quinta-feira, junho 16, 2005

Poesia da Dona Olga

O leitor do site Direto da Redação, Diógenes Pereira de Araújo, se inspirou no “Cadê a Dona Olga do PT?” para compor os seguintes versos:

BANDEIRA VERMELHA!

Bandeira do PT. Inda é vermelha.
Mas agora é vermelha de vergonha.
Em Brasília o PT é qual pamonha, pra não dizer que a ratos se assemelha,

que a sua situação, mais que bisonha,
nos tem feito franzir a sobrancelha
e quanto a olhar, olhar sempre de esguelha.
Pobre trabalhador que já não sonha

que o partido a louvar-se no seu nome
o represente com dignidade
no tocante a eficácia e seriedade.

Pelo menos não é mais zero a fome:
de fato é hoje a fome mais de mil
e há "cositas más"...
Pobre Brasil.

Diógenes Pereira de Araújo

Valeu, Diógenes!

quarta-feira, junho 15, 2005

Mais da Bolívia

A querida Ana Cristina Machado manda mais dois links para se saber mais da Bolívia: http://www.bolivia.com/noticias/AutoNoticias/DetalleNoticia26976.asp, com notícias diárias em espanhol, e o www.planetaportoalegre.net, em que pode se ler uma boa entrevista com Gustavo Torrico, em bom e claro português, com o dirigente do Movimento ao Socialismo (MAS), parceiro do principal líder da oposição, Evo Morales.

Diretinho da Redação (19)


O texto abaixo, mescla de memória e indignação, também pode ser lido no www.diretodaredacao.com, onde estão relatos de outros jornalistas espalhados pelo mundo.

Cadê a Dona Olga do PT?

Sete de Novembro de 1988, uma quarta-feira ensolarada em Volta Redonda, estado do Rio. O presidente é José Sarney. O governador atende pelo nome de Wellington Moreira Franco. Em Brasília, parlamentares, entre eles Luiz Ignácio Lula da Silva, haviam aprovado, um mês antes, uma nova Constituição. Os operários da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) decidem entrar em greve. Querem a implantação do turno de seis horas, a reposição salarial referente a perdas por inúmeros planos econômicos desastrosos e a reintegração de demitidos pela atuação salarial.

Nove de Novembro. Na CSN, ninguém entra, ninguém sai. A esta altura a cidade está profundamente envolvida com a greve. A maioria dos moradores se junta a parentes e amigos nas cada vez mais animadas manifestações, que acontecem na entrada do escritório central da usina, a três quadras de nossa casa. Acredita-se que vivemos em estado democrático. Acabara-se a ditadura militar, desconhecia-se a ditadura burguesa. Meu pai está lá dentro com outros funcionários tentando manter a coqueria funcionando. Liga para casa de quando em quando – estamos falando de priscas eras, antes do celular. Pede para que não arrumemos confusão com o pessoal do exército. Mas que exército?

Poucos minutos depois, soldados de vários quartéis do estado, comandados pelo General José Luís Lopes da Silva, dispersam à bala uma manifestação e invadem a usina a fim de acabar com os piquetes. Funcionários, mulheres e crianças correm desesperados pelas ruas próximas. Homens armados os perseguem. Nossa rua vira um palco de guerra. Minha mãe e minha irmã resolvem abrir a porta de casa e convidar as pessoas a se abrigarem em nossa sala. Quando percebo estamos deitados, estranhos e conhecidos, no chão, em emocionada comunhão, usando o sofá como proteção. Tapamos ouvidos e colocamos as mãos sobre a cabeça com medo de estilhaços.

Um dia depois damos conta do tamanho do massacre. O centro velho da cidade está detruído. Marcas de bala enfeitam os portões das garagens dos vizinhos. Um cinema fôra quebrado a pauladas de cassetete. Muito mais grave – três operários estão mortos. William, 22 anos, com um tiro de metralhadora no pescoço. Valmir, 27, com um tiro de metralhadora nas costas. Carlos, 19, por esmagamento de crânio. Os operários decidem manter a greve, agora com apoio incondincional da traumatizada população. As aulas são suspensas nos colégios e nas universidades da cidade.

23 de novembro de 1988. Um soldado, como nas semanas anteriores, permanece de prontidão na nossa rua, mas desta vez ele resolve montar guarda no gramado em frente à nossa casa. Minha mãe acha que aquilo já é demais. Dona Olga abre a porta e, dedo em riste, tensa como jamais a vi, obriga o soldado a se retirar. Abomina sua truculência e lembra que os tempos são outros, que eles não estão mais no poder, que seus crimes serão apurados, que a casa era dela e que ali ele não pisava mais. Assustado, o soldado bate em retirada.

Algumas horas depois a greve acaba. Os operários conquistam todos os seus direitos. Ao contrário de William, Valmir e Carlos, meu pai volta para casa. Nas eleições municipais que acontecem em meio à ocupação militar de Volta Redonda o PT ganha suas primeiras prefeituras significativas – em São Paulo e em Porto Alegre. Eu guardo para sempre a lição de que democracia é o regime em que se pode botar o dedo na cara de quem representa uma ameaça ao estado de direito.

Ontem, um dos dias mais deprimentes da história da democracia brasileira, aquela imagem voltou a me assombrar. Acompanhei todo o depoimento do deputado Roberto Jefferson na Comissão de Ética do Congresso. Ele deveria encarar seus pares na constrangedora posição de acusado. Não foi o que se viu. Durante mais de seis horas foi dado ao soldado da tropa de choque de Collor de Mello o poder para decidir quem na imprensa é sério e quem não é, quem é honesto e quem é picareta no Congresso Nacional. A confiança era tamanha que ele quis até demitir, de lá mesmo, um ministro de Estado.

Quase no finzinho da maratona, Jefferson foi interpelado por seu colega Chico Alencar. O deputado petista queria saber por que só agora ele denunciara o recebimento de dinheiro ilícito do PT para o financiamento de candidaturas de políticos do PTB, nas eleições municipais de 2004. Jefferson, ator de primeira, não titubeou. E nos lembrou que ‘parceiro ajuda parceiro’. Tinha ficado quieto para proteger o PT, ora essa. “Matei no peito, deputado, matei no peito e agüentei tudo sozinho”. Ao que Alencar retrucou: “O partido que nós queremos construir não precisa disso”. Construir? Pera lá. Mas a esta altura do campeonato?

Em 1988, a bandeira que tremulava mais alto nas manifestações de Volta Redonda era vermelha e tinha uma estrela no centro. Muitos acreditavam que estavam construindo um partido. Muitos vibraram nas ruas da cidade com as vitórias de Luiza Erundina e de Olívio Dutra como se eles, no próximo ano, pudessem em um passe de mágica administrar a cidade dos operários e não São Paulo ou Porto Alegre. Cadê a Dona Olga do PT? Por que será que ninguém se arvora a colocar o dedo na cara de Roberto Jefferson para lembrá-lo que não estamos mais no governo Collor? De que os tempos são outros? De que sua biografia vale ainda menos do que a dos Valdemares, Bispos Rodrigues e Janenes da vida?

Ontem, não havia um líder do governo, um defensor gabaritado, uma voz para lembrar a Jefferson que não poderia haver inquisidor menos qualificado na igrejinha do Congresso. Será que o PT agora é veremelho de vergonha? Será que Waldomiros, Cachoeiras, Adautos, Flamarions, Delúbios e Silvinhos surrupiaram para sempre dos petistas seu amor-próprio, seu necessário orgulho, sua crença de que o PT é, afinal, diferente do fisiologismo que domina o cenário político brasileiro? Ou será que o partido, comandado por uma cúpula deslumbrada e insensata, decidiu entregar de vez os pontos? Dos muitos desserviços que o governo Lula tem prestado ao país, jogar na lama a legenda dos trabalhadores será o pior. Gente, cadê a Dona Olga do PT?

terça-feira, junho 14, 2005

Blogs da Bolívia

Para os que estão acompanhando com atenção o que acontece na Bolívia, há dois blog bem legais. Um, de Jim Schultz, do The Democracy Center, diretamente de Cochabamba, pode ser acessadoo em http://democracyctr.org/blog/. Outro, de Nick Buxton, craque em ativismo politico na Internet, fica no http://www.nickbuxton.info/bolivia/

Como diria meu amigo Ivson, vai lá, mané!

segunda-feira, junho 13, 2005

Viva Yuka!

Do músico Marcelo Yuka, exato, na Folha de S.Paulo de hoje:

A elite está emburrecendo. Não entendeu que, por não ter assumido certos compromissos, não vai viver em paz. Por que ostentar tanto e viver sempre cercado de segurança? O shopping Daslu é um monumento à estupidez da elite. De um país que é campeão em desigualdade social. Que só vira brasileiro na Copa. Há uma elite que ainda é traumatizada por ter perdido a corte e precisa de similaridade com um foco internacional.O que temos como identidade são as manifestações populares, mas, mesmo quando se vê isso, é conseqüência de uma tendência internacional. Um país que não se percebe unido não respeita suas diferenças.

A entrevista completa, dada ao repórter Igor Ribeiro, está lá em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/folhatee/fm1306200504.htm

domingo, junho 12, 2005

Do Outro Lado da Fronteira : O Apartheid Boliviano

Especialista em Relações Internacionais, William Powers vive desde 2003 na Bolívia, onde está pesquisando para o lançamento de A Natural Nation, um livro em que trata de ecologia nos trópicos e da exploração de petróleo e ernergia na nação andina. No ano passado seu Blue Clay People, uma narrativa sobre o período em que passou na Libéria trabalhando para uma ONG ligada à Confederação Nacional dos Bispos da Igreja Católica daqui, causou algum burburinho.

Neste fim de semana, ele publicou um ensaio no New York Times sobre o que chama de Apartheid Boliviano, entitulado Poor Little Rich Nation. O artigo está dando o que falar aqui nos Estados Unidos. Abaixo vai uma tradução livre feita pelo blogueiro aqui. O negrito é meu. O original, infelizmente apenas em inglês, pode ser lido em http://www.nytimes.com/2005/06/11/opinion/11powers.html.

Pobre Naçãozinha Rica

WILLIAM POWERS
Samaipata, Bolivia

* Powers está parado, como muitos outros motoristas, em Samaipata, na estrada que liga Santa Cruz a Bogotá. Ele conta:

Por três semanas, a Bolívia ficou paralizada por barricadas e protestos. Os manifestantes querem nacionalizar as vastas reservas de gás natural do país, a segunda maior da América do Sul. A British Petroleum acaba de quintuplicar sua estimativa das reservas bolivianas, que devem valer algo próximo a US$ 250 bilhões.

* Dos manifestantes:

Manifestantes? Não, eles são a maioria da população, formada por descendentes de tribos indígeneas, principalmente Aymara e Quechua. Eles querem a saída imediata do FMI e de corporações como a British Gas, a Repsol, da Espanha e a Petrobras, do Brasil, que investiram bilhões de dólares em exploração e extração.

* O que está acontecendo de fato na Bolívia?

Muitos estão dizendo que o que aconteceu nos últimos e memoráveis cinco anos aqui foi uma guerra contra a globalização. De certa maneira, eles estão certos. O Mc Donald’s fechou suas portas. Uma nova taxa sugerida pelo FMI foi derrubada pela pressão popular. E dois presidentes foram retirados do poder – um deles, Gonzalo Sánchez de Lozado, falava Espanhol com um fortíssimo sotaque norte-americano. Mas o que acontece aqui não está relacionado à criação de um mundo utópico, livre dos Wall-Mart da vida. É muito mais uma queda-de-braço entre quem tem mais poder neste país. A maioria indigena ou aqueles ‘de pele menos morena’, europeizados e, em muitos casos, parte de uma elite que estabeleceu sua relação com o mundo através de uma viciada relação de corrupção?

* Da elite boliviana:

Pode-se dizer que a Bolívia se auto-colonizou. Quando o Império Espanhol fechou sua vendinha aqui em 1824, os ‘europeus’ que aqui ficaram aparentemente não perceberam isso. Aliás, só foram começar a se dar conta cinco anas atrás. Mesmo na América Latina, de acordo com o Banco Mundial a região com maior índice de desigualdade social no mundo, a Bolívia é considerada uma das nações mais injustas e corruptas, de acordo com a Transparency International. É também dividida de modo radical em estratos raciais muito bem definidos.

* Do Apartheid Boliviano:

Quase dois-terços dos bolivianos vêm das Terras Altas ou da Amazônia. O país têm a maior proporção de índios no hemisfério. É como se os Estados Unidos tivessem 160 milhões de apaches e iroqueses. O apartheid boliviano é poderoso e continua vigente de forma escandalosa. A exclusão é parte do dia-a-dia de quem vive aqui. A maioria da população é proibida de usar as piscinas dos principais clubes, por exemplo. Nas ‘haciendas’ pouco ou anda tocadas por alguma reforma agrária, eles ainda são os peões. Em La Paz, estava andando na moderna Zona Sul da cidade com Fátima, uma Aymara, quando um boliviano puxou-a bruscamente para fora da calçada. Fátima não ficou chocada com o desrespeito, mas se admirou de que ele se permitiu tocá-la. Em geral, não há sequer contato físico entre as duas ‘razas’.Os estados mais ricos em energia, no lado oriental, na fronteira com o Brasil, querem mais ‘autonomia’, que se traduz na prática apenas por privar a maioria indígena das reservas de óleo e gás.

* O que pode ser feito para se evitar o colapso?

A resposta, é claro, precisa ser dada inicialmente pelos próprios bolivianos. As elites aqui precisam reconhecer de uma vez por todas que os ‘morenos’ e seus organizados movimentos sociais são mais fortes do que qualquer partido político ou presidente, e que já está claro que eles não vão desistir. Qualquer solução real passa por dividir o poder com a maioria – pobre -da população. Para resolver a crise, no entanto, diminuir a exclusão não é suficiente. É preciso prestar bastante atenção na maneira com que o mundo vai se relacionar com a Bolívia, principalmente no que diz respeito à sua economia.

* Uma ‘nova Venezuela’?

Sim, a secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, estava certa ao apontar esta semana o deficit democrático boliviano. Mas mais do que dar pitos, nós precisamos reconhecer que DEMOCRACIA significa, no mínimo, deixar que a maioria da população decida o que bem se quer fazer com seus recursos naturais. Vamos lembrar aqui que os contratos de exploração com companhias de petróleo de diversos países foram assinadas – como bem lembra Condelezza – por líderes bolivianos corruptos, sem sequer a aprovação do Congresso. Ainda que se prove que a nacionalização do petróleo é uma péssima idéia, os bolivianos precisam decidir por si prórpios.

* Da política externa norte-americana:

Também não podemos esquecer que as nossas próprias idéias para a América do Sul não são lá estas coisas. A Bolívia foi, por excelência, a cobaia em que o FMI treinou sua ‘terapia de choque’ de liberalismo, iniciada em 1985. A receita rendeu milhões de dólares para petromagnatas e barões da soja, mas quase nenhuma geração de emprego e redução nula de desigualdade social. Duas décadas depois a economia boliviana permanece estagnada e metade da população vive com uma renda de menos de US$ 2 ao dia. O mundo deveria contribuir com algo que ajudaria profundamente a dimunição das desigualdades sociais e à busca da democracia por aqui: o perdão da dívida externa para a reconstrução da governabilidade. Hoje, a dívida externa da Bolívia representa 82% do PIB, corroendo 40% dos gastos a cada ano. Números que se traduzem em mais desordem e miséria.

* Tiananmen do outro lado do Mato Grosso:

Um jovem Quechua, braços cruzados, sentado em frente ao caminhão que tentava inutilmente furar o bloqueio de pessoas em Samaipata, na estrada que vem de Santa Cruz, lembrou-me das imagens da Praça Tiananmen, na China. Ele me disse: "Nossas culturas – quechua, aymara - têm sido bloqueadas por 500 anos. Esta é nossa única voz".

quinta-feira, junho 09, 2005

Fernando Gabeira, na Folha de Sábado

Está lá, disponível, no arquivo da Folha de S.Paulo, o fantástico texto de Fernando Gabeira, publicado neste sábado. Um trecho:

(...) essa certeza de que tudo se vence com dinheiro, essa confiança cega em neutralizar a televisão, ampliar a clientela social e simplesmente ignorar os milhares de consciências que assistem a tudo, é um dado novo. Os amigos não estão perdidos; simplesmente passaram a acreditar que o bandido vence no final. Enfrentamos cadeia, tortura e exílio e, de certa forma, sobrevivemos moralmente inteiros. A experiência do poder quebrou mais nossa vontade do que todos os paus-de-arara; os holofotes e o cordão de puxa-sacos nos confundiram mais do que choques elétricos. Amigos que enfrentaram horas de tortura para salvar os outros hoje se dedicam a produzir notinhas, uns contra os outros. Tudo o que é sólido se desmancha no ar. Há dissoluções mais bonitas, passagens mais perfumadas. Esse episódio, mascarado de ascensão de um trabalhador ao governo, é uma crueldade histórica. Levarei muitos anos para justificar a mim mesmo como foi possível acreditar nisso, já no fim do século 20, quando experiência e prática nos incitavam a duvidar. Ignorantes da tragédia histórica, fomos condenados à farsa.

Verissimo, sobre a lama

Hoje, no Globo: (...) Não fosse por um detalhe, o que estaria em curso hoje no Brasil seria um clássico golpe conservador, com todo o seu arsenal de moralismo seletivo e denuncismo dirigido, contra um inadmissível governo de esquerda. O detalhe que falta, claro, é o governo de esquerda. No fim, a explicação que tem de ser dada não é a dos suspeitos para os jornais e as CPIs, é a do PT para os seus militantes e eleitores, para aquele cara acenando sua bandeira vermelha na esquina, sozinho, de graça, porque acreditava e confiava. E o que precisam lhe explicar é por que mágica seu voto no PT deu num Roberto Jefferson com tantos poderes no governo, inclusive o de derrubá-lo.

quarta-feira, junho 08, 2005

Diretinho da Redação (18)


Ao que vai nascer

Há uma grave lacuna política no país e ela precisa ser ocupada com urgência. O PT, aquele, foi atingido duramente na segunda-feira pela entrevista desavergonhada do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) à Folha de S.Paulo. Não se trata de ‘mais um escândalo político envolvendo o governo Lula’. Se nos fiarmos nas denúncias do deputado, do governador de Goiás e do prefeito do Rio de Janeiro, parlamentares do PL e do PP recebiam uma mesada de R$ 30 mil para aprovar projetos do governo. Pior: desde janeiro, pelo menos, sabiam do ‘mensalão’ e, até prova em contrário, nada fizeram, por ordem de importância, os seguintes condôminos do governo: o presidente da república e seis ministros de Estado, entre eles José Dirceu, Aldo Rebelo, Ciro Gomes e Miro Teixeira. Este último ameaçou botar a boca no trombone, mas voltou atrás. Em entrevistas, Teixeira, indignado, vem dizendo que ‘a democracia não pode ficar nas mãos de ladrões”.

A frase é boa, mas vale a pergunta: qual foi a providência tomada pelos próceres da República desde janeiro, quando foram informados do ‘mensalão’? Parar de correr a sacolinha? É assim que se estanca a corrupção no governo dos companheiros? De acordo com Jefferson, Lula chorou, Dirceu deu murros na mesa e Ciro disse que não acreditava na denúncia pois ‘se tratava de muito dinheiro’. Isso apesar de Jefferson considerar que a prática do ‘mensalão’ era ‘coisa de câmara de vereadores de quinta categoria’. E nós com isso?

Aonde está o que resta do PT, daquele PT? Enquanto o velório do partido segue animado pelas verônicas de sempre e ‘neocorvos’ como o prefeito do Rio – fingindo indignação e dizendo que ‘nunca houve tanta corrupção no país’ – a sociedade brasileira ruma perigosamente para a ‘fascistização’ dos modos. Quando os políticos são considerados todos farinha do mesmo saco, policiais parabeninzados por aparecerem em fotos de jornais chutando a cabeça de acusados de crimes e cidadãos honestos vítimas de um ato de violência a cada 15 segundos no Rio de Janeiro, a serpente já está com metade da cebeça para fora do ovo.

Há 26 anos o PT surgiu traduzindo uma inegável evolução das forças progressistas do país. Nos falava de democracia, de combate ferrenho à corrupção e de uma crença na ética e na seriedade do trato com a coisa pública. Queiram seus detratores ou não, o PT foi sim o personagem mais importante da chamada Nova República. A cada vitória eleitoral daqueles que não tinham medo de ser feliz havia a certeza de que o país diminuía o fosso que separa a classe alta do imenso miserê. Acreditou quem quis, permanece de joelhos na igreja sem choro nem vela os acomodados, acostumados ao dízimo da vez.

Um dos personagens mais nefastos da política brasileira, Roberto Jefferson esfrega na cara de mais de 50 milhões de fiéis eleitores a questão: quem votou em Lula para que seu governo reorganizasse a partilha dos reais com os parlamentares dos partidos do Maluf e do Bispo Rodrigues? A triste ‘PMDBização’ do PT corrobora o que a senadora Heloísa Helena (PSOL-AL) detectou como ‘a metamorfose da ética petista no poder’.

O PT, aquele, acabou, não há mais. E agora, eleitor? Em apenas dois anos e meio de governo, os morubixabas do PT conseguiram de uma só vez assassinar a sigla, jogar a esquerda brasileira em uma crise sem tamanho e, mais importante, colocar em cheque, com seus Waldomiros, Delúbios e Silvinhos, as insituições da República, da qual o presidente Lula, em discurso emocionado, finalmente se lembrou que é o ‘seu maior defensor’. Trabalhador vota em Tabalhador? Balela. No Brasil, ontem e hoje, o mote é um só – aqui, meu amigo, parceiro apóia parceiro. O momento é o de respirar fundo, tapar o nariz e dar o passo à frente. É preciso jogar a pá de cal no caixão que reluz em nossa frente e depositar as esperanças ao que vai nascer. Quem sabe os que têm coragem para tanto não nos ofereçam algo tão novo quanto aquele tal de PT. Quem me acompanha?

Quando a gente pensa que já ouviu de tudo...

Acaba de dar na Rádio Guaíba que o ‘Repórter Vesgo’ foi expulso do Congresso. Os humoristas da Rede TV estavam gravando seu “Pânico” sobre o mensalão e, aparentemente, deputados e senadores se sentiram ‘ofendidos’. E nós, cara-pálida? Devemos nos sentir como?

terça-feira, junho 07, 2005

Quando a gente pensa que já leu de tudo...

...tá na Folha de S.Paulo de hoje:

...o ator Raul Cortez se dizia "admirado" no lançamento da nova Daslu, no sábado. Ele vai à loja uma vez a cada três meses e diz nunca ter desembolsado "mais de R$ 20 mil em uma compra. Mas já cheguei quase lá".

Folha - Que tal a nova Daslu?
Raul Cortez - Estupenda! A Daslu se assume como uma butique de luxo, que vende luxo. Admiro a coragem de quem não tem culpa de ter dinheiro e de expor isso de uma maneira tão aberta.
Folha - Essa culpa é comum?

Cortez - É. E aí as pessoas começam a contribuir com essas ONGs, essas obras beneméritas... O paulistano é um povo provinciano, preocupado com o que o outro vai pensar. E não vê que acontecem coisas piores no país. A corrupção desse governo me revolta. Essa história de barrar a CPI, de compra de deputados é terrível.
Folha - Mas o governo de Fernando Henrique, com o qual o senhor simpatizava, também sofreu denúncias.

Cortez - Mas [a corrupção] é um mal do povo brasileiro! Está na nossa genética ruim, feita com imigrantes, um povo degradado. As pessoas de Portugal que vieram eram as que mais atrapalhavam. Depois chegaram os outros imigrantes, já tentando impor respeito. Começou tudo errado.

PODE?

domingo, junho 05, 2005

Diretinho da Redação (17)


O texto abaixo está lá no www.diretodaredacao.com e trata de triste ironia. Ao mesmo tempo em que dois jornalistas – Bob Woodward e Carl Bernstein – são festejados por proteger durante três décadas sua fonte confidencial, outros 18 – entre eles Judith Miller, do “The New York Times” e Matt Cooper, da “Time” – podem parar na cadeia pelo mesmíssimo motivo. Sinal dos tempos.


Ele não podia ter aparecido em melhor hora. Garganta Profunda era W.Mark Felt, o número dois do F.B.I. na segunda metade dos anos 70. Foi ele quem ajudou os repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein, do The Washington Post, a iniciar a queda irreversível do governo Nixon. Poderia hoje a imprensa repetir com qualquer membro do alto-escalão do governo Bush a seqüência de denúncias e provas inconstestáveis de sérias irregularidades que levaram à renúncia daquele outro governo republicano? Provavelmente não.

Nas últimas semanas a Casa Branca vem batendo na tecla de que a reportagem da Newsweek sobre a utilização de métodos nada ortodoxos – incluindo jogar o Corão privada abaixo – para conseguir informações de prisioneiros muçulmanos na base naval de Guantânamo, na ilha de Cuba, é o tipo de história que deveria ser banida do jornalismo sério e responsável. Principalmente porque a fonte principal da reportagem pediu que seu nome não fosse revelado. Ironia ou não, a Newsweek é a revista do mesmo grupo que publica o The Washington Post. E atinge novamente um governo extremamente conservador, comandado pela linha-dura do Partido Republicano.

A reportagem de Michael Isikoff e John Barry – dois sérios e premiados repórteres – gerou protestos em todo o mundo islâmico, notadamente no Afeganistão e no Paquistão. Uma das funções mais importantes – e raramente alcançada – das boas hostórias jornalísticas é justamente a de mexer com os leitores, chacoalhar o status quo, tornar-se o ponto de partida para a modificação da realidade. O governo Bush acha que este ‘jornalismo irresponsável’ representa nada mais do que uma ‘propaganda negativa’ para os Estados Unidos em uma região estratégica como o Oriente Médio.

Propaganda política e jornalismo não devem se misturar, a não ser em casos extremos. São como água e vinho. Mas tanto a denúncia da tortura de seres humanos praticada sistematicamente por soldados que representam um país reconhecido pela O.N.U. quanto a revelação do esquema fraudulento da eleição do principal mandatário da nação são traduzidos pelo neo-cons como anti-patriotismo. Não por acaso, neste exato momento, 18 jornalistas respondem a processo aqui nos Estados Unidos por conta de reportagens com graves denúncias em que o informante ajudou o trabalho do repórter, com a condição de que permaneceria anônimo. Na maior parte dos casos acredita-se que a fonte faz parte do establishment governamental – exatamente como no caso do Garganta Profunda.

Neste mês os donos dos principais jornais do país, incluindo o The New York Times, concordaram em diminuir progressivamente as reportagens que não apresentem todas as fontes ‘on the record’. O U.S.A. Today chegou ao cúmulo de banir para sempre de suas páginas histórias baseadas em informantes anônimos. Pena. Histórias como a do Garganta Profunda dependem de os capitães da imprensa confiarem mais em seus empregados do que nas benesses do governo federal. Mas também não deixa de ser revelador o motivo final pelo qual Felt decidiu, quase três décadas depois, revelar sua identidade. Glória e dinheiro. Busca de reconhecimento e de segurança financeira. Duas metas mais do que fundamentais na receita batida de se encontrar a felicidade ao modo norte-americano.

sexta-feira, junho 03, 2005

Quem Tem Medo de Kathleen Turner?


foto:Carol Rosegg

Há um momento crucial na encenação de Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, em cartaz aqui na Broadway. É quando Kathleen Turner, ou melhor Martha, encara o teatro repleto e diz: “Eu não tenho senso de humor algum. Possuo um apurado senso do ridículo, mas careço do mínimo senso de humor!”. O público, por razões reveladas no texto que segue, aplaude de pé. Na quinta-feira passada consegui uma cobiçada cadeira no mezanino do Longacre Theatre, na rua 48, para realizar missão agradabilíssima: contar para o público português os motivos pelo qual se tornou quase uma obrigação cívica testemunhar a atuação de la Turner, que, neste domingo, concorre ao prêmio Tony de melhor atriz, o Oscar do teatro norte-americano.

Expectativas havia. E muitas. Para começar, o autor Edward Albee decidiu dar o sinal verde para a encenação do diretor britânico Anthony Page, mas pediu para escolher os atores que fariam os protagonistas do espetáculo – vividos no cinema magistralmente por Elizabeth Taylor e Richard Burton. Durante seis anos – isso mesmo, seis anos – Albee entrevistou inúmeras possíveis ‘Marthas’, gente fina como Jessica Lange, Frances McDormand, Stockard Channing e até Bette Midler. Mas o autor, de 77 anos, só bateu o martelo quando escutou a peça, frase após frase, lida por Turner e seu magnífico parceiro de palco, Bill Irwin, no loft de Page no Chelsea, em julho do ano passado.

Ninguém sabia disso, mas naquele dia Kathleen Turner completava exatos 50 anos. Sem consultar ninguém, assim que foi informada da reação emocionada de Albee, a atriz, em fase final de recuperação de um caso severo de artrite reumática, decidiu fazer uma operação no joelho. Queria se movimentar com destreza pelo palco durante as três horas de trabalho.

Em cena, tudo o que se sabe dos últimos anos de Kathleen Turner parecem potencializar uma atuação catártica, que leva o público a se deliciar cada vez que ela revela, em uma piscadela de olhos, uma nova Martha. Primeiro, a quarentona bebum que parece certa de ter vivido uma história sem razão de ser. Em seguida, a mulher sedutora que ataca o convidado da noite na frente do marido. No derradeiro ato, a desprotegida racional, lidando com medos imensos, mas ciosa de que eles são todos seus. Seus e de George.

Não há como não se pensar no drama de Turner enquanto Martha desce as escadas de sua casa em uma cidade universitária na Nova Inglaterra em um vestido negro colado e sóbrio, insinuante e exato. Pouco tempo atrás, médicos temeram que a hilária protagonista de “Mamãe é de Morte” iria parar numa cadeira-de-rodas. Confessadamente assustada, Turner conta que só teve um remédio: mergulhar de cabeça em um tratamento pesado que incluiu quimioterapia e uso de esteróides. Ao mesmo tempo, começaram a surgir rumores de que ela estava bebendo além da conta.

De fato, poucas semanas depois de encerrada sua temporada em “A Primeira Noite de Um Homem”, aprensentada na Broadway três anos atrás com críticas horrendas, Turner se internou em uma clínica de reabilitação para se livrar do álcool. E como a Martha de Albee tem um aptetite insaciável por bebida, o autor não negou que esta foi uma das razões pela qual escolheu Turner para a encenação.

Da primeira fileira do segundo andar do Longacre, deleitando-me com a coreografia desenhada por Page e pensando no que escreveria para a Sabado, só pude aplaudir as escolhas de Albee. Os atores coadjuvantes – David Harbour e Mireille Enos – estão soberbos. Não é à toa que os quatro artistas foram indicados para o Tony, juntamente com a figurinista Jane Greenwood e a peça, na categoria melhor releitura. Também não é gratuita a consagração de Turner como “a diva das divas” pela crítica local, em uma temporada que ainda conta com Jessica Lange (vivendo Amanda Wingfield , de “À Margem da Vida”, de Tennesse Williams) e Natascha Richardson (encarnando a Blance DuBois de “Um Bonde Chamado Desejo”).

Em exata metáfora, Matt Wolf, crítico do jornal inglês “The Observer”, comparou a interpretação de Kahtleen Turner a um balão que, furado de modo violento, vai se esvaziando lentamente para choque e fascínio do público. Imperial, a atriz conduz sem pausas este bolero de bêbados. Uma dança triste de um casamento destruído por uma tragédia oculta do público, que permanece atento até o último rodopio. Ou até o sibilar derradeiro de Martha, rendida aos braços de seu George no chão do palco da Broadway, tal qual uma criança indefesa, mas consciente de seu lugar: “Quem-tem-medo-de-Virginia-Woolf-Virginia-Woolf-Virginia-Woolf?”. Kathleen Turner tem.

terça-feira, maio 31, 2005

Diretinho da Redação (16)



Defuntos redivivos apoiando seus candidatos favoritos em dia de eleição, compra de votos, gente comparecendo duas vezes à mesa eleitoral, denúncias de corrupção e tráfico de influência para todos os lados, três resultados diferentes em seis meses de apuração de votos. Aonde? Em Severinópolis? Não. Aqui, nos Estados Unidos mesmo, mais precisamente no estado de Washington, na costa oeste, cuja capital é a cosmopolita Seatlle.Esta semana televisões e jornais daqui acompanham com atenção mais um capítulo desta sitcom política que não tem data para terminar. A Côrte Estadual de Washington começou a ouvir os advogados do candidato republicano, Dino Rossi, que perdeu o pleito de novembro, depois de três recontagens, para a democrata Chrsitine Gregoire, por 129 votos, em um universo de 2,8 milhões de eleitores. Ele não aceita a derrota. Se alguém decidir ligar hoje para o comitê de Dino Rossi vai encontrar do outro lado linha simpáticos atendentes dizendo “Rossi para governador, bom dia!”. Lobistas dos dois lados do campo político local rumaram para Seattle e, ao som do pós-grunge característico da bela cidade em que chove mais por ano do que em Londres, tentam sair vitoriosos desta queda-de-braço a qualquer custo.A qualquer custo mesmo. Os democratas anunciaram um ‘investimento’ de US$ 500 mil dólares – vindos em boa parte de sobras da caixa de campanha do senador Kerry em 2004 – em lobistas, advogados e material para a miliância. Os republicanos estimam que os custos finais da brincadeira, que deve seguir para a Suprema Côrte, já estão em US$ 3 milhões. O irônico é que a principal linha da defesa democrata para a acusação republicana de que inúmeras irreglaridades – como o voto dos mortos-vivos – foram cometidas em redutos liberais do estado é a de que as bandalhas também ocorreram, só que com mais intensidade, nos cantões conservadores. Todos concordam que corrupção elitoral houve, é claro.A eleição que nunca acaba está sendo acompanhada, ‘atentamente’, pela Casa Branca, avisa o cada vez mais poderoso líder do governo no senado, Bill Frist. E nós com isso? George Bush, é verdade, não apareceu na tevê dizendo que apóia as obstruções de Dino Rossi porque, afinal de contas, ‘parceiro ajuda parceiro’. Mas, no exato momento em que a sociedade brasileira se debate com mais um escândalo, desta vez envolvendo a aliança PT-PTB, é bom lembrar que corrupção não cheira mal apenas no Brasil. Que é uma vantagem e um direito democrático podermos vê-la estampada de modo gritante nas primeiras páginas dos jornais, para horror de governistas e guardiães do $, aflitos por conta de uma virtual contaminação da crise política nos humores do mercado. Cá como lá, o importante é apurar. CPI já.

sexta-feira, maio 20, 2005

Diretinho da Redação (15)



Na semana passada comecei a reproduzir aqui o texto do escritor alemão Günter Grass, uma reflexão publicada no The New York Times sobre os 60 anos de democracia na Alemanha pós-Hitler. Grass trata da crise da representação parlamentar, do esgotamento da classe política e principalmente da derrocada do ideal democrático frente a um novo tipo de totalitarismo - o absolutismo do mercado. Segue aqui a segunda parte do texto, não menos contundente:

· "Hoje há quase um 'consenso' de que o preço a pagar para se 'viver em liberdade' é o da diminuição do emprego direto, dentro desta lógica perversa da tal globalização. Aqui na Alemanha, o aumento do lucro do setor industrial e o incremento nas exportações não significa mais o incremento de postos de trabalho. A esperança de ter toda a sociedade alemã empregada desmanchou-se no ar. E tudo é visto como se ordenado por Deus, 'como tinha de ser'.

· Aqueles que ousam apontar para o crime de se condenar uma parte da população ao 'esquecimento social' são ridicularizados por jovens jornalistas. Estes os chamam de 'românticos sociais' ou 'bonzinhos'. Dúvidas sobre os motivos reais para o aumento do fosso cada vez maior que separa ricos de pobres são ignoradas a título de se evitar o retorno de uma 'política do ódio'. O desejo por Justiça é considerado ridículo e utópico. O conceito de solidariedade é relegado à lista de palavras estrangeiras no dicionário.

· Embora nós não soubéssemos inicialmente o que fazer com a liberdade que nos foi dada de bandeja, nós fomos aprendendo gradualmente a lidar com a tal da democracia. A geração de 68 nos ofereceu, ao mesmo tempo, um diferente tipo de liderança política e uma clara noção de tolerância. Também descobrimos que nosso passado, nosa herança alemã, estará sempre presente para nos assombrar, passada de avô para pai, de pai para filho. Pense nos neo-nazistas, que, volta e meia, nos presentearam, nestes 60 anos, com o espelho do desrespeito. Ainda assim, nós sentíamos que a democracia tinha chegado aqui para ficar.

· Tarde, talvez tarde demais, nós viemos a reconhecer que a ameaça à nação alemã, o que deveríamos chamar de inimigo público número 1, não vem do radicalismo conservador de direita, mas da impotência de toda a nossa classe política, que deixa centenas de cidadãos desprotegidos frente às ordens da economia. O que está sendo destruído, diariamente, na Alemanha, não é o Estado, mas a Democracia.

· Hoje nós podemos apenas ter a esperança de que poderemos lidar com o novo risco de totalitarismo, sustentado pela última ideologia viva no mundo globalizado. No papel de democratas conscientes nós deveríamos resistir ao poder do mercado e lutar pela liberdade mais uma vez perdida. A ideologia vigente enxerga o homem como pouco mais do que alguma coisa que consume e produz. E só. Estes que encaram a liberdade com que foram presenteados seis décadas astrás como se esta fosse um investimento na bolsa de valores não entenderam absolutamente nada do que o Dia 8 de Maio de 1945 nos ensina ano após ano."

sexta-feira, maio 13, 2005

Riot On The Radio!!!


Ontem fomos ao show do The Dead 60's - o nome é ótimo! - no Northsix, um clube aqui de Williamsburg. Eles são quatro meninos de Liverpool que ouviram Clash até dizer chega e fazem parte de uma cena que também inclui o The Coral e o The Zutons. No ano passado eles abriram os shows da turnê inglesa do Morrisey e este ano vão fazer o abre-alas da nova sensação aqui do Brooklyn, o The Bravery.

Riot On The Radio!!! (1)


O The Dead 60's ainda não têm CD na praça e está fazendo a primeira excursão aqui pela Costa Leste. O show foi delicioso e duas de suas músicas não saem do meu iPod: You're Not The Law e, principalmente, Riot On The Radio. As letras são legais - nada de fantástico - mas o que chama mesmo a atenção são, pela ordem, a guitarra de Ben Gordon e a voz e as melodias criadas por Matt McManamon. Assim como Matt, o baixista Charlie Turner é de Penny Lane, onde o culto aos Beatles e à mítica dos anos 60 é mais do que exacerbado. Daí para The Dead 60's foi um pulo. E tome Clash, Specials e muito ska e dub. Só não dançou quem não quis.

quinta-feira, maio 12, 2005

Diretinho da Redação (14)


O texto abaixo pode ser lido em www.diretodaredacao.com

Lá se foram 60 anos da rendição dos nazistas às tropas aliadas. Enquanto Putin e Bush mediam suas diferenças em Moscou, da cidade de Leipzig, o grande escritor embalava seu libelo. Leipzig foi palco das maiores manifestações pela democracia e contra o regime comunista da Alemanha Oriental em 1989. Lá vive o prêmio Nobel de literatura Günter Grass, autor do texto publicado neste sábado no "The New York Times", que fala muito do mundo em que vivemos, hoje, aqui em Nova Iorque, lá em Leipzig, aí no Brasil. Reproduzo, abaixo, alguns dos trechos mais interessantes do artigo. Semana que vem espero incluir a segunda parte. Aqui, Grass trata da crise da representação política no mundo de hoje - qualquer semelhança com o "severínico" Congresso Nacional não é mera coincidência - e da dificuldade de se lidar com uma liberdade que nos é oferecida e não conquistada.

· "Quando o dia 8 de maio chega eu fico sempre pensando nas celebrações do 'Dia da Libertação', com seus discursos burocráticos e pomposos e me pergunto 'Do que nós, alemães, podemos nos orgulhar?' A primeira resposta é a de termos conseguido, de fato, nos libertar, embora esta liberdade nos tenha sido dada de presente, nos tenha sido empurrada goela abaixo. Não lutamos por ela.

· A questão hoje, então, é a de se pensar se nós realmente usamos bem esta liberdade que nós não conquistamos, mas que nos foi dada? Será que os cidadãos da Alemanha Ocidental compensaram da maneira devida os alemães orientais, que, no fim das contas, foram os que pagaram mais caro pela guerra iniciada e perdida por todos os alemães? E será que nossa democracia parlamentar tem soberania suficiente para garantir a liberdade de se enfrentar os problemas que nos afligem no século XXI?

· Quinze anos depois da unificação, os cidadãos da antiga Alemanha Oriental são considerados pessoas de segunda-classe. O índice de desemprego é duas vezes mais alto no lado leste e não há o mínimo respeito no lado ocidental por um curriculum de trabalhadores que passaramboa parte de sua vida do outro lado do país. Somos um país de 15 milhões de desempregados. A emigração é diária e cidades inteiras estão sendo apagadas da história, esvaziadas da noite para o dia. Depois de comandarem a privatização das empresas estatais do lado oriental, com as barganhas que estes processos sempre incluem, empresários e bancários pararam de investir nesta área do país e os empregos desapareceram. A única saída possível está no Parlamento, que representam a sociedade.

· Mas será que nossos congressistas, eleitos democraticamente, são livres para decidir algum coisa, qualquer coisa que seja? Na Alemanha, mais do que a ideologia dos partidos políticos, grassa o reino dos lobistas, com seus múltiplos interesses, cerceando a atuação dos parlamentares. Conseqüentemente, nosso Parlamento não é soberano em suas decisões. Ele é guiado vergonhosamente por bancos e corporações nacionais - que, por sua vez, não são submetidos a nenhum controle democrático.

· O que nós mais precisamos é de um democrático desejo de se protejer o Parlamento contra as pressões de lobistas que querem mantê-lo inacessível às pressões populares. Mas nossos políticos são suficientemente 'libertos' para optarem por um ato radicalmente, verdadeiramente democrático? Ou nossa liberdade, hoje, 60 anos depois, vale menos do que o lucro acumulado diariamente na bolsa de valores?"

domingo, maio 08, 2005

Günter Grass

Neste fim de semana o genial escritor alemão Günter Grass – Nobel de Literatura, safra 1999 – publicou um artigo no The New York Times que merece ser lido. Um dos analistas mais exatos do século que passou, Grass parte dos 60 anos de rendição do Reich nazista, que serão completos amanhã, para discutir a fragilidade das democracias modernas e de seu sistema representativo. Vale a leitura, infelizmente, apenas no inglês, aqui embaixo ou no http://www.nytimes.com, para leitores cadastrados.

The Gravest Generation
By GÜNTER GRASS


Lübeck, Germany - Tomorrow, it will be 60 years to the day since the German Reich's unconditional surrender. That is equivalent to a working life with a pension to look forward to. It goes so far back that memory, that wide-meshed sieve, is in danger of forgetting it.
Sixty years ago, after being wounded in the chaotic retreat in Lausitz, I lay in a hospital with a flesh wound in my right thigh and a bean-sized shell splinter in my right shoulder. The hospital was in Marienbad, a military hospital town that had been occupied by American soldiers a few days earlier, at the same time as Soviet forces were occupying the neighboring town of Karlsbad. In Marienbad, on May 8, I was a naïve 17-year-old who had believed in the ultimate victory right to the end. Those who had survived the mass murder in the German concentration camps could regard themselves as liberated, although they were in no physical condition to enjoy their freedom. But for me it was not the hour of liberation; rather, I was beset by the empty feeling of humiliation following total defeat.


When May 8 comes round again and is celebrated in complacent official speeches as liberation day, this can only be in hindsight, especially as we Germans did little if anything for our liberation. In the initial postwar years our lives were determined by hunger and cold, the misery of refugees, the displaced and bombed-out. In all four zones occupied by the wartime allies - Britain, France, the Soviet Union and the United States - the only way to manage the ever increasing crush of the more than 12 million Germans who had fled from, or been driven out of, East and West Prussia, Pomerania, Silesia and the Sudetenland, was to force them into our own cramped living rooms.

Whenever the question is posed, "What can we Germans be proud of?", the first thing we should mention is this essential achievement - even though it was forced on us. We had hardly become used to freedom when compulsion had to be applied. As a result, in both German states, huge long-term camps for refugees and displaced persons were avoided. The risk of building up feelings of hate was thereby diverted, as was the desire for revenge engendered by years of camp life, which, as today's world shows, can result in terrorism and counterterrorism.

Even then there were spokesmen for the rhetoric of liberation. So many self-appointed anti-fascists suddenly set the tone, so much so that one was entitled to ask: how had Hitler been able to make headway against such strong resistance? Dirty linen was quickly washed clean, with people being absolved of all responsibility. Counterfeiters were busy coining new expressions and putting them into circulation. "Unconditional surrender" was changed to "collapse." Although in business, law and in the rapidly re-emerging schools and universities, even the diplomatic service, many former National Socialists maintained their hereditary wealth, stayed in office, continued to hold onto their university chairs and eventually continued their careers in politics, it was claimed that we were starting from "zero hour" or square one.

A particularly infamous distortion of facts can be seen even today in speeches and publications, with the crimes perpetrated by Germans described as "misdeeds perpetrated in the name of the German people." In addition, language was used in two different ways to herald the future division of the country. In the Soviet-occupied zone, the Red Army had liberated Germany from the fascist terror all by itself; in the Western occupied zones, the honor of having freed not only Germany but the whole of Europe from Nazi domination was shared exclusively by the Americans, the British and the French.

In the cold war that quickly followed, German states that had existed since 1949 consistently fell to one or other power bloc, whereupon the governments of both national entities sought to present themselves as model pupils of their respective dominating powers. Forty years later, during the glasnost period, it was in fact the Soviet Union that broke up the Democratic Republic, which had by that point become a burden. The Federal Republic's almost unconditional subservience to the United States was broken for the first time when the Social Democratic-Green ruling coalition decided to make use of the freedom given to us in sovereign terms 60 years ago, by refusing to allow German soldiers to participate in the Iraq war.

THE question today, then, is have we dealt carefully with the freedom that we did not win, but was given to us? Have the citizens of West Germany properly compensated the citizens of the former Democratic Republic, who, after all, had to bear the main burden of the war begun and lost by all Germans? And a further question: is our parliamentary democracy still sufficiently sovereign as a guarantor of freedom of action to act on the problems facing us in the 21st century?

Fifteen years after signing the treaty on unification, we can no longer conceal that despite the financial achievements, German unity has essentially been a failure. Petty calculation prevented the government of the time from submitting to the citizens of both states a new constitution relevant to the endeavors of Germany as a whole. It is therefore hardly surprising that people in the former East Germany should regard themselves as second-class Germans.

The jobless rate is twice as high as in the former West Germany. West German arrogance had no respect for people with East German résumés. The mass migration, feared from the beginning, is happening now, daily. Whole areas of the country, its cities and its villages, are being emptied. After the Treuhandanstalt, the entity responsible for privatizing East Germany, had completed its bargain sales, West German industry and banks withheld the necessary investment and loans and, consequently, no jobs were created. Here, fine exhortations have been of little use. To right this skewed situation, only Parliament, the lawmakers, can help. Which brings us back to the question of whether parliamentary democracy is able to act.

Now, I believe that our freely elected members of Parliament are no longer free to decide. The customary party pressures are not particularly present in Germany; it is, rather, the ring of lobbyists with their multifarious interests that constricts and influences the Federal Parliament and its democratically elected members, placing them under pressure and forcing them into disharmony, even when framing and deciding the content of laws. Consequently, Parliament is no longer sovereign in its decisions. It is steered by the banks and multinational corporations - which are not subject to any democratic control.

What's needed is a democratic desire to protect Parliament against the pressures of the lobbyists by making it inviolable. But are our parliamentarians still sufficiently free to make a decision that would bring radical democratic constraint? Or is our freedom now no more than a stock market profit?

We all are witnesses to the fact that production is being demolished worldwide, that so-called hostile and friendly takeovers are destroying thousands of jobs, that the mere announcement of measures like the dismissal of workers and employees makes share prices rise, and this is regarded unthinkingly as the price to be paid for "living in freedom."

The consequences of this development disguised as globalization are clearly coming to light and can be read from the statistics. With the consistently high number of jobless, which in Germany has now reached five million, and the equally constant refusal of industry to create jobs, despite demonstrably higher earnings, especially from exports, the hope of full employment has evaporated.

Older employees, who still had years of work left in them, are pushed into early retirement. Young people are denied the skills for entering the world of work. Even worse, with complaints that an aging population is a threat and simultaneous demands, repeated parrot-fashion, to do more for young people and education, the Federal Republic - still a rich country - is permitting, to a shameful extent, the growth of what is called "child poverty."
All this is now accepted as if divinely ordained, accompanied at most by the customary national grumbles. Worse, those who point to this state of affairs and to the people forced into social oblivion are at best ridiculed by slick young journalists as "social romantics," but usually vilified as "do-gooders." Questions about the reasons for the growing gap between rich and poor are dismissed as "the politics of envy." The desire for justice is ridiculed as utopian. The concept of "solidarity" is relegated to the dictionary's list of foreign words.
THOUGH we initially did not know what to do with our freedom when we were given it 60 years ago, we gradually made use of this gift. We learned democracy and in doing so proved star pupils, because after all we were incontrovertibly German. With the benefit of hindsight, what was crammed into us through lectures was enough to get us a reasonable end-of-term report. We learned the interplay between government and opposition, whereupon long periods of government ultimately proved arid. The much lauded and reviled generation of '68 produced a different kind of political leaders and ultimately also tolerance. We had to acknowledge that our burdens could not be cast aside, they are passed by parents to children and that our German past, however much we travel and export, comes back to haunt us. Neo-Nazis repeatedly brought us into disrepute. Even so, we felt that democracy was here to stay.

It had to withstand several challenges. After the debris had been cleared and disposed of in both German states, reconstruction in the East proceeded under the constraints of the Stalinist system; but in the West, it took place under favorable conditions. What retrospectively is called the "economic miracle" was not, however, the result of any individual achievement but was won by many. Included in that number are displaced persons and refugees, those who had in fact to start at square one in terms of material possessions. We must not forget the contribution of foreign workers, initially politely called "guest workers." In the rebuilding phase businessmen were exemplary in investing every penny of profit into job creation. The trade unions and businesses were clearly aware of the decay of the Weimar Republic, so they were forced to compromise and ensure social equality.

With so much toil and profit-chasing, however, the past was in danger of being forgotten. Only in the 60's did we meet the second challenge, when writers and then the student protest movement began to ask questions about everything that the war generation would sooner forget. The protest movement strove for revolution but was paid off with reform; without it, we would still be living in the claustrophobic fog of the postwar years under Adenauer.
The third challenge arose when the Berlin Wall fell. The two German states had existed for four decades more against than beside each other. As there was no willingness on the Western side to offer equal rights to the East, the unity of the country has so far existed only on paper. It was all done too hastily and without an understanding of what far-reaching consequences this haste would have.

Since then, the expanded country has stagnated. Neither the Kohl government nor the Schröder government succeeded in correcting the initial errors. Lately, perhaps too late, we have come to recognize that the threat to the state, or what should be regarded as Public Enemy No. 1, comes not from right-wing radicalism but rather, from the impotence of politics, which leaves citizens exposed and unprotected from the dictates of the economy. What is being destroyed, then, is not the state, which survives, but democracy.

When the German Reich unconditionally surrendered 60 years ago, a system of power and terror was thereby defeated. This system, which had caused fear throughout Europe for 12 years, still casts its shadow today. We Germans have repeatedly faced up to this inherited shame and have been forced to do so if we hesitated. The memory of the suffering that we caused others and ourselves has been kept alive through the generations. Compared with other nations which have to live with shame acquired elsewhere - I'm thinking of Japan, Turkey, the former European colonial powers - we have not shaken off the burden of our past. It will remain part of our history as a challenge.

We can only hope we will be able to cope with today's risk of a new totalitarianism, backed as it is by the world's last remaining ideology. As conscious democrats, we should freely resist the power of capital, which sees mankind as nothing more than something which consumes and produces. Those who treat their donated freedom as a stock market profit have failed to understand what May 8 teaches us every year.






Diretinho da Redação (13)


A Sua Língua Portuguesa na O.N.U.? Babau, Seu Nicolau!

A personagem de Nicole Kidman no filme A Intérprete, em cartaz nos Estados Unidos e no Brasil, não poderia ser uma tradutora de português locada na sede da O.N.U., aqui em Nova Iorque. Quem me diz isso é Sebastião Coelho, da Missão Portuguesa na Organização das Nações Unidas, com quem conversei esta semana. Eleito pela segunda vez vice-presidente do Comitê de Informação, Coelho é um dos mais aguerridos defensores da inclusão da língua portuguesa como uma das oficiais da insituição. No momento, elas são seis - inglês, espanhol, francês, chinês, árabe e russo.

É claro que imediatamente se observa que outras línguas como o alemão e o japonês, por exemplo, não desfrutam do mesmo status das acima mencionadas, mas é o português que vem se destacando, me garante Coelho, nos últimos anos. "A inclusão da nossa língua como uma das oficiais da instituição está relacionada, é claro, com a posição do Brasil no cenário mundial e com sua ambição de se tornar membro permanente do Conselho de Segurança da ONU", diz.

A reeleição de Coelho tem grande importância para este pleito pois o Comitê de Informação é o único órgão apto a discutir o uso das diversas línguas faladas pelos membros da entidade. Uma de suas metas é criar um comitê regional dedicado à disseminação do português entre os países-membros da O.N.U, com sede em Luanda, Angola. No momento o português é a única língua não-oficial que mantém um serviço diário e uma página na internet dentro dos domínios da ONU, com uma abnegada equipe formada por três brasileiros e um cabo-verdiano. "Somos quase que uma sétima língua da insitituição. Está na hora de tornar isso legítimo", diz Coelho.

No filme de Sydney Pollack - infelizmente mais próximo de seu boboca A Firma do que do ótimo Três Dias do Condor - Nicole Kidman escuta, por acaso, uma conversa entre dois personagens aparentemente tramando o assassinato de um figurão da política internacional. Se a dupla estivesse conspirando em português, me diz Coelho, babau, seu Nicolau. Ninguém iria ficar sabendo dos planos obscuros e a morte, vá lá, não seria evitada.

A Intérprete tem como mérito o fato de ser a primeira produção a receber o sinal verde da casa para filmar dentro da O.N.U. Nada muito além disso. Vale pela curiosidade de se ver o local onde se realizam as Assembléias Gerais e de se pensar que a reforma da insituição, inevitável, será uma peleja dura, com catimba e muito jogo de interesse. Sexta língua mais falada do planeta, o português nosso de cada dia precisa subir um degrau em seu status, me diz Coelho, atraindo mais atenção, negócios e capital para os países falantes da língua. Quem sabe até a Nicole Kidman não queira aprender...

quarta-feira, maio 04, 2005

É Coisa Deles, Também

Tem gente que pensa que corrupção, assim como a saudade, o violão e a palhoça, são coisas nossas, muito nossas. Nem sempre. Hoje os jornais e tevês daqui contam a historinha do prefeito Kwame M. Kilpatrick, de Detroit, no Meio-Oeste do país. O alcaide da Motown, hoje uma cidade falida, campeã do desemprego nos Estados Unidos, com um um rombo orçamentário estimado em US$ 230 milhões, aparentemente usou US$ 210 milhões, nos últimos quatro anos, para custear suas viagens, alimentação e pelo menos uma caríssima garrafa de champagne de primeira, todas aparecendo no seu cartão de crédito de gastos da prefeitura.

Kilpatrick foi eleito em 2002 pelo Partido Democrata para um período de quatro anos de governo. Cientista político e capitão da equipe de futebol americano de sua unviersidade, entre as credenciais do prefeito também incluía a de ter sido o primeiro negro a liderar um partido político na história do Michigan. O mais jovem prefeito da história de Detroit soltou uma nota oficial hoje, através de sua assessoria de imprensa. Nela dizia que as viagens e despesas com ‘diversão’ eram parte de seu enorme esforço de atrair negócios para a cidade. Parece que não deu lá muito certo.

Uma Senhora Carta

Esta é a carta que a mãe de minha amiga Gabriela Máximo enviou ao jornal “O Globo” e que vale à pena ser dividida com os que são, como diz Gabi, sensíveis com um “S” bem grande, para lá de maiúsculo. Viva Dona Maria Alice e viva Marcela!

Para a Seção de Cartas do Segundo Caderno

Marcela, uma menina linda de onze anos, que cursa o primeiro grau, é uma das pessoas mais felizes que conheço. Gosta de coisas que as meninas da sua idade gostam. Dança jazz, faz teatro, desfilará este mês, convidada pela segunda vez, para uma grife de moda para pré-adolescentes. Mas não é por esse seu lado "alegre exibido" que ela mais marca sua presença no mundo. É por sua capacidade de dar e promover amor, por seu interesse genuíno na felicidade dos outros, pela facilidade com que dilui tensões e aproxima as pessoas à sua volta.

Na verdade, pela maneira suave com que nos torna, em seu convívio, pessoas melhores e mais felizes. Marcela é minha neta e tem síndrome de Down. Ao ler o Segundo Caderno hoje ( Gente Boa, 3/5 ), tive vontade de dizer isso e muito mais ao Romário e à Isabela. Tive vontade, principalmente, de felicitá-los pela chegada de sua princesinha e pela atitude bonita de exibi-la com orgulho como a exibiriam se ela não fosse Down.

Nem todos os pais demonstram de imediato essa aceitação. Por ser Romário a figura pública querida e respeitada que é, ele já está fazendo, em pouco mais de um mês, muito pela mudança de atitude das pessoas em relação aos portadores dessa síndrome. É na atitude preconceituosa de muitos, nascida da ignorância e da pouca capacidade de amar, que Marcela, Ivy e tantas outras pessoas encontram seus maiores problemas a superar.

Maria Alice Máximo/alicemaximo@superig.com.br

quarta-feira, abril 27, 2005

Diretinho da Redação (12)



(Mais) uma história americana



Em cartaz nos cinemas do Brasil, “O Lenhador” não é nem esta coca-cola toda. O filme conta, em quase uma hora e meia, a história de Walter, um pedófilo que acaba de ser libertado da prisão e revela seu dia-a-dia entre visitas ao psiquiatra e passeios em parques de uma pequena cidade do estado da Pensilvânia, também freqüentado por meninas de 10 a 12 anos, fixação sexual do personagem. Disponível em DVD aqui nos Estados Unidos, o filme vem enfrentando uma desproporcional campanha de setores conservadores que consideram a produção simpática à pedofilia e não entendem o motivo pelo qual um casal de nova-iorquinos simpáticos com filhos pequenos - os atores Kevin Bacon e Kyra Sedgwick - aceitou o convite da estreante diretora Nicole Kassel para estrelar seu controverso filme.

Levar “O Lenhador”, adaptado de uma peça teatral alternativa, para as telas, não foi fácil. Depois de inúmeras negativas, Kassel só encontrou apoio financeiro nos mesmos produtores de “Monster’'s Ball”, o filme que rendeu o Oscar de melhor atriz para Halle Berry em 2002. O Walter de Bacon é uma de suas melhores criações e Kassel evita cacoetes maniqueístas, tão ao gosto dos americanos. Ao contrário, ela apresenta a violência contra crianças como um fato corriqueiro nos Estados Unidos. É justamente ao se deparar com crianças e mulheres vítimas de outros abusos, ao atinar com a dimensão da doença social, que Walter considera, talvez, quem sabe, a possibilidade de uma recuperação. Não há santos, demônios, receitas de auto-ajuda ou garantia de cura aqui.

Nas muitas entrevistas em que Bacon e Sedgwick tiveram de explicar o porquê de se envolverem em “O Lenhador”, o casal, junto há 16 anos, sempre apontava para a responsabilidade social de tratar de algo que não pode, na visão dos atores, ser tratado de forma convencional. No processo de pesquisa para encarnarem seus personagens - Sedgwick faz a mulher vítima de abuso de seus três irmãos mais velhos que se apaixona por Walter - o casal se deparou com doença, vício, falta de amor, crime.

Nesta mesma semana em que o filme - com severas restrições - chegou à casa dos americanos, aqui em Nova Iorque uma história de abuso de crianças em uma escola pública ganhou destaque no noticiário local. Investigadores do sistema municipal de educação pública acusaram a professora-assistente Nancy Miller, de uma escola em Queens Village, de violentar filhos de imigrantes haitianos em uma semana de março último.

Irritada com o comportamento dos alunos de famílias oriundas do Haiti - crianças entre 9 e 11 anos - ela os obrigou, ao contrário dos outros estudantes, a comer no chão, sem talheres, “como hatianos, como animais que vocês são”, no depoimento das vítimas. Ainda segundo os estudantes, outras crianças riam, de modo debochado, enquanto comiam sua merenda normalmente na mesa da sala de aula. A escola anunciou ontem que, embora não tenha conseguido provas de ‘discriminação étnica ou racial’ (as crianças são negras, a senhora Miller não é), a professora já foi afastada da escola e será demitida por justa causa. Depois de entrevistarem 27 testemunhas - entre alunos, pais e outros professores - os investigadores não têm dúvida de que as crianças do Queens foram violentadas. Para os produtores de “O Lenhador”, trata-se de mais uma evidência de que o abuso de crianças permanece, infelizmente, longe de ser tema esgotado no dia-a-dia da América.

domingo, abril 24, 2005

Diretinho da Redação (11)



Capitalismo de Desastre

O que Iraque, Indonésia, Sri Lanka, Afeganistão e Haiti têm em comum? São países que, por diferentes motivos, vivem às voltas com o que a escritora Naomi Klein batiza de Capitalismo de Desastre. Em artigo que ganhou a capa da The Nation que está nas bancas daqui, a autora do campeão de vendas Sem Logo aponta para a "ideologia da reconstrução", na verdade um disfarce para uma forma recauchutada do velho colonialismo de quinta categoria.

Klein conta que, em agosto último, em um ato que despertou pouco interesse da mídia, o governo Bush criou o cargo de Coordenador de Reconstrução e Estabilização, comandado pelo embaixador Carlos Pascual, dentro do poderoso Departamento de Estado. Curta e grossa, Klein não titubeia: "um governo que vem se dedicando a perpetuar a destruição prévia de países que não o atacaram agora cria um departamento para perpetuar a reconstrução prévia".

Do pequeno escritório de Pascual em Washington já foram traçados, em quase um ano de trabalho, cenários de "ocupação" e "reconstrução" para 25 países em todo o globo. Seus esforços já garantem à administração Bush a possibilidade de coordenar três "operações de reconstrução em larga escala em diferentes países, ao mesmo tempo, em um período de cinco a sete anos".

Em outubro, em uma conferência aqui no Center for Strategic and International Studies, Pascual contou que algumas empresas particulares, ONGs e think-thanks já foram até contratatados para reconstruir países que ainda não foram "destruídos". Para o governo Bush, trata-se de um bom negócio, pois esta antecedência "diminui em até seis meses o esforço de reconstrução". Klein conta que em Washington o escritório de Pascual é conhecido como o "daqueles homens que podem fabricar de fato um novo país". Se não se gosta do jeito que as coisas vão indo no Irã, na Síria ou na Venezuela, elabora-se um plano que vai dar o que se convencionou chamar aqui de 'choque social' no país invadido. E pronto.

O novíssimo Capitalismo de Desastre entra em cena como a faceta mais perversa do colonialismo do Terceiro Milênio, ainda interessado em levar a luz a terras nunca dantes civilizadas. Estas, agora, no entanto, não são mais os "novos mundos a serem descobertos", mas as muitas áreas em "estado de destruição" - seja por conta de tragédias naturais, como tsunamis e terremotos, ou por soldados armados. Atos de Deus ou de Bush, não importa. O que vale é "reconstruir".

Medo e desespero são as matérias-primas por excelência do Capitalismo de Desastre. Herman Kumara, líder de uma ONG dedicada a ajudar as famílias de pescadores desabrigadas no Sri Lanka, conta que seu país está enfrentando um "segundo tsunami de globalização corporativa e militarização". Moradores estão sendo forçados pelo governo a não reerguerem suas casas em frente ao mar. Estas áreas estão sendo entregues, diz Klein, a multinacionais interessadas em erguer uma série de resorts voltados para o tursimo de luxo. No Iraque, antes mesmo de a guerra terminar oficialmente, o governo americano anunciou a privatização de inúmeras indústrias estatais.

Um estupendo negócio, a "reconstrução" de países destruídos permite a empresas como a conhecida Halliburton fecharem contratos de US$ 10 bilhões cada para "ações de reestruturação" no Iraque e no Afeganistão. Não por acaso, o Banco Mundial vai cair agora nas mãos afoitas do Secretário de Defesa dos Estados Unidos, Paul Wolfowitz. A lógica é crua: cabe a quem pôs abaixo a tarefa de reedificar o que ruiu.

No Haiti, o Banco já propõe uma "parceria em todas as decisões governamentais envolvendo os setores de Educação e Saúde" como contra-partida para um investimento de US$ 61 milhões. O Departamento de Estado de Bush mandou avisar que "recomenda" ao Haiti a imediata privatização de empresas ainda presas às amarras do setor público. Detalhe importante - no passado, o Banco negou repetidas vezes auxílio ao país por conta do caráter anti-democrático do governo Aristide, deposto em um golpe de Estado. Lá, como Klein e todos nós sabemos, coube aos soldados brasileiros o comando da Força de Paz da ONU. Tarefa árdua, inglória e, até onde se sabe, sem conexão direta com o escritório do poderoso senhor Pascual.

É Primavera!



De volta a Nova Iorque depois de três semanas no Rio. A Primavera chegou, as ruas estão todas floridas e as árvores da Washington Avenue estão todas em festa. É Primavera!

Diretinho da Redação (10)


Assim Falou Niemeyer

É impossível ter passado a vida no Rio de Janeiro, uma cidade socialmente cortada de modo tão brutal e não se perceber um revoltado. Quem me diz isso é o arquiteto Oscar Niemeyer, 97 anos muito bem vividos, a maior parte aqui na cidade que ele ajudou a tirar do posto de capital federal quarenta e cinco outonos atrás.

Lúcido, rápido e direto, apesar do baque recente da perda da mulher, companheira de toda a vida, Niemeyer ainda se surpreende com os que gostam de viver em Brasília. Abre os olhos pequeninos e me diz que, apesar do caos, da violência e da crescente alienação de uma classe média desinteressada pelo dia-a-dia da população carente, ele ainda gosta mesmo é do Rio.

Com a mesma ênfase dada por cariocas menos ilustres, ele confessa que o Rio de que gosta já não existe mais. Sabe que ainda há as montanhas, o verde e, principalmente, o mar, despudoradamente exposto em seu escritório, uma confortável cobertura na Avenida Atlântica. Mas o século de militância política e busca incessante pela solidariedade humana não alterou a estrutura do edifício Oscar Niemeyer. Que não acredita em Deus mas adora todas as religiões e que repete, feito ladainha em procissão católica, o mote de que a vida, sempre, é muito mais importante do que o trabalho.

Um dia, cochicha-me, o tempo vai apagar sua arquitetura. O sambódromo, com apoteose e tudo, e o antigo Ministério da Educação também. A Pampulha. O prédio da ONU. Até mesmo Brasília vai desaparecer. Ele não se ilude. Mas antes disso, o Rio vai voltar a ser o que era. Está lá nas escrituras de Niemeyer.

O profeta não lê mensagens secretas nas passeatas pela paz da burguesia assustada. Não enxerga o futuro na gente vestida de branco, marchando na orla ao lado de artistas que cobram cachês milionários para aparecer em mesas-redondas promovidas por grandes empresas estatais para falar do nada. Não.

Seu oráculo é mais abrangente. Os signos, ensina, estão nas ribanceiras. O último comunista de Copacabana atravessou um século testemunha da lei natural de que a maioria, sempre, vence. Um dia, ele me conta, esta gente toda que se aperta lá no alto vai descer. Vai tomar a cidade de volta. É inevitável. Os revoltados, ele sabe, se reconhecerão. E erguerão, concreto sobre concreto, uma outra cidade maravilhosa. Assim me disse Niemeyer.

quinta-feira, março 24, 2005

Diretinho da Redação (9)



O texto tambem pode ser lido em www.diretodaredacao.com

Da Barra De Ser Negro, Nos EUA, Hoje

Nunca foi tão difícil ser negro nos Estados Unidos. Quem diz isso é o sociólogo Elijah Anderson, professor da Pennsylvania University e autor do clássico Being Here And Being There, que pode ser encontrado, infelizmente apenas em inglês, em algumas boas livrarias do Brasil.

Sua afirmação pode ser facilmente combatida ao constatar-se que, neste exato momento, uma negra ocupa uma das principais posições políticas no governo do país. Condolezza Rice já é apontada como possível candidata à presidência. Em sua corrente edição, a Time diz que Rice já é "maior e mais popular" do que Bush no exterior. Também não se pode esquecer que Colin Powell, outro negro, foi quem passou o bastão da Secretaria de Estado para a sucessora. Um dos senadores mais festejados do flanco democrata, Barack Obama, é negro e foi eleito em Illinois no ano passado com votação excepcional.

Anderson sabe disso. Sua provocação se traduz no que ele chama de ponto-limite do processo de "cooptação" do negro na sociedade americana. De um lado da calçada estão os que, como ele próprio, conseguiram se formar na universidade, aproveitaram as oportunidades da política de afirmação, abocanharam uma vaga no serviço público e encontraram um novo lugar na sociedade. Do outro lado da calçada está o "superstar", que saiu da pobreza jogando basquete, cantando rap ou encontrando uma vaga na máquina de Hollywood. No meio da rua continua a maioria dos que não conseguiram se mover na pirâmide social da América do Norte e que são vistos como uma aberração ou ameaça à segurança e tranqüilidade da maioria ordeira e branca do país.

Anderson tem números. Durante dez anos na última década, metade da população negra de Nova Iorque ou não estava trabalhando ou vivia de sub-empregos. Mas ele também vai aonde o negro está. Foi em um lava-rápido de Filadélfia que ele descobriu um fator ainda mais intenso no processo de "auto-segregação" do negro. Os jovens "afro-americanos", que costumeiramente ajudavam o serviço do posto de gasolina local, foram substituídos por outros negros, que em geral não falam inglês. São imigrantes, vindos da África ou do Caribe, dispostos a ganhar menos da metade pelo mesmo serviço. Negros que não são reconhecidos como "irmãos" pelos que aqui já estavam há séculos.

Para complicar ainda mais o quebra-cabeças racial há o cada vez mais popular discurso da culpa da pobreza. Anderson acompanhou recentemente o comediante Bill Cosby em uma jornada até Newark, subúrbio de Nova Jérsei, que conta com uma enorme população negra. Oito jovens haviam sido assassinados nas ruas do bairro e a comunidade estava, compreensivelmente, em pânico. Cosby discursou, Jamseon conta, para uma igreja batista repleta. Ele culpou os negros por sua imobilidade e passividade social. Falou de estudos que provavam que "afro-americanos", como ele, absorviam menos nas escolas do que estudantes de outros grupos étnicos. E bradou: "Vocês precisam ter um plano de vida, uma meta. Vocês não têm nada!". Jameson destaca a total ausência de perspectiva histórica ou social no discurso imediatista conservador.

Os líderes dos Panteras Negras morreram ou foram desacreditados. A comunidade negra, nas últimas três décadas, sofreu como poucas a guerra das drogas nas ruas das grandes cidades deste país. Os rappers de Nova Iorque, jovens milionários, aparecem nos jornais populares da cidade em fotos que são feitas invariavelmente em dois cenários: estúdios de gravação ou portas de delegacias. Uma caminhada à tarde por bairros de alta população negra aqui no Brooklyn revela uma realidade muito semelhante à das favelas brasileiras: um número impressionante de homens adultos sentados, fumando, bebendo, conversando sobre Condolezza Rice. Jameson não poderia estar mais certo: nunca foi tão difícil ser negro nos Estados Unidos.

sexta-feira, março 18, 2005

Caiu do Céu?

Igualzinho à torcida do Flamengo, adorei Trainspotting. Peralá. Vou começar de novo. Igualzinho à imensa torcida do Voltaço, glorioso campeão da Taça Guanabara, eu curti pacas o primeiro filme de Danny Boyle, que caiu em minhas mãos. Não sou um fã ardoroso de A Praia, aquele com o Leonardo di Caprio, mas deixei de lado atrações mais sedutoras na quente noite recifense para me enfiar em uma sala de cinema com minha amiga Kika Serra e passar duas horas viajando por uma Londres sem viv’alma no inteligente 28 Hours Later. Por conta disso enfrentei a fila e me espremi em uma cadeira do multiplex da Union Square para ver Million, que estréia no Brasil com o infame título Caiu do Céu, já entregando metade da história, em 24 de junho. Vale o trocado. Os meninos Lewis Owen McGibbon e, especialmente, Alexander Nathan Etel, são sensacionais. E, como o hilário pai da dupla, James Nesbitt, o político-cabeça do interessante pseudo-documentário Sunday Bloody Sunday. Tá bom, o fim do filme, made in Africa, é quase uma fotografia da Anne Geddes em movimento, implora o espectador pelas palmas no fim da projeção – inevitáveis no cinemão de Manhattan – , breguinha mesmo. Mas as sacadas da câmera de Boyle e o desempenho de Etel, que bate animadíssimos papos com santos católicos, inclusive uma Santa Clara chegada em um bagulho jamaicano, são imperdíveis. Ih, vou indo que já contei demais...

quinta-feira, março 17, 2005

Diretinho da Redação (8)

Ouça, secretário!

Nesta sexta-feira o Ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Luiz Dulci, vai conversar com alunos e professores da Universidade de Nova Iorque (N.Y.U.). A idéia é contar a história do milagre do governo de esquerda que dá certo no lado meridional da América respeitando o mercado livre e as regras ditadas no número 700 da Rua 19, em Washington, sede do FMI. Muito que bem.

A palestra, entitulada “Dois Anos do Governo Lula: Progresso e Desafios”, deve ser bonita de ouvir. Mas quem sabe algum assessor não lembre o secretário de que, algumas vezes, não há nada mais saudável do que uma inversão de papéis. Que ouça mais do que fale. Que seja mais mineiro e menos petista. Se tiver tempo e disposição para tanto, Dulci vai descobrir que meninos e meninas de Manhattan andam, pelos corredores das universidades, buscando desesperadamente em quem acreditar. Igualzinho aos jovens brasileiros.

Talvez o camarada Dulci não saiba, mas nesta última quinta-feira três estudantes do City College, aqui nas terras de Bloomberg, foram mandados para o xilindró, no pior estilo da ditadura militar de que nos livramos há exatas duas décadas. Os meninos estavam protestando contra a presença de alistadores militares no que deveria ser uma feira de trabalho a fim de aproximar jovens talentosos de classe média-baixa de possíveis empregadores. Com os perigosos subversivos foram apreendidas faixas, bandeiras e adesivos, armas que o secretário Dulci manuseou com destreza anos a fio Brasilzão afora.

Há poucos dias tive a sorte de conhecer Chris Dugan, um jovem estudante que todos os dias deixa a sala de aula de seu curso de mestrado de Urbanismo para panfletar nos corredores do Hunter College. Sua causa é nobre – quer evitar que outros jovens sem dinheiro acabem parando no Iraque a fim de financiar sua educação. Exatamente como seu avô, ele virou fuzileiro naval. Decidiu abandonar as Forças Armadas anos atrás, ao conferir, em Belfast, a política de segurança dos Estados Unidos para o conflito entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte.

Quando descobriu que estava sendo entrevistado por um brasileiro, Chris, da maneira mais educada possível, me contou que o movimento estudantil norte-americano condena com a mesma ênfase a ocupação norte-americana no Iraque e a interferência internacional no Haiti. “Como é que podemos admirar a política externa de um país que aceita atuar como segunda-divisão das forças norte-americanas na América Latina? Como é que o governo do PT responde, no Brasil, às acusações de abusos de direitos humanos e atrocidades que nos chegam do Haiti? Nós tínhamos uma grande expectativa com relação ao Lula. Achávamos que ele poderia ser uma voz importante, que poderia inserir-se de modo inequívoco na história deste continente, mas estamos profundamente decepcionados”, me disse Chris.

Descendente de irlandeses, Chris vai comemorar esta semana o dia de São Patrício, padroeiro da Irlanda, comme il faut, entre goles de Guinness e boas lascas de Corned Beef. Se a ressaca permitir, no dia seguinte ele pretende ouvir a palestra de Dulci na N.Y.U. Do companheiro intelectual ele espera receber mais do que o Prato Feito das maravilhas do jeito petista de governar, com a cereja no topo da sobremesa principal, oferecida dias atrás pelo presidente chileno Ricardo Lagos com seus elogios rasgados ao governo Lula publicados na imprensa européia. Este, aliás, foi um gol de placa da diplomacia verde-e-amarela. Mas bem que o ministro Dulci poderia alimentar a alma dos curumins de cá contando por que, afinal de contas, o PT chegou ao poder. Será que ele se recorda?

Brazilian Girls - Bowery Ballroom - 16/03/2005

Uma noite com Sciubba no inverno congelante de Manhattan.

Acabo de chegar em casa depois do show das Brazilian Girls. Sensacional. A vocalista Sabina Sciubba entrou no palco do Bowery Ballroom empacotada em um pós-parangolé branco. Quando saiu de dentro do troço-pós-moderno a platéia, já hipnotizada, cantou junto, em francês, o coro de “Homme”. Sabina não via o público. Ela entrou em cena com uma fita adesiva xadrez sobre os olhos. Fita esta que ela não tira nem na volta ao palco, uma hora e meia depois, em um bis delicioso, com a vocalista sussurando, para alegria da galera: “I got a Problem. I got a Penis”.

Para quem chegou atrasado, Sabina é italiana e de brasileiro, além da dupla aqui do Brooklyn, podia-se reconhecer na platéia a Bebel Gilberto e o Pedro Baby, filho da Consuelo com o Gomes. Velhos baianos que somos, Will and I jantamos tarde no Havana Café, tempo suficiente para que as duas primeiras atrações – que incluíam um DJ underground cinqüentão – saíssem de cena.

As garotas espertas Meredith e Esther, com quem dividimos um dos sofás no espaço lounge do primeiro andar pouco antes de o show começar, disseram que não perdemos nada. Ou quase nada. Quando finalmente nos livramos do exército de seguranças vestidos de preto descobrimos que a casa do Lower East Side estava tão cheia, mas tão cheia, mas tão cheia que...não cabia mais um boné no locker room. Merda.

Casacos em punho – o plural aqui não é força de expressão, o inverno segue impiedoso em Nova Iorque – encaramos a pista do segundo andar, encontramos um bom espaço na boca do palco e dançamos, dançamos e dançamos a valer.

Sciubba e a banda mandam uma em inglês, outra em espanhol, mais uma em francês. Tem bossa nova, chanson, rap, música indiana, tango. E poesia. Declamada. Neruda. Também música de protesto dos camponeses alemães da idade média. Um mix da italiana doida que se traduz em um tributo moderníssimo ao fino da dance music dos anos 70.

E o melhor: apesar do hedonismo transpirado em cada movimento da vocalista, as Brazilian Girls têm horror à viadagem make-up oitentista. Elas não atraem somente os gays, felizes tributários da porção vamp de la Sciubba. O Bowery Ballroom está repleto de casais e de grupos de amigos vintões, trintões, quarentões e um ou outro cinquentão disfarçado de crítico de rock, com óculos de aro preto e boina vermelha. Ou amigo perdido do tal DJ que a gente não ouviu. Vai saber.

Não dá para ficar olhando muito para os lados. No palco, Didi Gutman nos teclados comanda uma farra que conta ainda com o baixo funkeado de Jesse Murphy, a bateria ensurdecedora de Aaron Johnston e o auxílio brejeiro de dois sopros em algumas músicas. E ela. A diva dos sujinhos de Manhattan. A italiana mais brasileira do Brooklyn. A performática que lembra a Rita Lee da época dos Mutantes, muleca que sabe tudo. Só não viu quem não quis. Ou quem preferiu fazer como Sciubba e dançou como Isadora, a noite toda, sem parar. Felicidade, hoje, foi um show das Brazilian Girls.

p.s: quem quiser pode entrar no http://www.braziliangirls.info/music.html e ouvir algumas das músicas do primeiro disco das B.G. Vale a clicada.

quarta-feira, março 09, 2005

Diretinho da Redação (7)



Coluna publicada hoje no Direto da Redação. Ta lá em www.diretodaredacao.com.


Entre a Morena do Chico e o Mico do Papa eu fico é com a Marinilda

Qual é o problema com a morena do Chico? Aparentemente a troca de carícias do casal na Praia do Leblon levou a imprensa brasileira a discutir temas relevantes semana passada como censura à imprensa, a relação promíscua de artistas com editores-chefes de jornais diários, a qualidade da informação do jornalismo brasileiro e até as virtudes e defeitos do casamento aberto. Falta de notícia? Calor demais? Calma, gente.

Aqui enfrentamos o inverno mais branco das últimas seis décadas. Neva pacas. Não tem calor, não tem praia, não tem Rio, não tem Leblon, não tem morena, não tem Chico. Mas tem Papa. Na semana passada, enquanto a Veja se dizia preocupada com a qualidade da informação recebida pelos leitores de O Globo, o New York Press demitia seu editor, Jeff Koyen, por conta de uma página inteira dedicada ao deboche do estado de saúde do Papa João Paulo II.

Aonde é que o NY Press, uma publicação semanal de distribuição gratuita especializada no - seja lá o que isso for - "jornalismo conservador alternativo" se encaixa, com todo o respeito, na morena do Chico e no chilique da Veja? Juro que não é o frio que me faz misturar alhos com bagulhos.

Ora, jornalismo marrom de direita não é exclusividade do NY Press, mas eles têm se excedido. No texto em questão, o virulento Matt Taibbi anunciava as 52 Coisas Mais Engraçadas Sobre a Cada Vez Mais Próxima Morte do Papa. Ilustrada com uma foto do Pontífice de mãos dadas com o comandante Fidel Castro, a matéria trazia, entre as tais 'coisas mais engraçadas', pérolas como imaginárias mensagens oficiais da Casa Branca. Primeiro, o presidente Bush, ao saber que o Papa está em coma: "Nossos pensamentos e preces estão agora com este grande homem e toda sua imensa prole". Em seguida, ao saber da morte do Santo Padre, a Casa Branca solta nova nota do Presidente: "O Papa nos tocou a todos em lugares que jamais poderíamos alcançar sozinhos". E por aí vai.

A gracinha irritou democratas e republicanos, católicos e ateus, e a direção do NY Press anunciou um basta. Deu um chega para lá em Taibbi e suspendeu o editor-chefe do jornal. Jeff Koyen preferiu se demitir, mas saiu proclamando-se um opositor da censura e de temas tabus. Insinuou que os donos e editores-chefes de jornalões norte-americanos são íntimos da cúpula da Igreja Católica e perguntou por que é que, afinal, não se pode brincar com o Papa?

Francisco Buarque de Hollanda, apesar da divertida campanha comandada pelo jornalista Ancelmo Góis, ainda não foi canonizado. A Folha de S.Paulo avisa que não encontrou na figura pública exemplar do irmão da Miúcha, e sim nos dois filhos pequenos da morena do Chico, o motivo principal da recusa em se publicar a foto do paparazzi. A Veja retruca, lembrando que este não foi o critério dos jornais ao tratarem da fofocada referente ao casamento de Ronaldinho e Cicarelli, lá na mesma Paris onde a revista agora quer exilar o autor do Samba de Orly.

Aqui do frio branco do Brooklyn, sem praia, sem morena, sem Chico e sem Leblon, fico mesmo é com a Marinilda Carvalho, que, lá no Observatório da Imprensa(http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/), dispara, hoje mesmo: "Estranha a crítica da Veja a quem deixou de cobrir o affair de Chico Buarque na praia. Segundo a revista, Ronaldinho não foi poupado em seu casamento, portanto não havia por que poupar o Chico. Mas não seria o caso de a revista condenar quem caçou notícia a qualquer preço no tal casamento? Quer dizer que o negócio é nivelar por baixo?".

segunda-feira, março 07, 2005

Carta Capital

Crônica publicada na edição de hoje da revista “Carta Capital’. Ta lá em www.cartacapital.terra.com.br.

“MENTIRAS MILITARES!” Eles são contra-recrutadores, dispostos a evitar que outros jovens se alistem nas Forças Armadas e sejam enviados para o Iraque.

Por Eduardo Graça, de Nova York

Noite gélida de quarta-feira no coração do Upper East Side, em Manhattan. No lobby do terceiro andar do Hunter College, estudantes abordam colegas e professores com o mesmo grito de guerra: “Mentiras Militares! Mentiras Militares!” Eles são contra-recrutadores, dispostos a evitar que outros jovens se alistem nas Forças Armadas e sejam enviados para o Iraque.

Chris Dugan, 27 anos, deixou para trás a escola secundária e se juntou, por quatro anos, ao corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos. Michael Stoll, 21 anos, cresceu em um subúrbio no estado de Nova York e jamais esqueceu das manifestações de protesto de parentes de soldados mortos nas guerras da Coréia e do Vietnã. Anna Wolf, 18 anos, é nova-iorquina da gema e se juntou ao Campus Antiwar Network (CAN) há um mês. O grupo, que já se espalha por quatro centenas de campi em todo o país, dedica-se a uma incansável ação de propaganda voltada para jovens de classe média baixa, alvo preferencial dos recrutadores militares. Explica Dugan:

– Eu me alistei porque achava que era a coisa mais patriótica que poderia fazer na vida. Mas a maioria dos jovens é seduzida pela chance de receber uma bolsa de estudos e aposentadoria especial, o que nem sempre acontece.

Minutos depois, ele recebe a informação de que um estudante do Hunter, de 18 anos, está alarmado com a possibilidade de ter de largar a escola para passar algum tempo a serviço da Marinha mais poderosa do globo. Vlad acaba de iniciar o curso de Psicologia da universidade:

– Eu me alistei no ano passado porque estava interessado na grana. Foi a maior estupidez que fiz na vida e agora não sei o que fazer para sair dessa. Quando deixei claro que estava arrependido, os alistadores me disseram que não havia caminho de volta e que, se eu sujasse a minha ficha militar, não conseguiria emprego nem no McDonald’s.

O estudante alegou problemas médicos para suspender o processo de alistamento e, por isso, não revela o seu sobrenome. Enquanto ouve atentamente a catequese de Dugan, ele burila seus óculos de aro fino para lá e para cá. Dugan o acalma:

– Você não precisa ter medo. Se ainda não prestou juramento, tudo o que precisa fazer é escrever uma carta de próprio punho e enviar para o serviço de alistamento de seu bairro – diz o contra-recrutador.

Dugan fala com a experiência de quem passou um ano trabalhando justamente como recrutador militar. Vinte minutos depois, um aliviado Vlad deixa o corredor com os telefones de contato de advogados que, voluntariamente, ajudam o CAN a enfrentar a batalha de propaganda em torno da questão militar.

Em meados de fevereiro, o Exército anunciou um aumento no prêmio mais alto para os recrutas, um crédito educativo no valor de US$ 70 mil. Michael Stoll, também contra-recrutador e estudante de Sociologia, lembra:

– O que ninguém fala é que quase a metade dos veteranos não vê a cor do dinheiro. E que o contrato com os militares inclui a invasão de países soberanos, a destruição da vida de civis e a morte de crianças.

Um recruta recebe, em média, US$ 15 mil por ano, mais US$ 225 mensais para os que estão no Iraque, em risco de combate, além de um bônus variável para os que deixam crianças em casa. Dugan e Stoll conhecem esses números de cor.

Principal programa social idealizado por George W. Bush, o The No Children Left Behind, implantado em 2002, obrigou todas as escolas de segundo grau a produzirem uma lista, incluindo nomes e endereços dos estudantes, para uso do governo. A idéia é facilitar o trabalho dos alistadores, que agora identificam com mais precisão os jovens com potencial para ingressar na vida militar.

– Quem vai parar nas Forças Armadas, tradicionalmente, são os negros e os pobres. Por isso a atuação do CAN é mais intensa nas escolas de bairros mais humildes e com grande presença de minorias étnicas – diz Dugan.

Ele e Stoll contam que as informações sobre os estudantes têm sido utilizadas pelos militares para exercer uma ação mais agressiva no processo de recrutamento, de telefonemas e cartas aos pais, passando por anúncios em classificados de jornais locais. Para os ativistas, trata-se de um ataque sem precedentes aos direitos individuais de adolescentes em todo o país. Uma de suas metas é obrigar os diretores de colégios públicos a informar às famílias que estão passando o perfil dos alunos para os militares.

– Os alistadores não podem voltar para a caserna com as mãos abanando e eles fazem qualquer coisa para conseguir o maior número de jovens aptos a usar a farda – diz Dugan.

O CAN é a face mais visível de uma crescente parcela da opinião pública americana que pede a retirada das tropas do Iraque. Mas há quem pense de modo diverso. Estudante de Língua Inglesa, Tory Sterling, 21 anos, considera sagrado o direito à escolha de servir ou não nas Forças Armadas do país:

– Você não acha que é bem óbvio para quem se alista o fato de que há um risco imenso de acabar tendo de lutar no Oriente Médio?

Sterling também acha que, ao assinar um contrato com o governo, é um dever do cidadão cumprir o que prometeu e pegar em armas pelo país. Mas deixa claro que é contrário à invasão do Iraque. O que leva Dugan a observar:

– Por isso sinto que nós não estamos sós. Eu sei que há uma imagem consolidada de que os americanos são belicosos por natureza, mas a maioria da população é contra a invasão do Iraque. Aliás, da mesma maneira que nos opusemos à invasão do Haiti.

Dugan diz que sua paixão pela cultura de guerra começou cedo. Aos 14 anos, depois de assistir a tudo o que Hollywood produziu sobre o tema, decidiu que queria ser um soldado das forças encarregadas de “levar democracia e paz mundo afora”.

- Quanta presunção! O que eu vi não gostei - conta Dugan.

Ele não pode reclamar da sorte. Dugan passou incólume pelas Forças Armadas, prestando serviço justamente entre as duas guerras do Golfo Pérsico, entre 1995 e 1999. Melhor amigo de Stoll, Dave Anderson, 19 anos, não pode dizer o mesmo. Ele acaba de receber a informação de que logo irá para o Iraque.

– Quando ele se alistou, dizia que era uma maneira inteligente de encontrar um caminho depois de terminar o segundo grau. Ele nunca imaginou que teria de enfrentar situações de risco, como a de desembarcar no Iraque com bombas explodindo todos os dias – diz Stoll.

Histórias como as de Anderson e Vlad dão munição para que meninos e meninas do CAN continuem trabalhando duro. Três vezes por semana eles lembram aos colegas que, no caso de uma convocação de emergência, todos os homens com até 27 anos podem ser intimados a pegar em armas. E esta é uma mensagem que cala fundo no Hunter College, com suas mensalidades mais de 60% mais baratas do que outras escolas particulares e um imenso plantel de estudantes oriundos das classes média e média baixa do país. “Exatamente por isso temos de nos manter alertas, sempre”, dizem os contra-recrutadores, antes de desaparecer nos corredores da superpovoada universidade, aos gritos de “Mentiras Militares! Mentiras Militares!”