sexta-feira, maio 20, 2005

Diretinho da Redação (15)



Na semana passada comecei a reproduzir aqui o texto do escritor alemão Günter Grass, uma reflexão publicada no The New York Times sobre os 60 anos de democracia na Alemanha pós-Hitler. Grass trata da crise da representação parlamentar, do esgotamento da classe política e principalmente da derrocada do ideal democrático frente a um novo tipo de totalitarismo - o absolutismo do mercado. Segue aqui a segunda parte do texto, não menos contundente:

· "Hoje há quase um 'consenso' de que o preço a pagar para se 'viver em liberdade' é o da diminuição do emprego direto, dentro desta lógica perversa da tal globalização. Aqui na Alemanha, o aumento do lucro do setor industrial e o incremento nas exportações não significa mais o incremento de postos de trabalho. A esperança de ter toda a sociedade alemã empregada desmanchou-se no ar. E tudo é visto como se ordenado por Deus, 'como tinha de ser'.

· Aqueles que ousam apontar para o crime de se condenar uma parte da população ao 'esquecimento social' são ridicularizados por jovens jornalistas. Estes os chamam de 'românticos sociais' ou 'bonzinhos'. Dúvidas sobre os motivos reais para o aumento do fosso cada vez maior que separa ricos de pobres são ignoradas a título de se evitar o retorno de uma 'política do ódio'. O desejo por Justiça é considerado ridículo e utópico. O conceito de solidariedade é relegado à lista de palavras estrangeiras no dicionário.

· Embora nós não soubéssemos inicialmente o que fazer com a liberdade que nos foi dada de bandeja, nós fomos aprendendo gradualmente a lidar com a tal da democracia. A geração de 68 nos ofereceu, ao mesmo tempo, um diferente tipo de liderança política e uma clara noção de tolerância. Também descobrimos que nosso passado, nosa herança alemã, estará sempre presente para nos assombrar, passada de avô para pai, de pai para filho. Pense nos neo-nazistas, que, volta e meia, nos presentearam, nestes 60 anos, com o espelho do desrespeito. Ainda assim, nós sentíamos que a democracia tinha chegado aqui para ficar.

· Tarde, talvez tarde demais, nós viemos a reconhecer que a ameaça à nação alemã, o que deveríamos chamar de inimigo público número 1, não vem do radicalismo conservador de direita, mas da impotência de toda a nossa classe política, que deixa centenas de cidadãos desprotegidos frente às ordens da economia. O que está sendo destruído, diariamente, na Alemanha, não é o Estado, mas a Democracia.

· Hoje nós podemos apenas ter a esperança de que poderemos lidar com o novo risco de totalitarismo, sustentado pela última ideologia viva no mundo globalizado. No papel de democratas conscientes nós deveríamos resistir ao poder do mercado e lutar pela liberdade mais uma vez perdida. A ideologia vigente enxerga o homem como pouco mais do que alguma coisa que consume e produz. E só. Estes que encaram a liberdade com que foram presenteados seis décadas astrás como se esta fosse um investimento na bolsa de valores não entenderam absolutamente nada do que o Dia 8 de Maio de 1945 nos ensina ano após ano."

sexta-feira, maio 13, 2005

Riot On The Radio!!!


Ontem fomos ao show do The Dead 60's - o nome é ótimo! - no Northsix, um clube aqui de Williamsburg. Eles são quatro meninos de Liverpool que ouviram Clash até dizer chega e fazem parte de uma cena que também inclui o The Coral e o The Zutons. No ano passado eles abriram os shows da turnê inglesa do Morrisey e este ano vão fazer o abre-alas da nova sensação aqui do Brooklyn, o The Bravery.

Riot On The Radio!!! (1)


O The Dead 60's ainda não têm CD na praça e está fazendo a primeira excursão aqui pela Costa Leste. O show foi delicioso e duas de suas músicas não saem do meu iPod: You're Not The Law e, principalmente, Riot On The Radio. As letras são legais - nada de fantástico - mas o que chama mesmo a atenção são, pela ordem, a guitarra de Ben Gordon e a voz e as melodias criadas por Matt McManamon. Assim como Matt, o baixista Charlie Turner é de Penny Lane, onde o culto aos Beatles e à mítica dos anos 60 é mais do que exacerbado. Daí para The Dead 60's foi um pulo. E tome Clash, Specials e muito ska e dub. Só não dançou quem não quis.

quinta-feira, maio 12, 2005

Diretinho da Redação (14)


O texto abaixo pode ser lido em www.diretodaredacao.com

Lá se foram 60 anos da rendição dos nazistas às tropas aliadas. Enquanto Putin e Bush mediam suas diferenças em Moscou, da cidade de Leipzig, o grande escritor embalava seu libelo. Leipzig foi palco das maiores manifestações pela democracia e contra o regime comunista da Alemanha Oriental em 1989. Lá vive o prêmio Nobel de literatura Günter Grass, autor do texto publicado neste sábado no "The New York Times", que fala muito do mundo em que vivemos, hoje, aqui em Nova Iorque, lá em Leipzig, aí no Brasil. Reproduzo, abaixo, alguns dos trechos mais interessantes do artigo. Semana que vem espero incluir a segunda parte. Aqui, Grass trata da crise da representação política no mundo de hoje - qualquer semelhança com o "severínico" Congresso Nacional não é mera coincidência - e da dificuldade de se lidar com uma liberdade que nos é oferecida e não conquistada.

· "Quando o dia 8 de maio chega eu fico sempre pensando nas celebrações do 'Dia da Libertação', com seus discursos burocráticos e pomposos e me pergunto 'Do que nós, alemães, podemos nos orgulhar?' A primeira resposta é a de termos conseguido, de fato, nos libertar, embora esta liberdade nos tenha sido dada de presente, nos tenha sido empurrada goela abaixo. Não lutamos por ela.

· A questão hoje, então, é a de se pensar se nós realmente usamos bem esta liberdade que nós não conquistamos, mas que nos foi dada? Será que os cidadãos da Alemanha Ocidental compensaram da maneira devida os alemães orientais, que, no fim das contas, foram os que pagaram mais caro pela guerra iniciada e perdida por todos os alemães? E será que nossa democracia parlamentar tem soberania suficiente para garantir a liberdade de se enfrentar os problemas que nos afligem no século XXI?

· Quinze anos depois da unificação, os cidadãos da antiga Alemanha Oriental são considerados pessoas de segunda-classe. O índice de desemprego é duas vezes mais alto no lado leste e não há o mínimo respeito no lado ocidental por um curriculum de trabalhadores que passaramboa parte de sua vida do outro lado do país. Somos um país de 15 milhões de desempregados. A emigração é diária e cidades inteiras estão sendo apagadas da história, esvaziadas da noite para o dia. Depois de comandarem a privatização das empresas estatais do lado oriental, com as barganhas que estes processos sempre incluem, empresários e bancários pararam de investir nesta área do país e os empregos desapareceram. A única saída possível está no Parlamento, que representam a sociedade.

· Mas será que nossos congressistas, eleitos democraticamente, são livres para decidir algum coisa, qualquer coisa que seja? Na Alemanha, mais do que a ideologia dos partidos políticos, grassa o reino dos lobistas, com seus múltiplos interesses, cerceando a atuação dos parlamentares. Conseqüentemente, nosso Parlamento não é soberano em suas decisões. Ele é guiado vergonhosamente por bancos e corporações nacionais - que, por sua vez, não são submetidos a nenhum controle democrático.

· O que nós mais precisamos é de um democrático desejo de se protejer o Parlamento contra as pressões de lobistas que querem mantê-lo inacessível às pressões populares. Mas nossos políticos são suficientemente 'libertos' para optarem por um ato radicalmente, verdadeiramente democrático? Ou nossa liberdade, hoje, 60 anos depois, vale menos do que o lucro acumulado diariamente na bolsa de valores?"

domingo, maio 08, 2005

Günter Grass

Neste fim de semana o genial escritor alemão Günter Grass – Nobel de Literatura, safra 1999 – publicou um artigo no The New York Times que merece ser lido. Um dos analistas mais exatos do século que passou, Grass parte dos 60 anos de rendição do Reich nazista, que serão completos amanhã, para discutir a fragilidade das democracias modernas e de seu sistema representativo. Vale a leitura, infelizmente, apenas no inglês, aqui embaixo ou no http://www.nytimes.com, para leitores cadastrados.

The Gravest Generation
By GÜNTER GRASS


Lübeck, Germany - Tomorrow, it will be 60 years to the day since the German Reich's unconditional surrender. That is equivalent to a working life with a pension to look forward to. It goes so far back that memory, that wide-meshed sieve, is in danger of forgetting it.
Sixty years ago, after being wounded in the chaotic retreat in Lausitz, I lay in a hospital with a flesh wound in my right thigh and a bean-sized shell splinter in my right shoulder. The hospital was in Marienbad, a military hospital town that had been occupied by American soldiers a few days earlier, at the same time as Soviet forces were occupying the neighboring town of Karlsbad. In Marienbad, on May 8, I was a naïve 17-year-old who had believed in the ultimate victory right to the end. Those who had survived the mass murder in the German concentration camps could regard themselves as liberated, although they were in no physical condition to enjoy their freedom. But for me it was not the hour of liberation; rather, I was beset by the empty feeling of humiliation following total defeat.


When May 8 comes round again and is celebrated in complacent official speeches as liberation day, this can only be in hindsight, especially as we Germans did little if anything for our liberation. In the initial postwar years our lives were determined by hunger and cold, the misery of refugees, the displaced and bombed-out. In all four zones occupied by the wartime allies - Britain, France, the Soviet Union and the United States - the only way to manage the ever increasing crush of the more than 12 million Germans who had fled from, or been driven out of, East and West Prussia, Pomerania, Silesia and the Sudetenland, was to force them into our own cramped living rooms.

Whenever the question is posed, "What can we Germans be proud of?", the first thing we should mention is this essential achievement - even though it was forced on us. We had hardly become used to freedom when compulsion had to be applied. As a result, in both German states, huge long-term camps for refugees and displaced persons were avoided. The risk of building up feelings of hate was thereby diverted, as was the desire for revenge engendered by years of camp life, which, as today's world shows, can result in terrorism and counterterrorism.

Even then there were spokesmen for the rhetoric of liberation. So many self-appointed anti-fascists suddenly set the tone, so much so that one was entitled to ask: how had Hitler been able to make headway against such strong resistance? Dirty linen was quickly washed clean, with people being absolved of all responsibility. Counterfeiters were busy coining new expressions and putting them into circulation. "Unconditional surrender" was changed to "collapse." Although in business, law and in the rapidly re-emerging schools and universities, even the diplomatic service, many former National Socialists maintained their hereditary wealth, stayed in office, continued to hold onto their university chairs and eventually continued their careers in politics, it was claimed that we were starting from "zero hour" or square one.

A particularly infamous distortion of facts can be seen even today in speeches and publications, with the crimes perpetrated by Germans described as "misdeeds perpetrated in the name of the German people." In addition, language was used in two different ways to herald the future division of the country. In the Soviet-occupied zone, the Red Army had liberated Germany from the fascist terror all by itself; in the Western occupied zones, the honor of having freed not only Germany but the whole of Europe from Nazi domination was shared exclusively by the Americans, the British and the French.

In the cold war that quickly followed, German states that had existed since 1949 consistently fell to one or other power bloc, whereupon the governments of both national entities sought to present themselves as model pupils of their respective dominating powers. Forty years later, during the glasnost period, it was in fact the Soviet Union that broke up the Democratic Republic, which had by that point become a burden. The Federal Republic's almost unconditional subservience to the United States was broken for the first time when the Social Democratic-Green ruling coalition decided to make use of the freedom given to us in sovereign terms 60 years ago, by refusing to allow German soldiers to participate in the Iraq war.

THE question today, then, is have we dealt carefully with the freedom that we did not win, but was given to us? Have the citizens of West Germany properly compensated the citizens of the former Democratic Republic, who, after all, had to bear the main burden of the war begun and lost by all Germans? And a further question: is our parliamentary democracy still sufficiently sovereign as a guarantor of freedom of action to act on the problems facing us in the 21st century?

Fifteen years after signing the treaty on unification, we can no longer conceal that despite the financial achievements, German unity has essentially been a failure. Petty calculation prevented the government of the time from submitting to the citizens of both states a new constitution relevant to the endeavors of Germany as a whole. It is therefore hardly surprising that people in the former East Germany should regard themselves as second-class Germans.

The jobless rate is twice as high as in the former West Germany. West German arrogance had no respect for people with East German résumés. The mass migration, feared from the beginning, is happening now, daily. Whole areas of the country, its cities and its villages, are being emptied. After the Treuhandanstalt, the entity responsible for privatizing East Germany, had completed its bargain sales, West German industry and banks withheld the necessary investment and loans and, consequently, no jobs were created. Here, fine exhortations have been of little use. To right this skewed situation, only Parliament, the lawmakers, can help. Which brings us back to the question of whether parliamentary democracy is able to act.

Now, I believe that our freely elected members of Parliament are no longer free to decide. The customary party pressures are not particularly present in Germany; it is, rather, the ring of lobbyists with their multifarious interests that constricts and influences the Federal Parliament and its democratically elected members, placing them under pressure and forcing them into disharmony, even when framing and deciding the content of laws. Consequently, Parliament is no longer sovereign in its decisions. It is steered by the banks and multinational corporations - which are not subject to any democratic control.

What's needed is a democratic desire to protect Parliament against the pressures of the lobbyists by making it inviolable. But are our parliamentarians still sufficiently free to make a decision that would bring radical democratic constraint? Or is our freedom now no more than a stock market profit?

We all are witnesses to the fact that production is being demolished worldwide, that so-called hostile and friendly takeovers are destroying thousands of jobs, that the mere announcement of measures like the dismissal of workers and employees makes share prices rise, and this is regarded unthinkingly as the price to be paid for "living in freedom."

The consequences of this development disguised as globalization are clearly coming to light and can be read from the statistics. With the consistently high number of jobless, which in Germany has now reached five million, and the equally constant refusal of industry to create jobs, despite demonstrably higher earnings, especially from exports, the hope of full employment has evaporated.

Older employees, who still had years of work left in them, are pushed into early retirement. Young people are denied the skills for entering the world of work. Even worse, with complaints that an aging population is a threat and simultaneous demands, repeated parrot-fashion, to do more for young people and education, the Federal Republic - still a rich country - is permitting, to a shameful extent, the growth of what is called "child poverty."
All this is now accepted as if divinely ordained, accompanied at most by the customary national grumbles. Worse, those who point to this state of affairs and to the people forced into social oblivion are at best ridiculed by slick young journalists as "social romantics," but usually vilified as "do-gooders." Questions about the reasons for the growing gap between rich and poor are dismissed as "the politics of envy." The desire for justice is ridiculed as utopian. The concept of "solidarity" is relegated to the dictionary's list of foreign words.
THOUGH we initially did not know what to do with our freedom when we were given it 60 years ago, we gradually made use of this gift. We learned democracy and in doing so proved star pupils, because after all we were incontrovertibly German. With the benefit of hindsight, what was crammed into us through lectures was enough to get us a reasonable end-of-term report. We learned the interplay between government and opposition, whereupon long periods of government ultimately proved arid. The much lauded and reviled generation of '68 produced a different kind of political leaders and ultimately also tolerance. We had to acknowledge that our burdens could not be cast aside, they are passed by parents to children and that our German past, however much we travel and export, comes back to haunt us. Neo-Nazis repeatedly brought us into disrepute. Even so, we felt that democracy was here to stay.

It had to withstand several challenges. After the debris had been cleared and disposed of in both German states, reconstruction in the East proceeded under the constraints of the Stalinist system; but in the West, it took place under favorable conditions. What retrospectively is called the "economic miracle" was not, however, the result of any individual achievement but was won by many. Included in that number are displaced persons and refugees, those who had in fact to start at square one in terms of material possessions. We must not forget the contribution of foreign workers, initially politely called "guest workers." In the rebuilding phase businessmen were exemplary in investing every penny of profit into job creation. The trade unions and businesses were clearly aware of the decay of the Weimar Republic, so they were forced to compromise and ensure social equality.

With so much toil and profit-chasing, however, the past was in danger of being forgotten. Only in the 60's did we meet the second challenge, when writers and then the student protest movement began to ask questions about everything that the war generation would sooner forget. The protest movement strove for revolution but was paid off with reform; without it, we would still be living in the claustrophobic fog of the postwar years under Adenauer.
The third challenge arose when the Berlin Wall fell. The two German states had existed for four decades more against than beside each other. As there was no willingness on the Western side to offer equal rights to the East, the unity of the country has so far existed only on paper. It was all done too hastily and without an understanding of what far-reaching consequences this haste would have.

Since then, the expanded country has stagnated. Neither the Kohl government nor the Schröder government succeeded in correcting the initial errors. Lately, perhaps too late, we have come to recognize that the threat to the state, or what should be regarded as Public Enemy No. 1, comes not from right-wing radicalism but rather, from the impotence of politics, which leaves citizens exposed and unprotected from the dictates of the economy. What is being destroyed, then, is not the state, which survives, but democracy.

When the German Reich unconditionally surrendered 60 years ago, a system of power and terror was thereby defeated. This system, which had caused fear throughout Europe for 12 years, still casts its shadow today. We Germans have repeatedly faced up to this inherited shame and have been forced to do so if we hesitated. The memory of the suffering that we caused others and ourselves has been kept alive through the generations. Compared with other nations which have to live with shame acquired elsewhere - I'm thinking of Japan, Turkey, the former European colonial powers - we have not shaken off the burden of our past. It will remain part of our history as a challenge.

We can only hope we will be able to cope with today's risk of a new totalitarianism, backed as it is by the world's last remaining ideology. As conscious democrats, we should freely resist the power of capital, which sees mankind as nothing more than something which consumes and produces. Those who treat their donated freedom as a stock market profit have failed to understand what May 8 teaches us every year.






Diretinho da Redação (13)


A Sua Língua Portuguesa na O.N.U.? Babau, Seu Nicolau!

A personagem de Nicole Kidman no filme A Intérprete, em cartaz nos Estados Unidos e no Brasil, não poderia ser uma tradutora de português locada na sede da O.N.U., aqui em Nova Iorque. Quem me diz isso é Sebastião Coelho, da Missão Portuguesa na Organização das Nações Unidas, com quem conversei esta semana. Eleito pela segunda vez vice-presidente do Comitê de Informação, Coelho é um dos mais aguerridos defensores da inclusão da língua portuguesa como uma das oficiais da insituição. No momento, elas são seis - inglês, espanhol, francês, chinês, árabe e russo.

É claro que imediatamente se observa que outras línguas como o alemão e o japonês, por exemplo, não desfrutam do mesmo status das acima mencionadas, mas é o português que vem se destacando, me garante Coelho, nos últimos anos. "A inclusão da nossa língua como uma das oficiais da instituição está relacionada, é claro, com a posição do Brasil no cenário mundial e com sua ambição de se tornar membro permanente do Conselho de Segurança da ONU", diz.

A reeleição de Coelho tem grande importância para este pleito pois o Comitê de Informação é o único órgão apto a discutir o uso das diversas línguas faladas pelos membros da entidade. Uma de suas metas é criar um comitê regional dedicado à disseminação do português entre os países-membros da O.N.U, com sede em Luanda, Angola. No momento o português é a única língua não-oficial que mantém um serviço diário e uma página na internet dentro dos domínios da ONU, com uma abnegada equipe formada por três brasileiros e um cabo-verdiano. "Somos quase que uma sétima língua da insitituição. Está na hora de tornar isso legítimo", diz Coelho.

No filme de Sydney Pollack - infelizmente mais próximo de seu boboca A Firma do que do ótimo Três Dias do Condor - Nicole Kidman escuta, por acaso, uma conversa entre dois personagens aparentemente tramando o assassinato de um figurão da política internacional. Se a dupla estivesse conspirando em português, me diz Coelho, babau, seu Nicolau. Ninguém iria ficar sabendo dos planos obscuros e a morte, vá lá, não seria evitada.

A Intérprete tem como mérito o fato de ser a primeira produção a receber o sinal verde da casa para filmar dentro da O.N.U. Nada muito além disso. Vale pela curiosidade de se ver o local onde se realizam as Assembléias Gerais e de se pensar que a reforma da insituição, inevitável, será uma peleja dura, com catimba e muito jogo de interesse. Sexta língua mais falada do planeta, o português nosso de cada dia precisa subir um degrau em seu status, me diz Coelho, atraindo mais atenção, negócios e capital para os países falantes da língua. Quem sabe até a Nicole Kidman não queira aprender...

quarta-feira, maio 04, 2005

É Coisa Deles, Também

Tem gente que pensa que corrupção, assim como a saudade, o violão e a palhoça, são coisas nossas, muito nossas. Nem sempre. Hoje os jornais e tevês daqui contam a historinha do prefeito Kwame M. Kilpatrick, de Detroit, no Meio-Oeste do país. O alcaide da Motown, hoje uma cidade falida, campeã do desemprego nos Estados Unidos, com um um rombo orçamentário estimado em US$ 230 milhões, aparentemente usou US$ 210 milhões, nos últimos quatro anos, para custear suas viagens, alimentação e pelo menos uma caríssima garrafa de champagne de primeira, todas aparecendo no seu cartão de crédito de gastos da prefeitura.

Kilpatrick foi eleito em 2002 pelo Partido Democrata para um período de quatro anos de governo. Cientista político e capitão da equipe de futebol americano de sua unviersidade, entre as credenciais do prefeito também incluía a de ter sido o primeiro negro a liderar um partido político na história do Michigan. O mais jovem prefeito da história de Detroit soltou uma nota oficial hoje, através de sua assessoria de imprensa. Nela dizia que as viagens e despesas com ‘diversão’ eram parte de seu enorme esforço de atrair negócios para a cidade. Parece que não deu lá muito certo.

Uma Senhora Carta

Esta é a carta que a mãe de minha amiga Gabriela Máximo enviou ao jornal “O Globo” e que vale à pena ser dividida com os que são, como diz Gabi, sensíveis com um “S” bem grande, para lá de maiúsculo. Viva Dona Maria Alice e viva Marcela!

Para a Seção de Cartas do Segundo Caderno

Marcela, uma menina linda de onze anos, que cursa o primeiro grau, é uma das pessoas mais felizes que conheço. Gosta de coisas que as meninas da sua idade gostam. Dança jazz, faz teatro, desfilará este mês, convidada pela segunda vez, para uma grife de moda para pré-adolescentes. Mas não é por esse seu lado "alegre exibido" que ela mais marca sua presença no mundo. É por sua capacidade de dar e promover amor, por seu interesse genuíno na felicidade dos outros, pela facilidade com que dilui tensões e aproxima as pessoas à sua volta.

Na verdade, pela maneira suave com que nos torna, em seu convívio, pessoas melhores e mais felizes. Marcela é minha neta e tem síndrome de Down. Ao ler o Segundo Caderno hoje ( Gente Boa, 3/5 ), tive vontade de dizer isso e muito mais ao Romário e à Isabela. Tive vontade, principalmente, de felicitá-los pela chegada de sua princesinha e pela atitude bonita de exibi-la com orgulho como a exibiriam se ela não fosse Down.

Nem todos os pais demonstram de imediato essa aceitação. Por ser Romário a figura pública querida e respeitada que é, ele já está fazendo, em pouco mais de um mês, muito pela mudança de atitude das pessoas em relação aos portadores dessa síndrome. É na atitude preconceituosa de muitos, nascida da ignorância e da pouca capacidade de amar, que Marcela, Ivy e tantas outras pessoas encontram seus maiores problemas a superar.

Maria Alice Máximo/alicemaximo@superig.com.br

quarta-feira, abril 27, 2005

Diretinho da Redação (12)



(Mais) uma história americana



Em cartaz nos cinemas do Brasil, “O Lenhador” não é nem esta coca-cola toda. O filme conta, em quase uma hora e meia, a história de Walter, um pedófilo que acaba de ser libertado da prisão e revela seu dia-a-dia entre visitas ao psiquiatra e passeios em parques de uma pequena cidade do estado da Pensilvânia, também freqüentado por meninas de 10 a 12 anos, fixação sexual do personagem. Disponível em DVD aqui nos Estados Unidos, o filme vem enfrentando uma desproporcional campanha de setores conservadores que consideram a produção simpática à pedofilia e não entendem o motivo pelo qual um casal de nova-iorquinos simpáticos com filhos pequenos - os atores Kevin Bacon e Kyra Sedgwick - aceitou o convite da estreante diretora Nicole Kassel para estrelar seu controverso filme.

Levar “O Lenhador”, adaptado de uma peça teatral alternativa, para as telas, não foi fácil. Depois de inúmeras negativas, Kassel só encontrou apoio financeiro nos mesmos produtores de “Monster’'s Ball”, o filme que rendeu o Oscar de melhor atriz para Halle Berry em 2002. O Walter de Bacon é uma de suas melhores criações e Kassel evita cacoetes maniqueístas, tão ao gosto dos americanos. Ao contrário, ela apresenta a violência contra crianças como um fato corriqueiro nos Estados Unidos. É justamente ao se deparar com crianças e mulheres vítimas de outros abusos, ao atinar com a dimensão da doença social, que Walter considera, talvez, quem sabe, a possibilidade de uma recuperação. Não há santos, demônios, receitas de auto-ajuda ou garantia de cura aqui.

Nas muitas entrevistas em que Bacon e Sedgwick tiveram de explicar o porquê de se envolverem em “O Lenhador”, o casal, junto há 16 anos, sempre apontava para a responsabilidade social de tratar de algo que não pode, na visão dos atores, ser tratado de forma convencional. No processo de pesquisa para encarnarem seus personagens - Sedgwick faz a mulher vítima de abuso de seus três irmãos mais velhos que se apaixona por Walter - o casal se deparou com doença, vício, falta de amor, crime.

Nesta mesma semana em que o filme - com severas restrições - chegou à casa dos americanos, aqui em Nova Iorque uma história de abuso de crianças em uma escola pública ganhou destaque no noticiário local. Investigadores do sistema municipal de educação pública acusaram a professora-assistente Nancy Miller, de uma escola em Queens Village, de violentar filhos de imigrantes haitianos em uma semana de março último.

Irritada com o comportamento dos alunos de famílias oriundas do Haiti - crianças entre 9 e 11 anos - ela os obrigou, ao contrário dos outros estudantes, a comer no chão, sem talheres, “como hatianos, como animais que vocês são”, no depoimento das vítimas. Ainda segundo os estudantes, outras crianças riam, de modo debochado, enquanto comiam sua merenda normalmente na mesa da sala de aula. A escola anunciou ontem que, embora não tenha conseguido provas de ‘discriminação étnica ou racial’ (as crianças são negras, a senhora Miller não é), a professora já foi afastada da escola e será demitida por justa causa. Depois de entrevistarem 27 testemunhas - entre alunos, pais e outros professores - os investigadores não têm dúvida de que as crianças do Queens foram violentadas. Para os produtores de “O Lenhador”, trata-se de mais uma evidência de que o abuso de crianças permanece, infelizmente, longe de ser tema esgotado no dia-a-dia da América.

domingo, abril 24, 2005

Diretinho da Redação (11)



Capitalismo de Desastre

O que Iraque, Indonésia, Sri Lanka, Afeganistão e Haiti têm em comum? São países que, por diferentes motivos, vivem às voltas com o que a escritora Naomi Klein batiza de Capitalismo de Desastre. Em artigo que ganhou a capa da The Nation que está nas bancas daqui, a autora do campeão de vendas Sem Logo aponta para a "ideologia da reconstrução", na verdade um disfarce para uma forma recauchutada do velho colonialismo de quinta categoria.

Klein conta que, em agosto último, em um ato que despertou pouco interesse da mídia, o governo Bush criou o cargo de Coordenador de Reconstrução e Estabilização, comandado pelo embaixador Carlos Pascual, dentro do poderoso Departamento de Estado. Curta e grossa, Klein não titubeia: "um governo que vem se dedicando a perpetuar a destruição prévia de países que não o atacaram agora cria um departamento para perpetuar a reconstrução prévia".

Do pequeno escritório de Pascual em Washington já foram traçados, em quase um ano de trabalho, cenários de "ocupação" e "reconstrução" para 25 países em todo o globo. Seus esforços já garantem à administração Bush a possibilidade de coordenar três "operações de reconstrução em larga escala em diferentes países, ao mesmo tempo, em um período de cinco a sete anos".

Em outubro, em uma conferência aqui no Center for Strategic and International Studies, Pascual contou que algumas empresas particulares, ONGs e think-thanks já foram até contratatados para reconstruir países que ainda não foram "destruídos". Para o governo Bush, trata-se de um bom negócio, pois esta antecedência "diminui em até seis meses o esforço de reconstrução". Klein conta que em Washington o escritório de Pascual é conhecido como o "daqueles homens que podem fabricar de fato um novo país". Se não se gosta do jeito que as coisas vão indo no Irã, na Síria ou na Venezuela, elabora-se um plano que vai dar o que se convencionou chamar aqui de 'choque social' no país invadido. E pronto.

O novíssimo Capitalismo de Desastre entra em cena como a faceta mais perversa do colonialismo do Terceiro Milênio, ainda interessado em levar a luz a terras nunca dantes civilizadas. Estas, agora, no entanto, não são mais os "novos mundos a serem descobertos", mas as muitas áreas em "estado de destruição" - seja por conta de tragédias naturais, como tsunamis e terremotos, ou por soldados armados. Atos de Deus ou de Bush, não importa. O que vale é "reconstruir".

Medo e desespero são as matérias-primas por excelência do Capitalismo de Desastre. Herman Kumara, líder de uma ONG dedicada a ajudar as famílias de pescadores desabrigadas no Sri Lanka, conta que seu país está enfrentando um "segundo tsunami de globalização corporativa e militarização". Moradores estão sendo forçados pelo governo a não reerguerem suas casas em frente ao mar. Estas áreas estão sendo entregues, diz Klein, a multinacionais interessadas em erguer uma série de resorts voltados para o tursimo de luxo. No Iraque, antes mesmo de a guerra terminar oficialmente, o governo americano anunciou a privatização de inúmeras indústrias estatais.

Um estupendo negócio, a "reconstrução" de países destruídos permite a empresas como a conhecida Halliburton fecharem contratos de US$ 10 bilhões cada para "ações de reestruturação" no Iraque e no Afeganistão. Não por acaso, o Banco Mundial vai cair agora nas mãos afoitas do Secretário de Defesa dos Estados Unidos, Paul Wolfowitz. A lógica é crua: cabe a quem pôs abaixo a tarefa de reedificar o que ruiu.

No Haiti, o Banco já propõe uma "parceria em todas as decisões governamentais envolvendo os setores de Educação e Saúde" como contra-partida para um investimento de US$ 61 milhões. O Departamento de Estado de Bush mandou avisar que "recomenda" ao Haiti a imediata privatização de empresas ainda presas às amarras do setor público. Detalhe importante - no passado, o Banco negou repetidas vezes auxílio ao país por conta do caráter anti-democrático do governo Aristide, deposto em um golpe de Estado. Lá, como Klein e todos nós sabemos, coube aos soldados brasileiros o comando da Força de Paz da ONU. Tarefa árdua, inglória e, até onde se sabe, sem conexão direta com o escritório do poderoso senhor Pascual.

É Primavera!



De volta a Nova Iorque depois de três semanas no Rio. A Primavera chegou, as ruas estão todas floridas e as árvores da Washington Avenue estão todas em festa. É Primavera!

Diretinho da Redação (10)


Assim Falou Niemeyer

É impossível ter passado a vida no Rio de Janeiro, uma cidade socialmente cortada de modo tão brutal e não se perceber um revoltado. Quem me diz isso é o arquiteto Oscar Niemeyer, 97 anos muito bem vividos, a maior parte aqui na cidade que ele ajudou a tirar do posto de capital federal quarenta e cinco outonos atrás.

Lúcido, rápido e direto, apesar do baque recente da perda da mulher, companheira de toda a vida, Niemeyer ainda se surpreende com os que gostam de viver em Brasília. Abre os olhos pequeninos e me diz que, apesar do caos, da violência e da crescente alienação de uma classe média desinteressada pelo dia-a-dia da população carente, ele ainda gosta mesmo é do Rio.

Com a mesma ênfase dada por cariocas menos ilustres, ele confessa que o Rio de que gosta já não existe mais. Sabe que ainda há as montanhas, o verde e, principalmente, o mar, despudoradamente exposto em seu escritório, uma confortável cobertura na Avenida Atlântica. Mas o século de militância política e busca incessante pela solidariedade humana não alterou a estrutura do edifício Oscar Niemeyer. Que não acredita em Deus mas adora todas as religiões e que repete, feito ladainha em procissão católica, o mote de que a vida, sempre, é muito mais importante do que o trabalho.

Um dia, cochicha-me, o tempo vai apagar sua arquitetura. O sambódromo, com apoteose e tudo, e o antigo Ministério da Educação também. A Pampulha. O prédio da ONU. Até mesmo Brasília vai desaparecer. Ele não se ilude. Mas antes disso, o Rio vai voltar a ser o que era. Está lá nas escrituras de Niemeyer.

O profeta não lê mensagens secretas nas passeatas pela paz da burguesia assustada. Não enxerga o futuro na gente vestida de branco, marchando na orla ao lado de artistas que cobram cachês milionários para aparecer em mesas-redondas promovidas por grandes empresas estatais para falar do nada. Não.

Seu oráculo é mais abrangente. Os signos, ensina, estão nas ribanceiras. O último comunista de Copacabana atravessou um século testemunha da lei natural de que a maioria, sempre, vence. Um dia, ele me conta, esta gente toda que se aperta lá no alto vai descer. Vai tomar a cidade de volta. É inevitável. Os revoltados, ele sabe, se reconhecerão. E erguerão, concreto sobre concreto, uma outra cidade maravilhosa. Assim me disse Niemeyer.

quinta-feira, março 24, 2005

Diretinho da Redação (9)



O texto tambem pode ser lido em www.diretodaredacao.com

Da Barra De Ser Negro, Nos EUA, Hoje

Nunca foi tão difícil ser negro nos Estados Unidos. Quem diz isso é o sociólogo Elijah Anderson, professor da Pennsylvania University e autor do clássico Being Here And Being There, que pode ser encontrado, infelizmente apenas em inglês, em algumas boas livrarias do Brasil.

Sua afirmação pode ser facilmente combatida ao constatar-se que, neste exato momento, uma negra ocupa uma das principais posições políticas no governo do país. Condolezza Rice já é apontada como possível candidata à presidência. Em sua corrente edição, a Time diz que Rice já é "maior e mais popular" do que Bush no exterior. Também não se pode esquecer que Colin Powell, outro negro, foi quem passou o bastão da Secretaria de Estado para a sucessora. Um dos senadores mais festejados do flanco democrata, Barack Obama, é negro e foi eleito em Illinois no ano passado com votação excepcional.

Anderson sabe disso. Sua provocação se traduz no que ele chama de ponto-limite do processo de "cooptação" do negro na sociedade americana. De um lado da calçada estão os que, como ele próprio, conseguiram se formar na universidade, aproveitaram as oportunidades da política de afirmação, abocanharam uma vaga no serviço público e encontraram um novo lugar na sociedade. Do outro lado da calçada está o "superstar", que saiu da pobreza jogando basquete, cantando rap ou encontrando uma vaga na máquina de Hollywood. No meio da rua continua a maioria dos que não conseguiram se mover na pirâmide social da América do Norte e que são vistos como uma aberração ou ameaça à segurança e tranqüilidade da maioria ordeira e branca do país.

Anderson tem números. Durante dez anos na última década, metade da população negra de Nova Iorque ou não estava trabalhando ou vivia de sub-empregos. Mas ele também vai aonde o negro está. Foi em um lava-rápido de Filadélfia que ele descobriu um fator ainda mais intenso no processo de "auto-segregação" do negro. Os jovens "afro-americanos", que costumeiramente ajudavam o serviço do posto de gasolina local, foram substituídos por outros negros, que em geral não falam inglês. São imigrantes, vindos da África ou do Caribe, dispostos a ganhar menos da metade pelo mesmo serviço. Negros que não são reconhecidos como "irmãos" pelos que aqui já estavam há séculos.

Para complicar ainda mais o quebra-cabeças racial há o cada vez mais popular discurso da culpa da pobreza. Anderson acompanhou recentemente o comediante Bill Cosby em uma jornada até Newark, subúrbio de Nova Jérsei, que conta com uma enorme população negra. Oito jovens haviam sido assassinados nas ruas do bairro e a comunidade estava, compreensivelmente, em pânico. Cosby discursou, Jamseon conta, para uma igreja batista repleta. Ele culpou os negros por sua imobilidade e passividade social. Falou de estudos que provavam que "afro-americanos", como ele, absorviam menos nas escolas do que estudantes de outros grupos étnicos. E bradou: "Vocês precisam ter um plano de vida, uma meta. Vocês não têm nada!". Jameson destaca a total ausência de perspectiva histórica ou social no discurso imediatista conservador.

Os líderes dos Panteras Negras morreram ou foram desacreditados. A comunidade negra, nas últimas três décadas, sofreu como poucas a guerra das drogas nas ruas das grandes cidades deste país. Os rappers de Nova Iorque, jovens milionários, aparecem nos jornais populares da cidade em fotos que são feitas invariavelmente em dois cenários: estúdios de gravação ou portas de delegacias. Uma caminhada à tarde por bairros de alta população negra aqui no Brooklyn revela uma realidade muito semelhante à das favelas brasileiras: um número impressionante de homens adultos sentados, fumando, bebendo, conversando sobre Condolezza Rice. Jameson não poderia estar mais certo: nunca foi tão difícil ser negro nos Estados Unidos.

sexta-feira, março 18, 2005

Caiu do Céu?

Igualzinho à torcida do Flamengo, adorei Trainspotting. Peralá. Vou começar de novo. Igualzinho à imensa torcida do Voltaço, glorioso campeão da Taça Guanabara, eu curti pacas o primeiro filme de Danny Boyle, que caiu em minhas mãos. Não sou um fã ardoroso de A Praia, aquele com o Leonardo di Caprio, mas deixei de lado atrações mais sedutoras na quente noite recifense para me enfiar em uma sala de cinema com minha amiga Kika Serra e passar duas horas viajando por uma Londres sem viv’alma no inteligente 28 Hours Later. Por conta disso enfrentei a fila e me espremi em uma cadeira do multiplex da Union Square para ver Million, que estréia no Brasil com o infame título Caiu do Céu, já entregando metade da história, em 24 de junho. Vale o trocado. Os meninos Lewis Owen McGibbon e, especialmente, Alexander Nathan Etel, são sensacionais. E, como o hilário pai da dupla, James Nesbitt, o político-cabeça do interessante pseudo-documentário Sunday Bloody Sunday. Tá bom, o fim do filme, made in Africa, é quase uma fotografia da Anne Geddes em movimento, implora o espectador pelas palmas no fim da projeção – inevitáveis no cinemão de Manhattan – , breguinha mesmo. Mas as sacadas da câmera de Boyle e o desempenho de Etel, que bate animadíssimos papos com santos católicos, inclusive uma Santa Clara chegada em um bagulho jamaicano, são imperdíveis. Ih, vou indo que já contei demais...

quinta-feira, março 17, 2005

Diretinho da Redação (8)

Ouça, secretário!

Nesta sexta-feira o Ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Luiz Dulci, vai conversar com alunos e professores da Universidade de Nova Iorque (N.Y.U.). A idéia é contar a história do milagre do governo de esquerda que dá certo no lado meridional da América respeitando o mercado livre e as regras ditadas no número 700 da Rua 19, em Washington, sede do FMI. Muito que bem.

A palestra, entitulada “Dois Anos do Governo Lula: Progresso e Desafios”, deve ser bonita de ouvir. Mas quem sabe algum assessor não lembre o secretário de que, algumas vezes, não há nada mais saudável do que uma inversão de papéis. Que ouça mais do que fale. Que seja mais mineiro e menos petista. Se tiver tempo e disposição para tanto, Dulci vai descobrir que meninos e meninas de Manhattan andam, pelos corredores das universidades, buscando desesperadamente em quem acreditar. Igualzinho aos jovens brasileiros.

Talvez o camarada Dulci não saiba, mas nesta última quinta-feira três estudantes do City College, aqui nas terras de Bloomberg, foram mandados para o xilindró, no pior estilo da ditadura militar de que nos livramos há exatas duas décadas. Os meninos estavam protestando contra a presença de alistadores militares no que deveria ser uma feira de trabalho a fim de aproximar jovens talentosos de classe média-baixa de possíveis empregadores. Com os perigosos subversivos foram apreendidas faixas, bandeiras e adesivos, armas que o secretário Dulci manuseou com destreza anos a fio Brasilzão afora.

Há poucos dias tive a sorte de conhecer Chris Dugan, um jovem estudante que todos os dias deixa a sala de aula de seu curso de mestrado de Urbanismo para panfletar nos corredores do Hunter College. Sua causa é nobre – quer evitar que outros jovens sem dinheiro acabem parando no Iraque a fim de financiar sua educação. Exatamente como seu avô, ele virou fuzileiro naval. Decidiu abandonar as Forças Armadas anos atrás, ao conferir, em Belfast, a política de segurança dos Estados Unidos para o conflito entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte.

Quando descobriu que estava sendo entrevistado por um brasileiro, Chris, da maneira mais educada possível, me contou que o movimento estudantil norte-americano condena com a mesma ênfase a ocupação norte-americana no Iraque e a interferência internacional no Haiti. “Como é que podemos admirar a política externa de um país que aceita atuar como segunda-divisão das forças norte-americanas na América Latina? Como é que o governo do PT responde, no Brasil, às acusações de abusos de direitos humanos e atrocidades que nos chegam do Haiti? Nós tínhamos uma grande expectativa com relação ao Lula. Achávamos que ele poderia ser uma voz importante, que poderia inserir-se de modo inequívoco na história deste continente, mas estamos profundamente decepcionados”, me disse Chris.

Descendente de irlandeses, Chris vai comemorar esta semana o dia de São Patrício, padroeiro da Irlanda, comme il faut, entre goles de Guinness e boas lascas de Corned Beef. Se a ressaca permitir, no dia seguinte ele pretende ouvir a palestra de Dulci na N.Y.U. Do companheiro intelectual ele espera receber mais do que o Prato Feito das maravilhas do jeito petista de governar, com a cereja no topo da sobremesa principal, oferecida dias atrás pelo presidente chileno Ricardo Lagos com seus elogios rasgados ao governo Lula publicados na imprensa européia. Este, aliás, foi um gol de placa da diplomacia verde-e-amarela. Mas bem que o ministro Dulci poderia alimentar a alma dos curumins de cá contando por que, afinal de contas, o PT chegou ao poder. Será que ele se recorda?

Brazilian Girls - Bowery Ballroom - 16/03/2005

Uma noite com Sciubba no inverno congelante de Manhattan.

Acabo de chegar em casa depois do show das Brazilian Girls. Sensacional. A vocalista Sabina Sciubba entrou no palco do Bowery Ballroom empacotada em um pós-parangolé branco. Quando saiu de dentro do troço-pós-moderno a platéia, já hipnotizada, cantou junto, em francês, o coro de “Homme”. Sabina não via o público. Ela entrou em cena com uma fita adesiva xadrez sobre os olhos. Fita esta que ela não tira nem na volta ao palco, uma hora e meia depois, em um bis delicioso, com a vocalista sussurando, para alegria da galera: “I got a Problem. I got a Penis”.

Para quem chegou atrasado, Sabina é italiana e de brasileiro, além da dupla aqui do Brooklyn, podia-se reconhecer na platéia a Bebel Gilberto e o Pedro Baby, filho da Consuelo com o Gomes. Velhos baianos que somos, Will and I jantamos tarde no Havana Café, tempo suficiente para que as duas primeiras atrações – que incluíam um DJ underground cinqüentão – saíssem de cena.

As garotas espertas Meredith e Esther, com quem dividimos um dos sofás no espaço lounge do primeiro andar pouco antes de o show começar, disseram que não perdemos nada. Ou quase nada. Quando finalmente nos livramos do exército de seguranças vestidos de preto descobrimos que a casa do Lower East Side estava tão cheia, mas tão cheia, mas tão cheia que...não cabia mais um boné no locker room. Merda.

Casacos em punho – o plural aqui não é força de expressão, o inverno segue impiedoso em Nova Iorque – encaramos a pista do segundo andar, encontramos um bom espaço na boca do palco e dançamos, dançamos e dançamos a valer.

Sciubba e a banda mandam uma em inglês, outra em espanhol, mais uma em francês. Tem bossa nova, chanson, rap, música indiana, tango. E poesia. Declamada. Neruda. Também música de protesto dos camponeses alemães da idade média. Um mix da italiana doida que se traduz em um tributo moderníssimo ao fino da dance music dos anos 70.

E o melhor: apesar do hedonismo transpirado em cada movimento da vocalista, as Brazilian Girls têm horror à viadagem make-up oitentista. Elas não atraem somente os gays, felizes tributários da porção vamp de la Sciubba. O Bowery Ballroom está repleto de casais e de grupos de amigos vintões, trintões, quarentões e um ou outro cinquentão disfarçado de crítico de rock, com óculos de aro preto e boina vermelha. Ou amigo perdido do tal DJ que a gente não ouviu. Vai saber.

Não dá para ficar olhando muito para os lados. No palco, Didi Gutman nos teclados comanda uma farra que conta ainda com o baixo funkeado de Jesse Murphy, a bateria ensurdecedora de Aaron Johnston e o auxílio brejeiro de dois sopros em algumas músicas. E ela. A diva dos sujinhos de Manhattan. A italiana mais brasileira do Brooklyn. A performática que lembra a Rita Lee da época dos Mutantes, muleca que sabe tudo. Só não viu quem não quis. Ou quem preferiu fazer como Sciubba e dançou como Isadora, a noite toda, sem parar. Felicidade, hoje, foi um show das Brazilian Girls.

p.s: quem quiser pode entrar no http://www.braziliangirls.info/music.html e ouvir algumas das músicas do primeiro disco das B.G. Vale a clicada.

quarta-feira, março 09, 2005

Diretinho da Redação (7)



Coluna publicada hoje no Direto da Redação. Ta lá em www.diretodaredacao.com.


Entre a Morena do Chico e o Mico do Papa eu fico é com a Marinilda

Qual é o problema com a morena do Chico? Aparentemente a troca de carícias do casal na Praia do Leblon levou a imprensa brasileira a discutir temas relevantes semana passada como censura à imprensa, a relação promíscua de artistas com editores-chefes de jornais diários, a qualidade da informação do jornalismo brasileiro e até as virtudes e defeitos do casamento aberto. Falta de notícia? Calor demais? Calma, gente.

Aqui enfrentamos o inverno mais branco das últimas seis décadas. Neva pacas. Não tem calor, não tem praia, não tem Rio, não tem Leblon, não tem morena, não tem Chico. Mas tem Papa. Na semana passada, enquanto a Veja se dizia preocupada com a qualidade da informação recebida pelos leitores de O Globo, o New York Press demitia seu editor, Jeff Koyen, por conta de uma página inteira dedicada ao deboche do estado de saúde do Papa João Paulo II.

Aonde é que o NY Press, uma publicação semanal de distribuição gratuita especializada no - seja lá o que isso for - "jornalismo conservador alternativo" se encaixa, com todo o respeito, na morena do Chico e no chilique da Veja? Juro que não é o frio que me faz misturar alhos com bagulhos.

Ora, jornalismo marrom de direita não é exclusividade do NY Press, mas eles têm se excedido. No texto em questão, o virulento Matt Taibbi anunciava as 52 Coisas Mais Engraçadas Sobre a Cada Vez Mais Próxima Morte do Papa. Ilustrada com uma foto do Pontífice de mãos dadas com o comandante Fidel Castro, a matéria trazia, entre as tais 'coisas mais engraçadas', pérolas como imaginárias mensagens oficiais da Casa Branca. Primeiro, o presidente Bush, ao saber que o Papa está em coma: "Nossos pensamentos e preces estão agora com este grande homem e toda sua imensa prole". Em seguida, ao saber da morte do Santo Padre, a Casa Branca solta nova nota do Presidente: "O Papa nos tocou a todos em lugares que jamais poderíamos alcançar sozinhos". E por aí vai.

A gracinha irritou democratas e republicanos, católicos e ateus, e a direção do NY Press anunciou um basta. Deu um chega para lá em Taibbi e suspendeu o editor-chefe do jornal. Jeff Koyen preferiu se demitir, mas saiu proclamando-se um opositor da censura e de temas tabus. Insinuou que os donos e editores-chefes de jornalões norte-americanos são íntimos da cúpula da Igreja Católica e perguntou por que é que, afinal, não se pode brincar com o Papa?

Francisco Buarque de Hollanda, apesar da divertida campanha comandada pelo jornalista Ancelmo Góis, ainda não foi canonizado. A Folha de S.Paulo avisa que não encontrou na figura pública exemplar do irmão da Miúcha, e sim nos dois filhos pequenos da morena do Chico, o motivo principal da recusa em se publicar a foto do paparazzi. A Veja retruca, lembrando que este não foi o critério dos jornais ao tratarem da fofocada referente ao casamento de Ronaldinho e Cicarelli, lá na mesma Paris onde a revista agora quer exilar o autor do Samba de Orly.

Aqui do frio branco do Brooklyn, sem praia, sem morena, sem Chico e sem Leblon, fico mesmo é com a Marinilda Carvalho, que, lá no Observatório da Imprensa(http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/), dispara, hoje mesmo: "Estranha a crítica da Veja a quem deixou de cobrir o affair de Chico Buarque na praia. Segundo a revista, Ronaldinho não foi poupado em seu casamento, portanto não havia por que poupar o Chico. Mas não seria o caso de a revista condenar quem caçou notícia a qualquer preço no tal casamento? Quer dizer que o negócio é nivelar por baixo?".

segunda-feira, março 07, 2005

Carta Capital

Crônica publicada na edição de hoje da revista “Carta Capital’. Ta lá em www.cartacapital.terra.com.br.

“MENTIRAS MILITARES!” Eles são contra-recrutadores, dispostos a evitar que outros jovens se alistem nas Forças Armadas e sejam enviados para o Iraque.

Por Eduardo Graça, de Nova York

Noite gélida de quarta-feira no coração do Upper East Side, em Manhattan. No lobby do terceiro andar do Hunter College, estudantes abordam colegas e professores com o mesmo grito de guerra: “Mentiras Militares! Mentiras Militares!” Eles são contra-recrutadores, dispostos a evitar que outros jovens se alistem nas Forças Armadas e sejam enviados para o Iraque.

Chris Dugan, 27 anos, deixou para trás a escola secundária e se juntou, por quatro anos, ao corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos. Michael Stoll, 21 anos, cresceu em um subúrbio no estado de Nova York e jamais esqueceu das manifestações de protesto de parentes de soldados mortos nas guerras da Coréia e do Vietnã. Anna Wolf, 18 anos, é nova-iorquina da gema e se juntou ao Campus Antiwar Network (CAN) há um mês. O grupo, que já se espalha por quatro centenas de campi em todo o país, dedica-se a uma incansável ação de propaganda voltada para jovens de classe média baixa, alvo preferencial dos recrutadores militares. Explica Dugan:

– Eu me alistei porque achava que era a coisa mais patriótica que poderia fazer na vida. Mas a maioria dos jovens é seduzida pela chance de receber uma bolsa de estudos e aposentadoria especial, o que nem sempre acontece.

Minutos depois, ele recebe a informação de que um estudante do Hunter, de 18 anos, está alarmado com a possibilidade de ter de largar a escola para passar algum tempo a serviço da Marinha mais poderosa do globo. Vlad acaba de iniciar o curso de Psicologia da universidade:

– Eu me alistei no ano passado porque estava interessado na grana. Foi a maior estupidez que fiz na vida e agora não sei o que fazer para sair dessa. Quando deixei claro que estava arrependido, os alistadores me disseram que não havia caminho de volta e que, se eu sujasse a minha ficha militar, não conseguiria emprego nem no McDonald’s.

O estudante alegou problemas médicos para suspender o processo de alistamento e, por isso, não revela o seu sobrenome. Enquanto ouve atentamente a catequese de Dugan, ele burila seus óculos de aro fino para lá e para cá. Dugan o acalma:

– Você não precisa ter medo. Se ainda não prestou juramento, tudo o que precisa fazer é escrever uma carta de próprio punho e enviar para o serviço de alistamento de seu bairro – diz o contra-recrutador.

Dugan fala com a experiência de quem passou um ano trabalhando justamente como recrutador militar. Vinte minutos depois, um aliviado Vlad deixa o corredor com os telefones de contato de advogados que, voluntariamente, ajudam o CAN a enfrentar a batalha de propaganda em torno da questão militar.

Em meados de fevereiro, o Exército anunciou um aumento no prêmio mais alto para os recrutas, um crédito educativo no valor de US$ 70 mil. Michael Stoll, também contra-recrutador e estudante de Sociologia, lembra:

– O que ninguém fala é que quase a metade dos veteranos não vê a cor do dinheiro. E que o contrato com os militares inclui a invasão de países soberanos, a destruição da vida de civis e a morte de crianças.

Um recruta recebe, em média, US$ 15 mil por ano, mais US$ 225 mensais para os que estão no Iraque, em risco de combate, além de um bônus variável para os que deixam crianças em casa. Dugan e Stoll conhecem esses números de cor.

Principal programa social idealizado por George W. Bush, o The No Children Left Behind, implantado em 2002, obrigou todas as escolas de segundo grau a produzirem uma lista, incluindo nomes e endereços dos estudantes, para uso do governo. A idéia é facilitar o trabalho dos alistadores, que agora identificam com mais precisão os jovens com potencial para ingressar na vida militar.

– Quem vai parar nas Forças Armadas, tradicionalmente, são os negros e os pobres. Por isso a atuação do CAN é mais intensa nas escolas de bairros mais humildes e com grande presença de minorias étnicas – diz Dugan.

Ele e Stoll contam que as informações sobre os estudantes têm sido utilizadas pelos militares para exercer uma ação mais agressiva no processo de recrutamento, de telefonemas e cartas aos pais, passando por anúncios em classificados de jornais locais. Para os ativistas, trata-se de um ataque sem precedentes aos direitos individuais de adolescentes em todo o país. Uma de suas metas é obrigar os diretores de colégios públicos a informar às famílias que estão passando o perfil dos alunos para os militares.

– Os alistadores não podem voltar para a caserna com as mãos abanando e eles fazem qualquer coisa para conseguir o maior número de jovens aptos a usar a farda – diz Dugan.

O CAN é a face mais visível de uma crescente parcela da opinião pública americana que pede a retirada das tropas do Iraque. Mas há quem pense de modo diverso. Estudante de Língua Inglesa, Tory Sterling, 21 anos, considera sagrado o direito à escolha de servir ou não nas Forças Armadas do país:

– Você não acha que é bem óbvio para quem se alista o fato de que há um risco imenso de acabar tendo de lutar no Oriente Médio?

Sterling também acha que, ao assinar um contrato com o governo, é um dever do cidadão cumprir o que prometeu e pegar em armas pelo país. Mas deixa claro que é contrário à invasão do Iraque. O que leva Dugan a observar:

– Por isso sinto que nós não estamos sós. Eu sei que há uma imagem consolidada de que os americanos são belicosos por natureza, mas a maioria da população é contra a invasão do Iraque. Aliás, da mesma maneira que nos opusemos à invasão do Haiti.

Dugan diz que sua paixão pela cultura de guerra começou cedo. Aos 14 anos, depois de assistir a tudo o que Hollywood produziu sobre o tema, decidiu que queria ser um soldado das forças encarregadas de “levar democracia e paz mundo afora”.

- Quanta presunção! O que eu vi não gostei - conta Dugan.

Ele não pode reclamar da sorte. Dugan passou incólume pelas Forças Armadas, prestando serviço justamente entre as duas guerras do Golfo Pérsico, entre 1995 e 1999. Melhor amigo de Stoll, Dave Anderson, 19 anos, não pode dizer o mesmo. Ele acaba de receber a informação de que logo irá para o Iraque.

– Quando ele se alistou, dizia que era uma maneira inteligente de encontrar um caminho depois de terminar o segundo grau. Ele nunca imaginou que teria de enfrentar situações de risco, como a de desembarcar no Iraque com bombas explodindo todos os dias – diz Stoll.

Histórias como as de Anderson e Vlad dão munição para que meninos e meninas do CAN continuem trabalhando duro. Três vezes por semana eles lembram aos colegas que, no caso de uma convocação de emergência, todos os homens com até 27 anos podem ser intimados a pegar em armas. E esta é uma mensagem que cala fundo no Hunter College, com suas mensalidades mais de 60% mais baratas do que outras escolas particulares e um imenso plantel de estudantes oriundos das classes média e média baixa do país. “Exatamente por isso temos de nos manter alertas, sempre”, dizem os contra-recrutadores, antes de desaparecer nos corredores da superpovoada universidade, aos gritos de “Mentiras Militares! Mentiras Militares!”

sexta-feira, março 04, 2005

Diretinho da Redação (6)


O texto abaixo é a coluna da semana no www.diretodaredacao.com

Gary, Eu Te Amo!

Eu ia escrever sobre a falência do sistema penitenciário nos Estados Unidos. Juro. Mas aí um amigo do Brooklyn me perguntou se eu já tinha deixado minha mensagem para o Gary e se nas grandes cidades brasileiras havia algum caso de tratamento anti-depressivo tão eficiente quanto o que fora testado no moço do East Village.

Já explico. Não faz muito tempo e começaram a aparecer uns panfletos na Union Square, em Manhattan, e também em alguns pontos manjados do Village com uma mensagem pra lá de esquisita. Você olhava o papelzinho e se deparava com um número de telefone e um pedido direto: "Por favor, diga 'Gary, eu amo você' depois do bipe. Obrigado". E mais nada. Assim só.

Seria um trote? Uma propaganda de algum produto para a pele? Uma nova banda indie-rock surgindo no pedaço? Um novo serviço de encontro amoroso? Que nada. Neste último domingo o mistério foi revelado pela repórter Jennifer Bley, do The New York Times.

O tal Gary era o sujeito que tinha uma piada para todos os momentos, uma graça para cada dia da semana, a alegria da 'rapêize'. Mas, como ninguém é de ferro, depois de uma decepção amorosa, ficou recluso em casa, desligou o telefone e simplesmente sumiu do mapa. O pior é que, sem Gary, os amigos da turma do Village foram ficando, eles mesmos, também deprimidos.

Foi aí que o designer Thomas Ng, um estudante de 26 anos da Escola de Artes Visuais de Nova Iorque, resolveu soltar os tais panfletos em uma última tentativa de reanimar o pobre coitado do Gary. O resultado foi surpreendente. Centenas de nova-iorquinos responderam ao chamado e ligaram para o número informado na propaganda. Que, é claro, não era o telefone de Gary e sim uma caixa de mensagens alugada a US$ 6 por Thomas, que tem horror a malas e gravou as mensagens em um CD, devidamente editado e enviado para a casa de Gary.

Mal que assola os grandes centros urbanos, a depressão, ao menos aqui neste conto de fadas de Nova Iorque, está sendo vencida com calor humano. O teor das mensagens varia muito, mas há um ponto comum: ninguém obedece o pedido à risca. Todos querem personalizar o I Love You. Há o rapaz que diz "Eu amo você, Gary. Este é o som do Brooklyn aqui ao fundo. Paz". Há os que criaram poemas especialmente para o cidadão que não conhecem. Há a menina que, ao fim da mensagem, diz que o panfleto encontrado no chão da rua em um fim de tarde frio lhe deu saudades de seus pais e que ela vai ligar em seguida para eles.

A repórter Jennifer Bley não conseguiu falar com Gary. Ele não está totalmente recuperado, mas, garantem os amigos, encontrou forças para sair da depressão. Quanto ao meu amigo do Brooklyn, ele ficou sem resposta. Não sei se alguém teve idéia parecida nas muito mais solícitas capitais brasileiras para ajudar um amigo de farol baixo. Por via das dúvidas, quem vier para Nova Iorque por estes dias e quiser deixar seu recado para o Gary, o número mais quente da cidade é o (212) 560.2306. Só não pode esquecer de dizer o "Eu Te Amo".

quarta-feira, março 02, 2005

Do Meu iPod 01



Brazilian Girls

Elas não saem do meu iPod. A primeira vez em que me deparei com as Brazilian Girls, elas eram a atração mais corriqueira das noites de sábado no Nublu, um clube da moda no East Village, em Manhattan. Não se enganem, elas são aqui do Brooklyn. Não se enganem novamente, apesar do nome, não há qualquer menina brasileira na banda. Mais: a única mulher aqui é a bela Sabina Sciubba, dona de uma voz peculiaríssima, que nos chega aos ouvidos em cinco idiomas.

O disco, homônimo, que aterrizou na primeira semana de fevereiro nas melhores lojas do ramo da zona norte do mundo, já alcançou o sexto posto nos mais vendidos na seção de música eletrônica da Billboard. Calma. As Brazilian Girls navegam sim pelo eletro, mas do mesmo modo em que namoram o reggae, flertam com o jazz e ficam com a bossa nova sem culpa alguma e, o que é melhor, sem cair no pastiche boboca. Por estas e outras, já teve crítico deslumbrado escrevendo que o som do grupo dá uma idéia do que estaremos ouvindo na cena pop na metade do século XXI.

As Brazilian Girls atendem pelos nomes de Didi Gutman (teclados e efeitos especiais diretamente de Buenos Aires, namoradão de dona Sciubba e o único a tocar com uma brasileira de verdade, ainda que nascida em Nova Iorque, sua amiga Bebel Gilberto), Jesse Murphy (baixo, da Califórnia), Aaron Johnston (bateria, de Kansas City) e la Sciubba, cantando em francês, espanhol, inglês, alemão e italiano, ao bel prazer do ouvinte. A moça nasceu em Roma, cresceu em Nice e Munique e, seguindo a trilha da ciganada que forma a parte mais groovy desta cidade, acabou parando no Brooklyn.

Quando os quatro se juntaram e começaram a dar canjas no Nublu – também casa do Wax Poetic, o grupo em que dona Norah Jones começou a afiar sua vozinha – alguns engraçadinhos acharam as curvas de nossa Sciuba para lá de apetitosas e começaram a falar daquela banda da ‘garota brasileira’. O nome pegou e a Verve logo sacou que eles eram o grupo perfeito para dar um gás no lado mais alternativo-pop da gravadora, o selo Verve Forecast.

O disco transformou a lânguida Lazy Lover (Lazy Lover/ Casanova/ You roll over/when I want more/ I want moooooore) em favorita do povo chillout. A faixa, gerada na mesma fôrma fabricada pelos favoritos franceses do Air, ganhou um remix do house-expert Herbert e tocou a valer nas danceterias da cidade.

Agora os head-phones da megastore Virgin, na Union Square, são disputados à tapa. A galera mais antenada quer se deleitar com outros petardos poderosos: Pussy, um dancehall do bom a partir da história de uma menina sapeca enrolada com traficantes de drogas e cafetões, Ships In the Night, uma homenagem a Marlene Dietrich (!) com vibrafone e sampler de guitarra havaiana, e Die Gedaken Sind Frei (Thoughts Are Free), um rap em alemão com violino ao fundo mesclado com barulhinhos percussivos. Bom demais.

Dia 16 de março tem show das Brazilian Girls no Bowery Ballroom. Não perco. É que no palco elas são ainda mais saidinhas. Sciubba adora fazer uma performance enquanto entoa uma canção de protesto do campesinato alemão ou saboreia uma poesia de Pablo Neruda. Sim, ela é fanática por Neruda.

Muito mal comparando, as Brazilian Girls poderiam ser criaturas imaginadas por um DJ completamente esquizofrênico, obcecado por faixas que não têm absolutamente nada a ver umas com as outras, ao menos em uma primeira audição. Mas este mesmo DJ batuca o samba da brasileira doida dentro do maior bom gosto. Ah, claro, não dá para esquecer que Sciubba, antes de se tornar uma Brazilian Girl, lançou dois discos de jazz, You Don’t Know What Love Is (com o pianista Chris Anderson) e Meet Me In London (com o guitarrista Antonio Forcione), encomendas do ‘cool’ selo inglês Naim. A moça pode até não ser a garota de Ipanema, mas como Brazilian Girl ela convence o mais incauto dos ouvintes.

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

Diretinho da Redação (5)

Quem quiser checar em loco, o texto abaixo é a coluna da semana no www.diretodaredacao.com, onde o leitor também pode se deliciar com os bastidores da história do repórter credenciado pela Casa Branca que, acredite se quiser, também fazia um bico bancando um site de acompanhantes masculinos.

HILLARY SÓ PENSA NAQUILO

Ela só pensa naquilo. Em suas mais recentes aparições públicas, Hillary Clinton tem falado de fé, de Deus, de crença nos 'valores fundamentais da sociedade norte-amerinana'. Há exatamente um mês, discursando aqui em Nova Iorque para uma platéia formada majoritariamente por ativistas liberais, a senadora manteve seu apoio a grupos favoráveis ao direito de escolha de se interromper a gravidez, mas irritou muita gente ao pedir calma às militantes mais aguerridas e em tentar jogar para debaixo do tapete eleitoral qualquer discussão referente a aborto. Hillary Clinton já botou na rua sua campanha para ser a candidata democrata à sucessão de George W.Bush em 2008.

Converse com qualquer analista político nos Estados Unidos e o diagnóstico será o mesmo: a grande pedra no sapato de Hillary não é o fato de ela ser mulher. O problema é seu índice de rejeição, altíssimo (em recente pesquisa de âmbito nacional, 4 em cada 10 norte-americanos afirmaram não confiar na mulher do ex-presidente Bill Clinton), e sua imagem já estabelecida nos oito anos em que ocupou o posto mais decorativo da Casa Branca. Para os eleitores daqui, Hillary não é, de forma alguma, uma novidade. O que há de diferente é sua postura camaleônica. Poucos esperavam que ela assumisse publicamente uma posição a favor da invasão do Iraque. Agora ela aparece no Congresso cobrando do governo Bush medidas mais duras e claras em relação à Síria. E na semana passada saracoteou pela Europa pedindo o endurecimento dos governos do Velho Continente contra a ameaça terrorista.

Neste fim de semana que passou, a onipresente senadora pôde ainda ser vista no prestigioso programa televisivo "Meet The Press", ao lado do senador republicano John McCain, eterno presidenciável do Arizona, que disse com todas as letras: "Eu acho que Hillary poderia ser uma grande presidente para nosso país". Hillary Clinton, ao lado do marido, mas em posição invertida (ela prestando juramento solene) também foi capa da mais recente edição da revista "New York". A matéria trata da obsessão dos norte-americanos pelas dinastias políticas. Depois de Bush II por que não Clinton II?

Antes de jogar-se nas prévias democratas, Hillary vai disputar a reeleição para o Senado no ano que vem. Os candidatos republicanos - fala-se tanto no ex-prefeito Rudy Giuliani quanto no atual governador do estado, George E. Pataki - ficaram com as duas orelhas levantadas ao receberem pesquisa concluída nesta terça-feira pelo "The New York Times", dando conta de um índice de aprovação de 69% dos nova-iorquinos ao desempenho de Hillary no Congresso, incuindo 49% dos republicanos, que poderiam votar na democrata. O tal "fator rejeição" ou o exército de "Hillary Haters" parece já não existir mais no estado de Nova Iorque.

Com a recente eleição do ex-governador de Vermont, Howard Dean, para o comando do Partido Democrata e seu anúncio de que não vai disputar as prévias de 2007, Hillary parece ter poucos adversários com quem se preocupar dentro de seu partido. Nenhum dos que já apareceram na mídia - o senador John Kerry, o ex-senador John Edwards, o governador Bill Richardson, do Novo México - teriam condições de angariar tanto dinheiro das grandes corporações do país para a campanha eleitoral quanto os Clinton.

Ao mesmo tempo em que cortejam os eleitores conservadores, Hillary e Bill decidiram apoiar a eleição do liberal Howard Dean para o comando do partido. Querido pelos doadores individuais (hoje o único trunfo econômico visível dos democratas), concentrados nas grandes universidades, nos centros de pesquisa e em Hollywood, Dean promete ser o lado mais razoável de um projeto para 2008 que já divide até mesmo as feministas locais. Seria bom para as mulheres eleger uma postulante que anuncia, como principal pedigree, o fato de ser esposa de um ex-presidente? Certa de que a resposta é um grande sim, Hillary Clinton está pronta para mostrar, nos anos que seguem, uma postura bem mais conservadora e autoritária do que a de Bill Clinton. Quem viver verá.

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

Diretinho da Redação (4)

Quem quiser checar em loco, o texto abaixo é a coluna da semana no www.diretodaredacao.com


Começar de Novo

"Esta é uma idéia inacreditavelmente deprimente, mas não acredito que as pessoas vão alterar seus hábitos sexuais até verem seus amigos morrendo novamente". O desabafo, do escritor Gabriel Rotello, autor do importante "Sexual Ecology: AIDS And The Destiny of Gay Men", chegou esta semana à primeira página do 'The New York Times' depois da descoberta de um tipo muito mais potente do vírus H.I.V. em um paciente homossexual, morador da cidade, que contou ter praticado sexo com dezenas de parceiros, nos últimos meses, sem utilizar qualquer tipo de proteção. O supervírus é resistente a todas as drogas conhecidas e diminui em mais de 50% a expectativa de vida dos pacientes infectados.

Vinte e cinco anos depois de a comunidade gay norte-americana se organizar para combater a epidemia da AIDS, a sensação, ruim, é a de que é preciso começar tudo de novo. As estatísticas mostram que aqui usa-se cada vez menos camisinha. Também apontam para o aumento do 'barebacking sex', em que não só toda proteção sexual é dispensada como a pessoa infectada é considerada um ser 'especial', apta a passar o 'presente' para o (s) parceiro (s). Parece brincadeira de péssimo gosto, mas não é. O paciente infectado com o supervírus também contou aos médicos que a maioria de seus parceiros consentiu em praticar relações sexuais sem proteção enquanto faziam uso de metanfetamina cristalina. A droga leva o indivíduo a um estado de relaxamento que reduz a capacidade de discernimento e é uma isca para pessoas que estão tratando algum tipo de comportamento auto-destrutivo.

Basta dar um pulo na noite de Lower East Side, em Manhattan, ou em Williamsburg, no Brooklyn, para perceber como 'o cristal' é popular. Uma pesquisa recente feita com homens assumidamente homossexuais em Nova Iorque apontou que 25% deles utilizam a droga com freqüência. Psiquiatras alertam que o cristal está sendo usado por gays para combater a depressão, um mal corriqueiro em grandes metrópoles mundo afora. Cientistas de peso apareceram esta semana na TV e sugeriram que uma parte do dinheiro investido no país para a descoberta da cura da AIDS deve ser destinado imediatamente a um incremento gigantesco em campanhas de prevenção e distribuição gratuita de perservativos. A resposta do governo Bush, até agora, tem sido a mesma dos últimos anos: um investimento de mais de US$ 900 milhões em programas que promovem a abstinência sexual e condenam o sexo fora do casamento, em simetria com o ideário conservador e religioso tão caro aos neo-cons.

Portador do vírus H.I.V, o roteirista e ativista Larry Kramer se tornou um mito na comunidade homossexual norte-americana ao empacotar a casa do senador conservador Jesse Helms, nos anos 80, com uma grande camisinha amarela. Helms defendia a tese criminosa de que a AIDS chegara para castigar os gays e que eles mereciam tal flagelo por serem pecadores. Duas décadas e inúmeras leis de proteção aos pacientes com AIDS mais tarde, Kramer voltou à cena em grande estilo. Em uma palestra na Cooper Union que ganhou as páginas da "The New Yorker" ele disparou, sem medo, para uma platéia formada majoritariamente por homossexuais: "Vocês ainda estão, nos dias de hoje, e depois de tudo, matando uns aos outros. Por favor, parem com todas as generalizações e desculpas esfarrapadas. Os gays precisam lidar de uma vez por todas de maneira responsável com a AIDS".

A mensagem de Kramer é clara: enquanto pensam em avanços ainda mais significativos como o casamento gay, os homossexuais precisam incluir em sua agenda de direitos civis a velha máxima: sexo, sem camisinha, ainda mata. A cada ano, nos Estados Unidos, 40 mil pessoas são infectadas pelo vírus H.I.V.

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

Diretinho da Redação (3)

Olha a coluna da semana aí gente. Quem quiser conferir in loco deve passar pelo http://www.diretodaredacao.com/. O texto que entrou no ar hoje é sobre a política externa norte-americana. Lá no site também pode-se ler o texto de John Hemingway sobre o general ianque que declarou ser muito divertido matar. Vale a pena ler.


Supresa? Mas que surpresa?

Nos últimos 10 dias a mídia norte-americana tem celebrado diariamente o sucesso das eleições parlamentares no Iraque. A campanha do dedinho, deslanchada pelos republicanos, é um sucesso na internet. Você mostra o indicador e automaticamente apóia o processo eleitoral no Iraque ocupado. Por aqui há quase uma sensação de dever cumprido e de que, no fim, a democracia venceu as forças opressoras. Na lógica da opinião pública, de Seattle a San Diego e de Las Vegas a Savannah, o único senão é a vitória acachapante dos partidos políticos xiitas nas eleições iraquianas.

Mas por que a surpresa? Em uma eleição teoricamente justa e sem fraudes alguém duvidou de que a maioria da população iraquiana fosse votar de modo diferente? E quando atiça ditaduras aliadas na região - como o Egito e a Arábia Saudita – a fim de que elas rumem para a democracia, quem o governo Bush pensa que os árabes vão sufragar nas urnas?

Bem delineada pelo afiado Tariq Ali em artigo ontem no jornal britânico The Guardian (www.guardian.co.uk), a estratégia da política externa norte-americana para o Terceiro Mundo – a tal “promoção da democracia” – consiste na criação de uma nova elite (os “janízaros neo-liberais do Novo Império”) afinada com o pensamento neo-con predominante em Washington. Foi assim no Afeganistão, vai ser assim, em novembro, no Haiti.

As eleições constituintes do dia 30 de janeiro no Iraque, em última instância, não foram cerzidas para garantir a unidade do país do Oriente Médio, e sim para manter a aliança possível entre as potências ocidentais, entre os Estados Unidos da América e os Estados Unidos da Europa. Estes últimos – notadamente França e Alemanha – parecem ter encontrado no sufrágio de janeiro a desculpa perfeita para o estabelecimento de uma nova ponte com o governo Bush. Eles só não pareciam contar com o aiatolá Ali al-Sistani e seus seguidores xiitas, até o momento liderando as apurações com mais de 50% dos votos. Os xiitas ainda não disseram exatamente a que vieram, mas já avisaram: não querem estabelecer um estado laico no novo Iraque. Ah, a democracia.

quinta-feira, fevereiro 03, 2005

Abraço de Urso

O discurso do Estado da União, tradição secular da democracia norte-americana, transfigurou-se ontem em um pastiche dos programas comandados por evangelistas, tão comuns na televisão local. Ao lado da sorridente primeira-dama Laura Bush, sentaram-se na sala de discusos do Capitólio uma refugiada afegã, uma dissidente iraquiana cujo pai foi assassinado pela polícia secreta de Saddam Houssein, e um casal de norte-americanos, pais de um soldado morto na invasão do Iraque. Todos testemunhas da salvação promovida pelo fundamentalismo cristão republicano. Quando anunciou a presença da iraquiana, o presidente teve de conter o choro.

A platéia – dominada por seus auxiliares mais diretos, mas também composta por constrangidas estrelas democratas do Congresso, como os senadores Hillary Clinton e John Kerry – urrava em delírio. O transe coletivo teve seu auge com o abraço demorado dado pelos pais dos americanos à sofrida iraquiana. Pronto. O abraço, com direito a V de vitória e pausa para fotos, era o símbolo da reconciliação neste mundo imaginário criado pelos neo-cons de Washington. O teatro contou até mesmo com uma irônica ajuda da genética: no culto de ontem todos eram muito, muito gordos. A refugiada, os pais, boa parte da claque. Um detalhe a mais para compor o quadro de um espetáculo assustadoramente grotesco.

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

Diretinho da Redação (2)

Coluna da semana, saindo do forno. Quem quiser conferir in loco deve passar pelo www.diretodaredacao.com. O texto entrou no ar hoje e é sobre a indústria do casamento aqui nos Estados Unidos. Lá também pode-se ler o impressionante relato do colunista John Hemingway sobre a nova arma eletro-magnética utilizada pelos norte-americanos no Iraque, que faz a vítima sentir-se dentro de um forno de microondas.

Casar é Bom Negócio?

Você sabe quanto custa se casar aqui nos Estados Unidos? O presidente George W. Bush sabe. Ele propõe gastar US$ 1,5 bilhão em ações especialmente direcionadas para as camadas mais pobres da população, traduzidas especialmente em campanhas de valorização do casamento religioso. No momento em que Bush apresenta sua receita de bolo de noiva para “uma das instituições mais importantes da democracia norte-americana”, a união heterossexual, a deliciosa revista Mother Jones oferece em sua mais recente edição o primeiro reflexo de tão importante iniciativa: o incremento da indústria da maridagem, um negócio que já envolve US$ 50 bilhões por ano ao norte do México e abaixo do Canadá.

Um casamento típico por aqui não sai por menos de US$ 22 mil, conta com 168 convidados, que, por sua vez, dão cerca de 100 presentes no valor médio de US$ 85 cada. Mother Jones faz os cálculos e revela que o prejuízo médio no bolso dos noivos é de quase US$ 14 mil. A reportagem mostra também que, apesar de tamanho investimento, 43% dos que estão se casando pela primeira vez acabam se divorciando em no máximo 15 anos. Liza Minelli, por exemplo, gastou, segundo a revista, US$ 7 mil dólares/dia com seu quarto casamento. Também fica-se sabendo que Catherine Zeta-Jones impôs – exatamente como 20% das mulheres deste país – um contrato pré-nupcial com seu querido Michael Douglas. No caso de La Zeta-Jones, ela leva US$ 2,8 milhões para cada ano de casamento em caso de divórcio. A dupla não teve maiores problemas com a festa, que saiu pela bagatela de US$ 1,5 milhão. É que o casal vendeu fotos exclusivas para a revista inglesa Ok! por US$ 1,6 milhão e ainda levou algo em torno de US$ 24 mil depois de um processo em cima da revista Hello!, que publicou fotos não-autorizadas da cerimônia. Casar, como se vê, pode sim ser um bom negócio.

Ainda há outros dados curiosos – 83% das norte-americanas deixam seu sobrenome para trás e assumem o nome de família do marido, mas 61% delas pedem para não usar a palavra “obedecer” em seus votos. Não mais do que 38% dos cidadãos casados se dizem felizes. E se apenas 10% do dinheiro gasto no casório fosse aplicado em um fundo de investimento conservador, daria para custear a educação de uma criança até a faculdade aqui nos Estados Unidos.

Mas não adianta mostrar números, os americanos querem é casar. Prova disso é a quantidade absurda de reality shows dedicados a encontrar o parceiro ideal (a maioria destes shows inclui as despesas da festa para o casal vencedor). São exatamente 27 passando o dia inteiro nos canais a cabo e abertos deste país. Haja aliança!

Em tempo – os casamenteiros que quiserem fuçar as fontes da revista podem clicar em www.motherjones.com/news/exhibit/2005/01/12_400.html.

Eu Adoro

o blog Arenas Cariocas, de Olga de Mello. Leio sempre, os textos são deliciosos, tomara que ela continue atualizando as crônicas quase que diariamente. O endereço? http://www.arenascariocas.blogspot.com/

No Minimo

Hoje tem matéria no NoMínimo. Um passeio pelos corredores da Dexter House, o edifíco mais brasileiro de Manhattan. Cliquem – www.nominimo.com

quinta-feira, janeiro 27, 2005

Amo Muito Tudo Isso

A matéria do dia, para quem ainda não leu, está hoje em O Globo (http://www.oglobo.com.br/) e vai assinada pelos repórteres Ana Wambier, Marco Antônio Cavalcanti e Roberta Oliveira. Em uma sacada simples, desmascaram o boboca (polêmico é adjetivo a ser usado com mais parcimônia e oferecido a sujeitos com inteligência mais obesa) do Larry Rother entrevistando as senhoras tchecas que apareciam na foto da matéria do The New York Times que jurava que a garota de Ipanema não é mais a tal.

A partir dos dados do IBGE que detecataram um aumento da obesidade no país, nosso repórter favorito resolveu provar que a juventude dourada do Posto Nove está mais para turista do Meio-Oeste disputando Big Macs em Times Square. De novo um exemplo de péssimo jornalismo, de apuração malfeita e de um cacoete aqui do intocável NYT de que fazer reportagem em país de periferia é moleza, basta ter a idéia genial e conseguir encaixar um personagem aqui, outro acolá. Troféu Ronald Mc Donald’s de cara-de-pau do ano para o Rother.

Mas, como a gente odeia injustiça, quem sabe não é o caso de o seu Rother, que parece estressado, aproveitar o Carnaval para relaxar e ouvir boa música? Uma sugestão é o samba do bloco dos jornalistas cariocas, o Imprensa Que Eu Gamo, composto pelos colegas Marceu Vieira, Janjão e Fábio Nascimento, que diz assim: “Deu no New York Times/que a Garota de Ipanema é fofa/e viram nas morenas bundas flácidas/com celulites e culotes retumbantes/ que a nossa musa agora é uma baleia/sereia de antigos carnavais/’O Brazil não conhece o Brasil’/O Lula é presidente ou um barril?/Não gosta de cachaça/Não entende de mulher/O Larry Rohter, será que ele é?/VEJA, ISTO É a nossa ÉPOCA/Só tem PLAYBOY, não há MANCHETE nem VISÃO/Já não tenho mais emprego/Mas pelo menos me livrei do pescoção/No carnaval, eu faço frila/No Mercadinho, em liquidação/(Imprensa, meu bem)Imprensa Que Eu Gamo, meu bem/Cheguei a dez, mas já estou a mais de cem(e o Larry deu!)".

Aqui do frio de deizinhos negativos eu também boto o meu bloco na rua e amo muito tudo isso.

quarta-feira, janeiro 26, 2005

Diretinho da Redação

Coluna da semana, saindo do forno. Quem quiser conferir in loco basta clicar em www.diretodaredacao.com. O texto entrou no ar hoje.

Pau no Pobre!

Aqui, como aí, ninguém atura os pobres. Já explico. Esta semana um pobre-coitado desabrigado tentava se proteger do frio - que transitou em seus piores momentos pela casa dos 20 C negativos com uma tempestade de neve no meio - e acendeu um fogo amigo na parede de sua morada. Que vinha a ser um buraco utilizado diariamente por cerca de 600 mil nova-iorquinos, onde passam as linhas A e C do metrô, as azuizinhas. O resultado foi uma pane no sistema de transporte público da cidade e a interrupção por meses - alguns técnicos mais céticos falam em anos - da linha de trem subterrâneo que liga uma grande parte do Brooklyn (inlcuindo o aeroporto JFK) ao lado oeste de Manhattan.

Em um triste momento de comunhão, a mídia local, do liberal The New York Times ao conservador New York Post, resolveram botar a culpa no pobre. Pau no pobre! Ele, afinal de contas, não poderia estar acendendo uma fogueira em um dos corredores subterrâneos ao lado da estação de Chambers Street. Há, segundo estatísticas oficiais, centenas de desabrigados vivendo nos túneis subterrâneos do secular metrô da cidade. Pesquisadores e especialistas em urbanismo, no entanto, falam em milhares. Há famílias que vivem debaixo da terra, os chamados "ratos humanos". Não há uma linha nas principais publicações da cidade sobre a incapacidade da sociedade norte-americana de lidar com os desabrigados, os com-teto-público-mas-sem-luz, os "loosers", na cidade mais rica do planeta.

Para muitos nova-iorquinos, os desabrigados que povoam cada canto da cidade são encarados como "pós-hippies", uma gente que, por inspiração ou piração, resolveu abandonar a realidade e se alimentar do rico lixo de uma sociedade extremamente consumista. Gente que escolheu a miséria. E nem pense em argumentar que muitos deles têm problemas mentais graves. O que seria óbvio leva a uma impressionante discussão - nos sites, nos programas de entrevista na televisão, na página de cartas dos jornais - sobre a necessidade de se isolar esta gente, de tirar os miseráveis do metrô e transportá-los para alguma ilha distante ou "sanatório para pessoas especiais", como acaba de falar um liberal de casaca (e são tantos aqui) na televisão local.

Nova Iorque e os Estados Unidos não querem encararar algumas de suas mais graves deficiências. O espisódio desta semana, que me afetou diretamente, pois era um usuário fiel das linhas azuizinhas, escancara mais uma vez a fragilidade do sistema de segurança da cidade e cristaliza a imagem que o mundo já formou dos meus vizinhos como um todo - uma gente que só enxerga o miserável quando ele atrapalha, de forma tragicômica, a vida cotidiana de seus vizinhos privilegiados do mundo de riba.

segunda-feira, janeiro 24, 2005

Colorado de Ódio

Revólver em casa

Quem nunca viu um bom filme de bangue-bangue passado no Velho Oeste pode até se espantar. Já explico. Passei uma semana fora de Nova Iorque, zanzando em Denver e Bolder, nas cercanias de Aspen, no estado do Colorado, no oeste americano. Lá, George Bush venceu as eleições presidenciais de 2004 com 52% dos votos válidos. Lá, presenciei uma conversa animada entre duas senhorinhas da classe média sobre a necessidade de se manter em casa uma arma de fogo. As duas não vêem a hora de ir à loja mais próxima e escolher o modelo mais eficiente.

Bandoleiros de Colfax Avenue

Não adianta lembrar às duas louras – sim, as senhorinhas são, ou estão, perdoem-me a falha na apuração, amarelíssimas - que há muito desapareceram na areia do deserto as legendas de Jim Miller e Billy The Kid. O perigo, as senhorinhas me avisam, mora cada vez mais ao lado. São, é claro, os imigrantes. Não os asiáticos, “uma força de trabalho muito bem-vinda à nossa comunidade”, que além de tudo, me aponta uma delas, são “limpinhos”. O novo fora-da-lei do Oeste americano é hispânico, muito provavelmente mexicano, amontoado nas cercanias de Colfax Avenue, uma espécie de Praça Mauá de Denver, iluminada por decadentes casas-de-fama-suspeita durante a noite e mais comportada à luz dia, quando ostenta um pujante comércio-do-bom-e-do-barato.

Efeito Colateral

As senhorinhas não acreditam em números. Elas dão de ombros para os estudos que mostram a altamente treinada polícia estadual como uma das campeãs no abate de inocentes ao caçar bandidos pelas tardes coloradas. Com um sorriso de canto de boca, as senhorinhas deixam escapar que é preciso entender estes equívocos como “efeito colateral”. Igualzinho aos iraquianos mortos naquele distante país do Golfo Pérsico. Efeito colateral, me dizem, na lata.

O Rio era lá

Uma merda a América Profunda? Vai ver alguém me explica em bom e claro português por que cargas d`água saí de Denver com a sensação de que tinha batido um dedo de prosa, azar o meu, com duas patricinhas de Ipanema. Experimenta voltar no texto e trocar ‘hispânico’ por ‘favelado’, ‘mexicano’ por ‘mulatinho’, ‘asiático’ por ‘empregada doméstica’ e ‘efeito colateral’ pelo quê mesmo?





Um Blog Um

***

Como todo mundo viu, a revista Time enxergou em George W.Bush a personalidade de 2004. Na edição da última semana do ano que passou o colunista Andrew Sullivan resolveu tratar dos blogs, outro destaque do ano. Também editor da The New Republic, ele ontem assinou a capa do caderno de livros do The New York Times, em uma resenha sobre duas publicações que tratam de um dos mais vergonhosos episódios deste “ano de Bush” – a tortura a prisioneiros iraquianos. O onipresente escriba (ele também dá as caras no http://www.andrewsullivan.com/) sentenciou, no texto “O Ano dos Rebeldes”, que os blogs viveram sua ascensão e queda no ano que passou.

Como Assim?


Sullivan diz que o auge do poderio dos blogs teria sido a demissão do gente-boa Dan Rather do principal jornalístico da televisão norte-americana, o 60 Minutes, por conta de informações incorretas acerca da maneira como Bush filho teria escapado, com providencial ajuda de Bush pai, da Guerra do Vietnã. Foram os blogs que detectaram a origem fraudulenta do documento apresentado no 60 Minutes, causando uma crise sem precedentes no jornalismo da CBS. Já o resultado das eleições que dividiram o país ao meio, com a vitória conservadora, representa a derrota da “estratégia de guerrilha dos blogs, que seguirão à margem, pois, como guerrilheiros que são, não estão a fim de governar, mas de acertarem o que vêem pela frente”.

No pasarán!


Balela. A blogosfera é uma ferramenta preciosa para os que buscam notícias instantâneas com riqueza de detalhes e uma boa dose de calor humano, cada vez mais ausentes dos flashes insossos disparados a todo momento pelas agências de notícia em tempo real. É assim no Iraque e no Afeganistão, foi assim na Ucrânia, com blogs como o Rascunho da Neeka (http://vkhokhl.blogspot.com/), da jornalista Veronika Khokhlova, a quem tive a felicidade de entrevistar mês passado nos domínios do NoMínimo (http://www.nominimo.com/).

Vai no Fred


Na hora de relatar as histórias do cotidiano, do dia-a-dia de quem enfrenta o desastre, também está sendo difícil superar a cobertura dos blogs da tragédia do Sudeste Asiático, com o Tsunami que dominou o noticiário nas últimas semanas. Foi no blog do Fred Robart, o Desse Jeito Por Favor (www.thiswayplease.com/extra.html), que se viu primeiro as fotos de barcos destroçados na costa do Sri Lanka, para desespero dos pescadores de Jaffna. Robart conta a história de homens que aprenderam a conhecer todos os segredos do mar e que agora têm medo de voltar a exercer seu trabalho regularmente. Vale a leitura.

Mais Um Blog Um


Como vocês viram, começaram hoje os trabalhos do http://www.edudobrooklyn.blogspot.com/, com textos em português criados a partir do terraço aqui de casa, na ponta de Long Island, com vista para Manhattan, com direito ao World Trade Center e ao espaço vazio em que reinavam as Torres Gêmeas. O convite taí. Quem quiser que me acompanhe.