quinta-feira, outubro 11, 2007

Abaixo o Patrulhismo! - Artigo de Olga de Mello

Outra jornalista supimpa, a querida Olga de Mello, minha colega de Eu&Cultura no Valor Econômico, baseada no Rio, aproveita a carona do artigo de Márcia Pereira e me mandou o dela. Com vocês, Olga de Mello, que vai ver o filme amanhã. Ela trata de outro aspecto interessante do filme do Padilha: a de centrar a narrativa do ponto-de-vista do policial. Vamos ver se ela muda de opinião após conferir a Tropa de Elite no cinema:

Abaixo o Patrulhismo!
Por Olga de Mello, para o edudobrooklyn

Essa polêmica está parecendo aquela história do filme do Mel Gibson sobre Cristo, que "acusava os judeus de matarem Cristo". Enquanto transcorria essa discussão, alguns críticos falaram que o filme era bom. Não vi. Também não vi ainda a Tropa de Elite. Mas eu detesto patrulhismo. Se fosse assim, ninguém poderia ver A Queda, com Bruno Ganz vivendo um Hitler absolutamente maluco - o que o isentaria de todos os crimes cometidios.
Enquanto neguinho patrulha, como se cinema tivesse que ter moral da história (e televisão, não. Lá, os vilões acabam virando mocinhos, quando interpretados por atores que defendem o personagem convictamente), se esquecem de dizer se o filme é bom ou ruim. Aqui, se uma história toca numa ferida aberta, tendemos a ir contra quem trouxe o assunto à baila. Foi assim com Cidade de Deus, lembram? "Favela High-Tec", "glamourização dos bandidos". Existe algum glamour no "Dadinho é o caralho, meu nome agora é Zé Pequeno"? Dá é medo mesmo. Eu fiz uma ressalva ao filme, aquela festinha de despedida de um bandido à qual todos na favela vão, incluindo os crentes. Isso não existia na década de 70. Bandido não era tão amado assim, não. Mas o filme é mais do que um documentário.

O mesmo deve ocorrer com a Tropa, que verei amanhã. O filme é uma obra de ficção, infelizmente, muito semelhante aos fatos reais. Não é mera coincidência. E, pela primeira vez temos um filme contado sob o ângulo da polícia. Aqui, só apóia policial jornalista escandaloso de TV. Mas mostrar uma história pelo ponto de vista deles, ninguém quer. E policial linha dura, mau-caráter, endeusado, o cinema americano tem milhares. Haja filme de pancadaria com filosofia Sivuca. Tá na hora de termos o nosso também.

De Tropas e Elites - Artigo de Márcia Pereira

Minha amiga Márcia Pereira, editora da revista Contigo! em São Paulo, da qual sou colaborador assíduo, acaba de me enviar este artigo-desabafo sobre a polêmica em torno do filme Tropa de Elite, que eu ainda não tive a chance de ver aqui pelos states. Não chegaria a defender a tortura contra os políticos de Brasília (calma aí, Marcinha!), mas acho interessantísimo o paralelo que ela faz com a reação da mídia ao ótimo filme de Helvécio Ratton, Batismo de Sangue, acusado de fazer a apologia da violência em sua postura hiper-realista ao retratar a tortura aos militantes políticos de esquerda durante a ditadura militar. Enfim, o tema é interessante, está rendendo muito bafafá no Brasil, e espero que dê pano para manga aqui no blog também.

Com vocês, Márcia Pereira:

Deixem o José Padilha em paz!!!
Por Márcia Pereira, para o edudobrooklyn

Antes de mais nada, quero deixar claro aqui que não conheço o diretor José Padilha (e nem ninguém envolvido na produção do seu longa Tropa de Elite), não vi seu documentário Ônibus 174, mas assisti ao afamado longa-metragem de ficção sobre as ações do Bope carioca numa sessão oficial, organizada pela Paramount — a distribuidora da obra em solo brasileiro — e em um cinema, como manda o figurino de uma cidadã realmente honesta.

Bom, dito isso, vamos lá.

Será que é pedir muito aos intelectuais e cineastas de plantão que, em vez de ficarem criticando, execrando, jogando na lama a obra de um colega, de um profissional que tenta ganhar a vida com o seu trabalho, produzam e continuem produzindo obras realmente significativas dentro de suas áreas? Sinceramente, não entendo porque essas pessoas canalizam sua fúria (que pelo visto é sazonal e pessoal) para cima do novo filme de Padilha, Tropa de Elite, em vez de escreverem mais roteiros contundentes ou de rodarem filmes tão atraentes e instigantes, que façam com que mais de 1 milhão de brasileiros o vejam (mesmo antes de sua estréia oficial) e saiam pelas ruas e bares comentando seus detalhes, suas cenas, seus diálogos. Filmes que surtam algum efeito, mesmo que seja simplesmente o de rir ou chorar.

Não entendo também a resistência dos profissionais brasileiros de cinema em viver a vida de seu trabalho como cineastas. Ou, para ser mais clara, de ganharem dinheiro (muito dinheiro) dirigindo e roteirizando filmes que sejam comerciais e, portanto, hollywoodianos — traduzindo mais ainda, rentáveis, lucrativos. Que eu saiba, os diretores brasileiros não possuem empregos paralelos de analistas financeiros, cabeleireiros, médicos ou mesmo de professores, para lidarem com o cinema como se fosse um hobby.

Não entendo também porque a maioria segue rotulando sua atividade profissional como arte. Pô galera, a tela do cinema não é de canvas. Cinema nasceu business, é business e vai continuar business. Cinema, como já disse o diretor Cláudio Torres – em declaração na época de lançamento de seu filme O Redentor –, é entretenimento! Não que não exista espaço para o cinema-arte, claro que tem. Mas por que só essa categoria merece os elogios rasgados da classe?

Cinema não é sala de aula — se bem que ensinar via telona é mais interessante e eficaz. Mas essa não é a vocação do cinema. Se um filme informa, educa, lindo. Mas tá no lucro. E lucro faz parte do… business. E vamos combinar que a função social do cinema é dar emprego para diretor, roteirista, ator, maquiador, preparador de elenco, dublê, motorista, produtor…

Que mania chata de impingir à deliciosa forma de entretenimento essas obrigações que pertencem a outras atividades e setores! Só porque as que deveriam se ocupar delas não as fazem? Quer dizer que se o BNDES não empresta dinheiro para um empresário construir uma fábrica de rapadura no meio do sertão nordestino, e com ela promover o desenvolvimento de uma região — bem como de quem vive nela e dela —, eu tenho que assaltar minha conta e emprestar?

Queridos cineastas, parem de julgar as intenções do diretor José Padilha — intenções estas que vocês devem desconhecer, mas discorrem sobre elas como se dividissem a alcova com Padilha. Deixem ele, seu filme e as páginas do meu jornal em paz! Deixem o filme respirar, ser degustado, ingerido, absorvido pelas pessoas. Quanto mais fizerem isso, melhor para o cinema nacional, como também bem comentou Fernando Meirelles — será que é por essas e outras declarações e atitudes que talvez só ele trabalhe fora do Brasil?

Parem de reclamar, de ficarem colocando o filme no divã e analisando sua veia fascista, de direita, de apologia ao Estado policial. Que saco!

Ah, descobri! A profissão (e vocação) paralela dos cineastas brasileiros é a de psicólogo! E depois passam — para quem tem o Tico e o Teco funcionando perfeitamente — a impressão de que são obtusos. Sim, porque, alguém aí se deu conta (ninguém menciona, pelo menos) que Tropa de Elite é uma adaptação de uma outra obra, do livro Elite da Tropa, escrito por Luiz Eduardo Soares, Rodrigo Pimentel e André Baptista? E que o senhor Pimentel, ex-policial e integrante do Bope, é co-autor do roteiro do filme?

Quer dizer, não é uma idéia original de Padilha. Por mais que ele seja diretor do longa, não o inventou sozinho. É, no máximo, co-autor da história toda. Ele retrata o que está escrito num livro, que, por sua vez, segundo seus autores, retrata uma realidade que está na cara das pessoas — pessoas, aliás, que insistem em não ver. Pior do que o olhar policial de Pimentel e Baptista é o de quem olha para o lado, para não o ver o que está acontecendo.

E também, parem de ficar pensando pela gente. Nós não queremos!!! Pô! Isso ofende!!!

Para vocês o filme do José Padilha é fascista, moralista mistificador, faz apologia do Estado policial, heroiciza e humaniza o Bope etc. etc. Nada disso! O script de vocês fica melhor assim, ó: "eu acho que o filme do José Padilha, na minha humilde opinião e vivência, enquanto colega cineasta, me parece que…"

Pois é, sei que cineastas, acostumados que estão com a ficção, também adoram imaginar coisas. Eu vi o filme e não enxerguei apologia nenhuma ao Bope, nem achei ou acho que o Capitão Nascimento seja meu herói. Credo! Um cara que sua em bicas quando a responsabilidade chama, por causa do pânico — os dois, o sentimento e a doença. E aqui, por favor, nada de me acusarem de nutrir preconceito com quem tem síndrome do Pânico —treme que nem vara verde, grita com a mulher “recém-parida” e trata seus alunos que nem bicho — se bem que todo homem pertence ao reino animal. Mas a gente tem mesmo essa arrogância de achar que é melhor que o leão ou o urubu…

E nem achei bonito enfiar um saco na cabeça de uma pessoa para obter informações. Se bem que, às vezes, é bem eficiente (e tem muita gente que merece. No Congresso Nacional, antro de covardes, tenho certeza que o uso dessa tática ia agilizar bastante as CPIs). Assim como foi eficiente torturarem os presos políticos (obviamente, não foi com todos que a tática funcionou. Eu diria até que foi com a minoria) durante a ditadura militar, como mostraram, aliás, pouquíssimos filmes (é preciso mais! Tem muuuuita gente que não sabe o que aconteceu naquele período e muita gente que sabia e parece ter se esquecido. É que fazer filme sobre ditadura militar e preso político não dá ibope e nem rende polêmica ou indicação para o Oscar, né?).

Engraçado que nenhum cineasta defendeu o excepcional e comovente Batismo de Sangue, de Helvécio Ratton, quando a mídia o rotulou de ser violento demais, recheado de torturas exageradas, encharcado de sadismo cinematográfico — como se fosse possível torturar sem ser cruel, violento ou sádico. Quer dizer que fritar os testículos de estudantes (mesmo) e freis que acreditavam numa causa, que tinham consciência social (esses sim), tudo bem, só porque não eram pobres, favelados?

Torturar não é legal para ninguém. E enxerguei que o filme de Padilha mostra isso. Assim como polícia corrupta não é legal, nem políticos sacanas, nem traficante e nem quem também alimenta o tráfico — e depois tenta se redimir fazendo passeata a favor da paz.

Legal é arrumar solução, é brigar, cobrar por ela. Fazer efetivamente alguma coisa. E não ficar usando papel-jornal para lavar roupa suja. Mas fazer tudo isso dá mais trabalho e a Petrobras não vai financiar…

quarta-feira, outubro 10, 2007

Entrevista/NICHOLAS CAGE

Nicolas Cage

Mágico e sedutor

Por Eduardo Graça, de Nova York, para a Contigo!

Divulgação / Paramount

Em seu novo filme em cartaz, O Vidente, o astro de Hollywood mostra os músculos e continua irresistível

Reza a lenda que o contrato de Nicholas Cage, 43 anos, com os grandes estúdios de Hollywood inclui uma cláusula capciosa: o ator teria de aparecer pelo menos uma vez sem camisa na telona - sabe-se lá a razão, já que ninguém ainda teve coragem de perguntar (até porque, apesar de educadíssimo, é seco, sucinto e encerra imediatamente suas entrevistas quando alguém resolve perguntar algo mais invasivo. Como, por exemplo, o que ele acha da diferença de 20 anos que o separam da sua atual mulher). Pois em O Vidente, seu novo filme em cartaz por aqui, ele não decepciona as fãs, principalmente, e revela sua boa forma na pele do mágico Cris Johnson - mostra seus músculos (e também um cabelo ridículo à moda do professor Robert Langdon de O Código Da Vinci), mas esconde suas muitas tatuagens.

No novo longa, ele expõe também sua mulher, a ex-garçonete e aspirante a designer de jóias Alice Kim, 23, mãe de seu caçula, Kal-el, 2. Alice faz uma ponta, a sua primeira como atriz.

Sobre esses e outros assuntos, Cage conversou com a imprensa mundial num luxuoso hotel em Manhattan, Nova York. A seguir, a entrevista.

O Vidente marcou a estréia de sua mulher, Alice Kim, em Hollywood. A participação dela no filme foi uma idéia sua?
Foi. Ela não tem a menor vontade de seguir a carreira artística. Mas vamos guardar para sempre a lembrança de termos trabalhado juntos em um filme. Poderemos mostrar isso ao nosso filho, Kal-el, no futuro. Foi muito, muito divertido tê-la no set.

Você já teve alguma experiência de vidência ou, durante a preparação para as filmagens, entrou em contato com alguém que tivesse tido alguma possível experiência paranormal?
Apesar de ser um céptico nesses assuntos, tenho a cabeça aberta. Tudo é possível neste mundo. Por exemplo, pense naquele momento em que sente que uma pessoa do outro lado da rua está olhando para você. Daí você vira o rosto e lá está ela, te encarando. O que é isso? Premonição? Não sei. Ou quando se acorda todos os dias um segundo antes do despertador tocar. Ou quando se pensa muito em alguém, o telefone toca e ao atender percebe ser a pessoa na qual acabou de pensar do outro lado da linha. Seria irresponsável ou, melhor, ignorante, negar a existência de algo inexplicável como isso.

E como você se preparou para encarnar Cris Johnson, o mágico vidente do filme?
Ele pode prever o futuro imediato e foi essa característica que quis explorar ao máximo, me preocupei até como ele deveria andar, sabendo tudo o que ia acontecer 2 minutos à sua frente. Para isso, contratei uma coreógrafa de dança moderna, para adquirir mais agilidade. Também fiz uns exercícios por conta própria, como rir sem um motivo especial, já que ele saberia o que aconteceria de engraçado minutos depois. Uma de minhas cenas favoritas é quando ele vai se encontrar com o personagem da Jessica (Biel) em um restaurante e pode prever o quão desastroso será esse primeiro encontro. Quem nunca desejou fazer os movimentos certos para cortejar a mulher pela qual se interessou? Seria ótimo (risos)!

Gostaria de poder ver o futuro?
Neste momento de minha vida, sim. Tentaria estar pronto para tudo e assim viver sem medo. E se pudesse mesmo ter o dom de ver o futuro, bem, gosto de pensar que o usaria para ajudar os outros.

E o futuro de sua carreira? Como você o vê?
Trabalhando cada vez menos, fazendo menos filmes e mais focados em meu trabalho por trás das câmeras, dirigindo ou treinando atores.

Você prefere fazer filmes mais hollywoodianos, como O Vidente, ou trabalhos mais independentes como Grindhouse, de Quentin Tarantino e Robert Rodriguez?
A grande vantagem de se fazer filmes independentes é que as suas chances de ser demitido são bem menores (risos). Mas acho que ainda tenho liberdade para atuar da maneira que eu quero nos filmes de estúdio. Lembra de Peggy Sue, Seu Passado a Espera? Eu resolvi atuar como se estivesse dentro e uma história em quadrinhos dos anos 80 e quase fui limado. Ainda bem que o diretor era meu tio (Francis Ford Coppola) e ele segurou minha onda (risos). Mas o importante é que você deve sempre arriscar e tentar fazer o que acha correto para cada papel.

Anda fazendo vários heróis na tela recentemente, como no Motoqueiro Fantasma, As Torres Gêmeas e agora em O Vidente...
De fato, se a gente concordar que herói é aquela pessoa que se sacrifica para beneficiar os outros, o que acaba acontecendo com muito custo com o Cris, podemos considerá-lo um herói também. Gosto de pensar que todos nós passamos por momentos em que podemos fazer algo heróico na vida, em maior ou menor escala. Por exemplo, quando se conta a verdade para alguém sobre determinado assunto, mesmo sabendo que a história vai deixar você em maus lençóis com o outro, se está sendo um pouco herói.

E no cinema, cultiva seus heróis?
A maioria dos meus heróis do cinema estão mortos. Adoraria ter tido a chance de trabalhar com Federico Fellini (1920-1993), Stanley Kubrick (1928-1999), Marlon Brando (1924-2004) e Walt Disney (1901-1966). Eles mudaram a maneira da gente pensar e transformaram nosso mundo de uma maneira impressionante.

Existe algum algum personagem, dos muitos que você interpretou, do qual se sente mais próximo?
Vai parecer estranho, mas Johnny Blaze, de Motoqueiro Fantasma (risos). Creio que é porque boa parte do personagem é o resultado de minha própria vida. Literalmente, um belo dia estava comendo jujubas, em uma taça de martini, escutando Karen Carpenter e pensando sobre este dom ou praga que me jogaram e que me permite ser um ator de Hollywood. Mais Motoqueiro Fantasma, impossível.

Apesar de todas as críticas negativas, O Motoqueiro Fantasma transformou-se em um grande sucesso de bilheteria. Você pensa em fazer uma seqüência? E ainda tem planos de levar o desenho animado japonês Astro Boy para a tela grande?
Claro! Adoraria fazer o pai no filme do Astro Boy. Imagino algo como uma versão ficção científica do Pinóquio. E um Motoqueiro 2? Hum... Depende. Se o roteiro for bom, digo sim na hora!

quarta-feira, setembro 26, 2007

Setembro em Paris


O blogueiro aqui estacionou por 12 dias em Paris. Esta é a primeira imagem de uma viagem sensacional. O dia nascia em Père Lachaise nesta segunda de manhã. Will and I deixávamos a cidade e os amigos velhos e novos para trás a caminho do aeroporto. Não resistimos e registramos uma última imagem da cidade querida. Já já a gente volta.

sexta-feira, setembro 07, 2007

ENTREVISTA/Ridley Scott

O Valor publicou hoje minha segunda entrevista com Sir Ridley Scott. A primeira foi aqui em NYC, por conta do lançamento de Um Bom Ano. Na época ele já estava filmando O Gângster, filme que estréia no Brasil em janeiro, com Denzel Washington e Russell Crowe nos papéis principais, e que é uma das primeiras apostas do mercado para o Oscar-2008. Eu vi e gostei muito. A conversa da semana passada, em Los Angeles, segue abaixo:

O Herói e a Heroína
Por Eduardo Graça, para o Valor
06/09/2007

No penúltimo encontro entre a reportagem do Valor e sir Ridley Scott, de 69 anos, o diretor britânico responsável por pérolas da indústria do entretenimento como "O Gladiador", "Alien", "Thelma & Louise" e "Blade Runner" estava às voltas com as filmagens, em pleno Harlem, de "O Gângster". Ao mesmo tempo ajudava a divulgar seu projeto anterior, "Um Bom Ano", sobre os vinhedos do sul da França. Mais paradoxal impossível. Agora, no saguão de um hotel em Los Angeles, cidade que adotou, ele se lembra com uma mescla de carinho e alívio do período em que se radicou em Manhattan para levar ao cinema a história do traficante Frank Lucas e seu confronto com o policial Richie Roberts.

Lucas trazia heroína do Sudeste Asiático, durante a Guerra do Vietnã, escondida nos caixões dos soldados americanos mortos no confronto armado. Ele chegou a amealhar uma fortuna de US$ 50 milhões até ser pego por Roberts, já uma lenda em Nova Jersey por ter recusado um suborno de US$ 1 milhão em dinheiro vivo. Depois de prender o Rei do Harlem, Roberts concordou em defender Lucas nos tribunais, desde que ele entregasse os policiais de Manhattan que faziam parte de seu esquema criminoso. O resultado é impressionante e este talvez seja o filme mais violento de Scott. "Você achou mesmo? Olha que ele poderia ter sido muito mais cru", desconversa o diretor, felicíssimo com as escolhas que fez para os papéis principais: Denzel Washington (desde já um favorito ao Oscar, soberbo como Lucas) e, mais uma vez, Russell Crowe. O filme estréia no Brasil em 25 de janeiro.


Valor: "O Gângster" seria inicialmente dirigido por Antoine Fuqua ("Dia de Treinamento") e com Benicio del Toro no papel do mulherengo Richie Roberts, até ser cancelado pelo estúdio, assustado com um orçamento de mais de US$ 90 milhões...
Ridley Scott: É verdade, e depois o filme seria dirigido pelo Terry Hughes, mas era um projeto abandonado quando entrei nele. Estava em Jerusalém filmando "Cruzada", quando recebi o roteiro do Steve Zaillan [o mesmo de "A Lista de Schindler"], li correndo, adorei e quando fui filmar "Um Bom Ano" com o Russell mostrei para ele. Ele então me disse que havia adorado e queria muito fazer o Frank Lucas. Eu tive de explicar-lhe que seria impossível, pois o Rei do Harlem, afinal de contas, era negro.

Valor: Já que o sr. citou essa incompatibilidade óbvia, como foi mergulhar no universo das gangues nova-iorquinas sendo um lorde da coroa britânica? O sr. acha que um outsider, às vezes, vê nuanças que os mais próximos daquela realidade deixam de perceber?
Scott: Não. Veja bem, moro a 20 minutos deste hotel, estou há 25 anos inserido na vida deste país. De fato, tento, sempre que posso, filmar fora dos Estados Unidos, tento observar o mundo de uma perspectiva diferente da que minha rotina me ofereceria, mas esse não era o caso.




Valor: Tanto Frank quanto Richie estão vivos. Até que ponto eles ajudaram o sr. na composição dos personagens?
Scott: Assim que terminei de ler o roteiro, quis conversar com Frank. Marcamos um papo de duas horas que acabou durando mais de seis. Ele é fascinante. Chegou em uma cadeira de rodas, efeito dos anos em que passou na cadeia. Ele quase não anda.

Valor: Denzel o apresenta como um bandido charmoso, cheio de classe, ainda que brutal. Admite que acabou gostando de Frank?
Scott: Mas é claro! Se você conversar com ele, se esquecerá completamente do que ele foi capaz e se concentrará na sua capacidade de entreter o interlocutor, no seu charme. O que, provavelmente, revela o sociopata que ele é. Aliás, lembro-me de que disse a ele o quão assustador me parecia. Ele me devolveu: mas por quê? Eu disse, ora, alguém que viaja para o Camboja em meio à Guerra do Vietnã, encontra um fornecedor chinês de heroína e transporta a droga para os EUA nas barbas das Forças Armadas ianques? E ele me disse: mas e daí? (risos) Ou seja, ali tive a certeza do quão perigoso ele era.


Valor: Ele e Richie viraram grandes amigos?
Scott: Oh, mais do que isso! Richie não estava nem aí para o encarceramento dos gângsteres. Ele queria era colocar os policiais corruptos na cadeia. E por isso, assim que se tornou um promotor público, trocou de lado especificamente para defender Frank. Sabe, teríamos um outro fim, que acho que não funcionaria tão bem, mas mostra bem essa relação.

Valor: Como seria?
Scott: Frank sai da prisão e Richie o convida para um café. Ele descobre que agora tem de tomar um latte por US$ 2,50 (risos). E diz a Richie: basta eu dar um telefonema para voltar aos negócios, para ouvir, de volta, um não, você não fará isso. Frank então vê alguns jovens na rua ouvindo hip-hop e pensa que eles são os novos gângsteres. Mas esse fim, que todos acharam hollywoodiano demais, você só vai ver no DVD (risos). É que fizemos um teste com a seqüência final que está no filme, incluindo a cena-surpresa depois dos créditos, e ninguém piscou na platéia. O que me leva a pensar que ela chega mais perto da verdade que eu queria passar para o público, sem manipulações. Aprendi que, em um filme como este, você precisa descobrir qual é a sua verdade e se agarrar a ela até o fim. Acho que fiz isso.

Valor: Que exame que o sr. faz da violência urbana em "O Gângster"?
Scott: Não centrei o filme na questão da violência, mas na história de um negociante. O filme apresenta Frank como um senhor homem de negócios e esse ponto, aliás, foi minha grande modificação no roteiro original, especificamente na cena em que Richie explica a ele a revolução que havia feito no mercado das drogas, ao ser um negro no comando da organização. Um homem que começou dirigindo o carro de um bandido e se transformou em um milionário do crime e, durante seis anos, teve toda a máfia da cidade trabalhando para ele.

Valor: O sr. viaja para o Marrocos em duas semanas para filmar novamente...
Scott: Sim,vou adaptar para o cinema o livro de espionagem "Body of Lies", de David Ignatius, que trata, no fim, da brutal americanização do mundo nas últimas décadas e, do mesmo modo, de como os muçulmanos penetraram os EUA. Estou muito animado e espero que não aconteça o mesmo que vi em "Cruzada", quando as pessoas esperavam uma história de ação de príncipes e princesas e não uma conversa sobre fanatismo religioso. Agora vamos falar de política e religião nos dias de hoje, tendo como pano de fundo a relação entre os personagens de Leonardo DiCaprio e, novamente, o Russell.

Valor: Essa é uma parceria que chega ao quarto filme...
Scott: Russell é tão inteligente e creio que hoje o entendo mais do que nunca. Diria que já não precisamos mais dançar a valsa, sabe? (risos). E acho que ele entendeu que "Body of Lies" trata de um tema fascinante, até porque estou certo de que sofreremos outro ataque terrorista aqui nos Estados Unidos.

Valor: De onde vem essa certeza?
Scott: Não faça esta cara de medo! É óbvio. Os terroristas estão se organizando cada vez mais, a invasão do Iraque deu-lhes mais um campo de batalha e acredito que estejam mais fortes do que nunca, nada foi feito no Paquistão para deter a Al-Quaeda de uma vez por todas. Estamos apenas aguardando, mas o ataque virá.

Valor: A retirada das tropas americanas do Iraque, como defendem os líderes do Partido Democrata, não diminuiria o risco de novo ataque?
Scott: De modo algum. Seria um desastre completo, teríamos um banho de sangue sem proporções, civis seriam chacinados diariamente. Nós começamos esta confusão e não podemos simplesmente pedir desculpas, dizer que cometemos um erro e abandonar o país.

sexta-feira, agosto 24, 2007

LIVRO/Obama, de David Mendell


O Valor Econômico publicou no caderno deste fim de semana meu texto sobre a biografia que o ótimo repórter do Chicago Tribune, David Mendell, lançou por aqui na semana passada sobre o senador Barack Obama, quiçá o primeiro presidente negro dos EUA. Conversei com Mendell duas vezes e o perfil que ele me ofereceu de Obama - a quem acompanha desde os primeiros tempos no legislativo estadual de Illinois - é o de um homem obcecado em diminuir a agonia dos miseráveis do Império, mas também vaidoso, egocêntrico e que elaborou meticulosamente sua ascensão política. O texto segue abaixo:

Carismático e egocêntrico

Por Eduardo Graça, para o Valor
24/08/2007
Para autor de biografia, Obama não é mais o mesmo: "Ele se moveu para a área moderada, que o deixou mais presidenciável, distante do início de sua trajetória", diz Mendell


O maior fenômeno eleitoral da política americana contemporânea é um advogado calculista, obcecado em conter o avanço da pobreza em seu país, com traços autoritários de caráter e que planejou a chegada à Casa Branca levando em conta a possibilidade de se projetar como vice-presidente em uma chapa liderada pela senadora Hillary Clinton. Lançado na semana passada, "Obama: from Promise to Power" é o resultado dos cinco anos em que o repórter David Mendell, do "Chicago Tribune", seguiu cada passo do democrata Barack Houssein Obama para oferecer um raio X impressionante daquele que pode se tornar o primeiro presidente negro dos Estados Unidos.


Alto, cabelos negros repartidos ao meio, nariz aquilino e pronunciado, Mendell conversou com eleitores de todos os naipes no lançamento de seu livro, em um evento realizado na semana passada no Bryant Park, em Manhattan. O resultado de sua investigação é bem diverso dos dois volumes autobiográficos - "A Audácia da Esperança" e "Dreams from My Father" (inédito no Brasil) - lançados nos últimos três anos pelo senador de Illinois. Uma das principais surpresas é a revelação de que o chamado grupo de Chicago, incluídos aqui os poderosos assessores David Axelrod e Jim Cauley, traçou um ambicioso plano político logo após o famoso discurso de Obama na convenção do Partido Democrata em 2004, em Boston, quando do lançamento da fracassada candidatura de John Kerry. A idéia era prepará-lo para disputar a Presidência já em 2008.


Escondeu-se do público que o político era um fumante inveterado até que ele deixasse o cigarro de lado, definiu-se que o gabinete em Washington seria voltado para abastecer a imprensa de seus feitos legislativos e preparou-se nos mínimos detalhes uma viagem ao Quênia, terra natal de seu pai. "Em Nairóbi, ele foi recebido como uma entidade, uma deificação. Algo inédito na nossa cena política que causou enorme impressão nos repórteres americanos que o acompanharam", conta Mendell.


A estratégia, de acordo com o repórter, uma das estrelas do "Chicago Tribune" desde 1998, incluía a possibilidade de ele sair como vice na chapa de um democrata mais experiente, possivelmente a senadora Hillary.


"Hoje uma chapa Hillary-Obama parece distante, especialmente por conta dos embates que os dois vêm protagonizando e pela lógica de que, no fim, eles disputam os mesmos eleitores e não agregariam votos", explica Mendell. "Tanto Hillary quanto Obama precisam de mais votos entre os eleitores masculinos de origem caucasiana. Mas a estratégia de Obama considera essa possibilidade e ele sabe que, se for convidado publicamente, não terá como explicar à comunidade afro-americana a desistência de tentar ser o primeiro negro vice-presidente do país."


O Obama que surge em "From Promise to Power" lembra menos o herdeiro de John Kennedy apresentado por seus aliados e o aproxima mais de duas habilidosas raposas políticas - Ronald Reagan e Bill Clinton. Nenhuma contradição aqui. "Os dois surgiram com mensagem de otimismo, os antípodas da burocracia de Washington, o novo necessário para reagrupar um país dividido", lembra Mendell. E, como os dois, Obama teria um temperamento bem menos afável de perto do que deixa transparecer em eventos públicos.


De forma jocosa, o repórter abre o livro com Obama ultrapassando as barreiras de segurança da convenção de Boston, sendo recebido aos urros pelo público e se comparando a LeBron James, um dos maiores astros da NBA. "Eu sou LeBron! Posso jogar nesse nível. Sou um craque", teria dito, ao entrar na arena.


Outro ponto alto do livro é o perfil apresentando de Michelle Obama, a mulher do senador. "Ela funciona bem ao mostrar ao senador que ele não está certo o tempo todo. Na prática, ela é a única a exercer esse papel", conta. Mendell revela que um dos maiores receios de Michelle é com a segurança do maior líder político negro do país. Há até discussões abertas sobre ajuda financeira à família em caso de um atentado político contra Obama: "Não penso nisso todo dia, mas a possibilidade está lá e eu preciso garantir que meus filhos ficarão seguros se o pior acontecer", diz.


Filho de um africano com uma americana branca criado no Havaí, Obama sempre se sentiu alijado da comunidade negra nos Estados Unidos. "Foi o que o impulsionou a trabalhar nos projetos habitacionais em Chicago e conseguir uma série de benefícios para os moradores, em sua maioria negros. Mas logo ele percebeu que poderia fazer mais se fosse, por exemplo, prefeito. Imediatamente ele traçou um plano que incluiu a prestigiosa Faculdade de Direito de Harvard, onde se graduou, e entrou decididamente na política local".


Dali para a surpreendente vitória na candidatura ao Senado e as aspirações presidenciais seria um pulo. "Ele parece ser o candidato que acredita de fato, com uma fé cega, que deveria estar na Casa Branca. Obama está convicto de que será um grande presidente", afirma Mendell. O repórter não tem dificuldade alguma para recitar as qualidades que detectou no senador ao acompanhá-lo de perto - carismático, fantástico orador, sério, ético e com uma capacidade de se cercar de pessoas extremamente competentes (o que se revela na sua arrecadação recorde de fundos). E sua obsessão em atacar de frente a crescente desigualdade social americana, de acordo com o jornalista, nada tem de hipocrisia social. Sua missão central, acredita, é a de comandar um gigantesco combate à pobreza, em uma extensão ainda maior do que o último grande projeto tocado por Washington nesse sentido, durante o governo de Lyndon Johnson.


Mas Mendell também não é econômico ao revelar os pontos fracos do político. Na capa da edição de setembro da revista masculina "GQ", uma das mais influentes em seu segmento, Barack Obama é direto: "Estou na corrida presidencial para vencer, quero vencer e acredito que vou vencer. Mas também vou sair desta campanha intacto. Continuarei sendo Barack Obama e não uma paródia de mim mesmo."


Ora, Mendell lembra que o Obama que ele conheceu há três anos já não é o mesmo a desejar a Casa Branca com tanto ardor. Sua chegada ao Capitólio forçou-o a uma acomodação política. "Ele se moveu claramente para uma área mais moderada, mais de centro, que o deixou mais presidenciável, distante do início de sua trajetória. E agora ele tem de lidar com a horda de jornalistas o seguindo para todos os cantos. A irmã dele me contou que desde então o senador costuma passar alguns dias inteiros sozinhos, em silêncio absoluto, nada acessível, selecionando cuidadosamente possíveis interlocutores, expressando uma desconfiança que não havia anteriormente", relata. Mendell ainda o descreve como "severo, egocêntrico e propenso a humilhar interlocutores menos preparados intelectualmente". "E algumas vezes eu percebi uma certa ingenuidade, por exemplo, em encarar o quão cruel e cínico o mundo é. Obama é o otimista eterno e prefere enxergar apenas o lado bom das pessoas", completa.


"From Promise to Power", com suas 406 páginas, revela-se uma fonte imprescindível para os interessados em descobrir quem é, afinal, o homem que quase não compareceu à convenção do partido que oficializou a candidatura de Al Gore em 2000 porque não tinha como pagar a passagem de avião e se transformou no candidato que vem tirando o sono dos Clinton no verão de 2007. O livro ainda não tem lançamento previsto no Brasil, mas já pode ser encomendado na Livraria Cultura, em São Paulo.

quarta-feira, agosto 22, 2007

ENTREVISTA/ Matt Damon

A Contigo! publica na edição desta semana a entrevista que fiz com Matt Damon, sempre simpaticíssimo, falando de Jason Bourne, da vida de celebridade e de novos projetos. Olhem só:

Matt Damon

Cover sinistro de 007

Por Eduardo Graça, de Los Angeles

Divulgação / Universal Pictures

O ator encarna pela terceira vez Jason Bourne, o agente secreto que não deveria mais existir, mas que está vivinho e arrebentando as bilheterias do cinema



Não é exagero algum dizer que O Ultimato Bourne é o melhor dos três filmes da cinessérie estrelada por Matt Damon, 36 anos. Em quase duas horas, o diretor Paul Greengrass, 52, - que também dirigiu Supremacia Bourne (2004), além de, entre outros trabalhos, os impactantes Domingo Sangrento (2002) e Vôo United 93 (2006) -, desvenda todos os mistérios sobre a vida do agente rebelde Jason Bourne. Alguns bem cabeludos.

E nessa nova aventura intercontinental, que já arrecadou 143 milhões de dólares em 11 dias de exibição - e deixou Damon mais famoso e rico ainda; ele até foi eleito pela revista Forbes como o astro de Hollywood mais rentável do momento -, pelo menos duas seqüências de cenas já chegam à tela grande como clássicos do cinema de ação: a da estação de trem de Waterloo, em Londres, e a perseguição frenética sobre tetos de casas de Tânger, no Marrocos.

Depois de zanzar os três continentes e dar duro filmando com Greengrass (fizeram parte do roteiro de produção Rússia, Alemanha, Espanha, Estados Unidos, norte da África, Inglaterra, França e Letônia), Damon tirou férias com a família e o amigo inseparável Ben Affleck, 35, no Havaí. Foi com um bronzeado de praia, resultado dessa merecida folga, e seu costumeiro sorriso aberto que Damon conversou com exclusividade com a Contigo!, em uma suíte num hotel luxuoso de Beverly Hills, em Los Angeles.

Você acaba de declarar que está cansado da superexposição das estrelas de Hollywood. E chegou a dizer que jamais sairia "prostituindo sua própria filha nas páginas das revistas para aumentar a bilheteria de Bourne". Forte, não?
É, acho que eu peguei um pouco pesado, né? Depois, quando vi impresso, achei que minha declaração ficou estranha. Mas como lidar de modo racional com esta invasão de privacidade a que somos submetidos o tempo todo? Sabe, olhando para trás, penso em Gênio Indomável (1997), por exemplo. Todos exploraram até a última gota o fato de que eu e Ben (Affleck) éramos melhores amigos e tínhamos desenvolvido juntos o projeto desde o início, que estávamos vivendo nosso conto de fadas. E aquilo virou a coisa mais importante do filme. Era verdade, claro, mas hoje, pensando bem nisso, parece vulgar.

De que modo?
Era como se estivéssemos utilizando nossa amizade para promover o filme, uma coisa oportunista, que não foi intencional, mas acabou ganhando vida própria. E quanto mais experiente você vai ficando, mais se vê submetido a essas armadilhas. Olha, eu não quero dividir com os leitores do mundo, por exemplo, como eu crio minha filha (Isabella, de 1 ano). Acho uma chatice ver isso impresso nos jornais mundo afora.

Mas esta obsessão da imprensa pela vida pessoal das celebridades não é, muitas vezes, cultivada pelas próprias estrelas?
Você está certíssimo! É isso mesmo, uma via de mão dupla. Mas eu, oficialmente, estou fora. Escreve isso aí, hein (risos)!

O diretor Paul Greengrass disse que o segredo da trilogia Bourne é ela contar com o melhor ator de Hollywood de sua geração, ou seja, você, como protagonista. E ele enfatiza que suas interpretações mais brilhantes estão em filmes que ele não dirigiu, como Os Infiltrados e O Talentoso Ripley. Sua colega Joan Allen (que faz a agente Pamela Landy no filme) disse o mesmo. Deve ser bom para o ego, não?
Eles são muito generosos e é claro que eu fico felicíssimo. Mas somente posso entender esses elogios se levar em conta que foi justamente a trilogia que me ofereceu uma vitrine singularíssima. Devo ao Bourne, e às minhas escolhas, este momento especial de minha carreira.

Alguma chance de você rodar mais um Bourne ou trabalhar de novo com seu amigo Paul Greengrass?
A única chance disso acontecer é se aparecesse um roteiro sensacional e ele fosse dirigido pelo Paul. Mas acho complicado, pois O Ultimato é o grande desfecho da série, revelando todos os mistérios. Agora, eu e Paul vamos voltar a filmar juntos no ano que vem! Mal posso esperar. Vai ser um filme todo baseado em A Vida Imperial na Cidade Esmeralda: Dentro da Zona Verde, best-seller do jornalista Rajiv Chandrasekaran, do The Washington Post. Conta, de dentro da área aparentemente mais segura de Bagdá, o desastre da ocupação norte-americana no Iraque.


ENTREVISTA/Paul Greengrass

A Folha de S.Paulo publicou hoje , na capa da Ilustrada, minha conversa com o diretor Paul Greengrass, do ótimo O Ultimato Bourne, que estréia nos cinemas nesta sexta-feira. O diretor de Domingo Sangrento e Vôo United 93 é um papo delicioso, que segue aqui embaixo:

"Não há filmes amorais", diz Greengrass

Diretor de "O Ultimato Bourne" defende o cinema como palco para se debater os grandes temas sociais de nosso tempo

Com o ator Matt Damon, cineasta prepara filme que fará relato da falência do governo implantado pelos EUA no Iraque pós-invasão

Jasin Boland/Universal Studios
O ator Matt Damon, que faz o ex-agente da CIA Jason Bourne, recebe instruções do diretor Paul Greengrass nas filmagens de "O Ultimato Bourne"


EDUARDO GRAÇA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM LOS ANGELES

Com óculos redondos, cabelos desgrenhados e uma camisa pólo azul que não chega a cobrir a proeminente barriga, o cineasta Paul Greengrass, 52, se considera um subversivo.
Seu mais novo filme, "O Ultimato Bourne", terceiro capítulo da série sobre o angustiado ex-agente da CIA Jason Bourne, vivido por Matt Damon, estréia nesta sexta no Brasil, após ter arrecadado US$ 131,6 milhões nas bilheterias em apenas duas semanas nos EUA.
"A melhor definição que encontrei para Bourne é a de franchising subversiva. Fui surpreendido em Hollywood. Aqui fiz sempre o que quis. Bourne não é James Bond. Ele tem um componente moral fortíssimo, está corroído pelo remorso, sabe que fez algo condenável e busca desesperadamente a redenção", diz Greengrass.
As cenas de ação de "O Ultimato Bourne", passadas nos quatro cantos do mundo (Rússia, Inglaterra, Marrocos, EUA, França, Alemanha), buscam o impacto. "O tema de meus filmes é um só: o mundo como ele é. Urgente, perigoso, incerto."
Em 2002, o diretor escreveu no jornal inglês "The Guardian" um texto em homenagem a seu conterrâneo Alan Clarke (1935-1990), onde afirmava que as qualidades essenciais de um grande diretor estão ali: a ausência de notoriedade pública, a compaixão e a subversão.
Seus filmes expõem as incongruências dos tempos de George W. Bush com uma intensidade semelhante às obras de Alan Clarke, notório por uma crítica crua a Margaret Thatcher na Inglaterra do fim dos anos 70.
"A compaixão, em meus filmes, se revela tanto em minha aversão ao cinismo quanto no senso de verdade que procuro imprimir. Em "Vôo United 93", uma das maiores dificuldades foi retratar aquela tragédia [o seqüestro de um avião no 11 de Setembro] sem apresentar os terroristas como monstros.
Não acredito em filmes amorais e talvez este seja um aspecto subversivo de minha obra." A paixão pelo realismo social e a câmera frenética aproximam Greengrass do brasileiro Fernando Meirelles. ""Cidade de Deus" me impressionou. Na seqüência da galinha, soube que estava diante de um mestre, de alguém que procura, como eu, revelar o pulso da vida."

Cinema engajado
Greengrass afirma que acredita piamente na relevância do cinema que faz. "Não é que tenha a pretensão de mudar o mundo. Mas acho que a televisão, ao se transformar no refúgio dos reality shows e dos games, deixou para o cinema o papel de contar histórias que revelem de fato quem somos na sociedade. Pense em "Syriana", "Boa Noite, e Boa Sorte", e nos filmes de Michael Moore. Cabe a nós encarar novamente o cinema como um palco para se debater os grandes temas sociais de nosso tempo. E adoro estar no meio disso", avalia.
O diretor já tem um novo projeto: levar para as telas o livro "The Imperial Life in the Emerald City", do repórter Raji Chandrasekaran, do jornal "The Washington Post". A obra faz um relato cáustico da falência do governo implantado pelos EUA no Iraque depois da invasão de 2003. "The Imperial" terá Matt Damon no elenco.
"O que nos falta para encararmos melhor a divisão forçada do Ocidente e Oriente é um pouco mais de compaixão. A Folha pode me cobrar. Porque só há uma saída para mim: meu cinema precisará transbordar de compaixão ao falar da tragédia do Iraque."

Sucesso faz de Matt Damon o ator com maior rentabilidade em Hollywood

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM LOS ANGELES

Jason Bourne chama-se Gilberto e nasceu em Osasco. Não, não é verdade. Mas esta é uma das muitas identidades falsas usadas pelo personagem de Matt Damon em "O Ultimato Bourne". O ator, de 36 anos, diz que vê o renegado assassino da CIA como um James Bond "mais sofisticado, com cérebro, e sempre pronto para questionar a lógica do Estado". Ou seja, a antítese do bom e velho 007.
Em 2002, quando foi lançado o primeiro filme da série, "A Identidade Bourne", Damon tentava entender onde sua carreira havia estacionado após o sucesso de "Gênio Indomável" (1997). "Estava há seis meses sem receber um único convite para filmar. Ainda hoje, não me acho alto o suficiente para o típico mocinho de filme de ação, mas gosto do fato de que um dos atributos do Bourne é o de que ele tem de ser inteligente."
O sucesso da grife Bourne transformou Damon no astro "com maior rentabilidade em Hollywood", segundo a revista "Forbes". Ele não é o mais bem pago -está atrás de Will Smith, Tom Cruise e Leonardo DiCaprio. Mas seus filmes são os mais rentáveis. "Devo tudo a Jason Bourne. Ele foi meu passaporte para a liberdade. Depois dele, pude escolher todos os projetos em que trabalhei."
Damon enfatiza que "Ultimato" é um belo veículo para tratar de tema que lhe é caro: o ataque do Estado às liberdades civis das democracias ocidentais. Ou seja, por detrás do entretenimento, há a obra séria. O ator anunciou seu apoio a Barack Obama nas prévias do Partido Democrata às eleições presidenciais de 2008. Uma das propostas do senador negro é aumentar a tributação dos ricos, a fim de diminuir a desigualdade social no país. Embolsando US$ 23 milhões por filme, o ator seria afetado pela medida. "Não vejo contradição. Fui educado por uma típica família de classe média. Obama percebe que um dos maiores problemas dos EUA é o encolhimento da classe média." (EG)

O ULTIMATO BOURNE
Direção:
Paul Greengrass
Produção: EUA, 2007
Com: Matt Damon, Julia Stiles
Quando: em cartaz a partir de sexta

terça-feira, agosto 14, 2007

ENTREVISTA/Catherine Zeta-Jones

A Contigo! desta semana trouxe a conversa que tive com Catherine Zeta-Jones, extremamente simpática, estrela da comédia Sem Reservas, nos cinemas brasileiros a partir desta semana. O bate-papo completo segue abaixo:

Catherine Zeta-Jones

Mulher (quase) perfeita

Por Eduardo Graça, de Nova York

Divulgação / Warner Bros

Catherine afirma que mantém a forma física graças à vida pacata e ao hábito de relaxar sempre que pode

Ela é linda, talentosa e mãe dedicada. E agora também entende de alta gastronomia - aprendeu por causa de seu novo longa, Sem Reservas. Para ser perfeita, precisaria estar com o coração disponível. Não está...

Catherine Zeta-Jones, 37 anos, sorri quando confrontada sobre o segredo do brilho de seus cabelos negros: a aplicação diária de caviar russo. "Ah, não, caviar?! Isso deve deixar um cheiro terrível! Inventam tudo sobre mim, né?", reclama, sem perder a expressão jocosa. Atualmente, tudo parece remeter à alta gastronomia na vida dessa mulher, casada com Michael Douglas, 62, ator e produtor de Hollywood. Aliás, ele se declara feliz com o laboratório culinário que a esposa e mãe de dois de seus filhos - Dylan Michael, 7, e Carys Zeta, 4 - fez para viver a chef de cozinha de um restaurante em Sem Reservas. Ela aprendeu técnicas e segredos num dos restaurantes mais estrelados de Nova York: Daniel, do chef francês Daniel Boulud, 52.

A atriz é a estrela do filme, que estréia nesta sexta-feira (10) nos cinemas brasileiros. O longa é um remake da produção ítalo-alemã Simplesmente Martha (2001) e conta a história de Kate, uma profissional premiada, dedicada às suas receitas, mas displicente com sua vida pessoal.

No encontro com Contigo!, em um hotel de Manhattan, a bela Catherine jurou de pés juntos que, depois de meses filmando dentro de uma cozinha, é capaz de preparar o jantar dos sonhos para o mais exigente paladar.

Antes do filme você já era apaixonada por culinária?
Só cozinhava o trivial para meus filhos e não me interessava pela alta gastronomia. Depois do laboratório com Daniel Boulud, aprendi um mundo de informações. Especialmente sobre o universo que existe do outro lado de lá da porta da cozinha. Hoje, preparo mais do que iscas de peixe frito para meus filhos (risos). Agora tento até, olhe a ousadia, criar receitas. De repente faço algo novo para o Michael. Até porque o ato de cozinhar para quem se ama é sensual.

E Michael Douglas, cozinha para você?
Claro! Ele faz uma panqueca fenomenal. Teve uma época em que o Dylan (filho mais velho dos dois) respondia na escola que eu era atriz e o pai fazia panquecas (risos). A gente achava o máximo.

Vocês já pensaram em visitar o Brasil e conhecer a nossa culinária?
Já ouvi maravilhas da cozinha brasileira. Na verdade, fui ao Rio uma única vez, em 1999, para o lançamento de Armadilha, com Sean Connery. Foi inesquecível. Mas confesso que prestei mais atenção nas pessoas do que na comida. Não é porque você é brasileiro, mas nunca vi tanta gente bonita quanto no Rio. Todos têm um brilho nos olhos, algo de saudável no rosto, se cuidam, sabe? Lembro -me de que uma vez minha agente teve de me tirar de uma situação embaraçosa...

O que aconteceu?
Eu fiquei tão paralisada com a beleza de um menino de uns 5 anos que criei uma situação desagradável com os pais dele! Minha agente me tirou do transe. Mas, sério, o brasileiro é muito bonito.

E olhe que no Brasil não usamos caviar para lavar os cabelos, hein?
Não sei de onde eles tiraram isso (risos)! Sabe que minha avó dizia que era bom colocar uma mistura de ovo nos cabelos. Deve ser mais fedido.

Como faz para manter o corpo perfeito e a pele bonita?
Como a maioria dos leitores da revista, fico me cobrando que deveria fazer mais exercícios. Minha rotina é muito normal. Adoro pães, mas evito, para não engordar. É só isso. Durmo muito. Sempre que posso, quando não trabalho, procuro relaxar. E tenho uma vida calma, longe de Los Angeles. Isso ajuda. Jamais poderia viver em Hollywood.

Por causa do assédio?
Sim! Nas Bermudas, meus filhos não são tratados como "minicelebridades". Claro, às vezes acontece algo. Outro dia, Dylan chegou em casa e me perguntou: "Mamãe, a gente é rico e famoso? John, meu amiguinho, disse que somos!" Levei um susto e perguntei o que ele tinha respondido. E Dylan disse: "Que não, é claro!"

Deve ser um tema delicado na educação dos filhos, a descoberta da fama dos pais...
Por isso decidimos morar nas Bermudas, que é onde a mãe de Michael (Diana, 84) nasceu. Acho chocante esse comportamento das "meninas-celebridades" de Hollywood.

Fala dos escândalos envolvendo Paris Hilton, Britney Spears, Lindsay Lohan...
Olhe, essa indústria de celebridades chegou a um ponto que eu qualifico como epidemia. É como uma doença contagiosa, que faz mal para todos. No caso dos artistas, ela leva à abreviação da carreira. E isso é muito pobre, não? É quase como Chicago (o musical, estrelado por ela e Renée Zellweger), só que na vida real.

Já que você falou em Chicago, que lhe rendeu um Oscar, não pensa em voltar a fazer musicais?
Teatro é minha grande paixão. E desde Chicago recebi muitos convites para a Broadway, mas nada que me motivasse de verdade. Ainda sonho em fazer um outro filme com o Rob Marshall (diretor de Chicago) e ainda estamos à procura do musical perfeito para nós dois.

ENTREVISTA/Reese Witherspoon


A Contigo! que está nas bancas também saiu com minha entrevista com a atriz Reese Witherspoon, que recebeu um Oscar por sua excepcional interpretação de June Carter Cash em John & June e ficou conhecida no mundo todo pela comédia Legalmente Loira. A exclusiva foi por conta da escolha da atriz para ser a nova garota-propaganda da Avon no mundo todo. Abaixo vai o bate-papo completo.

Embaixadora da beleza

Por Eduardo Graça, de Nova York

Reese Witherspoon, 31 anos, é a nova revendedora da Avon. A atriz, que durante sete anos foi casada com o astro Ryan Phillippe, 32, com quem teve dois filhos - Ava Elizabeth, 7, e Deacon Phillippe, 3 -, foi escolhida semana passada a primeira Embaixadora Global da marca. Ela será não apenas a nova imagem da empresa, mas também vai trabalhar em todos os projetos sociais da Fundação Avon, entre eles a prevenção ao câncer de mama e o combate à violência doméstica. Reese conversou, com exclusividade, diretamente de Los Angeles, com Contigo!.

A mídia critica celebridades que aliam seus nomes a causas filantrópicas, que muitas vezes se revelam apenas marketing para alavancar suas carreiras. Como você vê essas críticas?
Entendo a crítica feita pela imprensa. Mas, no meu caso, fiz questão de conhecer a fundo a filosofia da Fundação Avon. E me interesso profundamente pela prevenção do câncer de mama, além de saber que posso ajudar na conscientização da necessidade de as mulheres fazerem exames regularmente. Posso ajudar até mesmo na criação de remédios para evitar a doença.

Você foi uma criança louca por maquiagem, do tipo que levava bronca por usar as coisas da mãe?
Olhe, da minha mãe nem tanto. Mas da minha avó, que era uma mulher elegantérrima, sim, coitada! Usava especialmente os perfumes, blushes e gloss que ela colecionava. Eu fazia a festa.

Você está com dois novos projetos de filmes. Um deles é com o Jake Gyllenhaal, não?
Sim, o Rendition. É um filme que trata de temas como tortura, imigração, lealdade. O outro é uma comédia natalina, com Vince Vaughn.

A mídia critica celebridades que aliam seu nome à causas filantrópicas, que muitas vezes se revelam apenas uma ação de marketing para alavancar suas carreiras. Como você vê estas críticas?
Acho esta pergunta importantíssima. E entendo perfeitamente a crítica feita pela imprensa, a promoção fácil que temas importantes podem oferecer para celebridades. Mas, no meu caso, fiz questão de conhecer a fundo a filosofia da Fundação Avon, seus anos e anos de experiência e seriedade. E me interesso profundamente pela prevenção do câncer de mama, posso ajudar na conscientização, na necessidade de as mulheres fazerem exames regularmente, até mesmo na criação e novos produtos. Detectar o câncer em seu estágio inicial é, como se sabe, fundamental para o tratamento. E sempre quis ter uma oportunidade de fazer diferença. Agora eu tenho!

quarta-feira, agosto 08, 2007

DO BAÚ/PERFIL: Miúcha (1999)


Semana passada passei uma tarde deliciosa no sul da ilha de Manhattan com a cantora e compositora Bebel Gilberto e, fuçando meus arquivos, encontrei este pingue-pongue que fiz da mãe da moça, Miúcha, publicado na capa do Caderno B, do Jornal do Brasil, em 1999, editado pela querida Regina Zappa. É interessante como a conversa girava em torno do momento da necessidade de se (re)descobrir o Brasil real, acima do país de fantasia vivido apenas na experiência americanófila das elites do sudeste e do sul.

Miúcha não se explica, por EDUARDO GRAÇA

Como seu último CD, 'Rosa Amarela', que está saindo agora no Brasil, a irmã de Chico Buarque é para ser ouvida e se sentir


Se algum engraçadinho perguntasse a Heloísa Buarque de Hollanda que música a definiria ela titubearia, aguardaria um olhar cúmplice do gato Dengo, com o qual divide sua cobertura na Ataulfo de Paiva, ali pertinho do Antonio's, no Leblon, e finalmente responderia: Paz, do compadre João Donato. Os amigos da turma do funil não precisam se assustar. Miúcha continua revirando os olhinhos antes de soltar aquela gostosa gargalhada. Principalmente agora, quando comemora o lançamento de Rosa amarela , CD que quebra um jejum de 10
anos sem gravações no Brasil da mais sapeca das filhas de dona Amélia. Uma conferida, ainda que de esguelha, no menu escolhido por Miúcha para seu novo disco, leva à pista certeira: Rosa amarela remete imediatamente às duas parcerias da cantora com Tom Jobim. Os clássicos - e esgotadíssimos - Miúcha e Antonio Carlos Jobim (77) e Miúcha e Tom (79). No repertório, pepitas de Capiba, Jacob do Bandolim, Elton Medeiros, Hermínio Bello de Carvalho, Aldir
Blanc, Ary Barroso, Edu Lobo, Isamel Neto, Antônio Maria, Paulinho da Viola, Maurício Tapajós. Só fera.

E, exatamente como nos anos 70 - Miúcha passou boa parte da década anterior na Europa e nos Estados Unidos com o então marido João Gilberto -, a sensação é de redescoberta do Brasil. O exílio, mais uma vez, acabou. Rosa amarela, é verdade, foi lançado há dois anos no Japão, pela gravadora Omagatoki. Que bancou toda a produção. Só assim Miúcha pôde voltar a gravar no país. Querelas do Brasil. Mas não tem grilo não que a gente vai levando. Ou traduzindo a explicação da cantora na apresentação de Rosa amarela. Escondida atrás de sua máquina de escrever elétrica, Miúcha arrisca: um disco não se explica. Antes, se escuta, se sente. Exatamente como a pequerrucha Heloísa dos olhos felizes.

- Por que você ficou dez anos sem gravar?
- Porque os únicos projetos que surgiam eram de pot-pourris de Bossa Nova. Aquela coisa de um disco feito todo em cinco dias. Não dava, né?

- E como é que você se sentia?
- Eu me sentia castrada. E a história era sempre a mesma. A de que a música que o povo quer escutar é outra. Não concordo. O que acontece é que determinados segmentos musicais são mais trabalhados do que outros. Veja o caso do Lenine, por exemplo. Um artista fantástico que só foi descoberto pelas gravadoras agora. Muito tarde. A história do Lenine vem lá do bloco
Segura a coisa que eu chego lá , de Olinda, há mais de uma década. E ele já era este Lenine...

- Nestes dez anos em que não gravou no país você esteve longe do Brasil?
- Ao contrário. Tenho viajado muito e participei de projetos que me deram outra visão do país. Por um lado, fiz o Vitrines , que me levou a lugares como São Bernardo do Campo. Por outro, pego minha mochila, levo minhas partituras e me embrenho em locais como Pirinópolis, Alto do Paraíso, Chapada dos Veadeiros. Aliás, o que tem de maluco nestes lugares, é um luxo!
(risos). Nos dois casos há um público absolutamente carente de música popular brasileira. Aliás, minha percepção é de que o Brasil anda carente de música popular brasileira. Aquela questão de que "o Brazil não conhece o Brasil" é cada vez mais urgente.

- A própria história da gravação de Rosa amarela mostra isso ...
- É engraçado porque foi preciso que os japoneses decidissem bancar o disco para que eu lançasse um CD no Brasil. A única condição deles é que eu lançasse primeiro no Japão, o que aconteceu há dois anos.

- E como surgiu o interesse dos japoneses?
- Como todo mundo sabe, eles adoram música brasileira. Fiz uma turnê lá em 96 e, seis meses depois, o disco já estava lançado. Voltei para shows e foi uma loucura.

- E agora a gente até pode achar um CD seu nas lojas de discos ...
- Antes só tinham as coletâneas, os "acervos". Os discos com o Tom, por exemplo, só consigo achar na versão americana. Que é hilária. O encarte diz que sou muito talentosa e fiz dois discos: um com o Antônio Carlos Jobim e outro com seu filho, o Tom. (riso). Não dá, né?

- Rosa amarela é dedicado ao Tom. As gravações e o show que vocês fizeram no Canecão e depois em Buenos Aires e Roma devem trazer boas recordações...
- Nosso primeiro disco foi dedicado ao Radamés (Gnatalli). E aí a primeira lembrança é de nossos encontros no Lucas de tardezinha. Depois me recordo dos ensaios, um sonho! E do Tom espantado porque eu conhecia tudo do Ataulfo Alves. É que a gente cantava muito em casa. Éramos sete irmãos, quatro meninas e três meninos. Logo formamos um coro. E as meninas imitavam as pastoras dos discos do Ataulfo...

- Maninha lembra bem esta época, né?
- O Vinícius mexia muito com o Chico por causa de Maninha. Como ele freqüentava nossa casa na Pacaembu, dizia que o Chico era um grandissíssimo mentiroso. Não havia jaqueira nenhuma, muito menos porão (risos). Mas acho que esta música mostra bem aquele mistério que é o mundo das crianças...

- Seus pais encaravam bem esta família dó-ré-mi?
- De jeito nenhum (risos). Enquanto nós nos esguelávamos no carramanchão da Pacaembu cantando Noite de luar para os namorados que passavam na rua, tudo bem. Mas quando ensaiamos uma profissionalização, mamãe não achou a menor graça.

- Como assim?
- Papai (o sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda) era um boêmio. E vivia levando pito da
mamãe. Um dia, ou por não querer ir sozinho ou por querer levar um pito duplo, me carregou com ele para a "Cave", uma boate da moda em São Paulo. Eu já tinha em casa Canção de meu bem e as músicas de Vinícius para Orfeu da Conceição. Resultado: cheguei na "Cave", fui para o palco e cantei tudinho....

- E...
- Dois dias depois saiu uma notinha em um jornal. Minha mãe apareceu com uma vassoura e sobrou para nós dois (risos). Mas não era só comigo não. O Chico cantou no rádio, pela primeira vez, escondido dela.

- E logo depois você foi morar no exterior...
- Ganhei uma bolsa e fui estudar História da Arte na Sorbonne. Mas já estava mal-intencionada. Tanto que levei meu violão. E também os primeiros discos da Bossa Nova. Ficava ouvindo João (Gilberto) e suspirando: um dia vou me casar com este homem! Pois não é que o diabo ouviu? (risos)

- E você conheceu o João na França, né?
- Foi hilário. Em Paris fiquei próxima do grupo dos estudantes latino-americanos. Íamos sempre para uma daquelas boates baratas de Saint-Germain, a La Candelaria, onde as estrelas eram Violeta Parra e Los Incas. Nesta época eu e Dudu do Banjo resolvemos partir para a Itália
e Grécia cantando e passando o chapéu na rua. E o João estava nos grandes teatros. Nós sempre tentávamos assistí-lo e nunca conseguíamos. Até que um dia ele apareceu de surpresa no La Candelaria, para conhecer a Violeta...

- E acabou encontrando você...
- Pois é. Alguém disse que ele precisava ver a chica brasileira que cantava Bossa Nova. Ele ficou me olhando por uma fresta e eu conversei uns 10 minutos com ele sem saber quem era. Dali sairíamos no mesmo carro com um monte de gente. Ele então me propôs: quando o carro der a primeira parada, vamos sair correndo? E eu, envergonhadíssima, sabendo que ia pagar o maior mico! O resultado é que sumimos e as pessoas ficaram perplexas. Logo estávamos namorando...

- Namorar o João devia ser estranhíssimo...
- Claro (risos)! Era muito doido. E eu era sua maior tiete. Uma vez preparei uma noite romântica, quis levá-lo em um restaurante. E ele, já naquela época, odiava restaurantes. Pensei então no óbvio: crepe suzette e fondue. Quando o garçom acendeu o fogo ele quase teve um troço: "pára com isso que vai incendiar tudo!" (risos)

- E vocês foram logo para os Estados Unidos, né?
- E lá virei datilógrafa em um edifício na Madison Square. Obriguei o João a escrever uma carta, que ele estava me contratando como secretária. Mandei para o Brasil, mas não colou muito. Alguém me dedou e foi um Deus-nos-acuda. Pedimos então ao Jorge Amado, que tinha sido padrinho do primeiro casamento do João e era muito amigo do papai, para escrever uma carta recomendando o João...

- Esta correspondência deve ser hilária...
- E era. Jorge dizia que o João, como todo músico, era meio maluco, mas que era boa gente. Aquela solidariedade típica de baiano. Resultado: João se divorciou da Astrid (Gilberto), nos casamos e ficamos por lá...

- E você deixou o canto de lado por um bom tempo...
- Mas lá descobri que não faço questão de ser cantora. O que adoro é estudar violão, estudar flauta. Preciso é da companhia da música, sempre. E viver com o João estes anos todos foi a maior formação musical de minha vida.

- Aí vieram as parcerias com o Tom, o musical Os Saltimbancos e um longo silêncio. Não dá vontade de ir embora para o Japão?

- Acho que tenho preguiça de sair do país. Rosa amarela, como disse, não deixa de ser uma descoberta de um novo Brasil. Que as pessoas não conhecem, formado por uma enorme massa que não tem grana para ir às casas de espetáculo, mas que sabe cantar Tom, Vinícius, Ary, Custódio. É um Brasil riquíssimo, por trás das vitrines.

- Miúcha, você está em paz?
- Estou parando de fumar, minha voz está mais bonita, os amigos estão próximos, tenho estudado muito e percebido que a música, por si só, contém algo de fé. Estou, sim, em paz.

RETRATOS DO BRASIL
(as músicas de Rosa amarela, faixa a faixa)


Cabrochinha - uma das duas inéditas, composição de Maurício Carrilho e Paulo César Pinheiro. Bem-humorada e moderníssima, para Miúcha é uma versão carioca de Jackson do Pandeiro, sem esquecer das releituras do Cascabulho.

João e Maria - o clássico de Chico Buarque acabara de ser composto e entraria no CD Miúcha e Antonio Carlos Jobim. Mas Aloysio de Oliveira, produtor do disco, queria algo ainda mais pessoal do irmão de Miúcha. Foi quando ele compôs Maninha ("se lembra quando toda modinha falava de amor/pois nunca mais cantei/ ó maninha/ depois que ele chegou"). Nara Leão acabou gravando João e Maria e agora Miúcha volta à canção.

De você eu gosto - pérola muitas vezes esquecida da dupla Tom Jobim/Aloysio de Oliveira, do início dos anos 60. Por incrível que pareça, é o primeiro dos clássicos da Bossa Nova gravado por Miúcha.

A mesma rosa amarela- canção de Capiba e Carlos Pena Filho que dá título ao CD, faz parte da memória musical de Miúcha. Que já a cantava nos improvisados corais dos irmãos Hollanda no casarão do Pacaembu, em São Paulo.

Doce de coco- Outra antiga paixão da cantora, parceria de Jacob do Bandolim e Hermínio Bello de Carvalho.

Pressentimento - Outra de Hermínio, agora com Elton Medeiros, lembra o tempo em que Miúcha e Cristina imitavam as vozes das pastoras de Ataulfo Alves.

Santo Amaro - Parceria de Luiz Cláudio Ramos com Franklin da Flauta e Aldir Blanc. Choro já gravado por Miúcha em 1980 e presença obrigatória nas turnês japonesas.

Assentamento- composta por Chico para o projeto Terra, de Sebastião Salgado, virou hino do MST e teve sua primeira gravação feita por Miúcha (só os japoneses sabiam disso).

Por causa desta cabocla - Pérola de Ary Barroso e Luiz Peixoto, que volta e meia surgia nos ensaios com Tom Jobim e com Rafael Rabello, com quem Miúcha gravaria um disco.

Choro bandido - a linda pareceria de Chico e Edu Lobo ganha interpretação especialíssima.

Valsa de uma cidade - Ismael Netto e Antônio Maria pedem passagem enquanto Miúcha solta a voz sonhando com um Rio tranqüilo, "leve como um musical da Metro".

Só o tempo- sem mais comentários, uma leitura singular para a obra-prima de Paulinho da Viola (o amor é um segredo/ e sempre chega em silêncio/como a luz no amanhecer")

Querelas do Brasil - Não por acaso esta composição de Maurício Tapajós e Aldir Blanc fecha o disco. Foi a partir da frase-encerramento de Tom em Antonio Carlos Jobim e Miúcha - "o Brazil não conhece o Brasil" - que a dupla compôs a música. Que volta agora mais atual do que nunca. (E.G.)

domingo, agosto 05, 2007

ENTREVISTA/Steve Carell

A Contigo! desta semana publicou minha entrevista com o sensacional Steve Carell, estrela do seriado The Office e do nem tão sensacional assim A Volta do Todo-Poderoso, comédia que chegou aos cinemas brasileiros na sexta-feira. Ao lado dele, a bela Lauren Graham, a Lorelai do seriado Gilmore Girls, personagem inspirado, tenho certeza absoluta, em minha querida amiga Eleonora Alves.

Olha só o conversê:

Steve Carell

Um narigudo em Hollywood

Por Eduardo Graça, de Los Angeles

Divulgação / Universal

O expressivo comediante, que ficou conhecido por seu protagonista em O Virgem de 40 Anos, retorna à telona como o braço direito de Deus no hilário A Volta do Todo-Poderoso

O ator Steve Carell, 44 anos, chega todo arrumadinho ao refeitório dos estúdios da Universal, em Los Angeles. Cabelo milimetricamente penteado, terno cinza com camisa e sapatos pretos. Um mauricinho completo - como é, aliás, seu personagem em A Volta do Todo-Poderoso, que estréia sexta-feira (3). "Almofadinha, eu? Ah, não escreve isso não, vai! Eu tinha de me vestir apropriadamente para me encontrar com os jornalistas internacionais, né?", diz revelando que, quando conversa com repórteres americanos, costuma ir para as entrevistas de camiseta e tênis mesmo.

O comediante, que conquistou Hollywood com o hilário Andy Stitzer, protagonista da surpreendente comédia O Virgem de 40 Anos (de 2005, que rendeu cerca de 177 milhões de dólares), tornou-se também estrela da TV americana ao interpretar Michael Scott, um dos ácidos personagens da versão americana do seriado inglês The Office (canal FX), pelo qual concorre ao Emmy deste ano, na categoria melhor ator em série de comédia.

Apesar do sucesso, ele não tem nada de esnobe. Talentoso, simpático, brincalhão e dono de seu próprio (e imenso) nariz, Carell é um americano quase comum. É casado com a atriz Nancy Walls, 41 (a Carol de The Office), e faz o tipo papaizão. Ele fez questão de levar os filhos, Elizabeth, 6, e John, 3, ao set de A Volta do Todo-Poderoso.

O filme é a continuação do blockbuster Todo-Poderoso (2003), com Jim Carrey, Jennifer Aniston e Morgan Freeman, uma verdadeira e tumultuada sucursal do canal por assinatura Animal Planet (saiba por que na sinopse ao lado). Foram treinadas 177 espécies de animais para a realização do longa.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como seus filhos reagiram ao te ver com uma barba imensa, que quase chegava à barriga (no longa, ele faz uma espécie de Noé do terceiro milênio)?
Sabe que eles foram uma presença constante durante as filmagens? E foram vendo a transformação do personagem aos poucos, então, acho que ficaram completamente fascinados, mesmo com o fato de o pai deles trabalhar em uma "selva" (risos). Foi uma loucura. A Nancy (mulher dele) reclamou que fiquei cheirando a cocô de animais por semanas a fio. Tinha girafa, babuíno, camelos e até cobras (faz cara de nojo).

Por que o "preconceito" contra as cobras?
Não quero estragar a surpresa de ninguém, mas tem uma cena especialmente complicada que faço com a "dona cobra" (risos.) Para você ter uma idéia, cheguei a pedir para o Tom Shadyac (diretor do longa e também de Ace Ventura, de 1994, e de Todo-Poderoso, de 2003) para cortá-la do roteiro, de tão apavorado que eu estava. Mas ele apelou para meu lado "macho" e tive de fazer, né (risos)?

Você apareceu no ano passado em um dos filmes mais elogiados do ano, A Pequena Miss Sunshine, em que fazia um professor mais trágico do que cômico. Pretende investir mais em dramas daqui para a frente?
Olha, A Pequena Miss Sunshine foi uma jóia. E me sinto sinceramente um sujeito abençoado por Deus por ter feito parte daquela história. Nenhum de nós jamais imaginou que o filme ganharia tantos prêmios. Agora, faço de tudo, né? Se o projeto me encantar, pronto, estou dentro, independentemente de ser comédia ou algo mais sério. A única coisa que não tolero, sou radical mesmo, é violência. Se tiver cenas de violência, simplesmente não me convide, pois não aceitarei fazer o filme.

Então você leva seus filhos ao cinema com o maior cuidado...
Claro! Um filme que eu e Elisabeth (sua filha mais velha) adoramos foi Uma Noite no Museu(Stiller) é um amigo querido e as cenas com os macacos me fizeram pensar. (risos) Sabe que os macacos são os animais mais complicados, mais temperamentais e mais difíceis do reino animal, né? Mas o Ben não me deu nenhuma dica para lidar com eles, o danado (mais risos)!

sexta-feira, agosto 03, 2007

O Homem de Ferro, o filme


Esta foi para a Bizz que está nas bancas, uma prévia do filme O Homem de Ferro, uma das grandes apostas da Paramount para 2008.

À Prova de Ferrugem
Eduardo Graça, de Nova Iorque, para a Bizz


Mais Uma Adaptação da Marvel, O Homem de Ferro promete ser o blockbuster de 2008


“Estou mortinho da Silva. Jamais imaginei que dirigir este filme seria tão exaustivo”. O desabafo é do diretor Jon Favreau, no grupo criado especialmente por sua eminência para abastecer os fãs curiosos sobre a quantas andam as filmagens de O Homem de Ferro, o filme mais aguardado de 2008. As primeiras imagens divulgadas pela Paramount parecem indicar que Robert Downey Jr. está perfeito como Tony Stark, com ou sem armadura. “Logo depois das sessões de fotos tive a certeza: Downey era o próprio Homem de Ferro”, jura Favreau.

Mas é verdade que o novo todo-poderoso da Marvel Comics, principal financiadora do projeto, andou fazendo cortes na produção? E que o principal vilão do filme, o sinistro Mandarim, teria simplesmente desaparecido? E que o veterando Jeff Bridges (que encarna o Monge de Ferro) e o bonachão Terrence Howard (que faz o piloto de avião e primeiro-amigo Jim Rhodes) vivem às turras no set de filmagem? E que além do filme Favreau está também preparando uma graphic novel que chegará às bancas na época do lançamento do blockbuster? E por que não se fala na bela Gwyneth Paltrow, escalada para viver a curvilínea secretaria e algo-mais Pepper Potts?

“Eu sei que tenho estado quieto nos últimos dias, mas tenho meus motivos. Primeiramente, me sinto como se fosse um general em meio à uma gigantesca operação militar. Não tenho outra vida a não ser o set de filmagens. Depois porque não quero que imagens soltas capturadas na internet acabem formando uma opinião prévia sobre um filme que somente vai chegar às telas no ano que vem. E eu quero fazer vocês caírem das poltronas dos cinemas quando o filme estrear!”, escreve Favreau. No Havaí para a promoção do desenho animado Tá Dando Onda, Jeff Bridges, com uma cabeleira que o deixava quase irreconhecível (aguardem o filme, meninos!) não deixou por menos e avisou que Favreau está apostando tudo no realismo. E que a armadura usada por Downey Jr. é ‘sensacional’. “É impressionante como a tecnologia avançou desde que eu fiz Tron. Vocês não perdem por esperar!”, disse.

ENTREVISTA/ Yoko Ono


Esta também foi para a edição da BIZZ que está nas bancas brasileiras. Yoko Ono, a viúva mais famosa do rock, foi um encanto, ainda que um tanto econômica, respondendo minhas perguntas em forma de hai-kai. Dois dois discos que ela lançou por aqui este ano, o álbum de remies Open Your Box não sai da vitrola aqui de casa.

A Viúva Alegre
Eduardo Graça, de Nova Iorque, para a Bizz

Aos 74 anos, Yoko Ono ela acaba de ser (re)descoberta por uma geração de jovens fãs eletrizados por dois lançamentos: o ótimo Yes, I’m a Witch e o interessante álbum de remixes Open Your Box, pronto para ser tocado nas pistas de dança menos óbvias do planeta, e com as assinaturas de Pet Shop Boys, Felix da Housecat e Basement Jaxx. Já para a cerzidura de Yes, I’m a Witch, uma deliciosa brincadeira com a forma pela qual foi tratada por parte da critica e dos fãs que a culpam até hoje pelo fim dos Beatles, a viúva de John Lennon enviou seu catálogo para 16 artistas-amigos (gente como os Flaming Lips, Cat Power, Peaches e Antony). Estes escolheram uma faixa e a reinventaram quase sempre de modo engenhoso. Ou, como prefere Yoko, com menos reverência e mais requebro. Sim, ela gosta de dançar. E música brasileira.


- Você anda dizendo que se identifica profundamente com o título do disco e que se orgulha de ser uma bruxa...
- Pois é, eu compus e gravei a canção Yes, I’m a Witch em 1974 e, veja só você, ela foi considerada por demais provocadora para ser ser lançada. Ninguém quis. Mas agora, 33 anos depois, está aí finalmente para quem quiser ouvir, o que eu adoro. Nossa sociedade mudou muito nestas três décadas. E gosto das mudanças!

- No ano passado o documentário The U.S. vs John Lennon, que você fez questão de aplaudir de pé, fazia um paralelo entre os anos Nixon e a repressão da era Bush. Nos anos 70 você e John passaram por poucas e boas quando o governo Americano tentou negar-lhe o visto de permanência nos EUA. Você diria que a reação de Washington aos ataques terroristas a Nova Iorque nos fez ficar 30 anos atrasados?
- Acho que neste sentido nada mudou, as coisas são exatamente como eram antes. Ou seja, temos de lidar com a realidade de que sempre vão existir pessoas que acreditam em outras verdades, diferentes das nosas. Diria que algumas vezes, para nós dois, foi quase perigoso lutar por aquilo em que acreditávamos. Mas, sabe de uma coisa? Nós temos de continuar com a cabeça erguida, sempre!

- Yes, I’m A Witch fez com que mais jovens descobrissem sua música. Você diria que, de alguma maneira, a sua carreira foi ofuscada pelo brilho e pelo talento de John? Devia ser difícil ter de dividi-lo com o restante do mundo...
- Nunca encarei nosso relacionamento desta maneira. Nós não estávamos dividindo nossa história juntos com o restante do planeta. Éramos até que bem privados, e posso garantir que tivemos uma ótima e divertida vida a dois.

- Qual foi a sua reação ao ouvir pela primeira vez as versões de sua obra feitas por gente de gerações mais novas mas completamente antenadas com sua música?
- A sensação foi a de felicidade, de perceber que o mundo está sacando minhas idéias.

- A versão dos Flaming Lips para Cambridge 1969, à la Ornette Coleman, é uma maravilha. O que você falou para o Wayne Coyne quando escutou pela primeira vez a faixa?
- Muito, muito obrigado mesmo.

- Você se sentiu rejuvenescida vendo todos estes meninos tocando suas músicas no disco?
- Não sei. Mas olha, não posso dizer se Yes, I’m A Witch fez-me sentir mais jovem por uma simples razão: não sou uma velha. Se eu começar a me sentir mais jovem vou acabar virando um bebê!

- Seu filho Sean (Lennon) adora música brasileira e anos atrás, em um festival no Rio de Janeiro, dividiu o palco com um dos grandes heróis do rock brasileiro, Arnaldo Baptista, dos Mutantes. Ele ouvia música brasileira em casa quando voltava da escola?
- Diferentemente de meu filho, eu não possuo um entendimento mais intelectualizado da música brasileira. Quando eu escuto aqueles ritmos, quando ouço aquelas canções que vocês fazem, acontece algo mais simples, mais intuitivo: meu corpo começa a se movimentar e é como se eu tivesse que dançar. Eu amo dançar, adoro música que me faça dançar, está em meu sangue. E é o meu corpo quem me garante – a boa música brasileira é sensacional. Ela me faz me sentir eternamente jovem.

Diário de Bordo - Bon Jovi MTV Unplugged


A Revista BIZZ que está nas bancas publicou meu Diário de Bordo do Bon Jovi Unplugged, gravado pela MTV aqui no Brooklyn e acompanhado em uma noite de verão pelo blogueiro, que se armou de toda a paciência do mundo para ouvir duas, três, quatro versões dos hits da banda de Nova Jérsei. Aqui vai a versão integral:

Eduardo Graça, de Nova Iorque, para a Bizz

Bon Jovi Unplugged – Diário de Bordo

19h. As meninas muito loiras e muito maquiadas de Nova Jérsei correm para ocupar as cadeiras mais próximas do palco instalado em um estúdio cinematográfico no Brooklyn. Vai começar a gravação do Bon Jovi Unplugged, inaugurando a nova fase do programa idealizado pela MTV, que terá na seqüência o Police e Mary J.Blidge. Cerca de 400 fãs cantam sem parar Never Say Goodbye e Let It Rock, lembrando que a noite é uma criança, boba, feliz e despreocupada.

20h05. Calça jeans colada no corpo, camisa preta e imensa corrente de prata com uma caveira, Jon Bon Jovi parece bem mais novo do que seus 45 anos. A seu lado, sentado, Richie Sambora, todo de preto, inchado, aparenta bem mais que seus 47. O público é brindado com Lost Highway, faixa-título do novo CD da banda, com alto teor country. A platéia responde com batidinhas de pé como se estivesse no Tennessee.

20h30. No palco, à formação clássica do Bon Jovi se juntam dois pianos, um banjo e uma orquestra de cordas. Ao todo, nove violinos. É Livin’ On a Prayer em versão noir, um lamento soturno, tristíssimo. Os violinos seguem em Bed of Roses, Joey e (You Want To) Make a Memory e permanecem ao fundo na parceria com Leeann Rimes, a diva loira que solta o vozeirão na romântica Strangers. Não parece haver espaço para rock no acústico do Bon Jovi.
21h25.Os violinos partem. A platéia parece acordar. A banda toca You Give Love a Bad Name em uma versão cool, mais jazzística. Agrada. Jon ensaia um sapateado no palco e rebola. A partir daí seus gestos ganham em dramaticidade, como se ele estivesse em um estádio de futebol. A banda não o acompanha. “Meu Deus, lá se vão 21 anos. Esta música já ganhou a maioridade. E foi nosso primeiro sucesso”, diz. Seguem Born to Be My Baby e It’s My Life, esta com o auxílio dos garotos da The All-American Rejects.

22h05. Momento cover. A escolha: a linda Hallelujah, de Leonard Cohen. “Queria ter escrito esta música. Quando ouvi pela primeira vez foi num show do Jeff Buckley e lembro de ter falado para quem estava do meu lado – taí a música de trabalho do álbum. E a pessoa me respondeu: ô bestalhão, este é um clássico da música pop!”, confessa, rindo. A interpretação é reverente ao extremo e deve ajudar Cohen a superar os problemas financeiros por que vem passando recentemente.

22h30. Depois de uma ótima Keep The Faith é hora de I’ll Be There For You. O fundo do palco fica azul e figuras de nuvens aparecem na parede em uma tentativa de se criar um clima zen. Mas alguma coisa parece errada com Sambora, que briga com o violão. Jon olha de esguio, nitidamente irritado.

23h. Jon e Richie estão sozinhos no palco. “Estávamos descalços na apresentação do Grammy em 1989, passando o som, eu com febre alta, e começamos a tocar Wanted Dead or Alive, assim, acústico. Estávamos com muito medo, não tínhamos nem os vestidos de luxo da Madonna nem sabíamos dançar como o Bobby Brown. Mas decidimos ser o mais despojados possíveis. E foi assim que nasceu o MTV Unplugged”, conta Bon Jovi, antes de tocar, por duas vezes, a música com Richie a seu lado. Este tentava caprichar na bluesada segunda voz, mas não conseguia acertar os acordes. O resultado foi gravá-la pela terceira vez, com toda a banda no palco. Jon olha para Richie, enfático: “Desta vez deixa comigo, ok?”.

23h15. Aos tropeços, acaba a gravação do MTV Unplugged do Bon Jovi. A aposta no virtuosismo e nas versões com teor mais country deve agradar em cheio o consumidor médio norte-americano, que já se deleitou com as versões da banda apresentadas na temporada mais recente do programa American Idol. Mas, e os fãs brasileiros? Taí um mistério que nem o Lobão desvenda com facilidade.