quarta-feira, março 21, 2007

Manchetes de Quarta-Feira

Uma corrida pelos principais jornais da vizinhança e, no detalhe, a primeira página do NYT com a chegada do quase-presidente eleito Al Gore a Washington. Da última vez em que esteve no Capitólio, lá se vão sete anos, Gore certificou a vitória eleitoral de George Bush em 2000.



- N.Y. TIMES: Estrela de um filme bem diferente, Al Gore retorna ao Capitólio (ex-vice presidente fala no Congresso sobre aquecimento global)

- WASHINGTON POST: Bush avisa que aliados irão depor apenas em sessões fechadas, irritando o Congresso no caso dos procuradores federais aparentemente demitidos por pressão da Casa Branca

- L.A. TIMES: Bush enfrenta Congresso na crise da demissão dos procuradores federais: presidente recusa liberar Karl Rove para depoimento e abre campo para uma batalha constitucional.

- USA TODAY: Prefeitos de todo o país buscam mudar a legislação e tomar o controle das escolas públicas (sucesso de algumas cidades impulsiona mudança política)

- NY DAILY NEWS: O que Naomi Campbell realmente pretende fazer daqui para a frente

SHOW/Welcome to Dreamland

Chegou aqui em casa hoje a Bizz de março, com outras duas colaborações do blogueiro aqui. A primeira foi o ótimo Welcome to Dreamland, uma reunião de feras do freak folk americano aqui no Carnegie Hall em pleno 2 de Fevereiro, que abriu a seção Barulho da revista. Fui convidado por Mr.Pratt e curti tanto que escrevi para a revista o relato abaixo:

FREAK BROTHERS

Evento organizado por David Byrne reúne adeptos do neo-folk no lendário Carnegie Hall

E quem disse que não se dá vivas a Iemanjá em Manhattan? No dia 2 de fevereiro, com a chuva castigando impiedosamente o inverno nova-iorquino, Cibelle, vestido azul-água comme il faut, adentrou o palco do Carnegie Hall e dedicou a jobiniana Por Toda a Minha Vida à deusa das águas em uma interpretação delicada. Ao lado da parceira de Suba no delicioso São Paulo Confessions estavam o coletivo californiano Vetiver e o nerdíssimo britânico Adem. O pretexto era Welcome to Dreamland, a segunda das quatro noites organizadas por David Byrne dentro da série Perspectives, o evento de luxo da temporada no mais cool dos palcos do circuito mainstream da cidade.

DEVENDRA BANHART FECHOU A NOITE ORGANIZADA POR DAVID BYRNE APRESENTANDO DUAS MÚSICAS NOVAS. NUMA DELAS, DECLARA: "ESTOU DOIDÃO, ALEGRE E LIVRE"

Pela terra dos sonhos passaram ainda as irmãs Casady, isto é CocoRosie, com seus vestidos vitorianos, harpas, violinos e vozes de um estranhamento ímpar; a diva folk Vashti Bunyan, responsável pelo clássico folk Another Diamond Day (1968) e que cantou lindamente Pillow, do primeiro (e melhor) disco de Adem, Homesongs; e, claro, Devendra Banhart. O fã de Caetano fechou a noite com duas arrebatadoras músicas novas, com banda eletrificada no palco, e letras de uma objetividade desconcertante. Em uma delas ele declara que ‘está doidão, alegre e livre’. Em Banderas, a nova carta de intenções de Banhart, com Cibelle nos backing vocals, ele parte das semelhanças nos desenhos de símbolos de terras tão distantes quanto a Alemanha e a Califórnia a fim de encontrar um tempo de congraçamento entre os homens de boa paz.

Não por acaso, com Byrne à frente, ecoando suas palavras no início do evento (‘que este seja mais uma provocação do que apenas um outro show’) os artistas se juntaram ao fim para cantar o Bird’s Lament, de Moondog, o mais freak dos folks, que vivia nas ruas de Nova Iorque e morreu em 1999, aos 83 anos. Durante mais de duas décadas ele bateu ponto logo ali na esquina da rua 54 com a Sexta Avenida, portando seu chapéu de viking e cantando como ninguém. Foi de arrepiar.

terça-feira, março 20, 2007

Manchetes de Terça-Feira

Uma corrida pelos principais jornais da vizinhança que trataram dos cinco anos de ocupação norte-americana no Iraque. O destaque fica por conta do especial trazido pelo Washington Post, com uma série de reportagens e análises sobre a presença de 135 mil soldados ianques no Oriente Médio:



- WASHINGTON POST: Especial - Invasão do Iraque completa 5 anos (Bush pede que Congresso democrata mostre 'coragem e capacidade de decisão' ao tratar das novas diretrizes da ocupação militar)

- USA TODAY: Apoio à democracia despenca (pesquisas mostram que iraquianos não acreditam nem em eleições nem no governo de Bagdá)

- N.Y. TIMES: Bush pede 'paciência' no aniversário de quatro anos da ocupação do Iraque (presidente alerta para a 'tentação' de 'arrumar as malas e voltar para a casa' antes do dever cumprido)

O Voto das Mulheres Negras

Na revista New York que acabou de chegar aqui em casa, Donna Brazile, estrategista da campanha de Al Gore e comentarista da CNN, uma das maiores especialistas em corridas eleitorais aqui nos EUA, diz que a chave para a conquista do voto negro (basicamente democrata) em 2008 está com as mulheres.

Uma recente pesquisa da ABC-Washington Post mostra que o apoio dos negros a Hillary Clinton caiu dramaticamente desde o lançamento da candidatura Barack Obama: de 60% para 33% das intenções de voto. Pior, no eleitorado feminino, em todos os grupos étnicos, seu eleitorado caiu de 49% para 40%.

Diz Brazile:

"O que realmente comanda a maré política no eleitorado afro-americano é o apoio das mulheres negras logo no início da campanha. São elas que comandam o discurso político dentro de casa. Em geral elas são também as menos volúveis: quando escolhem de fato um candidato, não viram a casaca".

Parece que este candidato, para o azar de Hillary, é Obama.

segunda-feira, março 19, 2007

Manchetes de Segunda-Feira

Uma corrida pelos principais jornais da vizinhança e, no detalhe, a primeira página do USA Today, com um triste balanço da vida dos iraquianos quatro anos após a invasão americana:



- USA TODAY: Iraquianos vivem em total desesperança (pesquisa mostra que 100% se sentem inseguros em Bagdá e 61% acham que a vida piorou depois da queda de Saddam, na semana que marca quatro anos da invasão americana)

- N.Y. TIMES: Senadores democratas insistem que colaboradores mais próximos de Bush testemunhem na investigação instaurada pelo Congresso sobre a demissão dos oito procuradores federais (oposição quer ouvir publicamente Karl Rove, o homem-forte do governo, e o vice-presidente Dick Cheney)

- WASHINGTON POST: Documentos internos revelam as mordomias do primeiro escalão do Smithsonian Institute, às custas do contribuinte.

- L.A. TIMES: Empreiteiras brigam por espaço no coração de Los Angeles

domingo, março 18, 2007

Manchetes de Domingo

Os principais jornais americanos neste domingo registraram os quatro anos de invasão do Iraque (e 40 do início da série de protestos contra a Guerra do Vietnã). O Washington Post (abaixo) deu grande destaque para as manifestações em todo o país, enquanto o NYT e o LA Times iniciaram duas séries interessantíssimas de reportagem: respectivamente, sobre os avanços da genética e o drama da viagem dos imigrantes que entram ilegalmente nos EUA pelo Texas, na área mais perigosa da chamada Fronteira da Morte.



- WASHINGTON POST: Quatro Anos Depois - Ira (protestos marcam o aniversário de quatro anos de ocupação do Iraque pelos EUA e aliados)

- N.Y. TIMES: Vivendo com um Gene Letal (série de reportagens revela os novos testes que revelam doenças genéticas)

- L.A. TIMES: Histórias de Crimes (série de reportagens mostra a viagem aos infernos de imigrantes ilegais viajando dentro de uma van sufocante pelo sul do Texas, com 19 mortos).

- NY DAILY NEWS: Vexame no Transporte Escolar em NY: Motoristas, Instrutores e Estudantes flagrados em diversos casos de abuso pela reportagem do jornal

sábado, março 17, 2007

Manchetes de Sábado

Uma corrida pelos principais jornais da vizinhança e, no detalhe, a bela figura de Valerie Plame Wilson, a ex-agente secreta da CIA queimada pela Casa Branca logo no início da batalha travada entre críticos da invasão do Iraque e defensores da trama das 'armas de destruição em massa' que Saddam Hussein teria estocado em Bagdá. Ela foi o destaque dos principais jornalões do país neste sábado. Como se sabe, as tais armas nunca apareceram, mas dona Valerie perdeu o emprego. É um destes raríssimos casos em que espião vai parar nas primeiras páginas do jornal. Com permanente no cabelo e tudo:




- WASHINGTON POST: A ex-agente da CIA Valerie Plame diz em depoimento no Congresso que om governo Bush não teve a menor preocupação em revelar sua identidade quando das primeiras críticas à invasão do Iraque

- L.A. TIMES: No Congresso, é a hora de Valerie Plame falar tudo o que sabe (ela acusa a Casa Branca de desrespeitar a CIA e não dar a mínima atenção a seu status de agente secreta)

- N.Y. TIMES: Irã quer aumentar sua presença na economia iraquiana

- SAN FRANCISCO CHRONICLE: Veteranos da invasão do Iraque vivem nova batalha - como conseguir plano de saúde e ajuda do governo para tratamento de traumas de guerra.

ENTREVISTA/Angelina Jolie & Robert DeNiro - O Bom pastor


A Contigo! que chegou hoje nas bancas brasileiras trouxe entrevistas minhas (e texto da querida Márcia Pereira, de S.Paulo) com seu Robert De Niro e dona Angelina Jolie, respectivamente o diretor e a estrela de O Bom Pastor, filme que estréia este fim de semana nas telonas cariocas e paulistanas.

O Bom Pastor

Eduardo Graça, de Nova York, para a Contigo!

Durante a Segunda Guerra, Edward Wilson (um ótimo Matt Damon) é recrutado pelo general Bill Sullivan (Robert De Niro) para trabalhar na nascente agência americana de inteligência, a CIA. Ao aceitar, deixa em segundo plano seu casamento com Clover (Angelina Jolie). Marido e mulher brigam por tudo e rompem de vez quando o filho decide seguir os passos do pai ausente. A câmera segue a trajetória da família por mais de 35 anos, durante quase três horas de bela fotografia e pouca ação. Leve lanchinho e café - já que pode dar sono.

ENTREVISTA/Robert De Niro



Famoso por dar entrevistas a jato, recheadas de respostas curtas, De Niro até que estava em um de seus bons dias na suíte do Hotel Waldorf-Astoria, no qual falou do
amigo Martin Scorsese, 64, e de sua vontade de dirigir uma seqüência de O Bom Pastor. A seguir, o ator/diretor revela-se, só mais um pouquinho.


Essa é sua terceira experiência na direção. A primeira foi 13 anos atrás...

Nossa, faz tempo! Mas o que me fascinou em O Bom Pastor foi mergulhar no mundo da inteligência secreta, da espionagem. É um assunto fascinante para uma história, um filme. Eu até estava trabalhando em um outro projeto, sobre sociedades secretas, quando esse roteiro chegou a mim. Mas, para me dedicar a ele, fiz um acordo.

Um pacto? Mais sociedade secreta impossível...
Pois é. Disse ao roteirista, Eric Roth, que, se eu concordasse em dirigir o filme, ele escreveria o roteiro para a segunda parte da saga. Sabia que O Bom Pastor estava na lista de uma famosa revista de cinema como um dos dez roteiros jamais produzidos? Acho que ele nunca saiu do papel porque as pessoas o consideravam um projeto caro e ambicioso. Deu mesmo um trabalhão. Cortei várias cenas que se passariam no Irã e no Oriente Médio, por exemplo.

Você volta, nesse filme, a trabalhar com Francis Ford Coppola (produtor do longa), que o dirigiu em O Poderoso Chefão II (1974) e lhe rendeu um Oscar. Diria que há semelhanças entre os filmes de máfia dele e O Bom Pastor?
Há, sim, uma semelhança entre a CIA e a máfia no sentido do culto ao segredo. São organizações profundamente fechadas. Mas nada além disso, né? (Pisca olho, rindo.) A saga familiar do agente Edward Wilson, retratada em O Bom Pastor, também é um ponto de interseção com os filmes de Coppola.

O senhor é muito amigo do diretor Martin Scorsese. Mostrou o filme a ele?
Marty viu o filme algumas vezes antes de ficar pronto. Queria ouvir o que ele tinha a dizer sobre as versões do longa.

Quando as pessoas o abordam nas ruas elas saem recitando frases famosas de seus filmes?
Sim e ainda bem! E também dão opinião sobre o que acham melhor ou pior nos meus papéis (risos).

Acha que agora vai acontecer o mesmo com você atuando por trás das câmeras? Vai haver um novo filme do diretor De Niro logo?

Ah, não sei. Adoro atuar. Mas, como disse antes, quero muito fazer a continuação de O Bom Pastor. Como ator você pode se concentrar no seu personagem, mas dirigir significa pensar em cada aspecto do filme. Por outro lado, você tem um poder de decisão muito maior, inclusive na hora de editar as cenas. Mas não acho, por exemplo, que um diretor que não atua, como o Marty, é menos respeitoso com os atores. No caso dele, por exemplo, é rigorosamente o oposto: tem um respeito quase religioso por nós, que se reflete em seus filmes. Outro dia lhe disse que minha admiração por ele aumentou ainda mais depois que dirigi O Bom Pastor e tive a noção do desafio que é dirigir um filme desse tamanho.

E sua relação com a Angelina? É a primeira vez que trabalharam juntos...
Mandei-lhe o roteiro porque simplesmente a adoro ver em cena. Mas acho, humildemente, que ela nunca fez algo tão intenso, tão brilhante, quanto a Clover de O Bom Pastor. Ela superou minhas expectativas, com certeza.


Entrevista/Angelina Jolie




Sua personagem em O Bom Pastor exibe frases curtas, imensos silêncios e um trabalho corporal delicado. É uma interpretação minimalista. Foi proposital?
Sim, foi! Como Bob (De Niro) queria fazer algo fiel aos anos 40 e 50 e à camada de mistério que a criação da CIA exigia, todos no set tínhamos de nos preocupar em fazer gestos de gente fina. Por exemplo, mover as mãos assim (levando-a até o queixo, bem devagar), mais graciosamente. Finalmente aprendi como se usa um guardanapo à mesa (risos). As mulheres dessa época eram especialmente reprimidas...

Isso parece perturbá-la...

Bem, foi um senhor desafio para mim encarnar uma mulher submissa (risos). É totalmente contra meus instintos mais naturais, digamos assim (mais risos). Quando eu e Matt (Damon) tivemos uma cena em que ele grita comigo e me empurra, é especialmente bruto. A gente teve de se segurar para não cair na gargalhada. Só nós dois sabíamos porque estávamos com aquela cara engraçada. É que estávamos com os papéis trocados: ele sendo tão malvado e eu tão cândida (risos)!

Levou essas lições aprendidas no set para o seu dia-a-dia?

Ah, sim! Menos os valores profundamente hipócritas da América do pós-guerra e mais um certo culto à elegância, que se perdeu no meio do caminho. Certos gestos especialmente delicados vou tentar levar comigo, juro (risos)! Mas, ao mesmo tempo, Clover, minha personagem, era uma mulher especialmente carente, que, por exemplo, fica bêbada na frente do filho, coisa imperdoável para mim. Também jamais fumaria na frente de meus filhos.

Você terminou O Bom Pastor e fez, na seqüência, a viúva do jornalista americano Daniel Pearl, em outro thriller político. Foi coincidência?

Mas aí você também pode pensar que é coincidência eu continuar lidando com espionagem, como em Sr. & Sra. Smith. A verdade é que estou amadurecendo e, cada vez mais, interessada em filmes que tenham algum tipo de mensagem política. E, hoje, os grandes estúdios sabem que eu simplesmente me recuso a passar sete meses filmando longe de meus filhos. Então, não dá mais para fazer um filme de ação.

Como resolve esta charada: carreira X crianças?

Não tem charada. Ficarei mais em casa mesmo. Eu e Brad decidimos que vamos nos alternar: quando um estiver filmando, o outro necessariamente estará com as crianças, em casa. E temos um pacto: decidimos quem vai trabalhar a partir do grau de paixão despertado por cada projeto. Mas lhe garanto que os dois pensam que o felizardo é aquele que ficará com os meninos.

Seu personagem, no filme, lida com sentimentos de vingança em relação ao ex-marido. Você se vê nesse papel na vida real?
De jeito nenhum (risos)! Sou amiga de meus dois ex (Jonny Lee Miller, 34, com quem foi casada de 1996 a 1999, e Billy Bob Thornton, 51, casada de 2000 a 2003). E, quando nos separamos, o fizemos porque entendemos que era o melhor para o crescimento de cada um. Foi justamente para não entrarmos em um relacionamento doentio, especialmente quando crianças estão envolvidas.

Você é um dos rostos mais conhecidos do mundo. Há algum lugar em que não a reconhecem?
(Rindo muito.) Mas é claro que sim! Por exemplo, eu acabo de passar alguns dias em Springfield, uma cidadezinha do estado do Missouri, onde vive toda a família do Brad, e ninguém me reconheceu, lá. Eu juro (risos)!

sexta-feira, março 16, 2007

Manchetes de Sexta-Feira

Uma corrida pelos principais jornais da vizinhança e, no detalhe, a primeira página do NYT, com a imagem dos militantes encapuzados de uma nova organização fundamentalista islâmica, Fatah al Islam, comandada pelo palestino Shakir al-Abssi, que promete novos ataques aos EUA:




- N.Y. TIMES: Em um campo de treinamento no Líbano, a nova face da jihad promete novos ataques aos EUA

- WASHINGTON POST: EUA e Sadr - tumultuada cooperação (líder radical dos shiitas visto como fundamental para o sucesso da estratégia de Washington no Iraque)

- NY DAILY NEWS: A Sangue Frio: videotape mostra como os dois policiais foram mortos pelo atirador do Village

- L.A. TIMES: Antecipação das Primárias na Califórnia dão ao estado mais força na escolha do novo presidente no ano que vem

TIME/Como a Direita Se Equivocou



A capa da Time que acaba de chegar às bancas traz uma foto de Ronald Reagan, o maior ícone do conservadorismo americano da segunda metade do século XX, derramando uma lágrima pela direita. E pergunta: "O que ele faria? E por que os candidatos republicanos à presidência precisam recuperar a herança de Reagan". Neste exato momento os dois candidatos republicanos mais fortes - Rudolph Giuliani (ex-prefeito de Nova Iorque, um social-liberal) e o senador John McCain (defensor ferrenho da invasão do Iraque) - não entusiasmam nem o braço conservador nem o libertário (que prega o individualismo e tem horror à idéia de Estado) do partido. A reportagem, de Karen Tumulty, pode ser lida, infelizmente apenas em inglês, aqui.

quinta-feira, março 15, 2007

Manchetes de Quinta-Feira

Uma corrida pelos principais jornais da vizinhança e, no detalhe, a primeira página do Los Angeles Times, que, como os outros grandes jornais do país, trataram da confissão daquele que há tempos é apontado pelo governo norte-americano como a mente por detrás dos ataques de 11 de Setembro. Enquanto o N.Y.Times destaca o fato de Khalid Mohammed estar confinado na prisão militar de Guantánamo e de que ele teria assumido a autoria de outros 30 ataques, o L.A. Times reforça o paralelo estabelecido pelo prisioneiro entre os fundamentalistas islâmicos e os revolucionários que criaram os EUA em 1776:



- L.A. TIMES: Khalid Shaikh Mohammed confessa a militares em Guantánamo ter planejado o atentado de 11 de Setembro (Em seu depoimento ele compara a Al-Qaeda aos que lutaram na Guerra da Independência dos EUA no século XVIII)

- N.Y. TIMES: Transcrições de depoimento
do suspeito de planejar os ataques de 11 de Setembro: Khalid Shaikh Mohammed confessa autoria do atentado terrorista a uma auditoria militar na base de Guantánamo, em Cuba.

- WASHINGTON POST: Principal suspeito de arquitetar os atentados de 11 de Setembro confessa em Guantánamo

- USA TODAY: Prisioneiro confessa em Guantánamo ter sido a mente por detrás dos atentados de 11 de Setembro (Transcrição do depoimento de Khalid Sheikh Mohammed aos militares mostra que ele bolou de A a Z a destruição das torres gêmeas do WTC)

- NY DAILY NEWS: Massacre no Village: Atirador mata bartender e dois policiais até ser morto pela polícia.

quarta-feira, março 14, 2007

Manchetes de Quarta-Feira

Uma corrida pelos principais jornais da vizinhança e, no detalhe, a primeira página do Washington Post, que, assim como o L.A. Times e o N.Y. Times, dá destaque ao escândalo envolvendo o advogado-geral da União, Alberto Gonzales.

Doutor Gonzales, que durante anos foi o advogado particular do presidente Bush, teria comandado as pressões da Casa Branca para a demissão de vários procuradores federais em todo o país. Estes estariam incomodando o governo ao investigar políticos ligados ao Partido Republicano. Os senadores Charles Schummer e Hillary Clinton, democratas de Nova Iorque, exigiram, do Capitólio, a renúncia de Gonzales, o primeiro hispânico a ocupar o cargo na história dos EUA:



- N.Y. TIMES: Gonzales admite que 'erros foram cometidos nas demissões dos procuradores federais'

- WASHINGTON POST: Gonzales: 'Cometemos Alguns Erros' (Casa Branca acha complicada a situação do advogado-geral da União)

- L.A. TIMES: Pressão Total no advogad-geral Gonzales (e-mails mostram detalhadamente a pressão que os procuradores federais sofreram da Casa Branca)

- USA TODAY: John Edwards poderá vencer com uma mensagem 'nós contra eles'? (o desafio da mensagem populista do democrata)

- NY DAILY NEWS: Policial alvejado em tiroteio no Harlem

terça-feira, março 13, 2007

Manchetes de Terça-Feira

Uma corrida pelos principais jornais da vizinhança e, no detalhe, a primeira página do NY Daily News, com o emocionado enterro das 8 vítimas do incêndio da semana passada no Bronx:





- NY DAILY NEWS: 'Rezemos para que isso não aconteça novamente', diz o prefeito Bloomberg no funeral das vítimas do fogo no Bronx.

- N.Y. TIMES: Demissão dos Procuradores foi planejada na Casa Branca

- WASHINGTON POST: Demissões de Procuradores teve origem na Casa Branca

- L.A. TIMES: Seca na Califórnia é tão intensa que não chove nem em Março (um dos meses mais chuvosos)

- USA TODAY: General Petraeus: A guerrilha de Al-Sadr está sendo duramente combatida (com 700 combatentes encarcerados, Mahdi reduz ataques a soldados norte-americanos)

RESENHA/ARCADE FIRE - Neon Bible (2007)



A revista Bizz que está nas bancas saiu com minha resenha de um disco sensacional, o novo do Arcade Fire, Neon Bible. Este mês os canadenses foram tema de duas belas reportagens por aqui, na New Yorker e na revista dominical do The New York Times, na semana em que se apresentaram em Manhattan, dentro de uma igreja gótica. Não consegui ir aos shows mas o disco não sai da vitrola aqui de casa.

Arcade Fire – Neon Bible (Merge Records, importado)


Cotação Máxima: 5 estrelas



Nem vem que não tem. Neon Bible, o CD que o Arcade Fire lança em março na zona norte do mundo não é um novo Funeral, quiçá o lançamento mais importante de 2004 na seara do indie rock. E a constatação aqui, é um elogio.

Antes de fundar a banda com sua mulher Régine Chassagne, Butler passou anos estudando as Escrituras. Pois o Evangelho segundo o Arcade Fire está muito mais para o Apocalipse do que os Atos dos Apóstolos. O único milagre, aqui, é passar incólume pela explosão da música do quinteto canadense. Logo no Gêneses de sua bíblia pós-moderna os canadenses nos transportam para um universo muito mais sombrio do que o do primeiro trabalho da banda. “Espelho, espelho na parede/ Revele-me aonde as bombas cairão”, roga Win Butler, voz frágil, na acachapante Black Mirror, prova de que a estética Bowie-Berlim está mais viva do que nunca.

As cordas, os coros, o namoro com o barroco, as harmonias complexas poderiam funcionar, para um ouvido mais apressado, como ponto de ligação óbvio entre os dois discos. Mas, aqui, a fantasia dói mais, justamente por ter-se materializado de forma tão crua. Neon Bible insiste em nos mostrar que o pesadelo é aqui e agora. E para tanto aumentou-se o peso da percussão do primeiro-irmão William Butler e do baixo de Régine. Sim, depois do funeral, só nos resta o rock’n’roll.

Nas 11 faixas de Neon Bible há referências claras a Bruce Springsteen (ouça Keep The Car Running, com a hipnótica repetição do titulo da faixa, Windowswill e, especialmente, a linda Antichrist Television Blues); uma canção anti-guerra toda calcada em uma belíssima introdução feita em órgão de igreja (Intervention, dos versos ‘Não quero lutar/Não quero morrer/Apenas quero ouvir o seu lamúrio’), a delicada Ocean of Noise, que quase alcança o lirismo da valsa Crown of Love, de Funeral; e a confessional My Body is a Cage, em que Butler nos assegura: ‘Vivo em uma era/ Cujo o nome eu desconheço/E embora o medo me mantenha em movimento/Meu coração bate cada vez mais lentamente’.

Com sua beleza melancólica, este é um disco para se ouvir repetidas vezes, bem alto, aos berros, sem pausa, como se o ouvinte tivesse todo o tempo do mundo para, de fato, se entregar ao êxtase proposto pelo Arcade Fire. O ano começou muitíssimo bem. (Eduardo Graça)

segunda-feira, março 12, 2007

Manchetes de Segunda

Uma corrida pelos principais jornais da vizinhança e, no detalhe, a primeira página do USA Today, destacando a corrida presidencial mais aberta de todos os tempos:




- USA TODAY: A Corrida Presidencial de 2008 tem a cara de uma América em mutação (pesquisas mostram eleitores mais abertos do que nunca a candidatos menos convencionais)

- N.Y. TIMES: Décadas de conflitos e perda de esperança marcam vidas de jovens palestinos

- WASHINGTON POST: Terroristas - cada vez mais difícil encontrar um perfil-padrão (oficiais europeus dizem que extremistas islâmicos não apresetam

- L.A. TIMES: Militares apresentam planos para retirada gradual do Iraque

Chiclete Com Banana



Só deu Gilberto Gil ontem no caderno dominical de Artes do NYT. Matéria de capa, página inteira, com o Larry Rother (pois é) tratando 'da grande anomalia da pop music contemporânea': o político-compositor. O pretexto são as três semanas da turnê norte-americana do Ministro da Cultura, que começa nesta quarta-feira com uma palestra no South by Southwest, em Austin, Texas, o festival de rock independente mais interessante destas bandas. Aqui em NYC Gil se apresenta no dia 20, no Carnegie Hall.

A reportagem, com o título 'Gil Hears The Future' apresenta doutor Gilberto, 64 anos, primeiro negro a assumir uma cadeira no primeiro escalão do governo federal, como figura central nas discussões sobre as novas formas de distribuição da música depois da explosão digital. "Acredito que a cultura digital carrega consigo uma nova noção de propriedade intelectual. E esta nova cultura de trocas pode e deve ser um fator importante para a formulação das políticas públicas para o setor", diz Gil.

Há ainda espaço para se destacar a aliança de Gil com o Creative Commons, o programa Pontos Culturais, o aspecto visionário do Tropicalismo (que remixava e sampleava muito antes da explosão da música eletrônica) e a crítica à chamada World Music ("e seus safaris culturais, comandados por aventureiros em Land Rovers procurando por espécimes exóticos").

Diz Gil:

"Estou em um ponto de minha vida em que não quero mais ter comprometimento algum com minha carreira, no sentido estrito da profissão. Eu já não vejo mais a música como um campo a ser explorado. Eu a vejo como uma área alternativa de ação, parte de um imenso repertório de possibilidades à minha disposição. Música é algo visceral em mim e ainda que não esteja pensando sobre ela, ainda estarei fazendo música, sempre".

domingo, março 11, 2007

Manchetes de Domingo

Uma corrida pelos principais jornais da vizinhança e, no detalhe, a primeira página do NYT, com o encontro de dois líderes da comunidade muçulmana de NY, representando, respectivamente, os imigrantes árabes de Long Island e os negros do Harlem:




- N.Y. TIMES: Uma Complicada Aliança - negros e árabes buscam o entendimento (duas das maiores comunidades de muçulmanos em Nova Iorque tentam se unir contra a discriminação que aumentou muito desde os ataques do 11 de setembro)

- WASHINGTON POST: Aprovado o reforço de tropas (Bush anuncia o envio de mais 8.200 soldados para o Iraque e Afeganistão)

- L.A. TIMES: Conferência no Iraque não melhora relações entre Irã e Estados Unidos (Iraque pede que vizinhos não interfiram nos negócios internos do país, enquanto EUA e Irã trocam acusações)

- NY DAILY NEWS: O Suspiro Final (imigrante de Mali perde mais uma filha, de seis anos, que morre no hospital por conta das queimaduras causadas pelo incêndio de prédio no Bron nesta quarta-feira)

sábado, março 10, 2007

Ru Paul? Really?



Ontem eu e M.Morrisey fomos aqui no cinema da esquina conferir 300, a adaptação dos quadrinhos de Frank Miller para a tela.

A história dos 300 de Esparta comandados pelo rei Leônidas na Batalha das Termópilas contra o poderoso exército de Xerxes foi destruída impiedosamente pela crítica local. No papel do imperador persa, Rodrigo Santoro, visual andrógino. Madame DeMello já havia me contado que no Brasil bons amigos andaram avisando ao global que é hora de parar de 'fazer boiolas no cinema'. De quinta.

Mas pior foi o Village Voice, que mandou esta: "Na pele do imperador Xerxes, Santoro parece assustadoramente como um gigantesco Ru Paul".



Ninguém merece. Nem Xerxes, nem Rodrigo, nem Ru Paul. Não deixem de perder o filme.

Manchetes de Sábado

Uma corrida pelos principais jornais da vizinhança e, no detalhe, a primeira página do Los Angeles Times, com o abraço de urso de Bush em Lula em S.Paulo:




- N.Y. TIMES: Bush e Chavez se enfrentam à distância na América Latina(no Brasil, presidente diz que ajuda norte-americana criará empregos na região)

- NY DAILY NEWS: Unidos na Dor (Pais conversam sobre a dor de perder os filhos no incêndio no Bronx)

- WASHINGTON POST: Auditoria sobre o FBI leva à pedido de reforma (alguns congressistas sugerem mudanças no Patriot Act)

- L.A. TIMES: Democratas impõem novo foco no debate sobre o Iraque (líderes do partido no Congresso chegam à conclusão sobre retirada das tropas - outono de 2008)

- USA TODAY: Bush - "FBI está revendo seus métodos de investigação"

sexta-feira, março 09, 2007

Escravos do Etanol

A esquerda norte-americana está descendo o sarrafo na possibilidade de uma parceria entre Washington e Brasília na produção de bio-combustíveis. O que mais os incomoda é a destruição da vegetação original e a poluição causadas pelo pantio e aproveitamento total da cana-de-açúcar.

Enquanto isso, o The Guardian atacou outra frente e publicou hoje reportagem de página inteira de Tom Phillips com o título ESCRAVOS DO ETANOL sobre as condições horrendas de trabalho em Palmares Paulista, no interior de S.Paulo.

Fala do 'outro lado' da revolução energética celebrada pelo governo Lula, usa termos como 'catástrofe social' e detalha a exploração da mão-de-obra dos cerca de 200 mil cortadores de cana do estado de S.Paulo, que ganham menos do que R$ 400/mês por um trabalho duro e arriscado. Também traz denúncias da Pastoral do Migrante dando conta que 17 trabalhadores morreram nos últimos dois anos devido à exaustão e falta de assistência. A reportagem, apenas em inglês, pode ser lida aqui.

Manchetes de Sexta-Feira

Uma corrida pelos principais jornais da vizinhança e, no detalhe, a primeira página do NYT, com a foto de Mathia Magassa, mãe de cinco das oito crianças mortas no incêndio no Bronx que chocou a cidade.



- N.Y. TIMES: Nove Mortos no Bronx e uma comunidade de luto

- NY DAILY NEWS: Horror no Bronx (o motorista de táxi que não conseguiu salvar a mulher e os filhos no incêndio que chocou a cidade).

- WASHINGTON POST: FBI vai longe demais (investigação da secretaria de Justiça mostra que o FBI anda sonegando informações sobre emails, contas bancárias e telefonemas, que não deveriam permanecer de desconhecimento do público)

- L.A. TIMES: Democratas impõem novo foco no debate sobre o Iraque (líderes do partido no Congresso chegam à conclusão sobre retirada das tropas - outono de 2008)

- USA TODAY: 14 estados anunciam cortes drásticos nos auxílios-saúde de crianças e adolescentes

Protestos no Brasil

A CNN está mostrando a todo momento flashes dos protestos contra Bush no Brasil e na Colômbia. Em sua versão doméstica o canal de notícias diz que:

* quem protesta exige mais investimento do governo norte-americano na América Latina (não se fala em invasão do Iraque)

* há 'suspeitas' de que queo s manifestantes estejam sendo pagos pelo governo venezuelano.

Este é o nível da cobertura televisiva da visita do presidente Bush à América Latina por aqui.

quinta-feira, março 08, 2007

Manchetes de Quinta-Feira

Uma corrida pelos principais jornais da vizinhança e, no detalhe, a primeira página, chocante, do NY Daily News:



- NY DAILY NEWS: Horror no Bronx (oito crianças e uma mulher mortos no pior incêndio na cidade em 17 anos).

- N.Y. TIMES: Resultado do julgamento de Libby não acalma ninguém (esquerda, direita e mercado nervosos)

- WASHINGTON POST: Bush rechaça pressões para dar um perdão oficial a Libby (ato poderia ser arriscado ás vésperas das eleições de 2008)

- >FINANTIAL TIMES/US: A recuperação da moeda japonesa está na pauta do dia no comércio mundial.

- L.A. TIMES: Mãe e filha retornam a Los Angeles, depois de serem envenenadas com tálio radioativo em Moscou.

- USA TODAY: Forças Armadas completamente perdidas no tratamento a vítimas de traumatismo craniano, ferimento mais comum entre os soldados americanos na ocupação do Iraque

segunda-feira, março 05, 2007

A Guatemala de Bush: extermínio, limpeza social e ato de fé


No ano passado o governo Bush jogou pesado para que a Guatemala do presidente Óscar Berger, fiel aliado de Washington, levasse a vaga reservada para a América Latina no Conselho de Segurança da ONU. A justificativa era a de que o outro candidato - a Venezuela de Hugo Chávez, apoiada por Brasil e Argentina - carecia de credenciais democráticas essenciais para se postular o cargo. E que a Guatemala era um exemplo do que os republicanos gostariam de ver in latin american way.

No fim das contas e depois de muito teretetê chegou-se a um candidato 'neutro'. Mas os recordes democráticos do país centro-americano - que viveu de 1960 a 1996 sob uma ditadura sustentada pelos E.U.A. - alardeados pelos neo-cons ficaram engasgados na garganta dos que seguem chocados com as ossadas de militantes oposicionistas descobertas em 2005. Estima-se que mais de 100 mil guatemaltecos tenham sido assassinados nos quase 40 anos de arbítrio.

Pois hoje o NYT traz matéria de capa dando conta de como anda a vibrante democracia centro-americana. O repórter James C. McKinley Jr. escreve uma daquelas histórias tristíssimas, típicas de republiquetas das bananas. Ela começa com três parlamentares salvadorenhos assassinados na Cidade da Guatemala no mês passado. Eles teriam sido confundidos com traficantes de droga colombianos, seqüestrados e executados por quatro policiais locais. Assim que se entregaram, estes foram imediatamente enviados para o presídio de segurança máxima El Boquerón. E quatro dias depois também apareceram mortos.

O governo diz que os policiais foram atacados por presos revoltosos. Mas detentos contam que eles foram assassinados por homens encapuzados, vestindo uniformes militares. Para piorar, há mais de uma reportagem sugerindo que os tais deputados salvadorenhos eram, afinal de contas, parte de uma das mais importantes quadrilhas de tráfico da América Central.

Nos últimos 30 dias o escândalo levou a duas demissões no gabinete Berger e à instalação de uma CPI no Congresso para se investigar a existência de um esquadrão da morte financiado por dinheiro público. A Guatemala conta com pouco mais de 12 milhões de habitantes e cerca de 5 mil homicídios/ano. Destes, apenas 2% resultam em prisões de suspeitos. Estima-se que pelo menos 2/3 da cocaína que entra nos EUA passa pela Guatemala.

Grupos de direitos humanos têm feito um barulho danado por aqui, denunciando que os esquadrões anti-drogas financiados por Washington se transformaram em milícias informais. Estas entraram na luta pelo lucrativo negócio do tráfico sob o manto de 'proteção à população civil'. Um oficial da ONU revelou, sob a condição de permanecer anônimo, que as milícias foram criadas nos últimos três anos por 'gente ligada ao governo' preocupada com o aumento da violência urbana. E, o mais inusitado, seus soldados seriam ligados a igrejas evangélicas que vêem no extermínio de bandidos mais do que 'limpeza social', mas um 'ato de fé'. Com dinheiro ianque, o governo Berger, denuncia o funcionário da ONU, criou um Frankenstein cristão.

É a guerra santa subsituindo a guerra suja em plena América Central.

No meio do furacão, Bush chega à Guatemala na semana que vem, após seu encontro com o presidente Lula. Podia pedir conselho ao petista e levar uma mensagem amiga ao companheiro Berger. No Rio, ao menos até agora, não se ouviu falar de milícia evangélica. Será este o próximo capítulo do descaso com que a ralé é tratada em Pindorama?

Em tempo: o diretor da Human Rights Watch, Dan Wilkinson, diz que a ONG classifica a Guatemala de Berger como 'uma democracia fracassada'.

Chavez, este autoritário, deve estar rindo à toa.

domingo, março 04, 2007

Delicioso Carnaval Fora de Época


E quem disse que não tem ziriguidum no Brooklyn? Acabou de chegar aqui o sensacional podcast produzido por Madame Serra e MdC Suingue, todinho dedicado a preciosidades do Carnaval. É uma trilogia repleta de pérolas do sacolejo tupiniquim mas também caribenho, nothinghílico, orleânico.


Delicioso.

Para quem ainda não conhece, clique logo aqui e escute o Caiprinha Appreciation Society - o C.A.S. para os mais íntimos. Ou assine logo no iTunes. É diversão garantida todas as semanas.

terça-feira, fevereiro 27, 2007

ENTREVISTA/Matt Damon

A entrevista que fiz com Matt Damon acaba de ser publicada no site do UOL:


27/02/2007 - 16h44


Matt Damon conta como foi bom trabalhar com Scorsese em "Os Infiltrados"


Eduardo Graça, colaboração para o UOL


Scorsese dirige Matt Damon


Nova York, BR Press - O ator Matt Damon certamente engrossa o coro dos que comemoram o Oscar recebido pelo diretor Martin Scorsese no domingo, depois de sete indicações sem vitória. O próprio Damon, 36 anos, não recebeu indicações por suas ótimas interpretações no filme de Scorsese, "Os Infiltrados", e em "O Bom Pastor", dirigido por Robert De Niro, que estréia nos cinemas brasileiros no dia 16 de março.

No thriller de Scorsese, em cartaz nos cinemas nacionais, o ator de Boston voltou a sua cidade natal para encarnar Colin Sullivan, um policial que se envolve perigosamente com a máfia irlandesa comandada por Frank Costello, o personagem de Jack Nicholson. Em "O Bom Pastor", ele é Edward Wilson, um dos primeiros agentes recrutados pela recém-nascida CIA. É justamente por meio dos dramas pessoais (que incluem as disputas com a mulher, vivida por Angelina Jolie) de Wilson que De Niro conta a história da mais importante agência de informações do planeta.

Diferentemente dos sombrios personagens que criou em 2006, Damon conversou com afabilidade por duas vezes com a BR Press, nos intervalos das filmagens de "O Ultimato Bourne" (a aguardada seqüência de "A Identidade Bourne"). Em ambas, exibia um sorriso aberto, o humor afiado e a felicidade de quem vive um momento muito especial de sua vida. O ano que passou foi, afinal, o do nascimento de sua primeira filha, Isabella, fruto do casamento com a ex-garçonete argentina Luciana Barroso Bozan. Leia a entrevista a seguir:

Brad Pitt é o produtor de "Os Infiltrados". Foi ele quem o convidou para fazer Colin Sullivan, um personagem bem sinistro e diferente da maioria dos que o público se acostumou a associar a seu perfil de bom moço?

Matt Damon - Sim, foi o Brad quem me ligou e eu imediatamente disse que seria um sonho ser dirigido pelo Marty [apelido do diretor Martin Scorsese]. Estou certo de que esse foi o "sim" mais fácil de minha carreira. Tenho percebido que, em Hollywood, há uma regra quase sem exceção de que, quanto maior o orçamento dos filmes, menos interessante será o leque de personagens. E em "Os Infiltrados" tivemos uma união dos dois lados da moeda que me interessou muito. Eu simplesmente adoro o filme.

Você é famoso por dedicar um tempo muito grande para a pesquisa de seus personagens. Este ano você teve de lidar com dois espiões (em "O Bom Pastor" e "O Ultimato Bourne") e um policial-espião (em "Os Infiltrados"). Não lhe pareceu um pouco repetitivo?


Matt Damon - Nem um pouco! Primeiro porque esses papéis são todos excelentes, cheios de nuances, uma hora você parece mais o mocinho, na outra o bandido. São ótimos exercícios. E depois porque eles eram bem singulares. Em "Os Infiltrados", não tive de me preocupar com a ambientação, com o sotaque, com a geografia da cena. Eu cresci em Boston! Aquela é a minha cidade. Então meus esforços foram os de mergulhar na subcultura dos policiais de South Boston. Eu os acompanhei para cima e para baixo e cheguei a participar de uma prisão em massa de traficantes de crack. Já O Bom Pastor foi um estudo intenso de todos os quilos de documentos e biografias relacionados à criação e aos primeiros anos da CIA, até a crise da Baía dos Porcos, em 1961. Conversei com alguns dos fundadores da agência e seus familiares, entrevistei-os e eles foram muito, muito, mas muito pacientes. Agora, o mais importante em "O Bom Pastor", é claro, foi contar com Bob (Robert De Niro).

Ele é extremamente cuidadoso com os atores, não é?

Matt Damon - Basicamente, durante toda a filmagem, ele ficava sentado, digamos, aí aonde você está (de frente para o ator), perto mesmo, ao lado da câmara, observando detalhadamente cada cena. Cada detalhe, cada mínimo ajuste eram de uma importância sem fim para ele. E isso me ajudou muito. Posso dizer que jamais me senti tão seguro em cena. Até porque você tem ali ao seu lado um dos maiores atores de todos os tempos, acompanhando cada passo de sua performance. E não foi nada intimidador, ele usou todo seu poder, sua presença, para me ajudar, me encorajar mesmo.

Você trabalhou este ano com dois ícones do cinema americano contemporâneo, De Niro e Scorsese. Eles têm estilos muito diversos de trabalho?

Matt Damon - Sim, eles são muito diferentes. Bob é, acima de tudo, um ator que dirige. E não quero dizer que o Marty não seja um tremendo diretor de atores. Aliás, esta é a maior semelhança entre os dois -- pensam muito no bem-estar e em como os atores estão se sentindo em cada cena. Ao mesmo tempo eles pensam no filme a partir de seus protagonistas, de como cada personagem vê o todo. Agora, Marty já chega no set com a cena pronta em sua cabeça do ponto de vista de quem dirige, do movimento de câmara, de quem sabe exatamente como a tecnologia pode funcionar a seu favor. Ele traz uma experiência que poucos no cinema contemporâneo têm. Talvez Spielberg, Sorderbergh e Coppolla consigam fazer o que Marty alcança, sem precisar antes conversar horas com o responsável pela fotografia. Está na cabeça deles.

Seus personagens nos dois filmes são seres atormentados por um passado que parece os assombrar o todo tempo. E você, em contrapartida, vive um momento extremamente feliz em sua vida particular. Foi complicado criar esses personagens sombrios enquanto sua vida ia de vento em popa?

Matt Damon - Sim, foi inegavelmente o melhor ano de toda a minha vida. E fazer Collin e Edward foi um desafio no sentido de que teria de esconder qualquer traço de felicidade dos personagens. Mas, sabe, estou lá atuando, fazendo o que faço de melhor, não penso mais, a esta altura de minha trajetória, nos riscos de contaminar os meus personagens com minha vida pessoal. E há tantas coisas terríveis no mundo que podem inspirar você na hora de criar estes homens atormentados, não é?

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Saudades de Rubens Ewald Filho...


Sabe aquela overdose de batuque, mulatas gostosonas, caretas safadas e outros telecotecos afins? Se escapo anualmente da ressaca carnavalesca, enfrento cada vez mais a fatiga do Oscar.

Por aqui tevê, as ruas, os comentaristas no rádio, entre janeiro e a primeira semana de março, só falaram dos filmes, das roupas, dos subtextos políticos da festa de premiação da Academia de Hollywood, que vem se transformando em algo como uma espécie de Natal exclusivamente comercial, voltado para adultos com síndrome de Peter Pan (ou seja, quase todos nós).

Haja saco! Ainda mais sem poder contar com os comentários de Ruben Ewald Filho, autor do indispensável O Oscar E Eu, sempre antenado com o que realmente interessa.

Minha amiga Mme. DeMello, companheira de muitas noites incansáveis (e, no Brasil, com o fuso, a embromação avança madrugada adentro!), nariz grudado na telinha, acaba de mandar algumas pérolas, safra 2007, de nosso guru da Baixada Santista:

* Helen Mirren que se cuide! Existe uma síndrome do divórcio pós-Oscar. Foi assim com a que fez Menina de Ouro, com a Reese Whiterspoon... Se bem que só agora a Helen se casou com o Taylor Hackfort. Ela é muito liberal. Fez aquele filme... ai, não me lembro o nome agora.... com Peter O'Toole... Ah, Calígula!!!! Ela aparecia nua em Calígula, porque é liberal!

* Ela está com uma roupa de oncinha? A mulher do John Travolta está com roupa de oncinha????!!!!!

* Pode ser ainda que o Clint Eastwood engula o Scorcese. Pelo menos na altura, já que ele tem quase dois metros de altura e o Scorcese é pequenininho.

* Custei a reconhecer a Reese Whiterspoon. Cadê o queixo? O queixo dela chega antes.

* E a melhor, sobre a coitada da Penelope Cruz: "Não posso me conter: esta moça está muito sem graça! Muito mal arrumada, mal vestida! Isso não é roupa de vencedora de Oscar. Ela não está à altura de uma Sophia Loren... Uma cara de passarinho... Bem, ela só está aí porque namorou Tom Cruise, claro!

Só mesmo um Oscar para me lembrar a falta que Rubens Ewald nos faz!

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Aqui do Brooklyn, o melhor da festa de ontem foram mesmo os prêmios dados aos veteranos Alan Arkin e Martin Scorsese. Convenhamos, tanto a American-Idol-eliminada-que-virou-estrela-de-cinema quanto o último rei da Escócia com seus discursos da retomada do sonho americano me fizeram cochilar no sofá de casa.

Agora, disparado, a melhor tirada da (pós)festa foi mesmo a de Melissa Etheridge, cansada de guerra, que desbancou as três indicações do musical Dreamgirls e abocanhou a estatueta de melhor música do ano em filmes:

- Este careca é único homem pelado que entra lá em casa.

Dona Melissa também fez questão de dedicar a vitória à sua digníssima esposa.

Bem, o ano, por aqui, também começou hoje. Com neve caindo do lado de fora e música boa na vitrola.

domingo, fevereiro 18, 2007

SHOW/ Lou Reed no Brooklyn (14/12/2006)




Hoje voltamos do Caribe - sem a mala, que não apareceu na esteira da American Airlines (a lama, a lama!) - e, na montanha de jornais, cartas e encomendas empilhadas na escada da entrada de casa estava a BIZZ de fevereiro. Nela, o textinho que segue abaixo, um relato do show sensacional que tive o prazer de conferir em dezembro, aqui no Brooklyn, com Lou Reed apresentando pela primeira vez nos palcos um de meus discos favoritos, o maldito Berlin.

O espetáculo, dirigido por Julian Schnabel, mais gordo do que nunca, aconteceu em uma noite fria de fim de outono. Fui à pé para a St.Ann's Warehouse, uma casa alternativa nos moldes do que seria o Espaço Sérgio Porto, no Rio, se este fosse bem-cuidado. Mas esta é outra história. A St. Ann's fica aqui no Dumbo, entre as pontes do Brooklyn e de Manhattan, de frente para o East River.

Aí vai o texto completo (na revista impressa saiu um tiquinho menor):

ENTRE TAPAS E BEIJOS

O Romantismo dolorido de Berlin

Por Eduardo Graça para a BIZZ

Barba imensa, sorriso trêmulo, quem abre a noite da estréia mundial de Berlin, disco-espetáculo concebido por Lou Reed em 1973, é o artista plástico e cineasta Julian Schnabel, diretor de Basquiat e Antes Que Anoiteça. “Preciso confessar. Não conheço ninguém com 50 anos que ainda esteja casado com o mesmo companheiro (a) daquela época. O Lou compôs, com perfeição, a trilha sonora da minha vida”, agradecia o responsável pela cenografia do espetáculo que chega aos palcos nova-iorquinos exatos 33 anos depois de aparecer, para imenso desgosto de crítica e público, nas lojas de disco do mundo todo.

O Brooklyn não fica em Berlim, mas bem que poderia. Detalhes geográficos à parte, Lou Reed, camisa de malha vermelha colada no corpo musculoso, óculos de aros tranparentes, cabelos grisalhos, ocupa o palco da St.Ann’s Warehouse, à beira da Ponte do Brooklyn, como se a inevitável ressaca da primeira metade dos anos 70 ainda nos doesse as cabeças. Berlin é a obra-prima pouco compreendida (uma famosa revista de rock intitulou sua resenha do álbum assim: Adeus, Lou!) que se seguiu à graça irresistível de Transformer, a bíblia do glam rock que reunia em um só álbum coisas como Walk on the Wild Side, Satellite of Love e Perfect Day. Em certo sentido, Berlin lhe é o avesso exato – uma narrativa curta (dez faixas), amarga e deprimida das desventuras amorosas de Jim e Caroline na cidade-símbolo da guerra fria.



O disco pode ser ‘lido’ como um conto, a história trágica de um romance destruído por drogas, traições e muita, muita violência. Um cabaré anti-punk que exigia cordas, violinos e sopros, Berlin finalmente chegou aos palcos como deveria: deprimidíssimo, mas sem perder um milímetro de sua força. Lá estão o mago do indie rock Antony Hogarty, muito branco, todo vestido de negro; a diva do retro soul Sharon Jones, muito negra, toda de vermelho; e o estranhíssimo (aqui, um brutal elogio) Brooklyn Youth Corus, formado por adolescentes de todas as cores do mais multirracial dos distritos nova-iorquinos, apresentando a introdução do pungente Sad Sad Song. Um sofá verde pende do teto, na vertical, o estofado gasto, separado por papel de parede vermelho com temas asiáticos enquanto uma grande gaiola de zoológico cerca os instrumentos de percussão. Tudo aqui parece fora de lugar. Na platéia, pouco mais de mil pessoas sentadas em cadeiras de ferro observam a tudo em um silêncio menos respeitoso do que hipnótico.

Um retrato ao mesmo tempo monótono, doentio e assustadoramente real do relacionamento de uma mulher promíscua e um homem envolto com drogas pesadas, Berlin não tem nada de hermético. Seus fãs – que, acanhados, foram saindo das trevas à medida em que o álbum envelhecia quase tão bem quanto seu idealizador – deixam de piscar os olhos a fim de louvar com maior respeito a beleza da música, a poesia reediana em seu ápice, a impressionante força cenográfica e o namoro nada envergonhado com a melhor tradição dos musicais americanos, além de um romantismo dolorido e raivosamente urbano.

É verdade que, antes de o espetáculo começar, novos modernos do Brooklyn e velhos acólitos do poeta de Manhattan perguntavam-se, ansiosos, se haveria algum sentido, afinal, neste encontro adiado por três décadas para celebrar aquele que é muitas vezes considerado (vide o cartaz original do show que jamais aconteceu em 1973) o Sgt.Peppers dos anos 70. “Eu apenas queria contar uma história. E a situei em Berlim porque, na época, era uma cidade dividida. Achei que era uma senhora metáfora”, lembra Reed, que nunca havia pisado em Berlin quando da feitura do álbum. Não obstante, o resultado é tão alemão quanto Brecht. E valeu cada centavo dos US$ 65 (ou R$ 143) desembolsados pelos pagantes.

Ao vivo, deslocado no tempo, Berlin ganha dimensão ainda maior. A guitarra de Steve Hunter (que tocou nas gravações) é mais bela em Lady Day. Possuído, ele sola como se estivesse em um estádio de rock, para o deleite de Reed, punho cerrado lançado ao ar em desespero nada calculado. Cinto de prata e cobre cintilante, ele encara a imagem de soldados em guerra que se forma no vídeo localizado no fundo do cenário enquanto canta a cínica Men of Good Fortune.

Chega a hora de Caroline Says 1 e não deixa de ser engraçado ouvir gritinhos de prazer vindos da parte feminina, de todas as idades, quando o compositor repete, pausadamente, a abertura que informa: Caroline says that i am just a toy/ she wants a man/not just a boy!.

A esta altura o público já está de pé, se aproximando de Reed e embasbacado frente a uma big-band especialmente convocada para as quatro noites de casa repleta na St.Ann’s. Lá estão os baixistas Rob Wasserman e Fernando Saunders, o batera Tony ‘Thunder’ Smith, o trompetista Steve Bernstein e a cellista Jane Scarpantoni. Quem segura a batuta é ninguém menos do que o mítico produtor e arranjador Bob Ezrin (do próprio disco e, claro, de The Wall, do Pink Floyd). De costas para o público, ele deixa à mostra apenas o grafite em suas costas: Berlin. Impossível não lembrar que, aqui na St.Ann's, Reed e John Cale, seu parceiro de Velvet Underground, compuseram Songs For Drella, a mais bela declaração de amor jamais feita a Andy Warhol.

Tudo conspira para que a noite seja perfeita. Ao fundo, o vídeo de Shnabel agora oferece variações sobre H20. Exato. Águas mansas, tsunamis, torneiras, pinga-pingas, oceanos, a chuva. E a atriz Emanuelle Seigner, a senhora Polanski, com seu rosto tristíssimo. Mas sem chorar, afinal, lembra Reed, ela é tão fria quanto o Alaska.

Vem então o massacre de The Bed, que narra o suicídio de Caroline, narrado por Jim, aqui marcado pela impressionante seqüência harmônica do coral de adolescentes, a partir da repetição infinita dos versos fantasmagóricos And i said/ oh oh oh oh/what a feeeling/. E, mais uma vez, a beleza terrível de Sad Song.

Após um rápido intervalo, Reed retorna para um bis especialmente feliz, com as velvetianas Sweet Jane e Candy Says (esta última em um arrebatador dueto com Antony, que vi pela primeira vez no show que os Johnsons fizeram ano passado no Carnegie Hall) e o muito mais recente Rock Minuet, do álbum Ecstasy (2000). “Berlin é apenas mais um daqueles meus álbuns que não vendeu nada”, despistou Reed, com seu famoso mau-humor, quando o projeto de finalmente levar o disco ao palco saiu do papel. Paradoxalmente, também afirmou que este fora ‘um projeto de uma vida inteira, pretensioso mesmo’, e assumidamente influenciado pela obra de William S. Burroughs, Allen Ginsberg e Raymond Chandler. Os tempos, obviamente, são muito outros. Mas a depressão que gerou Berlin não parece ter se dissipado nas duas margens do East River. Aqui na noite fria de fim de outono de Nova Iorque, o velho Lou nos lembra que ela é apenas mais profunda.

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

O blog dá um tempo no Caribe...


Blogando do Caribe, com o visual de Rum Point Beach. Todo inverno tem seu fim, ainda que apenas na nossa imaginação. Ainda teremos dois longos meses de frio, pelo menos. Photo by William Morrisey.

Enquanto isso, no Brooklyn...




A foto é de meu amigo Victor Affaro, um senhor fotojornalista, agora meu vizinho no Brooklyn. Ela foi tirada da janela do apartamento dele, em uma das ruas mais movimentadas de Williamsburg, a Bedford Avenue. Enquanto o Carnaval rola a mil no Brasil, por aqui o jeito é tomar fôlego, encontrar a pá do porão e tirar a neve da frente de casa antes que chegue a multa da prefeitura. Haja disposição!

ENTREVISTA/ Ken Watanabe


Na Folha de S.Paulo de hoje (aqui, para assinantes do jornal ou do UOL) saiu minha entrevista com Ken Watanabe, brilhante no filme de guerra As Cartas de Iwo Jima, de Clint Eastwood, um dos fortes concorrentes ao Oscar do dia 25.

O ator japonês, que começou a carreira nos grupos de teatro de vanguarda de Tóquio nos anos 70, foi simpaticíssimo e só encrencava quando uma das duas tradutoras convocadas para o conversê tentava explicar detalhadamente alguma pergunta mais encorpada do entrevistador aqui.

Divertido, mas extremamente sério, Watanabe não deixou de falar da pressão da extrema-direita para que a chamada Consituição Pacifista (imposta pelos norte-americanos depois da rendição de 1945) seja modificada, com o Japão, hoje fiel aliado dos EUA, voltando a contar com forças armadas regulares. Este é, afinal, o tema central da política japonesa neste momento.

A entrevista e um comentário exclusivo aqui do blog seguem abaixo. Uma bela visão do que acontece no Japão hoje é a do documentarista John Junkerman, que escreveu um artigo interessantíssimo, infelizmente apenas em inglês, aqui.

O ator Ken Watanabe fala à Folha das dificuldades para encarnar o protagonista de "Cartas de Iwo Jima"

"Não sabemos lidar com nossos fracassos"


EDUARDO GRAÇA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE NOVA YORK

Cartas de Iwo Jima conta com um elenco quase exclusivamente japonês, centrado na figura do general Tadamishi Kuribayashi. Para encarnar o homem que conseguiu conter as forças americanas por mais de 36 dias, Clint Eastwood escolheu Ken Watanabe, 47, o mais importante ator japonês de seu tempo, conhecido por O Último Samurai e Memórias de uma Gueixa. Leia a seguir a entrevista que o ator concedeu à Folha.

FOLHA - "Cartas de Iwo Jima" é um sucesso de bilheteria no Japão. O sr. acha que isso se deve ao tratamento respeitoso de Eastwood ao tema?
KEN WATANABE -
Sim, mas, como ator, com a visão de quem estava dentro do filme, posso dizer que o sucesso se deve também à maneira calma como Clint comanda um set de filmagem. Ele estava lidando com um elenco exclusivamente japonês e teve de usar três tradutores, o que é um trabalho extra, mas não perdeu a delicadeza jamais.

FOLHA - Vocês conseguiram a permissão para filmar na ilha, considerada solo sagrado pelos japoneses. Como foi a sensação?
WATANABE -
Durante quatro anos eu me preparei como nunca para encarnar o general Kuribayashi. Visitei a cidade em que ele foi criado, uma localidade pequenina e tradicional nos cafundós do Japão. Li tudo o que pude sobre ele. Mas fundamental mesmo foi ter ido a Iwo Jima. A ilha não é um lugar muito cultuado por nós, japoneses, que temos uma dificuldade endêmica em lidar com nossos fracassos. O governo de Tóquio nos deu apenas um dia para ir lá. No fim de um dia intenso, fomos todos, americanos e japoneses, até o monte Suribachi, cume da ilha, onde erguemos um memorial para os mortos. Foi uma experiência intensa, pude de fato sentir o espírito dos soldados que lá pereceram e percebi que tínhamos a obrigação de contar a história daqueles homens. E que tínhamos de fazê-lo juntos, americanos e japoneses. Foi ali que encontrei o sentido mais profundo para fazermos as Cartas de Iwo Jima.

FOLHA - Há hoje um grande debate no Japão opondo os defensores da Constituição pacifista do país e os que consideram fundamental a militarização nacional. O senhor tem alguma opinião sobre o tema?
WATANABE -
Minha posição está explicitada no filme. Espero que todos os muitos japoneses que foram aos cinemas ver o filme tenham refletido muitíssimo bem sobre se é mesmo tão fundamental assim incrementarmos a corrida armamentista no Extremo Oriente.

FOLHA - Como o senhor se sente quando é abordado por fãs, felizes em conversar com o ator japonês mais famoso de sua geração?
WATANABE -
Eu acho tudo isso muito engraçado. No fim, honestamente, acaba me dando mais receio do que prazer. Sou uma pessoa que cultiva diariamente a humildade e que, no momento, por exemplo, está mais preocupado em saber como a comunidade japonesa no Brasil vai receber Cartas de Iwo Jima. Tenho grande interesse sobre esta faceta da história japonesa, a imigração para São Paulo, e adoraria produzir algo no Brasil.


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As constantes visitas do então primeiro-ministro Junichiro Koizumi a um memorial dedicado a 14 criminosos de guerra japoneses enfureceu os governos vizinhos da China e da Coréia do Sul que nos últimos anos protestaram veementemente sobre a 'reconstrução da História' desenhada por Tóquio. Outra medida polêmica foi a criação da cadeira obrigatória de ‘estudos nacionalistas’ na rede pública de ensino japonesa. E o novo primeiro-ministro, Abe Shinzo, é neto e devoto fiel de Kishi Nobusuke, o primeiro político nipônico a defender abertamente a modificação do Artigo 9, base da ‘constituição pacifista’ que proíbe a militarização do país.

O exame de consciência pelo qual passa o Japão não está refletido nas telas apenas nas Cartas de Iwo Jima. No mesmo dia em que o filme de Eastwood chega aos cinemas brasileiros estréia em Tóquio o documentário Gai Shanxi e Suas Irmãs, do chinês Ban Zhongyi, que revive a triste história das chinesas da província de Shanxi, tornadas escravas sexuais pelos militares japoneses. Mês passado, no Festival de Sundance, um dos destaques foi Nanking, com Woody Harrelson, tratando de forma crítica, a partir de uma narrativa em primeira pessoa, dos 70 anos da brutal invasão japonesa à China continental. E Satoro Mizushima, dono de um canal de tevê nacionalista em Tóquio, anunciou que termina ainda este ano o documentário A Verdade Sobre Nanjing, em que defende a tese de que o massacre de 1937 é obra de ficção, apesar de historiadores considerarem o episódio um dos mais terríveis banhos de sangue de todos os tempos, em que entre 140 e 300 mil civis chineses (incluindo mulheres e crianças) foram massacrados pelos japoneses na então capital da China nacionalista.

Um dos principais entusiastas do documentário é o governador de Tóquio, Shintaro Ishihara, de extrema-direita, que defende a ‘importância de se combater a propaganda anti-japonesa no mundo e a necessidade de se corrigir esta página da história escrita pelos vencedores’. Curiosamente, foi justamente Ishihara quem inspirou Eastwood a produzir as Cartas, ao liberar o solo da ilha (considerada parte de Tóquio, apesar da distância) para as filmagens de Conquista da Honra desde que ele ‘respeitasse os japoneses que morreram de forma heróica naquele solo’.

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Em Busca dos Milhões Desaparecidos

Férias no Brasil, uma semana corrida aqui em NY e já parto de novo no sábado para uma semana longe do frio. Está difícil parar um pouco e postar com calma aqui no blog.

Apesar do clima ártico (com sensação térmica diária de 15 C negativos) a temperatura ferve em Washington. Começou (aparentemente para valer) a investigação do Congresso de maioria democrata sobre o dinheiro administrado pelo governo Bush para a reconstrução do Iraque que simplesmente desapareceu. Ainda falta descobrir aonde estão os US$ 8,8 bilhões que a tal Autoridade Provisória (governo de ocupação norte-americano no Iraque) nunca conseguiu explicar em que foram aplicados.

Em editorial hoje, o NY Times lembra que, nos relatórios oficiais, gastos de até US$ 500 milhões eram justificados com uma única palavra - 'segurança'. E outros dez comprovantes de despesas aparecem sem justificativa alguma, ou seja, não comprovam coisa alguma. Os valores foram de US$ 120 a até US$ 900 milhões cada. Detalhe: toda esta dinheirama era iraquiana, sobras do Programa Petróleo-Por-Comida, adminstrado pela ONU e, desde a invasão de 2003, controlado pelos EUA.

Inquirido pelos deputados, o então governador-geral do Iraque, Paul Bremer III, justificou o sumiço de tanto dinheiro dizendo que não havia sistema bancário algum no país ocupado e que ' não havia como aplicar soluções perfeitas' num cenário de terra arasada. Os primeiros resulatados da investigação já mostram que pelo menos outros US$ 12 bilhões foram aplicados de forma 'irresponsável'.

Os republicanos seguem dizendo que tudo isso 'são favas contadas, notícia requentada'. Mas o câncer que segue devastando o governo Bush - a desastrosa tomada do Iraque - vem alimentando ainda mais as esperanças dos muitos candidatos a candidato à presidência, dos dois lados do espectro político. Mas destes falaremos mais tarde. Até já que a vida anda muito, muito corrida aqui por estas bandas.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Personalidade e Tipos Sangüíneos

Hoje o caderno de esportes do NYT traz uma reportagem deliciosa sobre a conexão entre personalidade e tipos sangüíneos, algo aparentemente muito comum no Japão e que eu, em minha extrema ignorância, desconhecia completamente.

Vejam só o que nos ensina a sapiência nipônica:

TIPO O - O GUERREIRO (despachado/confiante/ambicioso/intenso/perseverante)

TIPO A - O FAZENDEIRO (de fala mansa/precavido/reservado/conformado/confiável)

TIPO B - O CAÇADOR (individualista/criativo/flexível/impulsivo/espírito livre)

TIPO AB - O HUMANISTA (gente-boa/racional/sério/solitário/extremamente organizado)

Detalhe: De acordo com a Cruz Vermelha, 45% dos norte-americanos são Guerreiros e 40% Fazendeiros, com apenas 11% Caçadores e 4% Humanistas. No Japão, 38% são Fazendeiros, 30% Guerreiros, 22% Caçadores e 10% Humanistas.

Curiosidade Inteligente: Apenas 16% da humanidade são Caçadores, em sua maioria na Ásia Central e na Europa Oriental, mas com alguns bolsões na África. 20% são Fazendeiros, e a maior incidência do tipo A ocorre nos EUA, no norte da Europa e na Austrália, e especialmente escarso nas Américas do Sul e Central. Já o Guerreiro é o mais popular dos tipos sangüíneos, com presença em 63% da humanidade, especialmente na América do Sul e na Europa Ocidental. Humanistas respondem apenas por 1% da humanidade, o que explica, a se acreditar nos sábios japoneses, muita coisa neste mundinho nosso.

Curiosidade Boboca: entre os famosos guerreiros estão Ronald Reagan e a Rainha Elizabeth II, entre os Fazendeiros a mala da Britney Spears, Jack Nicholson e Mia Farrow são Caçadores e John Kennedy e sua querida Marylin Monroe Humanistas.

A reportagem completa está aqui.

Diretinho da Redação (51)


A vida anda tão corrida que não tenho tido tempo de atualizar o blog. Tão corrida que decidi me despedir do Direto da Redação no ano que entra. 2007 vem cheio de mudanças e depois de merecidas férias no Brasil - oba! - que começam na próxima segunda-feira, a idéia é incrementar o edudobrooklyn, dar uma sacudida mesmo no blog. Evoé!

A coluna de despedida do DR segue abaixo:

ATÉ A VOLTA

Despedidas são sempre difícies. Evitar chavões como este, tarefa ainda mais complicada. Foram dois anos e pouco no Direto da Redação, escrevendo mais ou menos um texto por semana, explorando as conexões menos óbvias, creio, entre a labiríntica Nova Iorque e o imenso Brasil.

Quase uma centena de textos, produzidos com total liberdade e que, receio, testaram, aqui e acolá, a paciência do leitor desavisado. Aos que aqui chegaram atraídos pelo brilho dos colegas do site, minhas sinceras desculpas.

Às almas profundamente generosas que por acaso sentirem de fato falta dos comentários do jornalista do Brooklyn, a produção de reportagens e entrevistas feitas a partir de Nova Iorque continuará em 2007, em alguns dos endereços mais generosos da imprensa brasileira e portuguesa.

Quando convidado pelo querido Eliakim Araújo para fazer parte da equipe do DR temi que meu primeiro exercício de jornalismo assumidamente opinativo pudesse se revelar uma armadilha para um escriba mais acostumado a dar voz aos entrevistados do que a trocar com o leitor impressões sobre as notícias que mais nos movem, os bastidores da cobertura da imprensa aqui e no Brasil, o lado pouco explorado de certos personagens e empresas canonizados pelas celebridades de ocasião. Ledo engano. Fazer jornalismo à maneira do DR foi um imenso prazer.

Os textos aqui publicados, espero, revelaram minha percepção bem-humorada, na medida do possível, destes anos especialmente atrapalhados, testemunhas do auge e das derrapadas do neo-conservadorismo por aqui e do neo-petismo nos cada vez mais tristes trópicos.

Está bem, relendo as colunas de um só folêgo reconheço que boa parte delas se revelam mais rabugentas do que espirituosas. Mas quem passou pela ocupação da Iraque e a explosão do movimento anti-imigrantes por aqui, e acompanhou o fim da pureza ideológica da esquerda por aí, há de me perdoar.

A vocês e ao Eliakim, meu eterno agradecimento. E minha torcida para que o DR continue sendo um dos espaços mais democráticos e dinâmicos da imprensa eletrônica em língua portuguesa. Até a volta.