segunda-feira, março 12, 2007

Chiclete Com Banana



Só deu Gilberto Gil ontem no caderno dominical de Artes do NYT. Matéria de capa, página inteira, com o Larry Rother (pois é) tratando 'da grande anomalia da pop music contemporânea': o político-compositor. O pretexto são as três semanas da turnê norte-americana do Ministro da Cultura, que começa nesta quarta-feira com uma palestra no South by Southwest, em Austin, Texas, o festival de rock independente mais interessante destas bandas. Aqui em NYC Gil se apresenta no dia 20, no Carnegie Hall.

A reportagem, com o título 'Gil Hears The Future' apresenta doutor Gilberto, 64 anos, primeiro negro a assumir uma cadeira no primeiro escalão do governo federal, como figura central nas discussões sobre as novas formas de distribuição da música depois da explosão digital. "Acredito que a cultura digital carrega consigo uma nova noção de propriedade intelectual. E esta nova cultura de trocas pode e deve ser um fator importante para a formulação das políticas públicas para o setor", diz Gil.

Há ainda espaço para se destacar a aliança de Gil com o Creative Commons, o programa Pontos Culturais, o aspecto visionário do Tropicalismo (que remixava e sampleava muito antes da explosão da música eletrônica) e a crítica à chamada World Music ("e seus safaris culturais, comandados por aventureiros em Land Rovers procurando por espécimes exóticos").

Diz Gil:

"Estou em um ponto de minha vida em que não quero mais ter comprometimento algum com minha carreira, no sentido estrito da profissão. Eu já não vejo mais a música como um campo a ser explorado. Eu a vejo como uma área alternativa de ação, parte de um imenso repertório de possibilidades à minha disposição. Música é algo visceral em mim e ainda que não esteja pensando sobre ela, ainda estarei fazendo música, sempre".

domingo, março 11, 2007

Manchetes de Domingo

Uma corrida pelos principais jornais da vizinhança e, no detalhe, a primeira página do NYT, com o encontro de dois líderes da comunidade muçulmana de NY, representando, respectivamente, os imigrantes árabes de Long Island e os negros do Harlem:




- N.Y. TIMES: Uma Complicada Aliança - negros e árabes buscam o entendimento (duas das maiores comunidades de muçulmanos em Nova Iorque tentam se unir contra a discriminação que aumentou muito desde os ataques do 11 de setembro)

- WASHINGTON POST: Aprovado o reforço de tropas (Bush anuncia o envio de mais 8.200 soldados para o Iraque e Afeganistão)

- L.A. TIMES: Conferência no Iraque não melhora relações entre Irã e Estados Unidos (Iraque pede que vizinhos não interfiram nos negócios internos do país, enquanto EUA e Irã trocam acusações)

- NY DAILY NEWS: O Suspiro Final (imigrante de Mali perde mais uma filha, de seis anos, que morre no hospital por conta das queimaduras causadas pelo incêndio de prédio no Bron nesta quarta-feira)

sábado, março 10, 2007

Ru Paul? Really?



Ontem eu e M.Morrisey fomos aqui no cinema da esquina conferir 300, a adaptação dos quadrinhos de Frank Miller para a tela.

A história dos 300 de Esparta comandados pelo rei Leônidas na Batalha das Termópilas contra o poderoso exército de Xerxes foi destruída impiedosamente pela crítica local. No papel do imperador persa, Rodrigo Santoro, visual andrógino. Madame DeMello já havia me contado que no Brasil bons amigos andaram avisando ao global que é hora de parar de 'fazer boiolas no cinema'. De quinta.

Mas pior foi o Village Voice, que mandou esta: "Na pele do imperador Xerxes, Santoro parece assustadoramente como um gigantesco Ru Paul".



Ninguém merece. Nem Xerxes, nem Rodrigo, nem Ru Paul. Não deixem de perder o filme.

Manchetes de Sábado

Uma corrida pelos principais jornais da vizinhança e, no detalhe, a primeira página do Los Angeles Times, com o abraço de urso de Bush em Lula em S.Paulo:




- N.Y. TIMES: Bush e Chavez se enfrentam à distância na América Latina(no Brasil, presidente diz que ajuda norte-americana criará empregos na região)

- NY DAILY NEWS: Unidos na Dor (Pais conversam sobre a dor de perder os filhos no incêndio no Bronx)

- WASHINGTON POST: Auditoria sobre o FBI leva à pedido de reforma (alguns congressistas sugerem mudanças no Patriot Act)

- L.A. TIMES: Democratas impõem novo foco no debate sobre o Iraque (líderes do partido no Congresso chegam à conclusão sobre retirada das tropas - outono de 2008)

- USA TODAY: Bush - "FBI está revendo seus métodos de investigação"

sexta-feira, março 09, 2007

Escravos do Etanol

A esquerda norte-americana está descendo o sarrafo na possibilidade de uma parceria entre Washington e Brasília na produção de bio-combustíveis. O que mais os incomoda é a destruição da vegetação original e a poluição causadas pelo pantio e aproveitamento total da cana-de-açúcar.

Enquanto isso, o The Guardian atacou outra frente e publicou hoje reportagem de página inteira de Tom Phillips com o título ESCRAVOS DO ETANOL sobre as condições horrendas de trabalho em Palmares Paulista, no interior de S.Paulo.

Fala do 'outro lado' da revolução energética celebrada pelo governo Lula, usa termos como 'catástrofe social' e detalha a exploração da mão-de-obra dos cerca de 200 mil cortadores de cana do estado de S.Paulo, que ganham menos do que R$ 400/mês por um trabalho duro e arriscado. Também traz denúncias da Pastoral do Migrante dando conta que 17 trabalhadores morreram nos últimos dois anos devido à exaustão e falta de assistência. A reportagem, apenas em inglês, pode ser lida aqui.

Manchetes de Sexta-Feira

Uma corrida pelos principais jornais da vizinhança e, no detalhe, a primeira página do NYT, com a foto de Mathia Magassa, mãe de cinco das oito crianças mortas no incêndio no Bronx que chocou a cidade.



- N.Y. TIMES: Nove Mortos no Bronx e uma comunidade de luto

- NY DAILY NEWS: Horror no Bronx (o motorista de táxi que não conseguiu salvar a mulher e os filhos no incêndio que chocou a cidade).

- WASHINGTON POST: FBI vai longe demais (investigação da secretaria de Justiça mostra que o FBI anda sonegando informações sobre emails, contas bancárias e telefonemas, que não deveriam permanecer de desconhecimento do público)

- L.A. TIMES: Democratas impõem novo foco no debate sobre o Iraque (líderes do partido no Congresso chegam à conclusão sobre retirada das tropas - outono de 2008)

- USA TODAY: 14 estados anunciam cortes drásticos nos auxílios-saúde de crianças e adolescentes

Protestos no Brasil

A CNN está mostrando a todo momento flashes dos protestos contra Bush no Brasil e na Colômbia. Em sua versão doméstica o canal de notícias diz que:

* quem protesta exige mais investimento do governo norte-americano na América Latina (não se fala em invasão do Iraque)

* há 'suspeitas' de que queo s manifestantes estejam sendo pagos pelo governo venezuelano.

Este é o nível da cobertura televisiva da visita do presidente Bush à América Latina por aqui.

quinta-feira, março 08, 2007

Manchetes de Quinta-Feira

Uma corrida pelos principais jornais da vizinhança e, no detalhe, a primeira página, chocante, do NY Daily News:



- NY DAILY NEWS: Horror no Bronx (oito crianças e uma mulher mortos no pior incêndio na cidade em 17 anos).

- N.Y. TIMES: Resultado do julgamento de Libby não acalma ninguém (esquerda, direita e mercado nervosos)

- WASHINGTON POST: Bush rechaça pressões para dar um perdão oficial a Libby (ato poderia ser arriscado ás vésperas das eleições de 2008)

- >FINANTIAL TIMES/US: A recuperação da moeda japonesa está na pauta do dia no comércio mundial.

- L.A. TIMES: Mãe e filha retornam a Los Angeles, depois de serem envenenadas com tálio radioativo em Moscou.

- USA TODAY: Forças Armadas completamente perdidas no tratamento a vítimas de traumatismo craniano, ferimento mais comum entre os soldados americanos na ocupação do Iraque

segunda-feira, março 05, 2007

A Guatemala de Bush: extermínio, limpeza social e ato de fé


No ano passado o governo Bush jogou pesado para que a Guatemala do presidente Óscar Berger, fiel aliado de Washington, levasse a vaga reservada para a América Latina no Conselho de Segurança da ONU. A justificativa era a de que o outro candidato - a Venezuela de Hugo Chávez, apoiada por Brasil e Argentina - carecia de credenciais democráticas essenciais para se postular o cargo. E que a Guatemala era um exemplo do que os republicanos gostariam de ver in latin american way.

No fim das contas e depois de muito teretetê chegou-se a um candidato 'neutro'. Mas os recordes democráticos do país centro-americano - que viveu de 1960 a 1996 sob uma ditadura sustentada pelos E.U.A. - alardeados pelos neo-cons ficaram engasgados na garganta dos que seguem chocados com as ossadas de militantes oposicionistas descobertas em 2005. Estima-se que mais de 100 mil guatemaltecos tenham sido assassinados nos quase 40 anos de arbítrio.

Pois hoje o NYT traz matéria de capa dando conta de como anda a vibrante democracia centro-americana. O repórter James C. McKinley Jr. escreve uma daquelas histórias tristíssimas, típicas de republiquetas das bananas. Ela começa com três parlamentares salvadorenhos assassinados na Cidade da Guatemala no mês passado. Eles teriam sido confundidos com traficantes de droga colombianos, seqüestrados e executados por quatro policiais locais. Assim que se entregaram, estes foram imediatamente enviados para o presídio de segurança máxima El Boquerón. E quatro dias depois também apareceram mortos.

O governo diz que os policiais foram atacados por presos revoltosos. Mas detentos contam que eles foram assassinados por homens encapuzados, vestindo uniformes militares. Para piorar, há mais de uma reportagem sugerindo que os tais deputados salvadorenhos eram, afinal de contas, parte de uma das mais importantes quadrilhas de tráfico da América Central.

Nos últimos 30 dias o escândalo levou a duas demissões no gabinete Berger e à instalação de uma CPI no Congresso para se investigar a existência de um esquadrão da morte financiado por dinheiro público. A Guatemala conta com pouco mais de 12 milhões de habitantes e cerca de 5 mil homicídios/ano. Destes, apenas 2% resultam em prisões de suspeitos. Estima-se que pelo menos 2/3 da cocaína que entra nos EUA passa pela Guatemala.

Grupos de direitos humanos têm feito um barulho danado por aqui, denunciando que os esquadrões anti-drogas financiados por Washington se transformaram em milícias informais. Estas entraram na luta pelo lucrativo negócio do tráfico sob o manto de 'proteção à população civil'. Um oficial da ONU revelou, sob a condição de permanecer anônimo, que as milícias foram criadas nos últimos três anos por 'gente ligada ao governo' preocupada com o aumento da violência urbana. E, o mais inusitado, seus soldados seriam ligados a igrejas evangélicas que vêem no extermínio de bandidos mais do que 'limpeza social', mas um 'ato de fé'. Com dinheiro ianque, o governo Berger, denuncia o funcionário da ONU, criou um Frankenstein cristão.

É a guerra santa subsituindo a guerra suja em plena América Central.

No meio do furacão, Bush chega à Guatemala na semana que vem, após seu encontro com o presidente Lula. Podia pedir conselho ao petista e levar uma mensagem amiga ao companheiro Berger. No Rio, ao menos até agora, não se ouviu falar de milícia evangélica. Será este o próximo capítulo do descaso com que a ralé é tratada em Pindorama?

Em tempo: o diretor da Human Rights Watch, Dan Wilkinson, diz que a ONG classifica a Guatemala de Berger como 'uma democracia fracassada'.

Chavez, este autoritário, deve estar rindo à toa.

domingo, março 04, 2007

Delicioso Carnaval Fora de Época


E quem disse que não tem ziriguidum no Brooklyn? Acabou de chegar aqui o sensacional podcast produzido por Madame Serra e MdC Suingue, todinho dedicado a preciosidades do Carnaval. É uma trilogia repleta de pérolas do sacolejo tupiniquim mas também caribenho, nothinghílico, orleânico.


Delicioso.

Para quem ainda não conhece, clique logo aqui e escute o Caiprinha Appreciation Society - o C.A.S. para os mais íntimos. Ou assine logo no iTunes. É diversão garantida todas as semanas.

terça-feira, fevereiro 27, 2007

ENTREVISTA/Matt Damon

A entrevista que fiz com Matt Damon acaba de ser publicada no site do UOL:


27/02/2007 - 16h44


Matt Damon conta como foi bom trabalhar com Scorsese em "Os Infiltrados"


Eduardo Graça, colaboração para o UOL


Scorsese dirige Matt Damon


Nova York, BR Press - O ator Matt Damon certamente engrossa o coro dos que comemoram o Oscar recebido pelo diretor Martin Scorsese no domingo, depois de sete indicações sem vitória. O próprio Damon, 36 anos, não recebeu indicações por suas ótimas interpretações no filme de Scorsese, "Os Infiltrados", e em "O Bom Pastor", dirigido por Robert De Niro, que estréia nos cinemas brasileiros no dia 16 de março.

No thriller de Scorsese, em cartaz nos cinemas nacionais, o ator de Boston voltou a sua cidade natal para encarnar Colin Sullivan, um policial que se envolve perigosamente com a máfia irlandesa comandada por Frank Costello, o personagem de Jack Nicholson. Em "O Bom Pastor", ele é Edward Wilson, um dos primeiros agentes recrutados pela recém-nascida CIA. É justamente por meio dos dramas pessoais (que incluem as disputas com a mulher, vivida por Angelina Jolie) de Wilson que De Niro conta a história da mais importante agência de informações do planeta.

Diferentemente dos sombrios personagens que criou em 2006, Damon conversou com afabilidade por duas vezes com a BR Press, nos intervalos das filmagens de "O Ultimato Bourne" (a aguardada seqüência de "A Identidade Bourne"). Em ambas, exibia um sorriso aberto, o humor afiado e a felicidade de quem vive um momento muito especial de sua vida. O ano que passou foi, afinal, o do nascimento de sua primeira filha, Isabella, fruto do casamento com a ex-garçonete argentina Luciana Barroso Bozan. Leia a entrevista a seguir:

Brad Pitt é o produtor de "Os Infiltrados". Foi ele quem o convidou para fazer Colin Sullivan, um personagem bem sinistro e diferente da maioria dos que o público se acostumou a associar a seu perfil de bom moço?

Matt Damon - Sim, foi o Brad quem me ligou e eu imediatamente disse que seria um sonho ser dirigido pelo Marty [apelido do diretor Martin Scorsese]. Estou certo de que esse foi o "sim" mais fácil de minha carreira. Tenho percebido que, em Hollywood, há uma regra quase sem exceção de que, quanto maior o orçamento dos filmes, menos interessante será o leque de personagens. E em "Os Infiltrados" tivemos uma união dos dois lados da moeda que me interessou muito. Eu simplesmente adoro o filme.

Você é famoso por dedicar um tempo muito grande para a pesquisa de seus personagens. Este ano você teve de lidar com dois espiões (em "O Bom Pastor" e "O Ultimato Bourne") e um policial-espião (em "Os Infiltrados"). Não lhe pareceu um pouco repetitivo?


Matt Damon - Nem um pouco! Primeiro porque esses papéis são todos excelentes, cheios de nuances, uma hora você parece mais o mocinho, na outra o bandido. São ótimos exercícios. E depois porque eles eram bem singulares. Em "Os Infiltrados", não tive de me preocupar com a ambientação, com o sotaque, com a geografia da cena. Eu cresci em Boston! Aquela é a minha cidade. Então meus esforços foram os de mergulhar na subcultura dos policiais de South Boston. Eu os acompanhei para cima e para baixo e cheguei a participar de uma prisão em massa de traficantes de crack. Já O Bom Pastor foi um estudo intenso de todos os quilos de documentos e biografias relacionados à criação e aos primeiros anos da CIA, até a crise da Baía dos Porcos, em 1961. Conversei com alguns dos fundadores da agência e seus familiares, entrevistei-os e eles foram muito, muito, mas muito pacientes. Agora, o mais importante em "O Bom Pastor", é claro, foi contar com Bob (Robert De Niro).

Ele é extremamente cuidadoso com os atores, não é?

Matt Damon - Basicamente, durante toda a filmagem, ele ficava sentado, digamos, aí aonde você está (de frente para o ator), perto mesmo, ao lado da câmara, observando detalhadamente cada cena. Cada detalhe, cada mínimo ajuste eram de uma importância sem fim para ele. E isso me ajudou muito. Posso dizer que jamais me senti tão seguro em cena. Até porque você tem ali ao seu lado um dos maiores atores de todos os tempos, acompanhando cada passo de sua performance. E não foi nada intimidador, ele usou todo seu poder, sua presença, para me ajudar, me encorajar mesmo.

Você trabalhou este ano com dois ícones do cinema americano contemporâneo, De Niro e Scorsese. Eles têm estilos muito diversos de trabalho?

Matt Damon - Sim, eles são muito diferentes. Bob é, acima de tudo, um ator que dirige. E não quero dizer que o Marty não seja um tremendo diretor de atores. Aliás, esta é a maior semelhança entre os dois -- pensam muito no bem-estar e em como os atores estão se sentindo em cada cena. Ao mesmo tempo eles pensam no filme a partir de seus protagonistas, de como cada personagem vê o todo. Agora, Marty já chega no set com a cena pronta em sua cabeça do ponto de vista de quem dirige, do movimento de câmara, de quem sabe exatamente como a tecnologia pode funcionar a seu favor. Ele traz uma experiência que poucos no cinema contemporâneo têm. Talvez Spielberg, Sorderbergh e Coppolla consigam fazer o que Marty alcança, sem precisar antes conversar horas com o responsável pela fotografia. Está na cabeça deles.

Seus personagens nos dois filmes são seres atormentados por um passado que parece os assombrar o todo tempo. E você, em contrapartida, vive um momento extremamente feliz em sua vida particular. Foi complicado criar esses personagens sombrios enquanto sua vida ia de vento em popa?

Matt Damon - Sim, foi inegavelmente o melhor ano de toda a minha vida. E fazer Collin e Edward foi um desafio no sentido de que teria de esconder qualquer traço de felicidade dos personagens. Mas, sabe, estou lá atuando, fazendo o que faço de melhor, não penso mais, a esta altura de minha trajetória, nos riscos de contaminar os meus personagens com minha vida pessoal. E há tantas coisas terríveis no mundo que podem inspirar você na hora de criar estes homens atormentados, não é?

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Saudades de Rubens Ewald Filho...


Sabe aquela overdose de batuque, mulatas gostosonas, caretas safadas e outros telecotecos afins? Se escapo anualmente da ressaca carnavalesca, enfrento cada vez mais a fatiga do Oscar.

Por aqui tevê, as ruas, os comentaristas no rádio, entre janeiro e a primeira semana de março, só falaram dos filmes, das roupas, dos subtextos políticos da festa de premiação da Academia de Hollywood, que vem se transformando em algo como uma espécie de Natal exclusivamente comercial, voltado para adultos com síndrome de Peter Pan (ou seja, quase todos nós).

Haja saco! Ainda mais sem poder contar com os comentários de Ruben Ewald Filho, autor do indispensável O Oscar E Eu, sempre antenado com o que realmente interessa.

Minha amiga Mme. DeMello, companheira de muitas noites incansáveis (e, no Brasil, com o fuso, a embromação avança madrugada adentro!), nariz grudado na telinha, acaba de mandar algumas pérolas, safra 2007, de nosso guru da Baixada Santista:

* Helen Mirren que se cuide! Existe uma síndrome do divórcio pós-Oscar. Foi assim com a que fez Menina de Ouro, com a Reese Whiterspoon... Se bem que só agora a Helen se casou com o Taylor Hackfort. Ela é muito liberal. Fez aquele filme... ai, não me lembro o nome agora.... com Peter O'Toole... Ah, Calígula!!!! Ela aparecia nua em Calígula, porque é liberal!

* Ela está com uma roupa de oncinha? A mulher do John Travolta está com roupa de oncinha????!!!!!

* Pode ser ainda que o Clint Eastwood engula o Scorcese. Pelo menos na altura, já que ele tem quase dois metros de altura e o Scorcese é pequenininho.

* Custei a reconhecer a Reese Whiterspoon. Cadê o queixo? O queixo dela chega antes.

* E a melhor, sobre a coitada da Penelope Cruz: "Não posso me conter: esta moça está muito sem graça! Muito mal arrumada, mal vestida! Isso não é roupa de vencedora de Oscar. Ela não está à altura de uma Sophia Loren... Uma cara de passarinho... Bem, ela só está aí porque namorou Tom Cruise, claro!

Só mesmo um Oscar para me lembrar a falta que Rubens Ewald nos faz!

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Aqui do Brooklyn, o melhor da festa de ontem foram mesmo os prêmios dados aos veteranos Alan Arkin e Martin Scorsese. Convenhamos, tanto a American-Idol-eliminada-que-virou-estrela-de-cinema quanto o último rei da Escócia com seus discursos da retomada do sonho americano me fizeram cochilar no sofá de casa.

Agora, disparado, a melhor tirada da (pós)festa foi mesmo a de Melissa Etheridge, cansada de guerra, que desbancou as três indicações do musical Dreamgirls e abocanhou a estatueta de melhor música do ano em filmes:

- Este careca é único homem pelado que entra lá em casa.

Dona Melissa também fez questão de dedicar a vitória à sua digníssima esposa.

Bem, o ano, por aqui, também começou hoje. Com neve caindo do lado de fora e música boa na vitrola.

domingo, fevereiro 18, 2007

SHOW/ Lou Reed no Brooklyn (14/12/2006)




Hoje voltamos do Caribe - sem a mala, que não apareceu na esteira da American Airlines (a lama, a lama!) - e, na montanha de jornais, cartas e encomendas empilhadas na escada da entrada de casa estava a BIZZ de fevereiro. Nela, o textinho que segue abaixo, um relato do show sensacional que tive o prazer de conferir em dezembro, aqui no Brooklyn, com Lou Reed apresentando pela primeira vez nos palcos um de meus discos favoritos, o maldito Berlin.

O espetáculo, dirigido por Julian Schnabel, mais gordo do que nunca, aconteceu em uma noite fria de fim de outono. Fui à pé para a St.Ann's Warehouse, uma casa alternativa nos moldes do que seria o Espaço Sérgio Porto, no Rio, se este fosse bem-cuidado. Mas esta é outra história. A St. Ann's fica aqui no Dumbo, entre as pontes do Brooklyn e de Manhattan, de frente para o East River.

Aí vai o texto completo (na revista impressa saiu um tiquinho menor):

ENTRE TAPAS E BEIJOS

O Romantismo dolorido de Berlin

Por Eduardo Graça para a BIZZ

Barba imensa, sorriso trêmulo, quem abre a noite da estréia mundial de Berlin, disco-espetáculo concebido por Lou Reed em 1973, é o artista plástico e cineasta Julian Schnabel, diretor de Basquiat e Antes Que Anoiteça. “Preciso confessar. Não conheço ninguém com 50 anos que ainda esteja casado com o mesmo companheiro (a) daquela época. O Lou compôs, com perfeição, a trilha sonora da minha vida”, agradecia o responsável pela cenografia do espetáculo que chega aos palcos nova-iorquinos exatos 33 anos depois de aparecer, para imenso desgosto de crítica e público, nas lojas de disco do mundo todo.

O Brooklyn não fica em Berlim, mas bem que poderia. Detalhes geográficos à parte, Lou Reed, camisa de malha vermelha colada no corpo musculoso, óculos de aros tranparentes, cabelos grisalhos, ocupa o palco da St.Ann’s Warehouse, à beira da Ponte do Brooklyn, como se a inevitável ressaca da primeira metade dos anos 70 ainda nos doesse as cabeças. Berlin é a obra-prima pouco compreendida (uma famosa revista de rock intitulou sua resenha do álbum assim: Adeus, Lou!) que se seguiu à graça irresistível de Transformer, a bíblia do glam rock que reunia em um só álbum coisas como Walk on the Wild Side, Satellite of Love e Perfect Day. Em certo sentido, Berlin lhe é o avesso exato – uma narrativa curta (dez faixas), amarga e deprimida das desventuras amorosas de Jim e Caroline na cidade-símbolo da guerra fria.



O disco pode ser ‘lido’ como um conto, a história trágica de um romance destruído por drogas, traições e muita, muita violência. Um cabaré anti-punk que exigia cordas, violinos e sopros, Berlin finalmente chegou aos palcos como deveria: deprimidíssimo, mas sem perder um milímetro de sua força. Lá estão o mago do indie rock Antony Hogarty, muito branco, todo vestido de negro; a diva do retro soul Sharon Jones, muito negra, toda de vermelho; e o estranhíssimo (aqui, um brutal elogio) Brooklyn Youth Corus, formado por adolescentes de todas as cores do mais multirracial dos distritos nova-iorquinos, apresentando a introdução do pungente Sad Sad Song. Um sofá verde pende do teto, na vertical, o estofado gasto, separado por papel de parede vermelho com temas asiáticos enquanto uma grande gaiola de zoológico cerca os instrumentos de percussão. Tudo aqui parece fora de lugar. Na platéia, pouco mais de mil pessoas sentadas em cadeiras de ferro observam a tudo em um silêncio menos respeitoso do que hipnótico.

Um retrato ao mesmo tempo monótono, doentio e assustadoramente real do relacionamento de uma mulher promíscua e um homem envolto com drogas pesadas, Berlin não tem nada de hermético. Seus fãs – que, acanhados, foram saindo das trevas à medida em que o álbum envelhecia quase tão bem quanto seu idealizador – deixam de piscar os olhos a fim de louvar com maior respeito a beleza da música, a poesia reediana em seu ápice, a impressionante força cenográfica e o namoro nada envergonhado com a melhor tradição dos musicais americanos, além de um romantismo dolorido e raivosamente urbano.

É verdade que, antes de o espetáculo começar, novos modernos do Brooklyn e velhos acólitos do poeta de Manhattan perguntavam-se, ansiosos, se haveria algum sentido, afinal, neste encontro adiado por três décadas para celebrar aquele que é muitas vezes considerado (vide o cartaz original do show que jamais aconteceu em 1973) o Sgt.Peppers dos anos 70. “Eu apenas queria contar uma história. E a situei em Berlim porque, na época, era uma cidade dividida. Achei que era uma senhora metáfora”, lembra Reed, que nunca havia pisado em Berlin quando da feitura do álbum. Não obstante, o resultado é tão alemão quanto Brecht. E valeu cada centavo dos US$ 65 (ou R$ 143) desembolsados pelos pagantes.

Ao vivo, deslocado no tempo, Berlin ganha dimensão ainda maior. A guitarra de Steve Hunter (que tocou nas gravações) é mais bela em Lady Day. Possuído, ele sola como se estivesse em um estádio de rock, para o deleite de Reed, punho cerrado lançado ao ar em desespero nada calculado. Cinto de prata e cobre cintilante, ele encara a imagem de soldados em guerra que se forma no vídeo localizado no fundo do cenário enquanto canta a cínica Men of Good Fortune.

Chega a hora de Caroline Says 1 e não deixa de ser engraçado ouvir gritinhos de prazer vindos da parte feminina, de todas as idades, quando o compositor repete, pausadamente, a abertura que informa: Caroline says that i am just a toy/ she wants a man/not just a boy!.

A esta altura o público já está de pé, se aproximando de Reed e embasbacado frente a uma big-band especialmente convocada para as quatro noites de casa repleta na St.Ann’s. Lá estão os baixistas Rob Wasserman e Fernando Saunders, o batera Tony ‘Thunder’ Smith, o trompetista Steve Bernstein e a cellista Jane Scarpantoni. Quem segura a batuta é ninguém menos do que o mítico produtor e arranjador Bob Ezrin (do próprio disco e, claro, de The Wall, do Pink Floyd). De costas para o público, ele deixa à mostra apenas o grafite em suas costas: Berlin. Impossível não lembrar que, aqui na St.Ann's, Reed e John Cale, seu parceiro de Velvet Underground, compuseram Songs For Drella, a mais bela declaração de amor jamais feita a Andy Warhol.

Tudo conspira para que a noite seja perfeita. Ao fundo, o vídeo de Shnabel agora oferece variações sobre H20. Exato. Águas mansas, tsunamis, torneiras, pinga-pingas, oceanos, a chuva. E a atriz Emanuelle Seigner, a senhora Polanski, com seu rosto tristíssimo. Mas sem chorar, afinal, lembra Reed, ela é tão fria quanto o Alaska.

Vem então o massacre de The Bed, que narra o suicídio de Caroline, narrado por Jim, aqui marcado pela impressionante seqüência harmônica do coral de adolescentes, a partir da repetição infinita dos versos fantasmagóricos And i said/ oh oh oh oh/what a feeeling/. E, mais uma vez, a beleza terrível de Sad Song.

Após um rápido intervalo, Reed retorna para um bis especialmente feliz, com as velvetianas Sweet Jane e Candy Says (esta última em um arrebatador dueto com Antony, que vi pela primeira vez no show que os Johnsons fizeram ano passado no Carnegie Hall) e o muito mais recente Rock Minuet, do álbum Ecstasy (2000). “Berlin é apenas mais um daqueles meus álbuns que não vendeu nada”, despistou Reed, com seu famoso mau-humor, quando o projeto de finalmente levar o disco ao palco saiu do papel. Paradoxalmente, também afirmou que este fora ‘um projeto de uma vida inteira, pretensioso mesmo’, e assumidamente influenciado pela obra de William S. Burroughs, Allen Ginsberg e Raymond Chandler. Os tempos, obviamente, são muito outros. Mas a depressão que gerou Berlin não parece ter se dissipado nas duas margens do East River. Aqui na noite fria de fim de outono de Nova Iorque, o velho Lou nos lembra que ela é apenas mais profunda.

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

O blog dá um tempo no Caribe...


Blogando do Caribe, com o visual de Rum Point Beach. Todo inverno tem seu fim, ainda que apenas na nossa imaginação. Ainda teremos dois longos meses de frio, pelo menos. Photo by William Morrisey.

Enquanto isso, no Brooklyn...




A foto é de meu amigo Victor Affaro, um senhor fotojornalista, agora meu vizinho no Brooklyn. Ela foi tirada da janela do apartamento dele, em uma das ruas mais movimentadas de Williamsburg, a Bedford Avenue. Enquanto o Carnaval rola a mil no Brasil, por aqui o jeito é tomar fôlego, encontrar a pá do porão e tirar a neve da frente de casa antes que chegue a multa da prefeitura. Haja disposição!

ENTREVISTA/ Ken Watanabe


Na Folha de S.Paulo de hoje (aqui, para assinantes do jornal ou do UOL) saiu minha entrevista com Ken Watanabe, brilhante no filme de guerra As Cartas de Iwo Jima, de Clint Eastwood, um dos fortes concorrentes ao Oscar do dia 25.

O ator japonês, que começou a carreira nos grupos de teatro de vanguarda de Tóquio nos anos 70, foi simpaticíssimo e só encrencava quando uma das duas tradutoras convocadas para o conversê tentava explicar detalhadamente alguma pergunta mais encorpada do entrevistador aqui.

Divertido, mas extremamente sério, Watanabe não deixou de falar da pressão da extrema-direita para que a chamada Consituição Pacifista (imposta pelos norte-americanos depois da rendição de 1945) seja modificada, com o Japão, hoje fiel aliado dos EUA, voltando a contar com forças armadas regulares. Este é, afinal, o tema central da política japonesa neste momento.

A entrevista e um comentário exclusivo aqui do blog seguem abaixo. Uma bela visão do que acontece no Japão hoje é a do documentarista John Junkerman, que escreveu um artigo interessantíssimo, infelizmente apenas em inglês, aqui.

O ator Ken Watanabe fala à Folha das dificuldades para encarnar o protagonista de "Cartas de Iwo Jima"

"Não sabemos lidar com nossos fracassos"


EDUARDO GRAÇA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE NOVA YORK

Cartas de Iwo Jima conta com um elenco quase exclusivamente japonês, centrado na figura do general Tadamishi Kuribayashi. Para encarnar o homem que conseguiu conter as forças americanas por mais de 36 dias, Clint Eastwood escolheu Ken Watanabe, 47, o mais importante ator japonês de seu tempo, conhecido por O Último Samurai e Memórias de uma Gueixa. Leia a seguir a entrevista que o ator concedeu à Folha.

FOLHA - "Cartas de Iwo Jima" é um sucesso de bilheteria no Japão. O sr. acha que isso se deve ao tratamento respeitoso de Eastwood ao tema?
KEN WATANABE -
Sim, mas, como ator, com a visão de quem estava dentro do filme, posso dizer que o sucesso se deve também à maneira calma como Clint comanda um set de filmagem. Ele estava lidando com um elenco exclusivamente japonês e teve de usar três tradutores, o que é um trabalho extra, mas não perdeu a delicadeza jamais.

FOLHA - Vocês conseguiram a permissão para filmar na ilha, considerada solo sagrado pelos japoneses. Como foi a sensação?
WATANABE -
Durante quatro anos eu me preparei como nunca para encarnar o general Kuribayashi. Visitei a cidade em que ele foi criado, uma localidade pequenina e tradicional nos cafundós do Japão. Li tudo o que pude sobre ele. Mas fundamental mesmo foi ter ido a Iwo Jima. A ilha não é um lugar muito cultuado por nós, japoneses, que temos uma dificuldade endêmica em lidar com nossos fracassos. O governo de Tóquio nos deu apenas um dia para ir lá. No fim de um dia intenso, fomos todos, americanos e japoneses, até o monte Suribachi, cume da ilha, onde erguemos um memorial para os mortos. Foi uma experiência intensa, pude de fato sentir o espírito dos soldados que lá pereceram e percebi que tínhamos a obrigação de contar a história daqueles homens. E que tínhamos de fazê-lo juntos, americanos e japoneses. Foi ali que encontrei o sentido mais profundo para fazermos as Cartas de Iwo Jima.

FOLHA - Há hoje um grande debate no Japão opondo os defensores da Constituição pacifista do país e os que consideram fundamental a militarização nacional. O senhor tem alguma opinião sobre o tema?
WATANABE -
Minha posição está explicitada no filme. Espero que todos os muitos japoneses que foram aos cinemas ver o filme tenham refletido muitíssimo bem sobre se é mesmo tão fundamental assim incrementarmos a corrida armamentista no Extremo Oriente.

FOLHA - Como o senhor se sente quando é abordado por fãs, felizes em conversar com o ator japonês mais famoso de sua geração?
WATANABE -
Eu acho tudo isso muito engraçado. No fim, honestamente, acaba me dando mais receio do que prazer. Sou uma pessoa que cultiva diariamente a humildade e que, no momento, por exemplo, está mais preocupado em saber como a comunidade japonesa no Brasil vai receber Cartas de Iwo Jima. Tenho grande interesse sobre esta faceta da história japonesa, a imigração para São Paulo, e adoraria produzir algo no Brasil.


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As constantes visitas do então primeiro-ministro Junichiro Koizumi a um memorial dedicado a 14 criminosos de guerra japoneses enfureceu os governos vizinhos da China e da Coréia do Sul que nos últimos anos protestaram veementemente sobre a 'reconstrução da História' desenhada por Tóquio. Outra medida polêmica foi a criação da cadeira obrigatória de ‘estudos nacionalistas’ na rede pública de ensino japonesa. E o novo primeiro-ministro, Abe Shinzo, é neto e devoto fiel de Kishi Nobusuke, o primeiro político nipônico a defender abertamente a modificação do Artigo 9, base da ‘constituição pacifista’ que proíbe a militarização do país.

O exame de consciência pelo qual passa o Japão não está refletido nas telas apenas nas Cartas de Iwo Jima. No mesmo dia em que o filme de Eastwood chega aos cinemas brasileiros estréia em Tóquio o documentário Gai Shanxi e Suas Irmãs, do chinês Ban Zhongyi, que revive a triste história das chinesas da província de Shanxi, tornadas escravas sexuais pelos militares japoneses. Mês passado, no Festival de Sundance, um dos destaques foi Nanking, com Woody Harrelson, tratando de forma crítica, a partir de uma narrativa em primeira pessoa, dos 70 anos da brutal invasão japonesa à China continental. E Satoro Mizushima, dono de um canal de tevê nacionalista em Tóquio, anunciou que termina ainda este ano o documentário A Verdade Sobre Nanjing, em que defende a tese de que o massacre de 1937 é obra de ficção, apesar de historiadores considerarem o episódio um dos mais terríveis banhos de sangue de todos os tempos, em que entre 140 e 300 mil civis chineses (incluindo mulheres e crianças) foram massacrados pelos japoneses na então capital da China nacionalista.

Um dos principais entusiastas do documentário é o governador de Tóquio, Shintaro Ishihara, de extrema-direita, que defende a ‘importância de se combater a propaganda anti-japonesa no mundo e a necessidade de se corrigir esta página da história escrita pelos vencedores’. Curiosamente, foi justamente Ishihara quem inspirou Eastwood a produzir as Cartas, ao liberar o solo da ilha (considerada parte de Tóquio, apesar da distância) para as filmagens de Conquista da Honra desde que ele ‘respeitasse os japoneses que morreram de forma heróica naquele solo’.

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Em Busca dos Milhões Desaparecidos

Férias no Brasil, uma semana corrida aqui em NY e já parto de novo no sábado para uma semana longe do frio. Está difícil parar um pouco e postar com calma aqui no blog.

Apesar do clima ártico (com sensação térmica diária de 15 C negativos) a temperatura ferve em Washington. Começou (aparentemente para valer) a investigação do Congresso de maioria democrata sobre o dinheiro administrado pelo governo Bush para a reconstrução do Iraque que simplesmente desapareceu. Ainda falta descobrir aonde estão os US$ 8,8 bilhões que a tal Autoridade Provisória (governo de ocupação norte-americano no Iraque) nunca conseguiu explicar em que foram aplicados.

Em editorial hoje, o NY Times lembra que, nos relatórios oficiais, gastos de até US$ 500 milhões eram justificados com uma única palavra - 'segurança'. E outros dez comprovantes de despesas aparecem sem justificativa alguma, ou seja, não comprovam coisa alguma. Os valores foram de US$ 120 a até US$ 900 milhões cada. Detalhe: toda esta dinheirama era iraquiana, sobras do Programa Petróleo-Por-Comida, adminstrado pela ONU e, desde a invasão de 2003, controlado pelos EUA.

Inquirido pelos deputados, o então governador-geral do Iraque, Paul Bremer III, justificou o sumiço de tanto dinheiro dizendo que não havia sistema bancário algum no país ocupado e que ' não havia como aplicar soluções perfeitas' num cenário de terra arasada. Os primeiros resulatados da investigação já mostram que pelo menos outros US$ 12 bilhões foram aplicados de forma 'irresponsável'.

Os republicanos seguem dizendo que tudo isso 'são favas contadas, notícia requentada'. Mas o câncer que segue devastando o governo Bush - a desastrosa tomada do Iraque - vem alimentando ainda mais as esperanças dos muitos candidatos a candidato à presidência, dos dois lados do espectro político. Mas destes falaremos mais tarde. Até já que a vida anda muito, muito corrida aqui por estas bandas.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Personalidade e Tipos Sangüíneos

Hoje o caderno de esportes do NYT traz uma reportagem deliciosa sobre a conexão entre personalidade e tipos sangüíneos, algo aparentemente muito comum no Japão e que eu, em minha extrema ignorância, desconhecia completamente.

Vejam só o que nos ensina a sapiência nipônica:

TIPO O - O GUERREIRO (despachado/confiante/ambicioso/intenso/perseverante)

TIPO A - O FAZENDEIRO (de fala mansa/precavido/reservado/conformado/confiável)

TIPO B - O CAÇADOR (individualista/criativo/flexível/impulsivo/espírito livre)

TIPO AB - O HUMANISTA (gente-boa/racional/sério/solitário/extremamente organizado)

Detalhe: De acordo com a Cruz Vermelha, 45% dos norte-americanos são Guerreiros e 40% Fazendeiros, com apenas 11% Caçadores e 4% Humanistas. No Japão, 38% são Fazendeiros, 30% Guerreiros, 22% Caçadores e 10% Humanistas.

Curiosidade Inteligente: Apenas 16% da humanidade são Caçadores, em sua maioria na Ásia Central e na Europa Oriental, mas com alguns bolsões na África. 20% são Fazendeiros, e a maior incidência do tipo A ocorre nos EUA, no norte da Europa e na Austrália, e especialmente escarso nas Américas do Sul e Central. Já o Guerreiro é o mais popular dos tipos sangüíneos, com presença em 63% da humanidade, especialmente na América do Sul e na Europa Ocidental. Humanistas respondem apenas por 1% da humanidade, o que explica, a se acreditar nos sábios japoneses, muita coisa neste mundinho nosso.

Curiosidade Boboca: entre os famosos guerreiros estão Ronald Reagan e a Rainha Elizabeth II, entre os Fazendeiros a mala da Britney Spears, Jack Nicholson e Mia Farrow são Caçadores e John Kennedy e sua querida Marylin Monroe Humanistas.

A reportagem completa está aqui.

Diretinho da Redação (51)


A vida anda tão corrida que não tenho tido tempo de atualizar o blog. Tão corrida que decidi me despedir do Direto da Redação no ano que entra. 2007 vem cheio de mudanças e depois de merecidas férias no Brasil - oba! - que começam na próxima segunda-feira, a idéia é incrementar o edudobrooklyn, dar uma sacudida mesmo no blog. Evoé!

A coluna de despedida do DR segue abaixo:

ATÉ A VOLTA

Despedidas são sempre difícies. Evitar chavões como este, tarefa ainda mais complicada. Foram dois anos e pouco no Direto da Redação, escrevendo mais ou menos um texto por semana, explorando as conexões menos óbvias, creio, entre a labiríntica Nova Iorque e o imenso Brasil.

Quase uma centena de textos, produzidos com total liberdade e que, receio, testaram, aqui e acolá, a paciência do leitor desavisado. Aos que aqui chegaram atraídos pelo brilho dos colegas do site, minhas sinceras desculpas.

Às almas profundamente generosas que por acaso sentirem de fato falta dos comentários do jornalista do Brooklyn, a produção de reportagens e entrevistas feitas a partir de Nova Iorque continuará em 2007, em alguns dos endereços mais generosos da imprensa brasileira e portuguesa.

Quando convidado pelo querido Eliakim Araújo para fazer parte da equipe do DR temi que meu primeiro exercício de jornalismo assumidamente opinativo pudesse se revelar uma armadilha para um escriba mais acostumado a dar voz aos entrevistados do que a trocar com o leitor impressões sobre as notícias que mais nos movem, os bastidores da cobertura da imprensa aqui e no Brasil, o lado pouco explorado de certos personagens e empresas canonizados pelas celebridades de ocasião. Ledo engano. Fazer jornalismo à maneira do DR foi um imenso prazer.

Os textos aqui publicados, espero, revelaram minha percepção bem-humorada, na medida do possível, destes anos especialmente atrapalhados, testemunhas do auge e das derrapadas do neo-conservadorismo por aqui e do neo-petismo nos cada vez mais tristes trópicos.

Está bem, relendo as colunas de um só folêgo reconheço que boa parte delas se revelam mais rabugentas do que espirituosas. Mas quem passou pela ocupação da Iraque e a explosão do movimento anti-imigrantes por aqui, e acompanhou o fim da pureza ideológica da esquerda por aí, há de me perdoar.

A vocês e ao Eliakim, meu eterno agradecimento. E minha torcida para que o DR continue sendo um dos espaços mais democráticos e dinâmicos da imprensa eletrônica em língua portuguesa. Até a volta.

domingo, novembro 26, 2006

A Lapa deu no NYT deste domingo

O caderno de Turismo do NYT publica neste domingo uma matéria com chamada de capa sobe a Lapa, no Rio, 'onde o samba nunca deixou de acontecer'. A melhor frase da reportagem é do diretor teatral Domingos de Oliveira:

- Não há tanta violência assim aqui na Lapa. É que os traficantes de droga adoram o bairro.


Ai, meu Rio...

sexta-feira, novembro 24, 2006

ENTREVISTA/Ridley Scott


O Valor Econômico (aqui, para assinantes) publicou hoje minha entrevista com o diretor Ridley Scott, que estréia na primeira semana de dezembro seu Um Bom Ano, com Russell Crowe no papel principal. O papo, no hotel The Mark, no Upper East Side, foi bem legal, ele falou bastante sobre as filmagens de American Gangster, com Crowe (novamente!) e Denzel Washington.

Do sol da Provence à Big Apple

Por Eduardo Graça, para o Valor
24/11/2006

O domingo é de céu azul em um dia glorioso de outono em Nova York, mas sir Ridley Scott, 69 anos, ainda não conseguiu atravessar a rua, sair do The Mark Hotel e caminhar pelo Central Park. Do lado de fora da janela os tambores dos diferentes grupos folclóricos representando nações da América Latina na famosa parada do dia de Cristóvão Colombo invadem a suíte. É um dos raros momentos em que os muitos habitantes de Manhattan, que Scott venera, parecem respirar em ritmo de feriado. O clima festivo, no entanto, não contagia o diretor britânico. Cansado, com largas olheiras e poucos sorrisos, ele divide sua atenção entre o lançamento de seu primeiro longa-metragem açucarado, "Um Bom Ano", que estréia nos cinemas brasileiros na sexta-feira, dia 1º, e a agenda corrida das filmagens de "American Gangster", sem data de estréia definida. Dois filmes completamente distintos, um passado na bucólica Provence, na França meridional; outro nas ruas do Harlem dos perigosos anos 1970. Mas com um protagonista em comum: Russell Crowe, que já havia trabalhado com Scott no arrasa-quarteirão "Gladiador".

"Um Bom Ano", que custou US$ 35 milhões e arrecadou apenas US$ 3,7 milhões em sua primeira semana, acabou tendo sua mais famosa frase proferida por ninguém menos do que Rupert Murdoch, o poderoso chefão da Fox (que abrigou a produção de Scott). Sincero, ele afirmou em uma entrevista que, ao contrário de "O Diabo Veste Prada", sucesso de seu estúdio, "Um Bom Ano" havia sido um "inesperado fracasso". Idealizador de obras originais e impressionantes como "Alien", "Blade Runner" e "Telma e Louise", foi Scott quem deu a idéia a Peter Mayle, seu vizinho em um vinhedo no sul da França, para escrever a história de Max Skinner (Crowe), alto funcionário de um banco de investimentos, frio e individualista, que se humaniza ao herdar uma vinícola aparentemente decadente na Provence, terra adorada de seu tio Henry (Albert Finney). Com uma forte pitada cômica, um quê de nostalgia e uma bela morena (Marion Cotillard, de "Eterno Amor") que logo cai nas graças de Skinner, Scott vai muito além de um bom ano - termo utilizado pelos vinicultores para celebrar uma safra excepcional - e procura apresentar sua receita de uma boa vida.

Exatamente como a dezena de narrativas de Mayle, "Um Bom Ano" parece direcionado a espectadores mais ou menos semelhantes aos protagonistas dos romances do escritor inglês, presos em suas rotinas que incluem o vaivém da casa para o trabalho, a insana competição dentro do escritório e um clima quase sempre frio e chuvoso, em que o acúmulo de capital vale mais do que o contato humano. Sem uma taça de vinho para acompanhá-lo, Scott, que tem fama de ser brigão no set de filmagem, conversou com o Valor, a seco, calmo e com uma voz baixinha, quase sussurrando, sobre estas e outras aventuras.
- Qual a linha de raciocínio que pode-se estabelecer entre três de suas mais recentes escolhas, "Gladiador", "Um Bom Ano" e "American Gangster"?
- Não há conexão alguma. São três linguagens diferentes, com personagens completamente diferentes, histórias diversas. Há, claro, o Russell. Mas ele é um ator que tem essa capacidade impressionante de se transformar e que se interessou pelos projetos justamente por que eles não tinham muito em comum uns com os outros.
- O senhor desenvolveu uma relação muito especial com Russell Crowe? Afinal de contas parte da experiência de se filmar é justamente o imenso tempo que se passa ao lado da equipe. Nas filmagens de "Gladiador" houve uma série de notícias sobre possíveis desentendimentos entre o senhor e ele...
- Para realmente mergulhar juntos em um trabalho, muitas vezes, você precisa ir fundo em certos desentendimentos em relação ao conceito do que você está filmando. E às vezes essas batalhas são importantíssimas para o desenrolar de um projeto vitorioso...
- Gostaria de saber, afinal, quem venceu em "Gladiador" (risos)?
- Filmar é um processo muito difícil, especialmente se você é sério, como o Russell. Mas acho que no fim ele respeitou minhas escolhas, mais um motivo para continuarmos juntos. Acho que o que se estabeleceu entre nós foi uma relação de confiança, fundamental para que eu realizasse tanto "Gladiador" quanto "Um Bom Ano" e agora "American Gangster". Pronto, está aí a linha de raciocínio que você queria! [risos]. Embora não haja nada como filmar personagens que ainda estão vivos.
- Como em "American Gangster"...
- Exatamente. O filme trata da história do Frank Lucas, vivido pelo Denzel Washington, que foi o maior traficante de drogas no Harlem nos anos 70, conhecido como Superfly, e do agente da seção de narcóticos Richie Roberts, que conseguiu estabelecer uma parceria com Lucas e desbaratar o crime na parte norte aqui do Central Park. Este quem faz é o Russell. E hoje em dia Roberts é um senhor advogado de defesa, o que é algo original para um policial de tamanho sucesso em levar seus suspeitos para o banco dos réus.
- E como se dá a parceria entre os dois?
- Roberts oferece a Lucas a chance de entregar, um a um, todos os policiais corruptos da cidade. E ele ficaria menos tempo entre as grades. Acaba pegando 17 anos. Hoje Lucas tem 74 anos e tanto Denzel Washington quanto Russell mergulharam na vida desses dois homens de modo impressionante. Estou muito animado e ainda temos pelo menos mais um mês de filmagens aqui, além da viagem para as montanhas do Camboja, já que parte da heroína vendida por Lucas na cidade chegava dentro dos caixões de soldados mortos na Guerra do Vietnã, o que é, no mínimo, bizarro.
- Mas não é igualmente bizarro o senhor trocar a paradisíaca Provence pela Nova York violenta e sem esperança dos anos 1970?
- Eu preciso de mudanças radicais como esta. É assim que funciono. Tenho horror a fazer coisas iguais. Veja minha carreira. Não poderia ter feito filmes mais diversos uns dos outros, não é mesmo?
- É verdade que "Um Bom Ano" nasceu de uma notícia de jornal?
- De fato, eu li uma reportagem sobre pequenos vinicultores que estavam ganhando rios de dinheiro com vinhos de butique, raros e com sabores realmente especiais, produzidos em pequena escala em sítios da Provence, e tive a idéia para um argumento. Conversei com Peter (Mayle) e ele topou escrever o livro com o compromisso de que eu levaria para a tela em seguida [risos], como se isso funcionasse dessa maneira simples.
- Mas como foi parar na Provence?
- A resposta mais simples do mundo: estava em busca de sol. Vivi dez anos em uma propriedade linda na Inglaterra, uma fazenda belíssima, com meus cachorros e cavalos, mas chovia o tempo todo. E apesar de ter desenvolvido lá uma outra paixão, que é a habilidade de cultivar jardins, desenhá-los mesmo, minha família queria sair de lá de qualquer maneira. Acabei vendendo a propriedade e reencontrei o fazendeiro que tenho dentro de mim no sul da França. E lá o clima e o terreno não poderiam ser mais fantásticos. Eu me apaixonei mesmo.
- O senhor tem uma pequena vinícola. Pode nos contar o segredo de se produzir um bom vinho?
- Pois é justamente ter um bom ano. [risos]. Agora, eu falo sério, boa temperatura é fundamental, mas, claro, no fundo é o solo que dita a qualidade do vinho, especialmente quando falamos de um bom Bordeaux. Há agora um grande investimento em tecnologia em locais tão diversos quanto a Austrália, a Nova Zelândia, que tem um champanhe sensacional, e a Califórnia. Sem esquecer da África do Sul, é claro. Napoleão Bonaparte, quando foi confinado em Santa Helena, relacionava entre os prazeres a possibilidade de beber o melhor vinho sul-africano. O vinhedo, até hoje, aliás, chama-se Bonaparte.
- O senhor acredita que "Um Bom Ano" entra naquele terreno perigoso de alertar o homem moderno que ele vem se esquecendo de aproveitar a vida?
-Não diria isso não. Ao menos eu espero sinceramente que a maioria dos seres humanos não estejam tão desconectados assim da essência de suas vidas. Vivendo em Nova York nos últimos quatro meses da minha vida, tenho sentido o oposto. Esta cidade é absolutamente lotada de pessoas completamente diferentes dividindo um espaço minúsculo, cada qual com seu cachorro - adoro isso sobre Manhattan, a quantidade de cachorros e a limpeza das ruas, sabia? -e essas pessoas vivendo seus sonhos com a maior força de vontade.
- Já que agora estamos falando de persistência, o senhor vai fazer 70 anos quando do lançamento de "American Gangster". Já imagina qual novo gênero vai explorar depois da história de amor e do policial?
- Essa é boa [risos]. Não sei. Mas eu voltei a pintar. Aliás, me reencontrei recentemente com o David Hockney, que foi meu colega de classe, e cometi a tolice de revelar isso a ele. Imagina, ele me mostrou aquelas coisas maravilhosas que ele tem feito, umas aquarelas de paisagens do Marrocos que são puro Matisse. E eu jamais conseguiria pintar algo dessa qualidade, com aquela luz absolutamente fantástica.

HAPPY FEET/Folha de S.Paulo


Saiu hoje na Folha de S.Paulo (aqui, para assinantes da Folha ou do UOL) meu texto sobre o filme Happy Feet - o Pingüim. Conversei com os atores Robin Williams e Elijah Wood e com o diretor George Miller. Também saiu esta semana, na Contigo! (aqui, apenas para assinantes), meus pingue-pongues com Wood e Williams. Sim, o filme é bem engraçadinho.

Cinema

Pingüim bate 007 e chega ao país


Versão brasileira tem Daniel de Oliveira e Magal substituindo vozes de Elijah Wood e Robin Williams

Para Wood, "Happy Feet", animação que superou bilheteria de James Bond nos EUA, ensina a valorizar senso de individualidade

EDUARDO GRAÇA*
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE LOS ANGELES

Uma legião de pingüins animados por computador tomou de assalto os cinemas americanos no último dia 17 e chega hoje ao Brasil, com as vozes de Daniel de Oliveira (no lugar do "hobbit" Elijah Wood) e Sidney Magal (substituindo Robin Williams) na versão dublada.
"Happy Feet: O Pingüim" já amealhou US$ 42 milhões nas bilheterias americanas, superando o novo James Bond e seu "Cassino Royale" na disputa pelo topo da lista na primeira semana do lucrativo período de feriados nos EUA, que começa no Dia de Ação de Graças (ontem) e vai até o Ano Novo.

"Happy Feet" conta a história de Mano, um pingüim imperador (os mesmos retratados em "A Marcha dos Pingüins", vencedor do Oscar no ano passado) que, ao contrário de seus pares, é incapaz de cantar. Com a voz e os imensos olhos azuis de Elijah Wood, Mano é um exímio dançarino, mas precisa deixar o conforto da vida ao lado dos pais (nas vozes de Hugh Jackman e Nicole Kidman) e encontrar os amigos Ramon, um machão latino, e Lovelace, com seu timbre emprestado de Barry White (ambos na voz de Robin Williams), para descobrir que não existe mal nenhum em ser diferente. "A grande mensagem do filme é a valorização do senso de individualidade", diz Wood em entrevista à Folha. "Aquilo que aparentemente nos separa uns dos outros é, muitas vezes, a essência do que somos, e devemos celebrar isso com intensidade. Eu me sinto extremamente satisfeito por ser, em muitos aspectos, bem diferente da imagem convencional de uma estrela de Hollywood."

Elvis e Robin Williams

Uma das razões do sucesso de "Happy Feet" é a trilha sonora, que também alcançou os primeiros lugares das paradas musicais. Há de tudo um pouco -Elvis, Beach Boys, Beatles, Prince e até Robin Williams cantando "My Way" em espanhol. "O George [Miller, diretor] pediu, e acabou saindo essa coisa meio "Brokeback Mountain" que é o Ramon cantando para o Mano: "No lo sé como te dejar'", brinca Williams, tentando criar algo como o som de um pingüim cantor de tango, para a diversão de Wood, que cai na gargalhada: "O que mais me fascinou no Mano foi essa desconexão dele com as opiniões negativas que os outros têm dele. Por ingenuidade e uma enorme auto-confiança, ele não dá bola para o julgamento alheio. Esta é uma senhora qualidade que busquei exacerbar na hora de colocar a voz no estúdio", diz.
Foi George Miller quem decidiu incluir no projeto temas sérios, como os danos causados na Antártica pela indústria pesqueira, o aquecimento global, a violência e a imigração ilegal, com a velha fábula do patinho feio incrementada por problemas contemporâneos caros a crianças e adultos.

"A parte mais assustadora ficou concentrada na ação dos leões marinhos, que me lembram os momentos mais sombrios de clássicos da Disney, como "Bambi" e "Pinóquio'", diz Miller. "E mesmo o público mais conservador, mesmo os evangélicos que não acreditam em aquecimento global, conseguirão se identificar com personagens mais autoritários do mundo dos pingüins", completa, com certa dose de ironia.

* O jornalista EDUARDO GRAÇA viajou a convite da distribuidora Warner

Diretinho da Redação (50)


O texto da semana, que já está no DR, é sobre a morte de meu querido Robert Altman, diretor de filmes fundamentais para se entender os Estados Unidos.


Publicada em: 23/11/2006

MORRE O ÚLTIMO GRANDE DIRETOR DE HOLLYWOOD
.

Poucos foram capazes de decifrar com tamanha exatidão estes estados mais ou menos unidos. Poucos compreendiam tão bem o paradoxo do país-continente e da vida ensimesmada dos que teimam em permanecer com o queixo enterrado no próprio umbigo. Ainda me lembro da sensação de felicidade, vergonha e ironia que impregnou a sala de cinema na primeira sessão do primeiro dia de lançamento aqui em Nova Iorque de seu mais recente filme, ainda em cartaz no Brasil, A Praire Home Companion, um retrato preciso da vida modorrenta e mágica do coração dos EUA.

Robert Altman nasceu em Kansas City, no Missouri. Endereço mais americano não há. Aos 81 anos de idade, podia passar a mão pelos cabelos brancos e dar uma risada de esgueio, a cabeça deslizando pescoço abaixo, ao contemplar uma obra que inclui, para citar apenas meus favoritos, Nashville, Mash, McCabe&Mrs. Miller, Kansas City e Gosford Park. Altman morreu nesta segunda-feira, de câncer, em Los Angeles. E vem recebendo tributos de famosos e fãs, de gente que conseguiu entender como o povo daqui levou George W.Bush por duas vezes à Casa Branca revendo Nashville, de acadêmicos gratos pelo adjetivo ‘altmanesco’, uma tradução para os diálogos rápidos e que se dão ao mesmo tempo na tela, utilizado especialmente em Mash, um por cima do outro, igualzinho à vida real.

O grande Elliott Gould, uma das estrelas de Mash, disse ontem que, com a morte de Altman, desaparecia o último grande diretor de cinema norte-americano, na tradição de John Ford. E ponto final. Ao ouvir Gould não há como não deixar de pensar que o épico, a amplitude nada generosa da paisagem americana se traduzia, em Altman, no detalhe, na velocidade e exatidão do diálogo, na vontade de correr riscos que o levaram a muitos erros em sua carreira de mais de 40 filmes – mas também a deliciosos acertos, e imedietamente me vêm em mente obras de assinatura indiscutível como Short Cuts e O Jogador, e há tantas outras, o que não há mais é tempo.

Quem sabe Gould tenha tentado dizer que Altman era o representante derradeiro de um panteão de criadores cinematográficos apaixonados essencialmente por seus atores, fascinados pelo artesanato da atuação. Não é mero acaso que sua última obsessão nas telas tenha sido Meryll Streep, a maior das atrizes de Hollywood, com quem iria voltar a filmar no ano que vem. A semana fica mais triste, os EUA mais pobres e os espectadores de cinema mais solitários em suas cadeiras com a morte do querido Robert Altman

sexta-feira, novembro 17, 2006

O Mundo é Plano ou Injusto?

Saiu neste fim de semana, no Valor Econômico, minha reportagem sobre o recente encontro na Universidade de Nova Iorque do Prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz com o jornalista Thomas Friedman, dois campeões de venda nas livrarias americanas. O deabte é interessante e focado nas diferentes visões de mundo do professor da Columbia e do colunista do NYT.

O mundo é plano ou é injusto?

Por Eduardo Graça
17/11/2006

À direita, o Prêmio Nobel Joseph Stiglitz, 63 anos, professor da Universidade Columbia, grande astro do mundo acadêmico internacional. À esquerda, o duas vezes Prêmio Pulitzer Thomas Friedman, 53 anos, que escreve em "The New York Times" aquela que é considerada a mais influente coluna de opinião do jornalismo americano. Foi assim, instalando seus convidados nos lados opostos ao que tradicionalmente se perfilam no cenário político dos EUA, que a Faculdade de Economia da Universidade de Nova York (NYU) reuniu Stiglitz e Friedman.

Os dois apresentaram suas visões díspares da globalização e do papel que os EUA devem exercer nos próximos anos - agora divididos entre um Legislativo majoritariamente democrata e um Executivo republicano. Stiglitz e Friedman também são astros do mercado editorial, com "Discourse: Making Globalization Work", do economista, e "O Mundo É Plano - Uma Breve História do Século XXI", do jornalista. São dois best-sellers que apresentam cenários quase opostos do mundo contemporâneo.

Para Stiglitz, há claros vencedores e perdedores no mundo globalizado. E a maioria dos que perderam estão no andar inferior da pirâmide social. "Até pouco tempo, dizia-se que quem tinha problemas com a globalização, como os manifestantes de Seattle, durante reunião da Organização Mundial do Comércio, em 1999, deveria ir ao médico. Afinal de contas, questionava-se: do que eles reclamavam?", indaga o professor. Ele mesmo emenda uma resposta: "Meus caros, acreditem, o problema de nossos tempos é menos psiquiátrico e mais econômico".

Friedman diz que a globalização é um novo sistema sócio-econômico que ultrapassa a economia e valoriza ainda mais a iniciativa individual, sobretudo a inovadora. É a tradução para o que o jornalista batiza de era vitoriosa dos indivíduos. "Há a globalização dos países, a globalização das corporações, e de como encaram os novos mercados. Mas há a globalização do indivíduo, a mais significativa de todas, que tende a ser a força preponderante nos próximos anos."

Stiglitz encara os jovens estudantes da NYU com olhar sério e diz que não tem a menor dúvida de que a globalização, da maneira como se dá hoje, não beneficia o homem comum. A globalização seria ineficiente. "É preciso ajustá-la radicalmente, para que suas possíveis vantagens alcancem de fato a grande maioria dos habitantes do planeta. Os nós da globalização estão aí, para quem quiser ver - o aumento das disparidades sociais e da concentração da riqueza nas mãos dos que detêm mais poder econômico."

A globalização, como a vê Friedman, surgiu do desenvolvimento de mecanismos que permitem a interação das pessoas pela internet, por cima de barreiras geográficas. É esse o instrumento principal que faz com que o processo de globalização, diz Friedman, não tenha mais volta. E seus próximos passos serão determinados pela força dos indivíduos e seu potencial criativo.

Friedman gosta de dizer que, se há um marco inaugural da globalização, não deveria ser o dia 9 de novembro de 1989, quando ocorreu a queda do Muro de Berlim, mas 9 de agosto de 1995. Foi nessa data que o Netscape introduziu um "browser" que permitiu, pela primeira vez, a comunicação entre computadores de todo o mundo. Foi ali que a internet se estabeleceu no mundo real. "Esse evento impulsionou o chamado boom virtual, que resultou em um investimento muito real de mais de US$ 1 trilhão no desenvolvimento e implantação de fibras óticas em todo o planeta em um tempo recorde de cinco anos", pondera.

No ano 2000, lembra Thomas Friedman, quase todos os países, companhias e boa parte da população do planeta estavam se comunicando de modo inédito. "Tenho de concordar com Joseph Stiglitz. Para esse mesmo indivíduo, hoje muito mais poderoso, de fato se beneficiar da globalização, é preciso investir fortemente em infra-estrutura, em educação e no desenvolvimento de novos modos de prover acesso do cidadão ao apoio do Estado."

Mas quase que na contramão de Stiglitz, o interesse de Friedman está nos "incluídos". Foram eles que comandaram a revolução do software, que decidiram que a globalização é, também, a "era em que se pode tudo". O mundo das possibilidades, segundo ele, é aquele em que uma indústria familiar de cerâmica no Peru ganha o mercado internacional com seus temas indígenas ao produzi-los na China, com mão-de-obra mais barata. Ou o do pesquisador brasileiro que investe no potencial do etanol em um momento que se busca, nos quatro cantos do globo, um substituto para o petróleo.

"Desde que escrevi 'O Mundo é Plano'", comenta Friedman, "aprendi que não há pecado maior, para a academia, do que ser otimista. Li certas resenhas preguiçosas do livro, que me criticavam por não expor mais abertamente as mazelas da Índia. Acho que eles queriam que eu lhes agradecesse por me dizerem que há, sim, miséria na Ásia. Ora, o que me interessa são as mudanças. São os indianos que estão fazendo com que seu país, por meio da globalização, fique menos pobre. A esquerda ainda acredita em um mundo em que os pobres odeiam os ricos. Isso não é verdade. Os excluídos odeiam não ter as mesmas oportunidades dos ricos, e isso é algo muito diferente da velha luta de classes."

Cabeça baixa, olhos fixos em suas anotações, Stiglitz contrasta com a atitude mais gregária de Friedman, grande bigode, gestos amplos, feliz em dividir suas parábolas instrutivas e personagens inusitados com o público. Às fábulas felizes da globalização narradas pelo jornalista, Stiglitz contrapõe uma seleção implacável de números.

É ele quem argumenta: "Você pode me dizer que a China e a Índia melhoraram muito desde os anos 1980. Mas veja o caso do Nafta (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio), vendido como a maior maravilha do século. Desde sua implantação, o México vem se tornando, em uma velocidade maior do que antes, um país mais pobre do que os EUA, e não o contrário. A globalização se baseia em um fluxo de trocas perverso, em que o capital continua vindo dos países mais pobres, enriquecendo ainda mais a elite do planeta, que gera seqüelas políticas muito importantes".

Seguindo essa lógica puramente econômica, sugere Stiglitz, é possível analisar uma das causas da decadência da credibilidade dos EUA no mundo globalizado. Para sobreviver, ele diz, o governo de George W. Bush, enfraquecido por causa da derrota de seu partido republicano nas eleições da semana passada, toma dinheiro emprestado em escala gigantesca, algo como US$ 3 bilhões por dia, em uma reprodução irônica dos modelos que "tanto condenamos para os países mais pobres".

Desde a explosão da globalização, os EUA, de acordo com o professor de Columbia, perderam inúmeras oportunidades de consolidar sua liderança. "Cito aqui a trágica administração do FMI na transição do comunismo para a economia de mercado na Rússia, que apenas aumentou a pobreza em grande escala e diminuiu drasticamente o poder de compra da população, e a intervenção no Iraque, que beneficiou exclusivamente as grandes corporações do petróleo e empresas que lucram com a reconstrução de países destruídos, como a Halliburton" - sempre lembrada, por ter sido dirigida pelo vice-presidente dos EUA, Dick Chenney.

No terceiro andar da escola de economia, localizada na Washington Square, no coração do Village, cenário das músicas de protesto de Seeger e Dylan, rapazes e moças não piscam. Em um átimo, Stiglitz deixa de ser o mito para se transformar em guru de uma geração cada vez mais interessada em estudar políticas econômicas voltadas para o combate à pobreza no mundo. Stiglitz não é Bono, mas divide com o líder da banda de rock irlandesa U2 a convicção de que um novo estágio da globalização deve passar necessariamente pelo combate, em escala planetária, às desigualdades sociais. Ou não será diferente de outros vários movimentos históricos que não deixaram conseqüências relevantes para a humanidade.

"Há 15 ou 20 anos, todos pensávamos que a globalização seria um processo inédito, que beneficiaria a sociedade como um todo. O que observamos é uma predominância da globalização econômica sobre sua faceta política", afirma Stiglitz.

Em sua opinião, não é possível achar que tudo vai bem quando se observa que 25 mil fazendeiros americanos - irados com a possibilidade de perderem subsídios governamentais e serem obrigados a disputar mercados - têm o poder de paralisar as rodadas internacionais de comércio, lembra Stiglitz, citando o fracasso da rodada de negociações da OMC iniciada em Doha.

Stiglitz esteve presente em momentos importantes do atual ciclo de globalização. Foi economista-chefe do Banco Mundial e uma das vozes mais ativas do Council of Economic Advisors no governo Bill Clinton, quando bateu de frente com o então secretário do Tesouro, Lawrence Summers, ao dizer que não via nem em Washington, nem em Wall Street, o necessário empenho para incentivar a implantação de um "novo mundo do livre comércio para todos", mas, sim, a preferência por "conseguir a melhor barganha para a economia americana".

Hoje, enquanto aguarda um telefonema da amiga Hillary Clinton, para ajudar na elaboração de mais um programa de governo do Partido Democrata, no momento fortalecido pelas crises enfrentadas pelo governo Bush, não deixa de atentar para o "momento de contenção conservadora, antiglobalizante, em que vivemos".

Stiglitz concorda que a transformação da economia global, louvada por Friedman, é inegável. Barreiras comerciais vieram abaixo, a internet é um caminho sem volta e o desenvolvimento de novas tecnologias em um mundo menos fechado levou os países mais ricos a olharem com alguma atenção para países como China, Índia, Rússia e Brasil, que teriam condições mais favoráveis para se beneficiar da globalização, transformando-se em novas potências. Mas não consegue se calar frente às "contradições perversas" da nova ordem global - que se mostram, por exemplo, no fato de a indústria farmacêutica gastar em campanhas publicitárias nos países desenvolvidos mais que o dobro do investimento direto que faz em países pobres.

"Não tenho a menor dúvida de que mudanças virão. A questão é saber de que modo. Com uma série de revoltas? Com o aumento ainda mais drástico das migrações?"

O próprio Stiglitz responde. Diz que parte das sociedades européia e americana acredita que o crescimento dos países emergentes, com a globalização tal como ela é, se dá às expensas de uma inevitável decadência econômica dos países desenvolvidos. O que se vê é um aumento da força dos setores mais protecionistas, que percebem algo importante - um mundo mais igualitário significaria, inevitavelmente, uma diminuição da concentração de riqueza nos países mais ricos. Ao mesmo tempo, já não daria mais para vender a idéia de que os problemas da globalização vão se resolver sozinhos e de que os críticos precisam de um bom psiquiatra.

"Acabou a versão Poliana da globalização. Há ganhadores e perdedores nesse modelo econômico. E está cada vez mais claro ver quem está perdendo A hora é de tentar encontrar mecanismos para fazer com que esta nova ordem, de fato, funcione", afirma Stiglitz.

Friedman contra-ataca. Lembra que a globalização modificou a maneira pela qual as potências competem pela hegemonia planetária. Agora, é pelo conhecimento, pela inovação. Stiglitz concorda, e diz que não é por acaso que estudantes secundários saem às ruas, no Chile, exigindo melhoria de qualidade das universidades, e a China anuncia sua "economia de inovação", com a qual espera aumentar de modo acelerado sua capacidade de produzir inovação tecnológica, ao mesmo tempo em que procura desenvolver o conceito de universidade global, não mais apenas nacional, em que a busca da solução dos problemas sociais tem grande peso.

Friedman não acredita no combate direto à pobreza como próximo passo natural da globalização. Ele não vê segredo algum para os países em desenvolvimento aproveitarem mais as vantagens da globalização. Bastaria seguir a cartilha do Banco Mundial e investir mais em infra-estrutura, educação e tecnologia, reduzindo igualmente a burocracia para a criação de novas empresas, geradoras de emprego. "Sou acima de tudo um crente. Depois que escrevi o livro, acredito ainda mais no modelo americano e na economia de mercado. O século XXI será da China, como o XIX foi da Inglaterra. É como minha mãe, uma senhora simples, costumava dizer à beira da lareira de sua casinha nos confins de Minnesotta: 'Um país que censura o Google não pode liderar o planeta'."

Na saída do auditório, enquanto Stiglitz e Friedman se abraçavam cordialmente, centenas de estudantes conversavam sobre as visões díspares do mundo em que vivem. O debate parece estar apenas começando.

DISPAROS
Síndrome de Seattle

"Até pouco tempo, dizia-se que quem tinha problemas com a globalização, como os manifestantes de Seattle, durante reunião da Organização Mundial do Comércio, em 1999, deveria ir ao médico. Afinal de contas, questionava-se: do que eles reclamavam?"

Joseph Stiglitz

Globalização do indivíduo

"Há a globalização dos países, a globalização das corporações, e de como encaram os novos mercados. Mas há a globalização do indivíduo, a mais significativa de todas, que tende a ser a força preponderante nos próximos anos."

Thomas Friedman

Disparidades sociais

"Esta globalização é ineficiente. É preciso ajustá-la radicalmente, para que suas possíveis vantagens alcancem de fato a grande maioria dos habitantes do planeta. Os nós da globalização estão aí, para quem quiser ver - o aumento das disparidades sociais e da concentração da riqueza nas mãos dos que detêm mais poder econômico."

Stiglitz

Apoio do Estado

"Tenho de concordar com Stiglitz. Para esse mesmo indivíduo, hoje muito mais poderoso, de fato se beneficiar da globalização, é preciso investir fortemente em infra-estrutura, em educação e no desenvolvimento de novos modos de prover acesso do cidadão ao apoio do Estado."

Friedman

Fato inédito

"Há 15 ou 20 anos, todos pensávamos que a globalização seria um processo inédito, que beneficiaria a sociedade como um todo. O que observamos é uma predominância da globalização econômica sobre sua faceta política",

Stiglitz

Como resolver

"Não tenho a menor dúvida de que mudanças virão. A questão é saber de que modo. Com uma série de revoltas? Com o aumento ainda mais drástico das migrações?"

Stiglitz

PERFIl/Martin Scorsese


O Valor publicou, na semana passada (e eu, enroladíssimo, só publico aqui no blog hoje) o perfil que fiz do diretor Martin Scorsese, nas telas do Brasil com seu delicioso Os Infiltrados.


Scorsese e o Vale-Tudo do Mundo Moderno
Eduardo Graça, para o Valor, de Nova Iorque


Com uma camisa impecável de seda branca protegida por um terno negro, o diretor Martin Scorsese, 64, mantém o sorriso aberto durante quase uma hora de conversa no saguão do Regency Hotel, em Manhattan. Chega mesmo a falar sorrindo. A empolgação não é para menos. Seu mais novo filme, Os Infiltrados, que estréia nos cinemas brasileiros no dia 10, é sua melhor produção em uma década, excluindo aqui o fantástico documentário No Direction Home, sobre Bob Dylan. O enredo é simples: dois garotões acabam de se graduar na academia de polícia de Boston. Um (Damon) é um bandido, espião da máfia irlandesa, a mais poderosa da Nova Inglaterra, comandada pelo chefão vivido por um especialmente obsceno Jack Nicholson. O outro (DiCaprio) vem de uma família de escroques irlandeses e se oferece para viver o outro lado do espelho - será o policial disfarçado na gangue de Nicholson. Detalhe: os dois não sabem da existência um do outro.

Para pagar um tributo à exatidão, Marty – como é tratado carinhosamente pelos colegas de Hollywood - só deixa de falar com orgulho do novo filme quando o pupilo Leonardo e o novo amigo Damon lhe cobrem de elogios. “Marty é o meu tutor no cinema. Foi por causa dele que minha cultura cinematográfica se expandiu. Foi por causa dele, também, que eu me tornei um ator, creio, mais talentoso”, diz DiCaprio. Marty não encara o amigo que dirigiu em Gangues de Nova Iorque e, mais recentemente, no controverso O Aviador. “Eu sempre sonhei em trabalhar com Marty. Vi todos os filmes em que ele dirigiu o De Niro e foi ali que decidi que iria ser um ator. Imagina a alegria de poder trabalhar com ele agora”, segue o galã. Damon não deixa por menos: “Sou de Boston e quando o Brad (Pitt, produtor do filme) me enviou o roteiro eu nem pensei duas vezes. Liguei para Marty e peguei o primeiro avião da Flórida para Nova Iorque. Foi o sim mais fácil da minha vida”. Nestes momentos, o diretor se esconde por trás dos óculos de aros negros e deixa à mostra apenas as grossas sobrancelhas embranquecidas, sua marca registrada. E concede mais um sorriso.

Scorsese já tem motivos de sobra, é claro, para acariciar o próprio ego. Mas, para se ter uma idéia do poder de fogo de Os Infiltrados, somente em sua primeira semana em cartaz nos EUA o filme arrecadou US$ 27 milhões em bilheteria. Um recorde para produções que levam a assinatura do diretor de A Última Tentação de Cristo, Táxi Driver e O Touro Indomável. E desta vez Scorsese deixou para trás sua Little Italy e adaptou um mega-sucesso do cinema chinês para o dia-a-dia barra-pesada da comunidade irlandesa de Boston nos anos 80. O filme é uma ‘versão-livre’ de Negócios Internos, de Andrew Lau, maior bilheteria do cinema chinês em 2002, custou a bagatela de US$ 90 milhões, e é um dos favoritos para o Oscar-2007, incluindo a trinca de atores principais.

“Sei que o público, quando pensa em mim, imagina imediatamente a trajetória dos ítalo-americanos, a Nova Iorque italiana. Uma das alegrias de Os Infiltrados foi justamente a possibilidade de explorar o meu lado irlandês!”, conta. Scorsese irlandês? Como assim? “ É, sim senhor! Gangues de Nova Iorque, por exemplo, trata também da vida dos irlandeses no sul de Manhattan, não é? Poderia também falar da importância da poesia irlandesa na minha vida e da noção do catolicismo dublinense, bem diferente do italiano. Mas vou ser mais direto: sabe qual foi minha maior influência no cinema? Todos os filmes de John Ford, este fabuloso diretor irlandês-americano. Durante as filmagens pensava especialmente em Como Era Verde O Meu Vale, daqueles sofridos mineiros irlandeses tentando a sorte na América. Os filmes de Ford tratavam,a final, da importância da família em nossas vidas, algo muito próximo da realidade ítalo-americana. Foram eles que me levaram, acredito, a querer mergulhar mais de uma vez neste universo”, diz.

Apesar de baseado em um filme de ação de Hong Kong (alguns de seus principais diretores, como Wong Kar-Wai e John Woo, não se cansam de apontar Scorsese entre suas principais influências) e ser considerado o mais comercial dos recentes projetos do diretor nova-iorquino, Os Infiltrados reflete na tela a falta de ética, o vale-tudo, a corrupção sem culpa ou endereço certo onipresente nos dias de hoje. Nunca é claro quem é mais pernicioso, mais virulento – se o safado chefão que também presta serviços ao governo vivido por Nicholson ou se os policiais – entre eles, figurantes de luxo como Alec Baldwin, Marin Sheen e Mark Wahlberg – nada ortodoxos em seus métodos de trabalho. “A primeira coisa que pensei quando terminei de ler o roteiro foi esta sensação de que voltamos a um estado zero de moral no mundo de hoje. Assim como o 11 de Setembro nos deu um Ground Zero, também nos presenteou, infelizmente, com esta Moral Zero”.

No filme, praticamente nenhum dos personagens leva em conta questões éticas ou morais. Talvez apenas a psiquiatra que atende o presonagem de Di Caprio e se casa com o de Matt Damon, vivida pela atriz Vera Farmiga. “É, mas mesmo ela comete deslizes de caráter sérios. De um certo modo, ela também é dúbia, também tem duas caras. O filme trata de um mundo em que a moral não tem importância alguma. Um mundo em que a trsiteza e a sensação de desespero são palpáveis. Este é o mundo de Os Infiltrados”, diz Scorsese, fechando a cara pela primeira vez enquanto a chuva cai anunciando o começo do outono em sua cinzenta Manhattan.