quinta-feira, novembro 01, 2007

Perfil/BEBEL GILBERTO




A Bravo! que acabou de sair nas bancas traz o perfil que escrevi de Bebel Gilberto, 41 anos, a cantora brasileira de maior sucesso no exterior desde Carmen Miranda. A conversa com Bebel aconteceu no verão nova-iorquino, em uma tarde deliciosa e repleta de gargalhadas. Aí vai o texto, as fotos são do meu amigo Victor Affaro:

Moça de Família

Por Eduardo Graça

Já na primeira frase da música que abre Momento, seu mais novo disco, Bebel Gilberto diz para si própria, introspectiva: "Tem tanta coisa aí tão escondida que você não quer nem mais lembrar". Será mesmo? Faz um calor infernal no verão de Manhattan quando a filha de João Gilberto e Miúcha, imensos óculos escuros, se despede do porteiro do prédio onde vive, no Village, dando-lhe conselhos sobre um tratamento de saúde para um problema de bexiga. Bebel é uma bela mulher de 41 anos, que apresenta suas armas logo de saída: um sorriso maior do que o rosto queimado de sol e uma capacidade de falar com desenvoltura sobre o mais banal dos assuntos. Sem tempo nem para respirar, os passos ainda desafinados, fruto de um acidente inusitado, "coisas que só acontecem com a Bebel", ela recebe a reportagem de BRAVO! em sua "cozinha improvisada": um restaurante japonês da vizinhança, que também é o favorito de Tom Waits e David Byrne.

Duas semanas antes do lançamento de Momento, que fecha uma trilogia para o selo belga Crammed, Bebel estava saindo do Nublu, o templo underground da música mais interessante que é feita hoje em Nova York, quando um homem despencou sobre seus pés. Assim. No burburinho da noite do East Village, enquanto ela se preparava para entrar no táxi, o grandalhão, mais para lá do que para cá, se desequilibrou e caiu sobre os pés da cantora e compositora.

No início, ela achou engraçado. Mas a dor e o inchaço lhe mostraram que algo mais grave havia acontecido. O pé, as cirurgias, o gesso, a fisioterapia, a primeira noitada em que pôde novamente beber sua cerveja, a volta claudicante à sagrada rotina das caminhadas pelas ruas nova-iorquinas, tudo faz parte da geografia sentimental mais recente de Bebel. Logo depois da primeira operação, a cantora se apresentou em Londres com um gesso enorme. A crítica britânica pegou pesado. O jornal The Guardian chegou a dizer que, "em boa parte do espetáculo, ela foi incapaz de repetir o formato sensual da pop-bossa que lhe deu tanto prestígio". Bebel se submeteu depois a uma segunda cirurgia e ficou com o pé imobilizado até a primeira semana de junho. Já é tempo de deixar a bruxa para trás. Daí a vontade de fazer a sessão de fotos para a BRAVO! em pleno chafariz da Washington Square, um símbolo da anarquia organizada da metrópole que Bebel aprendeu a chamar de sua (na verdade, a cantora nasceu em Nova York, onde seus pais moravam na época, mas depois se mudou para o Rio).

"Os maiores lembram que, quando eu era pequena, sempre dizia que um dia iria viver em Manhattan. Na virada dos anos 80 para os 90, eu estava meio perdida no Brasil, mas o que me fez vir mesmo para cá foi a vontade de me aproximar do meu irmão." João Marcello, seu irmão mais velho, é filho de seu pai com a cantora baiana Astrud Gilberto, radicada há décadas nos Estados Unidos. "Passei a vida cultivando o desejo de conhecê-lo melhor e agora somos muito próximos. Estacionei na casa dele um pouco, em Nova Jersey, e depois atravessei o rio para me instalar em Manhattan", conta, entre uma e outra mordida nos petiscos preparados pela cozinha do restaurante favorito.

A roupa do dia, prática e casual, comprova a correria dos últimos meses: ela usa um biquíni resguardado por um top e uma calça ligeiramente dobrada na altura do tornozelo. Depois do almoço, voa para a fisioterapia e termina o dia ensaiando com sua banda na cobertura onde mora. O pé ainda é um estorvo para a cantora, que fez a primeira operação, no Brasil, em março, sob os cuidados da amiga Paula Lavigne. Como boa parte dos norte-americanos de sua idade, Bebel não tem um plano de saúde. "Paula é sensacional e me deu uma força enorme. Por ser poderosa e adorar botar ordem em tudo, definiu minha vida: passagem, o médico que iria tratar de meu pé, tudo. Depois do acidente, antes mesmo de ligar para minha mãe, telefonei para a Paula."

A ex-mulher de Caetano Veloso costuma brincar com Bebel, amiga dos bons tempos de Baixo Leblon, dizendo que ela é a única solteira feliz que conhece. Bebel acha graça do elogio truncado: "Tive recentemente alguns namoros mais sérios, mas em geral estive sozinha. O velho chavão da mulher-bem-sucedida-relativamente-conhecida assusta mesmo. E não sou exatamente maria-vai-com-as-outras, eu dou as cartas, né? Tem de ser muito homem para agüentar".

A virada dos 40 a presenteou ainda com outro clichê: o desejo incontrolável de se tornar mãe. "Pode escrever aí que meu próximo passo é congelar óvulos. Que nada, estou brincando! Agora, é possível que em seis meses você me encontre apaixonada e grávida, porque o tal do relógio biológico existe de fato, há uma urgência clara, embora jamais pensei em ter um filho sozinha. Família é tudo. É a chatice, é o compromisso, mas é tudo o que busco na vida. Com sinceridade total. Quero uma relação, sou monogâmica, gosto da coisa mais certa. Pensando bem, acho que esse é o único campo em que não sou louca...", brinca.

ALÔ, MAMÃE

Mesclando o mistério contemplativo de João Gilberto com a explosão descompromissada de Miúcha Buarque de Hollanda, Bebel pode passar três anos debruçada sobre uma canção como Words, outro destaque de Momento, ou decidir, no estúdio, de uma hora para a outra, intuitiva, modificar o planejamento do dia e migrar para uma idéia nova que lhe ocorreu naquele instante. Ela costuma cantar no banheiro e entrando no táxi, mas pára de ouvir música - qualquer música - quando começa a maratona de gravar seus discos. Algumas canções lhe chegam como um raio, outras demoram uma eternidade, carentes de polimento e dedicação. "Acho que tenho um tanto de João e um tanto de Miúcha. Sou introspectiva, mas também adoro ser o entertainer. Não tenho medo algum de palco. Trabalho muito no estúdio, sou caxias mesmo, mas gosto mais do palco. O barato é você estar ali, com o público."

Recentemente, num show em São Francisco, Bebel percebeu que um espectador mantinha seu telefone desafiadoramente ligado. A cantora desceu do palco, tomou-lhe o aparelho e ligou para sua mãe, no Brasil. Miúcha não estava em casa. A show woman não se fez de rogada e pediu que toda a platéia gritasse, em uníssono, "Miucha, I love you", para ficar gravado na secretária eletrônica.

Uma memória recorrente de Bebel são as ausências dos pais quando ela era mais nova. "Não tinha horário para fazer dever de casa nem para o almoço. Fui criada com a empregada, vendo televisão. Chico [Buarque, irmão de Miúcha], Marieta [Severo] e minhas primas eram minhas referências familiares mais próximas. Talvez teria sido menos complicado se tivesse tido um pouco mais de base em casa... Mas já reclamei muito disso. Chega! Finalmente percebi que também aprendi um monte de coisas mais rápido por conta dessa situação."

O palco, por exemplo, ela conheceu muito cedo. Aos 8 anos, se apresentou com a mãe e o saxofonista Stan Getz no Lincoln Center, em Nova York. Aos 11, estava no coro de um dos maiores sucessos do teatro musical brasileiro - Os Saltimbancos, do tio Chico em parceria com o italiano Sergio Bardotti. "Divido minha vida em dois períodos: antes e depois dos Saltimbancos. Imagina, ainda não era adolescente e já ganhava meu dinheiro!Todas as crianças me adoravam. Comprava roupas da moda, era uma peruinha total. E, por ser alta para a idade, ia de tarde dançar na matinê da New York Disco, no Rio, e curtia festinhas todos os fi ns de semana. Já sabia me divertir."

A quarta faixa de Momento, Os Novos Yorkinos, é uma homenagem aos Novos Baianos, que fizeram parte do catecismo lúdico-musical de Bebel. "Essa é a música mais sincera que já fiz. Fala de uma gente menos racional, mais louca, mais emotiva, tudo o que as pessoas não podem ser hoje em dia. Uma gente que não tem vergonha de dizer que já usou maconha, que bebe, que fuma um cigarro de vez em quando."

A convivência com Moraes Moreira, Baby Consuelo & cia. vem do tempo em que os músicos viviam numa chácara em Jacarepaguá, um dos endereços favoritos de João Gilberto. Ele levaria algumas vezes Bebel a tiracolo para madrugadas musicais inesquecíveis na então longínqua zona oeste do Rio de Janeiro. O clássico disco Acabou Chorare, de 1972 foi batizado a partir da expressão usada pela menina de 6 anos para tranqüilizar o pai, preocupado com um tropeço da filha e a choradeira que ela protagonizara.

Dois anos depois, o grupo gravaria o samba-choro Bebel, de João, em uma versão especialmente feliz. E uma década mais tarde, Marília Mattos, mulher de Moraes Moreira, apresentaria Bebel a Cazuza, um encontro que acabou definindo a trajetória musical da cantora. "Não seria quem sou, não seria nem artista, se não fosse por ele. Lembro que, quando lhe dizia estar com a idéia de uma letra, ele me impulsionava: 'Mas você tem de escrever, mulher!'. Cazuza virou uma estrela, se tornou famoso, e agora me pego pensando se existe essa coisa de os mortos verem a gente... Acho que ele e Suba ficariam orgulhosos de mim. Acho até que dão uma força!"

Bebel conheceu o produtor Mitar Subotic, o Suba, sérvio que morava em São Paulo, depois de uma apresentação de João Gilberto no Carnegie Hall, em Nova York. "Saímos para jantar, ficamos ouvindo música até as 5 da matina e decidimos que tínhamos de fazer algo juntos. Mudei-me para a casa do tio Sergito [irmão mais velho de Chico], na Vila Madalena, e lá ficamos produzindo o Tanto Tempo, meu segundo disco-solo, que seria lançado em 2000 [o primeiro é um EP de 1986]." Suba morreu pouco antes do lançamento, num incêndio, e não chegou a ver o enorme sucesso do trabalho. O álbum vendeu mais de 1 milhão de cópias e fez a carreira de Bebel finalmente decolar.

Não deixa de ser significativo o fato de Suba e Bebel terem se conhecido após uma noite regada a João Gilberto. Se há algo constante nos três discos mais recentes da cantora(Tanto Tempo, Bebel Gilberto e Momento) é a influência da batida gilbertiana do violão. Bebel lembra que, aos 4 anos, mudou-se com seus pais para a Cidade do México. Eles viviam em uma casa imensa, com poucos móveis, acústica perfeita para João, que tocava violão sem parar. O som do disco João Gilberto en México, com as clássicas interpretações de Farolito e Besame Mucho, a acompanharia por toda a vida.

Mas música, diz Bebel, não se discute na sala de jantar dos Gilberto ou dos Buarque de Hollanda. "Veja bem: a mamãe acaba de lançar um disco, eu não ouvi ainda o dela, nem ela o meu. É que a gente compete por espaço, sabe? (risos). Sempre foi assim. Mamãe sempre foi muito crítica comigo, então não procuro muito saber a opinião dela. A de meu pai, menos ainda. Meu tio também não costuma opinar. Quando tem muita gente envolvida no mesmo métier, você acaba, talvez, se fechando um pouco..."

Um dos pontos altos de Momento é a versão de Bebel para Caçada, pérola do cancioneiro de Chico Buarque presente na trilha sonora do filme Quando o Carnaval Chegar, de 1972. "Desde criança, essa música me chama a atenção. Fiz a versão e mostrei para o Chico meio de surpresa. Era aniversário de minha avó, ele foi me pegar em casa, eu estava com um namorado novo, aquele constrangimento, o clima meio tenso, e eu, para limpar a barra com ele, disse, ouve aí, e coloquei para tocar no carro mesmo. Ele não fez nenhum comentário mais direto, mas acho que gostou."

GLOBETROTTER

Dezesseis anos depois de ter deixado o Brasil, Bebel confessa que, apesar das visitas costumeiras, já se sente um pouco como "um peixe fora d'água". Graças ao sucesso de Tanto Tempo, o disco de uma brasileira que mais vendeu no exterior, converteu-se em artista de projeção planetária. "Às vezes acho que ninguém entende por que me dedico tanto à carreira, por que faço essas excursões todas pelo mundo, por que entro num ônibus e percorro cinco cidades da Alemanha. Loucura? Pode ser, mas assim vendo discos e ganho público. Você acha que o Caetano faria isso? Não. Ele vai apenas para Berlim, se for. Eu, só neste ano, já estive na Finlândia, Noruega, Bulgária, Turquia e Croácia. Todos também acham que fiquei rica. Nada disso. Os Gilbertos não são tão bem-sucedidos financeiramente. Mas, pelo menos, somos felizes e bons vivants."

Após duas cervejas, Bebel se solta de vez. "Momento é o disco em que apareço mais como letrista. Acho que estou ficando com menos medo de falar de mim... Busco a inovação o tempo todo. Ser livre e boêmia em Nova York faz com quevocê sempre se renove, não se prenda a formatos, não fique estagnada." Talvez esteja justamente aí o segredo da solteira mais feliz do Village que, caso tivesse de se explicar por meio de uma única música, não titubearia. Escolheria A Mulher, de Caetano Veloso, gravada por Gal Costa no álbum Água Viva: "Lá vai a mulher subindo/ a ponta do pé tocando ainda o chão/ já na imensidão/ é lindo/ ela em plena mulher/ brilhando no poço de tempo que abriu-se/ ao rés de seu ser de mulher/ que se abriu/ sem ter que morrer/ todo homem viu".

quarta-feira, outubro 31, 2007

Rio de Janeiro - Era Assim (1936)

Minha amiga Regina Zappa acabou de me enviar o link para este documentário de James A. Fitzpatrick. Saudades do que eu nunca vi, de fato...

terça-feira, outubro 30, 2007

TROPA DE ELITE

Aqui no blog tivemos textos de Márcia Pereira, Rozane Monteiro, Teté Ribeiro e Olga de Mello sobre o filme do momento no Brasil. Vi Tropa de Elite na semana passada e tento acompanhar as meninas aqui com uma pensata sobre o filme do José Padilha. Taí:

Justiceiros, aqui e acolá


Na semana em que finalmente vi Tropa de Elite fugi para o cinema aqui do bairro e passei pouco mais de duas horas me segurando na poltrona enquanto tentava engolir Valente, em que Jodie Foster, armada, faz justiça com as próprias mãos na Nova Iorque do doutor Bloomberg. O filme, que estréia nesta sexta-feira no Brasil, gerou uma discussão interessante por aqui. Até que ponto a trajetória da personagem de Foster, uma radialista pacata quase assassinada pelo brutal ataque de uma gangue no Central Park, representa um sentimento catártico do americano médio, insatisfeito com as instituições, o Estado, a Justiça, a polícia, os mecanismos arcaicos das democracias ocidentais? A.O. Scott, o crítico de cinema do New York Times de que mais gosto (sim, eu gosto de críticos de cinema!), escreveu que Valente, como se tal paradoxo fosse possível, era um “filme pró-linchamento que até os liberais podem amar”. Já Stephen King, em sua coluna na Entertainment Weekly, em um delicioso mea-culpa sobre o fetichismo da violência tão corriqueiro na cultura popular norte-americana (e em boa parte de seus livros), lembrou que até o título do filme sugere uma aprovação imediata, uma identificação óbvia com o protagonista do filme.

Valente, em menor escala, e Tropa de Elite, até o momento o mais popular produto de consumo da indústria cultural produzido no Brasil este ano, têm o mérito inegável de gerar discussão, de virar tema de conversa de bar e das páginas de opinião e dos cadernos de cultura da imprensa. Neste sentido, deixar o José Padilha em paz, como pedia minha querida amiga Márcia Pereira no artigo que iniciou a série de textos sobre o filme aqui no blog, seria negar justamente o maior atrativo deste filme de ação muito bem produzido e com uma campanha de marketing de primeiríssima qualidade.

Tanto o documentário Ônibus 174, filme que apresentou Padilha a seus primeiros fãs, quanto o livro Elite da Tropa, escrito pelo antropólogo Luiz Eduardo Soares e pelos ex-capitães do BOPE André Batista e Rodrigo Pimentel, são obras que nos levam a uma profunda reflexão sobre como a desigualdade social, a ausência do Estado, a falta de vontade política da sociedade, o esvaziamento econômico e a corrupção das instituições alimentam a escalada da violência na cidade de São Sebastião. Tropa de Elite, ao contrário, é refém da narração onipresente do Capitão Nascimento de Wagner Moura, uma espécie de Robocop tropical, desprovido de qualquer humanismo, amputado emocional que segue adiante apenas pelo medo de se transformar em mais uma vítima na guerra sem fim da cidade. É pouco.

A tortura é apresentada como método necessário para se adquirir informações nos dois lados da guerra. Todas as vezes que alguém é sufocado com um saco plástico, apanha brutalmente ou leva um cabo de vassoura ao ânus alcança-se o prêmio da informação certeira que nos poupará tantas outras vítimas. Aparentemente, nos cinemas cariocas, parte do público aplaude com gosto as cenas de seviciamento. Na sala de exibição aqui do Brooklyn a audiência também urrou em uníssono apoiando as execuções sumárias dos bad boys conduzida por Foster, um Rambo urbano de saias, vazia de idéias na selva de pedra de Manhattan.

Tropa é um filme feito à imagem e semelhança de Hollywood, para o bem (a qualidade técnica primorosa) e para o mal, com sua ausência de nuances e adoção do estereótipo fácil. Pobre não tem opção e cai no crime, mauricinho é alienado, maconheiro é traficante incubado, ongueiro é o ingênuo útil e policial militar é corrupto. E pronto. O roteiro reflete o desespero e a sensação de impotência de uma cidade sufocada de forma desigual, sedenta por encontrar algum arrego, algum ponto de contato com realidade tão grotesca, quiçá o piratão comprado na esquina por dois merréis. O piratão que nos mostrará na tela. Eis aí a perversidade maior do filme de Padilha. Em um retrocesso histórico, a voz do morro, em duas horas de entretenimento, resume-se a um único personagem adulto, oriundo da favela, com direito a fala, não imediatamente identificado como bandido - a mãe de um meliante assassinado pelo BOPE.

Tropa de Elite exclui a possibilidade de diálogo entre os diferentes personagens envolvidos na desgraça carioca. Padilha não abre janelas para esperanças ou denúncias e tampouco oferece um novo elemento de reflexão para seus espectadores. Seu simplismo é tão gritante que não pode sequer ser apreendido como uma obra de viés conservadora. Não há transformação a ser vislumbrada, à direita ou à esquerda – é matar ou morrer. Tropa é cinema de conteúdo pobre, vazio, um olhar de um ângulo só para um problema extremamente complexo, que passa fazendo um barulho maior do que merecia. Sinal dos tempos.

Osso Duro de Roer - artigo de Rozane Monteiro

A jornalista Rozane Monteiro, que já subiu muito morro e entrou em muita favela carioca, escreveu este artigo, originalmente em inglês, no insidebrazilnews, que ela edita. Vale ler o texto - sem sair por aí cantando o melô do Capitão Nascimento, pelo amor do Papa! - e conferir o ótimo site.


Osso duro de roer, por Rozane Monteiro


Quer saber, eu estou ficando cansada de todo esse debate sobre Tropa de Elite, o filme brasileiro que, dizem, é o maior sucesso de todos os tempos aqui. Desde que foi lançado no país, todo o mundo está tendo um ataque de nervos e ninguém parece se preocupar com o fato de o presidente do Senado, Renan Calheiros, ter passado dias perdendo sua batalha e ter finalmente voltado para casa, lugar do qual, vamos combinar, nunca deveria ter saído. Ok, quem se importa, no fim das contas? Ninguém agüentava mais aquela ópera bufa que aconteceu em Brasília.

Agora, todo o mundo fica tentando botar a culpa em alguém pela guerra que o Estado do Rio de Janeiro vem travando contra os traficantes há anos. Ai, meu Deus! O protagonista do filme, capitão Nascimento (Wagner Moura), do Batalhão de Operações Especiais (BOPE), chama toda a confusão de "guerra"! Como ele ousa? Este é um país pacífico! Nós estamos sempre criticando nações que estão em guerra!

Tem mais: capitão Nascimento não gosta de traficantes; não gosta de pessoas que são amigas deles em nome de algum tipo de "consciência social", como ele diz; não gosta de pessoas ricas e de classe média que usam drogas e saem em marchas pela paz no Rio; sua mulher, Rosane (nenhum comentário sobre o nome dela, eu juro) está para ter um bebê e o está pressionando para que largue o BOPE. Ah, quase esqueci: ele tortura e mata traficantes.

E a cerejinha do bolo: embora capitão Nascimento seja um personagem fictício, a trama do filme se passa em 1997, quando o BOPE montou uma operação para combater uma quadrilha de traficantes de uma favela perto da casa do arcebispo do Rio, que iria receber o papa João Paulo II. "Bota na conta do papa", diz o capitão Nascimento, logo depois de torturar um traficante. À certa altura, ele está furioso com o papa, que, segundo o policial, deveria saber que a área perto da favela não é segura, meu Deus do céu. "Ele já esteve aqui antes!", diz o capitão.

Cara, esse país (a maior nação católica do mundo) está confuso. Um policial que se apresenta como "homem de preto" e tortura gente, aliás, traficantes, dá uma bronca no papa? Deve ter algum pecado aqui. O problema é que não sabemos exatamente onde está o pecado.

O problema é que não consigo parar de cantar trechos da trilha sonora do filme: "Tropa de Elite, osso duro de roer, pega um, pega geral, também vai pegar você"; "Homens de preto, qual é a sua missão? É entrar pela favela e deixar corpo no chão".

Alguém chama a ONU, por favor! Ah, não, desculpem, não somos um país em guerra.

segunda-feira, outubro 29, 2007

CRÔNICA/Oscar Niemeyer, 100

A princípio, este blog somente publica textos em português, nossa língua adorada. Mas a revista Zoo, que chegou às bancas neste mês, e tem sede na Alemanha, cometeu o despautério de publicar três - isto mesmo, três! - textos meus em inglês em sua última edição. Uma pequena memória, bem pessoal, sobre o grande Oscar Niemeyer, uma visão de um não-especialista em moda sobre a São Paulo Fashion Week (SPFW) e um bate-papo com os designers e irmãos Fernando e Humberto Campana. Aqui embaixo segue o primeiro texto, sobre doutor Oscar. As imagens das reportagens sobre os Campana e a São Paulo Fashion Week são de meu talentoso amigo Victor Affaro:

Ode To Oscar

A Tribute to Brazilian Architect Oscar Niemeyer
By Eduardo Graça

I was 14 when I first met Oscar Niemeyer. He was walking on a pile of concrete debris in a square located in an industrial city in Rio de Janeiro state. It was 1988 and Brazil was a three- year old democracy. An obscure rightist group had just claimed responsibility for the bombing of a Niemeyer monument inaugurated the previous day. It had been built to serve as a memorial for three workers who died in a strike. More than the image of the small old man perched on what used to be his own art, what astonished me was his serene decision not to rebuild his beloved piece. He left it there in all its bruised glory, and included a single inscription at the bottom of the mess: “Nothing, not even the bomb that destroyed this monument, is able to stop the ones who fight for Justice and Freedom."

Niemeyer was 98 the second time I met him, two years ago. Still working daily, the architect who built Brasília talked about his new projects: an aquatic center in Potsdam, Germany, and an impressive series of public buildings, including a cathedral and a public theater, facing Rio on the other side of Guanabara Bay. He was pleased to find out that his destroyed monument remained untouched, serving as one of the main attractions in the city where I was raised.

Niemeyer's architecture is unique, at once international and deeply Brazilian. The cold rationality of his concrete-based buildings is juxtaposed by curves - his suave rendition of the of the beautiful women walking on Ipanema beach. He is our last communist. He is the myth of the Latin lover, but a real one, in love again at the age of 100. He is one of the symbols of the 20th century. He is also intensely 21st century. He is a sweet radical. He reads fiction and despises art theory. But he loves to talk about philosophy. He is a prophet, but lives like the Everyman. His art, still alive, comes from these opposite forces. Not unlike Brazil, with its singular mix of kindness and brutality.

SPFW/Summer 2008


BEDLAM IN BRAZIL

The madness of São Paulo Fashion Week


by Eduardo Graça/photography Victor Affaro

Summer and Brazil. Put those two words together and you think Rio de Janeiro, right? Not always. It is in São Paulo, with its luxurious hotels, restless nightlife, aggressive bourgeoisie, and obsessive cosmopolitanism that Brazilian Summer Fashion Week runs each June, at the peak of winter in the Southern Hemisphere.

The Bienal, a Bauhaus-style pavilion, is located in the main urban park of São Paulo. For one week, the building—it is one of Oscar Niemeyer’s most important works in this city—is swamped by Brazilian beauties and their fashion entourages, including local powerhouses and exciting new designers. Zoo was there and checked out the best and the most exotic of São Paulo Fashion Week’s 23rd season.

“People ask me about my job all the time. They are eager to know what it means to be a fashion designer in Brazil. Well, I have no clue. When I think about myself, I see someone who enjoys creating clothes, not a fancy fashion maker,” says Wilson Ranieri, 28, a pudgy, black paulistano who hails from the capital’s suburbs and who has been a national sensation since last year.

Ranieri’s summer collection caught the attention of international fans due to its devotion to a sensuality that has no room for vulgarity. His dresses are sober but not boring, provocative but not explicit, fresh but timeless.

“I don’t think you need to be over-sexualized to do a summer collection just because you are in a tropical country,” he says. “For instance, I really like to display an amount of volume in my pieces. That’s why you’ll see those huge sleeves on the back of my dresses. It is at the same time sensual and sober.”

One of the highlights of his new collection - which also conquered Japan and is now available in select stores in Tokyo and Osaka - was a red jumpsuit made with bamboo acetates. Ranieri’s desire to create something original extends to his decision to work exclusively with the hand shaping moulage technique, whereby pieces are created directly from the body of his human-sized models.


"I Don't Think You Need To Be Over-Sexualized To Do A Summer Colletction Just Because You Are In A Tropical Country" - Wilson Ranieri


Ranieri’s fondness for moulage started during his years as a freshman at the most prestigious Fashion School in São Paulo. “I was obsessed by this African tribe, the Ndebeles, Zulus from Zimbabwe,” he explains. “They did these amazing clothes with animal skin. Things that would seem really primal in the first place, but their level of sophistication and the elegance of the final product caught my attention. I was so fascinated by it that I bought my first moulage model right before the presentation of my final thesis and never stopped. Due to the fact that I like to work with several fabrics – not just one kind of material – the moulage is perfect to develop my notion of fashion construction. But I would also say that there’s nothing insanely exotic about this process. The Ndebele moulage, for instance, is very similar to the most common technique that the main jeans and pants designers use nowadays”.

And speaking of jeans, the world of denim in Brazil has never been the same since Zoomp, with its unmistakable lightning logo, showed its first collection in São Paulo 33 years ago. Zoomp’s main innovation was also its secret golden touch: the jeans were reshaped to emphasize one of the main assets of Brazilian girls – their behinds.

“My then-wife was our first model and our main idea was to show off the beauty of, let us say, the Brazilian’s more Africanized ass,” says Renato Kherlakian, 57, the creator of Zoomp. “Even our name was a push for something more energetic that would translate in velocity and the sound of the universe.”

Although he’s been on the scene for some time, Kherlakian refuses to be a slave to tradition. Quite the contrary, in fact. His 2008 summer collection was inspired by The Matrix. The movie influenced both the men’s line - think Leonard Wilson as The Merovingian - and the women’s line - think Monica Belluci’s Persephone. The extravagant denim, with its hyper-reflective prints and futuristic look, was one of the talk-of-the-town items of the SPFW.

After an international explosion in Europe, particularly in Paris, in the 90s, Zoomp suffered from the success of Diesel jeans in Brazil. Now, it is trying to regain the market by investing in names such as Alessandra Ambrósio, 26, the supermodel who is going to be the face of the label for next summer. Zoomp has also reined in Alexandre Herchkovitch, probably the most adored Brazilian fashion designer, who is to become their new creative director. But more on him later.

Affectionately known as ‘Ale,’ Alessandra Ambrósio is regarded here as the new Gisele Bündchen. Anointed as one of the 100 hottest women in the world for Maxim magazine, the Victoria’s Secret beauty attracts zillions of photographers who can’t stop taking her picture.

“This is insane. I wish I could feel more like I was at home but I can barely breathe,” mumbles Ambrósio, as the paparazzi nearly suffocates her.

Ambrósio’s brief but sexy scene with Daniel Craig in Casino Royale drove the male portion of the SPFW crowd crazy. But there was one more reason for the frisson: Ale, who lives in New York and will be the new face of Zoomp, was returning to the event after a three-year absence. Everybody was hungry for her.

So much so that Ale outshone the other celebs at the SPFW, including Hollywood actress Chloé Sevigny (one of the main reasons to watch the North American TV hit Big Love), the local music diva Ivete Sangalo (who sells millions of CDs in Brazil with her Axé style), and the singer Jamie Burke, Sienna Miller’s latest beau.

Sevigny was invited to be part of the Ellus show. The actress came to Brazil to star in the ads of this other famous Brazilian jeans label, created in 1972. She talked a bit, walked a bit, danced a bit, and vanished suddenly, leaving Brazilian fans happy and desiring a little more. Touché.

Meanwhile, Sangalo brought loud fans to check out the Neon beachwear show, while Burke played an exclusive concert for fashionistas, who were keen to see if the new Calvin Klein hunk had more than just long hair and seductive lips.

Burke’s concert was a hit, and Miller will certainly forgive him for being awestruck by the beachwear (and its fabulous models) that were showcased. It was as diverse as a parade of semi-naked bodies could be.

Cia.Marítima, a favorite label, took its inspiration from the French Riviera in the 70s, with pieces that were practical and elegant, restrained in color and theme.

Poko Pano’s Paola Robba presented a bright and sunny collection, while Água de Coco’s models walked on water, er, plastic silver. It got some love from the audience by showcasing a one-piece suit with a long cape, in super-hero mode.

And there was more. The traditional and classy Maria Bonita opted for sport-chic in a blue-and-silver collection. Tufi Duek presented his navy theme with marine caps in the favored bleu-blanc-rouge combination. And Marcelo Frommer went deep into what critics called a “periphery style” at the first fashion show of AfroReggae, a cultural institution that works with local creators from poor communities in Rio.

The favela chic proposed by Sommer, a hyper-multi-color streetwear style exclusively presented by black models, had fewer fans than the creations of Isabela Capeto. The Rio de Janeiro-based designer brought romanticism back in all its glory. Her show, presented outside the Bienal building in Ibirapuera Park, was well received. Capeto’s delicate pieces included handmade needlework details. If she were living in New York, her style would certainly be described as “greenmarket fashion.”

And now, back to Alexandre Herchkovitch. The main name of the São Paulo underground fashion scene one decade ago, he is adored here for his theatrical and androgynous shows. This year, Herchkovitch made his women wear ties and sober vests. But it was his men’s collection that was the shocker. The theme was black-metal fashion, with long-haired models wearing extravagant pieces that speak of the dark times in which we live. Sad tropics? Hell yes! They wore excessive, Kiss-esque make-up, leggings, cycling shorts (the Black Sabbath-inspired print is unforgettable), and Vivienne Westwood’s bondage pants, resurrected in a neo-punk look. Herchkovitch proved to be the true showman of the event. Not surprising, then, that he’s just been hired as the new artistic director of Zoomp. His version of a Brazilian summer has plenty of space for darkness, doubt and fear. After all, this is São Paulo, my friends.

www.spfw.com.br

PERFIL/Irmãos Campana


THE BOYS FROM BRAZIL

The Campana brothers on style and São Paulo

by Eduardo Graça/photography Victor Affaro

Not more than ten minutes. That’s how long one can talk about trends in the Brazilian capital of style without hearing the name “Campana” crop up. After all, it is Estúdio Campana, located in the Santa Cecília neighborhood of downtown São Paulo, that created the famous ‘Red Chair’ for Italian company Edra. The studio is also the birthplace of other iconic pieces, including the Disney Chairs (a partnership with Uncle Walt’s powerhouse) and several works for Swarovski, O Lucce, Fontana Arte, Capellini Progestto Oggetto and Alessi.

Humberto Campana is the brother best known for his manual skills. He focuses on the artisanal aspects of their work. Fernando Campana, meanwhile, concentrates on the abstraction of their projects - the elaboration of concepts that will be developed by the Estúdio’s nine workers.

“25 years after leaving the architecture school, I am finally ready to admit that academia gave me this capacity of vision, this notion of proportion, light and space,” says Fernando. Aided by Humberto’s magical hands, Fernando juxtaposes elements to achieve their main goal: “Interfere, for real, with people’s lives.”

Currently, the brothers are designing a diverse range of projects. They include the Royal Olympic, Athen’s coolest hotel; the set for the new Marseilles Ballet show (an adaptation of Ovid’s Metamorphosis); the concept of London’s new Camper store; and a winter exhibition at the prestigious Cooper-Hewitt National Design Museum in New York.

“Our basic principle at the hotel is recycling,” says WHO? “We are going to absorb the trash, the demolition originated after the place was rebuilt two years ago, to create, in a paradox, something clean. And with the ballet, our desire is to dream. We are eager to literally bring design to the stage, doing something closer to the Corallo Chair, the one we created for Edra, with its anti-symmetrical body, its lines floating in the air, so the dancers can move between the objects.”

The Cooper-Hewitt show, which will open to the public this February, is a study of the representations of the twist in a two-dimensional space. “To do this, we will use fabric, several objects, hair artifacts, and, last but not least, furniture,” he explains.

The Campanas’ twist is one Brazilian aspect of their work. But ask them what is really brasileiro in their work, and they come up with something more nebulous.

“Our work is undoubtedly Brazilian due to our spontaneity and our capacity to adapt, which was developed as a reaction to the chronic economic and political instability that we faced during the majority of the last century,” says WHO? “We realize that improvisation is not a synonym to either laziness or lack of efficiency. Our art is Brazilian because it is acute and never surrounds itself with either rules or commandments. Brazil is a very funny place. Here, even if you try hard, it is impossible to become a square person.”

Despite their success, the Campanas say they will never leave São Paulo, the most populated city in South America, bursting with 11 million people. Their city, they claim, epitomizes the Brazilian ethos.

“Here, like nowhere else, you can taste this mix of degeneration and modernity that touches us daily. We have received many proposals to move to Europe on a definitive basis, but our inspiration comes from São Paulo, its streets and people,” says WHO? “Here it overflows with the best and the worst of the human beings in a second. We adore this fabulous archive of images outside our window. They inform us, they make us what we are. From here we will never part.”

sexta-feira, outubro 26, 2007

ENTREVISTA/Chris Anderson


O Valor Econômico publicou hoje minha entrevista com o jornalista Chris Anderson, editor-chefe de uma das revistas mais interessantes dos EUA, a Wired. Aí vai:

A era dos mercados infinitos
Por Eduardo Graça, para o Valor
26/10/2007


Ele foi um dos primeiros a usar a internet, muito antes de a "Wired", revista da qual é editor-chefe, ser lançada em 1993. Chris Anderson, de 46 anos, acredita que a melhor definição para tecnologia é "a capacidade de dar poder ao indivíduo para modificar o mundo". Um típico libertário do Vale do Silício, opositor ferrenho a qualquer interferência governamental na vida dos cidadãos, o ex-editor de tecnologia da revista "The Economist" lançou neste ano um dos livros mais comentados no mundo dos negócios: "A Cauda Longa" (Campus/Elsevier, 256 págs., R$ 57,50). A obra nasceu como uma pesquisa sobre as transformações na indústria musical, transmutou-se em um artigo, o mais comentando da história da "Wired", e finalmente chegou às livrarias anunciando o fim do monopólio da sociedade de consumo de massas e o apogeu dos mercados infinitos.

O título do livro refere-se à sua apropriação da convencional curva de demanda utilizada pelos economistas: no topo estão os hits, na cauda os produtos de aceitação menor. O raciocínio convencional é o de que é preciso fazer que a maioria dos consumidores se dirija para a cabeça da curva, pois é mais custoso trabalhar um número maior de produtos. Anderson propõe que a máxima não vale mais no mundo da sociedade de nicho.

A diminuição dos custos com a distribuição de bens tem modificado essa curva de forma radical - um novo animal surge, com a cabeça cada vez mais diminuta e a cauda mais extensa. Parece conversa de ficção científica? De sua casa, em São Francisco, Anderson jura que não há nada de anormal no fenômeno que afeta a indústria cultural tal qual a conhecemos, assim como nossa noção de identidade nacional e a maneira pela qual nos expressamos politicamente.

Fã do ministro Gilberto Gil, o jornalista, que participa em São Paulo de um seminário sobre o futuro da economia mundial durante a ExpoManegement, conversou pelo telefone com o Valor.


Valor: Não é uma ironia imensa o fato de seu livro, que trata do fim da era dos blockbusters, ter se tornado um best-seller?
Chris Anderson: Sim, mas esta é apenas uma das ironias sobre o livro. Há muitas outras. Pense no fato de eu trabalhar para a mídia convencional, como a "Wired", a maior revista de tecnologia do planeta, parte da Condé Nast, por sua vez a maior editora de publicações jornalísticas dos Estados Unidos, que vende mais de dez milhões de revistas todos os meses. Mas esse é meu trabalho diurno. De noite, você me encontra celebrando a economia do nicho em meu blog, na micromídia, nos meus escritos.

Valor: Ou seja, o mundo mais especializado, muitas vezes mais sofisticado, vive hoje lado a lado com a velha sociedade de massas que imperou durante o século XX...
Anderson: Sim, não se trata de anunciar a morte da economia de consumo de massas e sua substituição por algo mais segmentado. Mas é o momento de constatar o fim do monopólio dos blockbusters. Isso acabou. Hoje é preciso considerar a extensão e o tamanho da cauda do mercado e não apenas sua cabeça gigantesca.

Valor: O sr. acredita que sociedades mais periféricas, com poder de consumo mais reduzido, como o Brasil, vivem esse fenômeno de forma igualmente intensa?
Anderson: Se estamos pensando no poder de escolha do consumidor, é claro que faz uma diferença grande se considerarmos o poder de compra e o acesso à internet em cada país. Quanto mais renda você tem, acompanhada do acesso à rede de computadores, mais oportunidade você terá de fazer parte do mercado segmentado e essa equação pode ser problemática quando pensamos no chamado mundo desenvolvido. Mas, por outro lado, a demanda mundial por produtos oriundos dos mercados ditos periféricos aumentou muito. Um exemplo claro é a cultura brasileira. Todos querem consumir cultura brasileira, de um modo ou de outro, no mundo desenvolvido. A audiência global - e o potencial número de consumidores - para tudo o que for ligado ao Brasil cresceu incrivelmente nos últimos anos. E são consumidores que não tinham acesso a esses produtos, como, por exemplo, a gigantesca produção musical produzida no país ou mesmo o esporte.

Valor: Hoje um americano pode assistir a um jogo de futebol da Copa Libertadores da América em tempo real tanto na TV quanto na internet...
Anderson: Exatamente! No novo mercado, consumidores de todo o mundo podem entrar em contato com aspectos específicos da vida de outros países de uma forma inédita. Pense na "diáspora do críquete". Trata-se de um esporte completamente obscuro nos EUA. Mas hoje temos aproximadamente 40 milhões de pessoas oriundas da Índia, do Paquistão, da Austrália, Nova Zelândia e Grã-Bretanha, países em que o esporte é muito popular, trabalhando e vivendo por aqui, embora não concentrados em uma única região do país. Pois bem, agora essa gente toda - um mercado considerável em qualquer estimativa - pode ver os jogos de críquete em tempo real. É uma audiência global para um típico produto da sociedade de nicho.

"Vejo Gilberto Gil como antídoto à velha economia dos blockbusters. Nós o vemos como modelo para os brasileiros e para o planeta".

Valor: O sr. viaja ao Brasil pela primeira vez. Há alguma expectativa em se aprofundar em relação a casos típicos do mercado segmentado no país?
Anderson: Ficarei no Brasil apenas por algumas horas e não acredito ser possível fazer maiores reportagens. Fui convidado pessoalmente para o evento pelo ministro Gilberto Gil e minha única expectativa é a de tentar me encontrar com ele e ouvi-lo um pouco. Em 2003 a "Wired" foi uma das patrocinadoras de um show em benefício do Creative Commons, projeto elaborado pelo professor Lawrence Lessing, da Universidade de Stanford, que gera instrumentos legais para titulares de direitos autorais, como Gil, liberarem sua obra para usos dos mais variados. E ele se apresentou com David Byrne. Gil está constantemente em nossas páginas, por ter colocado o Brasil na posição de pioneiro na adoção do Creative Commons no mundo e por sua visão lúcida sobre a nova realidade dos direitos autorais na sociedade do remix. Ele está em meu radar por um longo tempo. Ele é único ao representar hoje, ao mesmo tempo, a cultura do remix, a cultura popular, a cultura segmentada. Gil entende a importância da diversidade em todos os níveis, não apenas no cultural. Vejo-o como um antídoto à velha economia dos blockbusters e, por isso, nós o vemos como um modelo não só para os brasileiros, mas para o planeta. Não vejo a hora de encontrá-lo.

Valor: Gil é um dos maiores nomes da música popular brasileira e o sr. iniciou a pesquisa de "A Cauda Longa" justamente pela indústria musical...
Anderson: É que este é um dos mercados em que variedade, por incrível que pareça, era um item raro antes da explosão do mercado de nicho. O Wal-Mart vende hoje cerca de mil títulos musicais em CDs. Mas na internet há algo estimado como 3 milhões de faixas disponíveis legalmente nos serviços de venda digital. A indústria musical é um exemplo claro do blockbuster desagradando tanto ao consumidor quanto ao artista. Foi ao perceber o tamanho do mercado musical localizado na "cauda" da curva de consumo que as majors da música teimavam em ignorar que encontrei a idéia para escrever o livro.

Valor: Em seu blog o sr. tratou com especial interesse da decisão da banda inglesa de rock Radiohead de vender seu novo trabalho exclusivamente na internet e de deixar para os compradores a tarefa de definir o preço a ser pago, incluindo a possibilidade de baixá-lo gratuitamente...
Anderson: Esse movimento reflete o cada vez mais diminuto poder do modelo de venda de música tradicional, criado pelas grandes gravadoras. Trabalhar as músicas no rádio e colocar CDs nas melhores lojas do gênero não vale mais. O formato digital permite maior flexibilidade na hora de estabelecer os custos do produto. A indústria musical não é mais simplesmente fundamentada na venda de músicas. Seu produto, atualmente, é a venda de performances. O Radiohead ganhará muito mais dinheiro em seus shows, levando as pessoas que ouviram suas músicas para os estádios, do que com a venda online. A Madonna acabou de encerrar um contrato de décadas com uma grande gravadora para fechar com uma produtora de eventos musicais. Os Rolling Stones faturam mais de 90% de seu orçamento com as turnês mundiais. O iPod é hoje parte importantíssima da indústria musical do século XXI, embora completamente ignorado pelas grandes gravadoras.

Valor: Mas não há o risco de esse mundo maravilhoso das opções sem fim enterrar a possibilidade de identificação nacional por meio de um produto específico da indústria cultural, fenômeno típico da sociedade de massas?
Anderson: Você está correto. Fragmentação, inevitavelmente, impõe uma diminuição no poder de atração da cultura popular.

Valor: Penso, no Brasil, no caso da diminuição crescente da audiência das telenovelas, que nos anos 1970 e 80 foram, talvez mais do que qualquer outro produto da indústria cultural local, o termômetro social e político do país...
Anderson: Nos Estados Unidos dos anos 1950 os americanos estavam todos vendo "I Love Lucy" e se encontravam como nação, de certa maneira, naquele programa. Mas nós não podemos limitar nossa identidade como nação àquela cola poderosa que nos gruda ao aparelho de TV. Não existe mais apenas uma cultura nacional, uma cultura de massa. Mas este é apenas um aspecto de nossa cultura. E vai haver sempre algo, creio, que nos unificará como nação. No Brasil, por exemplo, pode ser a seleção nacional e a Copa do Mundo. A televisão, certamente, não o será mais. Ela só existia daquela maneira porque a oferta de produtos era diminuta.

Valor: Aplicando esta regra para o mundo da política o senhor acredita que a sociedade de nicho nos faz cada vez mais interessados em pessoas que representam certos interesses específicos e menos em partidos políticos que ainda trabalham com a idéia de representação de classe social?
Anderson: Sem dúvida alguma. Em cada país, obviamente, o impacto da sociedade de nicho tem um peso diferente. Nos EUA, ao contrário do Brasil, temos um sistema de bi-partidarismo que é o oposto exato da possibilidade de escolhas. A limitação é óbvia, mas cada vez mais aumenta o número de eleitores e políticos que não se identificam mais com partido algum, como o prefeito de Nova Iorque, Michael Bloomberg, ou o próprio governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, adeptos de uma política mais granular, distantes de modelos estanques. Em geral, mesmo em países que vivem um sistema de partido único, como na China, ou de dezenas de legendas, como no Brasil, os eleitores pensam hoje de forma mais independente, menos ligada a cânones estabelecidos de cima para baixo. Hoje em dia acho que não podemos mais pensar na massa popular, e sim nas massas populares, que competem entre si em busca de mais representatividade. Não estou profetizando o fim da sociedade de massas, e sim a deterioração de seu protagonismo, de seu monopólio, em todos os setores de nossa sociedade.










quarta-feira, outubro 24, 2007

Cool in NYC

A revista CasaClaudia, em sua edição de luxo, publicou um texto-legenda meu sobre o Monkey, um bar sensacional aqui de NYC, oitentão mas cheio de bossa. A foto é de meu amigo Victor Affaro. O Monkey fica na Rua 54, uma das poucas atrações realmente recomendáveis de Midtown East.



terça-feira, outubro 16, 2007

Elitismo no Cinema - Artigo de Olga de Mello

Colaboradora assídua deste blog, Olga de Mello viu, gostou e escreveu no ótimo Arenas Cariocas mais um artigo sobre Tropa de Elite, em que pergunta: por que o espectador aplaude o extermínio de bandidos?


Elitismo no cinema, por Olga de Mello

O mais incômodo em "Tropa de Elite" é ouvir aplausos ao fim da sessão. O filme é bom, bem feito, atores em excelente forma, a ponto de Wagner Moura não se destacar dos coadjuvantes. Talvez o destaque fique para Milhem Cortaz no papel do Capitão Fábio, corrupto até o fundo da alma. Cortaz lembra Nuno Leal Maia fazendo aqueles tipos brutos. A violência grassa solta, torturas, execuções perpetradas tanto por policiais quanto por bandidos.E assina embaixo do discurso que só a classe média faz passeata pela paz, enquanto compra drogas e financia o tráfico, enquanto existem diversos estudos que afirmam que algo em torno de 40% da droga ficam atualmente nos morros, para abastecer moradores que são dependentes. Não que isso justifique a utilização da droga pelo asfalto, porém é um dado.

Por que o espectador aplaude o extermínio dos bandidos? Porque onde o Estado não se faz presente, a barbárie impera, claro. O Estado omisso leva ao banditismo generalizado. Ou são eles ou somos nós, pensa quem está no foco da violência.

Nós, Zona Sul, brancos, do asfalto, estamos ainda a anos luz de distância do que sofre a classe média na Zona Norte e subúrbios. Mas corremos riscos. É fácil apontar a existência dessa violência e pregar a eliminação dela, pura e simplesmente. Jogar napalm nas favelas, mas tirando, naturalmente, a família da nossa empregada, é uma das soluções que já ouvi proferidas em alto e bom som, numa conversa com desconhecidos no Aeroporto do Galeão. Tive que me afastar, porque esse tipo de argumento nem merece resposta.

O filme é bom, repito. Vale a pena ser visto como cinema. A realidade é dura e eu jamais aplaudirei corrupção ou assassinato em massa, mesmo podendo ser morta pelo bandido ou pela bala perdida da PM.

Os impostos não deveriam pagar o salário de pistoleiros. O filme mostra um Bope violentíssimo, justiceiro, com total desprezo pelo ser humano. Quem não vê isso na criação de José Padilha e Rodrigo Pimentel só quer enxergar um lado da história e aplaudir atitudes simplistas e criminosas que jamais serão uma solução para a violência urbana.

Minha Primeira Vez - artigo de Teté Ribeiro

A querida Teté Ribeiro, jornalista brasileira baseada em Washington D.C. (ou Osasco City, como ela prefere), acabou de enviar um delicioso artigo sobre os prazeres de se conferir Tropa de Elite a quilômetros de distância e utilizando métodos pouco convencionais para conseguir assistir ao filme da hora.

O texto me chegou às mãos no mesmo dia em que entrevistava uma das grandes cabeças pensantes do Vale do Silício, que acabou de lançar um livro em que entra na questão dos direitos autorais nos tempos da economia de nicho, pós-blockbuster. Mas esta é uma conversa para depois. O importante aqui é Teté, que nos reafirma - a primeira vez, para o bem e para o mal, a gente nunca esquece:


Minha primeira vez

Teté Ribeiro, de Washington, para o edudobrooklyn

É sempre estranho fazer uma coisa pela primeira vez. Tanta expectativa, tantas idéias pré-concebidas, tantos medos, tantos desejos, quase todos com pouca ligação com o que a realidade vai desvendar dali a pouco. Foi assim comigo também, e aconteceu nesse último sábado, dia 14. Tinha passado uma sexta-feira 13 daquelas, imaginando que minha primeira vez ia ser adiada e complicada, e, fala a verdade, quando uma coisa acontece na vida pela primeira vez quase sempre já está pelo menos uns meses atrasada, e você só com aquilo na cabeça, sem lugar para mais nada.

Daí, como em uma ficção, quando eu já não tinha mais nenhuma esperança, tocou a campainha. Era mais ou menos meio-dia, eu estava pensando em como escapar da faxineira que vem aos sábados e fica na casa exatamente duas horas, entre duas e meia e quarto e meia. Uma sessão de “Elizabeth 2”? Ou quem sabe “The Jane Austen Book Club”? Ou ler os jornais em um parque, já que o verão no hemisfério norte resolveu dar uma esticadinha esse ano? O que eu queria mesmo, até onde eu sabia, era inatingível. Eu queria ver “Tropa de Elite”! Mas aquela campainha era do carteiro, que tinha um envelope registrado – daqueles que você é obrigada a abrir a porta, dizer bom dia e assinar uma traquitana tipo de cartão de crédito, ou ele não deixa o pacote. E – alegria, alegria – era ele. Meu tão esperado DVD pirata, vindo de São Paulo, mandado por um amigo que me fez jurar que eu não revelaria seu nome, porque, como eu, em princípio ele também é contra a pirataria, onde já se viu uma coisa dessas, e os direitos autorais já tão judiados no Brasil, quem compra é cúmplice, assim como quem assiste.

Então tá, querido, fique você na sua bat-caverna, porque eu vou declarar, aqui em alto e bom tom – e a milhas e milhas distante de qualquer autoridade brasileira – que vi, pela primeira vez, um DVD pirata. E foi bom. Eu estava tão, mas tão curiosa para ver o novo trabalho do ator Wagner Moura e do diretor José Padilha, do grande “Ônibus 174”, que na minha última passadinha pelo Brasil, no meio de setembro, fui ao Rio e nem olhei direito pro mar – meu olho não saía das calçadas, a fim de dar de cara com um camelô que tivesse uma cópia para me vender. Pensei comigo que eu não pagaria mais de R$ 50, era meu teto. E o DVD acabou sendo de graça, porque meu amigo não teria nem coragem de cobrar os ralos R$ 5 que pagou pela cópia do filme, devidamente disfarçado de “BOPE” (o nome que veio na capa, não me pergunte o motivo).

E essa discussão a respeito da pirataria é só uma entre as muitas, todas interessantes, que o filme provoca. Só por isso, ponto para “Tropa”. Qual foi a última vez que um longa-metragem deu tanto pano para a manga desse jeito? Nem “Lust, Caution”, o novo do Ang Lee (o diretor de “Brokeback Mountain”), que estreou aqui nos EUA há duas semanas, e que apesar de ter sido o primeiro filme de grande estúdio em anos a receber o temido PG-17, que proíbe mesmo a entrada de qualquer menor de 17 e espanta uma enorme fatia da audiência, deu tanto o que falar.

Que chova público para o “Tropa”. Que chovam opiniões a respeito, contra, a favor, absurdas. Tudo menos sossego para o diretor, o roteirista Bráulio Mantovani e a equipe técnica e de atores. Que cineasta quer paz, afinal de contas? O Babenco, na última edição que eu recebi pelo correio da revista Set (que por sinal tem uma ótima matéria de “Tropa”), diz em entrevista que ficou frustradíssimo porque seu “Coração Iluminado”, de 1996, não provocou nenhum tipo de reação nem da crítica nem do público. Disso, nem o José Padilha nem nenhum fã do filme (pode me incluir nessa lista) podem reclamar.

Ah, claro, e juro que não faço mais. Também juro que tentei outros métodos antes de partir para a pirataria, mas não tive sorte. Na clandestinidade, bastam R$ 5 e um amigo. E a recompensa é um filmaço. Irresistível. Pelo menos uma vez.

sexta-feira, outubro 12, 2007

ECONOMIA/Os Hetereodoxos Apertam o Cerco

O Valor Econômico publicou hoje minha reportagem sobre os combatentes, na academia norte-americana, do culto excessivo aos cânones da economia de mercado. Conversei com os professores Robert B. Reich, da Universidade de Berkeley (que foi secretário do Trabalho na administração Clinton); Thomas McCraw, de Harvard (autor de ótima biografia de J.Shumpeter); Frederic S.Lee, da Universidade do Missouri-Kansas (principal voz dos chamados heterodoxos); e Philip J.Reny, da Universidade de Chicago, um dos grandes nomes do mainstream, que reage com uma certa ironia à desconstrução do ideário do laissez-faire realizada por seus colegas à esquerda do espectro político.

Abaixo as fotos são de Paul Krugman e Alan S.Blinder, ambos da Universidade de Princeton; e de Reich, três das mais fortes vozes de oposição ao modo Bush de pensar Economia.


Os heterodoxos apertam o cerco
Por Eduardo Graça, para o Valor
12/10/2007

Enquanto o céu era de brigadeiro, poucas vozes dissonantes ousaram questionar o catecismo filosófico do laissez-faire em terras de George W. Bush. Mas o aumento da desigualdade social, a explosão da bolha do mercado de crédito imobiliário, a redução do número de postos de emprego e a ameaça de uma recessão têm levado parcela significativa de economistas de prestigiosas universidades do país a questionar de forma mais incisiva a ortodoxia dos apóstolos mais ferrenhos da não-interferência governamental na maior economia do planeta. Para Robert B. Reich, da Universidade de Berkeley, o consenso da economia de livre mercado "simplesmente acabou". Paul Krugman, estrela do "New York Times" e da Universidade de Princeton, reza por um novo "New Deal", e até mesmo os laureados Lawrence Summers, ex-presidente da Universidade de Harvard, e George Akerlof, Nobel de Economia em 2001, vêm tratando das falhas do modelo neoclássico (o "maistream" ortodoxo) em seus artigos.

"Durante décadas, a economia neoclássica recebeu críticas de um número muito pequeno de pensadores. Hoje, economistas sérios questionam certos princípios porque estes simplesmente não parecem de acordo com o mundo em que vivemos", diz Reich. Secretário do Trabalho na administração Bill Clinton, o professor de políticas públicas na faculdade de economia de Berkeley argumenta que fatores como a transferência de empregos para países com mão-de-obra barata, como Índia e China, possibilitada pela globalização, e as mais recentes revoluções tecnológicas, destruiram o esboço da sociedade de livre-comércio estabelecido nos anos 1970.

O professor Thomas McCraw, de Harvard, autor de uma festejada biografia de Joseph Schumpeter, disse ao Valor que o predomínio "asfixiante" do não-intervencionismo do Estado na economia americana foi fundamental para o crescimento da desigualdade social nas últimas duas décadas. "McCraw está correto. Para diminuir a diferença cada vez maior entre o rendimento de ricos e pobres no país, por exemplo, é necessário criar um imposto de renda progressivo (quem ganha mais, paga mais), combinado com um subsídio governamental dado para trabalhadores com renda mais baixa. Os primeiros US$ 15 mil seriam isentos de taxas da previdência social, mais a partir daí o imposto seria cobrado de forma crescente. Outro passo fundamental é a garantia de um sistema educacional que de fato beneficie toda a sociedade", diz Reich.

Mas ainda há terreno para um namoro aberto com o Estado do bem-estar social europeu nos EUA do século XXI? O que parecia ser um delírio depois de sete anos de domínio do neoconservadorismo ganha algum fôlego com a impopularidade do governo Bush, a dinâmica corrida eleitoral para a Presidência em 2008 e um ineditismo histórico: a totalidade dos candidatos democratas - incluindo os três mais fortes, Hillary Clinton, Barack Obama e John Edwards - defendem uma reforma radical no sistema de saúde, com o aumento do poder decisório do Estado. Paul Krugman lembra que é justamente na hora de se ter acesso aos melhores hospitais e médicos dos EUA que se detecta com mais exatidão o crescimento da disparidade entre ricos e pobres e o achatamento da classe média.

Krugman é um crítico severo do pacote de redução de impostos enviado ao Congresso pelo presidente republicano, "o mais elitista já visto em Washington". De fato, o Tax Policy Center, uma organização não-vinculada a partidos políticos, informou este ano que mais da metade das reduções de impostos aprovadas no governo Bush beneficiaram exclusivamente os que embolsam mais de US$ 1 milhão por ano. "Boa parte dos economistas ainda defende a tese de que, ao diminuir os impostos dos mais ricos, aumenta-se imediatamente o poder de crescimento da economia nacional, beneficiando toda a população.

De fato, desde 2003, surgiram 8 milhões de novos postos de trabalho, mas boa parte é uma recuperação dos que desapareceram nos primeiros anos do governo Bush. E não se comparam aos 21 milhões que surgiram logo após Bill Clinton enveredar pelo caminho oposto, ou seja, aumentar os impostos dos ricos. A matemática é simples: quando você diminui impostos dos ricos, eles pagam menos. Quando você aumenta os impostos, eles pagam mais. Fim da história", escreve Krugman, em meio ao que considera ser o fim do "boom" econômico de Bush.

Os críticos da ortodoxia neoclássica encaram os últimos quatro anos de pujança econômica como um desastre sem tamanho comparável na história do país, um período de crescimento incapaz de produzir qualquer ganho real para o trabalhador comum. "Nem na Gilded Age, nem nos anos Reagan havíamos experimentado tal contradição. Precisamos urgentemente de um novo New Deal. Crescimento econômico não pode ser um esporte feito apenas para espectadores passivos", ataca Krugman.

O debate sobre essas questões ganha importância na medida em que a economia volta, depois de quatro anos, ao centro da agenda política nos Estados Unidos, até então dominada com exclusividade pela atrapalhada ocupação do Iraque. A contaminação da economia como um todo, infectada pela crise do mercado de crédito imobiliário, trouxe de volta à vitrine economistas dispostos a advogar a necessidade de o governo intervir de forma incisiva para evitar a recessão e ajudar os milhares de cidadãos encalacrados com o aumento dos juros no pesadelo que se tornou a conquista da casa própria.

As vozes mais críticas já perceberam que nunca foi tão impopular o discurso de corte de impostos e diminuição de gastos com projetos sociais bancados pelo Estado. Uma das estrelas do grupo de economistas heterodoxos, termo cunhado para identificar os dissidentes da economia neo-clássica, é o professor Frederic S. Lee, da Universidade do Missouri-Kansas City, editor da popular publicação eletrônica "Heterodox Economics".

"A perspectiva heterodoxa desconhece, por exemplo, a desregulamentação de preços. Para nós, os preços são sempre regulados, seja pelas corporações, por cartéis ou pelo Estado. Ao contrário dos ortodoxos, modelos, para nós, não são mais importantes do que fatos. Temos uma percepção, grosso modo, mais plural quando pensamos na aplicação dos conceitos econômicos", diz Lee. Para ele, são as grandes corporações, não o mercado, que determinam, em última instância, por exemplo, o preço do petróleo.

Nada mais distante do que pensa o professor Philip J. Reny, chairman do departamento de economia da Universidade de Chicago, catedral dos neoclássicos. "Não há um economista sério disposto a negar o fato de que o livre-comércio pode ser custoso para os que se encontram no furacão que chamarei aqui de período de transição. Por exemplo, empresários que precisam lidar com o fato de que seus produtos são mais caros do que os similares produzidos no exterior serão prejudicados seriamente se não receberem algum subsídio. E na maioria das vezes eles não recebem mesmo ajuda alguma. Mas os benefícios a longo prazo para a economia do país são substanciais. Aliás, se mais atenção fosse dada à diminuição das perdas dos que sofrem com o processo, haveria muito menos interesse neste debate. E tudo isso é perfeitamente consistente com uma perspectiva neoclássica", garante.

Reny também redimensiona a crítica centrada nos resultados desastrosos da aplicação de preceitos neoclássicos quando se trata do aumento da desigualdade social nos Estados Unidos. "É preciso levar em conta outros aspectos, como a renda média no país como um todo e a renda média dos 25% mais pobres, que vêm crescendo em termos reais. Não sou um especialista no tema, mas aposto que, se um estudo fosse feito, se chegaria à conclusão de que tanto a renda média dos cidadãos como um todo quanto as dos 25% mais pobres crescem mais na economia de livre mercado". Lee até concorda com a primeira parte da argumentação de Reny, desde que "se considere que a economia-padrão ensinada nas escolas americanas tem alguma relação com o mundo real". Mas o professor da Universidade do Missouri-Kansas City diz que os benefícios do laissez-faire "não chegam às classes e indivíduos com os quais me preocupo".

Apesar de contar com mais de dois mil economistas heterodoxos dos quatro cantos do globo colaborando em sua newsletter (entre eles, muitos pós-keynesianos e um punhado de marxistas), Lee reconhece que ainda é complicado bater de frente com o status quo, lembrando que "a maioria das universidades americanas não conta com professores heterodoxos".

O professor Alan S. Blinder, de Princeton, a segunda voz no Federal Reserve Board na primeira metade dos anos 1990, disse recentemente que passou a ser tratado como um apóstata por seus colegas ao criticar o livre mercado globalizado, que, em seus cálculos, pode levar a uma diminuição de até 40 milhões de postos de trabalho nos Estados Unidos, nos próximos anos, e ao defender temas-tabu como a instituição de um salário mínimo nacional (há estados no Sul que não adotam nem um valor mínimo local), a instituição de uma política industrial transparente e um ajuste mínimo de preços. Em entrevista recente ao "New York Times", Blinder sintetizou a crise na academia afirmando que, hoje, "as ciências econômicas são freqüentemente um triunfo da teoria sobre os fatos".

Outra voz dissidente, o professor David Card, também de Berkeley, reconhecido por seus estudos sobre os efeitos no mercado do estabelecimento do salário mínimo (ele defende a tese de que, ao contrário do que prega a economia neoclássica, a oferta de emprego aumenta quando se estabelece um piso salarial) foi ainda mais específico ao dizer que, no mundo acadêmico americano, "você perde sua posição como um economista sério se não concordar que qualquer tipo de regulação de preços é maléfica e que o livre comércio é sempre benéfico". "Blinder e Card estão corretíssimos. Tem sido mesmo difícil discutir estes preceitos econômicos básicos. Mas os tempos estão mudando", acredita Reich.

O professor de Berkeley enfatiza, por exemplo, que, ao contrário do que defende o comandante da faculdade de economia da Universidade de Chicago, quem precisa de ajuda neste período de transição da economia americana não são os empresários, e sim "os trabalhadores, forçados a deixar a velha realidade pré-globalizada". Reich vai além: diz que não percebe qualquer interesse dos economistas neoclássicos em se aprofundar neste ponto. "Eles se preocupam muito em ser eficientes, mas não estão interessados em apresentar uma análise balanceada, justa", diz. Ele também aponta o revival da chamada economia comportamental como uma bem-vinda reação à ditadura neoclássica, que teria vivido seu auge com Milton Friedman e durante os anos mais felizes do governo Reagan.

Os economistas comportamentais não se afastam do pensamento "mainstream" como os heterodoxos, mas levam em conta as complexas reações psicológicas do indivíduo a eventos como uma queda brusca na bolsa de valores ou uma crise de liquidez como a enfrentada neste momento nos Estados Unidos. "Eles entenderam que os seres humanos não são, necessariamente, racionais em suas escolhas. Ao contrário, muitas vezes são mais o resultado da emoção do que da razão, e, dependendo das circunstâncias, as pessoas podem agir com mais ou menos empatia e generosidade. É um rompimento importante com o modelo neoclássico ortodoxo, racional e egoísta", diz Reich.

Para Reny, ainda é cedo para avaliar as contribuições que economistas comportamentais, como seu colega Richard Thaler, da Universidade de Chicago, podem oferecer para uma melhor compreensão do mundo contemporâneo. "Parece improvável, por exemplo, que a economia comportamental vá nos ajudar a entender algo significativo sobre os grandes investidores institucionais, que se preocupam acima de tudo com sua margem de lucro e que usam modelos matemáticos sofisticados para conduzir seus negócios. Mas, no fim, teremos de ver para crer", diz. A discussão, afinal, está apenas começando.

Entrevista/MICHELLE PFEIFFER

Michelle Pfeiffer está dando um show tanto em Hairspray quanto em Stardust. Minha conversa com a atriz de 49 anos - e linda de morrer - foi publicada na Contigo! que está nas bancas esta semana e é reproduzida abaixo na íntegra.

Ela estava cansada, tinha acabado de dar uma gafe imensa (disse à incansável imprensa londrina que não tinha idéia de quem era a banda Take That, que está na trilha sonora do filme) mas ainda assim foi difícil não desviar a atenção de seus olhos. Serena, la Pfeiffer foi uma bela surpresa numa tarde de sol e céu azul, nada ordinária para os padrões londrinos.




Michelle Pfeiffer: Linda aos Quase 50

Por Eduardo Graça, de Londres, para a Contigo!

O belo rosto já lhe valeu o título de atriz de cinema mais linda do mundo, segundo um estudo científico que analisou suas proporções, consideradas perfeitas. Mas Michelle Pfeiffer, 49 anos - faz 50 em abril do ano que vem - não está muito preocupada em manter a todo custo esse patrimônio. Para provar, ela encarna, no filme Stardust - O Mistério da Estrela, que estréia sexta-feira (12), Lamia, uma bruxa horrenda, com mais de 400 anos, doida para recuperar a beleza e o vigor perdidos com o passar dos anos.

Michelle também brilha em outras duas personagens em cartaz nos cinemas: Rosie, uma quarentona que se apaixona por um garotão, em Nunca É Tarde para Amar, e Velma von Tussle, ex-Miss Baltimore e diretora racista de uma emissora de TV no filme Hairspray - Em Busca da Fama.

Mas quem ficou feliz mesmo com sua volta ao batente, depois de quase cinco anos sem mostrar a bela estampa nos cinemas, foram seus filhos, Claudia Rose, 14, e John Henry, 13. "Eles não me agüentavam mais zanzando pela casa e viviam me perguntando: 'Mãe, quando você volta a trabalhar?'", conta a atriz. A seguir, a atriz revela o segredo de sua beleza eterna, em entrevista dada no hotel Claridge's, no coração de Londres.

Seus fãs vão levar um susto ao ver como o trabalho de envelhecimento a deixou horrenda...
Puxa, muito obrigada (risos)! Eu mesma fiquei preocupada quando me vi quase como uma monstra. Tanto que até decidimos diminuir os efeitos da maquiagem. De qualquer forma, não tenho a menor ideia da imagem que o publico tem de mim. Só sei que voltar a filmar depois de 4 anos parada e fazer duas vilãs tao asquerosas, cada qual à sua maneira, foi um movimento arriscado meu.

Por que arriscado?
Porque, para ser bem sincera, tive um certo receio de fazer dois personagens que brincam com temas que as pessoas evitam lidar de uma forma mais irônica – racismo e a obssessão feminina pela beleza e eterna juventude. Tive de confiar nos meus insitintos e no fim gostei muito do resultado. Mas, pensando bem, vai ver que temia encarnar estas duas personagens porque estou ficando mais velha, mais prudente. É isso, meu caro, você percebe que está envelhecendo quando começa a ficar mais precavido (risos).

Imagino que envelhecer em Hollywood deva ser preocupante. Os espaços diminuíram?
Acho que vai além de ser atriz. As pessoas, especialmente as mulheres, cobram muito essa receita de beleza eterna. E a indústria dos cosméticos, é claro.

Imagino que não viva sem seus cremes...
Pois aí é que você se engana! Vivo muitíssimo bem sem eles. Até porque cremes e modernas poções mágicas de beleza me dão uma tremenda alergia! Ou seja, tenho de viver sem eles! Mas o mundo hoje mudou tanto, não? Quando eu cresci na Califórnia ninguém sabia o que era um estilista de moda. A gente só sabia quem era o Armani. E assim mesmo quando me disseram que, para um evento no início de minha carreira, eu iria vestir Armani, minha reação foi a de perguntar por que eu não poderia me vestir por conta própria! Simplesmente nao entendia o conceito (risos).

O vestido que você está usando é belissimo...
Ai, meu Deus! E eu continuo a mesma. Não tenho a menor ideia de quem o projetou. (A reportagem de Contigo! descobriu que Michelle vestia um Vena Cada azul-marinho com cardigans Prada).

Mas você quer me convencer de que nunca se preocupou com o passar da idade?
Claro que me preocupei! Tive uma crise quando as minhas primeiras rugas apareceram. Mas, depois, acostuma-se a elas. Estou muito feliz comigo mesma. E aprendi que beleza é uma outra coisa.

Como assim?
Beleza vem da confiança em si mesma. E isso se reflete na maneira como voce se veste, em como voce trata as pessoas, em seu gestual. E também vem de uma certa devoção à preguiça. Sou muito preguiçosa. Com o passar dos anos desenvolvi a capacidade de relaxar mais e cobrar menos de mim. Isso ajuda a me sentir bonita (risos).

Não estou fazendo nenhum paralelo com seu culto à preguica, mas você ficou quatro anos sem filmar. Sentiu falta das câmeras?
Nenhuma!(risos). Não mesmo. Adoro pintar e viajar e quando descobri que vivo o luxo de não precisar ser atriz o tempo todo, minha vida melhorou tanto. Li muitos roteiros nestes anos todos e não gostei de nada. Quando finalmente achei algo interessante veio em dose tripla. Agora, sabe como eu descobri que precisava voltar a trabalhar? Quando meus dois filhos começaram a me inquirir sobre a volta ao trabalho. "Mãe, você não vai voltar ao set de filmagem nunca mais?" (risos). Ali eu precebi que era hora de voltar.

Se você pudesse ter poderes mágicos como a Lamia, seu personagem em Stardust, o que faria?
Sei que não gostaria de ler mentes. Aliás, sou tão racional que meu primeiro ímpeto foi o de responder que poderes mágicos nao existem, menino, que é tudo ficção, sabia? (risos). Mas, de verdade, acho que seria uma boa fazer umas viagens no tempo. Para o passado e para o futuro.

Então, se pudesse, faria como Lamia e retrocederia no tempo?
Jamais gostaria de voltar a ter 25 anos. Se tivesse a oportunidade, pararia nos 40. Passei realmente a aproveitar a vida depois dos 35 anos. Antes era boba demais e não era nem madura o suficiente para reconhecer isso. Hoje sei, e gosto de saber, que a gente nao precisa ter tudo ao mesmo tempo agora.

Lamia sente-se poderosa quando bela e jovem. E você?
Eu? Ora, sinto-me poderosa o tempo todo (risos)!

(o crédito da foto acima é de David James/Paramount)