sexta-feira, agosto 24, 2007

LIVRO/Obama, de David Mendell


O Valor Econômico publicou no caderno deste fim de semana meu texto sobre a biografia que o ótimo repórter do Chicago Tribune, David Mendell, lançou por aqui na semana passada sobre o senador Barack Obama, quiçá o primeiro presidente negro dos EUA. Conversei com Mendell duas vezes e o perfil que ele me ofereceu de Obama - a quem acompanha desde os primeiros tempos no legislativo estadual de Illinois - é o de um homem obcecado em diminuir a agonia dos miseráveis do Império, mas também vaidoso, egocêntrico e que elaborou meticulosamente sua ascensão política. O texto segue abaixo:

Carismático e egocêntrico

Por Eduardo Graça, para o Valor
24/08/2007
Para autor de biografia, Obama não é mais o mesmo: "Ele se moveu para a área moderada, que o deixou mais presidenciável, distante do início de sua trajetória", diz Mendell


O maior fenômeno eleitoral da política americana contemporânea é um advogado calculista, obcecado em conter o avanço da pobreza em seu país, com traços autoritários de caráter e que planejou a chegada à Casa Branca levando em conta a possibilidade de se projetar como vice-presidente em uma chapa liderada pela senadora Hillary Clinton. Lançado na semana passada, "Obama: from Promise to Power" é o resultado dos cinco anos em que o repórter David Mendell, do "Chicago Tribune", seguiu cada passo do democrata Barack Houssein Obama para oferecer um raio X impressionante daquele que pode se tornar o primeiro presidente negro dos Estados Unidos.


Alto, cabelos negros repartidos ao meio, nariz aquilino e pronunciado, Mendell conversou com eleitores de todos os naipes no lançamento de seu livro, em um evento realizado na semana passada no Bryant Park, em Manhattan. O resultado de sua investigação é bem diverso dos dois volumes autobiográficos - "A Audácia da Esperança" e "Dreams from My Father" (inédito no Brasil) - lançados nos últimos três anos pelo senador de Illinois. Uma das principais surpresas é a revelação de que o chamado grupo de Chicago, incluídos aqui os poderosos assessores David Axelrod e Jim Cauley, traçou um ambicioso plano político logo após o famoso discurso de Obama na convenção do Partido Democrata em 2004, em Boston, quando do lançamento da fracassada candidatura de John Kerry. A idéia era prepará-lo para disputar a Presidência já em 2008.


Escondeu-se do público que o político era um fumante inveterado até que ele deixasse o cigarro de lado, definiu-se que o gabinete em Washington seria voltado para abastecer a imprensa de seus feitos legislativos e preparou-se nos mínimos detalhes uma viagem ao Quênia, terra natal de seu pai. "Em Nairóbi, ele foi recebido como uma entidade, uma deificação. Algo inédito na nossa cena política que causou enorme impressão nos repórteres americanos que o acompanharam", conta Mendell.


A estratégia, de acordo com o repórter, uma das estrelas do "Chicago Tribune" desde 1998, incluía a possibilidade de ele sair como vice na chapa de um democrata mais experiente, possivelmente a senadora Hillary.


"Hoje uma chapa Hillary-Obama parece distante, especialmente por conta dos embates que os dois vêm protagonizando e pela lógica de que, no fim, eles disputam os mesmos eleitores e não agregariam votos", explica Mendell. "Tanto Hillary quanto Obama precisam de mais votos entre os eleitores masculinos de origem caucasiana. Mas a estratégia de Obama considera essa possibilidade e ele sabe que, se for convidado publicamente, não terá como explicar à comunidade afro-americana a desistência de tentar ser o primeiro negro vice-presidente do país."


O Obama que surge em "From Promise to Power" lembra menos o herdeiro de John Kennedy apresentado por seus aliados e o aproxima mais de duas habilidosas raposas políticas - Ronald Reagan e Bill Clinton. Nenhuma contradição aqui. "Os dois surgiram com mensagem de otimismo, os antípodas da burocracia de Washington, o novo necessário para reagrupar um país dividido", lembra Mendell. E, como os dois, Obama teria um temperamento bem menos afável de perto do que deixa transparecer em eventos públicos.


De forma jocosa, o repórter abre o livro com Obama ultrapassando as barreiras de segurança da convenção de Boston, sendo recebido aos urros pelo público e se comparando a LeBron James, um dos maiores astros da NBA. "Eu sou LeBron! Posso jogar nesse nível. Sou um craque", teria dito, ao entrar na arena.


Outro ponto alto do livro é o perfil apresentando de Michelle Obama, a mulher do senador. "Ela funciona bem ao mostrar ao senador que ele não está certo o tempo todo. Na prática, ela é a única a exercer esse papel", conta. Mendell revela que um dos maiores receios de Michelle é com a segurança do maior líder político negro do país. Há até discussões abertas sobre ajuda financeira à família em caso de um atentado político contra Obama: "Não penso nisso todo dia, mas a possibilidade está lá e eu preciso garantir que meus filhos ficarão seguros se o pior acontecer", diz.


Filho de um africano com uma americana branca criado no Havaí, Obama sempre se sentiu alijado da comunidade negra nos Estados Unidos. "Foi o que o impulsionou a trabalhar nos projetos habitacionais em Chicago e conseguir uma série de benefícios para os moradores, em sua maioria negros. Mas logo ele percebeu que poderia fazer mais se fosse, por exemplo, prefeito. Imediatamente ele traçou um plano que incluiu a prestigiosa Faculdade de Direito de Harvard, onde se graduou, e entrou decididamente na política local".


Dali para a surpreendente vitória na candidatura ao Senado e as aspirações presidenciais seria um pulo. "Ele parece ser o candidato que acredita de fato, com uma fé cega, que deveria estar na Casa Branca. Obama está convicto de que será um grande presidente", afirma Mendell. O repórter não tem dificuldade alguma para recitar as qualidades que detectou no senador ao acompanhá-lo de perto - carismático, fantástico orador, sério, ético e com uma capacidade de se cercar de pessoas extremamente competentes (o que se revela na sua arrecadação recorde de fundos). E sua obsessão em atacar de frente a crescente desigualdade social americana, de acordo com o jornalista, nada tem de hipocrisia social. Sua missão central, acredita, é a de comandar um gigantesco combate à pobreza, em uma extensão ainda maior do que o último grande projeto tocado por Washington nesse sentido, durante o governo de Lyndon Johnson.


Mas Mendell também não é econômico ao revelar os pontos fracos do político. Na capa da edição de setembro da revista masculina "GQ", uma das mais influentes em seu segmento, Barack Obama é direto: "Estou na corrida presidencial para vencer, quero vencer e acredito que vou vencer. Mas também vou sair desta campanha intacto. Continuarei sendo Barack Obama e não uma paródia de mim mesmo."


Ora, Mendell lembra que o Obama que ele conheceu há três anos já não é o mesmo a desejar a Casa Branca com tanto ardor. Sua chegada ao Capitólio forçou-o a uma acomodação política. "Ele se moveu claramente para uma área mais moderada, mais de centro, que o deixou mais presidenciável, distante do início de sua trajetória. E agora ele tem de lidar com a horda de jornalistas o seguindo para todos os cantos. A irmã dele me contou que desde então o senador costuma passar alguns dias inteiros sozinhos, em silêncio absoluto, nada acessível, selecionando cuidadosamente possíveis interlocutores, expressando uma desconfiança que não havia anteriormente", relata. Mendell ainda o descreve como "severo, egocêntrico e propenso a humilhar interlocutores menos preparados intelectualmente". "E algumas vezes eu percebi uma certa ingenuidade, por exemplo, em encarar o quão cruel e cínico o mundo é. Obama é o otimista eterno e prefere enxergar apenas o lado bom das pessoas", completa.


"From Promise to Power", com suas 406 páginas, revela-se uma fonte imprescindível para os interessados em descobrir quem é, afinal, o homem que quase não compareceu à convenção do partido que oficializou a candidatura de Al Gore em 2000 porque não tinha como pagar a passagem de avião e se transformou no candidato que vem tirando o sono dos Clinton no verão de 2007. O livro ainda não tem lançamento previsto no Brasil, mas já pode ser encomendado na Livraria Cultura, em São Paulo.

quarta-feira, agosto 22, 2007

ENTREVISTA/ Matt Damon

A Contigo! publica na edição desta semana a entrevista que fiz com Matt Damon, sempre simpaticíssimo, falando de Jason Bourne, da vida de celebridade e de novos projetos. Olhem só:

Matt Damon

Cover sinistro de 007

Por Eduardo Graça, de Los Angeles

Divulgação / Universal Pictures

O ator encarna pela terceira vez Jason Bourne, o agente secreto que não deveria mais existir, mas que está vivinho e arrebentando as bilheterias do cinema



Não é exagero algum dizer que O Ultimato Bourne é o melhor dos três filmes da cinessérie estrelada por Matt Damon, 36 anos. Em quase duas horas, o diretor Paul Greengrass, 52, - que também dirigiu Supremacia Bourne (2004), além de, entre outros trabalhos, os impactantes Domingo Sangrento (2002) e Vôo United 93 (2006) -, desvenda todos os mistérios sobre a vida do agente rebelde Jason Bourne. Alguns bem cabeludos.

E nessa nova aventura intercontinental, que já arrecadou 143 milhões de dólares em 11 dias de exibição - e deixou Damon mais famoso e rico ainda; ele até foi eleito pela revista Forbes como o astro de Hollywood mais rentável do momento -, pelo menos duas seqüências de cenas já chegam à tela grande como clássicos do cinema de ação: a da estação de trem de Waterloo, em Londres, e a perseguição frenética sobre tetos de casas de Tânger, no Marrocos.

Depois de zanzar os três continentes e dar duro filmando com Greengrass (fizeram parte do roteiro de produção Rússia, Alemanha, Espanha, Estados Unidos, norte da África, Inglaterra, França e Letônia), Damon tirou férias com a família e o amigo inseparável Ben Affleck, 35, no Havaí. Foi com um bronzeado de praia, resultado dessa merecida folga, e seu costumeiro sorriso aberto que Damon conversou com exclusividade com a Contigo!, em uma suíte num hotel luxuoso de Beverly Hills, em Los Angeles.

Você acaba de declarar que está cansado da superexposição das estrelas de Hollywood. E chegou a dizer que jamais sairia "prostituindo sua própria filha nas páginas das revistas para aumentar a bilheteria de Bourne". Forte, não?
É, acho que eu peguei um pouco pesado, né? Depois, quando vi impresso, achei que minha declaração ficou estranha. Mas como lidar de modo racional com esta invasão de privacidade a que somos submetidos o tempo todo? Sabe, olhando para trás, penso em Gênio Indomável (1997), por exemplo. Todos exploraram até a última gota o fato de que eu e Ben (Affleck) éramos melhores amigos e tínhamos desenvolvido juntos o projeto desde o início, que estávamos vivendo nosso conto de fadas. E aquilo virou a coisa mais importante do filme. Era verdade, claro, mas hoje, pensando bem nisso, parece vulgar.

De que modo?
Era como se estivéssemos utilizando nossa amizade para promover o filme, uma coisa oportunista, que não foi intencional, mas acabou ganhando vida própria. E quanto mais experiente você vai ficando, mais se vê submetido a essas armadilhas. Olha, eu não quero dividir com os leitores do mundo, por exemplo, como eu crio minha filha (Isabella, de 1 ano). Acho uma chatice ver isso impresso nos jornais mundo afora.

Mas esta obsessão da imprensa pela vida pessoal das celebridades não é, muitas vezes, cultivada pelas próprias estrelas?
Você está certíssimo! É isso mesmo, uma via de mão dupla. Mas eu, oficialmente, estou fora. Escreve isso aí, hein (risos)!

O diretor Paul Greengrass disse que o segredo da trilogia Bourne é ela contar com o melhor ator de Hollywood de sua geração, ou seja, você, como protagonista. E ele enfatiza que suas interpretações mais brilhantes estão em filmes que ele não dirigiu, como Os Infiltrados e O Talentoso Ripley. Sua colega Joan Allen (que faz a agente Pamela Landy no filme) disse o mesmo. Deve ser bom para o ego, não?
Eles são muito generosos e é claro que eu fico felicíssimo. Mas somente posso entender esses elogios se levar em conta que foi justamente a trilogia que me ofereceu uma vitrine singularíssima. Devo ao Bourne, e às minhas escolhas, este momento especial de minha carreira.

Alguma chance de você rodar mais um Bourne ou trabalhar de novo com seu amigo Paul Greengrass?
A única chance disso acontecer é se aparecesse um roteiro sensacional e ele fosse dirigido pelo Paul. Mas acho complicado, pois O Ultimato é o grande desfecho da série, revelando todos os mistérios. Agora, eu e Paul vamos voltar a filmar juntos no ano que vem! Mal posso esperar. Vai ser um filme todo baseado em A Vida Imperial na Cidade Esmeralda: Dentro da Zona Verde, best-seller do jornalista Rajiv Chandrasekaran, do The Washington Post. Conta, de dentro da área aparentemente mais segura de Bagdá, o desastre da ocupação norte-americana no Iraque.


ENTREVISTA/Paul Greengrass

A Folha de S.Paulo publicou hoje , na capa da Ilustrada, minha conversa com o diretor Paul Greengrass, do ótimo O Ultimato Bourne, que estréia nos cinemas nesta sexta-feira. O diretor de Domingo Sangrento e Vôo United 93 é um papo delicioso, que segue aqui embaixo:

"Não há filmes amorais", diz Greengrass

Diretor de "O Ultimato Bourne" defende o cinema como palco para se debater os grandes temas sociais de nosso tempo

Com o ator Matt Damon, cineasta prepara filme que fará relato da falência do governo implantado pelos EUA no Iraque pós-invasão

Jasin Boland/Universal Studios
O ator Matt Damon, que faz o ex-agente da CIA Jason Bourne, recebe instruções do diretor Paul Greengrass nas filmagens de "O Ultimato Bourne"


EDUARDO GRAÇA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM LOS ANGELES

Com óculos redondos, cabelos desgrenhados e uma camisa pólo azul que não chega a cobrir a proeminente barriga, o cineasta Paul Greengrass, 52, se considera um subversivo.
Seu mais novo filme, "O Ultimato Bourne", terceiro capítulo da série sobre o angustiado ex-agente da CIA Jason Bourne, vivido por Matt Damon, estréia nesta sexta no Brasil, após ter arrecadado US$ 131,6 milhões nas bilheterias em apenas duas semanas nos EUA.
"A melhor definição que encontrei para Bourne é a de franchising subversiva. Fui surpreendido em Hollywood. Aqui fiz sempre o que quis. Bourne não é James Bond. Ele tem um componente moral fortíssimo, está corroído pelo remorso, sabe que fez algo condenável e busca desesperadamente a redenção", diz Greengrass.
As cenas de ação de "O Ultimato Bourne", passadas nos quatro cantos do mundo (Rússia, Inglaterra, Marrocos, EUA, França, Alemanha), buscam o impacto. "O tema de meus filmes é um só: o mundo como ele é. Urgente, perigoso, incerto."
Em 2002, o diretor escreveu no jornal inglês "The Guardian" um texto em homenagem a seu conterrâneo Alan Clarke (1935-1990), onde afirmava que as qualidades essenciais de um grande diretor estão ali: a ausência de notoriedade pública, a compaixão e a subversão.
Seus filmes expõem as incongruências dos tempos de George W. Bush com uma intensidade semelhante às obras de Alan Clarke, notório por uma crítica crua a Margaret Thatcher na Inglaterra do fim dos anos 70.
"A compaixão, em meus filmes, se revela tanto em minha aversão ao cinismo quanto no senso de verdade que procuro imprimir. Em "Vôo United 93", uma das maiores dificuldades foi retratar aquela tragédia [o seqüestro de um avião no 11 de Setembro] sem apresentar os terroristas como monstros.
Não acredito em filmes amorais e talvez este seja um aspecto subversivo de minha obra." A paixão pelo realismo social e a câmera frenética aproximam Greengrass do brasileiro Fernando Meirelles. ""Cidade de Deus" me impressionou. Na seqüência da galinha, soube que estava diante de um mestre, de alguém que procura, como eu, revelar o pulso da vida."

Cinema engajado
Greengrass afirma que acredita piamente na relevância do cinema que faz. "Não é que tenha a pretensão de mudar o mundo. Mas acho que a televisão, ao se transformar no refúgio dos reality shows e dos games, deixou para o cinema o papel de contar histórias que revelem de fato quem somos na sociedade. Pense em "Syriana", "Boa Noite, e Boa Sorte", e nos filmes de Michael Moore. Cabe a nós encarar novamente o cinema como um palco para se debater os grandes temas sociais de nosso tempo. E adoro estar no meio disso", avalia.
O diretor já tem um novo projeto: levar para as telas o livro "The Imperial Life in the Emerald City", do repórter Raji Chandrasekaran, do jornal "The Washington Post". A obra faz um relato cáustico da falência do governo implantado pelos EUA no Iraque depois da invasão de 2003. "The Imperial" terá Matt Damon no elenco.
"O que nos falta para encararmos melhor a divisão forçada do Ocidente e Oriente é um pouco mais de compaixão. A Folha pode me cobrar. Porque só há uma saída para mim: meu cinema precisará transbordar de compaixão ao falar da tragédia do Iraque."

Sucesso faz de Matt Damon o ator com maior rentabilidade em Hollywood

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM LOS ANGELES

Jason Bourne chama-se Gilberto e nasceu em Osasco. Não, não é verdade. Mas esta é uma das muitas identidades falsas usadas pelo personagem de Matt Damon em "O Ultimato Bourne". O ator, de 36 anos, diz que vê o renegado assassino da CIA como um James Bond "mais sofisticado, com cérebro, e sempre pronto para questionar a lógica do Estado". Ou seja, a antítese do bom e velho 007.
Em 2002, quando foi lançado o primeiro filme da série, "A Identidade Bourne", Damon tentava entender onde sua carreira havia estacionado após o sucesso de "Gênio Indomável" (1997). "Estava há seis meses sem receber um único convite para filmar. Ainda hoje, não me acho alto o suficiente para o típico mocinho de filme de ação, mas gosto do fato de que um dos atributos do Bourne é o de que ele tem de ser inteligente."
O sucesso da grife Bourne transformou Damon no astro "com maior rentabilidade em Hollywood", segundo a revista "Forbes". Ele não é o mais bem pago -está atrás de Will Smith, Tom Cruise e Leonardo DiCaprio. Mas seus filmes são os mais rentáveis. "Devo tudo a Jason Bourne. Ele foi meu passaporte para a liberdade. Depois dele, pude escolher todos os projetos em que trabalhei."
Damon enfatiza que "Ultimato" é um belo veículo para tratar de tema que lhe é caro: o ataque do Estado às liberdades civis das democracias ocidentais. Ou seja, por detrás do entretenimento, há a obra séria. O ator anunciou seu apoio a Barack Obama nas prévias do Partido Democrata às eleições presidenciais de 2008. Uma das propostas do senador negro é aumentar a tributação dos ricos, a fim de diminuir a desigualdade social no país. Embolsando US$ 23 milhões por filme, o ator seria afetado pela medida. "Não vejo contradição. Fui educado por uma típica família de classe média. Obama percebe que um dos maiores problemas dos EUA é o encolhimento da classe média." (EG)

O ULTIMATO BOURNE
Direção:
Paul Greengrass
Produção: EUA, 2007
Com: Matt Damon, Julia Stiles
Quando: em cartaz a partir de sexta

terça-feira, agosto 14, 2007

ENTREVISTA/Catherine Zeta-Jones

A Contigo! desta semana trouxe a conversa que tive com Catherine Zeta-Jones, extremamente simpática, estrela da comédia Sem Reservas, nos cinemas brasileiros a partir desta semana. O bate-papo completo segue abaixo:

Catherine Zeta-Jones

Mulher (quase) perfeita

Por Eduardo Graça, de Nova York

Divulgação / Warner Bros

Catherine afirma que mantém a forma física graças à vida pacata e ao hábito de relaxar sempre que pode

Ela é linda, talentosa e mãe dedicada. E agora também entende de alta gastronomia - aprendeu por causa de seu novo longa, Sem Reservas. Para ser perfeita, precisaria estar com o coração disponível. Não está...

Catherine Zeta-Jones, 37 anos, sorri quando confrontada sobre o segredo do brilho de seus cabelos negros: a aplicação diária de caviar russo. "Ah, não, caviar?! Isso deve deixar um cheiro terrível! Inventam tudo sobre mim, né?", reclama, sem perder a expressão jocosa. Atualmente, tudo parece remeter à alta gastronomia na vida dessa mulher, casada com Michael Douglas, 62, ator e produtor de Hollywood. Aliás, ele se declara feliz com o laboratório culinário que a esposa e mãe de dois de seus filhos - Dylan Michael, 7, e Carys Zeta, 4 - fez para viver a chef de cozinha de um restaurante em Sem Reservas. Ela aprendeu técnicas e segredos num dos restaurantes mais estrelados de Nova York: Daniel, do chef francês Daniel Boulud, 52.

A atriz é a estrela do filme, que estréia nesta sexta-feira (10) nos cinemas brasileiros. O longa é um remake da produção ítalo-alemã Simplesmente Martha (2001) e conta a história de Kate, uma profissional premiada, dedicada às suas receitas, mas displicente com sua vida pessoal.

No encontro com Contigo!, em um hotel de Manhattan, a bela Catherine jurou de pés juntos que, depois de meses filmando dentro de uma cozinha, é capaz de preparar o jantar dos sonhos para o mais exigente paladar.

Antes do filme você já era apaixonada por culinária?
Só cozinhava o trivial para meus filhos e não me interessava pela alta gastronomia. Depois do laboratório com Daniel Boulud, aprendi um mundo de informações. Especialmente sobre o universo que existe do outro lado de lá da porta da cozinha. Hoje, preparo mais do que iscas de peixe frito para meus filhos (risos). Agora tento até, olhe a ousadia, criar receitas. De repente faço algo novo para o Michael. Até porque o ato de cozinhar para quem se ama é sensual.

E Michael Douglas, cozinha para você?
Claro! Ele faz uma panqueca fenomenal. Teve uma época em que o Dylan (filho mais velho dos dois) respondia na escola que eu era atriz e o pai fazia panquecas (risos). A gente achava o máximo.

Vocês já pensaram em visitar o Brasil e conhecer a nossa culinária?
Já ouvi maravilhas da cozinha brasileira. Na verdade, fui ao Rio uma única vez, em 1999, para o lançamento de Armadilha, com Sean Connery. Foi inesquecível. Mas confesso que prestei mais atenção nas pessoas do que na comida. Não é porque você é brasileiro, mas nunca vi tanta gente bonita quanto no Rio. Todos têm um brilho nos olhos, algo de saudável no rosto, se cuidam, sabe? Lembro -me de que uma vez minha agente teve de me tirar de uma situação embaraçosa...

O que aconteceu?
Eu fiquei tão paralisada com a beleza de um menino de uns 5 anos que criei uma situação desagradável com os pais dele! Minha agente me tirou do transe. Mas, sério, o brasileiro é muito bonito.

E olhe que no Brasil não usamos caviar para lavar os cabelos, hein?
Não sei de onde eles tiraram isso (risos)! Sabe que minha avó dizia que era bom colocar uma mistura de ovo nos cabelos. Deve ser mais fedido.

Como faz para manter o corpo perfeito e a pele bonita?
Como a maioria dos leitores da revista, fico me cobrando que deveria fazer mais exercícios. Minha rotina é muito normal. Adoro pães, mas evito, para não engordar. É só isso. Durmo muito. Sempre que posso, quando não trabalho, procuro relaxar. E tenho uma vida calma, longe de Los Angeles. Isso ajuda. Jamais poderia viver em Hollywood.

Por causa do assédio?
Sim! Nas Bermudas, meus filhos não são tratados como "minicelebridades". Claro, às vezes acontece algo. Outro dia, Dylan chegou em casa e me perguntou: "Mamãe, a gente é rico e famoso? John, meu amiguinho, disse que somos!" Levei um susto e perguntei o que ele tinha respondido. E Dylan disse: "Que não, é claro!"

Deve ser um tema delicado na educação dos filhos, a descoberta da fama dos pais...
Por isso decidimos morar nas Bermudas, que é onde a mãe de Michael (Diana, 84) nasceu. Acho chocante esse comportamento das "meninas-celebridades" de Hollywood.

Fala dos escândalos envolvendo Paris Hilton, Britney Spears, Lindsay Lohan...
Olhe, essa indústria de celebridades chegou a um ponto que eu qualifico como epidemia. É como uma doença contagiosa, que faz mal para todos. No caso dos artistas, ela leva à abreviação da carreira. E isso é muito pobre, não? É quase como Chicago (o musical, estrelado por ela e Renée Zellweger), só que na vida real.

Já que você falou em Chicago, que lhe rendeu um Oscar, não pensa em voltar a fazer musicais?
Teatro é minha grande paixão. E desde Chicago recebi muitos convites para a Broadway, mas nada que me motivasse de verdade. Ainda sonho em fazer um outro filme com o Rob Marshall (diretor de Chicago) e ainda estamos à procura do musical perfeito para nós dois.

ENTREVISTA/Reese Witherspoon


A Contigo! que está nas bancas também saiu com minha entrevista com a atriz Reese Witherspoon, que recebeu um Oscar por sua excepcional interpretação de June Carter Cash em John & June e ficou conhecida no mundo todo pela comédia Legalmente Loira. A exclusiva foi por conta da escolha da atriz para ser a nova garota-propaganda da Avon no mundo todo. Abaixo vai o bate-papo completo.

Embaixadora da beleza

Por Eduardo Graça, de Nova York

Reese Witherspoon, 31 anos, é a nova revendedora da Avon. A atriz, que durante sete anos foi casada com o astro Ryan Phillippe, 32, com quem teve dois filhos - Ava Elizabeth, 7, e Deacon Phillippe, 3 -, foi escolhida semana passada a primeira Embaixadora Global da marca. Ela será não apenas a nova imagem da empresa, mas também vai trabalhar em todos os projetos sociais da Fundação Avon, entre eles a prevenção ao câncer de mama e o combate à violência doméstica. Reese conversou, com exclusividade, diretamente de Los Angeles, com Contigo!.

A mídia critica celebridades que aliam seus nomes a causas filantrópicas, que muitas vezes se revelam apenas marketing para alavancar suas carreiras. Como você vê essas críticas?
Entendo a crítica feita pela imprensa. Mas, no meu caso, fiz questão de conhecer a fundo a filosofia da Fundação Avon. E me interesso profundamente pela prevenção do câncer de mama, além de saber que posso ajudar na conscientização da necessidade de as mulheres fazerem exames regularmente. Posso ajudar até mesmo na criação de remédios para evitar a doença.

Você foi uma criança louca por maquiagem, do tipo que levava bronca por usar as coisas da mãe?
Olhe, da minha mãe nem tanto. Mas da minha avó, que era uma mulher elegantérrima, sim, coitada! Usava especialmente os perfumes, blushes e gloss que ela colecionava. Eu fazia a festa.

Você está com dois novos projetos de filmes. Um deles é com o Jake Gyllenhaal, não?
Sim, o Rendition. É um filme que trata de temas como tortura, imigração, lealdade. O outro é uma comédia natalina, com Vince Vaughn.

A mídia critica celebridades que aliam seu nome à causas filantrópicas, que muitas vezes se revelam apenas uma ação de marketing para alavancar suas carreiras. Como você vê estas críticas?
Acho esta pergunta importantíssima. E entendo perfeitamente a crítica feita pela imprensa, a promoção fácil que temas importantes podem oferecer para celebridades. Mas, no meu caso, fiz questão de conhecer a fundo a filosofia da Fundação Avon, seus anos e anos de experiência e seriedade. E me interesso profundamente pela prevenção do câncer de mama, posso ajudar na conscientização, na necessidade de as mulheres fazerem exames regularmente, até mesmo na criação e novos produtos. Detectar o câncer em seu estágio inicial é, como se sabe, fundamental para o tratamento. E sempre quis ter uma oportunidade de fazer diferença. Agora eu tenho!

quarta-feira, agosto 08, 2007

DO BAÚ/PERFIL: Miúcha (1999)


Semana passada passei uma tarde deliciosa no sul da ilha de Manhattan com a cantora e compositora Bebel Gilberto e, fuçando meus arquivos, encontrei este pingue-pongue que fiz da mãe da moça, Miúcha, publicado na capa do Caderno B, do Jornal do Brasil, em 1999, editado pela querida Regina Zappa. É interessante como a conversa girava em torno do momento da necessidade de se (re)descobrir o Brasil real, acima do país de fantasia vivido apenas na experiência americanófila das elites do sudeste e do sul.

Miúcha não se explica, por EDUARDO GRAÇA

Como seu último CD, 'Rosa Amarela', que está saindo agora no Brasil, a irmã de Chico Buarque é para ser ouvida e se sentir


Se algum engraçadinho perguntasse a Heloísa Buarque de Hollanda que música a definiria ela titubearia, aguardaria um olhar cúmplice do gato Dengo, com o qual divide sua cobertura na Ataulfo de Paiva, ali pertinho do Antonio's, no Leblon, e finalmente responderia: Paz, do compadre João Donato. Os amigos da turma do funil não precisam se assustar. Miúcha continua revirando os olhinhos antes de soltar aquela gostosa gargalhada. Principalmente agora, quando comemora o lançamento de Rosa amarela , CD que quebra um jejum de 10
anos sem gravações no Brasil da mais sapeca das filhas de dona Amélia. Uma conferida, ainda que de esguelha, no menu escolhido por Miúcha para seu novo disco, leva à pista certeira: Rosa amarela remete imediatamente às duas parcerias da cantora com Tom Jobim. Os clássicos - e esgotadíssimos - Miúcha e Antonio Carlos Jobim (77) e Miúcha e Tom (79). No repertório, pepitas de Capiba, Jacob do Bandolim, Elton Medeiros, Hermínio Bello de Carvalho, Aldir
Blanc, Ary Barroso, Edu Lobo, Isamel Neto, Antônio Maria, Paulinho da Viola, Maurício Tapajós. Só fera.

E, exatamente como nos anos 70 - Miúcha passou boa parte da década anterior na Europa e nos Estados Unidos com o então marido João Gilberto -, a sensação é de redescoberta do Brasil. O exílio, mais uma vez, acabou. Rosa amarela, é verdade, foi lançado há dois anos no Japão, pela gravadora Omagatoki. Que bancou toda a produção. Só assim Miúcha pôde voltar a gravar no país. Querelas do Brasil. Mas não tem grilo não que a gente vai levando. Ou traduzindo a explicação da cantora na apresentação de Rosa amarela. Escondida atrás de sua máquina de escrever elétrica, Miúcha arrisca: um disco não se explica. Antes, se escuta, se sente. Exatamente como a pequerrucha Heloísa dos olhos felizes.

- Por que você ficou dez anos sem gravar?
- Porque os únicos projetos que surgiam eram de pot-pourris de Bossa Nova. Aquela coisa de um disco feito todo em cinco dias. Não dava, né?

- E como é que você se sentia?
- Eu me sentia castrada. E a história era sempre a mesma. A de que a música que o povo quer escutar é outra. Não concordo. O que acontece é que determinados segmentos musicais são mais trabalhados do que outros. Veja o caso do Lenine, por exemplo. Um artista fantástico que só foi descoberto pelas gravadoras agora. Muito tarde. A história do Lenine vem lá do bloco
Segura a coisa que eu chego lá , de Olinda, há mais de uma década. E ele já era este Lenine...

- Nestes dez anos em que não gravou no país você esteve longe do Brasil?
- Ao contrário. Tenho viajado muito e participei de projetos que me deram outra visão do país. Por um lado, fiz o Vitrines , que me levou a lugares como São Bernardo do Campo. Por outro, pego minha mochila, levo minhas partituras e me embrenho em locais como Pirinópolis, Alto do Paraíso, Chapada dos Veadeiros. Aliás, o que tem de maluco nestes lugares, é um luxo!
(risos). Nos dois casos há um público absolutamente carente de música popular brasileira. Aliás, minha percepção é de que o Brasil anda carente de música popular brasileira. Aquela questão de que "o Brazil não conhece o Brasil" é cada vez mais urgente.

- A própria história da gravação de Rosa amarela mostra isso ...
- É engraçado porque foi preciso que os japoneses decidissem bancar o disco para que eu lançasse um CD no Brasil. A única condição deles é que eu lançasse primeiro no Japão, o que aconteceu há dois anos.

- E como surgiu o interesse dos japoneses?
- Como todo mundo sabe, eles adoram música brasileira. Fiz uma turnê lá em 96 e, seis meses depois, o disco já estava lançado. Voltei para shows e foi uma loucura.

- E agora a gente até pode achar um CD seu nas lojas de discos ...
- Antes só tinham as coletâneas, os "acervos". Os discos com o Tom, por exemplo, só consigo achar na versão americana. Que é hilária. O encarte diz que sou muito talentosa e fiz dois discos: um com o Antônio Carlos Jobim e outro com seu filho, o Tom. (riso). Não dá, né?

- Rosa amarela é dedicado ao Tom. As gravações e o show que vocês fizeram no Canecão e depois em Buenos Aires e Roma devem trazer boas recordações...
- Nosso primeiro disco foi dedicado ao Radamés (Gnatalli). E aí a primeira lembrança é de nossos encontros no Lucas de tardezinha. Depois me recordo dos ensaios, um sonho! E do Tom espantado porque eu conhecia tudo do Ataulfo Alves. É que a gente cantava muito em casa. Éramos sete irmãos, quatro meninas e três meninos. Logo formamos um coro. E as meninas imitavam as pastoras dos discos do Ataulfo...

- Maninha lembra bem esta época, né?
- O Vinícius mexia muito com o Chico por causa de Maninha. Como ele freqüentava nossa casa na Pacaembu, dizia que o Chico era um grandissíssimo mentiroso. Não havia jaqueira nenhuma, muito menos porão (risos). Mas acho que esta música mostra bem aquele mistério que é o mundo das crianças...

- Seus pais encaravam bem esta família dó-ré-mi?
- De jeito nenhum (risos). Enquanto nós nos esguelávamos no carramanchão da Pacaembu cantando Noite de luar para os namorados que passavam na rua, tudo bem. Mas quando ensaiamos uma profissionalização, mamãe não achou a menor graça.

- Como assim?
- Papai (o sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda) era um boêmio. E vivia levando pito da
mamãe. Um dia, ou por não querer ir sozinho ou por querer levar um pito duplo, me carregou com ele para a "Cave", uma boate da moda em São Paulo. Eu já tinha em casa Canção de meu bem e as músicas de Vinícius para Orfeu da Conceição. Resultado: cheguei na "Cave", fui para o palco e cantei tudinho....

- E...
- Dois dias depois saiu uma notinha em um jornal. Minha mãe apareceu com uma vassoura e sobrou para nós dois (risos). Mas não era só comigo não. O Chico cantou no rádio, pela primeira vez, escondido dela.

- E logo depois você foi morar no exterior...
- Ganhei uma bolsa e fui estudar História da Arte na Sorbonne. Mas já estava mal-intencionada. Tanto que levei meu violão. E também os primeiros discos da Bossa Nova. Ficava ouvindo João (Gilberto) e suspirando: um dia vou me casar com este homem! Pois não é que o diabo ouviu? (risos)

- E você conheceu o João na França, né?
- Foi hilário. Em Paris fiquei próxima do grupo dos estudantes latino-americanos. Íamos sempre para uma daquelas boates baratas de Saint-Germain, a La Candelaria, onde as estrelas eram Violeta Parra e Los Incas. Nesta época eu e Dudu do Banjo resolvemos partir para a Itália
e Grécia cantando e passando o chapéu na rua. E o João estava nos grandes teatros. Nós sempre tentávamos assistí-lo e nunca conseguíamos. Até que um dia ele apareceu de surpresa no La Candelaria, para conhecer a Violeta...

- E acabou encontrando você...
- Pois é. Alguém disse que ele precisava ver a chica brasileira que cantava Bossa Nova. Ele ficou me olhando por uma fresta e eu conversei uns 10 minutos com ele sem saber quem era. Dali sairíamos no mesmo carro com um monte de gente. Ele então me propôs: quando o carro der a primeira parada, vamos sair correndo? E eu, envergonhadíssima, sabendo que ia pagar o maior mico! O resultado é que sumimos e as pessoas ficaram perplexas. Logo estávamos namorando...

- Namorar o João devia ser estranhíssimo...
- Claro (risos)! Era muito doido. E eu era sua maior tiete. Uma vez preparei uma noite romântica, quis levá-lo em um restaurante. E ele, já naquela época, odiava restaurantes. Pensei então no óbvio: crepe suzette e fondue. Quando o garçom acendeu o fogo ele quase teve um troço: "pára com isso que vai incendiar tudo!" (risos)

- E vocês foram logo para os Estados Unidos, né?
- E lá virei datilógrafa em um edifício na Madison Square. Obriguei o João a escrever uma carta, que ele estava me contratando como secretária. Mandei para o Brasil, mas não colou muito. Alguém me dedou e foi um Deus-nos-acuda. Pedimos então ao Jorge Amado, que tinha sido padrinho do primeiro casamento do João e era muito amigo do papai, para escrever uma carta recomendando o João...

- Esta correspondência deve ser hilária...
- E era. Jorge dizia que o João, como todo músico, era meio maluco, mas que era boa gente. Aquela solidariedade típica de baiano. Resultado: João se divorciou da Astrid (Gilberto), nos casamos e ficamos por lá...

- E você deixou o canto de lado por um bom tempo...
- Mas lá descobri que não faço questão de ser cantora. O que adoro é estudar violão, estudar flauta. Preciso é da companhia da música, sempre. E viver com o João estes anos todos foi a maior formação musical de minha vida.

- Aí vieram as parcerias com o Tom, o musical Os Saltimbancos e um longo silêncio. Não dá vontade de ir embora para o Japão?

- Acho que tenho preguiça de sair do país. Rosa amarela, como disse, não deixa de ser uma descoberta de um novo Brasil. Que as pessoas não conhecem, formado por uma enorme massa que não tem grana para ir às casas de espetáculo, mas que sabe cantar Tom, Vinícius, Ary, Custódio. É um Brasil riquíssimo, por trás das vitrines.

- Miúcha, você está em paz?
- Estou parando de fumar, minha voz está mais bonita, os amigos estão próximos, tenho estudado muito e percebido que a música, por si só, contém algo de fé. Estou, sim, em paz.

RETRATOS DO BRASIL
(as músicas de Rosa amarela, faixa a faixa)


Cabrochinha - uma das duas inéditas, composição de Maurício Carrilho e Paulo César Pinheiro. Bem-humorada e moderníssima, para Miúcha é uma versão carioca de Jackson do Pandeiro, sem esquecer das releituras do Cascabulho.

João e Maria - o clássico de Chico Buarque acabara de ser composto e entraria no CD Miúcha e Antonio Carlos Jobim. Mas Aloysio de Oliveira, produtor do disco, queria algo ainda mais pessoal do irmão de Miúcha. Foi quando ele compôs Maninha ("se lembra quando toda modinha falava de amor/pois nunca mais cantei/ ó maninha/ depois que ele chegou"). Nara Leão acabou gravando João e Maria e agora Miúcha volta à canção.

De você eu gosto - pérola muitas vezes esquecida da dupla Tom Jobim/Aloysio de Oliveira, do início dos anos 60. Por incrível que pareça, é o primeiro dos clássicos da Bossa Nova gravado por Miúcha.

A mesma rosa amarela- canção de Capiba e Carlos Pena Filho que dá título ao CD, faz parte da memória musical de Miúcha. Que já a cantava nos improvisados corais dos irmãos Hollanda no casarão do Pacaembu, em São Paulo.

Doce de coco- Outra antiga paixão da cantora, parceria de Jacob do Bandolim e Hermínio Bello de Carvalho.

Pressentimento - Outra de Hermínio, agora com Elton Medeiros, lembra o tempo em que Miúcha e Cristina imitavam as vozes das pastoras de Ataulfo Alves.

Santo Amaro - Parceria de Luiz Cláudio Ramos com Franklin da Flauta e Aldir Blanc. Choro já gravado por Miúcha em 1980 e presença obrigatória nas turnês japonesas.

Assentamento- composta por Chico para o projeto Terra, de Sebastião Salgado, virou hino do MST e teve sua primeira gravação feita por Miúcha (só os japoneses sabiam disso).

Por causa desta cabocla - Pérola de Ary Barroso e Luiz Peixoto, que volta e meia surgia nos ensaios com Tom Jobim e com Rafael Rabello, com quem Miúcha gravaria um disco.

Choro bandido - a linda pareceria de Chico e Edu Lobo ganha interpretação especialíssima.

Valsa de uma cidade - Ismael Netto e Antônio Maria pedem passagem enquanto Miúcha solta a voz sonhando com um Rio tranqüilo, "leve como um musical da Metro".

Só o tempo- sem mais comentários, uma leitura singular para a obra-prima de Paulinho da Viola (o amor é um segredo/ e sempre chega em silêncio/como a luz no amanhecer")

Querelas do Brasil - Não por acaso esta composição de Maurício Tapajós e Aldir Blanc fecha o disco. Foi a partir da frase-encerramento de Tom em Antonio Carlos Jobim e Miúcha - "o Brazil não conhece o Brasil" - que a dupla compôs a música. Que volta agora mais atual do que nunca. (E.G.)

domingo, agosto 05, 2007

ENTREVISTA/Steve Carell

A Contigo! desta semana publicou minha entrevista com o sensacional Steve Carell, estrela do seriado The Office e do nem tão sensacional assim A Volta do Todo-Poderoso, comédia que chegou aos cinemas brasileiros na sexta-feira. Ao lado dele, a bela Lauren Graham, a Lorelai do seriado Gilmore Girls, personagem inspirado, tenho certeza absoluta, em minha querida amiga Eleonora Alves.

Olha só o conversê:

Steve Carell

Um narigudo em Hollywood

Por Eduardo Graça, de Los Angeles

Divulgação / Universal

O expressivo comediante, que ficou conhecido por seu protagonista em O Virgem de 40 Anos, retorna à telona como o braço direito de Deus no hilário A Volta do Todo-Poderoso

O ator Steve Carell, 44 anos, chega todo arrumadinho ao refeitório dos estúdios da Universal, em Los Angeles. Cabelo milimetricamente penteado, terno cinza com camisa e sapatos pretos. Um mauricinho completo - como é, aliás, seu personagem em A Volta do Todo-Poderoso, que estréia sexta-feira (3). "Almofadinha, eu? Ah, não escreve isso não, vai! Eu tinha de me vestir apropriadamente para me encontrar com os jornalistas internacionais, né?", diz revelando que, quando conversa com repórteres americanos, costuma ir para as entrevistas de camiseta e tênis mesmo.

O comediante, que conquistou Hollywood com o hilário Andy Stitzer, protagonista da surpreendente comédia O Virgem de 40 Anos (de 2005, que rendeu cerca de 177 milhões de dólares), tornou-se também estrela da TV americana ao interpretar Michael Scott, um dos ácidos personagens da versão americana do seriado inglês The Office (canal FX), pelo qual concorre ao Emmy deste ano, na categoria melhor ator em série de comédia.

Apesar do sucesso, ele não tem nada de esnobe. Talentoso, simpático, brincalhão e dono de seu próprio (e imenso) nariz, Carell é um americano quase comum. É casado com a atriz Nancy Walls, 41 (a Carol de The Office), e faz o tipo papaizão. Ele fez questão de levar os filhos, Elizabeth, 6, e John, 3, ao set de A Volta do Todo-Poderoso.

O filme é a continuação do blockbuster Todo-Poderoso (2003), com Jim Carrey, Jennifer Aniston e Morgan Freeman, uma verdadeira e tumultuada sucursal do canal por assinatura Animal Planet (saiba por que na sinopse ao lado). Foram treinadas 177 espécies de animais para a realização do longa.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como seus filhos reagiram ao te ver com uma barba imensa, que quase chegava à barriga (no longa, ele faz uma espécie de Noé do terceiro milênio)?
Sabe que eles foram uma presença constante durante as filmagens? E foram vendo a transformação do personagem aos poucos, então, acho que ficaram completamente fascinados, mesmo com o fato de o pai deles trabalhar em uma "selva" (risos). Foi uma loucura. A Nancy (mulher dele) reclamou que fiquei cheirando a cocô de animais por semanas a fio. Tinha girafa, babuíno, camelos e até cobras (faz cara de nojo).

Por que o "preconceito" contra as cobras?
Não quero estragar a surpresa de ninguém, mas tem uma cena especialmente complicada que faço com a "dona cobra" (risos.) Para você ter uma idéia, cheguei a pedir para o Tom Shadyac (diretor do longa e também de Ace Ventura, de 1994, e de Todo-Poderoso, de 2003) para cortá-la do roteiro, de tão apavorado que eu estava. Mas ele apelou para meu lado "macho" e tive de fazer, né (risos)?

Você apareceu no ano passado em um dos filmes mais elogiados do ano, A Pequena Miss Sunshine, em que fazia um professor mais trágico do que cômico. Pretende investir mais em dramas daqui para a frente?
Olha, A Pequena Miss Sunshine foi uma jóia. E me sinto sinceramente um sujeito abençoado por Deus por ter feito parte daquela história. Nenhum de nós jamais imaginou que o filme ganharia tantos prêmios. Agora, faço de tudo, né? Se o projeto me encantar, pronto, estou dentro, independentemente de ser comédia ou algo mais sério. A única coisa que não tolero, sou radical mesmo, é violência. Se tiver cenas de violência, simplesmente não me convide, pois não aceitarei fazer o filme.

Então você leva seus filhos ao cinema com o maior cuidado...
Claro! Um filme que eu e Elisabeth (sua filha mais velha) adoramos foi Uma Noite no Museu(Stiller) é um amigo querido e as cenas com os macacos me fizeram pensar. (risos) Sabe que os macacos são os animais mais complicados, mais temperamentais e mais difíceis do reino animal, né? Mas o Ben não me deu nenhuma dica para lidar com eles, o danado (mais risos)!

sexta-feira, agosto 03, 2007

O Homem de Ferro, o filme


Esta foi para a Bizz que está nas bancas, uma prévia do filme O Homem de Ferro, uma das grandes apostas da Paramount para 2008.

À Prova de Ferrugem
Eduardo Graça, de Nova Iorque, para a Bizz


Mais Uma Adaptação da Marvel, O Homem de Ferro promete ser o blockbuster de 2008


“Estou mortinho da Silva. Jamais imaginei que dirigir este filme seria tão exaustivo”. O desabafo é do diretor Jon Favreau, no grupo criado especialmente por sua eminência para abastecer os fãs curiosos sobre a quantas andam as filmagens de O Homem de Ferro, o filme mais aguardado de 2008. As primeiras imagens divulgadas pela Paramount parecem indicar que Robert Downey Jr. está perfeito como Tony Stark, com ou sem armadura. “Logo depois das sessões de fotos tive a certeza: Downey era o próprio Homem de Ferro”, jura Favreau.

Mas é verdade que o novo todo-poderoso da Marvel Comics, principal financiadora do projeto, andou fazendo cortes na produção? E que o principal vilão do filme, o sinistro Mandarim, teria simplesmente desaparecido? E que o veterando Jeff Bridges (que encarna o Monge de Ferro) e o bonachão Terrence Howard (que faz o piloto de avião e primeiro-amigo Jim Rhodes) vivem às turras no set de filmagem? E que além do filme Favreau está também preparando uma graphic novel que chegará às bancas na época do lançamento do blockbuster? E por que não se fala na bela Gwyneth Paltrow, escalada para viver a curvilínea secretaria e algo-mais Pepper Potts?

“Eu sei que tenho estado quieto nos últimos dias, mas tenho meus motivos. Primeiramente, me sinto como se fosse um general em meio à uma gigantesca operação militar. Não tenho outra vida a não ser o set de filmagens. Depois porque não quero que imagens soltas capturadas na internet acabem formando uma opinião prévia sobre um filme que somente vai chegar às telas no ano que vem. E eu quero fazer vocês caírem das poltronas dos cinemas quando o filme estrear!”, escreve Favreau. No Havaí para a promoção do desenho animado Tá Dando Onda, Jeff Bridges, com uma cabeleira que o deixava quase irreconhecível (aguardem o filme, meninos!) não deixou por menos e avisou que Favreau está apostando tudo no realismo. E que a armadura usada por Downey Jr. é ‘sensacional’. “É impressionante como a tecnologia avançou desde que eu fiz Tron. Vocês não perdem por esperar!”, disse.

ENTREVISTA/ Yoko Ono


Esta também foi para a edição da BIZZ que está nas bancas brasileiras. Yoko Ono, a viúva mais famosa do rock, foi um encanto, ainda que um tanto econômica, respondendo minhas perguntas em forma de hai-kai. Dois dois discos que ela lançou por aqui este ano, o álbum de remies Open Your Box não sai da vitrola aqui de casa.

A Viúva Alegre
Eduardo Graça, de Nova Iorque, para a Bizz

Aos 74 anos, Yoko Ono ela acaba de ser (re)descoberta por uma geração de jovens fãs eletrizados por dois lançamentos: o ótimo Yes, I’m a Witch e o interessante álbum de remixes Open Your Box, pronto para ser tocado nas pistas de dança menos óbvias do planeta, e com as assinaturas de Pet Shop Boys, Felix da Housecat e Basement Jaxx. Já para a cerzidura de Yes, I’m a Witch, uma deliciosa brincadeira com a forma pela qual foi tratada por parte da critica e dos fãs que a culpam até hoje pelo fim dos Beatles, a viúva de John Lennon enviou seu catálogo para 16 artistas-amigos (gente como os Flaming Lips, Cat Power, Peaches e Antony). Estes escolheram uma faixa e a reinventaram quase sempre de modo engenhoso. Ou, como prefere Yoko, com menos reverência e mais requebro. Sim, ela gosta de dançar. E música brasileira.


- Você anda dizendo que se identifica profundamente com o título do disco e que se orgulha de ser uma bruxa...
- Pois é, eu compus e gravei a canção Yes, I’m a Witch em 1974 e, veja só você, ela foi considerada por demais provocadora para ser ser lançada. Ninguém quis. Mas agora, 33 anos depois, está aí finalmente para quem quiser ouvir, o que eu adoro. Nossa sociedade mudou muito nestas três décadas. E gosto das mudanças!

- No ano passado o documentário The U.S. vs John Lennon, que você fez questão de aplaudir de pé, fazia um paralelo entre os anos Nixon e a repressão da era Bush. Nos anos 70 você e John passaram por poucas e boas quando o governo Americano tentou negar-lhe o visto de permanência nos EUA. Você diria que a reação de Washington aos ataques terroristas a Nova Iorque nos fez ficar 30 anos atrasados?
- Acho que neste sentido nada mudou, as coisas são exatamente como eram antes. Ou seja, temos de lidar com a realidade de que sempre vão existir pessoas que acreditam em outras verdades, diferentes das nosas. Diria que algumas vezes, para nós dois, foi quase perigoso lutar por aquilo em que acreditávamos. Mas, sabe de uma coisa? Nós temos de continuar com a cabeça erguida, sempre!

- Yes, I’m A Witch fez com que mais jovens descobrissem sua música. Você diria que, de alguma maneira, a sua carreira foi ofuscada pelo brilho e pelo talento de John? Devia ser difícil ter de dividi-lo com o restante do mundo...
- Nunca encarei nosso relacionamento desta maneira. Nós não estávamos dividindo nossa história juntos com o restante do planeta. Éramos até que bem privados, e posso garantir que tivemos uma ótima e divertida vida a dois.

- Qual foi a sua reação ao ouvir pela primeira vez as versões de sua obra feitas por gente de gerações mais novas mas completamente antenadas com sua música?
- A sensação foi a de felicidade, de perceber que o mundo está sacando minhas idéias.

- A versão dos Flaming Lips para Cambridge 1969, à la Ornette Coleman, é uma maravilha. O que você falou para o Wayne Coyne quando escutou pela primeira vez a faixa?
- Muito, muito obrigado mesmo.

- Você se sentiu rejuvenescida vendo todos estes meninos tocando suas músicas no disco?
- Não sei. Mas olha, não posso dizer se Yes, I’m A Witch fez-me sentir mais jovem por uma simples razão: não sou uma velha. Se eu começar a me sentir mais jovem vou acabar virando um bebê!

- Seu filho Sean (Lennon) adora música brasileira e anos atrás, em um festival no Rio de Janeiro, dividiu o palco com um dos grandes heróis do rock brasileiro, Arnaldo Baptista, dos Mutantes. Ele ouvia música brasileira em casa quando voltava da escola?
- Diferentemente de meu filho, eu não possuo um entendimento mais intelectualizado da música brasileira. Quando eu escuto aqueles ritmos, quando ouço aquelas canções que vocês fazem, acontece algo mais simples, mais intuitivo: meu corpo começa a se movimentar e é como se eu tivesse que dançar. Eu amo dançar, adoro música que me faça dançar, está em meu sangue. E é o meu corpo quem me garante – a boa música brasileira é sensacional. Ela me faz me sentir eternamente jovem.

Diário de Bordo - Bon Jovi MTV Unplugged


A Revista BIZZ que está nas bancas publicou meu Diário de Bordo do Bon Jovi Unplugged, gravado pela MTV aqui no Brooklyn e acompanhado em uma noite de verão pelo blogueiro, que se armou de toda a paciência do mundo para ouvir duas, três, quatro versões dos hits da banda de Nova Jérsei. Aqui vai a versão integral:

Eduardo Graça, de Nova Iorque, para a Bizz

Bon Jovi Unplugged – Diário de Bordo

19h. As meninas muito loiras e muito maquiadas de Nova Jérsei correm para ocupar as cadeiras mais próximas do palco instalado em um estúdio cinematográfico no Brooklyn. Vai começar a gravação do Bon Jovi Unplugged, inaugurando a nova fase do programa idealizado pela MTV, que terá na seqüência o Police e Mary J.Blidge. Cerca de 400 fãs cantam sem parar Never Say Goodbye e Let It Rock, lembrando que a noite é uma criança, boba, feliz e despreocupada.

20h05. Calça jeans colada no corpo, camisa preta e imensa corrente de prata com uma caveira, Jon Bon Jovi parece bem mais novo do que seus 45 anos. A seu lado, sentado, Richie Sambora, todo de preto, inchado, aparenta bem mais que seus 47. O público é brindado com Lost Highway, faixa-título do novo CD da banda, com alto teor country. A platéia responde com batidinhas de pé como se estivesse no Tennessee.

20h30. No palco, à formação clássica do Bon Jovi se juntam dois pianos, um banjo e uma orquestra de cordas. Ao todo, nove violinos. É Livin’ On a Prayer em versão noir, um lamento soturno, tristíssimo. Os violinos seguem em Bed of Roses, Joey e (You Want To) Make a Memory e permanecem ao fundo na parceria com Leeann Rimes, a diva loira que solta o vozeirão na romântica Strangers. Não parece haver espaço para rock no acústico do Bon Jovi.
21h25.Os violinos partem. A platéia parece acordar. A banda toca You Give Love a Bad Name em uma versão cool, mais jazzística. Agrada. Jon ensaia um sapateado no palco e rebola. A partir daí seus gestos ganham em dramaticidade, como se ele estivesse em um estádio de futebol. A banda não o acompanha. “Meu Deus, lá se vão 21 anos. Esta música já ganhou a maioridade. E foi nosso primeiro sucesso”, diz. Seguem Born to Be My Baby e It’s My Life, esta com o auxílio dos garotos da The All-American Rejects.

22h05. Momento cover. A escolha: a linda Hallelujah, de Leonard Cohen. “Queria ter escrito esta música. Quando ouvi pela primeira vez foi num show do Jeff Buckley e lembro de ter falado para quem estava do meu lado – taí a música de trabalho do álbum. E a pessoa me respondeu: ô bestalhão, este é um clássico da música pop!”, confessa, rindo. A interpretação é reverente ao extremo e deve ajudar Cohen a superar os problemas financeiros por que vem passando recentemente.

22h30. Depois de uma ótima Keep The Faith é hora de I’ll Be There For You. O fundo do palco fica azul e figuras de nuvens aparecem na parede em uma tentativa de se criar um clima zen. Mas alguma coisa parece errada com Sambora, que briga com o violão. Jon olha de esguio, nitidamente irritado.

23h. Jon e Richie estão sozinhos no palco. “Estávamos descalços na apresentação do Grammy em 1989, passando o som, eu com febre alta, e começamos a tocar Wanted Dead or Alive, assim, acústico. Estávamos com muito medo, não tínhamos nem os vestidos de luxo da Madonna nem sabíamos dançar como o Bobby Brown. Mas decidimos ser o mais despojados possíveis. E foi assim que nasceu o MTV Unplugged”, conta Bon Jovi, antes de tocar, por duas vezes, a música com Richie a seu lado. Este tentava caprichar na bluesada segunda voz, mas não conseguia acertar os acordes. O resultado foi gravá-la pela terceira vez, com toda a banda no palco. Jon olha para Richie, enfático: “Desta vez deixa comigo, ok?”.

23h15. Aos tropeços, acaba a gravação do MTV Unplugged do Bon Jovi. A aposta no virtuosismo e nas versões com teor mais country deve agradar em cheio o consumidor médio norte-americano, que já se deleitou com as versões da banda apresentadas na temporada mais recente do programa American Idol. Mas, e os fãs brasileiros? Taí um mistério que nem o Lobão desvenda com facilidade.

ENTREVISTA/Cornel West

Hoje o Valor Econômico publicou minha entrevista com o professor Cornel West, uma das estrelas da Universidade de Princeton, conselheiro da campanha presidencial do senador democrata Barack Obama e que lança esta semana um CD de hip-hop. Na conversa, uma análise nada tímida das relações étnicas no Brasil e um mergulho no mundo da cultura popular vista por olhos acadêmicos mas nada herméticos. Eu adorei o bate-papo.


Filosofia, hip-hop e Barack Obama
Por Eduardo Graça, para o Valor
03/08/2007


Divulgação
West: "Ignorar a questão racial brasileira, como se tem feito, leva apenas a um futuro em que, necessariamente, essas questões voltarão de forma mais assustadora"



Professor de filosofia da Universidade de Princeton e mais influente intelectual negro dos Estados Unidos das duas últimas décadas, Cornel West, de 54 anos, foi parar na reportagem de capa da revista "Newsweek" há duas semanas ao declarar oficialmente seu apoio ao senador Barack Obama nas prévias do Partido Democrata. Alçado ao posto de conselheiro da campanha presidencial do jovem senador de Illinois, West lança em agosto seu segundo CD, "Never Forget: A Journey of Revelations", um álbum por ele classificado como "hip-hop consciente", com convidados como Prince, Talib Kweli, Gil Scott-Heron, Tavis Smiley, KRS-One e Andre 3000 (Outkast). Cabelo afro, barba grossa e óculos de aros negros, West diz que seduziu os artistas com a idéia de participar de um produto destinado a incitar os jovens a consumir "música popular sofisticada".
Nas letras, recados diretos a Washington (em "Bushanomics", ele e Kweli lembram que "o governo deve respeitar a vontade do povo/ pois é ele quem serve à população/ e não o contrário") e uma nítida tentativa de recuperar o histórico poder de fogo da música negra urbana, reaproximando-a de temas como o aumento da desigualdade social nos EUA da era Bush, o antiislamismo, o poder concentrado na mão das grandes corporações, a neo-homofobia e a segregação racial. Um retrato do andar de baixo dos EUA que muitas vezes é ignorado pelo mainstream.
Dedicado a Curtis Mayfield, "Never Forget" está longe de ser uma análise acadêmica do hip-hop. West tem uma visão crítica da elite intelectual ianque. Em 2001, ele abandonou seu posto na Universidade de Harvard acusando o então presidente da instituição, o economista Lawrence Summers, de racismo. Foi justamente em Cambridge, na Escola de Direito, que ele ministrou, ao lado do hoje ministro das Ações de Longo Prazo, Roberto Mangabeira Unger, durante seis anos, um prestigiado curso sobre democracia, embrião de seu mais recente trabalho, "Democracy Matters: Winning the Fight Against Imperialism", lançado em 2004 nas livrarias americanas.
Observador atento da realidade brasileira e amigo do presidente venezuelano Hugo Chávez, que lhe deu de presente uma biografia de Simon Bolívar, guardada com carinho na estante de seu escritório na Universidade de Princeton, no estado de New Jersey, West conversou numa quente tarde de verão com a reportagem do Valor sobre o momento decisivo pelo qual passa o Brasil, onde o enfraquecimento do mito da democracia racial se dá ao mesmo tempo em que os setores progressistas buscam encontrar novas formas de participação popular na complexa engrenagem política do país. A seguir, trechos da entrevista:


Valor: O sr. esteve no Brasil nos anos derradeiros da ditadura militar. Gostou do que viu?
Cornel West: Fui em 1980, para ver de perto o trabalho das Comunidades Eclesiais de Base, de Leonardo Boff, de Gustavo Gutierrez, da Teologia da Libertação. E conheci fantásticos guerreiros cristãos da liberdade que me inspiraram muito. Mas lá se vão 27 anos. Você sabe que a primeira tradução de "Questão de Raça", ainda em 1993, foi a brasileira? Mas aí já são outros 14 anos, tanta coisa mudou. Converso sempre com amigos brasileiros e percebo que o Brasil vive um momento historicamente importantíssimo, não apenas por conta da necessidade de fortalecer a democratização de uma sociedade profundamente marcada pelo legado pesado de um passado oligárquico e de opressão militar, mas também a de tentar descobrir em como se dá a relação entre essa nova prática democrática e o legado da ideologia de supremacia racial do branco colonizador.


Valor: De fato, há no Brasil uma intensa discussão sobre as políticas raciais adotadas pelo governo Lula, com as políticas afirmativas e a reserva de vagas para descendentes de negros nas universidades públicas. A própria discussão de raça, em um país marcado pela miscigenação, parece incômoda ou fora do lugar para boa parte dos acadêmicos e da sociedade brasileira...
West: Se o governo do PT está empenhado em destruir o mito da democracia racial brasileira, então conta com meu total apoio. É algo de bom que se está fazendo pelo Brasil. É preciso encarar como real a existência de uma ideologia dominante de supremacia branca na história brasileira. Mas é preciso, também, estabelecer uma conversa com o todo da população, uma reflexão crítica sobre o que está acontecendo com o país. Não se destrói um mito para, em seu lugar, criar uma mímica da experiência americana, por exemplo. Isso é muito importante. A questão racial no Brasil não deve, de modo algum, ser orientada pelo que aconteceu no império americano. Esse complexo de inferioridade, aí sim, é que estaria fora do lugar. Agora, é possível aprender com a experiência americana, com Martin Luther King Jr. Ignorar a questão racial brasileira, como se tem feito, leva apenas a um futuro em que, necessariamente, essas questões voltarão de forma mais assustadora. Sei que a esquerda brasileira, historicamente, se preocupou mais com questões de classe. É compreensível essa abordagem do problema, pois a desigualdade socioeconômica no Brasil é astronômica, mas é uma abordagem inadequada. É indispensável diminuir a distância entre ricos e pobres, mas, insisto, sozinha esta é uma ação inadequada.


Valor: Por que essa ênfase na necessidade de criar também iniciativas de reparação racial em um país com as características do Brasil?
West: Porque existe uma clara conexão entre raça e pobreza que, quando ignorada, fortalece o mito da democracia racial. Não é apenas uma mera coincidência o número de negros pobres no Brasil. É a herança da escravidão. Quando fui ao Brasil, visitei as favelas. Em São Paulo, por conta da migração interna, havia de fato menos negros do que em outros bolsões de pobreza brasileiros, mas em outras regiões, como no Rio, em Minas e na Bahia, isso é claro. Se um governo quer tratar com seriedade o problema da desigualdade social brasileira, é impossível passar por cima do aspecto racial e de gênero que o envolve. É preciso encarar as três facetas do problema - classe, raça e gênero. A direita americana, quando ataca as políticas afirmativas, por exemplo, se esquece de que elas não foram fundamentadas apenas em critérios raciais, mas também beneficiaram as mulheres. Aqui mesmo em Princeton, até 1969, não havia mulher presente na vida universitária. Agora você tem uma mulher presidente da universidade. A supremacia masculina é tão ignóbil quanto a do branco ou a do rico. E não quero de forma alguma vestir aqui a carapuça do americano que vai dizer aos brasileiros como lidar com a questão racial. Nossa conversa só está me fazendo querer voltar o mais rapidamente possível ao Brasil, para ouvir e aprender com os que estão lidando com a questão racial, tema tão importante para ambos os países.


Valor: O sr. fala da importância de levar essa discussão para a população como um todo. De certa forma é o que faz, atuando nos filmes da série "Matrix" e agora com o CD de hip-hop, o que não é o que se espera de um filósofo...
West: Se você se considera um democrata extremo, como eu, é preciso se levar em conta a variedade de seu público, especialmente se você está interessado em uma "paidéia cantada", ou seja, subvertendo o termo grego, a educação-total dançante. Eu quero falar com os jovens. Eles me interessam profundamente. E a sensibilidade e o ponto de vista deles são desproporcionadamente tocados pela música, pelo hip-hop, pelo reggae. E, se sou um educador, quero levar consciência crítica, compaixão, desejo por justiça e esperança para os mais jovens. Seja por meio das minhas aulas, dos meus textos ou, agora, de um CD. Eu já tenho 17 títulos de livros publicados, outros certamente ainda virão, mas qual terá o impacto nos jovens de um disco em que junto forças com Prince e Talib Kweli?


"O governo Bush não está falido só ideologicamente. Talvez seja o governo de extrema-direita mais incompetente que já tivemos"


Valor: E eles entenderam o caráter subversivo e, de certa forma, anti-establishment, do CD?
West: Sim! Desde o início eles se empolgaram com a idéia de fazer um trabalho para "acordar" os jovens, engajá-los politicamente, fazê-los refletir sobre a noção de justiça nos dias de hoje. E trata-se de um álbum extremamente político, com letras fortes, como em "Mr.President" e "Bushanomics". Basicamente, eu dei a eles um conceito - vamos fazer um disco a partir da preservação do espírito e do legado de Curtis Mayfield, das músicas de protesto de R&B dos anos 1960 e 1970, da Motown. E eles adoraram. Claro, deixei bem claro que não iria fingir que sou um rapper, um hip-hopper, nesta altura do campeonato [risos]. Mas sou apaixonado pelos jovens e pela cultura das ruas de meu país a ponto de ousar utilizar a linguagem deles para incitá-los a ficar mais críticos aos que os cercam, à xenofobia, à homofobia, ao materialismo e à projeção de ascensão social vazia que, muitas vezes, estão presentes no próprio hip-hop. Embora, é claro, todos esses aspectos negativos apareçam na cultura americana como um todo e não apenas na música urbana negra. Foi isso. Disse ao André 3000, por exemplo, que queria realçar o aspecto libertário do hip-hop, pois não acredito em censura de qualquer tipo ou formato. E Prince, com "Dear My Man", foi além do que eu imaginava. Ele arrasou [risos].


Valor: O sr. se identifica como um "democrata extremado" em seu livro mais recente, "Democracy Matters". Quão difícil é exercer a democracia proposta pelo sr. na era Bush?
West: Ah, é quase impossível. Minha filosofia é antidogmática, favorável à autocrítica permanente e devota fiel do poder da improvisação. Então, você acaba se revelando muito radical frente ao que está exposto na cena política nacional. Mas o consenso neoliberal acabou. O cenário é outro.A direita americana está profundamente combalida, o Partido Republicano enfraquecido, as críticas ao Nafta cada vez mais consistentes e há uma certa latino-americanização, no pior sentido, do governo Bush, como muito bem aponta o economista Paul Krugman, ao esmiuçar o caráter cada vez mais oligárquico e plutocrata da economia americana.


Valor: No ano que vem teremos eleições presidenciais nos Estados Unidos e o sr. acaba de declarar apoio ao senador Barack Obama. O que o levou a assumir a posição de conselheiro não remunerado da candidatura Obama?
West: Aceitei com entusiasmo o convite porque não há dúvidas de que, quando se pensa em capacidade de realizar políticas públicas e em autoridade, ele é muito melhor do que todas as outras opções. O governo Bush não está falido apenas ideologicamente. Ele é incompetente. Historicamente, talvez seja o governo de extrema-direita mais incompetente que já tivemos por aqui. Não sou um fã do Partido Democrata, mas sei que Obama tem vontade de fazer as reformas políticas de que precisamos. Por isso estou com ele. Hillary Clinton tem 49% de rejeição, em média, em todas as pesquisas. E isso não muda facilmente. Os democratas precisam entender que, com ela, dificilmente vencerão as eleições do ano que vem.


Valor: O sr. acha que a eleição de Obama seria uma revolução para os negros dos Estados Unidos?
West: Não iria tão longe, mas acho que seria extremamente importante. Com um simbolismo semelhante ao da vitória de Lula no Brasil em 2002. Pois Obama trata com naturalidade de assuntos como a crescente disparidade social nos Estados Unidos, os problemas raciais, a necessidade de criar mais empregos. Só esperamos que ele não se envolva em escândalos de corrupção como o governo petista. Sei que isso muitas vezes tem a ver com a própria engenharia do Estado, mas para os setores progressistas em todo o mundo não poderia ter havido momento pior para os escândalos do PT.


Valor: Tratando deste momento em que a esquerda ganha espaço na América Latina, o sr. visitou recentemente a Venezuela e se reuniu com o presidente Chávez. Qual foi sua impressão dele?
West: Tive discussões maravilhosas com meu querido irmão Hugo Chávez. Queria muito conversar com ele, pois tenho uma profunda desconfiança da imprensa americana, que o apresenta como mais um ditador latino-americano. Em Caracas, fiz questão de falar bastante sobre a necessidade de manter intacto o compromisso com o processo democrático.Visitei as favelas da cidade e vi como funcionavam os magníficos programas de combate à pobreza. E presenciei a irritação da elite local, por conta de suas ações sociais.


Valor: Vocês conversaram sobre literatura?
West: No tempo em que passei com ele, Chávez lia Walt Whitman compulsivamente. Certo dia, ele falava de sua paixão por "Os Miseráveis" e Victor Hugo, de seu encantamento, como eu, pelos textos produzidos pelos teólogos da libertação e aproveitei para usar uma frase de Ralph Waldo Emerson. Disse: presidente, imitação é suicídio. A Venezuela não pode imitar Cuba. A voz de Chávez não pode ser a de um novo Fidel Castro. É preciso evitar o pior de Cuba - as perseguições, a censura, a rejeição da liberdade individual - e investir em uma democratização profunda da sociedade venezuelana. Ele precisa evitar a todo custo cair na armadilha da direita, que é a de fazê-lo entrar na fantasia do autoritário antidemocrata. Fui-me embora e, nove meses depois, o reencontrei às vésperas do inverno, quando ele veio anunciar o subsídio da PDVSA para os cidadãos dos bairros mais pobres de Nova York enfrentarem o frio podendo ter aquecimento em casa...


Valor: E como foi a reação dos nova-iorquinos? Afinal, todas as distribuidoras receberam uma carta do Congresso pedindo petróleo subsidiado, já que, por conta da destruição no Golfo de México provocada pelo furacão Katrina, o preço do barril tinha ido para a estratosfera. E a única companhia a responder ao apelo foi a PDVSA...
West: Meus irmãos negros do Harlem e do Bronx o adoraram. Aquilo foi fascinante. E o episódio provou algo que é sempre muito interessante para refletirmos, especialmente se vivemos em países como o meu ou o seu: as classes mais pobres se interessam, sim, por democracia, direitos e liberdade, mas estão ainda mais preocupadas em ter acesso aos recursos básicos de sobrevivência, não é mesmo? Precisamos refletir sobre isso. Mas aí vou deixar essa questão para meu amigo Roberto Mangabeira Unger. Quem sabe ele, que é uma das maiores vozes sobre a prática da democracia no mundo contemporâneo, já não tem algum pensamento interessante sobre o tema para a gente discutir agora que faz parte do gabinete do Lula?

sexta-feira, julho 27, 2007

A Volta das Franjas


Elas estão tomando conta de NYC. De novo. Sim, as franjas.

A sofisticadíssima Meredith Bryan, de meu semanário favorito, o NY Observer, diz que há uma inspiração para a moda - o corte de cabelo da famosa call-girl Bree, que rendeu um Oscar a Jane Fonda no filme Klute - O Passado Condena, de Alan Pakula, do longínqüo ano de 1971. Será que minha assessora para assuntos cinematográficos, Olga de Mello, se lembra do visual Bree? E será que ela aprovaria as neo-Brees zanzando impunemente por aqui?

Na verdade as Brees do novo milênio usam franjas mais grossas (favoritas das hipsters de Williamsburg, amigas de outra assessora deste blog, Erika Sallum), passeiam por um estilo mais Anna Wintour (no Upper East Side, terra de Ellen Barkin, já viram o novo estilo-franja da atriz?) e até uma coisa assim mais 60's, com as franjas longuíssimas e mais arredondadas das meninas do Soho. O importante é que elas estão por toda parte, balanceantes e atrevidas. E parecem mais naturais em meninas morenas. Vai ver por isso a Cameron Diaz andou pintando o cabelo e deixando às franjas à mostra.

Será que no Brasil a moda já chegou?

quinta-feira, julho 26, 2007

E Lá Se Vão Carroll, Cobble & Boerum


Hoje o caderno de Estilo do The New York Times trouxe uma extensa reportagem de capa sobre meu bairro, ou a confluência de neighborhoods - Boerum Hill, Cobble Hill e Carroll Gardens (e seu infame acrônimo BoCoCa) - em que vivo. Resumo da ópera: as lojas independentes (especialmente as boutiques) que fieram desta área algo como o West Village do Brooklyn estão sendo subsituídas aos poucos por bares da moda e grandes sucursais das maiores marcas norte-americanas.

Tem Starbucks a dar com o pau, o Trader Joe's (supermercado bacanoso da Califórnia) chega no inverno, a Lucky Brand Jeans já abriu suas portas, e três lojas da American Apparel (a Hering dos modernos por aqui) tentam encontrar algum diferencial e fingem que não competem entre si. Tem ainda a Flight 001 (com seus badulaques temáticos, todos remetendo ao maravilhoso mundo da aviação, um sucesso no Village), a Bird (loja de roupas bacanosas de Park Slope) e os caríssimos restaurantes The Grocery e Saul, ambos nas listas do Michelin e do Zagat.

A reportagem (as fotos, acima, de Robert Wright, acompanham o texto de Eric Wilson e dão um saborzinho das redondezas de minha casinha) diz que meu adorável bairro, que até bem pouco tempo era reduto de uma comunidade ítalo-americana de classe média, orgulhosa de suas tradições, está se transformando em um novo NoLIta (ou North of Little Italy, área do sul da ilha de Manhattan, entre o Soho e o Lower East Side). Espero que Wilson esteja errado. O NoLIta é algo assim como aquela porção mais arrumadinha da Voluntários da Pátria, aonde os cinemas do grupo Estação se concentram. E Carroll Gardens está mais para a Urca. A comparação não é nada exata, mas dá para entender por que eu quero que tudo fique como está na minha querida BoCoCa.

As Maravilhas do Mercado Imobiliário de NYC: o tal do Zipcar


O mercado imobiliário inflacionado, um dos pilares da economia norte-americana, parece que finalmente vive um momento de 'acomodamento' como se diz na baba-babel do economês dejetado diariamente na tevê e nos jornais diários daqui. Os valores dos imóveis despencam em todo o país, mas aqui em Nova Iorque as maravilhas do mercado imobilário continuam deixando todos os meus amigos de cabelo em pé.

Desde o ano passado Will & I começamos, como quem não quer nada, a checar apartamentos aqui e acolá, sem muito compromisso. Descobrimos os apartamentos de meio milhão de dólares no Soho, quitinetes disfarçados de quarto-e-sala em que o chuveiro, vejam só, fica no meio da cozinha. Teve tamb´®em o loft sensacional em Williamsburg (um pouco mais caro, pela bagatela de US$ 800 mil) com espaço - uma das commodities mais disputadas da cidade - para dar e vender mas um pequeno detalhe: a cozinha se dividia com o morador do andar de baixo. Não, não é piada. E por aí vai.

Agora, a nova moda por aqui nos condomínios à beira do Hudson - uns monstrengos assustadores, naquela linha Barra da Tijuca - em que, olhem que maravilha, você ganha o direito de alugar um carro. Ajuda a política de diminuição de poluição de seu Bloomberg e ainda alivia a vaga. A novidade é o Zipcar, que já conta com 45 mil associados (que precisam primeiramente pagar uma jóia de US$ 75) para o serviço que aluga carros (com diárias mais em conta, dizem eles, a US$ 69 por dia, com seguro incluído) exclusivamente para os novos condôminos da cidade, com vaga garantida em edifícios-garagens espalhados pela cidade.

O que ainda não entendi foi a diferença de se ir até a loja da Hertz ou da Avis e, mais ou menos pelo mesmo preço, escolher seu modelo econômico. Tá bom, você vai ter que andar até a loja mais próxima e ocupar a vaga da garagem de seu próprio prédio quando voltar para casa. Mas, afinal de contas, não é ela que justamente valoriza o apartamento que acabou de custar mais de meio milhão de dólares? Mistérios de NY.

quinta-feira, julho 19, 2007

Assim Não Dá!

Michael Musto, no Village Voice que já está nas bancas da cidade, acertou em cheio:

John Travolta, o principal parceiro de Tom Cruise na seita da Cientologia em Hollywood, fazendo o papel da ma-ra-vi-lho-sa travesti Divine, na versão bem-comportada de Hairspray, do subversivo John Waters, é como Michael Jackson escalado para fazer Nelson Mandela. Não dá. O musical entrou em cartaz esta semana nas salas da cidade.

De Volta

Uma deliciosa viagem inesperada a trabalho para o Brasil, uma troca muito aguardada de lap-top (viva o MacBook!) e o blog pisou no freio por quase um mês. Tem nada não. Estou de volta.

quarta-feira, julho 11, 2007

Frase da Semana

68% dos Republicanos não acreditam na Teoria da Evolução. Em contrapartida, apenas 5% dos macacos acreditam no Partido Republicano.


Stephen Colbert, em seu programa de tevê Colbert Report

domingo, junho 03, 2007

PERFIL/Khaled Hosseini

O Valor Econômico publicou neste fim de semana meu perfil do escritor norte-americano de origem afegã Khaled Hosseini. Mais conhecido por seu campeão de vendas O Caçador de Pipas, que vendeu quase 1 milhão de exemplares no Brasil, o romancista, que nasceu em Cabul, lançou aqui em NY na semana passada seu segundo livro, Mil Sóis Esplêndidos, que deve chegar às livrarias brasileiras no fim de agosto. Meu encontro com Hosseini foi no quarto andar da B&N da Union Square, em meio a fãs (em sua maioria adolescentes do sexo feminino) que gritavam desesperadamente seu nome. Um pouco assustado, ele encontrou tempo para conversar sobre seu método de trabalho, sua visita ao Afeganistão depois de 17 anos de exílio e sua opinião sobre a permanência das tropas da OTAN, estacionadas em seu país desde a invasão norte-americana de 2001.


Autor de
O Caçador De Pipas Lança Novo Livro


Eduardo Graça, de Nova Iorque, para o Valor

Houve um momento no verão de 2004 em que era impossível pegar o metrô em Nova Iorque sem esbarrar em pelo menos um leitor de O Caçador de Pipas por vagão de trem. A medida do sucesso do primeiro livro de Khaled Hosseini, lançado há quatro anos, pode ser dada também de forma mais exata – seus 4 milhões de exemplares vendidos até o mês passado. Ou ainda pela multidão que invadiu a maior livraria do sul da ilha de Manhattan na semana passada para conseguir um autógrafo do escritor afegão naturalizado norte-americano no lançamento nova-iorquino de seu segundo livro, Mil Sóis Esplêndidos, que chega às livrarias brasileiras em agosto. “Pode parecer exagero, mas eu tenho certeza de que ninguém se surpreendeu mais com o sucesso do Caçador de Pipas do que eu mesmo”, diz Hosseini, 42 anos, mais jovem, mais alto e menos tímido do que a maioria de seus fãs esperava.

Rosto angular, cabelo negro muito curto, Hosseini ainda parece mais o médico da Califórnia do que o campeão de vendas que verá no fim deste ano suas criaturas mais famosas, Amir e Hassan, na tela grande, na versão cinematográfica de O Caçador de Pipas, sob a batuta de Marc Foster, do ótimo Mais Estranho Que A Ficção. Nos últimos dois anos e meio, no entanto, ele deixou a medicina de lado para dedicar-se especialmente à literatura. “Meu primeiro livro retratou, em certa medida, um triângulo amoroso entre personagens masculinos. Quando ainda estava escrevendo O Caçador de Pipas já sabia que o segundo seria uma história de amor entre personagens femininos, novamente no Afeganistão. Queria especificamente escrever sobre a mulher afegã. Sobre a dureza de ser uma mulher no Afeganistão dos últimos anos”, filosofa.
Mil Sóis Esplêndidos, titulo de um de um poema do século XVII, uma ode à antiga Cabul da época do Império Durrani e da formação do moderno Afeganistão, conta a história de Mariam e Laila, e se passa entre 1970 e 2003. As personagens principais, exatamente como Amir e Hassan, são separadas por classes sociais, mas acabam se encontrando ao casarem-se com o mesmo homem e passarem, juntas, pela sucessão de conflitos que destruíram o país natal de Hosseini – a invasão soviética em 1979, a resistência islâmica, a guerra civil com os talibãs e a ocupação da OTAN desde 2001 – e suas implicações na vida cotidiana das duas mulheres. “Vejo o livro como um tributo pessoal ao heroísmo, à coragem e à impressionante resistência das mulheres afegãs. Mas é também uma crônica da violência brutal e das perdas que, para elas, parecem não terminar nunca. É este sentimento de impotência e desespero que, no fim das contas, une estas mulheres”.

Mariam é a filha ilegítima de um rico empresário da cidade de Herat, no extremo ocidental do país. Laila nasceu em berço esplêndido, mas passa por poucas e boas até ser forçada ao matrimônio como opção para fugir da prostituição. Rico em imagens, o livro já teve os direitos cinematográficos adquiridos pelo produtor Scott Rudin (de As Horas e Notas sobre um Escândalo). “Em O Caçador de Pipas utilizei em grau muito mais elevado minha própria memória, cenas que ficaram em minha cabeça durante a infância em Cabul, como a do mercado de pulgas. O processo de Mil Sóis foi radicalmente diverso”, conta, resgatando uma das cenas mais fortes do livro.

Hosseini nasceu em Cabul, filho de um diplomata e uma diretora de colégio público. Seu pai trabalhava na embaixada em Paris quando os soviéticos atravessaram a fronteira com seus tanques em 1979. Ele tinha 11 anos. Toda a família recebeu asilo político nos EUA e, de certa maneira, ele revela, O Caçador de Pipas proporcionou-lhe um súbito reencontro com a dura realidade do Afeganistão, que havia se tornado um lugar distante, sem qualquer proximidade emocional para o doutor da Califórnia.

Ele retornou à capital afegã em 2003, pouco antes de lançar o livro. “Tinha saído de lá há 17 anos e era apenas mais um exilado voltando para a sua cidade natal. Mas minha Cabul não existia mais. Bairros inteiros haviam sido completamente destruídos e o número de pessoas mutiladas e de viúvas era brutal. No centro da cidade, crianças choravam e pediam dinheiro. Lembro-me que disse a meu cunhado, que viajou comigo, que não agüentaria duas semanas. Senti-me exatamente como o Amir quando ele volta para o Afeganistão. Era decididamente um turista, um outsider. Mas depois fui me aclimatando e o povo de Cabul me tratou tão bem que me senti novamente em casa”, revela.

A diferença entre a Cabul de O Caçador de Pipas, cujo desenlace se dá a partir das memórias um narrador vivendo na distante Califórnia, e a sempre presente cidade agonizante de Mil Sóis, é radical. E se O Caçador de Pipas conquistou seus leitores aos poucos, a partir de grupos de leituras e de seminários comandados por acadêmicos e leigos interessados em saber mais sobre o país de onde Osama bin Laden tramou os atentados de 11 de Setembro, o peso de escrever uma seqüência é um tema ainda inflamável para o escritor. “Não foi nada fácil. Em O Caçador de Pipas meu único compromisso era comigo mesmo. Mil Sóis é um projeto mais ambicioso, escrito a partir de um ponto de vista feminino, com um elenco de personagens imenso e entra muito mais profundamente na história afegã. Ele só se desvelou quando estas mulheres todas começaram a falar comigo, se tornaram pessoas reais, seres humanos com medos, receios e desejos. Ali eu as entendi e vi que o livro estava começando a ficar pronto. Mas durou mais ou menos um ano para eu perceber isso e, honestamente, cheguei a pensar que deveria retornar à Medicina”.

Hosseini já foi comparado por críticos ao brasileiro Paulo Coelho, especialmente por conta de seu estilo narrativo, muito próximo, reconhece o autor de O Caçador de Pipas, à tradição dos contadores de história das estepes asiáticas, com os grandes mitos sendo passados geração após geração à beira da fogueira. Mas ele enfatiza que a surpresa, o inesperado, foram os ingredientes fundamentais na construção de seus romances. “Tenho um amigo que está escrevendo um livro de ficção-científica há 13 anos. Sério! E ele tem tudo esquematizado, como se fosse um sotryboard mesmo. Sou o exato oposto. Gosto de sentar na frente do computador, aberto para o que der e vier. Se me preparo para escrever com a história mais ou menos esquematizada, não dá certo. Meu grande prazer, é ser surpreendido pelos meus personagens. Por exemplo, Amir e Hasan não seriam meio-irmãos quando pensei na história. Um dia, decidi, li para minha mulher, ela gostou, e pronto, eles eram irmãos”, diz, relembrando, para deleite de uma platéia em silêncio absoluto, um dos momentos-chave do best-seller.
Hosseini gosta de repetir que seus livros são, no fim das contas, ‘duas simples declarações de amor’. Assim como em O Caçador de Pipas, a história de amor fraternal contada por Hosseini em Mil Sóis se resolve com a redenção de seu personagem principal. O compromisso do médico-escitor com as causas humanitárias é outro ingrediente importante na primeira impressão oferecida pelo suave Hosseini. No evento em que a reportagem do Valor esteve presente os marcadores de livro vendidos juntamente com os romances de Hosseini (com o limite de um exemplar de O Caçador de Pipas por pessoa, por conta do já defasado estoque da livraria em questão, a maior do país) tiveram o lucro das vendas reveirtido para ONGs que prestam auxílio aos refugiados de Darfur, na atribulada região do Sudão.

Mas haveria, afinal, espaço para a salvação do Afeganistão? “Sou um otimista ao extremo. E é importante dizer que melhoras aconteceram desde a destituição dos Talibãs. Tivemos eleições democráticas, contamos com mulheres no Parlamento e há um maior respeito às liberdades individuais. A pobreza ainda é terrível, não há investimento significativo em Educação e os índices de mortalidade infantil estão entre os maiores do mundo, mas creio que sem segurança tudo fica ainda mais caótico. Fiquei muito assustado quando vi que este ano, pela primeira vez na história, eles estavam utilizando a tática de homens-bomba. Isso é inédito! Afegãos podem até matar uns aos outros, mas se matarem por uma causa? Sei que pode parecer um exagero, mas, anotem o que eu digo, se a OTAN retirar as tropas do país agora, os Talibãs retomam o poder em questão de dias. Eu disse dias. E eles estão dispostos a tudo.”