sábado, maio 02, 2009

ENTREVISTA/José Padilha

Já está no Terra Online a entrevista que fiz com José Padilha, o diretor de Tropa de Elite, sobre seu mais recente documentário, Garapa, em cartaz hoje aqui no Festival Internacional de Cinema de Tribeca, em Nova Iorque.

Padilha elogia o Fome Zero, fala de seus novos projetos - incluindo um filme sobre a corrupção na política nacional, que deve começar a rodar logo - e do impacto de seu filme nos grandes centros urbanos do planeta.

Ele também diz que ainda não sabe se
Tropa de Elite 2 sairá mesmo do papel.

Segue o conversê:

Cinema e DVD
Sábado, 2 de maio de 2009

"'Garapa' muda a maneira com que o público vê a fome", diz Padilha
Eduardo Graça/Especial para Terra

Principal estrela do cinema brasileiro na oitava edição do Festival Internacional de Cinema de Tribeca, em Nova York, José Padilha, diretor de Tropa de Elite, premiado com o Urso de Ouro no Festival de Berlim do ano passado, trouxe para Manhattan seu mais recente documentário.

Em Garapa, ele acompanha o dia-a-dia de três famílias que enfrentam a fome no nordeste brasileiro. O filme, que será apresentado para o público amanhã no Festival, impressionou a platéia na exibição para convidados e imprensa.
A reportagem do Terra conversou com o diretor de Ônibus 174 na Rua 13 da Big Apple, sobre os problemas sociais do Brasil, o distanciamento que nova-iorquinos, paulistanos, cariocas e qualquer morador dos grandes centros urbanos brasileiros têm com a fome e seus novos projetos. Garapa estréia nos cinemas brasileiros ainda este mês.

Como foi a reação do público às sessões de Garapa aqui em NY?
Muito semelhante a Berlim. Um silêncio muito grande, muitas pessoas balançadas. Os caras estão vendo uma realidade que é dramática para aquelas três famílias, mas também são informados que aquela é a realidade de uma em cada sete pessoas no planeta. E se perguntam: por que não estamos resolvendo isso?

Você acredita que o filme faça os americanos redimensionarem o drama que vivem neste momento, com uma crise financeira ainda de proporções desconhecidas?
Não. Garapa nada mais é do que um filme em que eu acompanho três famílias que vivem numa situação de insegurança alimentar grave, para usar a classificação da ONU. E o objetivo é mostrar o dia-a-dia destas famílias enquanto o público entende o que é enfrentar a fome. Não de uma maneira intelectual - é só entrar na internet e ver os números - mas como um encontro pessoal. Você não vai aprender sobre a fome do anônimo, como na estatística. Você vai ser apresentado a personagens reais de um filme, vai gostar deles e vai sentir o que significa ver alguém que você 'conhece' não ter o que comer. E isso muda tudo. Garapa muda a maneira com que o público vê a fome.

Imagino que a reação do público não seja muito diferente à de NY em grandes centros como Rio e São Paulo...

Hoje em dia é possível separar as populações entre pessoas que estão integradas na economia global e as que estão à margem. Não há convivência entre o primeiro grupo e as pessoas com insuficiência alimentar grave. Embora os números sejam chocantes, essa gente não tem amigos ou parentes que passam fome.


Você já tinha tido contato direto com a fome antes de Garapa?
Não. Li, pesquisei e estudei muito o assunto. Mas nada me preparou para conviver com a fome diariamente. E esta, creio, é a realidade do público também. E isso explica por que ainda existe a fome. Se entendêssemos o quão terrível é a situação destas pessoas, já teríamos feitos um esforço imenso para resolver o problema da fome no planeta.


Como você vê o Programa Fome Zero?
Vejo muitíssimo bem. O grande acerto do governo Lula foi a ampliação do Bolsa Família. Foi a política de transferência de renda para ajudar estas famílias mais miseráveis. E teve resultado. O número de pessoas com insuficiência alimentar grave diminuiu. Até de um ponto de vista humanitário, foi a coisa a certa a se fazer. Agora, resolveu o problema? Dizer que o Lula erradicou a fome no Brasil, como tem gente que diz, não é verdade. Dentro do universo dos que recebem o Bolsa Família, cerca de 55 milhões de pessoas, ainda há 11,5 milhões vivendo em situação alimentar grave, de acordo com a pesquisa do Ibase-VoxPoppuli. E isso é um fato. Gosto do Bolsa Família, mas isso não significa que eu subscreva o governo do PT.


Não seria a hora de a sociedade civil brasileira se mobilizar de forma mais direta na erradicação da fome no Brasil?
Existe uma proposta de emenda constitucional (PEC) apoiada pelo Conselho Nacional de Segurança Alimentar para incluir alimentação como obrigação constitucional. Hoje, não é. Isso teria um peso simbólico, uma ONG poderia processar o governo, por exemplo, se provar que há toda uma população sem acesso ao alimento. Gostaria de ver o governo do PT e lideranças do Congresso apoiando esta PEC.


Que, como você enfatizou, seria, de todo modo, um ato simbólico...
Sim, pois a erradicação da fome, como sabemos, é essencialmente um problema de alocação de recursos. Se o mundo priorizasse recursos a partir de padrões humanitários, não haveria fome. De acordo com a FAO seriam necessários US$ 30 bilhões para erradicar a fome que retrato em Garapa. E o mundo gasta mais de US$ 1 trilhão/ano em armas. Gastou recentemente para salvar os bancos o que daria para garantir um século sem fome na Terra. Veja bem, não estou dizendo que não se precisa salvar os bancos, mas exemplificando que, quando achamos que determinado problema é importante, fazemos. Não se acha que a fome é importante. A PEC acaba forçando esta questão a ser prioritária.


Quanto tempo você passou com as três famílias do Ceará retratadas em Garapa?

Fiquei 45 dias filmando e indo de uma família para outra. Queria cobrir 30 dias de cada família. E demorou muito para finalizar, pois só tinha dinheiro para filmar. Até conseguir finalizar foram alguns anos.

As famílias já viram o resultado?

Já, assim que ficou pronto. Eles estão vendo algo que já sabem como é. É como se estivesse filmando minha própria família e mostrasse, é mais curioso para eles do que surpreendente. Quando fui explicar o projeto, o primeiro raciocínio é que milhões de pessoas os veriam. Será que vai passar na Globo? Precisei explicar que ele não será tão visto quanto eles imaginariam.

Padilha: ajuda a personagens de seus filmes


Garapa
terá lançamento aqui nos EUA? Houve uma certa frustração pela maneira como Tropa de Elite foi divulgado no mercado americano...

Tivemos um problema com a Weinstein Co., que ficou mal das pernas e não lançou vários filmes que tinha o direito de distribuição nos EUA, não apenas o Tropa de Elite. Mas o filme foi lançado internacionalmente muito bem, inclusive na Europa. Quanto ao Garapa, estou tentando ao máximo, vou conversar com o pessoal do Film Fórum aqui em NY, mas sei que não é um filme fácil.


Coincidentemente, eu conversei esta semana com o ator Taylor Kitsch, que vai viver no cinema o fotógrafo sul-africano Kevin Cartner, famoso pela foto da criança africana faminta próxima de um abutre, publicada na primeira página do The New York Times. Cartner, que acabou se suicidando, foi muito criticado por ter feito a imagem ao invés de simplesmente ajudar a criança à beira da morte. Há algum paralelo entre este dilema ético e sua experiência com as famílias retratadas em Garapa?
Para mim nunca existiu uma questão se eu iria ou não ajudar estas famílias. Era óbvio que eu iria. Como iria fazer um filme destes sem ajudá-los? Obviamente não consigo resolver todos os problemas deles. Ninguém vai resolver alcoolismo com dinheiro, por exemplo. Não gosto de ficar falando da ajuda porque o foco sai do filme para discutir o que eu fiz ou deixei de fazer, mas, antes de mais nada, o filme não é meu. É das três famílias. Tudo o que o filme ganhar é deles.

O dinheiro vai diretamente para eles?

Não, você não pode dar um bolo de dinheiro para estas famílias assim. Teremos uma ONG, com assistentes sociais que ajudarão a definir prioridades. Além disso, desde o fim das filmagens, mandamos uma ajuda todos os meses. Estamira, por exemplo, a ajudamos desde o dia em que a conhecemos. Pessoas do Ônibus 174 me pedem ajuda, dentro das minhas possibilidades, claro que estou pronto para ajudar! E a razão é simples: eles são meus amigos, não tem nada a ver com o cinema. O filme é apenas o evento que me levou a conhecer estas pessoas.


Você chegou a provar garapa?

Água com açúcar é uma coisa comum, na infância a gente toma para 'ficar calmo', lembra? Agora, tomar garapa é uma coisa, viver de garapa é outra completamente diferente.


Depois de Garapa o que vamos ver de José Padilha em breve nas salas de cinema?

Em breve eu não sei, mas tenho um documentário cujo tema é caro à antropologia na ilha de edição, que estou terminando de montar. O nome provisório, que vou mudar, é Povos Selvagens, uma história que se passa na Amazônia venezuelana, sobre os vários antropólogos que estudaram os índios yanomâmi pelos mais diversos motivos, de 1964 a 1993. O filme é focado na relação entre os antropólogos e os índios yanomâmi. Também estou terminando um roteiro, uma adaptação de um livro, para a empresa Plan B, do Brad Pitt. Chama-se Marching Powder.


Você escreveu o roteiro em inglês? É mais complicado
?
Terminei o roteiro em português e na semana que vem acabo a tradução que eu mesmo fiz e, se de fato ele acontecer, serei o diretor. Os diálogos são um pouco mais complicados, mas como traduzo do português que eu mesmo criei, é um processo tranqüilo. Don Cheadle será o ator principal. Ele viu Tropa de Elite, e me convidou para adaptar o livro. É a história de um traficante de Liverpool que é preso ao tentar sair da Bolívia e é colocado naquela que é considerada a mais maluca prisão do planeta, a de San Pedro, em La Paz. Mas não me pergunte mais porque não quero contar o filme todo com tanta antecedência. (O livro foi escrito à quatro mãos pelo tal traficante, Thomas McFadden, e o escritor australiano Rusty Young).


Você também tem um projeto com a Universal Pictures...

Sim, aí é um filme grande, com os roteiristas que escreveram Homem de Ferro. É a adaptação de um livro póstumo do Robert Ludlum, The Stigma Protocol. Diria que é uma espécie de Jason Bourne, um filme de conspiração, na linha de Os Três Dias de Condor e Maratona da Morte. Estou conversando com vários atores, aproveitei para sentar com eles aqui e em L.A., mas ainda não fechamos nada.


"Faço filmes sobre temas que me angustiam", diz Padilha


E filmagens no Brasil? E o Tropa de Elite 2?

O Tropa 2 ainda é uma incógnita na minha cabeça. De qualquer modo, antes de ele acontecer, se acontecer, tenho o filme com o Luiz Eduardo Soares, Nunca Antes Na História Deste País, e dá para adivinhar pelo título que é uma história sobre a corrupção e a política brasileira. Imagino como uma Tropa da Elite da política.


Novamente com o Wagner Moura?

Tudo o que eu puder fazer com o Wagner, farei. Por exemplo, tem um personagem brasileiro que é dele, se ele quiser, em Marching Powder. Seria genial fazer com ele, que é um grande ator.


Como você escolhe os filmes que faz?

São sempre temas que me angustiam. Não fico pensando, em casa, qual o próximo problema social que vai me levar a um filme. Às vezes o filme me acha. Estava na esteira da academia correndo quando um cara seqüestrou um ônibus e apareceu na televisão. Aí eu conheço os policiais do BOPE que começam a me contar a vida deles. Aí um amigo do Ibase, o Chico Menezes, me diz que era preciso fazer um filme sobre a fome do ponto de vista de quem passa fome. Pensei: vou fazer! É mais ou menos assim que acontece.


Qual é a opinião do cidadão Padilha sobre corrupção e política brasileira? Você vota em algum partido político com mais freqüência? Há alguma figura política que o tenha animado recentemente? Você se envolve de fato com a política?
Acabo me envolvendo porque muitas vezes os políticos, quer eu queira quer não, se posicionam sobre os temas que trato em meus filmes. Mas jamais faço um filme com agenda política. Meus filmes não são partidários. Não tenho partido algum. No Ônibus 174 mostro que a maneira como a sociedade tratou o Sandro explica o que ele fez naquele ônibus. Em Tropa de Elite é entender como um policial pensa. Como ele vê a sociedade. Como a polícia funciona. E, claro, o processo eleitoral brasileiro faz quase que uma seleção ao contrário...


Como assim?

Se você conseguir passar por este processo e virar um político, muito provavelmente você tem propriedades que não são muito boas para o seu eleitor. É um pouco sobre esta idéia que é o Nunca Antes. O Luiz Eduardo Soares, por exemplo, que hoje é secretario municipal de Segurança Pública em Nova Iguaçu, é um cara que admiro, mas que dificilmente se tornaria presidente do Brasil, por exemplo, porque é muito do bem. Ele não tem as características necessárias, não faz os negócios necessários para tanto. Mas ele ainda tem aquela idéia do sacrifício, ele pensa que se não se meter com aquelas pessoas as coisas ficarão ainda piores.

ENTREVISTA/Clive Owen


A CONTIGO! publicou a entrevista que fiz com Clive Owen, durante lançamento de Tama Internacional, filme ainda sem data de estréia nos cinemas brasileiros. E o inglês dos olhos de ardósia, torcedor famático do Liverpool, falou da crise financeira mundial. Os bancos, afinal, são os grandes vilões do filme, dirigido por Tom Tykwer, de Lola, Corra, Lola.

Owen, que fez a linha 'não me amarra dinheiro não' revela ainda que foi um cabeludo na juventude e adora a comparação com o Dirty Harry de Eastwood.

Clive Owen

Astro Sem Crise

Um dos mais elegantes de Hollywood, o astro inglês sabe que o mundo passa por
um caos financeiro sem precedentes, mas afirma que nunca se venderia por um bom salário

Por Eduardo Graça, de Los Angeles

Clive Owen, 46 anos, já enfrentou guerreiros bárbaros com espadas (Rei Arthur), um futuro fascista ao extremo (Filhos da Esperança) e até o espião Jason Bourne (A Identidade Bourne). Mas nenhum vilão é tão temido quanto o que o astro luta contra em Trama Internacional e Duplicidade, seus dois grandes filmes de 2009: a crise financeira global.

No primeiro, Owen vive um agente da Interpol investigando assassinatos cometidos a mando de um conglomerado financeiro. No segundo, ganha a ajuda de Julia Roberts, 41, para garantir a aposentadoria de seu espião. Queimado pelo sol do Caribe, onde passou as férias, vestindo um terno Giorgio Armani e esperando o fim da entrevista para tomar um drinque na piscina do hotel, Clive diz viver ''em estado de saudade permanente'' da mulher, a atriz Sarah-Jane Fenton, e das filhas, Hannah, 12, e Eve, 9, que vivem em Londres. Pelo visto, a crise global não atingiu o ator inglês. ''Dinheiro não tem essa importância toda para mim'', garante. ''Mas a conta telefônica é estratosférica!”
.


- Seus filmes mais recentes passam a impressão de que você gosta de se cercar de um ambiente sombrio...
- Isso deve ser o reflexo de uma atração que tenho por personagens mais complexos. Papéis de gente muito leve, muito tranquila, acabam me passando a impressão de que não terei muito o que fazer em cena.

- Trama Internacional foi filmado antes de a crise financeira estourar, mas a história é atual. Como no filme, os bancos são os grandes vilões da realidade?
- Sim! Esse é meu filme que mais funciona como uma crônica de nosso dia-a-dia. Trata de grandes questões do momento, da complexidade do sistema financeiro, da globalização, e procura descobrir aonde vai nosso dinheiro.

- E como você lida com o seu dinheiro?
- Do modo mais simples possível. Não tem essa importância toda para mim. Sério! Tenho uma filosofia de trabalho que vem desde o início da minha carreira: jamais aceitei fazer qualquer trabalho por dinheiro. Nem uma única vez. Esse é o guia de minha relação com o dinheiro.

- Mas nem no início de sua carreira?
- Ah, sim. Claro, não é? Qualquer filme que me fosse oferecido, qualquer um mesmo, eu topava. Estava me referindo ao momento no qual passei a poder escolher projetos. Juro, jamais optei pelo que me pagaria mais ou que pudesse ter maior bilheteria. Minha relação com o dinheiro sempre foi bem simples: confiar no meu feeling e trabalhar direitinho. O resultado, inevitavelmente, chega.

- Olhando para o cenário da crise, você se considera um homem de sorte por passar temporadas em Los Angeles, tomando drinques à beira da piscina do hotel?
- Todos os dias de minha vida. É esse o pensamento que mais me vem à cabeça quando estou trabalhando aqui. Agora, sempre encarei meu emprego da maneira mais séria possível e, honestamente, esse tipo de sucesso, de reconhecimento, não era o que eu buscava. Queria apenas trabalhar bem.

- Já que não é o salário, o que pesa de fato na hora de decidir seu novo projeto?
- Tenho de gostar dos roteiros que leio, mas logo entendi que cinema é uma mídia do diretor. Não vou mentir, escolho meus projetos pelo nome de quem vai dirigi-los. Não vou dar nome aos bois, mas já desisti de fazer mais de um filme porque não confiava no diretor. A lógica é simples: se você estiver nas mãos de um diretor ruim, as chances de o longa ser terrível são muito maiores.

- Por causa de suas escolhas mais recentes de filmes, fica-se a impressão de que você é uma espécie de Dirty Harry - personagem clássico de Clint Eastwood - mais intelectualizado...
- (Risos) Adorei isso! Sim, um Dirty Harry mais cabeça, que engraçado!

- E você foi assim antes do casamento e de virar pai? Um jovem durão e matador?
- Não, nem um pouco (risos). O oposto, diria. Quando jovem, eu pintava o cabelo e fazia uma linha mais David Bowie, bem maluquinho (risos). Ah, a juventude...

- Você sente falta de alguma coisa quando está filmando?
Da minha família, o tempo todo. Hannah e Eve não podem mais deixar o colégio para viajar e ficam com Sarah-Jane em Londres. Morro de saudades das três. Ficamos em contato o dia inteiro. A conta telefônica é estratosférica.



ENTREVISTA/Barry Libert

O Valor Econômico publicou neste fim de semana, na revista Eu&Cultura, a entrevista que fiz com o especialista em redes sociais Barry Libert. O homem lançou aqui nos EUA em janeiro Obama Inc., em um lance inegavelmente oportunista, transportando o fenômeno Obama às prateleiras de auto-ajuda para empresários e políticos. Como sabemos, desespero não falta, aqui e aí, nas duas classes.

O resultado é uma espécie de manual em que as virtudes de Obama servem de fórmula para o sucesso de empreendedores mundo afora. Tenho lá minhas dúvidas, mas Libert é simpático e fala bem, até dando dicas para virtuais candidatos ao Palácio do Planalto no ano que vem.


Ó só:


Na quarta-feira, o presidente Barack Obama completou 100 dias na Presidência dos Estados Unidos, marco simbólico presente no imaginário americano desde quando Franklin Delano Roosevelt chegou à Casa Branca, em meio à Grande Depressão, no começo dos anos 1930. Celebrado pelos democratas por conta de sua aceitação popular na casa dos 65%, o ex-senador de Illinois e sua meteórica ascensão são a matéria-prima de A Estratégia de Barack Obama, lançado nos Estados Unidos em janeiro e que a Campus/Elsevier publica
esta semana no Brasil.

Barry Libert e Rick Fault, os autores do livro (cujo título original é o mais inspirado "Obama, Inc."), são nomes imediatamente relacionados ao desenvolvimento e à administração de comunidades interativas no mundo digital: ocupam, respectivamente, a presidência e a chefia executiva da empresa Mzinga, especializada em criar soluções de software para redes sociais de empresas.

O
Valor conversou com Libert sobre as iniciativas de Obama nos primeiros três meses de governo e o impacto que sua vitoriosa estratégia de campanha, em grande parte apoiada em recursos de comunicação encontrados na internet, pode ter causado nos modos de se pensar o gerenciamento de empresas e também na formatação de disputas eleitorais em outros países.

Valor: O sr. teve a ideia para escrever o livro durante a campanha eleitoral?
Barry Libert: O senador John McCain, o candidato republicano, sequer sabia como usar a internet. E em um primeiro momento, a senadora Hillary Clinton parecia, até por ser mulher, saber como se comunicar melhor com o eleitor. Mas o livro surgiu quando comecei a escrever em meu blog sobre a emergência do primeiro líder social dos Estados Unidos no século XXI. Um político que se apropriava das novas tecnologias de forma brilhante, que entendeu como poucos o poder da interação social no mundo digital. Quando ele foi eleito, decidi que queria escrever um livro que tratasse dessa revolução na administração de uma campanha eleitoral, mas que não apenas registrasse o fato de ele ter usado o Myspace, o Youtube e seu próprio Mybarackobama.com com maestria, mas que mostrasse que todo profissional com papel de liderança poderiam aprender a importância de ser um líder social.

Valor: Quais as qualidades do líder social?
Libert: Ele é aquele que entende que negócios - e governo - são, sim, assuntos pessoais. Quando alguém diz a Barack Obama "eu te amo", e ele responde "eu te amo também", está aí uma mensagem tão íntima quanto efetiva. Já vivemos a era daquele que se dizia não ter nada de que se desculpar, por que era o comandante-em-chefe do país. Essa época acabou. Se eu disser para minha mulher, depois de 27 anos de casamento, "querida, sou o comandante-em-chefe", ela me despacha na hora. Não consigo pensar em nenhum outro governante com a capacidade de
comunicação de Obama, o único líder social planetário no momento, ao mesmo tempo transparente e com força pessoal.

Valor: O USA Today, em sua edição que marca os primeiros 100 dias de Obama na Casa Branca, diz que o segredo de seu sucesso parece ser "um equilíbrio entre descontração e firmeza, a vontade de exercer o poder e a capacidade de sedução, o cultivo de um tom professoral, quase ao ponto de se mostrar alheio aos interlocutores, sem perder a capacidade de negociar pequenos detalhes, jamais esquecendo de seus objetivos centrais à frente". São estas as características fundamentais, hoje, na administração de um país ou de um negócio de ponta?

Libert: Sim. Obama compreende que o grande desafio de seu governo - e de qualquer modelo de administração nos dias de hoje - é se mostrar próximo de todos, mas sem deixar de fazer o seu trabalho, de cumprir seus objetivos. E este é um equilíbrio muito difícil de alcançar.


Valor: Uma das grandes inovações da nova administração tem sido o uso do YouTube como ferramenta de comunicação direta com o público. Não há aqui um risco de populismo no contato direto do presidente com os cidadãos, com a eliminação da figura do jornalista como mediador?
Libert: Obama não usa mais nem mesmo a bancada do governo, na Casa dos Representantes, onde tem folgada maioria, por exemplo, para levar sua mensagem para o público. Os congressistas, como sabemos, têm seus próprios interesses. E nas democracias contemporâneas o mundo dos negócios e o da política têm sido cada vez mais voltados para o interesse desses protagonistas, e não da comunidade ou dos consumidores. Obama oferece uma volta à ideia do governo do povo, com o povo, para o povo. E o mundo dos negócios precisa entrar nesse barco: negócios do povo, para o povo, com o povo. O descompasso, aí, foi uma das razões da atual crise financeira. Não por acaso, muitos dirigentes empresariais e financeiros estão assustados com a realidade dos novos modos sociais de comunicação.

Valor: Quais são as principais lições que as empresas podem tirar da vitoriosa campanha de Obama?
Libert: São três lições básicas. A primeira, manter-se sempre calmo. Comandar não pressupõe raiva, zanga. Outra: liderar pelo exemplo. Seja coerente. E a terceira: use toda a tecnologia disponível para se conectar com as pessoas individualmente, abrindo espaço para que cidadãos se conectem diretamente com você de forma íntima. Pense na Garota Obama, que se transformou em fenômeno na internet ao gravar vídeos confessando que tinha uma queda pelo senador. Pense que campanha de base, hoje, também é feita na mídia eletrônica. E você precisa ser o agente da mudança. Se você quer que as pessoas usem "twitter" ou achem você e sua empresa no myspace, o movimento tem de começar com você.

Valor: A internet de banda larga, no Brasil, é considerada por especialistas uma das piores do mundo, lenta e cara. As lições pinçadas em seu livro não seriam menos aplicáveis à realidade brasileira?
Libert: De modo algum. O livro oferece aos brasileiros pistas de para onde o mundo dos negócios está indo. É impossível evitar as novas tecnologias. A internet, mesmo a que chega através dos celulares, aumenta a velocidade de tudo e oferece mais oportunidades de que a voz do eleitor, do consumidor, do cidadão, seja melhor ouvida. É inevitável. E, exatamente, como democracia, se espalha por conta própria.

Valor: Várias empresas brasileiras sequer permitem que seus funcionários tenham acesso a redes sociais como myspace ou que usem ferramentas como mensagem instantânea no local de trabalho...
Libert: Isso acontece nos Estados Unidos também, e é um erro. Construo redes sociais para as mais diversas companhias e a resistência é enorme. É a visão tradicional, de quem não quer dar voz aos funcionários. Comete-se o claro e terrível erro de se preferir não ouvir o que o empregado tem a dizer. O benefício de se abrir uma rede social para funcionários e clientes é o de se contar com consumidores mais integrados, que comprarão mais, empregados mais conscientes do projeto da empresa e acionistas cientes do caminho trilhado pela instituição.

Valor: De que modo os candidatos à sucessão do presidente Lula podem se inspirar na campanha de Obama para a disputa presidencial de 2010 no Brasil?
Libert: Obama conseguiu a contribuição recorde de US$ 800 milhões fazendo com que as pessoas acreditassem estar criando, de fato, o sucesso daquele político. Ele apostou, de modo certeiro, que o futuro é das grandes comunidades sociais. Um candidato ao poder em Brasília, sendo inteligente, vai deixar que as pessoas criem suas próprias marcas relacionadas a ele, como fez a Garota Obama. Vai abrir um espaço real para que as pessoas tenham voz em sua campanha. Vai redefinir a noção de participação. E vai deixá-las usar a criatividade em seu benefício. Enfim, a ordem é deixar que eleitores e consumidores carreguem a sua marca por você.

E Assim Nasceu o Violão

Há duas belas canções no novo disco de Nana Caymmi, além da versão novelesca de Não Se Esqueça de Mim, com meu querido Tremendão. Uma é Senhorinha, de Guinga e PC Pinheiro, que sempre me remete ao Vale do Paraíba fluminense. Doce, triste, presa a um passado que não voltará jamais mas com um pingo de esperança no fim. Não me emociona tanto quanto a interpretação de Zezé Gonzaga, mas o arranjo de Cristóvão Bastos é primoroso.

A outra, que descobri via Mauro Ferreira, e seu ótimo diário musical, é Violão, novamente de PC Pinheiro, agora com Sueli Costa. Uma historieta românitica sobre o nascimento do instrumento musical, a partir das curvas de uma bela mulher.

Diz assim: E o artesão finalmente/Nesta mulher de mandeira/Botou o seu coração/E lhe apertou contra o peito/Deu-lhe um nome bonito/E assim nasceu o violão

Uma maravilha. E o violão de João Lyra, na faixa, consegue a proeza de nos fazer prestar tanta atenção em seu dedilhar quanto à voz da filha de Dorival.

No mais, o disco desceu quadrado, sem muitas surpresas. E olha que nem xio com os boleros, sou fã de Lucho Gstica & cia.

Ouvir Nana, de longe, é sempre um bálsamo. Saudades do Brasil.

quinta-feira, abril 23, 2009

ENTREVISTA/David P.Gushee

O Terra Online publicou minha entrevista com o simpático professor de Ética Cristã da Universidade de Mercer, David P. Gushee, presidente da ONG Evangelicals For Human Rights, um dos nomes mais conhecidos do grupo de 'moderados evangélicos' que apoiaram a candidatura de Barack Obama à presidência no ano passado.

Aqui ele conta um pouco da corda-bamba em que anda o presidente mais liberal dos EUA em duas décadas, e aponta para uma possível explosão de conflitos éticos nos próximos meses aqui em Obamalândia.


Curiosamente, ele toca em tema que é recorrente no Brasil, a posição da Igreja Católica contra o uso de preservativos - inclusive para a prevenção de doenças venéreas e da AIDS - e a posição mais progressista dos evangélicos.

Ó só:

Sim às células-tronco afasta Obama de evangélicos moderados

EDUARDO GRAÇA

Direto de Nova York


Um aviso. E daqueles bem diretos. Em artigo publicado na segunda quinzena de março no USA Today, o jornal de maior circulação dos Estados Unidos, o professor de Ética Cristã da Universidade de Mercer, no estado da Geórgia, David P.Gushee, já dizia a que vinha no título: Presidente Obama, nós Precisamos Mais do que Discurso. Gushee, que é batista e presidente da organização não-governamental Evangelicals For Human Rights, dizia em seu artigo em tom de advertência que 'evangélicos moderados' como ele estavam desapontados com as primeiras medidas da administração Obama em assuntos caros à comunidade cristã, como o aborto e a pesquisa com células-troncos de embriões.


A escolha da governadora democrata Kathernine Sibelius, uma católica favorável ao direito de as mulheres decidirem se querem ou não abortar, para a secretaria da Saúde - cargo equivalente ao do ministro José Gomes Tinhorão no Brasil - e o anúncio das revogações de políticas adotadas com pompa pelo governo Bush, como a proibição de se enviar fundos federais para organizações que promovam o direito ao aborto e as restrições às pesquisas com células-tronco embrionárias, alarmaram os evangélicos centristas, importantes na vitória apertada de Obama em estados mais conservadores, como Colorado, Virgínia e Indiana.

Especialistas acreditam que este grupo representa cerca de 6 milhões de eleitores em todo o país, concentrados nos chamado swing states, que ora votam com a direita, ora com a esquerda.
Desde o início da campanha eleitoral, Obama contou com o jovem reverendo Joshua DuBois, um líder pentecostal, para estabelecer uma ponte entre sua candidatura e cristãos moderados, tanto protestantes quanto católicos. A brecha na coalizão cristã, que votou em peso em George W. Bush nas eleições de 2000 e 2004, levou a números significativos: nas eleições de novembro, Obama praticamente dobrou o número de eleitores evangélicos caucasianos entre 18 e 44 anos em relação a John Kerry há cinco anos.

Gushee, autor de O Futuro da Fé na Política Americana, constatou uma 'divisão de gerações' entre os evangélicos que enfraqueceu a coalizão republicana. Mas lembra agora que a dificuldade do governo Obama em encontrar um meio-termo para suas políticas sociais - por exemplo, cumprindo a promessa de campanha de criar iniciativas voltadas para a prevenção e redução do aborto - pode aliená-lo de uma base importante para as ambições futuras do Partido Democrata.

Mais preocupado com uma crise moral gerada pela ausência de salvaguardas para os moderados - por exemplo, o respeito do governo a médicos cristãos que se recusem a fazer aborto - do que em uma concentração ainda maior de evangélicos apoiando o Partido Republicano já nas eleições de 2010, quando boa parte do Congresso será renovada, Gushee conversou com o Terra sobre as guerras culturais que teimam em permanecer no centro do tabuleiro político norte-americano.


- O título de seu artigo na página de Opinião do USA Today é bem forte. O senhor acredita que parte dos chamados evangélicos moderados já se sentem traídos pela administração Obama em pouco mais de dois meses de governo?

- O mais correto seria dizer que estamos preocupados. Tememos não conseguir mais nada além do que palavras. Palavras e nada mais. Mas não estamos convencidos de que esta seja a instância final do governo Obama. O artigo representa um preocupação de que as promessas que o presidente fez durante a campanha e a esperança que ele nos despertou em termos de encontrar um caminho do meio não sejam de fato realizadas. Mas, ao contrário dos mais conservadores, não desistimos de Obama. Não acreditamos que ele seja falso ou um mero impostor, como a direita radical já o apresenta.

- O senhor esteve próximo dele durante a campanha eleitoral no ano passado. Poderia dividir suas impressões sobre Obama?
- Ele é extremamente inteligente e o que mais me impressiona é a capacidade de manter a calma no meio do furacão. Ele é disciplinado, conduziu uma campanha de forma honrada, e a experiência de líder comunitário possibilitou a ele se aproximar dos mais diversos grupos, incluindo os evangélicos moderados. Em termos religiosos, ele me parece ser alguém em busca de respostas, que tem interesse em diversas orientações religiosas. Ele me disse que era um cristão, e acreditei nele. Mas creio que ele se sente mais confortável com o aspecto social da religião, a vê como força impulsionadora de justiça social. E, apesar de muito jovem e inexperiente, foi, sem sombra de dúvida, o candidato que mais nos impressionou desde as primárias do ano passado.

- O senhor escreveu que a promessa de levar para Washington uma 'liderança transformativa' foi justamente o que mais o impressionou em Obama. Que seria possível um modelo diferente do de George W.Bush, que dividiu ainda mais o país em questões de âmbito culturais e sociais...

- O estilo de Obama, em geral, é conciliatório, e isso ajuda claramente o debate. Mas meu artigo centra em suas ações, depois de ocupar a Casa Branca, no que se refere ao aborto e a outros temas correlatos. Ações que não levaram a consenso algum. São apenas posições clássicas liberais, de esquerda.


- Uma de suas maiores decepções parece ser o esquecimento de uma das promessas de campanha dos democratas que recebeu maior acolhida entre os evangélicos moderados, a de que o novo governo iria iniciar esforços para a redução do número de abortos no país...

- Sim. Existem estudos que mostram como a ausência de políticas públicas levam a um incremento do aborto ou a não se levar em conta outras formas de prevenção ou soluções alternativas. O uso de contraceptivos, a educação sexual nas escolas, uma política de prevenção a abusos sexuais, o investimento do Estado nos casos de gravidez de pessoas menos favorecidas economicamente e uma política eficiente de estímulo à adoção passam pela questão do aborto. No mundo industrializado, os EUA têm os piores números no que diz respeito à gravidez indesejada. Há os casos de mães e casais que não têm plano de saúde e por isso acabam optando pelo aborto e o Estado precisa atuar nestes casos. O que queremos é que não haja esta possibilidade em um país rico como os EUA - a escolha o aborto exclusivamente porque não se tem dinheiro para criar um filho ou sequer para as despesas-extras no período de gravidez. Estamos prontos para trabalhar tanto com a secretária Sibelius quanto com o presidente Obama no desenvolvimento desta estratégia.


- Aqui há uma clara distinção entre evangélicos e católicos...

- Sim, no que diz respeito ao uso de contraceptivos. Sabemos disso, e este é um teste difícil para a Igreja Católica, que se opõe a métodos de controle natal, com exceção da abstinência sexual.

- No Brasil há uma discussão neste momento gerada pelos abortos clandestinos, que poderiam chegar a 1 milhão por ano, de acordo com estimativas extra-oficiais. O senhor acredita que a legalização do direito ao aborto seria uma salvaguarda para a saúde de mães dispostas a interromper a gravidez?

- Não tenho como entrar na realidade específica do Brasil, mas aqui nos EUA, por exemplo, não há a menor chance, em um futuro próximo, de que o direito ao aborto seja colocado fora-da-lei. Então, é possível, para um cidadão religioso, como eu, lamentar este fato e lutar para reduzir o número de abortos. Partimos do princípio de que há uma demanda por aborto em toda e qualquer sociedade em que o número de gravidez indesejada é grande. A mensagem dos religiosos não pode ser apenas não faça aborto, mas sim evite a gravidez indesejada.


- No Brasil, a Igreja Católica acaba de excomungar a mãe de uma menina de 9 anos, violentada pelo padrasto. A família optou pelo aborto, previsto pela lei, e os médicos que a atenderam também foram excomungados pelo Arcebispo de Recife e Olinda. O fato gerou reações do presidente Lula e do Ministro da Saúde, que enfatizaram a necessidade de se proteger a vida de uma criança vítima de um abuso sexual. O senhor não acha que líderes religiosos deveriam se abster de grandes debates públicos e se concentrarem em seu próprio rebanho?

-
Penso que líderes só são de fato religiosos e não políticos quando se lembram que sua audiência são os fiéis, seu rebanho. Quando tratamos de sociedades plurais, como a brasileira e a norte-americana, não há como pensar diferente. Pode-se proclamar seus valores, mas todos o estão fazendo: cristãos, judeus, muçulmanos, sem-religião, judeus. Cabe à comunidade decidir os valores que prevalecerão na sociedade. Diria que um valor religioso muito pouco apreciado, infelizmente, e que cabe aqui neste caso, é a liberdade de consciência.

- Mas não seria este justamente o caso da discussão sobre o aborto?

- Aí há uma luta de visões. Há quem considere sim esta uma questão de liberdade individual. Outros dizem que é uma proteção do ser humano em seu estado mais vulnerável.


- O senhor claramente está com o segundo grupo. E ainda vai além, afirmando que a justificativa ética para a pesquisa científica, no caso das células-tronco embrionárias, seria semelhante a fins condenados pelos liberais e pela esquerda - como o incremento econômico e a segurança nacional. Fins que não justificariam jamais os meios, no caso a destruição do meio-ambiente e o uso da tortura.
- Exatamente. E creio que tenho credibilidade para lidar com estes temas, já que fui um dos primeiros a colocá-los em destaque dentro da comunidade evangélica nos EUA. Defendo um limite nos experimentos médicos porque existem certos direitos intrínsecos do ser humano. Do mesmo modo que você não pode torturar um homem para garantir a segurança de milhares de outros, também não é eticamente correto fazer experimentos com embriões para o benefício da humanidade. A ética cristã, neste caso, funciona de modo igual, oferecendo um compromisso com a dignidade do ser vivo que não pode ser abordado como mais um item de comércio. Não se pode trocar uma vida pela outra. De certo modo, este utilitarismo é o que condenamos na prática do aborto também. Em nossa sociedade quase tudo pode ser trocado por algo que teria um valor supostamente maior, o que é extremamente perigoso.

- O que me leva à parte final de seu artigo, em que o senhor diz que 'se perdermos estas batalhas', se 'não alcançarmos um caminho do meio' a sociedade norte-americana entrará em um período de grande crise moral. O senhor diria que este poderia ser mais um imenso problema para a administração Obama?

- A sociedade institucionalizar o que chamamos de aborto on demand, ou seja, pela simples vontade da mulher, nos seis primeiros meses de gravidez, quando e como ela bem entender, é uma coisa. Mas não se respeitar o direito de médicos ou hospitais cristãos de se recusarem a fazer este aborto é outra. O que queremos evitar é uma guerra contra a religião. Não acredito que isso vá acontecer, mas parte de meu artigo foi uma advertência para que o governo proteja o direito de consciência dos profissionais de saúde e das instituições religiosas ou uma grande parcela da sociedade americana vai se sentir atacada por esta administração e isso seria muito, muito, muito ruim.


- O senhor já vê parte da comunidade evangélica mais moderada votando no Partido Republicano em 2010 por conta das primeiras medidas anunciadas pelo governo Obama?
- Ainda é cedo para sabermos se já houve esta migração na intenção de votos. Veja bem, 78% dos evangélicos caucasianos votaram em Bush em 2004 e 74% em McCain no ano passado. Então, a maioria seguirá votando na direita. Mas, claramente, houve uma mudança entre os mais novos, e em Estados que decidem o Colégio Eleitoral. O número de votos que o tíquete democrata recebeu entre jovens evangélicos foi o dobro do que recebera em 2004! E aí, sim, há um risco de evangélicos moderados, assim como de católicos centristas, que esperavam posições menos partidárias de Obama, abandonarem o presidente. É preciso que ele mande sinais de que implantará de fato uma política de redução do aborto como disse que faria. Mas ainda é cedo, e não se pode esquecer que há uma profunda crise econômica que afeta muito mais os eleitores neste momento do que os temas culturais e sociais.

Tira o Tubo!

Deputado Jovair Arantes (PTB-GO), líder do partido do Roberto Jefferson na Câmara: "Não quero ser obrigado a colocar minhas coisas na internet"

Deputado ACM Neto (DEM-BA), neto de um dos mais animados líderes da ditadura brasileira: "A imprensa quer fechar o Congresso".

Clóvis Rossi, na Folha de S.Paulo, hoje, lapidar: "Só se nota que o Congresso está aberto pelo noticiário policial que produz".

quarta-feira, abril 15, 2009

Boquirroto

Roger Waters, na New York desta semana, respondendo se estaria na platéia da 'reunião dos Beatles', o histórico show que Paul McCartney e Ringo Starr devem fazer no Festival de Coachella, neste mês, na Califórnia:

"Hein? Nem sabia disso. Eles estão todos mortos, os Beatles. Pelo menos os mais importantes. Ih, desculpa, eu não devia ter dito isso".

Ê, bocona...

quarta-feira, abril 08, 2009

ESPECIAL - CARTA CAPITAL: CRISE NA IMPRENSA AMERICANA

A Carta Capital que está nas bancas esta semana trás uma reportagem do escriba aqui sobre a crise na mídia impressa nos EUA. O texto foi escrito antes de o New York Times anunciar o provável fechamento do maior jornal da Nova Inglatetrra, o Boston Globe, mas depois de eu conferir o ótimo Intrigas de Estado, que chega aos cinemas americanos na sexta-feira e nos brasileiros em junho.

Na foto acima, Russell Crowe é o jornalista velha-guarda, Rachel McAdams a blogueira e Helen Mirren a poderosa editora de um jornal lutando para sobreviver na nova e dura realidade econômica pós-crise.

Segue o texto:


A Era do Gelo
POR EDUARDO GRAÇA, DE NOVA YORK

Os últimos minutos
de Intrigas de Estado, filme de Kevin Macdonald que chega aos cinemas brasileiros no dia 12 de junho, não é dedicado aos protagonistas Russell Crowe ou Ben Affleck. Um tributo a Todos os Homens do Presidente, o clássico de Alan Pakula com Dustin Hoffman e Robert Redford, Intrigas de Estado termina com uma “elegia ao processo de impressão em papel do jornal”, nas palavras do diretor britânico. A audiência é convidada a observar, passo a passo, o processo de criação da primeira página de um diário nos dias de hoje, do computador à impressão final. “Esta foi a maior homenagem que poderia fazer ao jornalismo impresso e à sua importância na vida contemporânea. Quis registrar, na tela, o fim de uma era”, diz o diretor, conhecido do público por O Último Rei da Escócia, que narra as aventuras de um médico escocês na Uganda do ditador Idi Amin.

Aqui jaz o jornalismo
norte-americano? Hollywood, desta vez, não parece estar exagerando. Desde o início da crise financeira, nada menos que 93 jornais norte-americanos diminuíram sua periodicidade, cortando pelo menos um dia de circulação. Outros cinco simplesmente abandonaram seus parques gráficos e optaram por versões exclusivamente on-line, diminuindo radicalmente o número de funcionários e, conseqüentemente, a produção de reportagens.

Ainda circulando normalmente, mas com redações em pânico, estão jornais-símbolo da imprensa dos EUA, como o Los Angeles Times, o Chicago Tribune e o Philadelphia Inquirer. Todos entraram com pedido de falência nos últimos meses. Como o Inquirer é também o dono do Daily News e o Chicago Sun-Times anunciou no último dia de março seu débâcle financeiro por conta de uma dívida de mais de 60 milhões de dólares com o Fisco americano, todos os grandes jornais das capitais do Illinois e da Pensilvânia faliram.

Do outro lado do país, a situação não é mais animadora. Denver e Seattle perderam a primazia de ter jornais concorrentes. Enquanto o Post-Intelligencer, um símbolo da capital do estado de Washington, decidiu na segunda quinzena de março que passaria a ter apenas uma versão na internet, ofuscando o globo adornado por uma águia, um dos mais reconhecíveis símbolos de Seattle, o Rocky Mountain News simplesmente fechou as portas depois de 150 anos de jornalismo local.
Intrigas de Estado serve-se deste cenário de terra-arrasada para contar a história de um jornalista investigativo do diário The Washington Globe (mesclando os nomes do Post com o maior jornal da Nova Inglaterra, o Boston Globe), decidido a desvendar um crime que envolve parlamentares e lobistas em uma Washington mais sofisticada em todos os âmbitos, incluindo nos artifícios utilizados para apropriar-se do Erário. “O grande risco do desmantelamento da imprensa norte-americana, com toda sua tradição combativa, é o enfraquecimento da democracia tal qual a conhecemos. Intrigas de Estado funciona como uma metáfora do que acontece com os grandes jornais americanos nos dias de hoje, estes imensos animais que vão morrendo lentamente”, diz Macdonald.

O tinhoso escocês
, que sonhava ser jornalista e iniciou-se na produção cinematográfica dirigindo documentários depois de mendigar por um emprego, sem sucesso, nos principais jornais britânicos durante a recessão dos anos 90, é um fã declarado de Todos os Homens do Presidente.

No clássico de Alan Pakula, Dustin Hoffman e Robert Redford encarnavam os repórteres do Washington Post responsáveis por desvendar o escândalo do Watergate, que levaria à renúncia do presidente Richard Nixon, em 1974. Em Intrigas de Estado Mcdonald opõe ao velha-guarda Russell Crowe – com cabelos longos, barba por fazer e usando pouco mais do que uma mesma peça de roupa durante as duas horas de ação – a blogueira vivida por Rachel McAdams, representante de um novo jornalismo, mais asséptico e conformista.

“Abordo, no filme, aquele que considero ser o tema mais importante de nossos tempos. Qual será o poder da opinião pública com a decadência da imprensa diária? Como a sociedade poderá fiscalizar seus governantes? O que acontecerá com o jornalismo diário e de âmbito local? Como serão filtradas as notícias internacionais se não há dinheiro para bancar grandes reportagens investigativas?”, pergunta o cineasta.

Se os jornais tentam sobreviver e cortam custos, os mais badalados sites e blogs da internet buscam formas de financiar um tipo de trabalho mais semelhante ao que tornou a mídia impressa essencial no mundo contemporâneo. O Huffington Post, de Ariana Huffington, acaba de anunciar a criação de um fundo para financiar reportagens investigativas, item casa vez mais raro nas edições de jornais e revistas ao redor do mundo.

O fundo terá dinheiro do próprio Huffington Post e do The Atlantic Philantrop, organização que tem entre seus maiores mecenas o bilionário Chuck Feeney, criador das lojas Duty Free. Em San Diego, na Califórnia, um grupo de jovens repórteres criou o Voice of San Diego, sustentado por contribuições voluntárias e que se propõe a oferecer uma cobertura da cidade que os meios tradicionais abandonaram faz tempo. Seria esse o caminho do jornalismo na web?

Ainda é cedo para avaliar se essas experiências serão bem-sucedidas. O caso de Ariana é, poré, distinto do dos jovens do Voice of San Diego. A ex-socialite
conservadora de origem grega metamorfoseada em darling da esquerda festiva tornou-se na mais improvável das baronesa da mídia dos EUA. Há quem a chame de ‘viúva negra’ do jornalismo ou considere seu trabalho desonesto por, em tese, valer-se do material publicado por veículos impressos.

Ariana acaba de ser retratada em um perfil da revista Time. O título não poderia ser mais apropriado: O Oráculo. O subtítulo, bem menos lisonjeiro, anuncia: Como Ariana Huffington golpeou a mídia de dentro usando charme, amigos, dinheiro, a internet e o trabalho alheio.

O Huffington Post é hoje o décimo-quinto mais popular da internet na área de notícias, poucos cliques atrás do The Washington Post e acima da BBC. São 8,9 milhões de usuários e 1 milhão de comentários por mês, de acordo com a Nielsen, no que já é o maior cartão de visitas do jornalismo participativo. E enquanto o New York Times emprega mais de mil funcionários em sua área editorial, o The Huffington Post conta com 55. Apenas cinco são repórteres. “É preciso ter um cuidado enorme na hora de dizer crise da imprensa. Os americanos nunca tiveram tanto acesso à informação como nos dias de hoje. Prova disso foi a maneira como se acompanhou a campanha presidencial no ano passado. Há sim uma crise, mas de um certo tipo de imprensa”, afirma o professor da Universidade de Nova Iorque (NYU) Mitchell Stephens, um dos maiores especialistas em comunicação de massa dos EUA.

Autor do clássico Uma História da Imprensa, eleito pelo New York Times um de seus livros do ano na virada dos anos 80, Stephens foi convidado este ano pela Universidade de Harvard para trabalhar em um projeto piloto que pretende propor mudanças na prioridade de cobertura da mídia americana, acentuando a importância das análises voltadas para um leitor já saturado de notícias.

Para Stephens, se podemos olhar para clássicos como Todos os Homens do Presidente afim de encontrar pistas sobre o que aconteceu com a imprensa americana, o paralelo mais exato do jornalismo nos tempos de Barack Obama é estabelecido com a indústria da música. “Durante 150 anos o jornalismo mudou muito pouco. A função do jornalista é a de reportar notícias, que são vendidas em forma de papel. Exatamente como a música, que até a invenção do disco era imaterial, a imprensa está voltando para seu passado, para os tempos de Benjamin Franklin, em que sua função era mais a de ser uma grande arena para os debates de opinião pública, de interpretação dos eventos. Notícia tende, nos dias de hoje, a ser vista como um valor mais barato, quase gratuito”, diz.

O professor da NYU
concorda que o jornalismo investigativo implica custos ainda não cobertos pela publicidade gerada pela internet, mas lembra que "a rede é um bebê, que ainda engatinha". E aponta a decisão do presidente Obama de usar o YouTube para promover conferências em que fala diretamente com os cidadãos como uma forma revolucionária de se adaptar aos novos tempos.

“Será que a democracia precisa de setoristas de jornais do país inteiro em Washington? O governo federal passará a ser coberto por poucos jornais de âmbito nacional e blogueiros locais, especializados no tema. Será que sofreremos um grande golpe se o Chicago Tribune ou o Boston Globe deixarem de circular? Mesmo?”, provoca Stephens. O acadêmico concorda que um dos revezes na nova face da imprensa norte-americano será a diminuição de postos de emprego para jornalistas convencionais.
“A reportagem, tal qual como conhecemos, está fadada a se reduzir. O repórter investigativo continuará existindo, mas apenas em alguns poucos jornais e em sites especificamente voltados para o tema. Revistas como a Newsweek, por exemplo, parecem ter entendido os novos tempos e estão e moldando na The Economist para apresentar mais análises do que notícias requentadas, já esgotadas durante a semana. O leitor não busca mais um resumo, ele quer ir além, quer o destrinchamento de temas já explorados de forma exaustiva por outros meios”, diz.

Stephens brinca que, se estivesse no comando do New York Times, não estaria tão interessado assim no rumo das mudanças da grande imprensa. Confessa sentir uma dor na barriga ao pensar no dia em que o jornal decidir concentrar-se na internet – caminho que lhe parece o mais provável – e seu exemplar deixar de chegar em sua porta todas as manhãs. O conservador The New York Post criou um Termômetro que, diariamente, está nas posições mais baixas, mostrando os revezes sofridos pelo concorrente liberal. Desde janeiro, as notícias são sempre destaque de alto de página no tablóide de Rupert Murdoch: a hipoteca do moderno prédio erguido pelo arquiteto Renzo Piano, a venda de ações para o bilionário mexicano Carlos Slim, a redução de salários para todos os funcionários não sindicalizados (incluindo editores e gerentes) em 5% e até mesmo o jato do NYT posto à venda.

“Estes são os tempos mais duros que enfrentamos em todos os nossos anos neste negócio”, disse o CEO do NYT, Arthur Sulzberger, no memorando enviado aos funcionários sobre a redução salarial. Em um evento na Universidade de Stony Brook, Sulzberger afirmou que “o futuro imediato do jornalismo tradicional nos EUA é, no mínimo, sinistro”, já que “as formas regulares de injeção de recursos estão anêmicas e piorando a cada dia”.

O outro grande jornal norte-americano de projeção internacional, o Washington Post, anunciou este mês o fim de sua seção de Negócios e da página dedicada às ações do mercado financeiro, com o objetivo de reduzir custos de impressão. E, em Nova York, a emblemática logomarca da revista New York, que durante uma década ocupou com destaque o ponto nobre da torre da 444 Madison Avenue, entre as ruas 49 e 50, dá lugar à loja de roupas Burberk. Antes da New York, o prédio de 42 andares era conhecido por ser o quartel-general da Newsweek, que durante 30 anos manteve seu logo no topo.

A mídia americana esteve
na berlinda até mesmo na primeira visita de um presidente em exercício a um talk show, tento conquistado por Jay Leno, na NBC. Leno contou em seu monólogo na abertura do programa que muita gente estava surpresa com a aparição de Barack Obama em seu Tonight Show, já que aparentemente o democrata não agüentava mais ter de lidar com empresas à beira de um desastre financeiro por conta dos altos salários de seus executivos e sua baixa lucratividade. Ele falava de bancos, empresas automobilísticas e, também, da grande imprensa.

A publicidade na mídia americana somente cresceu em dois setores no ano que passou: internet e televisão a cabo. De acordo com o Interactive Advertising Bureau, foram 23,4 bilhões de dólares em 2008 gerados por anúncios na internet, um aumento de 10,6% em relação a 2007. Porém, o incremento da internet ainda não consegue bancar o custo de produção de jornais e revistas. Especialmente quando se leva em conta que 57% dos anúncios no ano que passou foram "de performance", ou seja, são calculados de acordo com o número de cliques na propaganda feit pelos usuários dos web sites.

Um microcosmo do que acontece no jornalismo norte-americano são as quatro cidades do estado de Michigan, no Meio-Oeste, que se preparam para ficar sem diários impressos. Em Ann Arbor, o Ann Arbor News, com 174 anos de história, será encerrado em julho e substituído por um site. Todos os funcionários serão demitidos e há a idéia de uma versão impressa de formato reduzido, que circulará apenas dois dias por semana. As cidades de Flint, Saginaw e Bay City terão publicações impressas apenas nos fins de semana.

Em entrevista ao The Daily Telegraph a CEO da Time Inc., Ann Moore, anunciou estudar maneiras de cobrar pelo acesso eletrônico do conteúdo das revistas publicadas pelo grupo, hoje aberto na rede. A idéia é ter – assim como já faz o Wall Street Journal – parte do conteúdo produzido pelas equipes de reportagem de Time e People, mas também da CNN.com, abertos ao público, enquanto outra parcela seria reservada exclusivamente para assinantes.

“Informação bem produzida custa dinheiro. Alguém precisa bancar nosso escritório em Bagdá. Quem é que iniciou esta história de que todo conteúdo deve ser livre? Eu digo isso em universidades e as pessoas querem jogar sapatos em mim. Então repito: crianças, sua comida não é de graça, seus carros não são de graça, suas roupas não são de graça!”, disse Moore.

O paralelo oferecido com a cambaleante indústria da música, na visão de Mitchell Stephens, casa com o desabafo de Moore. “Assim como não se pode dizer que a música está em crise, também não creio que a reportagem esteja. O que estão padecendo são dois tipos de indústria que não se coadunam mais com os novos tempos”, diz o professor da NYU. Os 3 mil blogueiros que trabalham de graça para o HuffPo (em sua maioria, nomes famosos de Hollywood, da academia ou do mundo político) se vêem como "curadores da notícia", garimpeiros do turbilhão de novidades publicadas diariamente em todos os cantos da mídia.

Curiosamente, Ariana teria ficado extremamente ofendida com a idéia, sugerida no subtítulo do perfil da Time, de que ela estaria se aproveitando da sangria da mídia tradicional para erguer um novo modelo de empresa de comunicação. Ao contrário, ela se vê ‘experimentando’ um modelo de ‘jornalismo distributivo’, em que qualquer observador da notícia, não apenas o repórter treinado, pode escrever para seu ultra-democrático HufPo.

É justamente esse
novo jornalismo, proposto pela baronesa da mídia digital e saudado pos setores da academia, que levou David Von Drehle, durante anos uma das estrelas do Washington Post e um dos autores do que muitos consideram ser o livro-reportagem definitivo sobre a disputa entre Al Gore e George Bush nas eleições de 2000 (Deadlock), a fazer uma crítica dura ao jornalismo praticado na internet. Para Drehle, sites e blogs não sobreviveriam sem o conteúdo produzido pela mídia tradicional.

“Todas as vezes que um jornal, uma fonte de notícias, morre, e um site de opinião on-line floresce, nos movemos para mais perto do dia sem fatos em que os falastrões terão um único tópico de discussão: eles mesmos”, criticou o veterano jornalista.

quinta-feira, abril 02, 2009

AMERICANA: Uma Crônica da Recessão em NYC

A Carta Capital publicou na edição que circula esta semana uma crônica-reportagem deste escriba, na abertura da revista, na seção normalmente chamada de 'Brasiliana'.

Esta foi uma 'Americana'. As fotos são minhas, tiradas no SoHo, na Union Square e no East Village.

Ó só:

Liquida Nova York

Eduardo Graça

"É fácil constatar a crise em Nova York. Você observa o número de pessoas zanzando pela cidade e a quantidade de bolsas que carregam. A temperatura já começou a esquentar, mas há bem menos sacolas que pessoas, presságio de que as contas podem não fechar no fim do mês.” O texto é de economista, mas a criadora do método empírico de análise da crise financeira em Main Street (termo usado pelos norte-americanos para definir o comércio de rua, em oposição a Wall Street) é a vitrinista brasileira Marilla Maia, 44 anos, uma das duas funcionárias fixas da Ariella, no coração do SoHo, onde se concentram as lojas de marca mais populares da cidade, destino primeiro de sacoleiros de todas as nacionalidades.

Nas ruas de paralelepípedo que cercam a Broadway acima da Canal e abaixo da Houston, o corre-corre de transeuntes é o mesmo de todo começo de primavera, com os casacos aposentados e lojas como a Banana Republic, a Gap e a japonesa Uniqlo a apresentar suas novas coleções. Donos da loja Malharia Nacional, com sede em Jacutinga, no interior mineiro, e filiais no Belenzinho e no Brás, em São Paulo, Erika Caramel, 37 anos, e seu marido, Nobile, de 39, vêm religiosamente a Manhattan para se manter atualizados e comprar peças. Mas a experiência nesta primavera foi menos frutífera. “As coleções estão bem mais fracas, não há muitas inovações. Parece que as lojas resolveram investir no que já tinham em mãos. É mais em conta dar uma renovada básica no estoque do ano passado, né? Moda de crise”, arrisca Erika.

Nobile busca os efeitos positivos da retração econômica. Conta que é possível pegar um teatro na Broadway (o casal viu Chicago, lotação esgotada, confirmando a máxima de que, na crise, a indústria do entretenimento navega feliz na maré alta do escapismo) e escolher com calma em que restaurante esticar a noite no Theater District.
Ele conta que o Carmine’s, um italiano da Rua 44, bem popular entre brasileiros e normalmente com filas de virar o quarteirão, estava mais do que convidativo na semana que passou. “Pela primeira vez, em anos de Manhattan, não tivemos de disputar táxis no meio da rua. É um mar de carros amarelinhos pelas ruas, com os motoristas brigando para você entrar no carro deles. Subversão completa”, diz.

Erika, ainda saboreando a surpresa de conseguir uma mesa imediatamente no Carmine’s – “já houve ano em que tínhamos de esperar até uma hora para sentar"- chama a atenção do repórter para outra área improtante para a economia da cidade: o Fashion District. "Se você está achando o SoHo às moscas, precisa ver como andam as lojas da Quinta Avenda e da Madison", diz. Lá se concentram lojas mais exclusivas, como as da Louis Vuitton, Hermés e Saks, e o movimento, contam, não é dos melhores.

Depois da correria por descontos durante o momento de explosão da crise, no fim do ano passado, quando peças saíam até 70% mais baratas do que seus valores originais, a coleção de Primavera-Verão, a mais procurada por brasileiros, chegou às lojas sem qualquer abatimento. “É como se eles tivessem testando o consumidor, para ver se ele vai cair na tentação ou esperar para ver se os preços vão despencar novamente em algumas semanas”, diz Marilla. A vitrinista confessa que usou uma tática especial na hora de montar sua vitrine com a nova coleção da loja: escolheu peças variadas cujos preços não passam de US$ 80. “Assim o cliente só toma o susto quando já estiver dentro da loja”, conta, lembrando que entre os meses de novembro e fevereiro teve uma redução de cerca de 10% em suas vendas em relação ao mesmo período na virada de 2007 para 2008.

Pelo menos houve algum entra-e-sai durante o tempo em que a reportagem de Carta Capital esteve na Ariella. A 200m da loja de Marilla, na mesma calçada, a brasileira Rosa Chá – cujo foco são peças de praia – estava às moscas.
Mas pelo menos no SoHo não se vê muitas lojas fechadas. No East Village, bairro dos restaurantes da moda e dos bares mais descolados da cidade, surpreende o número de placas procurando novos interessados em alugar espaços comerciais.

Em apenas um bloco na Rua 12, entre as Avenidas A e B, três lojas fechadas deixaram ilhados o salão John Gabriel. O cabeleireiro de mesmo nome, com seu enorme afro, atendia um único cliente enquanto respondia com pouco ânimo a razão do relativo sucesso. “Os negócios estão indo mais ou menos. Mas não posso conversar muito agora porque o cliente pode reclamar. E este eu não posso perder!”, se desculpava, revelando que cabeludos em busca de um retoque se transformaram em objeto de desejo de profissionais como o estilista do Village.

Algumas quadras a oeste e o panorama era completamente diverso. Na feira de produtos orgânicos da Union Square a comerciante Stephanie Villani, 40 anos, não conseguia disfarçar a empolgação. Com seus dois ajudantes, ela voltava à feira depois do descanso de inverno, e estava com medo da bruxa da recessão. “Montamos o nosso estande de manhãzinha cedo e começamos a ouvir histórias dos clientes. Cada história pior que a outra: dinheiro perdido no mercado de ações, economia com escola e plano de saúde, hipotecas de casas atrasadas. Um horror. Mas todo mundo contava uma história e comprava um peixe. Agora são quase cinco da tarde e já vendemos praticamente tudo!”, comemorava.

Os Villani são donos da Blue Moon Fish e trazem para Nova Iorque pescados frescos de Long Island. Os dois sucessos do dia foram o filé de cod – um primo do nosso bacalhau, mas em estado natural – que saía a US$ 10,95 por libra, e graúdas vieiras escolhidas a dedo por Stephanie. “As pessoas me disseram que estão deixando de ir nos restaurantes e cozinhando mais em casa por conta da crise, como forma de economizar. Hoje tive um dos melhores primeiros dias de primavera de nossa história! Já estou apostando em um ano especialmente bom. É estranho dizer isso, mas, para mim, a crise acabou se revelando em mais dinheiro na caixa registradora”, disse.

Histórias de pescadores, no entanto, não fazem grande sucesso do outro lado do East River. No Brooklyn Heights, que margeia a Ponte do Brooklyn, a crise chegou de forma avassaladora. A rua de comércio principal do bairro, a Montague Street, ganhou até mesmo uma série a ela dedicada no blog mais popular da área. O título - mais direto impossível - é A Crise na Montague.

Chris Calfa, da Lassen & Hennings, a tradicionalíssima casa delicatessen especializada em catering da Montague, diz que nunca viu uma diminuição de negócios como a desta temporada, nem durante as recessões dos anos 90 e o trauma pós-11 de setembro. Ele também comanda uma pizzaria e uma lanchonete na área. No bloco que vai da Clinton até a famosa Promenade, de onde se tem uma das melhores vistas da cidade, oito sinais de ‘aluga-se’ aparecem em destaque e uma das lojas que estão fechando as portas é a de Ann Taylor.
A líder no setor de roupas femininas para a classe média americana não vai abandonar apenas o Heights. Serão 100 lojas fechando as portas em todo o país, um drástico aperto de cintos que comprova, na prática, a sensação de que a crise deixou Wall Street e contaminou Main Street de forma irreversível.

E qual é a saída? Para Calfa, reduzir o tamanho – e o preço - de seus disputados sanduíches e tortas. Para Marilla Maia, dois imensos cabides com promoções de até US$ 20, sem esquecer do velho e bom sorriso na face. E o truque da vitrine, claro. Para os Villani, se transformar em dublê de analista na hora de ouvir as histórias dramáticas da crise. “E, se oa história era muito barra-pesada, dávamos pedaços de pescado de brinde para se fazer sopa. E, como você pode ver, não sobrou mais nenhum. Dá para imaginar o teor das histórias”, diz Stephanie Villani, pela primeira vez com o rosto fechado nesta boa tarde de negócios na Union Square.

sexta-feira, março 27, 2009

ENTREVISTA/Drew Barrymore & Scarlett Johanson

A Contigo! desta semana publicou a entrevista que fiz com Drew Barrymore e Scarlett Johansson por conta de Ele Não Está Tão A Fim de Você, o filme inspirado no livro de mesmo título, por sua vez parido em um episódio de Sex & The City. Impressionante o quanto Carrie, Samantha, Miranda e a chatinha da Charlotte rendem para a cultura pop americana. Ele Não Está... tem estrelas de verdade no elenco - Ben Affleck, Jennifer Aniston - mas parece escola de samba com mais integrantes do que o recomendado: não evolui. A entrevista, fruto de uma disputada coletiva de imprensa, na íntegra, tá aqui:

Drew & Scarlett

Regras do amor

Drew Barrymore e Scarlett Johansson vivem momentos diferentes, apesar de estrelarem o mesmo filme, a comédia romântica Ele Não Está Tão a Fim de Você

Por Eduardo Graça, de Los Angeles

Drew Barrymore, 34 anos, e Scarlett Johansson, 24, vivem momentos diferentes, apesar de estrelarem o mesmo filme, a comédia romântica Ele Não Está Tão a Fim de Você. Drew já teve dois casamentos relâmpago e, depois de quase cinco anos com o brasileiro Fabrizio Moretti, 28, da banda The Strokes, prefere namorar. Scarlett, por sua vez, casou com o ator Ryan Reynolds, 32, em setembro. Contigo! encontrou a dupla numa divertida coletiva em Los Angeles para falar sobre namoro e amor.

- As meninas do filme parecem ser especialmente doces e agradáveis. O que tem de marmanjo dizendo que ‘elas é que não estão muito afim deles’ não está no gibi (risos). Aonde vocês diriam que os meninos das grandes cidades deveriam ir para encontrar mulheres tão interessantes quanto suas Mary e Anna?
- Drew: “Bem eu estou sempre dando pinta em shows de bandas de indie rock. Mas esta sou eu, né? Não sei se é o melhor cenário para se encontrar mulheres interessantes!
- Scarlett: “Huuum...eu não tenho, francamente, a mais vaga idéia. Nunca saí por aí atrás de meninas. Huuum...supermercados, como o meu personagem? (risos). Ah, não sei mesmo, gente.

- Você é uma das produtoras do filme, e no entanto faz um dos menores papéis no filme...
- Drew: É engraçado, eu me identifiquei imediatamente com a Mary. Estava no meio das filmagens de Grey Gardens e eu vi todo o elenco sensacional que amealhamos e me deu uma vontade de dar um passo para trás e admirá-los. Especialmente gosto do fato de o meu personagem ser aquele que luta com a tecnologia, tão presente nos relacionamentos amorosos de nossos tempos. Foi como um casamento, ela e a Drew, sabe?

- Uma das melhores cenas do filme é justamente aquela em que Mary fala deste momento em que todos parecem interessados em namorar à distância, via internet ou celular...
- Drew: Que ótimo que você achou isso! Eu escrevi aquela cena juntamente com os roteiristas. Queria expressar o quão difícil é responder às mensagens imediatamente, afinal você anda com esta coisa no seu bolso agora, que todos os pretendentes te encontram a qualquer hora. Nenhum cara me liga, mais! É só mensagem de texto. (risos). É difícil mesmo – facebook, myspace, internet, celular. É um jogo todo novo. E temos de estar up to date.

- Como foi manter uma certa doçura e apostar na capacidade de perdão da audiência para o seu personagem, que, afinal, sai com um homem casado?
- Scarlett: Apesar de saber que alguém, no caso o personagem da Jennifer (Connely), estava sendo ferida no processo, acho que Anna estabeleceu uma conexão real com o Ben. Ela não estava querendo roubar um homem casado, nem ele disposto a uma aventura extra-marital. É como a Mary diz: às vezes isso acontece e você não quer perder o bonde, aquele homem pode ser o futuro pai dos seus filhos com quem você vai passar o restante da vida. E os dois sentem isso no filme! Mas, claro, as fraquezas dos dois também são expostas claramente. Mas acho que a falta de malícia nos dois é justamente o que faz com que as pessoas não os odeiem. E estas situações acontecem na vida, né?

- No filme, a personagem da Jennifer Aniston tem uma enorme vontade de se casar mas descobre, observando a vida de suas irmãs, que vive uma relação saudável com seu namorado. E que casar é apenas um detalhe. O que você, que acabou de se casar, pode trazer para esta discussão?
- Scarlett: Não tenho perspectiva sobre isso de fato. Talvez eu possa te responder em 25 anos, claro! (risos).

- O filme trata de regras e exceções nos relacionamentos amorosos. Você acha que sua vida amorosa está mais perto das regras estabelecidas no filme ou das exceções?
- Drew: Ah, meu Deus, mas esta tinha que ser pra mim, né? (risos). Acho que não existem regras no jogo amoroso. Cada caso é um caso, mas chega um momento na vida da mulher em que ela se recusa a aceitar menos do que ela merece. Seu comportamento muda depois de bater com a cabeça tantas vezes no mesmo muro (risos). Você finalmente diz – ah, agora entendi! (risos). Então, diria que a exceção, no amor, é aquela chance infinitamente mínima, e ela existe, mas, em geral, as pessoas, e não só os homens, repetem um certo padrão, se comportam de modo mais previsível e você precisa ver o que funciona para cada um. Parece clichê, mas há uma razão para o clichê: descubra como você quer ser tratada e trate-o da mesma maneira. Este já é um ótimo começo.

quarta-feira, março 25, 2009

Poesia Aqui, Agora

Acabei de descobrir:


(Abrigo)

Há uma casa,
como casca,
crosta presa
nas costas.
Cicatriz de um
ninho quente,
vermelho de
fogão de lenha,
infância
onde o homem
já não cabe.

Há uma casa
branca corno
a cal, vazia,
imaterial,
que flutua
no espaço,
onde o corpo
busca guarida
quando a vida
já perdeu
o seu sal.

De: GALVÃO, Donizete. In: Traçados diversos. Uma antologia da poesia contemporânea. Org. por Adilson Miguel. São Paulo: Scipione, 2009.