terça-feira, novembro 04, 2008

É HOJE O DIA!

Um mês de férias, praia, amigos, família, Rio. E o blog ficou às moscas. Voltei no sábado e hoje saíram duas materinhas minhas na imprensa brazuca. Vou postar primeiro a mais pessoal, e, aqui no blog, vai com nomes e sobrenomes que todo mundo é de casa, né? Foi para o Terra Online, um texto na primeira-pessoa sobre a manhã deste blogueiro, passada em um colégio público onde Will votou em Obama para presidente. Será que a gente ganha hoje?

Ó como foi:

Clima de votação é radicalmente diverso do de 2004

EDUARDO GRAÇA
DIRETO DE NOVA YORK


Hoje é um dia especial aqui em Nova York. Céu azul, temperatura decente para esta época do ano (17ºC), perfeita para acordar cedo e votar na escola pública da Henry Street, uma caminhada de 10 minutos de casa, localizada perto da ponte do Brooklyn. Esta é a segunda vez que acompanho o Will, em uma votação presidencial, e o clima foi completamente diferente ao da calmaria de 2004.


Há quatro anos, acompanhei o voto a John Kerry, em uma outra escola, às moscas, na zona norte do Brooklyn. Não havia nem filas nem qualquer emoção a mais. Tratava-se mais de um voto contra Bush do que a favor do senador de Massachussetts, uma espécie de Geraldo Alckmin de Boston, sem muito carisma.


Desta vez, as filas eram grandes. Aqui, nos EUA, só vota quem quer, e este ano, mesmo em um Estado como Nova York, onde os democratas ganham sempre de lavada, todos queriam participar do momento histórico - e os sorrisos e piadas eram constantes. Se havia algum eleitor de John McCain, na fila, ele não se manifestou.


Todos faziam questão de declarar em alto e bom som seu apoio a Obama e não escondiam que iam às urnas pensando na grande batalha desta terça à noite nos Estados que podem decidir o pleito: Flórida, Ohio, Virgínia, Missouri, Novo México, Colorado, Nevada, Carolina do Norte e Pensilvânia.
As pessoas votariam, iriam para o trabalho (não é feriado no país) e correriam para casa ou para bares que ficarão abertos a noite toda. Locais onde as TVs ficam ligadas para uma comemoração ou o início de mais quatro anos de luto.

Isso, na cidade que nunca dorme e não elege um presidente desde a reeleição de Bill Clinton em 1996.
As conversas na fila de votação se traduziriam para a realidade brasileira se toda uma zona eleitoral apoiasse o mesmo candidato presidencial, mas dependesse dos votos que de fato vão decidir quem comanda o país, que viriam dos eleitores de outros Estados, todos menores. Na fila da escola, tentei tirar uma foto, mas fui repreendido e tive de esconder a máquina.

Alguns pouco "felizardos", como o Will, tiveram de votar à mão mesmo, pois haviam transferido seu local de votação no último minuto e as urnas eletrônicas não poderiam incluir novos eleitores. Como não existe Justiça Eleitoral nos EUA, os votos destes cidadãos ficam pendentes na justiça comum até que eles enviem ao Correio uma explicação (preenchida na hora, à caneta) sobre o motivo da mudança do local de votação.

Tudo parece pouco ágil. Além de presidente, aqui em Nova York, se vota para o equivalente a deputado federal e estadual e ainda para vagas na Suprema Corte Estadual e na Justiça Local, aqui escolhidos pelo voto direto e disputados não apenas pelos Republicanos e Democratas, como também por partidos menores, como os Verdes, os Socialistas, os Trabalhadores e os Conservadores.

A cédula, gigantesca, me lembrou da primeira que vi, assim, ao vivo, em 1982, quando meu avô era prefeito de Barra do Piraí, no interior do Estado do Rio de Janeiro, e depois de 17 anos de bi-partidarismo, aprendíamos a votar em um pleito disputado por cinco partidos.
E achávamos confuso na época. Eu era uma criança, mas ele me levou para a urna, afim de me familiarizar com algo que para ele tinha uma tremenda importância - o exercício democrático. Por um segundo, acompanhar o voto no Brooklyn de 2008, sem juízes eleitorais, mesários, fiscais partidários ou urnas eletrônicas para todos, me lembrou da Barra do Piraí de 26 anos atrás.

O meu bairro, região emergente do distrito mais populoso de Nova York, com população negra diminuta, parecia refletir pouco o momento especial vivido pelos afro-americanos em todos os EUA.
Mas, na saída, me deparei com Mary, que atravessou o Brooklyn para votar aqui nos limites de Brooklyn Heights, "sei lá porque eles mudaram minha zona eleitoral para cá", disse buscando informações sobre a estação de metrô mais próxima afim de retornar para Bedford-Stuyvesant, uma das áreas de maiores populações de origem caribenha e africana da cidade. De gorro na cabeça, óculos de imensos aros negros, ela disse que para votar em Obama, para ver um negro como ela na Casa Branca, atravessaria feliz o país todo. Andar 40 minutos pelo Brooklyn era moleza, garantiu.

* Especial para o Terra

sábado, setembro 20, 2008

Fleet Foxes, Wilco, Bob Dylan...

Fleet Foxes (minha banda favorita de 2008). Wilco.



I Shall Be Released

Bob Dylan, 1967.

They say ev'rything can be replaced,
Yet ev'ry distance is not near.
So I remember ev'ry face
Of ev'ry man who put me here.
I see my light come shining
From the west unto the east.
Any day now, any day now,
I shall be released.

They say ev'ry man needs protection,
They say ev'ry man must fall.
Yet I swear I see my reflection
Some place so high above this wall.
I see my light come shining
From the west unto the east.
Any day now, any day now,
I shall be released.

Standing next to me in this lonely crowd,
Is a man who swears he's not to blame.
All day long I hear him shout so loud,
Crying out that he was framed.
I see my light come shining
From the west unto the east.
Any day now, any day now,
I shall be released.

domingo, setembro 07, 2008

PERFIL/Matt Damon

Estive cobrindo como um louco a convenção republicana e agora a NY Fashion Week e não tive um segundo para postar aqui no blog. Estou desde a semana passada para colocar aqui o perfil de Matt Damon - que entrivistei três vezes desde que me exilei aqui no Brooklyn e, por acaso, é um de meus atores favoritos - publicado na capa da Revista MONET de Setembro.

Então, aqui vai ó:

Gente Fina É Outra Coisa

Ele Bate E Arrebenta Em O ULTIMATO BOURNE.
Mas Foi Com Simpatia De Hollywood
Que MATT DAMON Se Tornou
Um Dos Atores Mais Poderosos De Hollywood (E O Reprodutor Dos Sonhos Das Norte-Americanas)

por Eduardo Graça, de Nova York

James McAvoy é um dos atores em ascensão no panteão de Hollywood. Ele acaba de protagonizar um dos filmes mais aguardados do ano em que sapeca beijos em uma Angelina Jolie como veio ao mundo, coberta apenas por dezenas de tatuagens. O que mais quer o astro de O Procurado, em cartaz nos cinemas brasileiros? “Eu queria ser o Matt Damon e fazer um filme de ação com sucesso estrondoso, protagonizado por um herói que pensa”, ele confessa, nas páginas da revista Details, “como o Jason Bourne”.

Em um ambiente não exatamente renomado pelas demonstrações sinceras de afeto, Matthew Paige Damon, 37, é uma exceção gritante. Seu colega Steve Carell, estrela da série The Office e de Agente 86, e conterrâneo do liberal estado de Massachussetts, ao ser perguntado por este escriba se o incomodava a fama de bom-moço, também não hesitou em citar o colega mais jovem: “É como o Matt diz, não é o mínimo que se pode esperar de uma pessoa civilizada, a polidez, a educação, tratar bem o outro? Mas isso não deveria ser normal, gente? O Matt não é normal?”.

Talvez. Nos lançamentos internacionais de A Supremacia Bourne, O Bom Pastor e Os Infiltrados, Damon usou e abusou de sua afabilidade, mas sem deixar de lado uma ironia fina e uma capacidade de fazer graça de si mesma e dos colegas à sua volta que nada lembram o personagem criado por Trey Parker e que repetia, em Team América- Detonando o Mundo, o hilário bordão: Maaaaaat Daaaaaamon! Quando informado, na suíte de um hotel em Manhattan, sobre a decisão de Angelina Jolie de não responder a perguntas que considerasse pessoais na estréia mundial de O Bom Pastor, ele não se fez de rogado. “Não tem problema. Sei tudo da vida dela. Tim tim por tim tim tim! É só me perguntar. E não precisa nem usar minhas declarações em off’”, disse, com um sorriso de lado e uma marota coçadela no nariz, quiçá seu cacoete mais reconhecível.

Quem ainda não teve a oportunidade de ver, pode correr ao You Tube e conferir sua imitação do amigo Matthew McCohneghy, uma fantasia sobre o que seria a presença do ator texano no set de Onze Homens e um Segredo, sempre buscando a oportunidade de tirar a camisa em cena. Não satisfeito? Veja o vídeo gravado com a comediante Sarah Silverman que acaba de ser indicado para o prêmio Emmy em que ela avisa ao então namorado, Jimmy Kimmel: Eu Estou Transando com Matt Damon! O vídeo-resposta do apresentador de programas de entrevista não foi menos revelador: Eu Estou Transando com Ben Affleck!

Mas não foi sempre esta descontração toda na vida de Damon. O ator passou a adolescência em Cambridge, o distrito mais intelectualizado de Boston, sede das universidades Harvard e M.I.T. Lá sua mãe era professora em um colégio experimental para crianças. O loirinho, apaixonado por teatro, logo descobriu que um menino franzino de nome comprido, um ano e meio mais novo, Benjamin Geza Affleck-Boldt, morava a dois blocos de sua casa. Quando os dois foram estudar no mesmo colégio, Ben Affleck já havia feito um programa de tevê na rede pública de Boston e Damon imediatamente previu que sua posição como protagonista nas peças de teatro estudantis estava com os dias contado. Mas, na primeira oportunidade, Affleck pegou um papel menor, não deu bola para a competição, e ainda teve de ouvir de um arrogante Damon: “Com esta falta de seriedade você nunca vai dar certo na carreira”.

Uma década e meia depois os amigos inseparáveis receberiam um Oscar pelo roteiro original de Gênio Indomável. Um ano antes, em 1997, Damon havia abandonado Harvard depois de atuar em alguns poucos filmes. O amigo Affleck vivia na Califórnia com o irmão, Casey, os dois investindo pesado na carreira em Hollywood. Damon crizou o país com o esboço de roteiro escrito em uma aula de dramaturgia em Harvard (onde cursava Língua Inglesa) e durante quatro dias os dois amigos se enfurnaram na casa dos Affleck em Los Angeles e completaram o pré-roteiro. Este logo rodaria nas mãos de maravilhados produtores da cidade. As ofertas para se levar à tela a história do jovem, brilhante e revoltado Will Hunting e sua relação com o psicanalista Sean Maguire (que seria vivido por Robin Williams) aumentavam de valor a cada semana. Mas todas tinham um mesmo porém: ninguém queria que o protagonista do filme fosse o então desconhecido Damon. “As pessoas diziam que não havia precedente em Hollywood e quem nos ajudou, por incrível que pareça, foi Sylvester Stallone. Ele fez exatamente a mesma coisa com Rocky, uma década atrás. Então, só queríamos repetir a ousadia”, contou o ator ao programa televisivo Inside The Actor’s Studio.

Daí para o papel-título de O Resgate do Soldado Ryan, de Steven Spielberg, foi um pulo. Mas o que Damon lembra mais daqueles tempos foi a dura lição que tirou da exposição demasiada por conta da explosão de Gênio Indomável, concretizado quando ele tinha 28 anos. A repetição na mídia da história de Cinderela dos dois amigos que subiam junto ao estrelato por conta da persistência, em mais uma edição do sonho americano, deixou o gato de Boston escaldado.“Ficou, no mínimo, vulgar. Era como se estivéssemos explorando nossa amizade para vender o filme. Pareceu oportunismo barato”, conta.

Damon protege sua vida privada com elegância e garbo. Ele vive em Miami com sua mulher, a ex-garçonete argentina Luciana Barroso, Isabella, a primeira filha do casal, de dois anos, a filha de Luciana Alexia, de oito, e seu mais novo rebento, uma outra menina que estava para nascer quando da produção deste perfil. “É uma loucura, as mulheres predominam mesmo na minha casa”, disse Damon ao jornal USA Today ao anunciar que teria mais uma filha. O ator conheceu Luciana na maior cidade da Flórida, quando filmava a comédia Ligado em Você, com Greg Kinnear, em 2002. Morena, cabelos compridos lisos, sorriso aberto, muito tímida, Luciana é a ‘razão pela qual descobri o melhor lugar do mundo, minha casa’, diz Damon.

Claramente enfadado com a indústria de celebridades de Hollywood, o ator chegou a declarar que ‘jamais prostituiria suas filhas nas páginas de revistas para aumentar a bilheteria da franquia Bourne’. Não que precisasse. Os três filmes da série – A Identidade Bourne, A Supremacia Bourne e O Ultimato Bourne – renderam pouco mais de US$ 524 milhões nos cinemas norte-americanos. Somente a aventura mais recente do ex-assassino profissional Jason Bourne, lançada em 2007 e dirigida por Peter Greengrass, rendeu US$ 227 milhões para a Universal Pictures. O produtor Doug Lyman, que dirigiu o primeiro filme, anunciou em julho a existência de um novo roteiro e que em 2010 a dupla Greengrass-Damon deverá acrescentar mais um filme à sua parceria. O diretor de Vôo United 93 considera Damon o ‘melhor ator de sua geração’ e está neste momento filmando com o amigo o aguardado Zona Verde. No filme político Damon encarna um soldado norte-americano em busca das tais armas de destruição em massa que o governo Bush garantia estarem em território iraquiano, muito bem escondidas por Saddam Hussein.

Para conseguir intercalar as filmagens de Zona Verde e O Informante, sua nova parceria com Steven Soderbergh, que o dirigiu na série One Homens e Um Segredo, Damon teve de se utilizar novamente de uma técnica a ele ensinada por Lyman quando do primeiro Bourne: a prática de boxe. Quando tentava descobrir como seria seu Jason Bourne, Damon ouviu de Lyman que ele ‘deveria experimentar praticar a mais americana da lutas’. “Durante seis meses, treinei todos os dias, sem descanso. Mais do que me colocar em forma e esculpir minha musculatura, o boxe me fez entender como Bourne se movimentaria, olharia, sua noção espacial”, conta.

Sete anos depois ele voltou ao ringue para perder os 14 quilos que ganhou para O informante, sua outra aposta para 2009. No filme ele vive um alto-executivo que decide colaborar com o governo americano em uma investigação contra a própria empresa que trabalha. Menos vaidoso do que a maioria de seus pares, Damon foi tranqüilamente à praia com o novo corpanzil nos intervalos das filmagens. O resultado? Um massacre da imprensa, horrorizada com os pneus à mais e o rosto rechonchudo do homem eleito no ano passado o mais sensual do planeta pela revista People. O ator não se fez de rogado: “Tem grilo não. Agora ganho o título de primo gorducho mais sexy do planeta. Na boa”.

Com um bigodinho, óculos de aros brancos e suéteres daqueles que o vovô usava, ele de fato parece uma década mais velho nas fotos já divulgadas pela produção do filme. Ben Affleck não perdeu tempo e disse que ‘algumas coisas são óbvias, ninguém precisa ficar enfatizando. Vocês sabiam que o Matt agora precisa comprar duas cadeiras quando viaja de avião?”. O primeiro-amigo garantia que ele comera, nos últimos meses, mais doughnuts do que Homer Simpson.

Damon não está nem aí. Sua imagem de galã foi cristalizada de modo surpreendente quando a clínica especializada New England Cryogenics anunciou com toda pompa que as mulheres da Costa Leste americana buscavam desesperadamente o esperma de Matt Damon para os processos de fertilização artificial lá conduzidos. Como nunca conseguiram convencê-lo a ajudar as futuras mães de modo tão direto, os médicos criaram uma equipe para buscar sósias do ator, considerado o DNA ideal por suas clientes. Detalhe: a corrida pela identidade Damon começou justamente depois do lançamento do primeiro Bourne. “Esta série mudou o rumo de minha carreira para sempre”, diz Damon.

Seu Jason Bourne é um anti-herói pouco visto na história dos filmes de espionagem. É um assassino profissional com amnésia que se volta contra as agências de inteligência que o criaram. Não há mocinhos no filme e o Bourne de Damon é também, de certa maneira, uma compilação de muitos de seus personagens mais marcantes, como o frio Tom Ripley e o angustiado Gerry (do filme de mesmo título dirigido por Gus Van Sant). “Eu coloco sempre algo de mim em meus personagens. Não tem jeito”, diz o ator que amargava um auto-exílio na Inglaterra, trabalhando no West End, a Braodway londrina, há seis meses sem receber qualquer convite para estrelar um filme, quando recebeu o telefonema de Lyman.

Baixinho para os padrões holyywoodianos, exatamente como o fã James Mc Avoy, seu James Bond ‘com cérebro e sempre pronto para questionar a lógica do governo’ caiu como uma luva em um cenário marcado por um governo republicano interessado em criar um clima de medo e patrulhismo no dia-a-dia do país. Bourne era o antídoto oferecido pela máquina de sonhos ao Jack Bauer de Kiefer Sutherland no sufocante 24 Horas. Filho das tradições liberais da Nova Inglaterra, Damon nunca deixou de celebrar ‘o indivíduo que enfrenta sozinho a máquina do Estado’ como uma parábola dos tempos neo-conservadores que grassavam em Washington. É este o cerne da série, pontua, que tanto interessou um diretor de posições contundentes como Greengrass a comandar duas – muito provavelmente três – seqüências de A Identidade Bourne.

Seis anos depois da estréia mundial do primeiro Bourne, ele é, para muitos, o maior injustiçado da atual Hollywood, por nunca ter recebido um Oscar de melhor ator. Sua atuação como o corrupto policial Colin de Os Infiltrados foi inegavelmente um dos pontos altos do thriller que daria o primeiro prêmio da academia para o diretor Martin Scorsese. As parcerias com Marty – apelido carinhoso do diretor nova-iorquino – e Robert de Niro (que o dirigiu em O Bom Pastor) são considerados ‘grandes presentes’ pelo ator, que, no entanto, jamais escondeu ter dois grandes parceiros do outro lado da tela: Soderbergh e Greengrass.

O primeiro, “por sua capacidade de editar enquanto filma, algo que só vi igual com Spielberg’. O segundo, pela linha de pensamento similar ao do sofisticado ator. Joan Allen, que em O Ultimato Bourne repete seu papel como a agente Pámela Landy, que causa uma reviravolta crucial na trama, diz que trabalhar com Damon é prazeroso porque funciona quase que como uma extensão do ‘pensamento de Greengrass’. De acordo com Damon, uma definição ‘mais do que generosa’ de sua colega. Não importa. Senhoras e senhores, eis aí Matt Damon. O homem que já iniciou a contagem-regressiva para o novo Bourne, desde já uma das notícias mais importantes do mundo do entretenimento no ano que se encaminha para o fim.

sexta-feira, agosto 29, 2008

A Vice do McCain

Minhas impressões - e a da mídia americana - sobre a governadora do Alasca, que saiu da mais profunda insignificância para ocupar a vice-presidência da chapa republicana, foram publicadas hoje no Portal Terra.

Aí vai:

Sexta, 29 de agosto de 2008, 13h50 Atualizada às 15h44
Escolha de vice de McCain surpreende mídia nos EUA
EDUARDO GRAÇA
DIRETO DE NOVA YORK

Foi uma escolha surpreendente. O senador John McCain, que na semana que vem será homologado candidato republicano à sucessão de George W.Bush, escolheu a desconhecida governadora Sarah Palin, do Alasca, para ser sua companheira de chapa. Analistas e mesmo líderes do partido situacionista apostavam em três nomes mais conhecidos nacionalmente para a vice-presidência: o senador independente Joe Lieberman (que disputou as eleições de 2000 como vice de Al Gore), o ex-governador do Massachusetts Mitt Romney e o governador de Minnesota, Tim Pawlenty.

Palin é uma conservadora de 44 anos que surpreendentemente venceu as eleições no Alasca há dois anos contra um experiente candidato democrata. Uma das vozes mais conhecidas do rádio no estado mais gélido dos EUA, Steve Heimel disse que até mesmo em seu estado todos foram pegos de surpresa com a escolha de McCain. "A governadora é jovem, reformista e vem da indústria pesqueira. Sua experiência antes de vencer as eleições de 2006 era apenas a de administrar um subúrbio de Anchorage e de ser indicada para cargos públicos. Mas posso dizer que ela conseguiu, nestes dois anos, o respeito dos eleitores", disse à grande imprensa, curiosa para saber mais sobre a política neófita.

Para se ter uma idéia do tamanho da surpresa a senadora Kay Hutchison, do Texas, quiçá a legisladora republicana mais conhecida do país, disse na tevê que, honestamente, não tinha muito o que falar sobre a governadora, embora defendesse a escolha de seu colega de partido. Palin é radicalmente contra o direito ao aborto e ao casamento de pessoas do mesmo sexo, agradando aos conservadores desconfiados da suposta independência de McCain. Ela também é favorável à exploração de petróleo na área ambiental de proteção do Alaska. A aposta do senador do Arizona é a de continuar a sangria na campanha democrata, atraindo o voto de eleitoras de Hillary Clinton, interessadas em apoiar a segunda mulher candidata a vice-presidente por um dos dois partidos majoritários. A primeira foi Geraldine Ferraro, em 1984, derrotada pela chapa Reagan-Bush, que buscava a reeleição.

Do lado democrata, a pergunta que foi feita é o que aconteceria com os EUA na hipótese de que algo acontecesse com o senador John McCain, que completa 72 anos hoje. Será que o país estaria mais seguro nas mãos de uma governadora desconhecida de 44 anos do que de Barack Obama, apontado pelos republicanos como inexperiente? Os republicanos reagiram lembrando que Palin é a única, no entanto, dos quatro políticos nos tíquetes majoritários majoritários (Obama, McCain e o vice do democrata, Joe Biden, são todos senadores) que passou pelo Poder Executivo.

McCain apresenta sua vice aos eleitores em Ohio
EDUARDO GRAÇA
DIRETO DE NOVA YORK

O candidato republicano à presidência dos EUA, John McCain, apresentou nesta sexta-feira a governadora do Alasca, Sarah Palin, com sua candidata à vice-presidente durante um comício em Dayton, no Estado de Ohio.

No evento, realizado na Universidade Estadual de Wright, McCain anunciou que escolheu Palin pelo seu combate à corrupção. "Ela é exatamente o que eu necessito. É exatamente o que este país precisa ", disse McCain.

"Ela mostrou uma grande tenacidade e habilidade em abordar problemas sérios, especialmente a dependência perigosa do petróleo estrangeiro", destacou McCain.

O republicano também enfatizou o fato de que ela é mãe de cinco filhos e que a escolha se deu justamente na semana em que se comemora o aniversário da declaração de sufrágio universal nos EUA.

Sarah, 44 anos, foi ao ato acompanhada de sua família - seu marido Todd e quatro de seus cinco filhos. Ao contrário de Biden (vice de Obama), que atacou McCain na semana passada, Sarah foi discreta e preferiu elogiar o seu companheiro de chapa.

"Há apenas um candidato que pode verdadeiramente lutar pelos Estados Unidos, e este homem é John McCain", afirmou a candidata a vice, que é conhecida pelo seu conservadorismo e por ser contrária ao aborto.

Apesar disso, se descreveu como "reformista" politacamente e afirmou que enfrentou as grandes empresas petrolíferas e "o clube de velhos amigos" que dominava a política de seu Estado.

Ela também apresentou brevemente sua biografia perante um público que, como o resto do país fora do Alasca, não a conhece. "Cresci trabalhando com as mãos", disse ela, que se definiu como uma mãe "comum", que assiste a jogos de hóquei de seus filhos no Alasca.

Por fim, procurou capitalizar o ineditismo de ser a primeira candidata à vice-presidência a ser nomeada pelo Partido Republicano. "Aproveito para prestar homenagem a Geraldine Ferraro e também a Hillary Clinton, que vieram antes de mim".

"Hillary fez uma bela campanha e os 18 milhões de votos que conseguiu ainda podem ser destinados a uma mulher. Não terminamos o trabalho ainda!", disse, propondo às mulheres que votaram na senadora de Nova York durante as primárias que apóiem a chapa McCain-Palin.

FLEET FOXES

Eu já falei aqui que Fleet Foxes é a banda mais sensacional do momento nos EUA. Pois os meninos de Seattle têm fãs tão talentosos quanto eles. Hoje ouvi pela primeira vez este cover de fãs da banda de uma das faixas mais lindas do álbum do grupo. As meninas mandam MUITO bem:

A Noite de Obama

O Portal Terra publicou hoje de madrugada meu comentário sobre a bela festa de coroação da candidatura de Barack Obama à presidência dos EUA, ontem, em Denver, no Colorado.

Ó só:

Eleições no EUA
29 de agosto de 2008, 01h54 Atualizada às 03h03
Mídia: discurso de Obama declara "guerra" a McCain
EDUARDO GRAÇA
DIRETO DE NOVA YORK

Um discurso que deu o tom do que será a campanha presidencial nos próximos dois meses: uma batalha duríssima entre dois candidatos fortes e dispostos a chegar à Casa Branca. Os analistas da televisão e da blogosfera apontaram os pesados ataques de Barack Obama a John McCain como a essência do discurso que encerrou a convenção nacional do Partido Democrata em Denver, no Colorado, na noite desta quinta.

"Obama deixou claro que não vai ser um Michael Dukakis, um Al Gore, um John Kerry. Ele mostrou que aqui, bateu, levou. Ele vai bater forte em McCain como fez hoje à noite. Ouso dizer que esta foi uma noite que não será difícil de ser igualada apenas pelos republicanos na semana que vem, mas por qualquer convenção em quatro ou oito anos. Foi histórico", disse o diretor de Política da rede NBC, Chuck Todd.

Na CNN, Anderson Cooper, a principal estrela do canal de notícias, garantia que Barack Obama acabara de fazer "o discurso de sua vida". O veterano de campanhas presidenciais John King foi rápido no gatilho ao lembrar que o senador de Illinois repetia, em certa medida, uma estratégia usada por George W. Bush em seus embates com Gore e Kerry: a de chamar o adversário para a briga. "Ele rebateu, ponto a ponto, tudo o que os republicanos já usaram contra ele, como a acusação de ser uma 'celebridade' e a de ser inexperiente, e mesmo o que poderiam usar, ao buscar um discurso mais voltado para o centro nos grandes temas sociais do país", apontou.

O analista democrata Paul Begala, outro veterano, confessou ter comemorado ao ouvir Obama gritar "Basta!" aos 8 anos de doutrina neo-conservadora em Washington. "Em nove anos de convenções, nunca vi o Partido Democrata bater de frente, com tanta ênfase", vibrava.

Conselheiro de presidentes republicanos como Richard Nixon, Gerald Ford e Ronald Reagan, o professor da Universidade de Harvard, David Gergen, que assistiu à cerimônia pela TV, disse que "Obama lembrou Abraham Lincoln mas também Ronald Reagan. Ele não fez um discurso memorável como o de Martin Luther King Jr., não reergueu a mítica da luta pelos direitos civis, mas estabeleceu uma conversa com a América. Enquanto peça política, foi uma obra-prima. Barack Obama cresceu na tela e pareceu ainda mais presidenciável", disse.

O comentarista Wolf Blitzer, também da CNN, viu em Obama um repeteco do Bill Clinton de 1992. O experiente Tom Brokaw, da NBC, concordou. E lembrou que, ao tratar dos tais grandes temas sociais que pairam sobre os EUA - a imigração ilegal, o casamento de cidadãos do mesmo sexo, o direito ao aborto e o porte de armas - o senador negro buscou um "caminho do meio", que abre as portas para independentes e republicanos votarem no tíquete democrata sem que posições defendidas com unhas e dentes por liberais nas últimas quatro décadas sejam de fato ameaçadas. Para os analistas, o discurso de Obama se sintetiza com uma reapresentação aos eleitores norte-americanos de um homem comum combativo e responsável, que lança um apelo para as mesmas vozes da América Profunda que reelegeram Bill Clinton em 1996.

A Associated Press, a maior agência de notícias dos EUA, que vem sendo acusada pelos blogs liberais e por parte do Partido Democrata de fazer uma cobertura anti-Obama, publicou seu texto analítico, assinado por Charles Babington, com o título de "Obama poupa detalhes e parte para ataques". O analista diz que o democrata quase não sorriu e que sua única estratégia é dizer que "McCain é o mesmo que Bush", mas que os detalhes das políticas que pretende implantar no país seguem desconhecidas.

Os analistas políticos na televisão e na Internet consideraram em geral a reação dos republicanas "fraca". "Eles precisam trabalhar mais numa resposta amanhã, quando anunciarão seu vice-presidente", disse Brokaw. Até mesmo o ultra-conservador Pat Buchanan, para espanto de seus companheiros de análise, disse na MSNBC que "o discurso de hoje foi o maior da história das convenções partidárias".

Outro conservador, Andrew Sullivan, comentarista da revista The Atlantic, disse que "a campanha de McCain apresentou Obama como uma Paris Hilton, um político elitista e cabeça-de-vento. Hoje Obama deu-lhes o troco e os destruiu. Se eles pensavam que estavam lidando com um mariquinhas, eles tomaram um choque de realidade", disse. Todos concordam em um ponto: a guerra está oficialmente declarada, e com Obama na ofensiva.

VONNEGUT


Saiu no Valor Econômico de hoje minha reportagem sobre Armageddon in Retrospect o livro editado por Mark Vonnegut com alguns dos primeiros escritos de seu pai, Kurt Vonnegut (1922-2007), um dos maiores escritores da literatura contemporânea nos EUA e ferrenho crítico da ascensão neo-conservadora em Washington.

Segue o texto (o livro está aqui ao lado, na prateleira):


Os papéis de Vonnegut

Por Eduardo Graça, para o Valor, de Nova York

29/08/2008


Vonnegut: "A invasão do Iraque o deixou especialmente angustiado. Ele não conseguia entender como uma 'guerra' havia começado sem que sequer houvesse de fato um 'inimigo' ideológico", diz o filho


Quando Kurt Vonnegut morreu, em abril de 2007, aos 84 anos, lidava com a dificuldade de esquematizar aquele que poderia ter sido seu derradeiro romance. A idéia do autor de "Matadouro 5", considerado um dos marcos da literatura americana do século XX, era a de contar a história de um comediante, diz em entrevista exclusiva ao Valor o pediatra Mark Vonnegut. "Mas papai não conseguia de jeito algum fazer com que o protagonista ficasse engraçado!", revela o médico, que estreou também como autor, com aplausos da crítica, em 1975, com "The Eden Express: a Memoir of Insanity". No livro, Mark dividia com os leitores sua experiência com a esquizofrenia. Pouco mais de um ano depois da morte de Kurt, coube ao mais novo dos Vonnegut editar "Armageddon in Retrospect", livro póstumo que reúne escritos, desenhos e pensatas de um dos intelectuais mais francos na oposição à invasão do Iraque pelo governo Bush e à ascensão dos neoconservadores em Washington.

"Um Homem sem Pátria", o livro anterior de Vonnegut, reunia ensaios políticos e textos recheados de excentricidade, como o que propunha uma releitura de "Hamlet", de Shakespeare, a partir de códigos matemáticos. Em comunhão com a obra anterior, "Armageddon" apresenta alguns de seus desenhos (sobre um deles, um círculo laranja, ele escreve, em cor-de-sangue: "Aqui nos EUA é assim - vitoriosos contra derrotados. E o resultado está sempre arranjado". A capa traz um auto-retrato rabiscado à mão e um de seus mais famosos símbolos - o desenho (literal) de um asshole (metáfora para "estúpido") por ele popularizado em outro de seus clássicos, "Café-da-Manhã dos Campeões", de 1973. O grafismo dialoga de forma irônica com o título do livro. Nas páginas seguintes, alguns dos primeiros textos escritos por Vonnegut, ainda em meio à turbulência da 2ª Guerra Mundial.

Curiosamente, o filho do escritor demorou a se convencer da necessidade de publicação da obra, que substituiria o romance inacabado: "Não tinha certeza sobre se meu pai realmente gostaria que esses escritos fossem publicados e achei melhor deixá-los descansando em paz. Mas nunca achei que tivesse poder de fato para interromper sua publicação." O médico, que vive no subúrbio de Boston, concordou apenas em ler os escritos que o agente do escritor havia selecionado para "Armageddon in Retrospect". "Aí eu literalmente me apaixonei pelo material. É incrível a qualidade do que ele já escrevia naquela época. Tudo o que aconteceu em Dresden cristalizou a sua literatura", afirma.

Foi em Dresden que Vonnegut presenciou os terríveis acontecimentos mais tarde narrados em "Matadouro 5". Descendente de alemães radicados nos Estados Unidos, ele se viu prisioneiro de guerra na cidade germânica bombardeada exaustivamente por americanos e britânicos em 1945. Sobrevivente de uma carnificina que tirou a vida de até 135 mil pessoas, Vonnegut transformou seu livro mais celebrado em um acerto de contas com a própria consciência (por que ele, entre tantos, não perecera?), ao mesmo tempo em que ofereceu de forma crua seu entendimento da morte e da crueldade humana.

Sobrevivente da Segunda Guerra, escritor dizia que "a maior diferença entre Bush e Hitler" era "o fato de que o alemão foi eleito"


"Nós dois tínhamos essa cumplicidade muda, não precisávamos sequer conversar sobre o tema para entender que eliminar vidas e destruir cidades são atos que raramente levam a algo positivo. Mas a invasão do Iraque o deixou especialmente angustiado e frustrado. Ele não conseguia entender como uma 'guerra' havia começado sem que sequer houvesse de fato um 'inimigo' ideológico", revela Mark. O mais impactante dos 11 capítulos de "Armageddon" é justamente o dedicado ao bombardeio aliado de Dresden. Vonnegut faz um ataque à noção de que gestos nobres (o fim do nazismo) possam justificar atos hediondos. No dia-a-dia da guerra, todos estão errados ou, como prefere: "Estou convicto de que o tipo de justiça que aqui aplicamos, bombardeando populações inteiras, é blasfemo."

Usou a mesma lógica ao analisar a política americana no Oriente Médio logo após a controversa eleição de George W. Bush em 2000 e o 11 de Setembro: "A maior diferença entre Bush e Hitler é o fato de que o alemão foi eleito."
Outra de suas "boutades" era destinada aos que teimavam em importuná-lo sobre a injustiça de não ter recebido o Prêmio Nobel. Mark lembra que ele dizia, em tom conspiratório, ter sido esnobado pelos acadêmicos por causa de sua crítica veemente ao primeiro carro Saab lançado pela fábrica sueca. "O que posso dizer tanto sobre o Nobel quanto sobre a relação de papai com a 'New Yorker' é que muitas vezes ele considerava seu nível de comunicação com o leitor tão visceral que, de alguma maneira, acabava desqualificando-o, deixava-o em uma posição menor do que a do escritor sério que ele sabia ser", comenta Mark. Essa relação íntima com o leitor o levou a ser esnobado por setores da intelligentsia e visto como um ingênuo até por seus pares.

Gore Vidal, que depois se tornaria um amigo próximo, descreveu-o certa vez, reza a lenda, como "o pior dos escritores americanos". Maldade do liberal, que muitas vezes se encontraria entrincheirado com o socialista à moda antiga em batalhas contra a boçalidade reinante. E se os escritos sobre o cotidiano no império que o deixara "apátrida" fazem o leitor estabelecer contato com as razões do dissidente em "Um Homem sem Pátria", as histórias de "Armageddon" nos levam à guerra de forma direta, ao campo de batalha, a viagens no tempo e até - na história que dá titulo à coleção - a uma tentativa de ludibriar o diabo para se criar um planeta menos doente.
"Não creio que ninguém de fato consiga chegar a um consenso consigo mesmo após viver uma experiência real de guerra, como aquela a que papai sobreviveu. Escrever o ajudava a preencher a vida, a entendê-la como uma experiência completa", analisa Mark, autor de emocionante introdução ao livro.

"Armageddon in Retrospect", ainda sem lançamento previsto em português, pode ser comprado na Livraria Cultura (www.livrariacultura.com.br ) por R$ 45,66.

terça-feira, agosto 26, 2008

Discurso/TED KENNEDY

Foi o discurso mais emocionante até agora da corrida para a Casa Branca. Ted Kennedy, sofrendo com um câncer no cérebro, um dos primeiros a apoiar Barack Obama, apareceu de surpresa no primeiro dia da convenção democrata em Denver. Mais uma vez se ouviu da platéia os gritos de 'Kennedy! Kennedy! Kennedy!', de dimensão histórica, já que marcaram as campanhas presidenciais de seus dois irmãos mais velhos, John e Robert, assassinados nos anos 60, e a sua própria frustrada tentativa de chegar ao comando do país, em 1980. O senador mais liberal de Washington lembrou que um 'comandante-em-chefe responsável não leva jovens americanos para um desastre como a invasão do Iraque' e prometeu estar na festa da posse em janeiro.
Um momento grandioso das eleições 2008 por aqui:

sexta-feira, agosto 22, 2008

ENTREVISTA/Morgan Freeman


Saiu hoje na Ilustrada, na Folha de S.Paulo, minha micro-entrevista com Morgan Freeman, uma das estrelas de O Procurado, que estréia hoje nos cinemas brasileiros.

Segue o texto:
"Angelina é inteligentíssima", diz Freeman

EDUARDO GRAÇA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE NY


"Angelina, An-ge-liiii-na, would you get up? We need the sheets for the table!" [Angelina, é melhor você se levantar. Precisamos de toalhas para a mesa!] Era assim, com uma música tradicional americana, que Morgan Freeman iniciava o dia no set de "O Procurado".
O filme, que estréia no Brasil hoje, depois de faturar mais de US$ 130 milhões nos EUA, conta com Freeman, Jolie e James McAvoy. São, respectivamente, dois assassinos e um noviço de uma associação voltada para eliminar vítimas que lhe são designadas por meio de códigos decifrados com um tear.

"Angelina é uma mulher forte, inteligentíssima, não é nenhuma Lindsay Lohan, sabe?", conta.
Poucas semanas depois de falar à Folha, Freeman sofreu um acidente de carro no Sul dos EUA e ficou em estado grave. Agora, o ator de 71 anos se recupera a passos largos. Não deixa de ser curioso o fato de que tenha "enfrentado" a morte em "O Procurado". "Há uma cena em que um tear está prestes a cair sobre mim. É aquela coisa: este é seu último momento na vida, o que você dirá? Eu teria que dizer algo que representasse meu último momento vivo neste planeta. E soltei um baita f...!", diz.

Freeman seria, para os produtores, o único astro de Hollywood capaz de levar a audiência a crer que uma bala pode fazer uma trajetória tal que atinja o alvo com alguém entre o atirador e a vítima, um dos efeitos impressionantes do filme.
"É, mas se eu tivesse esse poder de persuasão iria agora mesmo a um banco e anunciaria, solene: "Preciso de US$ 40 milhões para meu próximo filme". Será que eles me dariam no ato? Não creio! Isso é só mais uma gracinha para se falar de mim. Não sou a "pessoa a ser contratada se você precisa de credibilidade na tela". O Danny De Vito poderia fazer muito bem o Sloan."

Na tela, ele interpretou até Deus. "Dizem que ao fazer o papel de Deus você dá um tiro no próprio pé. E fiz duas vezes [em "O Todo-Poderoso" e "A Volta do Todo-Poderoso']. Por muito tempo, recebi roteiros para fazer bonzinhos na tela. Por isso o Sloan me atraiu. Você não sabe ao certo se ele é mocinho ou bandido", diz.

segunda-feira, agosto 18, 2008

ELEIÇÕES NOS EUA/Comentário-Terra

Neste fim de semana o Terra publicou meu comentário sobre os possíveis candidatos a vice-presidente nas chapas democrata e republicana-2008, com aspas do jornalista inglês e meu vizinho Andrew Purcell, correspondente do The Sunday Herald aqui em NYC.

Aí vai:

Candidaturas a vice têm disputa acirrada nos EUA
EDUARDO GRAÇA
DIRETO DE NOVA YORK

A câmera fecha um close no rosto tenso do ator Paul Giamatti. À sua frente, a confusão impera com parlamentares do primeiro Congresso do recém-criado Estados Unidos da América discutindo sem cessar. Ele é o personagem-título de uma das séries de maior sucesso este ano nos EUA, John Adams, do canal HBO. Um dos pais fundadores da República e primeiro vice-presidente eleito do país, em 1789, Adams, afastado até mesmo das reuniões de cúpula do presidente George Washington com seus ministros de Estado, pensa se deveria voltar para sua fazenda no Massachussets, pois, afinal, seu posto era meramente decorativo, ou, em suas palavras "o cargo mais insignificante jamais criado pela inteligência humana".

Duzentos e trinta anos depois não se fala em outra coisa na campanha eleitoral americana: quem serão, afinal de contas, os companheiros de chapa dos candidatos à presidência Barack Obama e John McCain?

Com as férias de verão, as Olimpíadas ocupando todo o espaço na mídia e Obama voltando das férias no Havaí, este é o assunto político do momento. Os partidos têm até o último dia de suas respectivas convenções para apresentar os seus candidatos a vice. A convenção democrata ocorre na última semana de agosto. Na semana seguinte, é a vez dos republicanos.

Uma das razões para tamanha expectativa é a exuberância do atual vice-presidente, o ultra-conservador Dick Cheney, que, desde 2001 é um dos protagonistas mais ativos da administração Bush. "Cheney é um vice-presidente atípico, pois é ele quem manda na Casa Branca. A chamada "guerra ao terror" reduziu a influência do Congresso, e esta administração reinterpretou aspectos-chave da Constituição, deixando o Executivo ainda mais poderoso. É senso comum na parcela liberal dos EUA que Cheney, um político experiente, controla o governo Bush", diz o jornalista Andrew Purcell, correspondente do jornal britânico The Sunday Herald em Nova York.

Grosso modo, o vice-presidente tem duas funções estratégicas: presidir o Senado (e dar o voto de minerva em um caso de empate nas votações apertadas) e substituir o presidente em caso de impedimento, doença ou morte. A maior atração da vice-presidência, para fins políticos, é uma certa tradição de que o vice-presidente que trabalhou por oito anos na Casa Branca seja o candidato natural do partido da situação ao posto mais importante do governo americano.

Foi assim com Al Gore (vice de Bill Clinton entre 1993 e 2001) e George Bush (vice de Ronald Reagan entre 1981 e 1987). Cheney, extremamente impopular e com 67 anos, deixou claro que não entraria na disputa este ano. Como o mais recente candidato democrata à vice-presidência, o senador John Edwards (que foi o companheiro de chapa de John Kerry em 2004), se envolveu em um tenebroso escândalo extra-conjugal ao mesmo tempo em que sua mulher sofria de câncer terminal, a corrida para o segundo posto da hierarquia do Executivo ficou ainda mais ampla.

Do lado republicano, aparecem como fortes candidatos o ex-governador Mitt Romney, de Massachussets, que ficou em segundo lugar nas primárias do partido, e os governadores sulistas Charlie Christ (da Flórida), Bobby Jindal (da Louisiana) e Mark Sanford (da Carolina do Sul).

Romney, aos 61 anos, foi o mais forte adversário de McCain na disputa interna do Partido Republicano, mas tem se dedicado com tal ânimo à campanha de McCain que o senador de Arizona saiu-se com uma deliciosa tirada: "Romney está se empenhando mais por mim do que por ele mesmo".
O ex-governador de um dos Estados mais liberais do país traria para a campanha uma experiência em economia que é o tendão de Aquiles de McCain. Com a recessão em pauta, contar com o auxílio direto de um homem de negócios bem-sucedido pode ser importante na hora de se pescar votos em áreas que sofrem mais com a crise econômica. Por outro lado, Romney é mórmon, o que pode complicar a vida de McCain com um de seus eleitorados mais fiéis, os evangélicos, e tem se esforçado além da conta, na opinião de muitos republicanos, pelo posto.

Dos dois governadores sulistas, o que tem mais projeção nacional é Charlie Christ, que herdou o governo da Flórida de ninguém menos do que Jeb Bush, o popularíssimo irmão de George W. Com o aumento do voto hispânico não-cubano no Estado, a Flórida voltou a ser considerada um "swing state", ou seja, pode pender para um lado ou para o outro e decidir as eleições de novembro. Ao contrário de Romney, no entanto, Christ não é um social-conservador, sendo favorável ao direito de aborto, à união civil para pessoas do mesmo sexo e às pesquisas com células-tronco.

Já Bobby Jindal é a grande estrela jovem da direita americana. Aos 37 anos, ele seria um antídoto aos que vêem McCain como um candidato cansado, que assumiria a Casa Branca com 72 anos. Também conta o fato de que é conservador ao extremo e ganhou projeção com a reconstrução de seu Estado, profundamente afetado pela tragédia do furacão Katrina. Mas há um senão geográfico aqui: ninguém duvida que McCain vencerá com folga os Estados do sul e que a grande batalha se dará ao norte e a oeste. E o recente anúncio de que o ex-governador Mike Huckabee fará um talk-show no canal Fox, do qual ele já é comentarista político, parece ter diminuído a possibilidade de o mais eloqüente político sulista também ser convidado para disputar a vice-presidência por McCain.

Também surgem, ainda que com menos intensidade, mas alavancados pelo aspecto geográfico, os nomes do governador de Minnesota, Tim Pawlenty (extramente popular na região dos Grandes Lagos, mas visto com desconfiança pelos conservadores) e do deputado ultra-conservador Rob Portman, de Ohio, Estado que decidiu as eleições de 2004, com uma apertada vitória local (contestada por muitos) de Bush sobre Kerry. Para se ter uma idéia, as principais pesquisas, hoje, dão uma vantagem de quatro pontos percentuais para Obama em Minnesota, e colocam McCain à frente em Ohio por seis pontos. Ou seja, a batalha, nos Estados da região, tende a ser voto a voto.

No lado democrata, a principal estrela, senadora Hillary Clinton, dificilmente será escolhida pelo comitê de Barack Obama para formar a chapa da oposição. Com 18 milhões de votos nas primárias mais populares da história do país e uma aceitação entre os eleitores brancos de classe baixa que Obama ainda sofre para conquistar, ela poderia formar a chamada "chapa dos sonhos" com o senador de Illinois. Os problemas são as feridas deixadas pela primeira fase da campanha e a possibilidade de Hillary voltar a disputar a presidência contra McCain em quatro anos, no caso de uma derrota democrata em novembro. "A animosidade entre as duas campanhas foi tão intensa que é comum você ler, no site de Obama, apoiadores entusiasmados afirmando que 'não devemos oferecer nada para esta mulher'. Minhas apostas, hoje, são a governadora do Kansas, Kathleen Sibelius, que apoiou Obama desde o início, e os senadores Jim Webb, que serviu no governo Reagan e é tão especialista em defesa nacional quanto contrário à guerra do Iraque, e Evan Bayh, de Indiana", diz Purcell.

Webb e Bayh ainda contam com o fato de serem de dois Estados importantes na luta eleitoral. Webb é da Virgínia, que é o Estado sulista em que os democratas têm mais chance de vitória, por conta da migração interna e do aumento de eleitores de origem hispânica, e Bayh de Indiana, no meio-oeste, que pode influenciar importantes Estados vizinhos e com dados demográficos semelhantes, como Ohio e Pensilvânia.

Também de Virgínia é o governador Tim Kaine, talvez hoje o mais forte candidato. Eleito em 2005 com uma plataforma moderada, ele é um católico devoto de 50 anos, contrário ao direito de aborto, e formado, assim como Obama, pela Universidade de Harvard. Mas são suas semelhanças com o candidato presidencial seus pontos mais fracos - a inexperiência legislativa e sua timidez em temas relacionados à defesa nacional e à política externa. Por outro lado, ele é fluente em espanhol e sua atuação no massacre de Virginia Tech, no ano passado, quando conversou pessoalmente com as famílias das vítimas e com cada estudante que passou pela traumática experiência de ver um de seus colegas atirar contra alunos, funcionários e professores, foi considerada exemplar.

Correndo por fora ainda estão o ultra-experiente senador Joe Biden, de Delaware, mais cotado no entanto para ser o futuro poderoso secretário de Estado em um governo Obama, e o governador do Novo México, Bill Richardson, mais importante líder hispânico do país. Analistas garantem que o voto hispânico será decisivo para o resultado de uma eleição tão disputada.

O candidato a vice-presidente do Partido Democrata, seja quem for o escolhido, está escalado pelo partido para fazer um dos principais discursos da convenção que dura entre os dias 22 e 29 de agosto em Denver, no Colorado.
Até agora já estão confirmados como palestrantes Hillary, Richardson e Bayh. Será esta uma pista de que o vice de Obama é um dos três? Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.

sábado, agosto 16, 2008

sexta-feira, agosto 15, 2008

ENTREVISTA/Peter Carey

No Valor Econômico, neste fim de semana:

Hugh, uma descoberta
Por Eduardo Graça, para o Valor, de Nova York
15/08/2008

Sentado no confortável sofá cinza de sua sala de estar, as mãos passeando pelo tornozelo, Peter Carey, o celebrado escritor australiano, não se assemelha em nada a seu alter ego, o pintor Michael Butcher Boone, anti-herói de "Roubo - Uma História de Amor", recém-lançado no Brasil. Seu loft no SoHo é decorado de forma austera, não há obras de arte em grande escala e sua delicadeza só se rompe quando solta um som gutural que alavanca uma gargalhada destas de parar o trânsito da Broadway com Canal, uma das esquinas mais movimentadas de Manhattan, a uma quadra de seu silencioso refúgio nova-iorquino.

O leitor brasileiro familiarizado com a literatura de Carey - um dos dois únicos escritores (o outro é o sul-africano, exilado na Austrália, J.M. Coetzee) a receber duas vezes o prestigiado Booker Prize, por "Oscar e Lucinda" e "A História do Bando de Kelly" - o encontrará novamente mergulhado no jogo de espelhos do falso-e-verdadeiro, aqui representados por um roubo em que um quadro aparentemente verdadeiro de um grande pintor desaparece ao lado da casa em que vive o protagonista do romance.

Butcher Boone é um artista nascido na mesma cidade e no mesmo ano que o autor. Este é o romance que permitiu a Carey, de 65 anos, usar com maior liberdade sua memória. Não que o outro narrador do livro - Hugh Boone, o irmão retardado e obeso de Butcher - seja alguém relacionado ao passado do autor. Mas o livro, e especialmente o atormentado Hugh, possibilitaram um reencontro do escritor, 18 anos depois de se mudar para Nova York, com tiques, gírias, sons e atitudes de sua Austrália natal, "este país peculiaríssimo, onde temos a todo momento a noção de que nos apropriamos da terra de seus verdadeiros donos".

Sociedade colonial que nascia na mesma época em que o continente americano iniciava seu processo de independência das potências européias, a Austrália de Carey é tão pulsante quanto os Estados Unidos que ele vê da janela do SoHo, "um país aterrorizante, antes mesmo de ser governado pelos criminosos de agora". E é sobre o caleidoscópio de sua obra e de sua realidade que ele conversou com o Valor.

A seguir, trechos da entrevista:


Valor: O sr. está animado com o lançamento de "Roubo" no Brasil?
Peter Carey: Mais do que animado. Fico pensando que nunca fui ao Brasil. Tenho amigos que já foram a Paraty e me dizem que eu preciso conhecer, que a Flip [Festa Literária Internacional de Paraty] é especial. Se o pessoal da feira continuar me convidando, vou acabar indo. O que pesa, hoje é a idade...
Valor: Na prova da editora brasileira, do título original em inglês - "Theft: a Love Story" - faltava o subtítulo "uma história de amor". E o livro dá conta de várias paixões ao mesmo tempo...
Carey: Sim, dos dois narradores, um pelo outro (o pintor Butcher e seu irmão Hugh), de Butcher por Marlene e, também, do amor desses personagens pelas artes plásticas. De qualquer modo, mesmo nos Estados Unidos, o livro ficou conhecido apenas como "Theft" e sei que há pessoas que acreditam que você nunca deveria escrever "uma história de amor" em lugar algum [risos].


Valor: "Jack Maggs", "A História do Bando de Kelly", "Minha Vida", "Uma Farsa" e "Oscar e Lucinda" são romances históricos. Quando estava terminando "Roubo", o sr. disse que este seria seu primeiro romance contemporâneo, que estava promovendo um reencontro seu com a Austrália atual. Foi esse seu impulso para escrevê-lo?
Carey: Não, mas esse reencontro foi um enorme alívio. Nas coisas que ainda posso captar daqui de longe e em parte do livro, coisas que são baseadas em situações que vivi, em casas que morei. Não sou como Butcher, que precisa destruir tudo o que vem de seu passado. Tenho grande afeição pelos anos em que vivi na Austrália. Foi um processo tão prazeroso que fiz Butcher nascer no mesmo ano em que eu, em 1943. E não tive de pensar muito para preencher os detalhes. Eu sabia até os horários dos trens.


Valor: Antes de escrever "Roubo", o sr. voltou a Baccus March, a cidadezinha a oeste de Melbourne onde nasceu e onde se passa parte da ação do livro?
Carey: Sim, mas nada é tal como era. Escrevo sobre um lugar que não existe mais. Minha namorada, que é inglesa [a editora Frances Coady, estrela da "Granta" e da "Picador"], ficou chocada com o que viu. O lugar era muito mais aprazível do que fiz parecer no livro.


Valor: Há também a linguagem que Butcher usa...
Carey: Sim, ele não é exatamente o mais elegante dos homens. Mas escrever naquela linguagem, repleta de profanações, sobre artes plásticas, não poderia ser mais australiano. E nunca havia visto aquele tipo de linguagem mais chula usada dessa maneira, nesses círculos. Talvez seja esse o aspecto mais contemporâneo da minha experiência com "Roubo": o uso da linguagem.


Valor: O sr. é celebrado pelo experimentalismo com a linguagem. Na versão original, a brincadeira com os títulos de tablóides de jornais usados no meio da fala de Butcher e de Hugh é sensacional, mas na tradução esses recursos não perdem força?
Carey: É claro que perdem. Mas essa é a natureza de quando se lê em outras culturas. Não tenho dúvidas de que quando li "Cem Anos de Solidão" em inglês, e foi uma experiência maravilhosa, deixei de captar muito da essência do livro. Apesar de o livro de García Márquez ter tido um efeito fortíssimo em mim, ao mesmo tempo deixei de entender muitas coisas. Mas como evitar isso? Não podemos deixar de lembrar que os melhores livros e as melhores traduções também devem oferecer espaço para interessantíssimos erros de interpretação. Por que não?


Valor: O sr. tem lido bastante fora do mundo anglófilo?
Carey: Sim, mas se a próxima pergunta é de que autores brasileiros contemporâneos eu mais gosto, a resposta é não tenho lido, não [risos]. Mas li recentemente dois austríacos que, de alguma maneira, são próximos do que tenho escrito ultimamente, Joseph Roth (1894-1939) e Gregor von Rezzori (1914-1998), ambos traduzidos do alemão para o inglês. São belíssimas traduções.


Valor: O que pode dizer especificamente sobre Hugh, o irmão com problemas mentais, gordo, que vira um dos narradores?

O personagem de linguagem desabrida, verdadeiro "museu de gírias", deu ao autor o sentido que ainda faltava para definir seu novo livro

Carey: Ele nasceu depois de eu começar a escrever "Roubo". Estava extremamente feliz com a voz que havia achado para Butcher, mas os capítulos que ia escrevendo vinham tão facilmente que comecei a achar que aquela narração era uma armadilha. Estava me divertindo demais com Butcher. Ao descobrir Hugh, encontrei o livro que estava escrevendo: as múltiplas histórias de amor que você me fez destacar no começo da conversa. E Hugh contradiz Butcher de maneira tão interessante que acaba alargando o tema do livro e, claro, as possibilidades de brincar com a linguagem, que me é tão cara. Hugh é um museu de gírias australianas. Várias palavras que ele usa já desapareceram do dia-a-dia do meu país. Ele se diverte falando aquelas palavras. E eu também.


Valor: Então quando o sr. está escrevendo, se algo vem muito facilmente, a suspeita de que não é essencial é imediata?
Carey: É o que eu chamo de "showing-off". São aquelas coisas que parecem arte, mas não são. Para mim, para ser arte, em literatura, os personagens precisam ter uma boa razão para existir. Agora, dois anos depois de publicado, estou certo de que todos os seres que habitam "Roubo" lá estão por motivos claros, mas houve um momento, antes de Hugh, em que eu tinha de descobrir o sentido daquela história. E quando escrevi através do ponto de vista de Hugh por três, quatro vezes, percebi que havia encontrado meu livro. Quando vi que ele poderia contar a história daquela família de modo completamente diverso da de Butcher, soube que aquele era o caminho.


Valor: Outra personagem marcante é Marlene. No começo do livro há uma cena extremamente erótica em que Butcher, digamos assim, se encanta pelos sapatos Manolo Blahnik da misteriosa loura. Foi uma homenagem às avessas às mulheres de Nova York, obcecadas pela moda?
Carey: A verdade é que me arrependo muito de ter usado o nome da marca. Sabe que ainda não sei como pronunciar o sobrenome do Manolo? O que gosto é da noção de que Butcher, aquele homem peludo, forte, grosseirão e zangado, se vê no mesmo aposento em que está aquela mulher belíssima, cujo carro atolou em frente da sua casa, e seus sapatos chiques. E ele limpa os sapatos dela de modo especial. É um ato estranho, não? Não sei de onde veio e posso lhe garantir que não foi uma experiência pessoal.


Valor: O sr. já vive nos Estados Unidos há 18 anos. Nova York é sua casa?
Carey: É sim, inevitavelmente. Cresci em um mundo diferente, no qual as pessoas tinham apenas uma casa. Hoje em dia, é cada vez mais comum, com a imigração para os centros urbanos do mundo, ter dois lares. Não penso mais na minha realidade como uma contradição. E é difícil imaginar que escritor eu seria se não tivesse vindo para cá.


Valor: O sr. já afirmou que os Estados Unidos o deixam nervoso, mas Nova York o deixa feliz. É isso mesmo?
Carey: Agora mais do que nunca. Os Estados Unidos me deixam nervosíssimo. São um país aterrorizante e já o eram antes mesmo de ser governados por criminosos, como agora. Vivo em um país onde o presidente, o vice e boa parte de seus assessores deveriam ser julgados como criminosos de guerra. Agora todos esperamos por um retorno ao que podemos chamar de "normalidade americana", o que quer que isso seja, provavelmente ainda essencialmente imperialista. Do jeito que está, me dá calafrios. Sobre as eleições de novembro, creio que ainda não sabemos de fato quem é Obama. Ele é um centrista, não tem nada de radical, mas quem sabe se revelará de fato um líder? Vamos ver. Votarei nele.


Valor: O sr. vota nos Estados Unidos?
Carey: Tenho dupla cidadania. Voto aqui e na Austrália. Mas acho que, no caso dos Estados Unidos, todos deveríamos ter o direito de votar para presidente. O mundo deveria poder ter este direito básico de decidir quem comanda o império.


Valor: O sr. é diretor-executivo do programa de redação criativa do Hunter College, em Nova York, um centro universitário conhecido pelo corpo discente multiétnico. Lecionar é uma atividade tão essencial para o sr. quanto escrever?
Carey: Decidi tornar-me professor quando cheguei aos Estados Unidos para ficar, para ter meu "green card", para poder oferecer a meus filhos uma boa educação. Mas aí me apaixonei pelo Hunter College, um lugar em que, na graduação, você tem o maior número de estudantes de classe social mais baixa e de segundas gerações de imigrantes em Nova York. Tenho um programa pequeno na pós-graduação, dou uma aula por semana, um semestre por ano. Adoro meus alunos, que vêm de todos o cantos e têm experiências sensacionais para dividir comigo.

Valor: O sr. escreveu o roteiro de "Até o Fim do Mundo" para Wim Wenders, um dos maiores fracassos de crítica do diretor alemão. Como descreveria sua parceria com ele?
Carey: [Rindo muito] Quando o conheci, estávamos em Londres, em 1985, almoçamos, e foi um almoço ajantarado, pois ele levou três horas para me contar a história que queria que eu escrevesse. Ele tinha a idéia na cabeça, nada muito concreto. Passei três anos tentando conseguir descobrir o que ele queria dizer. Sou um romancista, não um roteirista, vai ver por isso demorei tanto a entender. Então, quando finalmente terminei o que achava ser um bom roteiro, Wim simplesmente recortou tudo e fez o que queria desde o início, acho. Fiquei possesso. Mas depois fui a Berlim, vi o filme e pensei que era aquela velha história da nova mulher que pensa que vai mudar o marido porque ele, agora, está com ela.


Valor: Ele continuaria a ser o mesmo Wim Wenders...
Carey: Exato. E Wim faz apenas o que está a fim de fazer. Não posso reclamar. Bebi bons vinhos, viajei para cima e baixo, fiquei em vários hotéis e me diverti muito. E a querida Soveig Dommartin (1961-2007), a protagonista, uma senhora atriz que morreu no ano passado de um ataque do coração aos 45 anos, só me deixou boas recordações.


Valor: Depois de "Roubo", o sr. lançou em fevereiro, nos Estados Unidos, "His Illegal Self", sobre um jovem chamado Che que é forçado a sair da redoma de vidro de seu apartamento para conhecer os percalços da vida. E agora, o que está preparando?
Carey: A melhor definição que já ouvi sobre um romance é "um trabalhão com um problema no meio". Pois é isso mesmo o que percebo agora. Posso adiantar que meu novo livro se passa no passado, em vários países, e dois temas centrais serão democracia e cultura popular. É isso.

quarta-feira, agosto 13, 2008

A Hora do Desabafo

Enquanto isso, no Brasil...

terça-feira, agosto 12, 2008

CARTA CAPITAL/Quando o Jazz Jaz

A Carta Capital que está nas bancas saiu com minha reportagem sobre a dificuldade por que passam os músicos de jazz nos EUA por conta da recessão. São casos e mais casos de artistas abandonados por Uncle Sam.

Fundamental foi a conversa que tive com o pessoal da Jazz Foundation of America (JFA) e com os músicos - os três da foto, pela ordem, o sensacional Jimmy Norman, um dos compositores do hit Time Is On My Side, a queridíssima Lodi Carr, a Joaninha do Jazz, e a espoleta mato-grossense Sissi Verdi, que tem um vozeirão impressionante (conhecida quem anda de metrô todo dia aqui na cidade). Importante frisar que descobri o trabalho da JFA, uma associação que recoloca os músicos no mercado de trabalha e presta todo tipo de assistência - hospitalar, habitacional - que o Estado, na primeira economia do mundo, se abstém de fazer, através do colunista do Village Voice, e fanático por jazz, Nat Hentoff.

Segue o texto:

QUANDO O JAZZ JAZ

MÚSICA Os Estados Unidos do showbizz milionário relutam em socorrer os ícones do passado. Restam as Fundações.

POR EDUARDO GRAÇA,
DE NOVA YORK


É impossível desviar o olhar. A primeira imagem que se vê no apertado quitinete em que Jimmy Norman vive no Upper West Side, em Manhattan, é uma foto sua com Keth Richards. O compositor de 70 anos foi um dos autores do primeiro hit dos Rolling Stones, Time is on My Side. O detalhe triste da história é que a faixa que chegou ao top six das paradas norte-americanas jamais rendeu centavos a mais para Norman.

Quando a notícia de que Norman estava sendo despejado do apartamento por falta de pagamento do aluguel chegou à Jazz Foundation of América (JFA) os poucos pertences do artista que participou do histórico grupo de doo-wop The Coasters estavam encaixotados. Ele dormia em uma cadeira de plástico. A saúde, debilitada depois de dois ataques cardíacos, o impedia de se apresentar na noite nova-iorquina, seu principal ganha-pão desde os anos 70, quando se tornara uma das estrelas do cultuado Harlem River Drive de Eddie Palmieri, com seu mix de salsa, jazz, funk e soul.

“Durante muitos anos tive vergonha de dizer que a letra de Time Is On My Side era minha. Não queria que as pessoas tivessem pena de mim”, diz, olhando para os chinelos de dedo que protegem os pés cobertos por longas meias de algodão apesar do calor opressor do verão nova-iorquino.

Norman foi um dos
beneficiados pelo fundo de emergência criado pela JFA para ajudar músicos em dificuldade financeira. O aluguel foi pago e o tratamento de saúde regularizado. A faxina feita por dois voluntários da ONG trouxe à tona uma preciosidade: uma fita-cassete com a primeira sessão de Bob Marley nos EUA, aos 23 anos, sob a batuta de Norman, a pedido do cantor Johnny Nash, dono do selo JAD.

“Gravamos a fita em meu antigo apartamento no Bronx. O sonho de Bob, naquela época, era ser o novo James Brown”, conta. As oito músicas (três da lavra de Norman), resultantes de três dias de trabalho, foram adquiridas por 26 mil dólares num leilão na Christie’s. Assim ele pôde comprar dois computadores, montar um estúdio caseiro e gravar o CD Little Pieces, lançado pelo selo inglês Wildflower. “Meu próximo disco será uma retribuição à JFA, com o lucro destinado à ajuda de outros músicos que vivem desesperados, como um dia estive.”

Com a Crise Econômica, a Situação dos Músicos Pobres, que Já Andava Ruim, Piorou

Um concerto anual no histórico teatro Apollo, no Harlem, é a principal fonte de renda da Jazz Foundation. Este ano, Norah Jones, Bill Cosby e outros 50 artistas buscavam angariar fundos para músicos norte-americanos sofrendo de forma intensa os males da recessão. “Você ouve o tempo todo que a situação econômica aqui nos EUA está caótica, que a hora é de apertar os cintos. Imagine como ficam os que já viviam em dificuldade antes da crise explodir?”, pergunta Wendy Oxenhorn, diretora-executiva da JFA, organização sem fins lucrativos criada em 1989.

Na ante-sala do escritório de Oxenhorn, um senhor negro de meia-idade, saxofone em punho, procura assistência. Ele quer saber se a JFA pode ajudá-lo a encontrar trabalho. Alguns minutos depois a entrevista é interrompida por outro instrumentista em busca de uma geladeira para enfrentar o calor. “Este foi um baixista que tocou com todo muito importante e teve pólio aos 58 anos. Ficou esquecido e alguém falou para ele da JFA”, conta Oxenhorn, lembrando que a maioria dos músicos não autoriza a revelação da identidade.

A cantora Lodi Carr é exceção. Uma das musas do renascimento do Jazz nos anos 50 em Nova York, cujo disco Ladybird (1958) é vendido por 50 dólares nas lojas de vinil da cidade, não se importa de falar dos tropeços. Dos muitos nomes que surgem de sua memória pródiga nenhum é louvado como Dizzy Gillespie. Quando estava tratando de um câncer que o mataria em 1993, o mago do trompete criou um fundo voltado a músicos no Hospital de Englewood, em Nova Jérsei. Desde então, sem custo para os pacientes, a JFA envia músicos para serem tratados lá.

Na JFA, os artistas estão em todas as pontas do processo. O médico-chefe de Englewood é um baixista amador. Wendy Oxenhorn toca harmônica como ninguém e chegou à fundação depois de ver um anúncio em um jornal, quando se apresentava nas estações de metrô. Sob as ruas de Manhattan, ela conheceu a mato-grossense Sissi Verdi, 80 anos, cabelos longos, a voz grave e a batida de violão característica dos apaixonados por Baden Powell.

Sissi tocou, em uma trajetória que a levou aos quatro cantos do mundo, como Cavour e Camila Benson. Hoje, recebe uma ajuda mensal de 200 dólares da JFA e vive em um prédio administrado pelo Social Security americano. Depois de duas décadas tocando nos metrôs, Sissi conseguiu se aposentar nos EUA e recebe subsídio de 400 dólares por mês para remédios “Tenho saudades do Brasil, mas quando poderia ter casa, medicamentos e até alimentação incluídas na pensão?;”

Cidade Dura: Lodi Conhece Outra Nova York: 'Amigos Sofrem'

Para Lodi Carr, no entanto, Nova Iorque revela sua face mais dura para artistas que viraram a casa dos 60. “A maioria dos meus amigos estão sofrendo com a recessão. As coisas ficaram ainda mais difíceis. Na JFA, têm atendido 500 casos por ano relacionados a músicos de minha idade. Não acho que tende a diminuir”, diz.

Oxenhorn lembra que, nos EUA, a relação entre miséria e arte é mais íntima do que se pensa. E revela que conseguir doações das grandes estrelas da música, ou mesmo a participação no concerto anual da fundação, é tarefa das mais complicadas.

Mas há também histórias com final feliz, como a do músico que tocou em vários álbuns de Frank Sinatra, pegou uma pneumonia aos 71 anos, ficou impossibilitado de fazer suas noites nos clubes de Nova Iorque e acabou despejado. Foi encontrado pela JFA morando em um carro. Hoje, paga as contas com a própria música.

Mas todos são casos que revelam o descaso pela cultura popular em um país rico como os EUA, com um showbizz repleto de milionários. Daí a missão da JFA, como descreve o crítico musical Nat Hentoff, do semanário Village Voice, ser a de ‘regenerar as vidas de artistas abandonados, cuidando de suas necessidades básicas’. “A idéia inicial era criar um museu do jazz, mas surgiram histórias de vários músicos que seguiam impossibilitados de se apresentar, de nomes que fizeram parte da vida cultural de Nova Iorque e estavam esquecidos”, diz Oxenhorn.

Ela lembra que o fim da era de ouro do jazz levou ao desaparecimento de inúmeros clubes e casas noturnas. O processo de desregularização dos sindicatos, aprofundado pelos sucessivos governos republicanos, aumentaram a necessidade de criação de um organismo como a JFA. Uma de suas principais iniciativas é levar músicos como Norman, Carr e Verdi para apresentações em hospitais, asilos e orfanatos.

De acordo com Oxenhorn, desde 2005, após a tragédia do furacão Katrina, quando centenas de artistas se viram desalojados da noite para o dia e a fundação se popularizou, o número de músicos assistidos subiu para 3.500 ao ano. Em Nova Orleans, a fundação criou um fundo de 1 milhão de dólares voltado para os shows. “Eles trabalharam duro a vida toda e nos fizeram um bem enorme, compuseram a trilha sonora de nossas vidas. Não há como não pensar em ajudar estas pessoas que querem, essencialmente, continuar a mostrar sua arte para o público”, diz.

A diretora da JFA é uma máquina. O treinamento na harmônica a presenteou com uma capacidade de falar de modo polido, mas sem grandes pausas para respirar. Quando encasqueta com alguma idéia, parece impossível demovê-la. “Adoraríamos estabelecer uma parceria com artistas brasileiros, por exemplo. Imagine uma noite musical beneficente juntando artistas do jazz daqui com músicos que se dedicaram aos vários ritmos brasileiros, como o baião, xote, forró? Não seria o máximo?”. Ou, como se diz em português, não daria samba?

sexta-feira, agosto 08, 2008

Mutantes Na Tevê Americana

o dia inteiro. Por conta do tema escolhido pelo McDonald's para sua propaganda - a versão deliciosa de Ela É Minha Menina, de Jorge Ben. Ó só:

sexta-feira, agosto 01, 2008

ENTREVISTA/Brendan Fraser

A Contigo! desta semana sai com a entrevista vapt-vupt que fiz com o Brendan Fraser, ator principal de A Múmia 3, que estréia nos cinemas brasileiros hoje. Ele foi simpático, ainda que um pouco, como direi, estabanado. Ó só:

Brendan Fraser
Ele ama múmias, mesmo!
Brincalhão, Brendan diz que dá para o gasto como ator e que a cinessérie A Múmia lhe garante lugares em restaurantes badalados

Por Eduardo Graça, de Nova York

Não há restrições com o ator Brendan Fraser, 39 anos, prestes a virar um quarentão. Ele pula de cadeira, faz uma imitação estranhíssima de seu herói favorito, Indiana Jones, e ri sem jeito em uma suíte de um hotel em frente ao Central Park, em Manhattan, Nova York. Ele mais parece seu personagem George, O Rei da Floresta, do filme homônimo de 1997, do que Rick O'Connell, o herói da terceira versão de A Múmia, agora com o subtítulo A Tumba do Imperador Dragão, que estréia nos cinemas na sexta-feira.

Nesta entrevista a Contigo!, o ator respondeu a tudo na maior simpatia e irreverência - apesar de sair de um divórcio complicado com a autora Afton Smith, 40, com quem tem três filhos (Griffin, 5, Holden, 4 e Leland, 2 anos). Brendan, que estrela também Viagem ao Centro da Terra, em versão 3-D, ainda em cartaz nos cinemas, não se leva a sério. No novo filme, Rick, seu personagem, agora tem uma nova e linda companheira no lugar de Rachel Weisz, 37. É Maria Bello, 41, que faz Evelyn, a mulher do herói. Mas e a múmia, desta vez, quem é? Um imperador chinês interpretado por Jet Li, 45, de Romeu Deve Morrer. Confira o papo.

É bom ser um ator que enfrentou múmias três vezes?
Dá um sentimento de identidade instantânea. Todo mundo me diz: ''Você é aquele cara da Múmia (risos)!''

E isso é positivo?
Algumas pessoas dizem que você perde algo ao se identificar tanto com um personagem. Não concordo. A Múmia me abriu várias oportunidades e até me deu, veja só, a chance de conseguir duas mesas no Nobu (famoso e concorridíssimo restaurante japonês de Nova York) sem muito esforço (risos). Sério, acho que A Múmia não me impediu de fazer filmes diferentes, igualmente importantes para mim, como Deuses e Monstros e O Americano Tranqüilo. Mas, sejamos sinceros, filmes precisam de público, e o público gosta de A Múmia. O primeiro filme, pelo menos, foi extremamente popular. E aí decidimos fazer o segundo igualzinho ao primeiro - mas não conte isso para ninguém, por favor (risos)! E agora resolvemos fazer algo completamente diferente, na China do pósguerra. Eu juro que este vai ser diferente, tá?

Em seu website oficial (www.brendanfraser.com) você fala muito em educação e experiência...
Quando criança, por causa do trabalho de meu pai, viajei muito pelo mundo, o que me fez ficar mais confortável comigo mesmo em qualquer tipo de lugar ou situação. Ajudou a me colocar em uma posição, muito cedo na vida, de ter de me educar o tempo todo. Ah! Lembro de quando andava pelo British Museum (o ator viveu em Londres quando criança), eu morria de medo de todas aquelas múmias lá. Meu Deus, elas eram, de fato, pessoas mortas (risos)!

Conselhos para jovens atores?
Hoje a maioria das pessoas parece interessada nos tais 15 minutos de fama. Será que elas se perguntam o real motivo pelo qual estão interessadas em atuar? Eu não tive escolha. Não há outra coisa que eu saiba fazer, tinha de ser ator.

Você se considera um grande ator?
Digamos que eu dou para o gasto (risos). Garanto que invisto tudo o que posso no trabalho e procuro acrescentar algo original ao filme.

Você vai fazer 40 anos. Alguma diferença ao encarar um herói como Rick com esta idade?
Ah, a minha idade (risos)! Sim, é claro que é diferente. Eu tinha 30 quando fiz o primeiro filme. Tive de me preparar ainda mais agora. E saí todo cheio de escoriações, não teve jeito (risos) . Quando eu estudava teatro me disseram que atuar é queimar calorias (risos) .

Aos 40, chegou aos objetivos que almejava no começo da carreira?
Não. Sinto que estou começando a atingir alguns deles agora. E hoje, honestamente, minha meta principal é continuar trabalhando.

Seus filhos curtem A Múmia?
Não deixo eles assistirem. Eles ainda estão na fase Bob Esponja, sabe? Agora tenho uma boa história sobre George, o Rei da Floresta (1997). Uma vez, no aeroporto de Singapura, senti algo me cutucando no ombro. Quando vi, era uma criança, toda feliz, falando: ''George, George (risos) !'' E eu, desesperado, pensando: ''Cadê a mãe desta criança?'' Vai ver este é meu personagem definitivo, sabe? O George!

Você também fotografa (o site do ator tem várias fotos). Continua investindo em fotografia?
Sigo fazendo fotos nos sets de filmagem, mas não é uma segunda carreira. Para mim é uma maneira de revisitar cenas que realmente amo. Cheguei a ter algumas galerias interessadas, fiz uma exibição dedicando os fundos para organizações não governamentais, mas sou um ator. Não sou como o ator Jeff Bridges (58, ator de Susie e os Baker Boys), que fez um álbum, com cenas de bastidores do Homem de Ferro, que é genial. Estou longe disso, sou só um amador.