segunda-feira, abril 09, 2007

ENTREVISTA / Stephen Duncombe

O Valor Econômico publicou neste fim de semana minha entrevista com o Professor Stephen Duncombe, da NYU, um ótimo papo e figura interessantíssima no debate sobre o lugar a ser ocupado pelas esquerdas no mundinho globalizado de nossos dias. Olhem só:

POLÍTICA

QUEM SABE FAZ A HORA, NÃO ESPERA

Para o Professor Stephen Duncombe, há uma necessidade vital de se abraçar novamente as utopias e as idéias progressistas. Por Eduardo Graça, para o Valor, de Nova York.

A esquerda precisa ser menos a viúva dos valores iluministas e recuperar seu viés iconoclasta. A constatação é do professor Stephen Duncombe, da Universidade de Nova Iorque (NYU), que acaba de lançar Dream: Re-Imagining Progressive Politics in an Age of Fantasy, apontado tanto pelo filósofo marxista Marshall Berman (Tudo que é Sólido Desmancha no Ar) quanto pelo badalado sociólogo pós-moderno Slavoj Zizek (Bem-Vindo ao Deserto do Real!) como leitura obrigatória neste inverno no hemisfério norte.

Um dos criadores dos Billionários Por Bush - ativistas que ‘apoiaram’ a reeleição do presidente republicano desfilando pelo país em suas limusines e ‘celebrando’ a redução de impostos para os mais ricos – Duncombe conversou com o Valor em seu escritório de frente para a Broadway enquanto se preparava para sair às ruas novamente, desta vez para se juntar aos manifestantes que ocupariam Bryant Park em um gigantesco protesto contra os cinco anos de ocupação no Iraque. Para Duncombe, que descobriu a esquerda nas bandas de punk que povoavam os conjuntos habitacionais da New Haven de sua adolescência, é hora de os setores progressistas – ‘especialmente os mais radicais’ – deixarem o purismo de lado, encararem o fato de que ‘ficar esperando pela grande verdade libertadora é apenas fazer política de modo preguiçoso’ e abraçarem a dreampolitik, termo por ele cunhado em oposição sarcástica à realpolitik, para definir a filosofia política defendida em Dream. A idéia é que a esquerda precisa usar os elementos do sonho, da fantasia (vídeo game, Las Vages, Hollywood, música pop, You Tube) para concretizar suas ações políticas.


- Valor: As eleições do ano passado no Brasil foram marcadas pela relativa ausência de mobilização popular. Aqui nos EUA não se vêem mais manifestações de massa como as de 40 anos atrás, quando milhares de pessoas saíram às ruas para protestar contra a Guerra do Vietnã. O senhor acredita que a era dos comícios chegou ao fim?
- Stephen Duncombe: É claro que precisamos levar em conta a especificidade das eleições de 2006. Lula estava tentando se reeleger e contava com um imenso apoio popular, inclusive dos movimentos sociais organizados mais significativos. Mas eu acredito que a era das grandes marchas, de fato, acabou, e que descanse em paz! Aquele era um modelo do século XIX, com um claro viés militar, das pessoas andando em colunas repetindo palavras de ordem e mantendo a idéia de que o público era uma força extrínseca – a ‘massa de manobras’ - e não personagem criador do movimento. E nós não vivemos mais neste mundo. Aqui nos EUA, por exemplo, os ricos vivem em condomínios fechados e os pobres se amontoam nos subúrbios, distantes da cidade. Não há mais a concentração urbana tal qual a do século XX.

- Valor: Mas o chamado ativismo político de guerrilha, como o dos Bilionários Por Bush, tem o mesmo impacto dos grandes protestos?
- Duncombe: Pense que a maioria esmagadora da população americana apoiou a invasão do Iraque e hoje 70% dos cidadãos são contrários à ocupação. Não sei quantos mudaram sua posição por conta dos protestos, mas há um momento claro de virada, basta acompanhar as pesquisas, quando os opositores à permanência das tropas no Iraque passaram de menos de 40% para mais de 60% dos americanos adultos. Este número nunca mais parou de crescer. E aquele momento tem um nome: Cindy Sheehan. Ela é o exemplo de um outro tipo de demonstração, de uma categoria de protesto civil que pode ser efetivo no século XXI.
- Valor: Mas aquele ato de desespero individual pode ser encarado como um modelo para a atuação da esquerda daqui para a frente?
- Duncombe: Há algo de mítico naquela mãe demonstrando de modo simples a realidade da guerra que os americanos teimavam em não encarar. Pode ter sido um ato ingênuo, mas o fato é que ela conseguiu furar o bloqueio da realidade imposto à sociedade americana. Sheehan transformou seu ato de desespero em gigantesco movimento político ao nos revelar um presidente que se recusava a receber uma mãe que havia perdido um filho, jovem cidadão americano, defendendo as armas de seu país no distante Oriente Médio. Coube a ela definir os dois lados da questão política. A mensagem não era o de uma mãe de luto mas a de que nós estamos morrendo do outro lado do mundo. Sheehan nos deu uma lição. Se, nós, da esquerda, estamos dispostos a mobilizar recursos para manifestações ambiciosas, estas não podem mais se resumir a uma atividade em que a polícia lhe diz aonde você pode andar, por tempo determinado, você ouve algumas pessoas e pronto. Veja bem, eu vou fazer exatamente isso amanhã para marcar os 40 anos dos primeiros protestos contra a Guerra do Veitnã. Mas nós precisamos ir além.

- Valor: O senhor é um acadêmico militante, um intelectual que vai às ruas, artigo cada vez mais raro nos dias de hoje...
- Duncombe: Eu me vejo como um militante, um organizador político, não muito diferente do que meu avô e meu pai foram. Mas entendo que os meios agora são outros. Vamos pensar no último suspiro das grandes manifestações: os protestos anti-globalização, contrários à OMC, ao FMI. Aquela gente que ocupou as ruas de Seattle se movia de modo muito singular – parecia que estavam em pleno Carnaval. A rua, hoje, para a esquerda do século XXI, precisa ser cada vez mais o espaço da festa, da celebração. Precisamos convencer o eleitor de que nós, os progressistas, ainda podemos fazê-lo acreditar que política pode ser um exercício prazeroso. Mas para isso precisamos estar lá também, ocupar o palco.

- Valor: Já há alguns anos São Paulo vem realizando a maior parada de orgulho homossexual do planeta. Mas seus organizadores são criticados pelos que vêem na crescente carnavalização do evento uma prova de esvaziamento de sua mensagem política...
- Dunconmbe: Mas é exatamente o oposto! E sua pergunta já carrega o dado mais importante sobre o impacto das novas manifestações – as pessoas comparecem! E o trabalho de um ativista político em uma democracia é levar as pessoas para a rua e fazer com que sua voz seja ouvida. Não podemos mais confundir organização social com a criação de sub-culturas que não têm o poder de afetar a cena política. As manifestações de solidariedade às primeiras vítimas da AIDS no começo dos anos 80 me marcaram muito. As pessoas estavam com raiva, seus amigos morrendo, mas elas ocuparam as ruas com um espírito de festividade e até com certo sex appeal. Muitos dos manifestantes trabalhavam em empresas de propaganda e marketing. Eles conseguiram ultrapassar a dor da morte e levar para o mundo da esquerda algo ainda maior, a vontade de viver. O que quero dizer é que a alegria das ruas precisa fazer parte de nosso vocabulário se de fato quisermos novamente tocar as pessoas. Não há nada de errado em tratar de temas que afetam seriamente a todos nós ao som de disco music. Politizar o carnaval, como fizemos com o Bilionários Por Bush, parece-me ser essencial. Agora, é importante perceber que não estamos propondo substituir a pressão política pelo espetáculo. Aquela está mais do que presente, na hora de mostrar para o político que seus eleitores estão celebrando em torno de uma idéia que queremos ver implantada o mais rapidamente possível.



- Valor: Sua dreampolitik prega a necessidade de a esquerda explorar os aspectos progressistas da cultura mais comercial. O senhor não acredita que ‘apropriação da cultura popular’ pode-se confundir com ‘populismo cultural’ - algo que parece permear, por exemplo, o chavismo na Venezuela?
-
Dunconmbe: Sim, o risco é imenso. Mas precisamos arriscar. Nós, os progressistas, estamos diminuindo de tamanho mundo afora.

- Valor: Mas a América Latina nunca foi governada por tantos esquerdistas e os democratas acabaram de vencer as eleições para o Congresso aqui nos EUA...
-
Dunconmbe: O Partido Democrata venceu as eleições por conta da falência do discurso conservador dentro de um Partido Republicano dividido, e não pela aceitação dos valores liberais pelo eleitorado americano. E isso deve se repetir no ano que vem, um democrata quase que certamente vai ser o sucessor de George Bush, mas, e depois de quatro anos? Mas, voltando à sua pergunta, o grande risco é encararmos o espetáculo como o substituto do sonho, como fizeram os fascistas e como a sociedade de consumo faz diariamente. Pense em George Bush descendo com roupa de aviador militar no porta-aviões Abraham Lincoln em 2003 para declarar ‘missão cumprida’ no Iraque. Nosso problema é que neste exato momento a direita detém o monopólio do espetáculo. Nós ficamos do outro lado, confinados à realidade, enquanto a maior parte da sociedade abraçava a simbologia fácil oferecida pela Casa Branca. O que precisamos é repensar o artesanato do espetáculo e o utilizarmos de forma inteligente, dramatizando a realidade, de forma ética, em nosso favor. Cultura pop não é tão ruim assim. É possível ultrapassar o consumismo, a fixação com o lucro, a manipulação de nossos medos coletivos, e explorar as possibilidades que a linguagem dos videogames e a troca de músicas digitais nos oferecem. Pense nas políticas de copyyleft e na abordagem das possibilidades do mundo digital feitas pelo ministério da Cultura do Brasil. Tenho seguido com muito entusiasmo a linha de pensamento do Gilberto Gil, sua posição sobre o que é pirataria e o que é troca de informação.

- Valor: Sua mensagem de que a esquerda precisa continuar sonhando parece-me especialmente interessante no cenário brasileiro, já que há uma sensação forte de que o primeiro mandato do presidente Lula, com a crise ética enfrentada pelo governo e pelo PT, acabou disseminando a idéia de que todas as facções políticas são iguais...
-
Dunconmbe: Veja bem, como um humilde esquerdista norte-americano eu só posso suspirar e desejar que um dia tenhamos a chance de chegar ao poder como a esquerda brasileira o fez. Aqui nos EUA não nos preocupamos em manter-nos puros, pois não há corrupção sem poder. E não temos poder algum. Lula chegou ao poder vendendo o sonho e teve de se afinar com o mercado. Ele hoje é considerado o mais conservador dos esquerdistas eleitos na América Latina, mas isso me interessa menos do que descobrir com quem foram parar as idéias de mudança que ele sempre defendeu. O Lula que chegou ao poder é também fruto de idéias grandiosas de educação gratuita de boa qualidade para todos, do fim da fome. Parece insano, fantasioso, mas é assim que se pressiona por reformas de fato. O lugar deixado por Lula precisa ser ocupado por uma extrema-esquerda que continue sonhando. Pense no México. Você tinha Lopez Obrador como candidato das esquerdas e ao mesmo tempo os zapatistas mantendo uma posição de pragmatismo onírico: vá negociar com eles, enquanto nós continuaremos sonhando. A extrema-esquerda brasileira, creio, deveria tentar manter o fogo aceso. Ou seja, apoiar Lula no que puder, porque poderia ser muito pior sem o PT, e entender a diferença entre purismo ranzinza e a necessidade vital de se abraçar novamente a utopia.

-Valor: Há uma sensação de que se vive uma crise dos valores iluministas na sociedade capitalista contemporânea. Qual é, afinal de contas, em sua opinião, a Ética que devemos defender e praticar nesta nossa ‘idade da fantasia’?
-
Dunconmbe: Os valores iluministas, por si só, não cabem mais em nossa sociedade multifacetada. A esquerda precisa ser menos a viúva do iluminismo e voltar a rufar os tambores iconoclastas. Vamos abraçar a utopia de Eduardo Galeano em As Palavras Andantes, quando ele escreve que ela está no horizonte. Ele dá dois passos e a utopia se distancia também, ou seja, ele nunca a alcançará, mas ela, nos ensina o escritor uruguaio, nos serve para isso: a utopia nos faz caminhar! Este é o objetivo maior da apropriação ética do espetáculo defendida em Dream – representar o sonho, criar uma ilusão que nos ajude a seguir em frente e que nada tem de desilusão. De certo modo, foi o que a direita fez aqui nos EUA. Eles criaram a idéia deste mundo sem sexo, sem aborto, sem Darwin, sem Estado. Nossa sociedade não retrocedeu tanto assim, mas ao manter o sonho aceso eles ajudaram a se criar a ilusão de que esta é uma possibilidade concreta. E moveram peças importantes no tabuleiro político nacional. Isto é fazer política nos tempos de hoje.

domingo, abril 01, 2007

ENTREVISTA/Steve Carell


A Bizz deste mês - toda remodelada - inaugurou uma seção dedicada ao cinema e publicou um rápido pingue-pongue que joguei com Steve Carell, o tio Frank de Pequena Miss Sunshine, por conta do lançamento de seu mais novo filme, A Volta do Todo-Poderoso, que estréia nos cinemas brasileiros em julho (na foto acima, ele, de Noé, conversa com o "deus" Morgan Freeman. O comediante, que se prepara para encarnar na tela grande o atrapalhado Agente 86, seu grande projeto para o ano, conversou comigo no refeitório dos estúdios da Universal, em Los Angeles

5 PERGUNTAS PARA STEVE CARELL
Por Eduardo Graça, de Los Angeles, para a BIZZ

- De correspondente do The Daily Show de John Stewart à elite da comédia de Hollywood foi uma trajetória e tanto. O mainstream assusta?
- Entendo o que você está dizendo, mas minha âncora, creio, é o fato de que fui fazer sucesso, assim, astronomicamente falando, depois dos 30. Isso muda tudo. Não tenho a menor vontade de sair por aí comprando carros da moda, óculos-escuros que eu nunca vou usar, cair na noite. Ouso dizer que Hollywood não mudou em absolutamente nada a minha rotina.
- Em A Volta Do Todo-Poderoso você vive uma espécie de Noé que tem de construir uma arca e levar animais de todos os tipos para se proteger de um novo dilúvio. E você trabalha com alguns bichos bem esquisitos...
- Pois é. Além de confirmar para mim que Deus existe e que ele é mesmo o Morgan Freeman (que encarna o personagem) este filme me fez descobrir coisas extramente úteis como o mau-hálito dos camelos, os dentes horrendos das alpacas, a afeição desmedida das cobras e, claro, com o fato desagradabilíssimo de que todos eles defecam. Convivi com o cocô de animais de todos os tamanhos e formas durante as filmagens. Foi muito, mas muito pior do que ser depilado em cena como no Virgem Aos 40.
- O filme é uma continuação de um grande sucesso de público de Jim Carrey. Você conversou com ele antes das filmagens?
- O Jim tem me dado a maior força e me apoiado sempre, seja quando atuamos juntos, dividindo o set no primeiro Todo-Poderoso, como també no Virgem aos 40. A gente se fala sempre e sim, juro para você que agora que ele está estrelando o filme de suspense O Número 23 meus próximos projetos serão, pela ordem, o Número 24, 25 e 26! (risos). Ele que se cuide!
- E eu que achei que seu próximo filme seria sobre o Agente 86, que é como chamamos o Agente Smart no Brasil...
- Você também é fã do agente Maxwell Smart?
- Sim, toda a minha geração cresceu assistindo ao Agente 86 na televisão!
- Que bom! Bem, eu termino esta entrevista, apresento um Oscar e começo a filmar o Agente 86 com o Terence Stamp, que eu adoro e, claro, com meus colegas Agente 23, que vai ser o The Rock e Agente 89, a Anne Hathaway (protagonista de O Diabo Veste Prada), que eu adoro. Poderia estar mais feliz?




quarta-feira, março 28, 2007

Da Crise do Iraque

Senador Chuck Hagel (R-Nebraska), na tribuna do Senado, hoje, no NYT:

Não há solução militar. O Iraque não é uma prenda que ganhamos ou perdemos. Ele pertence aos 25 milhões de iraquianos. O Iraque não pertence aos EUA.

segunda-feira, março 26, 2007

Os Democratas e A (Próxima) Guerra



Muito bom o artigo do analista político David Rieff na revista do NY Times deste fim de semana (aqui, na íntegra, infelizmente apenas em inglês). Os militantes anti-guerra jogam tudo na derrota do Partido Republicano nas eleições presidenciais do ano que vem mas os três democratas - os senadores Hillary Clinton e Barack Obama e o ex-senador John Edwards - mais bem-posicionados nas pesquisas, e com mais dinheiro em caixa, são mais falcões do que pombos.

Filho de Susan Sontag e do sociólogo Phillip Rieff, David Rieff, uma cria da Universidade de Princeton, lembra que:

* Hillary Clinton fala de um internacionalismo que seria o oposto do unilateralismo de Bush, mas centrado na recuperação da força dos EUA no exterior.

* Barack Obama diz a todo tempo que é preciso recuperar a liderança no tabuleiro político mundial

* John Edwards segue dizendo que os EUA precisam recuperar urgentemente sua posição privilegiada de 'líder moral' do mundo livre.

Os três consideram a invasão do Iraque desastrosa porque mal-conduzida e equivocada, quando os verdadeiros inimigos da democracia estão confinados no Afeganistão e no Paquistão (Al-Qaeda e afins) ou em países como Irã e Coréia do Norte, com sua corrida nuclear. Os três consideram a possibilidade de interevenção armada no Irã, são ainda mais próximos de Israel e Taiwan, dois tradicionais aliados de Washington.

Para azar nosso, Rieff estabelece de forma clara a semelhança entre a idéia de vigor nacionalista dos neo-conservadores e dos liberais intervencionistas.

Os pacifistas que se cuidem.

sexta-feira, março 23, 2007

ENTREVISTA/Mark Wahlberg

A agência de notícias BrPress publicou hoje minha entrevista com o ator Mark Wahlberg, 35, que conversou comigo em Los Angeles sobre seu mais recente filme, Atirador, que estréia hoje nos cinemas brasileiros.


CINEMA - Um ´Rambo´ muito família
Eduardo Graça*/Especial para BR Press

(Los Angeles, BR Press) - Duas semanas depois de deixar a cerimônia do Oscar feliz pelas premiações do amigo Martin Scorsese (diretor) e do filme Os Infiltrados (pelo qual foi indicado como melhor ator coadjuvante), Mark Wahlberg, 35 anos, se esparrama confortavelmente na poltrona da suíte do hotel Four Seasons, em Beverly Hills, como se estivesse na sala de estar de sua casa. Mais jovem de nove irmãos (entre eles os também atores Donnie e Robert), Wahlberg cresceu nos guetos de Boston, foi parar no xilindró inúmeras vezes, ganhou fama na cena musical como Marky Mark, nas passarelas como modelo de Calvin Klein, e parece finalmente ter encontrado o caminho dos tijolos amarelos de Hollywood.

Com um suéter azul-marinho, calça jeans da moda com cueca boxer colorida à mostra e tênis branco dos Celtics feito sob encomenda, Wahlberg fala sem parar de Bob Lee Swagger. Bob é uma espécie de Rambo contemporâneo, personagem principal de Atirador, novo thriller de Antoine Fuqua (diretor do premiado Dia de Treinamento), que estréia nesta sexta-feira (23/03) nos cinemas brasileiros.

Morte ao republicano

A trama é centrada no fuzileiro naval aposentado contratado pelo governo para desbaratar uma possível tentativa de assassinato do presidente dos EUA. Mas nada é o que parece ser no labirinto montado por Fuqua. Atirador conta com cenas fortes, como a sessão de tortura baseada nas icônicas imagens da prisão iraquiana de Abu Ghraib e o assassinato a sangue-frio de um político americano. Na cena, o parlamentar implora: “Mas eu sou um senador da república!”. E o personagem de Wahlberg, gerando aplausos nas salas de cinema da Califórnia, responde: “Exatamente!”.

Em entrevista à BR Press, o ator fala das comparações com Sylvester Stallone e conta que, como outros cidadãos de democracias contemporâneas, já teve vontade de ‘dar uma lição’ em certos políticos corruptos, mas que jamais chegaria aos extremos de Bob Lee Swagger. Especialmente agora, em que sua vida, jura, é dedicada exclusivamente à mulher, a modelo Rhea Durham, 28, e a seus dois filhos, Ella Rae, 3, e o pequenino Michael, 11 meses. Com eles, diz que vai a missas dominicais da igreja católica localizada no bairro em que vive.



Você apresenta uma forma invejável no filme. É um rato de academia?

Wahlberg - Juro que não sou. Tenho uma sala de ginástica em casa, mas o que gosto mesmo é de jogar golfe. Mas é claro que quando você tem de fazer um personagem como o Swagger e o filme exige que você esteja tinindo, faço exercícios diariamente durante as filmagens, além de todo o treinamento específico com atiradores de primeira linha. Sabe que em um de meus próximos projetos, junto com o Matt Damon, por exemplo, devo viver o boxeador irlandês Micky Ward (no filme The Boxer)? Claro, mais uma vez terei de me preparar pacas. É duro. Por exemplo, antes de começar a filmar Atirador estava pesando 91kg e tinha de entrar em cena com um corpinho de 68 kg! (risos).

E você conseguiu?

Wahlberg - Vamos dizer que cheguei na metade do peso ideal (risos). Mudei minha dieta e passei a erguer mais pesos, fazer mais exercícios localizados, mas o mais complicado é mudar seu hábito alimentar. Minha rotina diária é comer um waffle de manhã, fazer exercícios e depois assar uma galinha. Adoro frango assado! Tanto que instalei uma daquelas máquinas de padaria lá em casa (risos).

Que engraçado, Sylvester Stallone, que acaba de voltar com mais um Rocky, diz que a dieta dele é exatamente esta, waffle e frango, como no sul dos EUA!

Wahlberg - Ah, não! Jura? Bem, e ele não falou nada desta viagem que fez em Sidney e de tudo o que encontraram em seu ônibus? (uma referência ao produto alimentar Jintropin, proibido na Austrália). Pelo menos esta outra dieta, a dos produtos que andaram confiscando lá, eu não faço não (risos). Não uso bomba! (risos).

Já que falamos de Rocky, o Swagger tem lá sua dose de Rambo, não?

Wahlberg - Eu diria que ele é ainda um pouquinho mais perigoso que o Rambo. Atiradores de elite são extremamente perigosos, pois você nunca os vê, eles geralmente estão a milhas de distância e podem, mesmo assim, causar um senhor estrago. E o Rambo falava duas frases em todo o filme, né (risos)? O Swagger tem lá sua formação intelectual, lê, é um dissidente. Quando percebi que poderia haver esta comparação, tentei fazê-lo o mais diferente possível. Decidi fazer Atirador porque este é um filme que mexe em certas feridas do mundo contemporâneo. É um thriller, mas também trata da maneira como olhamos aqui dos EUA para os países em desenvolvimento.

E há aquela cena em que o seu personagem mata o senador que é a cara do vice-presidente Dick Cheney. Aliás, no filme, o político conservador tem um rancho em Montana...

Wahlberg - E o vice-presidente em Wyoming...(risos)

Pois é!


Wahlberg - Olha, você precisa ver a versão de quatro horas do filme, pré-editada. O Antoine (Fuqua) teve de cortar um monte de coisas, discursos, referências. Mas, de novo, por isso quis fazer Atirador. É a história de uma grande conspiração que é puro entretenimento, tem muita ação, mas também carrega uma mensagem política.

Você disse que adora jogar golfe. Aqui em Hollywood as pessoas dizem que você é um praticante sério. O que o atraiu no esporte?

Wahlberg - Tudo. Adoro ficar quatro horas concentrado, em um belo espaço, com o celular desligado, longe do trânsito infernal de Los Angeles. Aliás, pensando bem, é meio que o oposto dos filmes que fiz, não? Por exemplo, nunca trabalhei nestes filmes mais calmos em que você passa o tempo conversando e bebericando na piscina ao lado de belas garotas (risos)! Geralmente em meus filmes os elementos e as situações são todas mais duras, cruas mesmo.

Certamente tem a ver com sua imagem de homem durão. Será que você não está tentando mudar isso? Por exemplo, na saída da cerimônia do Oscar, enquanto todos se preparavam para ir para as famosas festas da noite da premiação, você dizia que precisava ir à igreja, que não queria faltar à missa...

Wahlberg - Olha, mas eu fui a uma festa, juro! Apenas a uma, mas fui (risos). É que agora tenho de colocar as crianças para dormir, acordar cedo com elas. Ainda bem! Olha, eu fui criado na igreja católica em Boston e, sim, minha experiência indo parar na cadeia quando muito jovem me ajudou a voltar para o convívio confortável da religião. E espero que ao encarnar um personagem como o Swagger, que carrega uma arma para cima e para baixo, eu não incomode pessoas religiosas. Ele, no fim, está lutando apenas pela verdade. É mais uma pessoa que busca a verdade.

Você acha que ter sido indicado para o Oscar vai mudar sua estatura em Hollywood?

Wahlberg - Não mesmo. Há mais ou menos quatro anos eu estava bem melancólico, deprimido mesmo, com a certeza de que os grandes estúdios não faziam mais os filmes em que eu queria atuar. E pensava: bem, é meu trabalho. Então fazia meus filmes e pronto, vamos ganhar dinheiro e jogar golfe nas horas vagas. Mas aí veio Uma Saída de Mestre (que deve ter uma continuação filmada no Rio de Janeiro), Os Quatro Irmãos, Os Infiltrados, Invincible e Atirador para me desmentir. Todos são filmes a que eu assistiria, como espectador, com o maior prazer. Por isso acho que ser indicado para o Oscar não vai mudar nada. O que muda é ter duas crianças novinhas, como as que tenho em casa.

quarta-feira, março 21, 2007

Manchetes de Quarta-Feira

Uma corrida pelos principais jornais da vizinhança e, no detalhe, a primeira página do NYT com a chegada do quase-presidente eleito Al Gore a Washington. Da última vez em que esteve no Capitólio, lá se vão sete anos, Gore certificou a vitória eleitoral de George Bush em 2000.



- N.Y. TIMES: Estrela de um filme bem diferente, Al Gore retorna ao Capitólio (ex-vice presidente fala no Congresso sobre aquecimento global)

- WASHINGTON POST: Bush avisa que aliados irão depor apenas em sessões fechadas, irritando o Congresso no caso dos procuradores federais aparentemente demitidos por pressão da Casa Branca

- L.A. TIMES: Bush enfrenta Congresso na crise da demissão dos procuradores federais: presidente recusa liberar Karl Rove para depoimento e abre campo para uma batalha constitucional.

- USA TODAY: Prefeitos de todo o país buscam mudar a legislação e tomar o controle das escolas públicas (sucesso de algumas cidades impulsiona mudança política)

- NY DAILY NEWS: O que Naomi Campbell realmente pretende fazer daqui para a frente

SHOW/Welcome to Dreamland

Chegou aqui em casa hoje a Bizz de março, com outras duas colaborações do blogueiro aqui. A primeira foi o ótimo Welcome to Dreamland, uma reunião de feras do freak folk americano aqui no Carnegie Hall em pleno 2 de Fevereiro, que abriu a seção Barulho da revista. Fui convidado por Mr.Pratt e curti tanto que escrevi para a revista o relato abaixo:

FREAK BROTHERS

Evento organizado por David Byrne reúne adeptos do neo-folk no lendário Carnegie Hall

E quem disse que não se dá vivas a Iemanjá em Manhattan? No dia 2 de fevereiro, com a chuva castigando impiedosamente o inverno nova-iorquino, Cibelle, vestido azul-água comme il faut, adentrou o palco do Carnegie Hall e dedicou a jobiniana Por Toda a Minha Vida à deusa das águas em uma interpretação delicada. Ao lado da parceira de Suba no delicioso São Paulo Confessions estavam o coletivo californiano Vetiver e o nerdíssimo britânico Adem. O pretexto era Welcome to Dreamland, a segunda das quatro noites organizadas por David Byrne dentro da série Perspectives, o evento de luxo da temporada no mais cool dos palcos do circuito mainstream da cidade.

DEVENDRA BANHART FECHOU A NOITE ORGANIZADA POR DAVID BYRNE APRESENTANDO DUAS MÚSICAS NOVAS. NUMA DELAS, DECLARA: "ESTOU DOIDÃO, ALEGRE E LIVRE"

Pela terra dos sonhos passaram ainda as irmãs Casady, isto é CocoRosie, com seus vestidos vitorianos, harpas, violinos e vozes de um estranhamento ímpar; a diva folk Vashti Bunyan, responsável pelo clássico folk Another Diamond Day (1968) e que cantou lindamente Pillow, do primeiro (e melhor) disco de Adem, Homesongs; e, claro, Devendra Banhart. O fã de Caetano fechou a noite com duas arrebatadoras músicas novas, com banda eletrificada no palco, e letras de uma objetividade desconcertante. Em uma delas ele declara que ‘está doidão, alegre e livre’. Em Banderas, a nova carta de intenções de Banhart, com Cibelle nos backing vocals, ele parte das semelhanças nos desenhos de símbolos de terras tão distantes quanto a Alemanha e a Califórnia a fim de encontrar um tempo de congraçamento entre os homens de boa paz.

Não por acaso, com Byrne à frente, ecoando suas palavras no início do evento (‘que este seja mais uma provocação do que apenas um outro show’) os artistas se juntaram ao fim para cantar o Bird’s Lament, de Moondog, o mais freak dos folks, que vivia nas ruas de Nova Iorque e morreu em 1999, aos 83 anos. Durante mais de duas décadas ele bateu ponto logo ali na esquina da rua 54 com a Sexta Avenida, portando seu chapéu de viking e cantando como ninguém. Foi de arrepiar.

terça-feira, março 20, 2007

Manchetes de Terça-Feira

Uma corrida pelos principais jornais da vizinhança que trataram dos cinco anos de ocupação norte-americana no Iraque. O destaque fica por conta do especial trazido pelo Washington Post, com uma série de reportagens e análises sobre a presença de 135 mil soldados ianques no Oriente Médio:



- WASHINGTON POST: Especial - Invasão do Iraque completa 5 anos (Bush pede que Congresso democrata mostre 'coragem e capacidade de decisão' ao tratar das novas diretrizes da ocupação militar)

- USA TODAY: Apoio à democracia despenca (pesquisas mostram que iraquianos não acreditam nem em eleições nem no governo de Bagdá)

- N.Y. TIMES: Bush pede 'paciência' no aniversário de quatro anos da ocupação do Iraque (presidente alerta para a 'tentação' de 'arrumar as malas e voltar para a casa' antes do dever cumprido)

O Voto das Mulheres Negras

Na revista New York que acabou de chegar aqui em casa, Donna Brazile, estrategista da campanha de Al Gore e comentarista da CNN, uma das maiores especialistas em corridas eleitorais aqui nos EUA, diz que a chave para a conquista do voto negro (basicamente democrata) em 2008 está com as mulheres.

Uma recente pesquisa da ABC-Washington Post mostra que o apoio dos negros a Hillary Clinton caiu dramaticamente desde o lançamento da candidatura Barack Obama: de 60% para 33% das intenções de voto. Pior, no eleitorado feminino, em todos os grupos étnicos, seu eleitorado caiu de 49% para 40%.

Diz Brazile:

"O que realmente comanda a maré política no eleitorado afro-americano é o apoio das mulheres negras logo no início da campanha. São elas que comandam o discurso político dentro de casa. Em geral elas são também as menos volúveis: quando escolhem de fato um candidato, não viram a casaca".

Parece que este candidato, para o azar de Hillary, é Obama.

segunda-feira, março 19, 2007

Manchetes de Segunda-Feira

Uma corrida pelos principais jornais da vizinhança e, no detalhe, a primeira página do USA Today, com um triste balanço da vida dos iraquianos quatro anos após a invasão americana:



- USA TODAY: Iraquianos vivem em total desesperança (pesquisa mostra que 100% se sentem inseguros em Bagdá e 61% acham que a vida piorou depois da queda de Saddam, na semana que marca quatro anos da invasão americana)

- N.Y. TIMES: Senadores democratas insistem que colaboradores mais próximos de Bush testemunhem na investigação instaurada pelo Congresso sobre a demissão dos oito procuradores federais (oposição quer ouvir publicamente Karl Rove, o homem-forte do governo, e o vice-presidente Dick Cheney)

- WASHINGTON POST: Documentos internos revelam as mordomias do primeiro escalão do Smithsonian Institute, às custas do contribuinte.

- L.A. TIMES: Empreiteiras brigam por espaço no coração de Los Angeles

domingo, março 18, 2007

Manchetes de Domingo

Os principais jornais americanos neste domingo registraram os quatro anos de invasão do Iraque (e 40 do início da série de protestos contra a Guerra do Vietnã). O Washington Post (abaixo) deu grande destaque para as manifestações em todo o país, enquanto o NYT e o LA Times iniciaram duas séries interessantíssimas de reportagem: respectivamente, sobre os avanços da genética e o drama da viagem dos imigrantes que entram ilegalmente nos EUA pelo Texas, na área mais perigosa da chamada Fronteira da Morte.



- WASHINGTON POST: Quatro Anos Depois - Ira (protestos marcam o aniversário de quatro anos de ocupação do Iraque pelos EUA e aliados)

- N.Y. TIMES: Vivendo com um Gene Letal (série de reportagens revela os novos testes que revelam doenças genéticas)

- L.A. TIMES: Histórias de Crimes (série de reportagens mostra a viagem aos infernos de imigrantes ilegais viajando dentro de uma van sufocante pelo sul do Texas, com 19 mortos).

- NY DAILY NEWS: Vexame no Transporte Escolar em NY: Motoristas, Instrutores e Estudantes flagrados em diversos casos de abuso pela reportagem do jornal

sábado, março 17, 2007

Manchetes de Sábado

Uma corrida pelos principais jornais da vizinhança e, no detalhe, a bela figura de Valerie Plame Wilson, a ex-agente secreta da CIA queimada pela Casa Branca logo no início da batalha travada entre críticos da invasão do Iraque e defensores da trama das 'armas de destruição em massa' que Saddam Hussein teria estocado em Bagdá. Ela foi o destaque dos principais jornalões do país neste sábado. Como se sabe, as tais armas nunca apareceram, mas dona Valerie perdeu o emprego. É um destes raríssimos casos em que espião vai parar nas primeiras páginas do jornal. Com permanente no cabelo e tudo:




- WASHINGTON POST: A ex-agente da CIA Valerie Plame diz em depoimento no Congresso que om governo Bush não teve a menor preocupação em revelar sua identidade quando das primeiras críticas à invasão do Iraque

- L.A. TIMES: No Congresso, é a hora de Valerie Plame falar tudo o que sabe (ela acusa a Casa Branca de desrespeitar a CIA e não dar a mínima atenção a seu status de agente secreta)

- N.Y. TIMES: Irã quer aumentar sua presença na economia iraquiana

- SAN FRANCISCO CHRONICLE: Veteranos da invasão do Iraque vivem nova batalha - como conseguir plano de saúde e ajuda do governo para tratamento de traumas de guerra.

ENTREVISTA/Angelina Jolie & Robert DeNiro - O Bom pastor


A Contigo! que chegou hoje nas bancas brasileiras trouxe entrevistas minhas (e texto da querida Márcia Pereira, de S.Paulo) com seu Robert De Niro e dona Angelina Jolie, respectivamente o diretor e a estrela de O Bom Pastor, filme que estréia este fim de semana nas telonas cariocas e paulistanas.

O Bom Pastor

Eduardo Graça, de Nova York, para a Contigo!

Durante a Segunda Guerra, Edward Wilson (um ótimo Matt Damon) é recrutado pelo general Bill Sullivan (Robert De Niro) para trabalhar na nascente agência americana de inteligência, a CIA. Ao aceitar, deixa em segundo plano seu casamento com Clover (Angelina Jolie). Marido e mulher brigam por tudo e rompem de vez quando o filho decide seguir os passos do pai ausente. A câmera segue a trajetória da família por mais de 35 anos, durante quase três horas de bela fotografia e pouca ação. Leve lanchinho e café - já que pode dar sono.

ENTREVISTA/Robert De Niro



Famoso por dar entrevistas a jato, recheadas de respostas curtas, De Niro até que estava em um de seus bons dias na suíte do Hotel Waldorf-Astoria, no qual falou do
amigo Martin Scorsese, 64, e de sua vontade de dirigir uma seqüência de O Bom Pastor. A seguir, o ator/diretor revela-se, só mais um pouquinho.


Essa é sua terceira experiência na direção. A primeira foi 13 anos atrás...

Nossa, faz tempo! Mas o que me fascinou em O Bom Pastor foi mergulhar no mundo da inteligência secreta, da espionagem. É um assunto fascinante para uma história, um filme. Eu até estava trabalhando em um outro projeto, sobre sociedades secretas, quando esse roteiro chegou a mim. Mas, para me dedicar a ele, fiz um acordo.

Um pacto? Mais sociedade secreta impossível...
Pois é. Disse ao roteirista, Eric Roth, que, se eu concordasse em dirigir o filme, ele escreveria o roteiro para a segunda parte da saga. Sabia que O Bom Pastor estava na lista de uma famosa revista de cinema como um dos dez roteiros jamais produzidos? Acho que ele nunca saiu do papel porque as pessoas o consideravam um projeto caro e ambicioso. Deu mesmo um trabalhão. Cortei várias cenas que se passariam no Irã e no Oriente Médio, por exemplo.

Você volta, nesse filme, a trabalhar com Francis Ford Coppola (produtor do longa), que o dirigiu em O Poderoso Chefão II (1974) e lhe rendeu um Oscar. Diria que há semelhanças entre os filmes de máfia dele e O Bom Pastor?
Há, sim, uma semelhança entre a CIA e a máfia no sentido do culto ao segredo. São organizações profundamente fechadas. Mas nada além disso, né? (Pisca olho, rindo.) A saga familiar do agente Edward Wilson, retratada em O Bom Pastor, também é um ponto de interseção com os filmes de Coppola.

O senhor é muito amigo do diretor Martin Scorsese. Mostrou o filme a ele?
Marty viu o filme algumas vezes antes de ficar pronto. Queria ouvir o que ele tinha a dizer sobre as versões do longa.

Quando as pessoas o abordam nas ruas elas saem recitando frases famosas de seus filmes?
Sim e ainda bem! E também dão opinião sobre o que acham melhor ou pior nos meus papéis (risos).

Acha que agora vai acontecer o mesmo com você atuando por trás das câmeras? Vai haver um novo filme do diretor De Niro logo?

Ah, não sei. Adoro atuar. Mas, como disse antes, quero muito fazer a continuação de O Bom Pastor. Como ator você pode se concentrar no seu personagem, mas dirigir significa pensar em cada aspecto do filme. Por outro lado, você tem um poder de decisão muito maior, inclusive na hora de editar as cenas. Mas não acho, por exemplo, que um diretor que não atua, como o Marty, é menos respeitoso com os atores. No caso dele, por exemplo, é rigorosamente o oposto: tem um respeito quase religioso por nós, que se reflete em seus filmes. Outro dia lhe disse que minha admiração por ele aumentou ainda mais depois que dirigi O Bom Pastor e tive a noção do desafio que é dirigir um filme desse tamanho.

E sua relação com a Angelina? É a primeira vez que trabalharam juntos...
Mandei-lhe o roteiro porque simplesmente a adoro ver em cena. Mas acho, humildemente, que ela nunca fez algo tão intenso, tão brilhante, quanto a Clover de O Bom Pastor. Ela superou minhas expectativas, com certeza.


Entrevista/Angelina Jolie




Sua personagem em O Bom Pastor exibe frases curtas, imensos silêncios e um trabalho corporal delicado. É uma interpretação minimalista. Foi proposital?
Sim, foi! Como Bob (De Niro) queria fazer algo fiel aos anos 40 e 50 e à camada de mistério que a criação da CIA exigia, todos no set tínhamos de nos preocupar em fazer gestos de gente fina. Por exemplo, mover as mãos assim (levando-a até o queixo, bem devagar), mais graciosamente. Finalmente aprendi como se usa um guardanapo à mesa (risos). As mulheres dessa época eram especialmente reprimidas...

Isso parece perturbá-la...

Bem, foi um senhor desafio para mim encarnar uma mulher submissa (risos). É totalmente contra meus instintos mais naturais, digamos assim (mais risos). Quando eu e Matt (Damon) tivemos uma cena em que ele grita comigo e me empurra, é especialmente bruto. A gente teve de se segurar para não cair na gargalhada. Só nós dois sabíamos porque estávamos com aquela cara engraçada. É que estávamos com os papéis trocados: ele sendo tão malvado e eu tão cândida (risos)!

Levou essas lições aprendidas no set para o seu dia-a-dia?

Ah, sim! Menos os valores profundamente hipócritas da América do pós-guerra e mais um certo culto à elegância, que se perdeu no meio do caminho. Certos gestos especialmente delicados vou tentar levar comigo, juro (risos)! Mas, ao mesmo tempo, Clover, minha personagem, era uma mulher especialmente carente, que, por exemplo, fica bêbada na frente do filho, coisa imperdoável para mim. Também jamais fumaria na frente de meus filhos.

Você terminou O Bom Pastor e fez, na seqüência, a viúva do jornalista americano Daniel Pearl, em outro thriller político. Foi coincidência?

Mas aí você também pode pensar que é coincidência eu continuar lidando com espionagem, como em Sr. & Sra. Smith. A verdade é que estou amadurecendo e, cada vez mais, interessada em filmes que tenham algum tipo de mensagem política. E, hoje, os grandes estúdios sabem que eu simplesmente me recuso a passar sete meses filmando longe de meus filhos. Então, não dá mais para fazer um filme de ação.

Como resolve esta charada: carreira X crianças?

Não tem charada. Ficarei mais em casa mesmo. Eu e Brad decidimos que vamos nos alternar: quando um estiver filmando, o outro necessariamente estará com as crianças, em casa. E temos um pacto: decidimos quem vai trabalhar a partir do grau de paixão despertado por cada projeto. Mas lhe garanto que os dois pensam que o felizardo é aquele que ficará com os meninos.

Seu personagem, no filme, lida com sentimentos de vingança em relação ao ex-marido. Você se vê nesse papel na vida real?
De jeito nenhum (risos)! Sou amiga de meus dois ex (Jonny Lee Miller, 34, com quem foi casada de 1996 a 1999, e Billy Bob Thornton, 51, casada de 2000 a 2003). E, quando nos separamos, o fizemos porque entendemos que era o melhor para o crescimento de cada um. Foi justamente para não entrarmos em um relacionamento doentio, especialmente quando crianças estão envolvidas.

Você é um dos rostos mais conhecidos do mundo. Há algum lugar em que não a reconhecem?
(Rindo muito.) Mas é claro que sim! Por exemplo, eu acabo de passar alguns dias em Springfield, uma cidadezinha do estado do Missouri, onde vive toda a família do Brad, e ninguém me reconheceu, lá. Eu juro (risos)!

sexta-feira, março 16, 2007

Manchetes de Sexta-Feira

Uma corrida pelos principais jornais da vizinhança e, no detalhe, a primeira página do NYT, com a imagem dos militantes encapuzados de uma nova organização fundamentalista islâmica, Fatah al Islam, comandada pelo palestino Shakir al-Abssi, que promete novos ataques aos EUA:




- N.Y. TIMES: Em um campo de treinamento no Líbano, a nova face da jihad promete novos ataques aos EUA

- WASHINGTON POST: EUA e Sadr - tumultuada cooperação (líder radical dos shiitas visto como fundamental para o sucesso da estratégia de Washington no Iraque)

- NY DAILY NEWS: A Sangue Frio: videotape mostra como os dois policiais foram mortos pelo atirador do Village

- L.A. TIMES: Antecipação das Primárias na Califórnia dão ao estado mais força na escolha do novo presidente no ano que vem

TIME/Como a Direita Se Equivocou



A capa da Time que acaba de chegar às bancas traz uma foto de Ronald Reagan, o maior ícone do conservadorismo americano da segunda metade do século XX, derramando uma lágrima pela direita. E pergunta: "O que ele faria? E por que os candidatos republicanos à presidência precisam recuperar a herança de Reagan". Neste exato momento os dois candidatos republicanos mais fortes - Rudolph Giuliani (ex-prefeito de Nova Iorque, um social-liberal) e o senador John McCain (defensor ferrenho da invasão do Iraque) - não entusiasmam nem o braço conservador nem o libertário (que prega o individualismo e tem horror à idéia de Estado) do partido. A reportagem, de Karen Tumulty, pode ser lida, infelizmente apenas em inglês, aqui.

quinta-feira, março 15, 2007

Manchetes de Quinta-Feira

Uma corrida pelos principais jornais da vizinhança e, no detalhe, a primeira página do Los Angeles Times, que, como os outros grandes jornais do país, trataram da confissão daquele que há tempos é apontado pelo governo norte-americano como a mente por detrás dos ataques de 11 de Setembro. Enquanto o N.Y.Times destaca o fato de Khalid Mohammed estar confinado na prisão militar de Guantánamo e de que ele teria assumido a autoria de outros 30 ataques, o L.A. Times reforça o paralelo estabelecido pelo prisioneiro entre os fundamentalistas islâmicos e os revolucionários que criaram os EUA em 1776:



- L.A. TIMES: Khalid Shaikh Mohammed confessa a militares em Guantánamo ter planejado o atentado de 11 de Setembro (Em seu depoimento ele compara a Al-Qaeda aos que lutaram na Guerra da Independência dos EUA no século XVIII)

- N.Y. TIMES: Transcrições de depoimento
do suspeito de planejar os ataques de 11 de Setembro: Khalid Shaikh Mohammed confessa autoria do atentado terrorista a uma auditoria militar na base de Guantánamo, em Cuba.

- WASHINGTON POST: Principal suspeito de arquitetar os atentados de 11 de Setembro confessa em Guantánamo

- USA TODAY: Prisioneiro confessa em Guantánamo ter sido a mente por detrás dos atentados de 11 de Setembro (Transcrição do depoimento de Khalid Sheikh Mohammed aos militares mostra que ele bolou de A a Z a destruição das torres gêmeas do WTC)

- NY DAILY NEWS: Massacre no Village: Atirador mata bartender e dois policiais até ser morto pela polícia.

quarta-feira, março 14, 2007

Manchetes de Quarta-Feira

Uma corrida pelos principais jornais da vizinhança e, no detalhe, a primeira página do Washington Post, que, assim como o L.A. Times e o N.Y. Times, dá destaque ao escândalo envolvendo o advogado-geral da União, Alberto Gonzales.

Doutor Gonzales, que durante anos foi o advogado particular do presidente Bush, teria comandado as pressões da Casa Branca para a demissão de vários procuradores federais em todo o país. Estes estariam incomodando o governo ao investigar políticos ligados ao Partido Republicano. Os senadores Charles Schummer e Hillary Clinton, democratas de Nova Iorque, exigiram, do Capitólio, a renúncia de Gonzales, o primeiro hispânico a ocupar o cargo na história dos EUA:



- N.Y. TIMES: Gonzales admite que 'erros foram cometidos nas demissões dos procuradores federais'

- WASHINGTON POST: Gonzales: 'Cometemos Alguns Erros' (Casa Branca acha complicada a situação do advogado-geral da União)

- L.A. TIMES: Pressão Total no advogad-geral Gonzales (e-mails mostram detalhadamente a pressão que os procuradores federais sofreram da Casa Branca)

- USA TODAY: John Edwards poderá vencer com uma mensagem 'nós contra eles'? (o desafio da mensagem populista do democrata)

- NY DAILY NEWS: Policial alvejado em tiroteio no Harlem

terça-feira, março 13, 2007

Manchetes de Terça-Feira

Uma corrida pelos principais jornais da vizinhança e, no detalhe, a primeira página do NY Daily News, com o emocionado enterro das 8 vítimas do incêndio da semana passada no Bronx:





- NY DAILY NEWS: 'Rezemos para que isso não aconteça novamente', diz o prefeito Bloomberg no funeral das vítimas do fogo no Bronx.

- N.Y. TIMES: Demissão dos Procuradores foi planejada na Casa Branca

- WASHINGTON POST: Demissões de Procuradores teve origem na Casa Branca

- L.A. TIMES: Seca na Califórnia é tão intensa que não chove nem em Março (um dos meses mais chuvosos)

- USA TODAY: General Petraeus: A guerrilha de Al-Sadr está sendo duramente combatida (com 700 combatentes encarcerados, Mahdi reduz ataques a soldados norte-americanos)

RESENHA/ARCADE FIRE - Neon Bible (2007)



A revista Bizz que está nas bancas saiu com minha resenha de um disco sensacional, o novo do Arcade Fire, Neon Bible. Este mês os canadenses foram tema de duas belas reportagens por aqui, na New Yorker e na revista dominical do The New York Times, na semana em que se apresentaram em Manhattan, dentro de uma igreja gótica. Não consegui ir aos shows mas o disco não sai da vitrola aqui de casa.

Arcade Fire – Neon Bible (Merge Records, importado)


Cotação Máxima: 5 estrelas



Nem vem que não tem. Neon Bible, o CD que o Arcade Fire lança em março na zona norte do mundo não é um novo Funeral, quiçá o lançamento mais importante de 2004 na seara do indie rock. E a constatação aqui, é um elogio.

Antes de fundar a banda com sua mulher Régine Chassagne, Butler passou anos estudando as Escrituras. Pois o Evangelho segundo o Arcade Fire está muito mais para o Apocalipse do que os Atos dos Apóstolos. O único milagre, aqui, é passar incólume pela explosão da música do quinteto canadense. Logo no Gêneses de sua bíblia pós-moderna os canadenses nos transportam para um universo muito mais sombrio do que o do primeiro trabalho da banda. “Espelho, espelho na parede/ Revele-me aonde as bombas cairão”, roga Win Butler, voz frágil, na acachapante Black Mirror, prova de que a estética Bowie-Berlim está mais viva do que nunca.

As cordas, os coros, o namoro com o barroco, as harmonias complexas poderiam funcionar, para um ouvido mais apressado, como ponto de ligação óbvio entre os dois discos. Mas, aqui, a fantasia dói mais, justamente por ter-se materializado de forma tão crua. Neon Bible insiste em nos mostrar que o pesadelo é aqui e agora. E para tanto aumentou-se o peso da percussão do primeiro-irmão William Butler e do baixo de Régine. Sim, depois do funeral, só nos resta o rock’n’roll.

Nas 11 faixas de Neon Bible há referências claras a Bruce Springsteen (ouça Keep The Car Running, com a hipnótica repetição do titulo da faixa, Windowswill e, especialmente, a linda Antichrist Television Blues); uma canção anti-guerra toda calcada em uma belíssima introdução feita em órgão de igreja (Intervention, dos versos ‘Não quero lutar/Não quero morrer/Apenas quero ouvir o seu lamúrio’), a delicada Ocean of Noise, que quase alcança o lirismo da valsa Crown of Love, de Funeral; e a confessional My Body is a Cage, em que Butler nos assegura: ‘Vivo em uma era/ Cujo o nome eu desconheço/E embora o medo me mantenha em movimento/Meu coração bate cada vez mais lentamente’.

Com sua beleza melancólica, este é um disco para se ouvir repetidas vezes, bem alto, aos berros, sem pausa, como se o ouvinte tivesse todo o tempo do mundo para, de fato, se entregar ao êxtase proposto pelo Arcade Fire. O ano começou muitíssimo bem. (Eduardo Graça)

segunda-feira, março 12, 2007

Manchetes de Segunda

Uma corrida pelos principais jornais da vizinhança e, no detalhe, a primeira página do USA Today, destacando a corrida presidencial mais aberta de todos os tempos:




- USA TODAY: A Corrida Presidencial de 2008 tem a cara de uma América em mutação (pesquisas mostram eleitores mais abertos do que nunca a candidatos menos convencionais)

- N.Y. TIMES: Décadas de conflitos e perda de esperança marcam vidas de jovens palestinos

- WASHINGTON POST: Terroristas - cada vez mais difícil encontrar um perfil-padrão (oficiais europeus dizem que extremistas islâmicos não apresetam

- L.A. TIMES: Militares apresentam planos para retirada gradual do Iraque

Chiclete Com Banana



Só deu Gilberto Gil ontem no caderno dominical de Artes do NYT. Matéria de capa, página inteira, com o Larry Rother (pois é) tratando 'da grande anomalia da pop music contemporânea': o político-compositor. O pretexto são as três semanas da turnê norte-americana do Ministro da Cultura, que começa nesta quarta-feira com uma palestra no South by Southwest, em Austin, Texas, o festival de rock independente mais interessante destas bandas. Aqui em NYC Gil se apresenta no dia 20, no Carnegie Hall.

A reportagem, com o título 'Gil Hears The Future' apresenta doutor Gilberto, 64 anos, primeiro negro a assumir uma cadeira no primeiro escalão do governo federal, como figura central nas discussões sobre as novas formas de distribuição da música depois da explosão digital. "Acredito que a cultura digital carrega consigo uma nova noção de propriedade intelectual. E esta nova cultura de trocas pode e deve ser um fator importante para a formulação das políticas públicas para o setor", diz Gil.

Há ainda espaço para se destacar a aliança de Gil com o Creative Commons, o programa Pontos Culturais, o aspecto visionário do Tropicalismo (que remixava e sampleava muito antes da explosão da música eletrônica) e a crítica à chamada World Music ("e seus safaris culturais, comandados por aventureiros em Land Rovers procurando por espécimes exóticos").

Diz Gil:

"Estou em um ponto de minha vida em que não quero mais ter comprometimento algum com minha carreira, no sentido estrito da profissão. Eu já não vejo mais a música como um campo a ser explorado. Eu a vejo como uma área alternativa de ação, parte de um imenso repertório de possibilidades à minha disposição. Música é algo visceral em mim e ainda que não esteja pensando sobre ela, ainda estarei fazendo música, sempre".

domingo, março 11, 2007

Manchetes de Domingo

Uma corrida pelos principais jornais da vizinhança e, no detalhe, a primeira página do NYT, com o encontro de dois líderes da comunidade muçulmana de NY, representando, respectivamente, os imigrantes árabes de Long Island e os negros do Harlem:




- N.Y. TIMES: Uma Complicada Aliança - negros e árabes buscam o entendimento (duas das maiores comunidades de muçulmanos em Nova Iorque tentam se unir contra a discriminação que aumentou muito desde os ataques do 11 de setembro)

- WASHINGTON POST: Aprovado o reforço de tropas (Bush anuncia o envio de mais 8.200 soldados para o Iraque e Afeganistão)

- L.A. TIMES: Conferência no Iraque não melhora relações entre Irã e Estados Unidos (Iraque pede que vizinhos não interfiram nos negócios internos do país, enquanto EUA e Irã trocam acusações)

- NY DAILY NEWS: O Suspiro Final (imigrante de Mali perde mais uma filha, de seis anos, que morre no hospital por conta das queimaduras causadas pelo incêndio de prédio no Bron nesta quarta-feira)

sábado, março 10, 2007

Ru Paul? Really?



Ontem eu e M.Morrisey fomos aqui no cinema da esquina conferir 300, a adaptação dos quadrinhos de Frank Miller para a tela.

A história dos 300 de Esparta comandados pelo rei Leônidas na Batalha das Termópilas contra o poderoso exército de Xerxes foi destruída impiedosamente pela crítica local. No papel do imperador persa, Rodrigo Santoro, visual andrógino. Madame DeMello já havia me contado que no Brasil bons amigos andaram avisando ao global que é hora de parar de 'fazer boiolas no cinema'. De quinta.

Mas pior foi o Village Voice, que mandou esta: "Na pele do imperador Xerxes, Santoro parece assustadoramente como um gigantesco Ru Paul".



Ninguém merece. Nem Xerxes, nem Rodrigo, nem Ru Paul. Não deixem de perder o filme.

Manchetes de Sábado

Uma corrida pelos principais jornais da vizinhança e, no detalhe, a primeira página do Los Angeles Times, com o abraço de urso de Bush em Lula em S.Paulo:




- N.Y. TIMES: Bush e Chavez se enfrentam à distância na América Latina(no Brasil, presidente diz que ajuda norte-americana criará empregos na região)

- NY DAILY NEWS: Unidos na Dor (Pais conversam sobre a dor de perder os filhos no incêndio no Bronx)

- WASHINGTON POST: Auditoria sobre o FBI leva à pedido de reforma (alguns congressistas sugerem mudanças no Patriot Act)

- L.A. TIMES: Democratas impõem novo foco no debate sobre o Iraque (líderes do partido no Congresso chegam à conclusão sobre retirada das tropas - outono de 2008)

- USA TODAY: Bush - "FBI está revendo seus métodos de investigação"

sexta-feira, março 09, 2007

Escravos do Etanol

A esquerda norte-americana está descendo o sarrafo na possibilidade de uma parceria entre Washington e Brasília na produção de bio-combustíveis. O que mais os incomoda é a destruição da vegetação original e a poluição causadas pelo pantio e aproveitamento total da cana-de-açúcar.

Enquanto isso, o The Guardian atacou outra frente e publicou hoje reportagem de página inteira de Tom Phillips com o título ESCRAVOS DO ETANOL sobre as condições horrendas de trabalho em Palmares Paulista, no interior de S.Paulo.

Fala do 'outro lado' da revolução energética celebrada pelo governo Lula, usa termos como 'catástrofe social' e detalha a exploração da mão-de-obra dos cerca de 200 mil cortadores de cana do estado de S.Paulo, que ganham menos do que R$ 400/mês por um trabalho duro e arriscado. Também traz denúncias da Pastoral do Migrante dando conta que 17 trabalhadores morreram nos últimos dois anos devido à exaustão e falta de assistência. A reportagem, apenas em inglês, pode ser lida aqui.

Manchetes de Sexta-Feira

Uma corrida pelos principais jornais da vizinhança e, no detalhe, a primeira página do NYT, com a foto de Mathia Magassa, mãe de cinco das oito crianças mortas no incêndio no Bronx que chocou a cidade.



- N.Y. TIMES: Nove Mortos no Bronx e uma comunidade de luto

- NY DAILY NEWS: Horror no Bronx (o motorista de táxi que não conseguiu salvar a mulher e os filhos no incêndio que chocou a cidade).

- WASHINGTON POST: FBI vai longe demais (investigação da secretaria de Justiça mostra que o FBI anda sonegando informações sobre emails, contas bancárias e telefonemas, que não deveriam permanecer de desconhecimento do público)

- L.A. TIMES: Democratas impõem novo foco no debate sobre o Iraque (líderes do partido no Congresso chegam à conclusão sobre retirada das tropas - outono de 2008)

- USA TODAY: 14 estados anunciam cortes drásticos nos auxílios-saúde de crianças e adolescentes

Protestos no Brasil

A CNN está mostrando a todo momento flashes dos protestos contra Bush no Brasil e na Colômbia. Em sua versão doméstica o canal de notícias diz que:

* quem protesta exige mais investimento do governo norte-americano na América Latina (não se fala em invasão do Iraque)

* há 'suspeitas' de que queo s manifestantes estejam sendo pagos pelo governo venezuelano.

Este é o nível da cobertura televisiva da visita do presidente Bush à América Latina por aqui.

quinta-feira, março 08, 2007

Manchetes de Quinta-Feira

Uma corrida pelos principais jornais da vizinhança e, no detalhe, a primeira página, chocante, do NY Daily News:



- NY DAILY NEWS: Horror no Bronx (oito crianças e uma mulher mortos no pior incêndio na cidade em 17 anos).

- N.Y. TIMES: Resultado do julgamento de Libby não acalma ninguém (esquerda, direita e mercado nervosos)

- WASHINGTON POST: Bush rechaça pressões para dar um perdão oficial a Libby (ato poderia ser arriscado ás vésperas das eleições de 2008)

- >FINANTIAL TIMES/US: A recuperação da moeda japonesa está na pauta do dia no comércio mundial.

- L.A. TIMES: Mãe e filha retornam a Los Angeles, depois de serem envenenadas com tálio radioativo em Moscou.

- USA TODAY: Forças Armadas completamente perdidas no tratamento a vítimas de traumatismo craniano, ferimento mais comum entre os soldados americanos na ocupação do Iraque

segunda-feira, março 05, 2007

A Guatemala de Bush: extermínio, limpeza social e ato de fé


No ano passado o governo Bush jogou pesado para que a Guatemala do presidente Óscar Berger, fiel aliado de Washington, levasse a vaga reservada para a América Latina no Conselho de Segurança da ONU. A justificativa era a de que o outro candidato - a Venezuela de Hugo Chávez, apoiada por Brasil e Argentina - carecia de credenciais democráticas essenciais para se postular o cargo. E que a Guatemala era um exemplo do que os republicanos gostariam de ver in latin american way.

No fim das contas e depois de muito teretetê chegou-se a um candidato 'neutro'. Mas os recordes democráticos do país centro-americano - que viveu de 1960 a 1996 sob uma ditadura sustentada pelos E.U.A. - alardeados pelos neo-cons ficaram engasgados na garganta dos que seguem chocados com as ossadas de militantes oposicionistas descobertas em 2005. Estima-se que mais de 100 mil guatemaltecos tenham sido assassinados nos quase 40 anos de arbítrio.

Pois hoje o NYT traz matéria de capa dando conta de como anda a vibrante democracia centro-americana. O repórter James C. McKinley Jr. escreve uma daquelas histórias tristíssimas, típicas de republiquetas das bananas. Ela começa com três parlamentares salvadorenhos assassinados na Cidade da Guatemala no mês passado. Eles teriam sido confundidos com traficantes de droga colombianos, seqüestrados e executados por quatro policiais locais. Assim que se entregaram, estes foram imediatamente enviados para o presídio de segurança máxima El Boquerón. E quatro dias depois também apareceram mortos.

O governo diz que os policiais foram atacados por presos revoltosos. Mas detentos contam que eles foram assassinados por homens encapuzados, vestindo uniformes militares. Para piorar, há mais de uma reportagem sugerindo que os tais deputados salvadorenhos eram, afinal de contas, parte de uma das mais importantes quadrilhas de tráfico da América Central.

Nos últimos 30 dias o escândalo levou a duas demissões no gabinete Berger e à instalação de uma CPI no Congresso para se investigar a existência de um esquadrão da morte financiado por dinheiro público. A Guatemala conta com pouco mais de 12 milhões de habitantes e cerca de 5 mil homicídios/ano. Destes, apenas 2% resultam em prisões de suspeitos. Estima-se que pelo menos 2/3 da cocaína que entra nos EUA passa pela Guatemala.

Grupos de direitos humanos têm feito um barulho danado por aqui, denunciando que os esquadrões anti-drogas financiados por Washington se transformaram em milícias informais. Estas entraram na luta pelo lucrativo negócio do tráfico sob o manto de 'proteção à população civil'. Um oficial da ONU revelou, sob a condição de permanecer anônimo, que as milícias foram criadas nos últimos três anos por 'gente ligada ao governo' preocupada com o aumento da violência urbana. E, o mais inusitado, seus soldados seriam ligados a igrejas evangélicas que vêem no extermínio de bandidos mais do que 'limpeza social', mas um 'ato de fé'. Com dinheiro ianque, o governo Berger, denuncia o funcionário da ONU, criou um Frankenstein cristão.

É a guerra santa subsituindo a guerra suja em plena América Central.

No meio do furacão, Bush chega à Guatemala na semana que vem, após seu encontro com o presidente Lula. Podia pedir conselho ao petista e levar uma mensagem amiga ao companheiro Berger. No Rio, ao menos até agora, não se ouviu falar de milícia evangélica. Será este o próximo capítulo do descaso com que a ralé é tratada em Pindorama?

Em tempo: o diretor da Human Rights Watch, Dan Wilkinson, diz que a ONG classifica a Guatemala de Berger como 'uma democracia fracassada'.

Chavez, este autoritário, deve estar rindo à toa.

domingo, março 04, 2007

Delicioso Carnaval Fora de Época


E quem disse que não tem ziriguidum no Brooklyn? Acabou de chegar aqui o sensacional podcast produzido por Madame Serra e MdC Suingue, todinho dedicado a preciosidades do Carnaval. É uma trilogia repleta de pérolas do sacolejo tupiniquim mas também caribenho, nothinghílico, orleânico.


Delicioso.

Para quem ainda não conhece, clique logo aqui e escute o Caiprinha Appreciation Society - o C.A.S. para os mais íntimos. Ou assine logo no iTunes. É diversão garantida todas as semanas.

terça-feira, fevereiro 27, 2007

ENTREVISTA/Matt Damon

A entrevista que fiz com Matt Damon acaba de ser publicada no site do UOL:


27/02/2007 - 16h44


Matt Damon conta como foi bom trabalhar com Scorsese em "Os Infiltrados"


Eduardo Graça, colaboração para o UOL


Scorsese dirige Matt Damon


Nova York, BR Press - O ator Matt Damon certamente engrossa o coro dos que comemoram o Oscar recebido pelo diretor Martin Scorsese no domingo, depois de sete indicações sem vitória. O próprio Damon, 36 anos, não recebeu indicações por suas ótimas interpretações no filme de Scorsese, "Os Infiltrados", e em "O Bom Pastor", dirigido por Robert De Niro, que estréia nos cinemas brasileiros no dia 16 de março.

No thriller de Scorsese, em cartaz nos cinemas nacionais, o ator de Boston voltou a sua cidade natal para encarnar Colin Sullivan, um policial que se envolve perigosamente com a máfia irlandesa comandada por Frank Costello, o personagem de Jack Nicholson. Em "O Bom Pastor", ele é Edward Wilson, um dos primeiros agentes recrutados pela recém-nascida CIA. É justamente por meio dos dramas pessoais (que incluem as disputas com a mulher, vivida por Angelina Jolie) de Wilson que De Niro conta a história da mais importante agência de informações do planeta.

Diferentemente dos sombrios personagens que criou em 2006, Damon conversou com afabilidade por duas vezes com a BR Press, nos intervalos das filmagens de "O Ultimato Bourne" (a aguardada seqüência de "A Identidade Bourne"). Em ambas, exibia um sorriso aberto, o humor afiado e a felicidade de quem vive um momento muito especial de sua vida. O ano que passou foi, afinal, o do nascimento de sua primeira filha, Isabella, fruto do casamento com a ex-garçonete argentina Luciana Barroso Bozan. Leia a entrevista a seguir:

Brad Pitt é o produtor de "Os Infiltrados". Foi ele quem o convidou para fazer Colin Sullivan, um personagem bem sinistro e diferente da maioria dos que o público se acostumou a associar a seu perfil de bom moço?

Matt Damon - Sim, foi o Brad quem me ligou e eu imediatamente disse que seria um sonho ser dirigido pelo Marty [apelido do diretor Martin Scorsese]. Estou certo de que esse foi o "sim" mais fácil de minha carreira. Tenho percebido que, em Hollywood, há uma regra quase sem exceção de que, quanto maior o orçamento dos filmes, menos interessante será o leque de personagens. E em "Os Infiltrados" tivemos uma união dos dois lados da moeda que me interessou muito. Eu simplesmente adoro o filme.

Você é famoso por dedicar um tempo muito grande para a pesquisa de seus personagens. Este ano você teve de lidar com dois espiões (em "O Bom Pastor" e "O Ultimato Bourne") e um policial-espião (em "Os Infiltrados"). Não lhe pareceu um pouco repetitivo?


Matt Damon - Nem um pouco! Primeiro porque esses papéis são todos excelentes, cheios de nuances, uma hora você parece mais o mocinho, na outra o bandido. São ótimos exercícios. E depois porque eles eram bem singulares. Em "Os Infiltrados", não tive de me preocupar com a ambientação, com o sotaque, com a geografia da cena. Eu cresci em Boston! Aquela é a minha cidade. Então meus esforços foram os de mergulhar na subcultura dos policiais de South Boston. Eu os acompanhei para cima e para baixo e cheguei a participar de uma prisão em massa de traficantes de crack. Já O Bom Pastor foi um estudo intenso de todos os quilos de documentos e biografias relacionados à criação e aos primeiros anos da CIA, até a crise da Baía dos Porcos, em 1961. Conversei com alguns dos fundadores da agência e seus familiares, entrevistei-os e eles foram muito, muito, mas muito pacientes. Agora, o mais importante em "O Bom Pastor", é claro, foi contar com Bob (Robert De Niro).

Ele é extremamente cuidadoso com os atores, não é?

Matt Damon - Basicamente, durante toda a filmagem, ele ficava sentado, digamos, aí aonde você está (de frente para o ator), perto mesmo, ao lado da câmara, observando detalhadamente cada cena. Cada detalhe, cada mínimo ajuste eram de uma importância sem fim para ele. E isso me ajudou muito. Posso dizer que jamais me senti tão seguro em cena. Até porque você tem ali ao seu lado um dos maiores atores de todos os tempos, acompanhando cada passo de sua performance. E não foi nada intimidador, ele usou todo seu poder, sua presença, para me ajudar, me encorajar mesmo.

Você trabalhou este ano com dois ícones do cinema americano contemporâneo, De Niro e Scorsese. Eles têm estilos muito diversos de trabalho?

Matt Damon - Sim, eles são muito diferentes. Bob é, acima de tudo, um ator que dirige. E não quero dizer que o Marty não seja um tremendo diretor de atores. Aliás, esta é a maior semelhança entre os dois -- pensam muito no bem-estar e em como os atores estão se sentindo em cada cena. Ao mesmo tempo eles pensam no filme a partir de seus protagonistas, de como cada personagem vê o todo. Agora, Marty já chega no set com a cena pronta em sua cabeça do ponto de vista de quem dirige, do movimento de câmara, de quem sabe exatamente como a tecnologia pode funcionar a seu favor. Ele traz uma experiência que poucos no cinema contemporâneo têm. Talvez Spielberg, Sorderbergh e Coppolla consigam fazer o que Marty alcança, sem precisar antes conversar horas com o responsável pela fotografia. Está na cabeça deles.

Seus personagens nos dois filmes são seres atormentados por um passado que parece os assombrar o todo tempo. E você, em contrapartida, vive um momento extremamente feliz em sua vida particular. Foi complicado criar esses personagens sombrios enquanto sua vida ia de vento em popa?

Matt Damon - Sim, foi inegavelmente o melhor ano de toda a minha vida. E fazer Collin e Edward foi um desafio no sentido de que teria de esconder qualquer traço de felicidade dos personagens. Mas, sabe, estou lá atuando, fazendo o que faço de melhor, não penso mais, a esta altura de minha trajetória, nos riscos de contaminar os meus personagens com minha vida pessoal. E há tantas coisas terríveis no mundo que podem inspirar você na hora de criar estes homens atormentados, não é?

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Saudades de Rubens Ewald Filho...


Sabe aquela overdose de batuque, mulatas gostosonas, caretas safadas e outros telecotecos afins? Se escapo anualmente da ressaca carnavalesca, enfrento cada vez mais a fatiga do Oscar.

Por aqui tevê, as ruas, os comentaristas no rádio, entre janeiro e a primeira semana de março, só falaram dos filmes, das roupas, dos subtextos políticos da festa de premiação da Academia de Hollywood, que vem se transformando em algo como uma espécie de Natal exclusivamente comercial, voltado para adultos com síndrome de Peter Pan (ou seja, quase todos nós).

Haja saco! Ainda mais sem poder contar com os comentários de Ruben Ewald Filho, autor do indispensável O Oscar E Eu, sempre antenado com o que realmente interessa.

Minha amiga Mme. DeMello, companheira de muitas noites incansáveis (e, no Brasil, com o fuso, a embromação avança madrugada adentro!), nariz grudado na telinha, acaba de mandar algumas pérolas, safra 2007, de nosso guru da Baixada Santista:

* Helen Mirren que se cuide! Existe uma síndrome do divórcio pós-Oscar. Foi assim com a que fez Menina de Ouro, com a Reese Whiterspoon... Se bem que só agora a Helen se casou com o Taylor Hackfort. Ela é muito liberal. Fez aquele filme... ai, não me lembro o nome agora.... com Peter O'Toole... Ah, Calígula!!!! Ela aparecia nua em Calígula, porque é liberal!

* Ela está com uma roupa de oncinha? A mulher do John Travolta está com roupa de oncinha????!!!!!

* Pode ser ainda que o Clint Eastwood engula o Scorcese. Pelo menos na altura, já que ele tem quase dois metros de altura e o Scorcese é pequenininho.

* Custei a reconhecer a Reese Whiterspoon. Cadê o queixo? O queixo dela chega antes.

* E a melhor, sobre a coitada da Penelope Cruz: "Não posso me conter: esta moça está muito sem graça! Muito mal arrumada, mal vestida! Isso não é roupa de vencedora de Oscar. Ela não está à altura de uma Sophia Loren... Uma cara de passarinho... Bem, ela só está aí porque namorou Tom Cruise, claro!

Só mesmo um Oscar para me lembrar a falta que Rubens Ewald nos faz!

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Aqui do Brooklyn, o melhor da festa de ontem foram mesmo os prêmios dados aos veteranos Alan Arkin e Martin Scorsese. Convenhamos, tanto a American-Idol-eliminada-que-virou-estrela-de-cinema quanto o último rei da Escócia com seus discursos da retomada do sonho americano me fizeram cochilar no sofá de casa.

Agora, disparado, a melhor tirada da (pós)festa foi mesmo a de Melissa Etheridge, cansada de guerra, que desbancou as três indicações do musical Dreamgirls e abocanhou a estatueta de melhor música do ano em filmes:

- Este careca é único homem pelado que entra lá em casa.

Dona Melissa também fez questão de dedicar a vitória à sua digníssima esposa.

Bem, o ano, por aqui, também começou hoje. Com neve caindo do lado de fora e música boa na vitrola.