sábado, julho 25, 2009

ENTREVISTA/JOHNNY DEPP



A Contigo! desta semana chega às bancas com a entrevista que fiz, durante conferência de imprensa, com o adorável Johnny Depp. O astro de Inimigos Públicos, o filme de Michael Mann que já está nos cinemas brasileiros, conversou sobre John Dillinger, o gângster que encarna na tela grande, sua vida pessoal, seus projetos futuros. Segue abaixo, na íntegra, a conversa que tivemos em Los Angeles:

Johnny Depp

Um senhor talento!

Um dos maiores astros do cinema abre o jogo sobre a vida em três países, explica detalhes do novo filme, Inimigos Públicos, e revela o tamanho de suas... intimidades!


Por Eduardo Graça, de Los Angeles


- Você chegou devagar, sentou-se na cadeira lentamente. Esse tempo mais lento é um antídoto contra a loucura da fama?
- Há vários aspectos de minha vida pré-Hollywood de que sinto falta. Ser mas um na multidão, por exemplo. Ser reconhecido na rua é divertido, mas poder levar minhas crianças para uma loja, um restaurante ou a Disneylândia, é inviável. John Dillinger tinha esta habilidade de ir aos lugares públicos sem ser descoberto, como você viu no filme que eu desenvolvi também. Claro, ele tinha outros motivos para não ser reconhecido (risos).

- Uma das cenas mais deliciosas do filme é quando Dillinger entra na delegacia...
- E normalmente pergunta como os policiais estão indo, qual o resultado do jogo, vê os recortes de jornais de sua própria vida na parede e vai embora, sem ser reconhecido. Quem imaginaria que ele iria lá? Na Feira Internacional de 1933, que aconteceu em Chicago, ele pediu a um policial para tirar a foto dele e da namorada.

- Existe algum lugar no mundo onde você poderia fazer o mesmo?
- Sim, numa pequena ilha nas Bahamas onde construí meu refúgio justamente para isso (risos). Lá, ninguém me reconhece, a não ser que eu queria (risos).

- Você também tem uma casa na França e uma em Los Angeles. Aonde é seu verdadeiro lar?
- Temos uma casa no sul da França, minha mulher é francesa, mas a maioria de nosso tempo é passada aqui em Los Angeles, pois as crianças vão à escola aqui. A França me deu o luxo de uma vida mais simples, vivemos no interior e seus dias são mais calmos, não há executivos, agentes, é mais calmo. Mas nos últimos três anos, Los Angeles tem sido nossa casa.

- Dillinger aparece no filme como uma espécie de Robin Hood. Você se identificou com o personagem?
- Sim, muito. Graças a Deus eu não preciso andar com um trabuco no bolso de trás da calça, mas preciso dizer que Dillinger representou na época, quando os bancos eram os inimigos e o governo tinha gente como J.Edgar Hoover, o primeiro diretor do FBI, pior do que a maioria dos criminosos, o herói do homem comum. Ele levantou a cabeça e decidiu que não olharia mais para trás. Vou fazer o que tenho que fazer, juntar um dinheiro, fugir para o Brasil, e tentar não ferir ninguém no processo. Então, não vou negar, eu desenvolvi uma admiração pelo Dillinger.

- Fica a questão ética de que ele era, no fim, um bandido, não um mocinho...
- Depende de nossa percepção. Se eu tivesse de ficar em um recinto desarmado e dar as costas para Dillinger ou Hoover, eu escolheria o Dilinger, estaria mais seguro com ele. O fascínio pelos bandidos passa por nomes como Bonnie & Clyde ou Billy the Kid, que eram homens comuns que enfrentaram o governo. Não são um Charles Manson, por exemplo. São dois grupos diferentes de bandidos.

- Você se doa completamente a seus personagens. Edward Mãos de Tesoura é completamente diferente de Jack Sparrow ou de John Dillinger...
- Isso é um baita elogio, obrigado! É minha responsabilidade encontrar aquele personagem, experimentando algo diferente todas as vezes, algo que o público ainda não viu. O que não quero é entediar a audiência.

- Como foi seu processo de pesquisa para encontrar Dillinger?
- Não havia muitas imagens dele gravadas, nem áudio. O mais próximo que tive acesso foram as vozes do pai de Dillinger. Ouvi com atenção e imaginei aquele fazendeiro do sul de Indiana, numa cidadezinha há 150 quilômetros de onde eu cresci, no Kentucky. Aquilo me deu um clique, o sotaque. Daí pensei que ele falava, que o gestual dele, eram parecidos com os de meu avô.


- Você usou referências de sua própria família...
- Sim. Eram as mesmas raízes, sabe? Nos anos 30, vovô durante o dia dirigia um ônibus e de noite usava o veículo para transportar bebida para os municípios vizinhos na época da Lei Seca, o que não deixa de ser um serviço de utilidade pública (risos). E meu padrasto passou um tempo na penitenciária estadual de Illinois por conta de pequenos erros. Fui juntando estes ingredientes para criar meu Dillinger.

- Você sempre usa música neste processo, não é?
- Sempre, não abro mão disso. Em cada conversa diária que você tem há uma trilha sonora. Seja uma buzina do lado de fora da rua ou o virar das páginas de um jornal. Ironicamente, a música que ficou na minha cabeça durante todas as filmagens de Inimigos Públicos foi Nightmare, do maior clarinetista do jazz, Artie Shaw.Uma música de 1937 que cabia em cada cena do filme.

- Inimigos Públicos também conta uma grande história de amor. Como foi sua interação com Marion Cotillard?
- Na vida de Dillinger, há um momento em que tudo vira secundário, e Billie, sua parceira, passa a ser o foco de sua vida. Quando os dois estavam juntos, era fogo puro. Marion foi perfeita, ela é de uma dedicação única, chegou no set de filmagem meses antes de todos nós para se preparar melhor, pegar o sotaque certo. Ela é espetacular, uma atriz, aliás uma mulher muito, muito especial.

- Marion contou que durante a pesquisa que fez sobre o caso de Dillinger e Billie descobriu que ele era extremamente bem-dotado. Você também chegou ao mesmo resultado na pesquisa?
- Fiz a mesma pesquisa e cheguei a resultado similar (rindo muito). É a mais pura verdade! E sabe o que foi mais sensacional na história toda.

- Diz...
- Temos exatamente o mesmo tamanho! (rindo mais ainda e ficando com a face vermelha).

- Vamos mudar a direção desta conversa? Marion também disse que temia fazer as cenas de amor com você...
- Por causa do tamanho?

- Não! Porque você tinha sido um gentleman desde o primeiro dia, e ela queria que as cenas fossem sensual, mas ao mesmo tempo elegantes. Cheias de paixão mas sem ter que mostrar muito do corpo de vocês dois...
- Entendo a preocupação dela. É que este tipo de cena é crucial em um filme. Costumo dizer que você pode tirar o público da narrativa, eles instantaneamente esquecem do personagem e passam a observar com curiosidade o corpo dos artistas, especialmente aquelas partes (risos).

- Michael Mann diz que foi importante ter você como Dillinger, porque o gângster era um homem de verdade. O que é, para você, um homem com H maiúsculo?
- Sabe o que me fez o homem que eu sou?

- Não...
- Minha operação de sexo (mais risos). Sério, tentando não ser condescendente comigo mesmo, se há algo que sou de fato nesta vida é pai. Mais do que qualquer outra coisa. E, se levar em conta a opinião dos meus filhos, sou um pai decente. E isso é o que eu mais quero como homem com H maiúsculo. Ser um bom pai, ser honesto com os que amo, ser gentil com as pessoas.

- Mas há uma predileção sua por um certo tipo de homem nos filmes, os anti-heróis, não?
- Huum...talvez. Mas acho que não seria um bom super-homem. Não creio que eu fique bem em calças de lycra! (risos).

segunda-feira, julho 20, 2009

CARTA CAPITAL/Perfil - Dick Cheney na Oposição

Dick Cheney foi o Imperador

17/07/2009 14:12:11

Eduardo Graça, de Nova York

A história quem conta é George Lucas. Em conversa com a colunista Maureen Dodd, do New York Times, o criador do épico Guerra nas Estrelas e da série de aventuras do Indiana Jones se disse lisonjeado pelo uso de um de seus mais caros personagens, o afônico Darth Vader, nos textos da jornalista sobre o então vice-presidente Dick Cheney, mas alertou que era preciso fazer uma reparação. “Cheney não é Vader. Anakin Skywalker era, no fim, um menino de um planeta árido e isolado que se transforma em Darth Vader pela influência de uma velha raposa política. O Vader é o Bush. Cheney é o Imperador”, disse.

Pois nos primeiros seis meses da era Obama a face mais visível da antiga administração foi justamente a de Dick Cheney. Em programas de tevê, o rejuvenescido “imperador do Wyoming”, 68 anos, bateu impiedosamente no governo Obama, criticando a economia, o projeto de reforma da Saúde e especialmente a segurança nacional. Mas esta semana o ex-vice foi acusado pelo novo diretor da CIA, Leon Panetta, de manter um programa secreto de extermínio de terroristas. De acordo com a nova administração, Cheney ordenou que a CIA omitisse do Congresso a existência de tal programa, o que seria ilegal. “E, curiosamente, no momento em que volta a ser alvo da imprensa por conta de revelações comprometedoras, ele desapareceu. Outorgou à filha, Lynn, a tarefa de responder pela ilegalidade que cometeu. Aonde está Cheney?”, pergunta, sarcástica, a atual estrela do telejornalismo liberal nos EUA, Rachel Maddow, da rede MSNBC.

Nos corredores do Capitólio diz-se que Cheney está em casa, escrevendo -suas memórias. Crê-se que embolsará pelo menos 2 milhões de dólares pelo livro. “O episódio mais recente prova que Cheney captura a ambivalência que nós, norte-americanos, temos em relação à ideia de democracia. Seus defensores valorizam o homem que carrega o fardo do trabalho sujo nas costas, que não tem medo de fazer o que é preciso para nos proteger. Já seus detratores confirmaram as mais fortes suspeitas de que ele passou por cima da Constituição, tratando a democracia como uma abstração, um teatro. Cheney é um personagem que catalisa como ninguém o medo do americano comum”, diz o sociólogo Stephen Duncombe, da Universidade de Nova York (NYU), estudioso da simbologia política nos EUA.

Jamais figura popular, o único cargo eletivo de Cheney foi o equivalente no Brasil a deputado federal, eleito cinco vezes por Wyoming. Hábil articulador, chegou a ser o líder da minoria na Câmara. Sempre atraí-do pelos bastidores, foi chefe do estafe do presidente George Ford (que assumiu o governo no turbilhão do Watergate e se notabilizou pelo perdão concedido a Richard Nixon), secretário de Defesa de Bush I e, durante os anos Clinton, CEO da Halliburton, a corporação texana, uma das maiores beneficiárias de contratos de reconstrução do Iraque ocupado quando o Imperador já dava expediente na Casa Branca. Um CV que ajudou-o a bater, ao fim do governo Bush, todos os recordes de reprovação popular na história contemporânea dos EUA.

Alvo preferencial de humoristas por ser considerado o cérebro por trás da desastrosa política externa do governo Bush II, ele se tornou a piada do ano quando, em 2006, atirou por acidente em um advogado septuagenário durante uma caçada em um rancho no Texas. O amigo de Cheney foi alvejado no rosto, no pescoço e no torso. A acusação de que ele ultrapassou os limites constitucionais de seu posto ofereceu munição extra para seus críticos. “Se entendi direito, ele ligou para a direção da CIA e disse: ‘Meus meninos, se vocês encontrarem alguma coisa suspeita, me informem, o.k.?’ E ele, sozinho, resolveria tudo com suas próprias mãos. É assim que eles achavam que a coisa deveria funcionar!”, ironizou David Letterman.

Com Dick Cheney recusando-se a falar com a imprensa, Letterman ofereceu dez possíveis desculpas para o lapso de Cheney em uma imaginária entrevista coletiva. Em uma possível resposta o ex-vice-presidente diria “Como assim? Vocês acreditam mesmo que eu poderia violar o direito individual e constitucional dos cidadãos americanos? Vocês acham que estamos aonde, na Rússia?”. A mais capciosa ficou para o fim: “Se eu tivesse de revelar todas as coisas diabólicas que fiz, não teria nem tempo para atirar na cara de velhos amigos”.

Em artigo na Slate, Shane Harris, especialista em assuntos de inteligência e segurança do National Journal, semanal devorado pelos políticos de Washington, escreve que a investigação sobre os abusos de autoridade de Cheney poderá ser o primeiro grande fiasco na área da inteligência do governo Obama. “A CIA tem uma longa história de manter programas secretos e de omitir informação ao Congresso. Mas ficam algumas perguntas: mesmo com o Ato de Segurança Nacional, aprovado após os atentados de 11 de Setembro, e com os poderes especiais dados pelo presidente Bush a Cheney, não há qualquer especificação sobre a omissão de um programa deste porte ao Poder Legislativo. Com que autoridade Cheney manteve o sigilo sobre este programa? E como é que o novo diretor da CIA só foi descobrir este programa quatro meses depois de assumir a agência?”, questiona.

O presidente Obama já declarou mais de uma vez que “quer olhar para o futuro”, irritando liberais, ansiosos por uma faxina geral em Washington, com CPIs e pedidos formais de desculpas pelos oito anos de ataques aos princípios democráticos do país, e despetando a suspeita de que evitaria conflitos com figurões da administração passada. Mas depois das revelações do programa secreto de assassinato de terroristas, o procurador-geral Eric Holder anunciou que pensa em nomear um jurista para tratar exclusivamente de possíveis casos de tortura e desmandos durante os anos Bush. A direita teme que virtuais punições não parem em funcionários de baixo escalão e atinjam símbolos do partido no momento em que tenta se reestruturar para as eleições legislativas de meio-termo no ano que vem.

“A ultra-exposição de Cheney na tevê neste semestre, enquanto Bush manteve-se no ostracismo, parece-me uma tática de inoculação. Ele bateu duro em Obama para que seu próximo ato seja o de qualificar qualquer investigação que envolva seu nome como vingança pessoal. Qual o próximo passo? Ignorar Cheney ou puni-lo? Se optarem pela primeira opção, os democratas perderão legitimidade. Se investirem na segunda, a caça às bruxas pode galvanizar uma oposição que, neste momento, está em frangalhos”, pondera Duncombe.

O imperador, disposto a virar dublê de mártir, mais uma vez teria emparedado os democratas, divididos entre abrir as gavetas do governo Bush e oferecer munição para uma direita acuada ou enfrentar o desânimo dos liberais, interessados na transparência do poder público cantada até pouco tempo em prosa e verso por um certo senador de negro de Illinois.

domingo, julho 12, 2009

CARTA CAPITAL - edição de 10/07

Mais um texto sobre o golpe em Honduras na Carta Capital desta semana:

INTERNACIONAL

Nas mãos de Obama
10/07/2009 17:36:08

Eduardo Graça

Na semana em que o golpe de Estado em Honduras teve sua primeira vítima, a pressão para que os EUA intervenham de forma mais incisiva na política centro-americana aumentou significativamente. A morte de Isis Obed Murillo, 19 anos, nas cercanias do Aeroporto Internacional de Tegucigalpa foi, de acordo com diplomatas norte-americanos, o trágico evento que impulsionou o governo golpista a iniciar negociações formais com o presidente deposto Manuel Zelaya, a partir da quinta-feira, na Costa Rica, sob interferência direta da secretária de Estado, Hillary Clinton. No domingo, usando um avião cedido pelo governo da Venezuela, Zelaya tentou sem sucesso retornar à capital hondurenha. Em terra firme, milhares de manifestantes e soldados entraram em choque e, de acordo com a Human Rights Watch (HRW), há evidências de que os militares dispararam contra ativistas pró-Zelaya.

“A violência das Forças Armadas e o tamanho da multidão, a maior desde o golpe, aumentam a pressão sobre os EUA para encontrar uma solução para o impasse. O cenário parece muito com a tentativa de golpe contra Hugo Chávez em 2002, só que o Exército hondurenho tem mais prática do que o venezuelano em táticas repressivas. Daqui foi orquestrada a série de assassinatos nos anos 80 contra cidadãos de El Salvador e Nicarágua”, aponta o economista Mark Weisbrot, presidente da ONG Just Foreign Policy e colunista da rede de jornais McClatchy-Tribune, em artigo publicado na quinta-feira no The Huffington Post.

Para Weisbrot, uma das mais reveladoras manifestações sobre a natureza do golpe veio do principal porta-voz legal das Forças Armadas, o coronel Herberth Inestroza, que disse “ser muito difícil para nós, com nosso treinamento, aceitar um governo de esquerda. Na verdade, é impossível”. Tanto Inestroza quanto o líder militar do golpe, o general Romeo Vázquez, receberam treinamento na Escola das Américas, denunciada por grupos de direitos humanos por conta do desenvolvimento de prática de torturas aplicadas contra militantes de esquerda nos anos 60 e 70 pelas ditaduras militares instauradas com apoio de Washington na América Latina.


Em relatório produzido sobre o confronto de domingo, a HRW dá conta de que pelo menos dez outros cidadãos teriam sido feridos à bala, com possivelmente mais uma vítima fatal. “As evidências que analisamos, em vídeo e fotos, sugerem que os soldados atiraram contra manifestantes desarmados. O governo provisório tem a obrigação de iniciar uma investigação independente imediatamente”, diz José Miguel Vivanco, diretor da HRW para as Américas.


O ministro das Relações Exteriores do governo provisório, Enrique Ortez, afirmou que, se houve algum ferido, a culpa é dos manifestantes, já que as Forças Armadas usaram apenas balas de festim. Ortez notabilizou-se por ter dito em entrevista para uma rádio local que o presidente Barack Obama é “um
negrito que não sabe de nada”. O vídeo e as imagens de Obed Murillo, ferido na cabeça, sendo carregado pelos manifestantes correu mundo, assim como a maquiagem feita pelo jornal La Prensa, que apoia o golpe, com o sangue sendo eliminado da foto, apresentado como um exemplo da manipulação da mídia pelo governo hondurenho.

A cena dramática aumentou a pressão da comunidade internacional contra o governo golpista, mas não arrefeceu a oposição. O descontentamento da classe média não diminuiu desde a última pesquisa sobre o governo Zelaya, conduzida em outubro de 2008 pelo Gallup. O índice de aprovação do presidente – um fazendeiro transformado após as eleições em aliado bolivarianista de Hugo Chávez - beirava a casa dos 25%. Nas ruas de Honduras, as manifestações contra o presidente deposto ainda são mais numerosas do que as de seus seguidores. “Setenta a 80% dos hondurenhos não querem o retorno de Zelaya. Ele e seus partidários são ladrões, corruptos, mentirosos. E é impossível se governar um país apenas com os sindicalistas, sem o Legislativo, o Judiciário, a sociedade civil, as igrejas e o empresariado”, diz a pediatra Sandra Rivas, 41, que vive na cidade operária de San Pedro Sula, a segunda maior do país.


Rivas, que tem família no Brasil, lembra que a Constituição hondurenha não prevê um processo de impedimento legal do presidente pelo Congresso, como aconteceu no Brasil com Fernando Collor de Mello. E, com a negativa das Forças Armadas de garantir a segurança do plebiscito que, há duas semanas, determinaria a convocação de uma Assembléia Constituinte, havia o receio da manipulação dos resultados pelo governo. Uma das intenções do presidente seria a de alterar a Constituição afim de revogar a proibição da reeleição para cargos executivos.

“E três dias antes do plebiscito a turba de Zelaya invadiu o galpão em que estavam as urnas, já confiscadas pelas Forças Armadas. Todos tinham certeza de que não haveria transparência na contagem dos votos. Não queremos a repetição do que aconteceu na Bolívia, na Nicarágua, na Venezuela”, diz Rivas.


O que os golpistas em Honduras – sede da principal base aérea norte-americana na América Central – não contavam era com a defesa enfática da ordem democrática por Washington. “Os EUA apóiam a restauração imediata do presidente hondurenho, ainda que ele tenha se posicionado de forma clara contra a política externa norte-americana. Há, aqui, um princípio maior em jogo”, afirmou esta semana o presidente Obama.

Rivas diz que a oposição não contava com o apoio dos EUA, já que era fato conhecido a oposição do embaixador norte-americano em Tegucigalpa ao golpe. “Mas não esperávamos uma reação tão agressiva e parcial da comunidade internacional”, reconheceu.


Durante a semana, a secretária de Estado, Hillary Clinton negou-se a afirmar, depois de encontro oficial com Zelaya, que apoiava sua volta imediata ao poder: “Não quero me adiantar às conversas em Costa Rica entre as duas partes”. Mas Clinton se negou a receber uma delegação do governo golpista e os EUA anunciaram a suspensão total do programa de ajuda militar com Honduras, no valor de 16,5 milhões de dólares. Mais significativo: a maior economia do planeta congelou os 50 milhões de dólares que seriam enviados este ano para o país centro-americano e ameaçou vetar os 130 milhões aprovados pela ONU dentro do projeto Metas do Milênio.


Clinton foi a principal articuladora do encontro de quinta-feira em San José, mediado pelo Prêmio Nobel e presidente costa-riquenho Oscar Arias. Pela primeira vez Zelaya e Roberto Micheletti, que, há dois anos, era sua escolha predileta para sucede-lo no cargo, estariam frente à frente. Mas Zelaya deixou a casa de Arias pouco antes da chegada de Micheletti. No caminho do hotel o presidente deposto disse que não está interessado em concessões e pediu o “restabelecimento do estado de Direito, da democracia e do retorno ao poder do presidente eleito pelo povo hondurenho”. Micheletti disse que não há negociações que considerem o retorno de Zelaya ao poder. O próximo passo, de acordo com o presidente costa-riquenho, é um encontro com quatro representantes de cada grupo. Se houver avanços, um encontro entre os dois líderes será marcado.


Em Honduras, forças pró-Zelaya tomaram várias rodovias que ligam o país a El Salvador e Nicarágua, enquanto os partidários de Micheletti saíram as ruas em San Pedro Sula. No portão de sua casa, Oscar Arias disse que “temos a oportunidade de resolver esta crise em dois dias”, mas “por outro lado, esta situação pode-se arrastar por dois meses”. Em artigo na página de opinião do Washington Post publicado no mesma quinta-feira, Arias escreve que o episódio Honduras demonstra, uma vez mais, que os erros do passado da América Latina estão historicamente próximos demais para serem ignorados. Resta saber se o velho estadista conseguirá encontrar um caminho para um país tão isolado quanto dividido.

segunda-feira, julho 06, 2009

CARTA CAPITAL - edição de 3/07


Internacional

Não será como nos anos 60

03/07/2009 14:55:24

Eduardo Graça, de Nova York


Para desconsolo de alguns imitadores brasileiros do estilo neocon, ninguém teve a coragem de defender o golpe militar que depôs Manuel Zelaya da Presidência de Honduras. Ao contrário. Houve uma inédita convergência entre os Estados Unidos e a Venezuela na condenação aos golpistas. A Organização dos Estados Americanos (OEA) exigiu a recondução de Zelaya ao poder até sábado 4, caso contrário Honduras será suspensa pelo organismo.


Analistas concordam que a veemência com que o presidente Barack Obama condenou o movimento armado redimensionou a extensão das mudanças da política externa norte-americana. Em 2002, o governo Bush reagiu de forma mais do que simpática à quartelada contra Hugo Chávez na Venezuela. “A reação é parte da tentativa de se diminuir os danos causados pela desastrosa política de Bush para a região. Foi na tomada de posição de Obama, aliás, que a reação decidida do presidente Lula contra o golpe teve mais impacto. Brasília ajudou Obama a dar o tom de sua resposta, menos presa à linha moderada da secretária Hillary Clinton”, diz o professor
Alejandro Velasco, especialista em América Latina na Universidade de Nova York e autor de celebrado trabalho sobre protestos urbanos na Venezuela entre 1958 e 1989.

Os EUA, que mantém em Honduras a Base Aérea de Soto Cano, sua principal unidade militar na América Central, considera a administração Roberto Micheletti ilegal. O político assumiu o executivo após uma “declaração de ausência” do presidente Zelaya votada no Congresso. Zelaya fora enviado de avião para Costa Rica, de pijamas, em uma seqüência de acontecimentos que lembrava a Brasília de abril de 1964. O governo Obama também adiantou o corte da ajuda econômica ao país se o ultimato da O.E.A. não for respeitado. Um oficial do departamento de Estado disse ao New York Times que a administração democrata aposta no isolamento total do novo governo, pois “não há mais espaço no século XXI para este tipo de golpe”.


Sinal dos tempos. De acordo com documentos oficiais, o golpe militar contra o governo esquerdista democraticamente eleito de Jacobo Arbenz em 1954 na Guatemala foi arquitetado pela C.I.A. a partir de Tegucigalpa. Meio século depois, veio de Washington a pressão para que o Banco Mundial anunciasse a suspensão de uma linha de crédito de 270 milhões de dólares que seriam usados em projetos sociais em Honduras. O incremento da atuação do Banco Mundial na América Latina é uma prioridade do governo Obama e são cada vez menos secretas as conversas nos EUA para que a instituição receba o comando de um líder latino-americano a partir de 2011. O nome favorito de Obama seria justamente o do presidente Lula. O Banco Inter-Americano de Desenvolvimento também anunciou pausa por tempo indeterminado de todos os projetos no país centro-americano, um dos mais pobres da região, com 50% da população vivendo em extrema pobreza, de acordo com a ONU.


Fica a dúvida de até quando os golpistas agüentarão a pressão internacional. Em Honduras, o novo governo não parece interessado em ceder um milímetro a sua posição: militares, a maioria conservadora no legislativo e a Suprema Corte entendem o ato militar de domingo como um contra-golpe, uma reação à tentativa de Zelaya de estabelecer um governo nos moldes do bolivarianismo chavista, desrespeitoso do equilíbrio entre os três poderes e fincado em uma prática de plebiscitos permanentes reduzindo a força da democracia representativa.


Tal linha de raciocínio não ganhou eco na mídia internacional. O NY Times destacou a manchete do Estado de São Paulo da terça-feira dando conta de que “Obama lidera a reação contra o golpe em Honduras” como um exemplo da política multilateral prometida pelo democrata na campanha eleitoral posta em prática em um momento de crise. Já o Washington Post pediu em editorial que Obama vá “além de Brasil e Chile” e condene tanto o golpe quanto a tentativa de ataque democrático de Zelaya à democracia representativa. O jornal não entrou no mérito da aprovação das reeleições pelos legislativos sem participação popular, como no caso do Brasil em 1998. Nem informou seus leitores que o plebiscito de domingo em Honduras daria aos eleitores o poder de convocar uma Assembléia Constituinte.


No jogo de xadrez da política externa nas Américas, Washington teria aumentado seu poder de pressão na hora de denunciar futuros abusos de governos eleitos democraticamente, como os da Bolívia, Nicarágua e Venezuela. Não por acaso, ganhou destaque na cobertura do golpe nos EUA as declarações dos líderes da oposição em Caracas, com a Acción Democrática rebatizando Hugo Chávez de “o George Bush da América Latina” por conta de sua ameaça de enviar tropas para Honduras. “Na batalha entre as visões de democracia que imperam hoje na região, o golpe em Honduras é uma derrota para Chávez na medida em que ele consolida Obama como defensor do princípio democrático”, diz Velasco.


Além de anunciar que não há a menor possibilidade de aceitar o retorno de Zelaya - um rico fazendeiro eleito com apoio da elite em 2006 e que deixou de lado o credo neo-liberal pelo evangelho chavista nos últimos dois anos depois de bater de frente contra o tratado de livre-comércio firmado com os EUA - o governo provisório de Honduras afirmou também estar preparado para defender a democracia hondurenha pela força das armas.

Na quarta-feira, Micheletti decretou estado de emergência e derrubou direitos constitucionais como a inviolabilidade de domicílio e o limite de 24 horas para prisões preventivas. O toque de recolher, em vigor desde domingo, permanecerá pelo menos até sábado, quando se encerra o prazo dado pela OEA para o retorno de Zelaya, que foi longamente aplaudido em seu discurso esta semana na sede da ONU.
Na quinta-feira, o secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, partiu para Tegucigalpa com sugestões como a anistia geral para os golpistas e a garantia de que Zelaya seja impedido de disputar a reeleição.

Se o impasse persistir, a pior opção, garante o historiador Greg Grandin, é a intervenção armada. Em comentado artigo na The Nation, o diretor do programa de pós-graduação de História da NYU diz que o departamento de Estado já trabalha com uma “alternativa Haiti”.


“Em 1994, Bill Clinton trabalhou para a volta de Jean-Bertrand Aristide ao poder. Foi um desastre, com aumento da pobreza e polarização política que prepararam o terreno para um segundo golpe de estado, em 2004, apoiado por Bush”, lembra. Washington, diz Grandin, deveria manter a posição de seguir o restante da América e evitar a todo custo uma saída militar para a crise: “Quando a presidente do Chile visitou Washington no mês passado um repórter perguntou a Obama se ele pediria desculpas em nome dos EUA pelo golpe contra Allende em 1963. Ele disse que estava interessado em olhar para o futuro. Pois bem, esta é uma oportunidade de ouro para Obama mostrar que ele rompeu mesmo com o passado e alinhou os EUA com a democracia em todos os seus tons, ainda que não se goste do ator principal escolhido pelos cidadãos de seus povos”.

sexta-feira, junho 05, 2009

Broadway 2009: Uma Senhora Temporada

Está na revista de fim de semana do Valor Econômico a reportagem do escriba aqui sobre a temporada que acaba este fim de semana da Broadway. O teatro em tempos de crise econômica deu uma reviravolta interessante, com espetáculos mais subversivos e politizados.

Ó só:

O Despertar da Broadway

Temporada é marcada por temas subversivos e incômodos, opostos ao escapismo de Hollywood.

Por Eduardo Graça, para o Valor , de Nova York

Abela adormecida. Essa é aimagem cunhada pelos principais críticos de teatro, diretores, produtores e atores que fazem de Nova York talvez o maior palco do teatro comercial do planeta para definir a Broadway em termos de crise. Menos por conta da ingenuidade da personagem da Disney — há décadas a senhora absoluta da Times Square — e mais pelo choque de realidade, a Broadway dos anos Obama parece ter acordado para o mundo que a cerca. A temporada, que tem seu ato final neste domingo com a premiação do Tony, foi marcada por espetáculos surpreendentes que giraramemtorno de temas subversivos, incômodos e inteligentes, opostos exatos ao escapismo fácil que tomou conta de Hollywood no mesmo período.

Tome-se por exemplo o soturno “Hair” criado por Diane Paulus, uma diretora celebrada pela adaptação disco de “Sonhos de uma Noite de Verão”, durante seis anos atração obrigatória no circuito alternativo da cidade.

A última cena de “Hair” traz o protagonista imolado, sobre a bandeira tricolor, enquanto se ouve, sem a graça hippie presente no filme de Milos Forman, a trupe entoar “Let the Sushine In” a capella. Ao voltar a 1967, ano em que a peça foi encenada pela primeira vez, inaugurando o Public Theater, Diane Paulus não deparou “com um mundo hippie-happy”.

“Não, aquele era um momento tenso, divisor de águas. Não era fácil para os jovens”, diz.

Daí a decisão de centrar fogo na história de Claude, filho de imigrantes que busca desesperadamente o significado de ser americano. “Ele se pergunta se ser patriota é acreditar nos ideais americanos, na liberdade que pressupõe a crítica aos governantes de seu país, ou se esse sentimento tão fundamental para quem vive aqui se traduz em vestir um uniforme e pegar em armas por seu país”, comenta Diane.

O conflito interno do jovem de cabeleira loura é, na visão da diretora, a encruzilhada emque se vê a própria América do século XXI. E o sacrifício de Claude (vivido na peça pelo ótimo Gavin Creel, indicado para o Tony de melhor ator) é das cenas mais fortes de uma temporada intensa nos teatros nova-iorquinos.


“É intenso sim. Mas belo também. Queria que esse lado da história de ‘Hair’ fosse revelado. A gente imagina ‘Let the Sunshine In’ como algo para cima, um mantra hippie. No filme, há a referência à highway, à liberdade ianque. Mas para mim é o oposto. Trata-se de um grito desesperado por um mundo novo. É a tribo de jovens sentindo que perdeu Claude, morto em uma terra distante. É um grito gutural, de dor, por Claude, mas também é uma visão de um futuro de morte e guerras.”

Nos últimos três meses, os reis leões, as mamma mias e as mary poppins receberam a companhia — e com casa cheia — de seres nascidos da imaginação de Ionesco, David Mamet, Samuel Beckett ou Yasmina Reza. E também de musicais oriundos ou aparentados ao cinema, mas distantes do pedigree Disney, como “Hair”, “West Side Story” e, acima de todos, “Billy Elliot”. Com 15 indicações para o Tony, o espetáculo, sucesso de público e crítica na Inglaterra e na Austrália, traz a depressão econômica do thatcherismo para a sala de jantar da Nova York pós-colapso deWall Street. Não há herói mais exato, em tempos de vilões como Bernard Maddoff, do que o bailarino filho de operários da quase defunta indústria do carvão vivido no palco pelos talentosíssimos David Alvarez, Trent Kowalik e Kiril Kulish.


Foi, também, uma temporada com estrelas para todos os lados, com William H. Macy (“Fargo”) em “Speed-the-Plow”, de Mamet, Jane Fonda como uma doente terminal bailando com o fantasma de Beethoven em “33 Variations”, Susan Sarandon e Geoffrey Rush em “Exit the King”, de Ionesco, James Gandolfini (“Família Soprano”), Jeff Daniels (“A Era do Rádio”), Hope Davis (“Synecdoche, Nova York”) e Marcia Gay Haden (“Pollock”) destilando humor negro na comédia sensação da temporada, “God of Carnage”, deYasmina Reza, Daniel Radcliffe (“Harry Potter”) nu em “Equus”, Nathan Lane (“Os Produtores”) visitando “Esperando Godot” e, sim, Will Ferrell (“Mais Estranho Que a Ficção”) enterrando de vez George W. Bush com seu cáustico “A Final Night”. E ainda há uma rendição estelar de “Mary Stuart”, de Schiller, a estreia de Neil LaBute nos palcos da Broadway e o tão impressionante quanto improvável “Next to Normal”.


“O resultado é que neste domingo os eleitores do Tony terão uma tarefa dificílima, algo que não acontecia havia décadas”, afirma, entusiasmado, o crítico Ben Brantley, do “The New York Times”.

Em uma temporada que também quebrou recordes históricos de bilheteria — um total, até esta semana, de US$ 943,3 milhões em ingressos para 43 espetáculos —, “Hair” foi o precursor de uma onda “cabeça” que tomou conta dos palcos de Manhattan.

Apresentado no verão de 2008 no Central Park, muitos duvidavam que o revival chegaria à Broadway, inclusive os patrocinadores originais, que deixaram de apoiar um dos hits de 2009. “Havia uma ansiedade no ar. Era como se a gente quase tivesse se esquecido de como seria o país se a mudança viesse”, diz Diane Paulus.

“Hair” se alimentou dessa energia como poucos na Broadway. “E agora o espetáculo, com Obama no poder, se transformou em algo diferente. A celebração que ocorre ao fim de duas horas, com a plateia dividindo o palco com os atores, vem dessa certeza de que você, o público, pode ser o agente transformador”, acrescenta a diretora.

Nada mais próximo da liturgia obâmica. E Paulus, que acaba de assumir a direção do prestigioso American Repertory Theatre, em Cambridge, e é fã ardorosa do trabalho do diretor Augusto Boal, concede que Let the Sunshine In contém um suspiro de esperança. Esta talvez, arrisca, seja a senha para se entender o momento rico pelo qual passa a Broadway. Realismo doído com esperança pé-no-chão. “Havia um sentimento fúnebre, com a crise econômica, as pessoas perguntando: com a queda de Wall Street, há lugar para a Broadway tal qual a conhecemos? Que espaço há para o teatro nova-iorquino nessa realidade? Procuramos então transmutar um produto de luxo para algo mais essencial na vida em comunidade. As pessoas querem refletir sobre o que estamos passando, e querem fazer isso irmanados”, diz Paulus.

Em uma sociedade cada vez mais poluída por aparatos eletrônicos e espaços na internet que parecem celebrar uma das características mais emblemáticas do imaginário norte-americano, o individualismo libertário, a eleição de um líder comunitário à moda antiga, embora alavancado à presidência por milhares de doadores anônimos reunidos de modo virtual em comunidades eletrônicas, parece ter despertado no cidadão – vá lá, no público – o desejo de comunhão cantado por Paulus em prosa e patchulí. De certa forma, Barack e Michelle Obama sintetizaram este momento cultural ao prestigiarem, no fim de semana passado, outro dos espetáculos mais fortes da temporada, Joe Turner’s Come And Gone, de August Wilson, um dos mais influentes dramaturgos de origem negra do teatro contemporâneo norte-americano, falecido há quatro anos.

Segundo capítulo de sua enciclopédica seqüência de dez peças sobre a vida do negro norte-americano após o fim da escravidão, Joe Turner, indicado para o Tony de melhor re-encenação, é um exercício sobre a migração forçada e a busca da identidade cultural e étnica no centro econômico do planeta. Inseridos de forma confortável na sociedade de espetáculo norte-americana do século XXI, os Obama chegaram de limusine ao Lincoln Center, foram aplaudidos de pé por 10 minutos e levaram fãs a manifestações de tietagem e desespero beatlemaníacas.

No dia seguinte, a direita imediatamente lembrou que, em tempos de recessão, a imagem de um presidente conduzindo a primeira-dama – foi ‘promessa de campanha’, dizia um sorridente Barack – com toda pompa por uma noite que incluiu ainda um jantar em um restaurante especializado em produtos orgânicos era um luxo que desafiava o bolso e a paciência dos eleitores. Do outro lado do muro ideológico, se lembrou do retrato mais marcante de George W. Bush, figurino de piloto da Força Aérea, o monólogo ensaiado da ‘missão cumprida” em um porta-aviões, coreografia ensaiada com esmero, logo após a derrubada de Saddam Hussein durante a invasão do Iraque. Fim de ato.

Houve também quem apontasse a decisão estratégica dos Obama de prestigiar a Broadway e não uma grande première em Hollywood. Se no cinema há uma rendição ao escapismo nu e cru, o teatro mais comercial parece infectado pelo vírus do debate de idéias. “Adoraria que presidentes encontrassem tempo em sua agenda para se abrir aos saudáveis e formativos efeitos do teatro sério. Afinal, com a exceção de Abraham Lincoln, não consigo me lembrar de nenhum outro. E a famosa frase de W.H.Auden sobre a relativa incapacidade da arte de afetar nossas vidas reais, bem, o mesmo se pode ser dito da atividade legislativa”, escreveu o critico de teatro do Los Angeles Times, Charles McNulty, celebrando os bons augúrios que vêm de Midtown Manhattan.

De volta à rua 45, Tom Kitt e Bryan Yorkey, respectivamente música e letras de Next to Normal, concordam que este foi o momento certo para apresentarem um espetáculo coreografado de duas horas e meia sobre uma mulher que, além de típica moradora do subúrbio americano, é, também, bipolar. Eleito pelo The New York Times como o melhor musical da temporada, Next to Normal tem direção de Michael Greiff (Rent, Grey Gardens) e recebeu 11 indicações para o Tony. Primeiro musical da história da Broadway a girar em torno da psicose maníaco-depressiva, Next to Normal foi apresentado por Ben Brantley como um mix de telenovela com a ópera-rock Tommy, do The Who. Espécie de papa informal da crítica teatral em Manhattan, o jornalista, que costuma ser econômico em seus elogios, também escreveu que “este corajoso musical, que nos tira o fôlego, não é o típico musical que o fará sentir bem. Não, este é um musical que o fará sentir muito”.

Esta foi, para Kitt e Yorkey, a temporada em que a Broadway não teve medo de buscar a emoção verdadeira. “Houve um distanciamento da emoção sintética. Muita gente apostou que, com a crise econômica, as platéias buscariam um divertimento fácil. Mas as platéias de Nova York estão respondendo com júbilo aos shows que lidam com o real. Há até mesmo uma busca pelo mais doloroso, pelos shows que tratam da condição humana. Funciona como uma catarse. E eu acho o máximo”, confessa Yorkey.

Tom Kitt lembra que há espetáculos para todos os gostos e, sim, claro, é possível passar uma semana em Nova York sassaricando pela Broadway e encontrando conforto fácil para mentes e corações. “Mas o gratificante de se ver são espetáculos que em outros momentos teriam maior dificuldade para encontrar o grande público, pois giram em torno de temas mais sérios, com a casa cheia. O que levou Next to Normal às 11 indicações do Tony foi o desejo da platéia de entrar noite adentro lidando com questões de certa forma mais difíceis de serem discutidas na forma de teatro musical”, diz.

PERFIL/Ben Stiller

A Contigo! que está nas bancas trouxe o mini-perfil que fiz de Ben Stiller, sucesso por aqui com a seqüência de Uma Noite No Museu e repleto de projetos para os próximos anos. Na íntegra, segue o texto:

Ben Stiller

O Rei da Comédia


Na melhor fase da carreira, o astro de
Uma Noite no Museu 2 consegue juntar um time estelar de comediantes para uma sequência repleta de efeitos especiais e novos personagens

Por Eduardo Graça, de Washington, DC (EUA)

Quando perguntam em quem se espelha em Holywood, Miley Cirus, a Hannah Montana, não titubeia: “Quero ter uma carreira como a do Ben Stiller. Ele dirige, produz, escreve e estrela seus filmes. Ele é o maior”. Stiller, 43, é o comediante mais poderoso do cinema americano, um ator que consegue fazer Tom Cruise tirar sarro de si mesmo, dirigir longas subversivos como Trovão Tropical e estrelar superproduções familiares como Uma Noite No Museu-2, seqüência do sucesso de 2006, que rendeu 570 milhões de dólares nas bilheterias mundiais. Magro, com cabelos esbranquiçados e mais longos do que o costume – pré-requisitos para filmar o drama Greenberg, sob a batuta de Noah Baumbach, festejado diretor de A Lula e a Baleia – Stiller, 43, conversou com a Contigo! em uma das salas do castelo do Instituto Smithsonian, o maior complexo de museus do planeta e principal cenário de Uma Noite No Museu 2, em cartaz nos cinemas brasileiros.

Cabeça baixa e de olhos bem abertos, Stiller encara de modo incrédulo e orgulhoso o meio-de-campo que escalou para sua seleção estelar da nova continuação. ''Olhem só como este filme é maior e melhor do que o primeiro'', exalta, apontando para os atores Robin Williams, 57, Owen Wilson, 40, e Ricky Gervais, 47, figurinhas carimbadas do longa original, e apresentando as novas faces da franquia do vigia noturno Larry Daley e suas peças históricas que ganham vida à noite: Amy Adams, 34, e Hank Azaria, 45. ''Quando era criança, vinha muito ao museu aeroespacial, um dos pontos altos do Smithsonian. Sempre sonhei em rodar um filme em meio aos foguetes e aviões. Agora, eu fiz. E com este elenco incrível!'', diz.

Entre as novas celebridades ressuscitadas por Stiller e o diretor Shawn Levy, 40, estão a aviadora Amelia Earhart interpretada por Amy, o general Custer (Bill Hader, de
Superbad - É Hoje!) e o hilário faraó com problema de dicção, encarnado com perfeição por Hank Azaria (Quero Ficar com Polly).

Apesar de Ben Stiller ter um cachê de 15 milhões de dólares e ser o responsável por uma das maiores reuniões de comediantes do ano, a cena da entrevista para divulgar o filme foi roubada por Robin Williams. O astro de
Uma Babá Quase Perfeita foi logo ao ataque, brincando com o escândalo do ator Christian Bale nas filmagens de O Exterminador do Futuro: A Salvação, um dos concorrentes de Uma Noite no Museu 2 ao posto de maior longa do ano. ''Mamãe, eu quero ver o Exterminador a-go-ra! Quero ver o Christianzinho ficar nervoso e brigar com o diretor de fotografia'', diverte-se enquanto Ricky Gervais, criador da série britânica The Office e ganhador do Globo de Ouro de 2004 e dos Emmy de 2006 e 2007, cai na gargalhada.

''Por estas e por outras é que deixo as piadas para os meninos'', desabafa a simpática Amy (na foto acima com Stiller), indicada ao último Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por
Dúvida. ''Imagine como foi o meu drama nestas filmagens'', completa a estrela, que teve uma fã influente para ganhar o papel feminino do longa: Ella, filha de 7 anos de Stiller. ''Ella revê Encantada o tempo todo no DVD e, quando veio nos visitar nas filmagens de Uma Noite no Museu 2 não estava nem aí para mim. O que ela queria mesmo era ver a Amy'', brinca Ben.

Comediante órfão


A rasgação de seda em cima de Amy não passou despercebida pelos colegas comediantes. Quando questionada sobre a sensação de ser considerada uma das atrizes mais quentes do momento, Williams esticou o pescoço, olha a estrela de cima para baixo e morde os lábios. Gervais foi ainda mais maldoso. ''Aproveite Amy, porque daqui para a frente é ladeira abaixo'', mandou o inglês.

Amy Adams não conseguiu nem responder. Tomando as dores da moça, Williams virou as baterias para o humorista: ''Gente, por favor, ajude uma criança órfã. Ricky está disponível para adoção. Já soube, no entanto, que Madonna não se interessou. Por favor, ajudem este adorável menino inglês. Angelina, minha querida, nossos telefones estão desocupados!''

Stiller revelou que uma terceira aventura em museus poderá deixar de lado as instituições norte-americanas e seguir para outros continentes. Quiçá no Brasil? “Pensamos sim em um filme passado em um outro país, mas também pode ser na Europa ou no Japão”, disse, cruzando os dedos para que a seqüência do filme confime o entusiasmo de dona Hannah Montana. Pois o baixinho de 1,69m está doido para provar que é, de fato, ‘o maior’ entre seus pares.

domingo, maio 31, 2009

Pop Culture. Really?

Hoje teve MTV Movie Awards aqui em Obamalândia. E Sasha Baron Cohen resolveu encher o saco - literalmente - de um dos rappers mais conhecidos por sua homofobia. Desceu dos céus - encarnado de Bruno, o fashionista gay austríaco que dá título a seu novo filme (se tudo der certo entrevisto o homem no fim de junho) - sem-nu e atacou Eminem em um 69 angélico. Tudo meio ridículo e forçado. Eminem soltando palavrões. Seus amigos seguranças batendo na bicha voadora. Que palhaçada. Sad, sad, sad.

O vídeo está aqui: http://gawker.com/5273616/bruno-gets-up-close-and-personal-with-eminem

quinta-feira, maio 21, 2009

GreenDay - Mais do Mesmo no Webster Hall

O Terra publicou meu texto sobre o show do GreenDay anteontem aqui em NY por conta do lançamento do novo disco dos caras, 21st Century Breakdown. Aqui vai o texto completo (as fotos são minhas):


Resenha - GreenDay - Webster Hall, Nova York, 19/05/2010


Na metade do show de duas horas que o Green Day apresentou para cerca de mil enlouquecidos fãs nesta terça-feira, Billy Joe Armstrong recebe James Brown e, olhos arregalados, arrisca alguns versos de I Feel Good. Não, o Webster Hall não é o Apollo Theater e o Harlem está a milhas de distância do East Village. Mas há algo inegavelmente subversivo quando nova-iorquinos muito brancos, de todas as idades, em alto e bom som, se perguntam, em coro se ‘você quer ser um americano idiota’?

Quatro anos depois da explosão de American Idiot, quiçá a obra-pop-símbolo dos anos Bush, Billy Joe, Mike Dirnt e Tré Cool voltam com 21st Century Breakdown, uma ópera-rock dividida em três atos que giram em torno do casal Christian e Gloria. Depois de apresentarem quase todo o repertório do musical e alguns sucessos de outras safras, como At the Library (a primeira faixa do primeiro disco da banda, o mediano 1,039/Smoothed Out Slappy Hours, de 1991) e 80 (do bom Kerplunk, de 1992), a pergunta inevitável da noite é: “mas este Breakdwon é tão forte quanto o Idiot?”.


É. Mais uma vez a mistura de baladas pop com a velocidade e a zoeira características da banda fizeram com que o público pulasse durante todo o tempo. Muito deleniador no rosto, uma cabeleira à la Robert Smith, Armstrong abriu a noite às 9h15 da noite com o grito gutural “New York Cityyyyyyyyyyy!”. E a platéia logo mostrou a que veio cantando junto com o minúsculo rock star a letra inteira de 21st Century Breakdwon. Sem pausa para respirar, Know Your Enemy prova por que é o single do disco, com o povo saracoteando enquanto repetia, em transe, a letra que anuncia: “Violência é uma energia/contra o Inimigo/Traga a Fúria/Revolte-se contra a honra da obediência”.


No palco, ao lado do trio, Jason Freese, Jason White e Jeff Matka se dividiram entre guitarra, piano e até saxofone, imprimindo uma textura ligeiramente mais melódica às composições da banda. Há, também, uma rendição ao sugar-pop de conjuntos vocais dos sixties, com backing vocals caprichados em uuuhs e aaahhs. Ao contrário do espetáculo mais contido que apresentaram um dia antes para um público menor no Bowery Ballroom, toda a teatralidade do Green Day tomou conta do Webster Hall. Houve quem pensasse estar vendo uma banda de glam rock dos anos 70, ressuscitada e imolada nas ruas sujas do Village. Será que vem daí o delineador de Armstrong? Huuum....


O vocalista parecia possuído. Pediu aos seguranças que tirassem as caixas de proteção do palco. Se jogou em meio a mãos tão protetoras quanto curiosas de meninos e meninas na platéia. Convocou um fã ao palco e deixou-o cantar os versos de Longview, para delírio dos amigos. “Isso aqui, agora, é uma experiência religiosa! Cheguem mais perto! Vamos trocar nossos germes. Quero sentir vocês!”, gritava, enquanto comandava a coreografia da galera, ora ao ritmo de mãozinhas, ora em frenético pula-pula.


Green Day na Broadway


Em entrevista dada a um programa de tevê esta semana nos bastidores do Saturday Night Live, os meninos californianos revelaram um pouco do processo criativo que gerou 21st Century Breakdown. “Em janeiro de 2006, dois anos depois de termos lançado American Idiot, sentamos juntos com um punhado de papel em branco e começamos a escrever. O corpo do novo trabalho surgiu com a música que dá título ao disco. Depois personagens começaram a tomar forma. Eles parecem refletir o que queríamos dizer. Acredito que estamos no melhor de nossa forma. Se American Idiot foi um passo à frente, Breakdown são três pulos adiante”, disse Armstrong.

As semelhanças com a criação de uma peça de teatro musical são óbvias. E em breve a Broadway, quem diria, deverá ser palco para a adaptação teatral de American Idiot. “Sim, o pessoal responsável por O Despertar da Primavera, um grande sucesso da última temporada, já conversou conosco. Fomos ver o espetáculo e é impressionante, não tem nada a ver com o teatro musical de nossos avós! Achamos que o musical vai ser sexy e direto ao ponto”, disse Dirnt. “A idéia é ter entre os personagens o Jesus do Subúrbio, São Jimmy e Whatshername, presentes no disco, mas sem diálogos e sim com cartas enviadas de um para outro. Vai ser cool”, prometeu Armstrong.

O namoro escancarado com a Broadway e a presença de gerações diversas no Webster Hall dão pistas para se desvendar o segredo do envelhecimento esperto do Green Day. A banda apresentou seu oitavo álbum de estúdio para um público tão próximo da ironia adolescente de Dookie quanto do rock sério de ares políticos de American Idiot. A parte final do show de terça-feira reforçou a idéia de que a popularidade da banda – uma das poucas ainda bancadas pela combalida indústria do disco na atual cena pop americana – advém de um equilíbrio do que ainda restou do humor irreverente dos meninos (com as armas todas voltadas para valores tipicamente americanos, como a liberdade, a democracia e o gigantismo incontrolável) com um tique cada vez mais explícito de se emular os gênios do velho rock’n’roll, de Who a Queen.


Daí o olhar surpreso de punks e indie rockers mais aguerridos, aboletados no vizinho Irving Plaza para conferir um tributo, no mesmo dia e horário, aos Ramones, por conta do aniversário de Joey Ramone. “Não sabia que o Green Day ainda tinha esta importância!”, se admirava Hewitt Pratt, presença assídua na noite roqueira da cidade.

Mais do Mesmo, para Alegria dos Fãs


No show do Webster Hall, letras que falam de lobotomia, ignorância coletiva, heróis e condenados, refugiados e ingênuos, se misturam, até com alguma lógica, a pedaços de clássicos dos Isley Brothers (Shout!) e de Ben E.King (com um Stand By Me mais próximo da interpretação de John Lennon).

Armstrong pede, no êxtase da celebração de terça-feira, que o público encontre a esperança perdida na promessa de Know Your Enemy: "A inssurreição virá/Quando o sangue for sacrificado/Não se deixe chegar pelas mentiras/Violência é uma energia/O inimigo é o silêncio/Dê-me/Dê-me então/a Revolução". E assim se delineia o passeio do casal Christian e Gloria pela selva de pedra desenhada por Billy Joe Armstrong, que nos chega mais como um espelho de American Idiot do que uma natural evolução, os tais três passos imaginados pelo rock star. Mais do mesmo, para a alegria dos fiéis da igreja verdejante.

quarta-feira, maio 20, 2009

Jornada nas Estrelas: entrevistas

Nunca fui fã da série. Jamais me seduzi pelo cumprimento hippie-galático ou pelas orelhas sabidas de Spock. Sim, adorei a foto (reprozudida aí em cima) do Obama de Vulcano. E sabe que gostei da versão do J.J. Adams? Dos lançamentos comerciais de verão, foi, de longe, até o momento, o mais interessante.

Reproduzo aqui os textos originais que saíram no Terra Online com as entrevistas realizadas em Los Angeles. Aí vão:

Eduardo Graça, de Los Angeles, Direto da Redação para o Terra

Quando J.J. Abrams, o nome responsável pelas séries Lost e Alias, recebeu a tarefa de reinventar uma das maiores grifes da cultura pop norte-americana, a reação foi de espanto. O diretor não era exatamente um fã de Jornada nas Estrelas – a série estreou na tevê americana em 1966, o mesmo ano em que Abrams nasceu! - e tinha calafrios ao pensar em títulos como o recente Nêmesis, um dos maiores fracassos de bilheteria de 2003.

Depois de uma dezena de filmes e uma nova geração sem o brilho da original, Abrams percebeu que para fazer a U.S.S.Enterprise decolar novamente seria preciso jogar o cheiro de mofo que pairava na nave espacial para escanteio. Missão cumprida. Seu Jornada nas Estrelas nos leva para a primeira viagem da nave espacial, apresentando as origens de personagens queridos do público, como o Capitão Kirk, vivido pelo galã Chris Pine, e o alienígena mais famoso do universo, Spock, na pele de Zachary Quinto, conhecido pelo vilão da série Heroes.

E, ao contrário de outras marcas poderosas que se voltaram para seu gênesis recentemente e optaram por mostrar cenários sombrios, como o Batman dos irmãos Nolan, o Jornada das Estrelas de Abrams é repleto de esperança, um retrato coloridísimo da Era Obama. É a galáxia unida em prol do bem-comum. Até o romulan vivido pelo Hulk Eric Bana tem lá seus motivos para arrumar confusão entre uma viagem pelo tempo e outra.

Opa, e eu já disse que estas travessias temporais oferecem a desculpa perfeita para que Leonard Nimoy, o eterno Spock, volte à tela grande com toda pompa? Não? Então se segure, o Terra conversou com Abrams e seu elenco no salão de conferências de um hotel de luxo em Beverly Hills. Os principais trechos da conversa com o diretor seguem abaixo. O bate-papo com os atores vem logo em seguida. Aperte os cintos e se prepare, esta viagem vale o ingresso nos cinemas.

J.J. Abrams - highlights

Desafio de Retomar uma Grife de 40 Anos

Logo de início percebi que queria manter elementos da mitologia de Jornada nas Estrelas que fossem importantes para os fãs. A silhueta da Enterprise precisa ser fiel ao original. O fã precisa reconhecer os personagens de imediato (VER QUADRO). A audiência é mais sofisticada agora, claro, então tivemos que trabalhar num nível de precisão com que, em 1966, os produtores não precisaram se preocupar.

Fantasia Realista

Sabia desde o início que seria a parte mais importante de meu Jornada nas Estrelas. Nunca me preocupei nem com os efeitos visuais, nem com o design dos objetos. O que queria eram atores capazes de imprimir realismo no filme. Um de nossos modelos foi o Super-Homem dirigido por Richard Donner em 1978. Até então, a imagem que você tinha do homem de aço era a dos quadrinhos ou da série de tevê. Com Donner, você tem de acreditar que aquele homem pode, de fato, voar. Era o efeito que eu queria em Jornada nas Estrelas. Nunca senti – e talvez isso tenha a ver com os recursos disponíveis anteriormente – que Jornada nas Estrelas era real. Queremos mudar isso.

Elenco

Queria, então, ter atores capazes de trazer humor e verdade para a tela, sem copiar os originais. Achava que o mais complicado seria o Spock. Então, um belo dia, Zachary Quinto apareceu e sim, ele nasceu para fazer Spock um dia na vida. Kirk foi o último a encontrarmos, demorou muito. Queríamos alguém bonito, sapeca e essencialmente engraçado. Foi o que achamos em Chris Pine. Também tínhamos de ter atores que falassem o cientificês tecnológico e não deixassem ninguém de saco cheio. Você acredita no que vê. A primeira vez que tivemos a certeza de que estávamos no caminho certo foi quando Zach e Chris leram juntos algumas cenas. Com este elenco temos a pretensão de fazer um Jornada nas Estrelas que não será esquecido, que ficará. Esta é nossa ambição.

Comparações Com Outras Jornadas

Para começo de conversa eu nunca fui um trekkie. Gostava da série, mas nunca fui um fã ardoroso. Quando descobri que haviam 10 filmes já feitos, quase tive um piripaque (risos). Comecei como produtor, mas logo cheguei à conclusão que ficaria mal se não dirigisse também.

Lutando Contra O Previsível

Um dos desafio foi não fazer algo como os filmes que contam o começo de Guerra Nas Estrelas. Ora, aconteça o que acontecer, você sabe, lá, que o personagem de Ewan McGregor vai sobreviver. Você sabe que o Alec Guiness faz o Obi-Wan Kenobi no futuro. Aqui, com a noção da viagem no tempo e das realidades paralelas, tudo é mais imprevisível.

Leonard Nimoy: O Eterno Spock

Passei tanto tempo com ele durante a preparação para o filme que percebi que não era o suficiente, queria mais. Criamos então especialmente um personagem para ele. Leonard adorou a idéia e eu também.

O novo cap. Kirk acredita que fãs vão gostar de 'Star Trek'
Uma das primeiras decisões de J.J.Abrams ao tomar as rédeas de Jornada nas Estrelas foi a de convocar um elenco forte mas destituído de estrelas de Hollywood. A idéia era trazer jovens talentosos que pudessem ser identificados com personagens tão emblemáticos quanto o Capitão Kirk e Spock de forma total, sem resquícios de outro papel marcante feito pelos atores. O autraliano Erica Bana, 40 anos, é a exceção que confirma a regra. Conhecido do público pelo agente-secreto de Munique, de Steven Spielberg, o Heitor de Tróia e, claro, o Incrível Hulk, ele faz no filme Nero, um ser atormentado pela destruiçnao de seu planeta. A seu lado estão Chris Pine, rosto de modelo, pele queimada de sol, aos 28 anos pronto para garantir seu espaço em Hollywood. Seu novo projeto deverá ser o Lanterna Verde, dirigido por Martin Campbell (de 007 Cassino Royale).

O Terra conversou com os dois, mais o hilário John Cho, 36 anos, que, como toda a tripulação de Enterprise, fechou um contrato para duas outras seqüências de aventuras de Jornadas nas Estrelas. Seguem os melhores trechos da prosa:

Como você se preparou para viver o Capitão Kirk?
PINE: Fiz minha lição de casa. Devorei a série original, vi todos os capítulos, par tentar compreender melhor a dinâmica ente os personagens e a estética por detrás de Jornada nas Estrelas. Mas aí descobri que estava tentando encontrar a melhor imitação possível de William Shatner fazendo o Capitão Kirk...
Algo mais fácil, mas ao mesmo tempo mais vaporoso de se conquistar...
PINE: Aquele não foi meu melhor momento, claro. E era o oposto do que J.J. Abrams havia pedido. Ele queria que nós imaginássemos estes personagens de forma absolutamente original, única, singular. Diferente do que todos os predecessores haviam feito com eles.

E como você saiu deste jogo de xadrez?
PINE: Eu conversei com J.J. e fomos juntos encontrando as nuances de meu Kirk. Mantive um senso de continuidade em relação ao trabalho de Shatner, creio, mas criei algo diferente. Encontrar um equilíbrio entre os dois Kirks foi o desafio de minha interpretação.
A preparação física também foi intensa, não? A futura tripulação da Enterprise passou um tempo junta e vocês ficavam tardes inteiras lutando boxe...
PINE: Sim, tivemos dois meses do que eu chamaria de recrutamento militar Star Trek (risos). Aprendemos muito com os dublês. E não foi só boxe, não, teve kick-boxing, krav-magá e aulas de auto-defesa. E com a ajuda das artes marciais, fomos criando uma coreografia para as cenas de luta.
CHO: Eu bem que tentei me manter em forma, mas têm sido aquela coisa de altos e baixos. Mas adorei tanto o taequendô quanto o krav-magá. Zac Quinto, por exemplo, ficou treinando mais aikidô. Foi tudo bem focado em cada personagem.
BANA: Como se chama isso, krav-magá?
CHO: Mas peralá, Eric, você fez um agente-secreto israelense em Munique! Como é que não sabe que krav-magá é a arte marcial desenvolvida pelo Mossad, o serviço-secreto israelense? (risos)
BANA: Oh...(com o rosto vermelho). É algo como o jiu-jitsu praticado no Brasil?
CHO: Não! Hello, Munique! (mais risos, Bana fica mais vermelho). Eu diria que é um estilo salsa de se matar alguém (risos). Não, sério, é uma arte marcial eficiente, intensa e muito boa para seu corpo.
PINE: Desde que a gente parou de gravar o que eu tenho mesmo praticado é semi-aposentadoria, conhece? Durmo muito. (risos).

Eric, você não teve de se aperfeiçoar em nenhuma arte marcial? E teve de ganhar músculos para o filme?
BANA: Não, os figurinos fizeram o serviço completo.
Chris, o Zachary teve a chance de trabalhar o Spock juntamente com o Leonard Nimoy. Você não gostaria de ter tido a oportunidade de estar mais próximo do William Shatner, que publicamente disse ter ficado sentido por não ter sido incluído no filme?
PINE: Engraçado, sabe que eu finalmente o conheci ontem em uma das ações de caridade que ele faz aqui em Hollywood? Ele é sensacional. Foi menos um encontro diplomático entre os Kirks e mais um apoio que dei às ações deste cidadão exemplar. Ele me mandou uma carta linda enquanto estávamos filmando me desejando toda sorte do mundo na Enterprise. Quero muito passar uma tarde toda conversando com ele. Mas acho que, e isso casa com o que disse no começo, se Shatner estivesse no set de filmagem, seria ainda mais complicado para mim encontrar meu próprio Kirk. Sentir-me livre o suficiente para criar meu próprio Kirk foi a parte mais importante de meu trabalho em Jornada nas Estrelas. Mas não vou mentir, agora que já filmamos, morro de inveja da relação de Zach com o Leonard (risos).

Você ficou nervoso com o encontro?
PINE: Sim, claro. Uma coisa é receber uma carta, outra encontrá-lo e dizer “olá, senhor! Prazer em conhecê-lo, eu sou aquele menino que está fazendo o seu papel” (risos). Mas percebi que havia algo na maneira como ele move seu corpo, anda teatricalmente pela nave espacial, o jeito como ele senta na cadeira, estão no meu Kirk também.

Quando lançada nos anos 60 Jornada nas Estrelas lidou com temas como a Guerra Fria, a necessidade de se fortalecer a ONU, feminismo e racismo. Como é que o filme dialoga com o mundo contemporâneo?
PINE: Enquanto filmes como Watchmen e Batman se aprofundam de uma forma magnífica do lado negro da natureza humana. Eles são niilistas e nós trazemos um sopro de esperança. Quando você termina de ver este filme você sai com um sorriso, olhando para o futuro. Pode parecer brega, mas há quanto tempo Hollywood não traz um filme de ação com um enredo para cima? Por que não uma história positiva? Especialmente neste momento de crise econômica e guerra, entre Sri Lanka e Afeganistão e pessoas perdendo suas casas, por que não contar uma história que termina de um modo diferente?
CHO: Procurando Nemo já fez isso (risos)...
BANA: E é difícil dizer para crianças de 10 anos, por exemplo, que elas não podem ver Watchmen ou Batman. Quando nós éramos crianças, estes personagens, Batman, por exemplo, eram todos infantilizados de certa maneira. Acho que ter pensado num Jornada nas Estrelas tão sofisticado quanto mais próximo de crianças e jovens foi um acerto de J.J.
Vocês acham que os fãs mais ardorosos vão curtir o filme?
CHRIS: É o que mais queremos, claro! Mantivemos vários detalhes que apenas os fãs de carteirinha reconhecerão e, ao mesmo tempo, há todo um universo convidativo a ser descoberto para quem pela primeira vez entrar em contato com Jornada nas Estrelas.
BANA: Estamos bem conscientes de que este é um filme que a audiência se relaciona de uma forma bem específica com o que vê na tela. E, olha, no lançamento mundial na Austrália foi sensacional ver a platéia em Sidnei aplaudindo de pé. E, australiano que sou, te garanto: esta não é uma reação comum em meu país. Foi um dos momentos mais emocionantes de minha carreira.

O veterano e o novo Spock falam sobre 'Star Trek'

Bastam cinco minutos em cena para se ter a certeza: Zachary Quinto era a escolha óbvia para o novo Spock. Ele parece menos o temido Sylar de Heroes e mais o cerebral vulcano de sangue-verde a cada cena. Aos 31 anos, ele é o segundo ator a assumir controle no papel imortalizado por Leonard Nimoy. De tanto maravilhar os colegas com seu conhecimento estelar e simpatia à toda prova no set ajudando seu pupilo, o veterano de 78 anos ganhou um papel no Jornada nas Estrelas de J.J.Abrams. Um dos momentos mais emocionantes do filme é quando os dois Spocks se encontram. Mas a reportagem do Terra não é estraga-prazeres e não vai contar mais nada. Vejam a conversa que tivemos, em um hotel de luxo em Beverly Hills, com os dois atores e uma linda Zoë Saldana, 31, que vive Nyota Uhura, a especialista em lingüística que se apaixona, e, na versão de J.J. Abrams, é mais do que correspondida, pelo genial – e genioso - Spock:

Você era um fã da série?
QUINTO: Não. Sou da geração Guerra nas Estrelas. E creio que os temas em torno de Jornada nas Estrelas me pareceram um pouco avançados demais para mim na época.

Como você se preparou para viver o Spock?
QUINTO: Li muito. Há volumes enciclopédicos sobre Jornada nas Estrelas. E, claro, Leonard. Ele esteve sempre ao meu lado, foi sempre uma presença fiel quando precisava de qualquer coisa. Mas para falar a verdade o que eu mais queria saber era do impacto de Spock na vida dele. Conversamos muito sobre isso.

A preparação física foi muito intensa?
QUINTO: Você vai achar que é mentira, mas tive de fazer muitos exercícios de controle-motor para as mãos. Cheguei a usar um elástico nas mãos durante horas a fio para conseguir memorizar na pele o famoso gesto de saudação de Vulcan. Dirigi muito em Los Angeles, para cima e para baixo, com o elástico nos dedos (risos). Mas para mim, essencialmente, este personagem foi um exercício de contenção.

Qual o significado para vocês do encontro dos dois Spocks?
NIMOY: Acho que fica claro o fato de que este filme funciona como uma espécie de começo e fim da história de Spock. J.J. apresenta a origem de Spock e a batalha para ele encontrar seu próprio design psicológico. É um filme sobre esperança, que coincide maravilhosamente bem com a Era Obama, é nova energia para o país, para o planeta, para estes personagens em Jornada nas Estrelas. E o filme, claro, mostra também como vingança é um sentimento vazio, especialmente nas relações internacionais entre países e, no futuro, planetas.

Spock vive no filme um relacionamento amoroso explícito com a Uhura. Vocês se preocuparam com a reação dos fãs às cenas de amor nada racionais que protagonizam?
SALDANA: De fato, em um primeiro momento, pensei que J.J. estava insano (risos). Mas depois de ler o roteiro vi que fazia todo o sentido. Ela sabe o que quer, ele é muito lógico, e ela odeia Kirk. É a combinação perfeita. Foram cenas muito cândidas eu diria, há uma ligação clara agora entre os dois, mais profunda do que antes, uma conquista para a mitologia da série.
QUINTO: Talvez tenha sido a maior liberdade dramática de nosso Jornada nas Estrelas. Foi um risco, mas acho que valeu muito. O público compreende ainda mais quem é Spock.
SALDANA: E quem melhor do que uma lingüista do calibre da Uhura para trabalhar bem com a língua? (risos).
NIMOY: Eu fiquei morrendo de ciúmes! (mais risos).

Quando Nichelle Nichols pensou em sair da série de tevê, ela recebeu um telefonema do reverendo Martin Luther King, pedindo que ela repensasse a decisão, dada a importância de Jornada nas Estrelas. O senhor tinha, na época, a noção da importância da série no imaginário norte-americano?
NIMOY: Sim, honestamente, eu tinha. Sabia que estávamos lidando com temas contemporâneos de enorme importância, como o movimento feminista e a luta pelos direitos civis dos negros aqui nos EUA. Foi uma plataforma para roteiristas lidarem com estes temas, 300 anos no futuro, de uma maneira original. Sempre tive esta consciência e usei esta informação na construção de Spock. E eu sinto que o JJ entendeu isso muito bem, fico muito feliz, estamos, como se diz aqui nos EUA, na mesma página (risos).

Obama: Saúde

A Carta Capital desta semana saiu com um textinho meu sobre a prioridade número um de Barry O. em termos de política doméstica: revolucionar o sistema de saúde nos EUA. Não vai ser fácil. Mas uma virada de mesa é fundamental para o democrata combater, a médio prazo, a imensa dívida pública da maior economia do planeta.

Ó só o texto:

Diga trinta e três

Eduardo Graça, de Nova York


Não pareceu obra do acaso. Na segunda-feira 11, o presidente Barack Obama reuniu-se com os barões dos planos de saúde na Casa Branca e anunciou um acordo histórico com o objetivo de reduzir os custos anuais de tratamentos médicos em até 2,5 mil dólares para as famílias norte-americanas. Em meio à recessão, a terça-feira surgiu com o governo anunciando a acelerada deterioração financeira do Medicare, em consequência do crescimento brutal do desemprego verificado desde dezembro.

Em 2017, dois anos antes do previsto, o único programa federal público de seguro de saúde para idosos e inválidos nos EUA estará insolvente. O mesmo acontecerá com a Previdência Social, se nada for feito, em 2037. A erosão dos dois maiores fundos de segurança social do país é a mais nova arma usada pela administração democrata para avançar a sua agenda prioritária na política doméstica: a reforma do falido sistema de saúde norte-americano.

A ex-governadora do Kansas Kathleen Sebelius, que ocupa o equivalente ao cargo de ministro da Saúde na administração Obama, foi direto ao ponto, afirmando na quarta-feira 13 que o presidente vai fazer absolutamente tudo para que idosos e cidadãos mais pobres “finalmente tenham acesso à saúde”. “Queremos abandonar um sistema doentio para apresentar uma opção saudável para todo o país”, disse.

A secretária da Saúde celebrou o compromisso firmado por redes hospitalares, indústria farmacêutica, companhias de seguro de saúde e médicos em reduzirem em até 2 trilhões de dólares os custos do setor nos próximos dez anos. E refutou as críticas de que o plano democrata representará um ataque à livre concorrência, ao reforçar uma opção pública aos planos privados, hegemônicos no mercado. “A oposição dizer que se trata de um ataque ao capitalismo americano é uma falácia. A decisão final seguirá sendo a do cidadão”, afirmou, em entrevista ao principal programa jornalístico da rede de tevê pública dos EUA.

O governo estima que ao menos 45 milhões de norte-americanos (cerca de 15% da população) estejam sem qualquer plano de saúde no momento. Um profissional liberal em Nova York, por exemplo, paga até 800 dólares por mês – cerca de 1,7 mil reais – para garantir uma cobertura total, com leito exclusivo e atendimento em clínicas especializadas. Um custo que, com a recessão, vem sendo apelidado de “pesadelo americano”, em oposição ao american dream dos anos 50. Números que fizeram com que o setor engolisse a seco a frase de Obama na reunião de segunda-feira: “Os senhores assumiram aqui um compromisso. E nós esperamos que ele seja cumprido”.

O colunista Joe Klein, da Time, um dos mais influentes do país, escreveu esta semana que a esquerda democrata está correta ao argumentar que a margem imensa de lucro das seguradoras é parte fundamental dos altos custos do serviço para o cidadão comum. “Mas minha opinião é que a opção de um plano público é apenas um elemento de barganha do governo para incluir nas discussões moderados e até republicanos conservadores, criando um plano consensual, bem ao estilo de Obama”, arriscou Klein.

A pressão por uma regulamentação do setor já começou. A Organizing For America (OFA), organização criada por Obama a partir da lista de milhares de contribuintes de sua campanha à presidência, iniciou esta semana uma campanha de abaixo-assinados – e são mais de 3 milhões de e-mails associados à lista do grupo - pedindo que o Congresso vote um Plano de Reforma da Saúde ainda este ano. A OFA pretende pressionar especialmente os parlamentares de 37 distritos eleitorais representados por republicanos, mas que votaram em Obama no ano passado.

Mas a primeira grande batalha do braço político do presidente democrata não será das mais fáceis. Em análise publicada no The New York Times, Robert Pear lembrou que “se a história for levada em conta, as seguradoras não cumprirão as reduções de custo sugeridas, o que já se anuncia pelas propostas vagas de cortes. Neste exato momento, controle de custos é uma aspiração de todos os envolvidos. E nada mais”. Para o correspondente da The Nation em Washington, Ari Melber, o maior problema é justamente a falta de profundidade do plano. “Temos apenas três princípios básicos, redução de custos, a manutenção do direito de escolha do cidadão entre um número de planos e o compromisso do governo de levar a cobertura para todos. Como mobilizar o público a partir de noções tão vagas?”, pergunta.

Uma das primeiras pistas de como o Plano Obama funcionará foi dada por Sebelius nas entrevistas que concedeu esta semana. “Não há dúvidas de que os que têm mais possibilidades de pagar um plano de saúde arcarão com uma parte dos subsídios para os mais pobres, por exemplo, pagando mais caro por remédios. O valor do incremento será desviado para subsidiar os que comprovem não ter como pagar um plano privado nas condições de hoje”, disse.

Transferência de renda através de uma reforma na Saúde é justamente o que assusta a parcela de democratas eleitos em áreas mais afluentes, tradicionalmente ligadas aos republicanos. São eles, que, no fim das contas, garantem a maioria governista no Congresso. Já na terça-feira, 45 governistas, todos parte do grupo de austeridade fiscal conhecido como Blue Dog Coalition, anunciaram seu desagrado com a ausência de representantes das alas mais conservadoras do partido nas discussões em curso em Washington. Um dos líderes da banda moderada, Mike Ross, do Arkansas, já disse que o custo das reformas, que poderia chegar a US$ 1 trilhão em 10 anos, será uma pedra no sapato do governo na hora da votação no plenário. Entre os moderados, há médicos como Parker Griffith, do Alabama, que já se manifestou céptico quanto à criação de um plano de saúde público e universal.

Por se tratar de um dos temas mais contenciosos na atual legislatura, o ex-líder democrata no Senado, Tom Dashcle, nome inicialmente cogitado por Obama para ocupar a secretaria de Saúde, acredita que haja 50% de possibilidade de o plano democrata passar pela casa. Sebelius é mais otimista. “O presidente deixou muito claro que esta é sua prioridade número para política interna. Com os dados do Medicare e da Previdência, vimos que não há a opção de se jogar este problema pra frente. Também há uma lógica irrefutável aqui: tratando de mais americanos antes dos 65 anos, deixamos o Medicare menos sobrecarregado, pois as pesquisas mostram que os idosos serão mais saudáveis. Hoje, diria que temos 75% de chances de aprovar as novas regulamentações”, afirmou.

No Senado, outro quadro mais à esquerda do partido, o senador Charles Schumer, do Brooklyn, tenta estabelecer um compromisso em que as margens de lucro da indústria dos planos de saúde não seja reduzida drasticamente ao mesmo tempo em que o cidadão tenha a oportunidade de optar pelo plano público. Parte da oposição aponta a reforma no sistema de saúde como a prova das ‘tendências socialistas de Obama’, como vem martelando o comentarista de rádio Rush Limbaugh, o de maior audiência no país. Mas as vozes dissonantes, mesmo no reino da direita, começam a aparecer. O historiador Bruce Bartlett, que trabalhou nas administrações de Ronald Reagan e Bush pai, publicou texto no site Político defendendo uma postura diferente dos republicanos da que tiveram em 1993, quando os esforços de reforma comandados pela então primeira-dama Hillary Clinton foram duramente combatidos pela direita e acabaram sendo rejeitados pela opinião pública.

O encontro de segunda-feira teria sido justamente uma tentativa da administração Obama de se distanciar da batalha entre progressistas e conservadores que caracterizou o debate sobre a saúde na década passada. O especialista em saúde pública Greg Dworkin, um dos fundadores do site Daily Kos, quiçá o mais popular na porção liberal da blogosfera, concorda com Bartlett e avalia que o Congresso irá legislar sobre o tema ainda este ano. “A direita está esfacelada e os democratas têm maioria nas duas casas do Congresso, então os republicanos deveriam ao menos sentar-se à mesa para não terem de se debater com temas críticos depois de virarem lei”, diz.

Dworkin concorda com Joe Klein no ponto mais importante do Plano Obama – o oferecimento de uma real alternativa do governo para a massa de americanos abandonadas pelos planos de saúde e confinadas em imensas filas nos setores de emergências dos grandes hospitais. “Considero importante termos a opção de um plano de saúde público, mas ainda não podemos afirmar se esta administração nos oferecerá uma opção séria ou se este será apenas mais um tópico para se barganhar no Congresso”, diz.