de 'moderados evangélicos' que apoiaram a candidatura de Barack Obama à presidência no ano passado.

Aqui ele conta um pouco da corda-bamba em que anda o presidente mais liberal dos EUA em duas décadas, e aponta para uma possível explosão de conflitos éticos nos próximos meses aqui em Obamalândia.


Curiosamente, ele toca em tema que é recorrente no Brasil, a posição da Igreja Católica contra o uso de preservativos - inclusive para a prevenção de doenças venéreas e da AIDS - e a posição mais progressista dos evangélicos.

Ó só:

Sim às células-tronco afasta Obama de evangélicos moderados

EDUARDO GRAÇA

Direto de Nova York


Um aviso. E daqueles bem diretos. Em artigo publicado na segunda quinzena de março no USA Today, o jornal de maior circulação dos Estados Unidos, o professor de Ética Cristã da Universidade de Mercer, no estado da Geórgia, David P.Gushee, já dizia a que vinha no título: Presidente Obama, nós Precisamos Mais do que Discurso. Gushee, que é batista e presidente da organização não-governamental Evangelicals For Human Rights, dizia em seu artigo em tom de advertência que 'evangélicos moderados' como ele estavam desapontados com as primeiras medidas da administração Obama em assuntos caros à comunidade cristã, como o aborto e a pesquisa com células-troncos de embriões.


A escolha da governadora democrata Kathernine Sibelius, uma católica favorável ao direito de as mulheres decidirem se querem ou não abortar, para a secretaria da Saúde - cargo equivalente ao do ministro José Gomes Tinhorão no Brasil - e o anúncio das revogações de políticas adotadas com pompa pelo governo Bush, como a proibição de se enviar fundos federais para organizações que promovam o direito ao aborto e as restrições às pesquisas com células-tronco embrionárias, alarmaram os evangélicos centristas, importantes na vitória apertada de Obama em estados mais conservadores, como Colorado, Virgínia e Indiana.

Especialistas acreditam que este grupo representa cerca de 6 milhões de eleitores em todo o país, concentrados nos chamado swing states, que ora votam com a direita, ora com a esquerda.
Desde o início da campanha eleitoral, Obama contou com o jovem reverendo Joshua DuBois, um líder pentecostal, para estabelecer uma ponte entre sua candidatura e cristãos moderados, tanto protestantes quanto católicos. A brecha na coalizão cristã, que votou em peso em George W. Bush nas eleições de 2000 e 2004, levou a números significativos: nas eleições de novembro, Obama praticamente dobrou o número de eleitores evangélicos caucasianos entre 18 e 44 anos em relação a John Kerry há cinco anos.

Gushee, autor de O Futuro da Fé na Política Americana, constatou uma 'divisão de gerações' entre os evangélicos que enfraqueceu a coalizão republicana. Mas lembra agora que a dificuldade do governo Obama em encontrar um meio-termo para suas políticas sociais - por exemplo, cumprindo a promessa de campanha de criar iniciativas voltadas para a prevenção e redução do aborto - pode aliená-lo de uma base importante para as ambições futuras do Partido Democrata.

Mais preocupado com uma crise moral gerada pela ausência de salvaguardas para os moderados - por exemplo, o respeito do governo a médicos cristãos que se recusem a fazer aborto - do que em uma concentração ainda maior de evangélicos apoiando o Partido Republicano já nas eleições de 2010, quando boa parte do Congresso será renovada, Gushee conversou com o Terra sobre as guerras culturais que teimam em permanecer no centro do tabuleiro político norte-americano.


- O título de seu artigo na página de Opinião do USA Today é bem forte. O senhor acredita que parte dos chamados evangélicos moderados já se sentem traídos pela administração Obama em pouco mais de dois meses de governo?

- O mais correto seria dizer que estamos preocupados. Tememos não conseguir mais nada além do que palavras. Palavras e nada mais. Mas não estamos convencidos de que esta seja a instância final do governo Obama. O artigo representa um preocupação de que as promessas que o presidente fez durante a campanha e a esperança que ele nos despertou em termos de encontrar um caminho do meio não sejam de fato realizadas. Mas, ao contrário dos mais conservadores, não desistimos de Obama. Não acreditamos que ele seja falso ou um mero impostor, como a direita radical já o apresenta.

- O senhor esteve próximo dele durante a campanha eleitoral no ano passado. Poderia dividir suas impressões sobre Obama?
- Ele é extremamente inteligente e o que mais me impressiona é a capacidade de manter a calma no meio do furacão. Ele é disciplinado, conduziu uma campanha de forma honrada, e a experiência de líder comunitário possibilitou a ele se aproximar dos mais diversos grupos, incluindo os evangélicos moderados. Em termos religiosos, ele me parece ser alguém em busca de respostas, que tem interesse em diversas orientações religiosas. Ele me disse que era um cristão, e acreditei nele. Mas creio que ele se sente mais confortável com o aspecto social da religião, a vê como força impulsionadora de justiça social. E, apesar de muito jovem e inexperiente, foi, sem sombra de dúvida, o candidato que mais nos impressionou desde as primárias do ano passado.

- O senhor escreveu que a promessa de levar para Washington uma 'liderança transformativa' foi justamente o que mais o impressionou em Obama. Que seria possível um modelo diferente do de George W.Bush, que dividiu ainda mais o país em questões de âmbito culturais e sociais...

- O estilo de Obama, em geral, é conciliatório, e isso ajuda claramente o debate. Mas meu artigo centra em suas ações, depois de ocupar a Casa Branca, no que se refere ao aborto e a outros temas correlatos. Ações que não levaram a consenso algum. São apenas posições clássicas liberais, de esquerda.


- Uma de suas maiores decepções parece ser o esquecimento de uma das promessas de campanha dos democratas que recebeu maior acolhida entre os evangélicos moderados, a de que o novo governo iria iniciar esforços para a redução do número de abortos no país...

- Sim. Existem estudos que mostram como a ausência de políticas públicas levam a um incremento do aborto ou a não se levar em conta outras formas de prevenção ou soluções alternativas. O uso de contraceptivos, a educação sexual nas escolas, uma política de prevenção a abusos sexuais, o investimento do Estado nos casos de gravidez de pessoas menos favorecidas economicamente e uma política eficiente de estímulo à adoção passam pela questão do aborto. No mundo industrializado, os EUA têm os piores números no que diz respeito à gravidez indesejada. Há os casos de mães e casais que não têm plano de saúde e por isso acabam optando pelo aborto e o Estado precisa atuar nestes casos. O que queremos é que não haja esta possibilidade em um país rico como os EUA - a escolha o aborto exclusivamente porque não se tem dinheiro para criar um filho ou sequer para as despesas-extras no período de gravidez. Estamos prontos para trabalhar tanto com a secretária Sibelius quanto com o presidente Obama no desenvolvimento desta estratégia.


- Aqui há uma clara distinção entre evangélicos e católicos...

- Sim, no que diz respeito ao uso de contraceptivos. Sabemos disso, e este é um teste difícil para a Igreja Católica, que se opõe a métodos de controle natal, com exceção da abstinência sexual.

- No Brasil há uma discussão neste momento gerada pelos abortos clandestinos, que poderiam chegar a 1 milhão por ano, de acordo com estimativas extra-oficiais. O senhor acredita que a legalização do direito ao aborto seria uma salvaguarda para a saúde de mães dispostas a interromper a gravidez?

- Não tenho como entrar na realidade específica do Brasil, mas aqui nos EUA, por exemplo, não há a menor chance, em um futuro próximo, de que o direito ao aborto seja colocado fora-da-lei. Então, é possível, para um cidadão religioso, como eu, lamentar este fato e lutar para reduzir o número de abortos. Partimos do princípio de que há uma demanda por aborto em toda e qualquer sociedade em que o número de gravidez indesejada é grande. A mensagem dos religiosos não pode ser apenas não faça aborto, mas sim evite a gravidez indesejada.


- No Brasil, a Igreja Católica acaba de excomungar a mãe de uma menina de 9 anos, violentada pelo padrasto. A família optou pelo aborto, previsto pela lei, e os médicos que a atenderam também foram excomungados pelo Arcebispo de Recife e Olinda. O fato gerou reações do presidente Lula e do Ministro da Saúde, que enfatizaram a necessidade de se proteger a vida de uma criança vítima de um abuso sexual. O senhor não acha que líderes religiosos deveriam se abster de grandes debates públicos e se concentrarem em seu próprio rebanho?

-
Penso que líderes só são de fato religiosos e não políticos quando se lembram que sua audiência são os fiéis, seu rebanho. Quando tratamos de sociedades plurais, como a brasileira e a norte-americana, não há como pensar diferente. Pode-se proclamar seus valores, mas todos o estão fazendo: cristãos, judeus, muçulmanos, sem-religião, judeus. Cabe à comunidade decidir os valores que prevalecerão na sociedade. Diria que um valor religioso muito pouco apreciado, infelizmente, e que cabe aqui neste caso, é a liberdade de consciência.

- Mas não seria este justamente o caso da discussão sobre o aborto?

- Aí há uma luta de visões. Há quem considere sim esta uma questão de liberdade individual. Outros dizem que é uma proteção do ser humano em seu estado mais vulnerável.


- O senhor claramente está com o segundo grupo. E ainda vai além, afirmando que a justificativa ética para a pesquisa científica, no caso das células-tronco embrionárias, seria semelhante a fins condenados pelos liberais e pela esquerda - como o incremento econômico e a segurança nacional. Fins que não justificariam jamais os meios, no caso a destruição do meio-ambiente e o uso da tortura.
- Exatamente. E creio que tenho credibilidade para lidar com estes temas, já que fui um dos primeiros a colocá-los em destaque dentro da comunidade evangélica nos EUA. Defendo um limite nos experimentos médicos porque existem certos direitos intrínsecos do ser humano. Do mesmo modo que você não pode torturar um homem para garantir a segurança de milhares de outros, também não é eticamente correto fazer experimentos com embriões para o benefício da humanidade. A ética cristã, neste caso, funciona de modo igual, oferecendo um compromisso com a dignidade do ser vivo que não pode ser abordado como mais um item de comércio. Não se pode trocar uma vida pela outra. De certo modo, este utilitarismo é o que condenamos na prática do aborto também. Em nossa sociedade quase tudo pode ser trocado por algo que teria um valor supostamente maior, o que é extremamente perigoso.

- O que me leva à parte final de seu artigo, em que o senhor diz que 'se perdermos estas batalhas', se 'não alcançarmos um caminho do meio' a sociedade norte-americana entrará em um período de grande crise moral. O senhor diria que este poderia ser mais um imenso problema para a administração Obama?

- A sociedade institucionalizar o que chamamos de aborto on demand, ou seja, pela simples vontade da mulher, nos seis primeiros meses de gravidez, quando e como ela bem entender, é uma coisa. Mas não se respeitar o direito de médicos ou hospitais cristãos de se recusarem a fazer este aborto é outra. O que queremos evitar é uma guerra contra a religião. Não acredito que isso vá acontecer, mas parte de meu artigo foi uma advertência para que o governo proteja o direito de consciência dos profissionais de saúde e das instituições religiosas ou uma grande parcela da sociedade americana vai se sentir atacada por esta administração e isso seria muito, muito, muito ruim.


- O senhor já vê parte da comunidade evangélica mais moderada votando no Partido Republicano em 2010 por conta das primeiras medidas anunciadas pelo governo Obama?
- Ainda é cedo para sabermos se já houve esta migração na intenção de votos. Veja bem, 78% dos evangélicos caucasianos votaram em Bush em 2004 e 74% em McCain no ano passado. Então, a maioria seguirá votando na direita. Mas, claramente, houve uma mudança entre os mais novos, e em Estados que decidem o Colégio Eleitoral. O número de votos que o tíquete democrata recebeu entre jovens evangélicos foi o dobro do que recebera em 2004! E aí, sim, há um risco de evangélicos moderados, assim como de católicos centristas, que esperavam posições menos partidárias de Obama, abandonarem o presidente. É preciso que ele mande sinais de que implantará de fato uma política de redução do aborto como disse que faria. Mas ainda é cedo, e não se pode esquecer que há uma profunda crise econômica que afeta muito mais os eleitores neste momento do que os temas culturais e sociais.

quarta-feira, abril 08, 2009

ESPECIAL - CARTA CAPITAL: CRISE NA IMPRENSA AMERICANA

A Carta Capital que está nas bancas esta semana trás uma reportagem do escriba aqui sobre a crise na mídia impressa nos EUA. O texto foi escrito antes de o New York Times anunciar o provável fechamento do maior jornal da Nova Inglatetrra, o Boston Globe, mas depois de eu conferir o ótimo Intrigas de Estado, que chega aos cinemas americanos na sexta-feira e nos brasileiros em junho.

Na foto acima, Russell Crowe é o jornalista velha-guarda, Rachel McAdams a blogueira e Helen Mirren a poderosa editora de um jornal lutando para sobreviver na nova e dura realidade econômica pós-crise.

Segue o texto:


A Era do Gelo
POR EDUARDO GRAÇA, DE NOVA YORK

Os últimos minutos
de Intrigas de Estado, filme de Kevin Macdonald que chega aos cinemas brasileiros no dia 12 de junho, não é dedicado aos protagonistas Russell Crowe ou Ben Affleck. Um tributo a Todos os Homens do Presidente, o clássico de Alan Pakula com Dustin Hoffman e Robert Redford, Intrigas de Estado termina com uma “elegia ao processo de impressão em papel do jornal”, nas palavras do diretor britânico. A audiência é convidada a observar, passo a passo, o processo de criação da primeira página de um diário nos dias de hoje, do computador à impressão final. “Esta foi a maior homenagem que poderia fazer ao jornalismo impresso e à sua importância na vida contemporânea. Quis registrar, na tela, o fim de uma era”, diz o diretor, conhecido do público por O Último Rei da Escócia, que narra as aventuras de um médico escocês na Uganda do ditador Idi Amin.

Aqui jaz o jornalismo
norte-americano? Hollywood, desta vez, não parece estar exagerando. Desde o início da crise financeira, nada menos que 93 jornais norte-americanos diminuíram sua periodicidade, cortando pelo menos um dia de circulação. Outros cinco simplesmente abandonaram seus parques gráficos e optaram por versões exclusivamente on-line, diminuindo radicalmente o número de funcionários e, conseqüentemente, a produção de reportagens.

Ainda circulando normalmente, mas com redações em pânico, estão jornais-símbolo da imprensa dos EUA, como o Los Angeles Times, o Chicago Tribune e o Philadelphia Inquirer. Todos entraram com pedido de falência nos últimos meses. Como o Inquirer é também o dono do Daily News e o Chicago Sun-Times anunciou no último dia de março seu débâcle financeiro por conta de uma dívida de mais de 60 milhões de dólares com o Fisco americano, todos os grandes jornais das capitais do Illinois e da Pensilvânia faliram.

Do outro lado do país, a situação não é mais animadora. Denver e Seattle perderam a primazia de ter jornais concorrentes. Enquanto o Post-Intelligencer, um símbolo da capital do estado de Washington, decidiu na segunda quinzena de março que passaria a ter apenas uma versão na internet, ofuscando o globo adornado por uma águia, um dos mais reconhecíveis símbolos de Seattle, o Rocky Mountain News simplesmente fechou as portas depois de 150 anos de jornalismo local.
Intrigas de Estado serve-se deste cenário de terra-arrasada para contar a história de um jornalista investigativo do diário The Washington Globe (mesclando os nomes do Post com o maior jornal da Nova Inglaterra, o Boston Globe), decidido a desvendar um crime que envolve parlamentares e lobistas em uma Washington mais sofisticada em todos os âmbitos, incluindo nos artifícios utilizados para apropriar-se do Erário. “O grande risco do desmantelamento da imprensa norte-americana, com toda sua tradição combativa, é o enfraquecimento da democracia tal qual a conhecemos. Intrigas de Estado funciona como uma metáfora do que acontece com os grandes jornais americanos nos dias de hoje, estes imensos animais que vão morrendo lentamente”, diz Macdonald.

O tinhoso escocês
, que sonhava ser jornalista e iniciou-se na produção cinematográfica dirigindo documentários depois de mendigar por um emprego, sem sucesso, nos principais jornais britânicos durante a recessão dos anos 90, é um fã declarado de Todos os Homens do Presidente.

No clássico de Alan Pakula, Dustin Hoffman e Robert Redford encarnavam os repórteres do Washington Post responsáveis por desvendar o escândalo do Watergate, que levaria à renúncia do presidente Richard Nixon, em 1974. Em Intrigas de Estado Mcdonald opõe ao velha-guarda Russell Crowe – com cabelos longos, barba por fazer e usando pouco mais do que uma mesma peça de roupa durante as duas horas de ação – a blogueira vivida por Rachel McAdams, representante de um novo jornalismo, mais asséptico e conformista.

“Abordo, no filme, aquele que considero ser o tema mais importante de nossos tempos. Qual será o poder da opinião pública com a decadência da imprensa diária? Como a sociedade poderá fiscalizar seus governantes? O que acontecerá com o jornalismo diário e de âmbito local? Como serão filtradas as notícias internacionais se não há dinheiro para bancar grandes reportagens investigativas?”, pergunta o cineasta.

Se os jornais tentam sobreviver e cortam custos, os mais badalados sites e blogs da internet buscam formas de financiar um tipo de trabalho mais semelhante ao que tornou a mídia impressa essencial no mundo contemporâneo. O Huffington Post, de Ariana Huffington, acaba de anunciar a criação de um fundo para financiar reportagens investigativas, item casa vez mais raro nas edições de jornais e revistas ao redor do mundo.

O fundo terá dinheiro do próprio Huffington Post e do The Atlantic Philantrop, organização que tem entre seus maiores mecenas o bilionário Chuck Feeney, criador das lojas Duty Free. Em San Diego, na Califórnia, um grupo de jovens repórteres criou o Voice of San Diego, sustentado por contribuições voluntárias e que se propõe a oferecer uma cobertura da cidade que os meios tradicionais abandonaram faz tempo. Seria esse o caminho do jornalismo na web?

Ainda é cedo para avaliar se essas experiências serão bem-sucedidas. O caso de Ariana é, poré, distinto do dos jovens do Voice of San Diego. A ex-socialite
conservadora de origem grega metamorfoseada em darling da esquerda festiva tornou-se na mais improvável das baronesa da mídia dos EUA. Há quem a chame de ‘viúva negra’ do jornalismo ou considere seu trabalho desonesto por, em tese, valer-se do material publicado por veículos impressos.

Ariana acaba de ser retratada em um perfil da revista Time. O título não poderia ser mais apropriado: O Oráculo. O subtítulo, bem menos lisonjeiro, anuncia: Como Ariana Huffington golpeou a mídia de dentro usando charme, amigos, dinheiro, a internet e o trabalho alheio.

O Huffington Post é hoje o décimo-quinto mais popular da internet na área de notícias, poucos cliques atrás do The Washington Post e acima da BBC. São 8,9 milhões de usuários e 1 milhão de comentários por mês, de acordo com a Nielsen, no que já é o maior cartão de visitas do jornalismo participativo. E enquanto o New York Times emprega mais de mil funcionários em sua área editorial, o The Huffington Post conta com 55. Apenas cinco são repórteres. “É preciso ter um cuidado enorme na hora de dizer crise da imprensa. Os americanos nunca tiveram tanto acesso à informação como nos dias de hoje. Prova disso foi a maneira como se acompanhou a campanha presidencial no ano passado. Há sim uma crise, mas de um certo tipo de imprensa”, afirma o professor da Universidade de Nova Iorque (NYU) Mitchell Stephens, um dos maiores especialistas em comunicação de massa dos EUA.

Autor do clássico Uma História da Imprensa, eleito pelo New York Times um de seus livros do ano na virada dos anos 80, Stephens foi convidado este ano pela Universidade de Harvard para trabalhar em um projeto piloto que pretende propor mudanças na prioridade de cobertura da mídia americana, acentuando a importância das análises voltadas para um leitor já saturado de notícias.

Para Stephens, se podemos olhar para clássicos como Todos os Homens do Presidente afim de encontrar pistas sobre o que aconteceu com a imprensa americana, o paralelo mais exato do jornalismo nos tempos de Barack Obama é estabelecido com a indústria da música. “Durante 150 anos o jornalismo mudou muito pouco. A função do jornalista é a de reportar notícias, que são vendidas em forma de papel. Exatamente como a música, que até a invenção do disco era imaterial, a imprensa está voltando para seu passado, para os tempos de Benjamin Franklin, em que sua função era mais a de ser uma grande arena para os debates de opinião pública, de interpretação dos eventos. Notícia tende, nos dias de hoje, a ser vista como um valor mais barato, quase gratuito”, diz.

O professor da NYU
concorda que o jornalismo investigativo implica custos ainda não cobertos pela publicidade gerada pela internet, mas lembra que "a rede é um bebê, que ainda engatinha". E aponta a decisão do presidente Obama de usar o YouTube para promover conferências em que fala diretamente com os cidadãos como uma forma revolucionária de se adaptar aos novos tempos.

“Será que a democracia precisa de setoristas de jornais do país inteiro em Washington? O governo federal passará a ser coberto por poucos jornais de âmbito nacional e blogueiros locais, especializados no tema. Será que sofreremos um grande golpe se o Chicago Tribune ou o Boston Globe deixarem de circular? Mesmo?”, provoca Stephens. O acadêmico concorda que um dos revezes na nova face da imprensa norte-americano será a diminuição de postos de emprego para jornalistas convencionais.
“A reportagem, tal qual como conhecemos, está fadada a se reduzir. O repórter investigativo continuará existindo, mas apenas em alguns poucos jornais e em sites especificamente voltados para o tema. Revistas como a Newsweek, por exemplo, parecem ter entendido os novos tempos e estão e moldando na The Economist para apresentar mais análises do que notícias requentadas, já esgotadas durante a semana. O leitor não busca mais um resumo, ele quer ir além, quer o destrinchamento de temas já explorados de forma exaustiva por outros meios”, diz.

Stephens brinca que, se estivesse no comando do New York Times, não estaria tão interessado assim no rumo das mudanças da grande imprensa. Confessa sentir uma dor na barriga ao pensar no dia em que o jornal decidir concentrar-se na internet – caminho que lhe parece o mais provável – e seu exemplar deixar de chegar em sua porta todas as manhãs. O conservador The New York Post criou um Termômetro que, diariamente, está nas posições mais baixas, mostrando os revezes sofridos pelo concorrente liberal. Desde janeiro, as notícias são sempre destaque de alto de página no tablóide de Rupert Murdoch: a hipoteca do moderno prédio erguido pelo arquiteto Renzo Piano, a venda de ações para o bilionário mexicano Carlos Slim, a redução de salários para todos os funcionários não sindicalizados (incluindo editores e gerentes) em 5% e até mesmo o jato do NYT posto à venda.

“Estes são os tempos mais duros que enfrentamos em todos os nossos anos neste negócio”, disse o CEO do NYT, Arthur Sulzberger, no memorando enviado aos funcionários sobre a redução salarial. Em um evento na Universidade de Stony Brook, Sulzberger afirmou que “o futuro imediato do jornalismo tradicional nos EUA é, no mínimo, sinistro”, já que “as formas regulares de injeção de recursos estão anêmicas e piorando a cada dia”.

O outro grande jornal norte-americano de projeção internacional, o Washington Post, anunciou este mês o fim de sua seção de Negócios e da página dedicada às ações do mercado financeiro, com o objetivo de reduzir custos de impressão. E, em Nova York, a emblemática logomarca da revista New York, que durante uma década ocupou com destaque o ponto nobre da torre da 444 Madison Avenue, entre as ruas 49 e 50, dá lugar à loja de roupas Burberk. Antes da New York, o prédio de 42 andares era conhecido por ser o quartel-general da Newsweek, que durante 30 anos manteve seu logo no topo.

A mídia americana esteve
na berlinda até mesmo na primeira visita de um presidente em exercício a um talk show, tento conquistado por Jay Leno, na NBC. Leno contou em seu monólogo na abertura do programa que muita gente estava surpresa com a aparição de Barack Obama em seu Tonight Show, já que aparentemente o democrata não agüentava mais ter de lidar com empresas à beira de um desastre financeiro por conta dos altos salários de seus executivos e sua baixa lucratividade. Ele falava de bancos, empresas automobilísticas e, também, da grande imprensa.

A publicidade na mídia americana somente cresceu em dois setores no ano que passou: internet e televisão a cabo. De acordo com o Interactive Advertising Bureau, foram 23,4 bilhões de dólares em 2008 gerados por anúncios na internet, um aumento de 10,6% em relação a 2007. Porém, o incremento da internet ainda não consegue bancar o custo de produção de jornais e revistas. Especialmente quando se leva em conta que 57% dos anúncios no ano que passou foram "de performance", ou seja, são calculados de acordo com o número de cliques na propaganda feit pelos usuários dos web sites.

Um microcosmo do que acontece no jornalismo norte-americano são as quatro cidades do estado de Michigan, no Meio-Oeste, que se preparam para ficar sem diários impressos. Em Ann Arbor, o Ann Arbor News, com 174 anos de história, será encerrado em julho e substituído por um site. Todos os funcionários serão demitidos e há a idéia de uma versão impressa de formato reduzido, que circulará apenas dois dias por semana. As cidades de Flint, Saginaw e Bay City terão publicações impressas apenas nos fins de semana.

Em entrevista ao The Daily Telegraph a CEO da Time Inc., Ann Moore, anunciou estudar maneiras de cobrar pelo acesso eletrônico do conteúdo das revistas publicadas pelo grupo, hoje aberto na rede. A idéia é ter – assim como já faz o Wall Street Journal – parte do conteúdo produzido pelas equipes de reportagem de Time e People, mas também da CNN.com, abertos ao público, enquanto outra parcela seria reservada exclusivamente para assinantes.

“Informação bem produzida custa dinheiro. Alguém precisa bancar nosso escritório em Bagdá. Quem é que iniciou esta história de que todo conteúdo deve ser livre? Eu digo isso em universidades e as pessoas querem jogar sapatos em mim. Então repito: crianças, sua comida não é de graça, seus carros não são de graça, suas roupas não são de graça!”, disse Moore.

O paralelo oferecido com a cambaleante indústria da música, na visão de Mitchell Stephens, casa com o desabafo de Moore. “Assim como não se pode dizer que a música está em crise, também não creio que a reportagem esteja. O que estão padecendo são dois tipos de indústria que não se coadunam mais com os novos tempos”, diz o professor da NYU. Os 3 mil blogueiros que trabalham de graça para o HuffPo (em sua maioria, nomes famosos de Hollywood, da academia ou do mundo político) se vêem como "curadores da notícia", garimpeiros do turbilhão de novidades publicadas diariamente em todos os cantos da mídia.

Curiosamente, Ariana teria ficado extremamente ofendida com a idéia, sugerida no subtítulo do perfil da Time, de que ela estaria se aproveitando da sangria da mídia tradicional para erguer um novo modelo de empresa de comunicação. Ao contrário, ela se vê ‘experimentando’ um modelo de ‘jornalismo distributivo’, em que qualquer observador da notícia, não apenas o repórter treinado, pode escrever para seu ultra-democrático HufPo.

É justamente esse
novo jornalismo, proposto pela baronesa da mídia digital e saudado pos setores da academia, que levou David Von Drehle, durante anos uma das estrelas do Washington Post e um dos autores do que muitos consideram ser o livro-reportagem definitivo sobre a disputa entre Al Gore e George Bush nas eleições de 2000 (Deadlock), a fazer uma crítica dura ao jornalismo praticado na internet. Para Drehle, sites e blogs não sobreviveriam sem o conteúdo produzido pela mídia tradicional.

“Todas as vezes que um jornal, uma fonte de notícias, morre, e um site de opinião on-line floresce, nos movemos para mais perto do dia sem fatos em que os falastrões terão um único tópico de discussão: eles mesmos”, criticou o veterano jornalista.

quinta-feira, abril 02, 2009

AMERICANA: Uma Crônica da Recessão em NYC

A Carta Capital publicou na edição que circula esta semana uma crônica-reportagem deste escriba, na abertura da revista, na seção normalmente chamada de 'Brasiliana'.

Esta foi uma 'Americana'. As fotos são minhas, tiradas no SoHo, na Union Square e no East Village.

Ó só:

Liquida Nova York

Eduardo Graça

"É fácil constatar a crise em Nova York. Você observa o número de pessoas zanzando pela cidade e a quantidade de bolsas que carregam. A temperatura já começou a esquentar, mas há bem menos sacolas que pessoas, presságio de que as contas podem não fechar no fim do mês.” O texto é de economista, mas a criadora do método empírico de análise da crise financeira em Main Street (termo usado pelos norte-americanos para definir o comércio de rua, em oposição a Wall Street) é a vitrinista brasileira Marilla Maia, 44 anos, uma das duas funcionárias fixas da Ariella, no coração do SoHo, onde se concentram as lojas de marca mais populares da cidade, destino primeiro de sacoleiros de todas as nacionalidades.

Nas ruas de paralelepípedo que cercam a Broadway acima da Canal e abaixo da Houston, o corre-corre de transeuntes é o mesmo de todo começo de primavera, com os casacos aposentados e lojas como a Banana Republic, a Gap e a japonesa Uniqlo a apresentar suas novas coleções. Donos da loja Malharia Nacional, com sede em Jacutinga, no interior mineiro, e filiais no Belenzinho e no Brás, em São Paulo, Erika Caramel, 37 anos, e seu marido, Nobile, de 39, vêm religiosamente a Manhattan para se manter atualizados e comprar peças. Mas a experiência nesta primavera foi menos frutífera. “As coleções estão bem mais fracas, não há muitas inovações. Parece que as lojas resolveram investir no que já tinham em mãos. É mais em conta dar uma renovada básica no estoque do ano passado, né? Moda de crise”, arrisca Erika.

Nobile busca os efeitos positivos da retração econômica. Conta que é possível pegar um teatro na Broadway (o casal viu Chicago, lotação esgotada, confirmando a máxima de que, na crise, a indústria do entretenimento navega feliz na maré alta do escapismo) e escolher com calma em que restaurante esticar a noite no Theater District.
Ele conta que o Carmine’s, um italiano da Rua 44, bem popular entre brasileiros e normalmente com filas de virar o quarteirão, estava mais do que convidativo na semana que passou. “Pela primeira vez, em anos de Manhattan, não tivemos de disputar táxis no meio da rua. É um mar de carros amarelinhos pelas ruas, com os motoristas brigando para você entrar no carro deles. Subversão completa”, diz.

Erika, ainda saboreando a surpresa de conseguir uma mesa imediatamente no Carmine’s – “já houve ano em que tínhamos de esperar até uma hora para sentar"- chama a atenção do repórter para outra área improtante para a economia da cidade: o Fashion District. "Se você está achando o SoHo às moscas, precisa ver como andam as lojas da Quinta Avenda e da Madison", diz. Lá se concentram lojas mais exclusivas, como as da Louis Vuitton, Hermés e Saks, e o movimento, contam, não é dos melhores.

Depois da correria por descontos durante o momento de explosão da crise, no fim do ano passado, quando peças saíam até 70% mais baratas do que seus valores originais, a coleção de Primavera-Verão, a mais procurada por brasileiros, chegou às lojas sem qualquer abatimento. “É como se eles tivessem testando o consumidor, para ver se ele vai cair na tentação ou esperar para ver se os preços vão despencar novamente em algumas semanas”, diz Marilla. A vitrinista confessa que usou uma tática especial na hora de montar sua vitrine com a nova coleção da loja: escolheu peças variadas cujos preços não passam de US$ 80. “Assim o cliente só toma o susto quando já estiver dentro da loja”, conta, lembrando que entre os meses de novembro e fevereiro teve uma redução de cerca de 10% em suas vendas em relação ao mesmo período na virada de 2007 para 2008.

Pelo menos houve algum entra-e-sai durante o tempo em que a reportagem de Carta Capital esteve na Ariella. A 200m da loja de Marilla, na mesma calçada, a brasileira Rosa Chá – cujo foco são peças de praia – estava às moscas.
Mas pelo menos no SoHo não se vê muitas lojas fechadas. No East Village, bairro dos restaurantes da moda e dos bares mais descolados da cidade, surpreende o número de placas procurando novos interessados em alugar espaços comerciais.

Em apenas um bloco na Rua 12, entre as Avenidas A e B, três lojas fechadas deixaram ilhados o salão John Gabriel. O cabeleireiro de mesmo nome, com seu enorme afro, atendia um único cliente enquanto respondia com pouco ânimo a razão do relativo sucesso. “Os negócios estão indo mais ou menos. Mas não posso conversar muito agora porque o cliente pode reclamar. E este eu não posso perder!”, se desculpava, revelando que cabeludos em busca de um retoque se transformaram em objeto de desejo de profissionais como o estilista do Village.

Algumas quadras a oeste e o panorama era completamente diverso. Na feira de produtos orgânicos da Union Square a comerciante Stephanie Villani, 40 anos, não conseguia disfarçar a empolgação. Com seus dois ajudantes, ela voltava à feira depois do descanso de inverno, e estava com medo da bruxa da recessão. “Montamos o nosso estande de manhãzinha cedo e começamos a ouvir histórias dos clientes. Cada história pior que a outra: dinheiro perdido no mercado de ações, economia com escola e plano de saúde, hipotecas de casas atrasadas. Um horror. Mas todo mundo contava uma história e comprava um peixe. Agora são quase cinco da tarde e já vendemos praticamente tudo!”, comemorava.

Os Villani são donos da Blue Moon Fish e trazem para Nova Iorque pescados frescos de Long Island. Os dois sucessos do dia foram o filé de cod – um primo do nosso bacalhau, mas em estado natural – que saía a US$ 10,95 por libra, e graúdas vieiras escolhidas a dedo por Stephanie. “As pessoas me disseram que estão deixando de ir nos restaurantes e cozinhando mais em casa por conta da crise, como forma de economizar. Hoje tive um dos melhores primeiros dias de primavera de nossa história! Já estou apostando em um ano especialmente bom. É estranho dizer isso, mas, para mim, a crise acabou se revelando em mais dinheiro na caixa registradora”, disse.

Histórias de pescadores, no entanto, não fazem grande sucesso do outro lado do East River. No Brooklyn Heights, que margeia a Ponte do Brooklyn, a crise chegou de forma avassaladora. A rua de comércio principal do bairro, a Montague Street, ganhou até mesmo uma série a ela dedicada no blog mais popular da área. O título - mais direto impossível - é A Crise na Montague.

Chris Calfa, da Lassen & Hennings, a tradicionalíssima casa delicatessen especializada em catering da Montague, diz que nunca viu uma diminuição de negócios como a desta temporada, nem durante as recessões dos anos 90 e o trauma pós-11 de setembro. Ele também comanda uma pizzaria e uma lanchonete na área. No bloco que vai da Clinton até a famosa Promenade, de onde se tem uma das melhores vistas da cidade, oito sinais de ‘aluga-se’ aparecem em destaque e uma das lojas que estão fechando as portas é a de Ann Taylor.
A líder no setor de roupas femininas para a classe média americana não vai abandonar apenas o Heights. Serão 100 lojas fechando as portas em todo o país, um drástico aperto de cintos que comprova, na prática, a sensação de que a crise deixou Wall Street e contaminou Main Street de forma irreversível.

E qual é a saída? Para Calfa, reduzir o tamanho – e o preço - de seus disputados sanduíches e tortas. Para Marilla Maia, dois imensos cabides com promoções de até US$ 20, sem esquecer do velho e bom sorriso na face. E o truque da vitrine, claro. Para os Villani, se transformar em dublê de analista na hora de ouvir as histórias dramáticas da crise. “E, se oa história era muito barra-pesada, dávamos pedaços de pescado de brinde para se fazer sopa. E, como você pode ver, não sobrou mais nenhum. Dá para imaginar o teor das histórias”, diz Stephanie Villani, pela primeira vez com o rosto fechado nesta boa tarde de negócios na Union Square.