sábado, julho 05, 2008

Entrevista/DUSTIN HOFFMAN & JACK BLACK (Kung Fu Panda)

Conversei com Dustin Hoffman e Jack Black no salão de imprensa de um hotel de luxo de Beverly Hills, em Los Angeles, por conta do surpreendentemente divertido Kung Fu Panda, desenho-animado que chegou esta semana aos cinemas brasileiros. O papo, na íntegra, segue abaixo:

Kung Fu Panda - Dustin Hoffman

Eduardo Graça, de Los Angeles, para a Contigo!
A reportagem de Contigo! esbarrou com Dustin Hoffman no elevador do chiquérrimo Beverly Wishire e presenciou cena inusitada. O ator, de 70 anos, vencedor de dois Oscars (por Kramer vs. Kramer e Rain Man), carregava uma imensa jarra de sucos de fruta, que tentava equilibrar enquanto conversava com dois garçons do hotel famoso por servir de cenário para as cenas de amor de Julia Roberts e Richard Gere em Uma Linda Mulher. É que ele percebera o esforço de última hora do pessoal do bufê e resolveu ajudar. Assim é o homem que resolveu emprestar sua voz para o mestre Shifu, o aparentemente durão mas sentimental guardião dos segredos da arte marcial mais nobre no hilário desenho-animado Kung-Fu Panda. Tão gentil quanto honesto, Hoffman confessou que não gostou muito da experiência de ‘emprestar a voz para um animalzinho animado’ e que o que realmente aprecia é a troca de energia entre atores estabelecida nas muitas filmagens de que participou. Mas não deixa de confessar que adorou o fato de os seis filhos de seus dois casamentos terem todos identificados os trejeitos do pai no sutilíssimo Shifu e solta uma piada tipicamente hoffmaniana sobre as cenas exclusivas com Angelina Jolie que estarão apenas no DVD.

- O que o atraiu em um projeto aparentemente distante de sua filmografia clássica?
- Os produtores me convidaram, vi alguns esboços, fiquei com medo de ser um personagem muito bi-dimensional, mas depois achei que poderia encontrar algo interessante para fazer com o Shifu quando percebi que ele era um mala-sem-alças (risos). Ali ele virou tridimensional. Foi a chatice dele que me atraiu. E no fim do filme ele tem um insight, mas não posso contar mais...

- Você também acabou de estrelar Sr.Magorium e a Loja Mágica de Brinquedos. Fiquei cá pensando se fãs mais novos já estão descobrindo seus clássicos, como Perdidos na Noite e Sob o Domínio do Medo...

- (Rindo muito) Provavelmente em famílias extremamente desestruturadas as crianças estão vendo estes filmes, né? Não, sério. Outro dia uma moça me reconheceu na rua e, toda empolgada, mostrava para o filho: “Olha lá o Capitão-Gancho!” (risos). E a criança olhou para ela com total descrença. Eu então pedi que ela fechasse os olhos e ouvisse com atenção. E sussurrei no ouvido dela: “Eu odeio, eu odeio, eu odeio Peter Pan!” (risos). Mas nem assim ela acreditou! (risos).

- E você pode dizer então que, neste mundo das crianças, gostou do processo de se fazer desenhos animados?

- Não. Não gostei (risos). E digo isso do ponto de vista do ator, porque do animador é sensacional, intrigante mesmo. Mas o ator fica isolado em um quarto de gravações com microfones para todo lado. Somente um dia eu trabalhei acompanhado, com o Jack Black, fazendo a cena da luta dos pauzinhos chineses, e aí foi maravilhoso! Imagine, este filme demorou quatro anos para ser feito. É um trabalho mais como pintura ou literatura do que cinema mesmo.

- E você teve alguma voz ativa em como Shifu foi construído?

- Outro dia eu brinquei que, partindo de um singularíssimo ponto-de-vista, eu queria que ele tivesse um nariz menor (risos). E acabei pedindo, sério, para aumentar a boca do Shifu, porque não conseguia vê-lo falando como eu falo. E eles me disseram que o Shifu era um Panda vermelho anão. Ah, não! Eu não engoli esta não! (risos). Será que este é o nome mesmo? Eles juram que é!

- E como foi a parceria com o Jack Black?

- Eu nunca o havia encontrado antes e, honestamente, não estava muito familiarizado com o trabalho dele, mas meus filhos ficaram tão animados com a idéia e me falaram tanto de A Escola do Rock que acabei formando uma imagem de Jack em minha cabeça. Mas vi que ele é seríssimo, inteligente, autêntico e compromissado em fazer tudo o que fosse necessário para ‘entrar’ no personagem. E sua assinatura como ator, percebo, é uma capacidade extraordinária de se jogar para baixo. Quando vi Po na tela, vi Jack, era ele! Aquele Panda é a essência de Jack Black e isso é extraordinário.

- Você pode adiantar algumas cenas de Shifu que aparecerão apenas nos bônus do DVD?

- Sim, todas as cenas eróticas que fiz com a Angelina Jolie (risos). Fiquem atentos, talvez as cenas proibidas entre Shifu e Tigresa (personagem para o qual a mulher de Brad Pitt empresta a voz) estarão em uma loja perto de sua casa logo, logo (risos). Nada disso é sério, claro. Mas posso contar que de inédito você me terá logo em Última Chance, Harvey, um filme delicioso que fiz com Emma Thompson e que deve chegar aos cinemas até o fim do ano. Ela é “a” atriz, sabe? Não tem como ficar melhor. E é uma história de amor. Não deixe de ver!

- No fim, o quão de Dustin você vê no Shifu?

- Absolutamente nada! Mas meus filhos todos dizem que Shifu sou eu em um animal. Exatamente como eu, todos os gestos e expressões. Minha reação foi dizer a eles: “estes degramados conseguiram me capturar no desenho-animado!” (risos).

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Kung Fu Panda - Jack Black

Você sabe qual é a expressão da moda entre as crianças e alguns marmanjos para lá de adolescentes aqui no verão norte-americano? Skadoosh! Esta é a frase usada por Po, o urso-panda mais simpático – e atrapalhado – da história dos desenhos-animados. A voz, mas também os trejeitos, do Kung Fu Panda, que estréia nesta sexta nos cinemas brasileiros, são graça e obra de Jack Black. Aos 38 anos o comediante conversou com a Contigo! pouco antes de comemorar o nascimento de seu segundo filho, Thomas, com a mulher, a violinista Tanya Harden, 36 (o primeiro, Samuel, acaba de completar dois anos). Com alguns quilos a mais, Black confessou que sua dieta inclui ‘muitos cheeseburguers, afinal de contas, é a melhor comida que há’.

- Você está usando uma camiseta com uma das frases mais marcantes de Kung-Fu Panda...
- Skadoosh! Veja bem, este é um espaço de propaganda nobilíssimo: o tronco de Jack Black! (ri, estufando a imensa barriga). Foi apenas uma improvisação que criamos de última hora...mas parece que funcionou, né?

- Você tinha alguma fantasia de menino relacionada à prática de kung-fu? Porque, menino, você pode lutar mesmo, hein?
- Essa é boa!(risos). Olha, todos os sonhos de lutador que eu tive na vida pude realizar fazendo a voz do Po. Quando era criança, fiz um ano de karatê e cheguei a ser faixa-amarela. Também fiz judô, um tiquinho, mas nunca kung-fu. Era louco por Bruce Lee e Keith Carradine, a coisa toda mística, a mais evoluída das artes marciais e tal...

- O que me leva à próxima pergunta: você consegue quebrar uma tábua ao meio com um só golpe?
- Mas é claro que sim! Mas vamos deixar claro que faço isso com minha mente, não com as mãos. Isso é para você ver o quão profundamente eu mergulhei nos segredos do kung-fu (risos).

- Além de todo skadoosh, você também pôde contribuir com outras improvisações para o desenho animado?
- Sim, os diretores e roteiristas na verdade me incentivaram e disseram que parte do convite para eu fazer o Po era justamente minha capacidade de improvisação.

- O Seth Rogen, outro ótimo comediante, de Ligeiramente Grávidos, disse que você era uma escolha óbvia para Kung-Fu Panda pois lembra um ‘pandinha’ na vida real. Você concorda com ele?
- É, não há como negar, né? Somos, os dois, redondinhos, peludos, carinhosos e minha barba é preta-e-branca agora que estou ficando velhinho. Sou ou não um panda?

- É sim! (risos). Você usou o seu corpo na hora de emprestar a voz pro Po? Porque ele parece que se mexe exatamente como você em seus filmes. É impressionante...
- Sim, usei! E os diretores nos filmam quando estamos gravando. Depois, eles usam nossos movimentos para referência e acho que, no meu caso, eles fizeram um trabalho sensacional. E meu método, para conseguir os sons perfeitos, era bem realista. Por exemplo, se tivesse que ficar cansado em uma cena, corria pelo estúdio até estar pronto para fazer o som de cansado.

- Você deve correr para cima e para baixo com seu filho Samuel, não?
- Eu adoro dizer que ele tem apenas um ano. Na verdade ele vai fazer dois em duas semanas, então estes são dias mágicos para mim. Nunca mais poderei dizer ‘ah, ele tem apenas um ano’ (risos). Estou gravando em vídeo tudo o que ele faz nestas duas semanas porque quero mostrar que ele era um gênio, já fazia isso e aquilo e aquilo outro quando tinha apenas um ano! (risos). Adoro ser pai, sabia?

- E ele tem um pai que já foi um tubarão e agora um panda. Qual o próximo animal?
- Adoraria ser uma águia. Huum...mas, de certa maneira, eu já fui uma águia em Nacho Libre, pois tinha ‘os poderes da águia’. Então teria de ser uma onça, a mais veloz das criaturas. Igualzinho ao meu super-herói favorito, o The Flash, que era o mais rápido de todos. Sei lá porque eu gosto dos mais rápidos...eu, certamente, sou de uma lerdeza só! (risos).

- Po é um panda comilão. Qual sua comida favorita?
- Pizza é a primeira coisa que me vem à cabeça, mas, pense bem, a comida perfeita é o cheeseburguer! Adoro queijo, molho de tomate e carne. Huuum...

- Com esta dieta você deve ser o pai mais adorado do planeta!
- Não sei não. O Samuel, por exemplo, está agora com uma mania de que tem super-poderes especiais, sabe aquela fase? Ele imagina que tem o maior fôlego do planeta. Então, a idéia é que ele sopra bem profundamente e eu caio quarto afora. É bem cansativo! Caio, viro, giro, muito exercício! Mas quando eu sopro de volta ele fica lá, impávido, nem se mexe! (risos). Ele não entende o conceito do jogo! (risos). Mas ele ainda tem apenas um ano! (risos).

domingo, junho 22, 2008

Limites da Idiotice: Metallica

A reportagem foi publicada no Guardian nesta quinta-feira. O ótimo texto de Clive Stafford Smith dá conta do uso de música em altos decibéis como tática de tortura. A reportagem resolveu então entrevistar James Hetfield, do Metallica, para ver o que ele achava de seu som ser usado para arrancar 'confissões' de cidadãos acusados de terrorismo. A resposta?

"Se os iraquianos (sic) não estão tão acostumados à liberdade, então estou feliz em fazer parte desta liberação (sic). Nós temos punido nossos pais, esposas e todos os que gostamos com nossa música desde sempre. Por que deveria ser diferente com os iraquianos?"

Idiotice tem limite. E piada envolvendo tortura não tem a menor graça.

sábado, junho 21, 2008

BURN AFTER READING/trailer

Conversei no início do ano com George Clooney em Los Angeles, quando ele lançava um dos grandes fracassos de 2008, seu filme Leatherheads, sobre a profissionalização do futebol americano, nos anos 30. No Brasil o filme nem sequer passou nas telas grandes, indo direto para o formato DVD. Na ocasião, falamos sobre o novo filme dos irmãos Coen, Burn After Reading.

Sempre um bom-papo, ó só o que Clooney me disse sobre o filme que vai abrir o Festival de Veneza em agosto (e estréia aqui nos EUA em setembro): "Joel e Ethan Coen dizem que meu personagem completa a ‘trilogia Coen de idiotas’ que eu fiz com eles (os outros dois sendo o Everett de E Aí Meu Irmão, Cadê Você? e o Miles de O Amor Custa Caro), o que já dá uma idéia de onde fui me meter (risos)! Outro dia vi um pouco do filme pela primeira vez e a única coisa que me fez ficar um pouco menos envergonhado foi que o papel do Brad é ainda mais tolo do que o meu!".

Dá para ter uma idéia do que Clooney dizia com o trailer que está passando nos cinemas daqui. Como adorei Onde Os Fracos Não Têm Vez, o vencedor do Oscar deste ano, estou doido para ver o que os Coen aprontaram desta vez.

CAMPANHA 2008/John Cusak

A disputa entre Obama e McCain por aqui segue fervendo. John Cusak, que acaba de lançar um filme bem político (e que foi massacrado pela crítica), War Inc., acaba de fazer esta propaganda, anti-McCain, que já circula pela internet e chegou ao horário nobre nos programas jornalísticos liberais das redes de tevê ontem de noite:

ENTREVISTA/Paulo Szot

Está no Portal Terra minha entrevista com o barítono Paulo Szot, 38 anos, o primeiro brasileiro a ganhar um Prêmio Tony, o Oscar do teatro americano. Conversamos ontem de tarde no Central Park e, apesar de visivelmente cansado, Paulo foi um doce de simpatia. As fotos são minhas e da querida Luciana Medeiros. Ó só:

Arte e Cultura


"Foi uma vitória de todos nós", diz vencedor do "Oscar" do teatro

Eduardo Graça
Direto de Nova York


A última vez em que um artista oriundo do Brasil fez tamanho sucesso na Broadway, ela usava um tutti-fruit hat na cabeça. Se não chegou a influenciar a moda da cidade como Carmen Miranda (não se sabe - ainda - de uma súbita disparada às clínicas de cirurgia plástica afim de se conseguir reproduzir as belas feições do barítono paulistano), Paulo Szot, 38 anos, é a unanimidade mais inteligente da vida artística nova-iorquina.


Sua aparição como o fazendeiro Emile de Becque do clássico musical de Rogers & Hammerstein em cartaz (com lotação garantida até setembro) no Teatro do Lincoln Center foi um acontecimento que levou críticos a louvá-lo como uma das razões do retorno da era de ouro dos musicais à sua vizinhança mais nobre. Detalhe: Szot disputou o papel com outros 200 candidatos. Por incrível que pareça, a atual versão de South Pacific é o primeiro revival na Broadway do musical vencedor do prêmio Pultizer em 1949.


Menos alto do que parece - seus 1,85m ganham centímetros extras por conta da postura elegante, que revela a disciplina de atleta - o barítono conversou com o Terra no Central Park quatro dias depois de saborear o prêmio Tony (o Oscar do teatro norte-americano) de Melhor Ator em um musical na atual temporada, feito jamais alcançado por outro brasileiro.


"Foi uma vitória de todos nós", disse Paulo, que já havia estrelado na New York City Opera produções de L'Elisir d'Amore, Carmen e Le Nozze di Figaro. Ópera, Broadway, música popular brasileira (ele prepara um CD para o mercado brasileiro com arranjos de Wagner Tiso), não importa. "O que não vale é preconceito. Se é bom, quero cantar", diz.
Paulo Szot fica até o fim de novembro em cartaz com South Pacific, viaja para a França no fim do ano e retorna para algumas apresentações especiais do musical em 2009. Confira trechos da entrevista com o cantor-ator:

Público

"A maior diferença entre o público de ópera e o da Broadway é o espaço físico. No teatro do Lincoln Center eu fico a um metro do público. Sinto muito esta energia e isso me ajuda muito. Algumas das canções que eu canto como Some Enchanted Evening são conhecidas dos americanos, que desde criança as escutam. E eu consigo escutar parte do público cantando comigo, em murmúrio, as músicas. É bem bonito. E também me dá a segurança de que, se, por um acaso, eu esquecer a letra, alguém vai me dar a dica ali, na hora. Esta presença do público, tão intensa não existe na ópera".

South Pacific

"Senti a sede dos americanos em rever este musical que ficou 60 anos fora da Broadway".


Paulo, ator
"Foi uma descoberta para mim. Ao contrário da ópera, em que a música te conduz o tempo todo, na Broadway ela, em determinado momento, pára. E você precisa encontrar no texto um ritmo próprio. É algo bem diferente do que eu fazia e tive a sorte imensa de contar com um diretor como o Bartlett Sher (também vencedor do Tony este ano como melhor diretor de 2008) e de contar com um elenco paciente, que entendeu o desafio-extra de encontrar a música no texto em uma língua que não é a minha nativa".

A Persistência
"Foi uma batalha conseguir encontrar o ritmo perfeito das falas em inglês. Lembro que nas duas primeiras semanas eu cheguei a pensar: vou-me embora, não sei fazer isso aqui não! Dava um certo desespero. Depois de 11 anos de carreira, tive novamente a sensação de estar no palco pela primeira vez. Tem o lado bom desta sensação, claro, que é o desafio. Agora, principalmente quando o desafio dá certo, né? (risos) E neste caso a resposta foi imediata, já no primeiro espetáculo o público veio abaixo e a crítica foi menos severa do que a de ópera, onde há sempre um porém. Fui muito bem aceito por todos".

Saudades do Brasil

"Adoro Nova York, principalmente agora que está mais quente. No inverno, sofro muito. Tenho saudade da temperatura amena, mas, principalmente, de falar português. Já há alguns anos canto menos no Brasil por conta da diferença no nível de organização das produções. Este é meu maior problema, as coisas aparecem muitas vezes de última hora e eu acabo não podendo me apresentar para os brasileiros com a regularidade que eu gostaria. Fico um pouco frustrado, adoro a platéia brasileira, adoro me relacionar, por exemplo, com São Paulo, que é minha cidade. Quem sabe no ano que vem?"

O Disco Brasileiro
"A idéia é gravar este ano e lançar no começo de 2009. Quero que este disco celebre esta nova fase. Serão arranjos de Wagner Tiso e só posso adiantar que ele será terá alguns números de musicais americanos temperados com boa música brasileira. Ainda não definimos todo o repertório, mas posso garantir que pelo menos um Tom Jobim estará lá".

O Tony do Brasil

"Sinto, honestamente, que toda vez que um brasileiro recebe um prêmio, seja uma medalha nas Olimpíadas, uma Copa do Mundo, ou um laurel artístico que ele é sim, por direito, de toda a nação. Temos tantos problemas no Brasil que quando nos evidenciamos de alguma maneira, as pessoas em geral, e é o que estou sentindo neste momento, têm esta necessidade de repartir. De repartir a alegria com o país. E é muito gostoso ter esta experiência, sabia? É claro que é um reconhecimento importante, o ego do artista fica preenchido. Mas ele é sempre, também, para os familiares, os amigos, o país que pela primeira vez recebe esta lembrança".


A Disciplina

"As pessoas perguntam o que acontece depois que se ganha um Tony. Para mim nada mudou, não tive férias não. São oito espetáculos por semana! No dia seguinte eu já estava no teatro. Tenho uma rotina de atleta. Penso como um atleta. Tenho horário para comer, para dormir, para descansar. Já foram mais de 130 apresentações de South Pacific e a disciplina é fundamental. No dia da apresentação do Tony nós tivemos um ensaio às nove a manhã no Radio City Hall (local em que ele seria apresentado), voltamos para o Lincoln Center, fizemos nosso espetáculo, fizemos o show do Tony, teve todo o nervosismo do prêmio e depois a noite seguiu. Tenho de ter muito cuidado. Dois dias por semana eu faço duas apresentações de South Pacific. Se não dormir, em casa, entre um show e outro, simplesmente não tenho forças para fazer o próximo".


Sensualidade e Sex-Appeal

"É legal saber que isso aconteceu, claro! South Pacific é uma história de amor ardente, da paixão que um homem mais velho sente por uma enfermeira. E desta urgência que ele sente em viver esta paixão, ameaçada pelo preconceito. Este é o tema central do musical, que é bem sério e que, desta vez, é ainda mais explicitada do que na versão original. Mas esta coisa da sensualidade não é mérito exclusivo meu. No meu caso, contracenar com a Kelly O'Hara (indicada ao Tony por melhor atriz em 2008), que é uma atriz sensacional, foi fundamental para encontrar esta sensualidade. Penso que a coisa do sex-appeal é muito mais do personagem do que minha".

Internet & Um Mundo de Opções
"
Vivo on-line. Fico conectado o tempo todo, inclusive no meu camarim. Desde 1998 não vivo sem Internet. A vida de cantor de ópera exige que você mude de cidade a cada dois meses. Minha única exigência sempre é saber se o hotel em que ficaremos tem Internet. Para mim, não tem jeito. Para falar com a família, com os agentes que estão mundo afora, é fundamental. Não tem jeito, Internet é tão fundamental quanto água. E para quem navega pelo Terra vai um toque - fiquem abertos para todas as formas culturais. Tem muita gente que gosta de ópera e aí não curte musicais, ou gosta de música popular e não ouve os clássicos. Isso é uma grande besteira. Existe a boa música, que pode ser encontrada nos mais variados gêneros artísticos. Mantenha a cabeça aberta e encontre coisas legais em todos os cantos."


A Estrela Que Sobe

"A experiência na Broadway não poderia ter sido melhor. Não troquei a ópera pelo teatro musical - foi um acréscimo. Mas sempre que tiver um papel adequado à minha voz e ao meu perfil, estarei interessado. Há dois musicais que amaria fazer, talvez quando estiver um pouco mais velho - O Violinista no Telhado e The Man of La Mancha. A Broadway me rendeu muitos frutos e me deixou mais aberto para novas empreitadas, então, claro, Hollywood seria uma experiência muito interessante também! Por que não?"

sexta-feira, junho 20, 2008

AGENTE 86/Texto e entrevistas

A Folha de S.Paulo publicou ontem, na capa da Ilustrada, meu texto sobre Agente 86, que estréia hoje nos cinemas brasileiros. A Contigo! desta semana saiu com minhas entrevistas com Steve Carell e Anne Hathaway, os protagonistas da comédia, que me fez rir muito e recordar de tardes siderúrgicas de tempos idos passadas na frente da tevê vendo Don Adams aprontando todas.

Aí vão, as conversas com os atores na íntegra:


Velho truque de cara nova

Nova versão de "Agente 86", baseada na série de TV criada por Mel Brooks e Buck Henry nos anos 60, estréia amanhã com Steve Carell na pele do espião atrapalhado
Anne Hathaway e Steve Carell, comparado a Pelé pelo diretor Peter Segal, revivem a Agente 99 e o Agente 86 na adaptação para o cinema da série de 1965

EDUARDO GRAÇA

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE LOS ANGELES


Eddie Murphy, Leslie Nielsen, Bill Murray, Jack Lemmon, Dan Aykroyd, Adam Sandler, Jack Nicholson e Steve Carell. Nos últimos 15 anos, o diretor Peter Segal escalou em seus filmes uma verdadeira seleção de craques da comédia. É "o velho truque..." do diretor, como diria o protagonista de "Agente 86", que estréia amanhã nos cinemas do país.
A adaptação da festejada série de TV americana tem Carell no papel que foi originalmente de Don Adams.

"Com cabeça de técnico de futebol brasileiro, se Sandler é meu Beckham, Carell é, indiscutivelmente, o camisa 10, o Pelé deste meu escrete", diz Segal à Folha. Isso porque Segal considera Carell o ator "mais inteligente de sua geração". "Há o fato de ele ser incrivelmente parecido com Adams e ter um amor imenso pela série. Isso também pesou, pois queríamos fazer um filme que exalasse carinho pelo original, sem ser piegas."
"Agente 86" foi uma das comédias de maior sucesso na TV americana entre 65 e 70, criada por Mel Brooks e Buck Henry, uma sátira sobre o mundo da espionagem na Guerra Fria.

Segal lembra que, nos dois anos que teve para concretizar seu desejo de transformar Steve Carell em Maxwell Smart, a pergunta que mais ouviu foi: "Mas você vai fazer um filme de época?". Ele decidiu arriscar e deixou de lado a Guerra Fria, fundamental para o sucesso da série na TV americana em 65, em meio à Guerra do Vietnã. "Mas, de certa forma, seguimos a receita de Mel. Ele tinha os russos, nós temos a Al-Qaeda. O tempero do "Agente" é novamente a sátira política, que agora transpira nos ataques de fúria do vice-presidente e na inteligência muito peculiar de nosso primeiro mandatário."

Maxwell Smart é o agente aparentemente boboca, que surpreende o público e seus parceiros da C.O.N.T.R.O.L (a secretíssima agência de inteligência americana) ao resolver as crises mais complexas, quase sempre deflagradas pelos terríveis elementos da K.A.O.S, agora uma comunidade de terroristas interessada em ameaçar as democracias do Ocidente.


Equilíbrio


Para Mel Brooks, Smart é o filho que James Bond e o Inspetor Clouseau nunca tiveram. O criador se diz satisfeito com o resultado desta adaptação -que o preocupou, após o fracasso, em 1995, de uma tentativa de recriar a série. No filme, afirma, há "um equilíbrio perfeito entre as aventuras de 007 e minhas melhores comédias". Cenas emblemáticas, como a das portas do elevador que nunca têm fim, voltam para fazer rir o público saudoso. O diretor enfatiza: "Por favor, escreve aí: não temos a menor pretensão de fazer algo tão bom quanto a série televisiva. Seguimos humildemente a sombra de Mel Brooks. Buscamos tocar o espírito do que eles criaram para tentar fazer algo original que novos e velhos fãs gostem. Nossa modéstia garante a tranqüilidade com que atravessaremos este fim de semana [de estréia]".

Origem do Agente 86


A preocupação com os neófitos pautou as escolhas do diretor e do ator. O filme é uma espécie de "origem de Smart", explicando como ele foi parar na ativa. E figuras do passado, como o Agente 13 (vivido na série por David Ketchum e, agora, por Bill Murray) surgem em pequenas e hilárias pontas. "Bill é conhecido por não ter um agente e ser dificílimo de contatar. Não é que nossa figurinista era amiga dele?", conta Segal. "Mas não tínhamos a menor idéia do que escrever para ele. Ficamos com os queixos no chão [quando ele aceitou] e dois dias depois o enfiamos dentro de uma árvore em Washington. Nascia assim uma das minhas cenas favoritas!"

Fã dos irmãos Marx e de Buster Keaton, o diretor conta que o caráter subversivo de Carell -conhecido pela capacidade de improvisação- foi um dos principais combustíveis do filme. Ele só convidou Anne Hathaway para encarnar a Agente 99, por exemplo, após perceber que era ela quem respondia com mais rapidez às mudanças do roteiro criadas por Carell. A escolha foi certeira. A atriz exala a sensualidade de uma Bond Girl ao mesmo tempo em que levanta a bola para Carell. "Meu mestre na arte de improvisar foi Alan Arkin, com quem trabalhei no começo da carreira [Arkin faz o Chefe -veja quadro ao lado]", diz Carell. "Com ele, entendi que a improvisação, quando bem-feita, é dar uma nova perspectiva ao tema apresentado. Faço muito isso [na série] "The Office"." Mas, se em "The Office" Carell joga com um humor que deixa seus interlocutores desconcertados, em "Agente 86" ele precisa lidar com o nonsense típico das criaturas imaginadas por Mel Brooks. "É um tipo de comédia menos seco, menos sutil do que em "The Office"."

ENTREVISTA/Steve Carell
Eduardo Graça, de Los Angeles, para a Contigo!

Quando descobriu que havia sido a atriz escolhida para viver a Agente 99 na versão para o cinema da clássica série televisiva Agente 86, criada por Mel Brooks e que durante décadas foi um dos carros-chefe da programação da TV Bandeirantes no Brasil, Anne Hathaway correu ao telefone e ligou para sua mãe, a também atriz Kate McCauley. Queria celebrar a conquista – um dos programas preferidos das duas era ver as trapalhadas do agente Maxwell Smart e de sua namorada 99 nas longas tardes suburbanas de Nova Jérsei – e também pedir conselhos para dona McCauley. “Ela me disse que apenas deveria prestar atenção em Steve. Que se tivesse alguma dúvida, bastaria olhar para ele. Ele saberia me conduzir, sempre, para o caminho certo”, diz Hathaway.

A história corrobora o tamanho do fã-clube de Steve Carell, o protagonista do filme que chega aos cinemas brasileiros nesta sexta-feira. Aos 45 anos ele é o comediante de maior sucesso no showbizz americano. Ídolo nacional por conta de sua versão televisiva do sucesso The Office (no Brasil vai ao ar pelo canal FX), ele ganhou um lugar cativo na telona com a explosão de O Virgem de 40 Anos e a magistral interpretação do tio gay de A Pequena Miss Sunshine. Casado com a atriz Nancy Walls, 41 (a Carol de The Office), ele passa boa parte de seu tempo livre fazendo graça para os filhos Elizabeth, 8, e John, 4, que, segundo o pai-coruja, poderá vir a ser um comediante talentoso.

Fã da versão original do Agente 86, que passou na televisão norte-americana entre 1965 e 1970, Carell é quase um clone do falecido ator Don Adams, que encarnou o espião trapalhão, uma paródia de James Bond com uma pitada de Inspetor Clouseau, na versão original. Mas seu grande trunfo, de acordo com o próprio Brooks, consultor-emérito do filme, foi ter criado um Maxwell Smart todo próprio, tão diferente de Adams quanto fiel à imaginação do criador do personagem bonachão. Mesmo quando cede novamente ao humor mais físico – as cenas em que aparece semi-nu ou beijando o ator Dwayne Johnson, de O Rei Escorpião, mais conhecido como The Rock, são absolutamente impagáveis – Carell segue o dono da bola, exatamente como previra a sábia mamãe de dona Hathaway.


- É verdade que você achou que iria ter de fazer testes para encarnar Maxwell Smart na tela? A pergunta é porque você é a cara do personagem, parece-me uma escolha óbvia!
- Foi uma surpresa completa. Fui chamado para uma reunião na Warner e achei que seria um teste de elenco. Então levei meu currículo, algumas fotinhas e imaginei que ficaria um tempo em um quartinho esperando os outros atores que já estariam fazendo cenas de Maxwell Smart. Mas, que nada! Entrei em uma sala imensa, com executivos e produtores que diziam que queriam que eu fizesse o protagonista do filme! Basicamente, posso te dizer que minha cabeça explodiu naquele momento. De felicidade (risos).

- Mas você ficou supreso por ter este acesso direto em Hollywood?
- (fazendo uma voz pomposa) De modo algum. Sempre soube que o sucesso estava na esquina pronto para mim. (risos). O problema é que fiquei esperando, esperando, esperando e esperando de novo! (risos). Não, sério, sim, me surpreendo todos os dias com o sucesso que alcancei nesta carreira, mas tenho a consciência de que isso um dia vai passar. É uma delícia, adoro, mas tento me lembrar todos os dias de que um dia isso acaba. É inevitável.

- Você era um fã da série criada por Mel Brooks em 1965?
- Sim, claro! Cresci vendo Agente 86 na tevê. E criei meu Maxwell com muito amor e carinho pelo original.

- A cena em que você beija Dwayne Johnson na boca é reveladora. Como foi sapecar um beijo no The Rock?
- Foi exatamente o que você imaginaria (risos) e sonharia por noites a fio (mais risos). Há três coisas sensacionais sobre Agente 86, o filme.

- Que são?
- Uma, o serviço de catering (risos). Comemos lagosta ao termidor o tempo todo. O elenco, sensacional. E poder beijar Dwayne na boca. Ele é genial, doce, agradável, inteligente. E também tem aquela pele macia, os lábios volumosos (risos). E ele tem aquele cheiro de cookies que acabaram de sair do forno, sabe? Ai, ai...(risos). Não, sério, tiveram dois dias de filmagem – o que eu beijo o Dwayne e o que eu apareço com o bum-bum de fora – em que eu tive de ligar para mulher para contar o que eu havia feito! (risos). No dia em que ficava pelado em cena, disse a ela; “Amoreco, há 500 pessoas nesta sala de concerto em que estamos filmando e eu tenho que me abaixar e mostrar minha bunda para eles!”.(risos). E eu tinha esquecido que estas duas cenas estavam no roteiro, é assim que eu funciono. O que fazer? Ora, respirar fundo e manter a dignidade, sempre.

- O filme é repleto de paródias e ironias com instituições norte-americanas como a C.I.A. e o F.B.I. e pega pesado tanto com o presidente Bush quanto com o vice Dick Cheney. Você, que esteve durante anos em um dos programas mais cáusticos da tevê americana, o Daily Show, com John Stewart (apresentado no Brasil em sua versão internacional, na CNN) segue um adepto da comédia mais politizada?
- Acho que esta é uma das melhores características de nosso país. É fundamental que programas como o Daily Show e o Colbert Report, que caçoam de nossos políticos continuem existindo. Eles nos ajudam a pensar sobre a sociedade em que vivemos e, ao mesmo tempo, são divertidos pacas.

ENTREVISTA/ Anne Hathaway
Eduardo Graça, de Los Angeles, para a Contigo!

Ela é apontada pelas publicações de entretenimento norte-americanas como a possível sucessora de Julia Roberts no panteão das estrelas de Hollywood. Exagero? Pode ser, mas a bilheteria acumulada de seus últimos cinco papéis de peso (incluindo a Andy de O Diabo Veste Prada e a Lureen da Montanha Brokeback) somam impressionantes US$ 704 milhões. Número que deve aumentar ainda mais com Agente 86. Aos 25 anos Anny Hathaway já fatura, de acordo com as ótimas e afiadas línguas, US$ 5 milhões por filme.

Desde que explodiu com a franquia O Diário da Princesa ela já jogou de igual para igual com ninguém menos do que Meryl Streep e agora capricha no quesito sedução para explorar seu lado pin-up. Sua Agente 99 é tão eficiente quanto engraçada, mas especialmente sensual. Além de não ficar para trás nos diálogos cômicos com o craque Steve Carell – tarefa bem difícil, o homem é rápido no gatilho - ela deixa os marmanjos de boca aberta com seus figurinos ousados e uma câmera enamorada, que parece procurar as curvas da atriz. Depois da conversa com a Contigo!, na sala de conferências de um hotel cinco-estrelas de Beverly Hills, a atriz foi relaxar na piscina com uma amiga dos tempos de faculdade e o namorado de quatro anos, o empreendedor imobiliário Raffaello Follieri, 28. Com seu ragazzo italiano, Hathaway saboreou uma tequila e dividiu um prato de nachos, se protegendo sempre do sol, mas mostrando para os privilegiados hóspedes do hotel uma forma invejável.


- Você, que agora é uma expert no assunto, gostou do guarda-roupa da Agente 99?
- Adorei! Adorei! A figurinista do filme, Debbie Scott, que ganhou o Oscar por Titanic, passou horas conversando comigo sobre como faríamos para a Agente 99 ser ao mesmo tempo uma garota interessada em sua aparência, ao mesmo tempo em que não tinha problema algum em parecer perigosa. Queríamos encontrar um look que serviria tanto para um desfile de modas quanto uma luta contra ninjas assassinos (risos). Meu vestido favorito é o que uso quando minha identidade é revelada. Sei que fica estranho eu dizer isso, mas aquele é um vestido sexy!(risos).

- Mas não ficou difícil fazer todas aquelas cenas de ação usando salto alto?
- Acho que O Diabo Veste Prada funcionou como um ‘treinamento em salto-alto’ para Agente 86. (risos). Naquele filme, muita gente não sabe, eu tive de fazer malabarismos enquanto tinha quebrado um dedo. Foi uma loucura! A Agente 99, no entanto, teve muito mais ajuda. Tinha um dublê, um professor de artes marciais para ajudar a fazer tudo no estilo correto, para parecer de fato autêntico. A produção ofereceu tudo o que queríamos, até porque eles sabiam que tinham nas mãos os dois atores mais improváveis para fazer um filme de ação (risos). Também pesou o fato de que eu cresci praticando esportes. Vi toda a ação da Agente 99 como um mix de treinamento de balé com lacrosse (esporte praticado nas universidades americanas que lembra o críquete).

- A Agente 99 teve de fazer uma cirurgia plástica. Há algo que você mudaria em seu rosto?
- Tenho uma artrite terrível no dedão de meu pé esquerdo e me incomoda muito. Muito mesmo. Se houvesse uma maneira de consertar isso, certamente entraria na faca. Quando era mais jovem – e existe muita pressão social nas adolescentes – e pensava que era necessário fazer algo para me moldar mais na tal beleza clássica pensei em operar o nariz. Não achava que ele era bonito o suficiente. E é engraçado isso porque hoje acho que o meu nariz é que me permite mudar de rosto em um filme na hora em que bem entendo. Posso ser glamurosa como a Agente 99 ou uma ex-viciada em heroína, como em meu próximo filme, em que a personagem é barra-pesada. Acho que uma atriz tem de ter um rosto expressivo, ou você será eternamente apenas uma face conhecida, sem personalidade.

- Você consegue acreditar no conto de fadas vivido por Maxwell Smart, que ganha o coração de uma mulher-perfeita, como a Agente 99?
- Não acho que ela seja o estereótipo da mulher perfeita! Ela é uma workaholic e leva a sério seu trabalho a um ponto exaustivo. Max faz com que ela entre em contato com seu senso de humor, com sua sensibilidade. Ele a surpreende, e ela adora isso. Eu entendo bem esta sensação, de você pensar que domina tudo, sabe do que está falando e, de repente, alguém te surpreende.

- Você ainda é muito jovem e já trabalhou com gênios da interpretação como Meryl Streep, Alan Arkin e Steve Carell. O que aprendeu mais nos sets de filmagem que poderia dividir conosco?
- Em O Diabo Veste Prada aprendi a diminuir a intensidade da piada sem perder o timing. Com Alan e Steve aprendi a importância de se ter liberdade para errar. De encontrar o tom cômico exato depois de tentar muitas vezes, a busca do aprimoramento. É quase que como entender que para realmente você ser engraçada você precisa antes compreender que isso não é uma regra. O importante é continuar tentando.

terça-feira, junho 17, 2008

NA VITROLA/Bonnie 'Prince' Billy - Lie Down in the Light


Não sai da vitrola de casa o discaço de Bonnie 'Prince' Billy lançado na segunda-feira aqui em Obamalândia. É uma volta de meu querido Will Oldham a um som mais 'rural' que o caracterizava nos anos 90, com recriações de temas e sons caros à música folclórica dos Apalaches, rica pelo mix de imigrantes irlandeses e do leste europeu. É uma música menos percussiva e que oferece um tipo de transe diferente da experiência mais deslumbrante dos ritmos oriundos da África que aqui desaguariam no jazz, no blues e no gospel.

No NYT de ontem Ben Ratliff traduziu bem o velho-novo som de Oldham, 'seus acordes de violão secos, oblíquos, transparentes, desprotegidos e com flashes, aqui e acolá, de intensa sexualidade. As músicas podem parecer vagas, mas ganham força com a poesia e com a vontade clara de se passar ao ouvinte princípios nítidos. Em um primeiro momento pode parecer uma rendição a um tipo específico de música country ou a uma Americana mais profunda. Mas não, é algo novo, completamente diferente'.

O que me importou é que o resultado é muito, muito bonito, sem cair no preciosismo.

Esta é a faixa que abre o disco, Easy Does It. Deleitem-se:

domingo, junho 15, 2008

Coluna de Domingo: Frank Rich, NY

A obrigatória coluna dominical de Frank Rich no NYT, hoje, está tinindo. O jornalista contesta o novo conto de fadas da mídia norte-americana: o de que os eleitores - mais precisamente, as eleitoras - de Hillary estariam migrando para McCain.

A coluna, completa, apenas em inglês, você lê aqui.

Seguem alguns bons trechos:

* "Pelas propagandas de McCain dizendo que ele, e não Obama, está mais próximo das eleitoras de Hillary, você jamais desconfiaria que o senador republicano é um dos maiores inimigos ao direito de escolha da mulher na questão do aborto. Ou que ele ajudou a derrubar o programa público de ajuda ao combate de câncer de mama"

* "As últimas três pesquisas de opinião, no entanto (Gallup, Rasmussen E Wall Street Journal-ABC) mostram Obama liderando entre as mulheres, com vantagem que vai de 13% a 19%. Para se ter uma idéia, as mulheres, que nos EUA historicamente votam com os democratas, deram a Al Gore uma vantagem de 11% sobre Bush em 2000 e a John Kerry uma vantagem de apenas 3% em 2004. A vantagem de Obama impressiona".

* "A noção de que as eleitoras de Hillary Clinton se transformaram, com sua derrota, em angry white women, é, por si só, sexista e estereotipada. O cenário fictício de hordas de mulheres furiosas migrando para a candidatura McCain é apenas mais um capítulo de uma história que querem nos vender como real - a de que o Partido Democrata é invariavelmente dividido e que apenas se Hillary for convidada para a vice-presidência a lealdade de seus eleitores (18 milhões nas primárias) seria garantida por Obama. Esta é a realidade de pernas pro ar. São os republicanos que vivem nas gargantas uns dos outros, e não os democratas".

* "A mídia se concentrou nos problemas de Obama apresentados pelas pesquisas - ele está bem atrás de McCain entre os homens caucasianos (20%) e entre as mulheres caucasianas que vivem nos subúrbios (6%). Mas está bem à frente quando se consideram todas as mulheres (19%) ou mesmo apenas a totalidade das mulheres caucasianas (7%). A rede NBC, por exemplo, sequer mencionou que Obama vence McCain em todos os outros grupos: eleitores brancos de origem hispânica, independentes, católicos e trabalhadores de baixa-renda. A vantagem de Obama entre os hispânicos é a mais assustadora para os republicanos: 62% a 28%. Não custa lembrar que Bush só chegou à Casa Branca com os 44% de votos dos hispânicos."

* "É claro que há muitas maneiras de Obama perder esta eleição, mas não se pode deixar de notar que os 6% de vantagem sobre McCain (47% a 41% da totalidade dos votos) é maior do que a de Bush, em qualquer momento da campanha, sobre Kerry em 2004."

* "Quem não consegue unir seu partido é McCain. O acadêmico conservador Douglas Kmiec já anunciou seu apoio a Obama. Exatamente como o economista republicano Lawrence Hunter e um dos pais do neo-conservadorismo, Francis Fukuyama. Até Rupert Murdoch, o dono da Fox, anda namorando explicitamente os democratas. E simplesmente 14 republicanos do Congresso se recusam a declarar o apoio a McCain. Dos 62.800 doadores da campanha Bush-2004, apenas 8% (ou 5.000) estão dando alguma ajuda a McCain".

sábado, junho 14, 2008

Leitura de Sábado: Entrevista com Gore Vidal

Ótima a entrevista publicada hoje no jornal espanhol El Mundo com um dos maiores intelectuais americanos, o escritor Gore Vidal, 82 anos. O título? Ainda Vai Levar Um Século Para Repararmos Todo o Mal Que Bush Fez.

Em determinado momento ele diz que a eleição de John McCain significaria a continuação do governo de Junta Militar, no 'pior estilo latino-americano' que têm nos comandado ultimamente.

A entrevista completa, infelizmente apenas em espanhol, pode ser conferida aqui.

Alguns destaques:

* "O Império está se acabando porque o dinheiro desapareceu"

* "Sigo tendo minhas dúvidas em relação a Obama. No início, pensei que ele era o maior demagogo da paróquia desde Martin Luther King. Depois ele subiu em meu conceito com o discurso sobre raça que fez. Ele, pelo menos, é inteligente, o que já seria uma bela novidade na Casa Branca"

* "A Espanha têm as touradas, nós a tortura de estrangeiros"

* "Os escritores contemporâneos não têm a menor noção de História, passam o tempo todo escrevendo sobre eles mesmos"

* "Vivemos em um país que me dá medo. Deixamos para trás a República e nos esquecemos da Constituição"

* "Hoje temos um presidente tão preguiçoso que não lê sequer os resumos que seus assessores lhe preparam"

* "McCain me lembra muito de George Bush. Ele seria o prolongamento deste governo de Junta Militar, no estilo da América Latina, que tem nos governado"

sexta-feira, junho 13, 2008

PERFIL/SALMAN RUSHDIE

O expresso Oriente de Salman Rushdie
Por Eduardo Graça, para o Valor, de Nova York

Depois de uma hora ouvindo sir Salman Rushdie, sai-se do encontro mais entusiasmado com a criatura do que com sua mais nova criação. Não se trata de depreciação gratuita. "A Encantadora de Florença" (Companhia das Letras), o décimo romance do escritor britânico de 60 anos, que chega às livrarias brasileiras em novembro, é uma delícia de ler. Se não é uma obra-prima como "Os Filhos da Meia-Noite", oferece uma eletrizante aventura pelos três continentes no ocaso da Idade Média, em meio a conflitos entre Ocidente e Oriente, ao mesmo tempo em que se revela uma ode ao prazer de contar histórias. "Contamos histórias sobre nós essencialmente para entendermo-nos. Elas são o coração do ser", diz o escritor.

Ele encara uma multidão de fãs no lançamento da obra em uma livraria no coração nervoso de Nova York. Vinte anos depois da publicação de "Os Versos Satânicos" e da declaração de fatwa do aiatolá Khomeini, afirmando ser dever de todo muçulmano eliminar o "escritor herege", não deixa de surpreender a falta de policiamento ostensivo no local. Rushdie não parece preocupado. Gripado ou alérgico, trajando um longo sobretudo negro apesar do calor fora de época em plena primavera, lê um trecho do livro passado em meio à histórica Batalha de Chaldiran, em 1514. Pára repetidas vezes, assoa o nariz, mas segue em frente, vitorioso diante do silêncio da platéia. Seus personagens se mesclam a figuras históricas e fica evidente o prazer do historiador formado em Cambridge em revelar de onde retirou determinada informação.

Maquiavel, um dos personagens de "A Encantadora de Florença": "Ao falar sobre alguém que foi tão demonizado em seu tempo, não consegui deixar de ter uma certa simpatia por ele, não é?", diz, bem-humorado, o escritor

Rushdie escreveu esse romance no mesmo momento em que o casamento com a atriz - agora apresentadora de um dos maiores sucessos da TV paga americana, o reality show "Top Chef", do canal Bravo - Padma Lakshmi, de 38 anos, sua quarta mulher, chegava ao fim. Ele já disse que, de certa forma, escrever o livro que começa na Itália renascentista do século XVI e passeia por 50 anos de história na Índia, Pérsia e Turquia, salvou sua vida. Estar naqueles confins perdidos de história era "mais confortável" do que na vida real.

O projeto do livro, porém, é mais antigo. Foram sete anos de estudos revelados em uma bibliografia de mais de 80 títulos. "Tive de fazer uma pesquisa detalhada, por exemplo, sobre o 'Kama Sutra'. O capítulo 4 é um espetáculo, eu recomendo! E há pelo menos outras três narrativas fundadoras do estudo da sexualidade no Oriente. E, neles, exatamente como no 'Kama Sutra', há uma ênfase na preparação, nos cremes, nos preparados. Não posso dizer que eles de fato ajudam na hora do vamos ver, porque não fiz uma pesquisa tão empírica assim, mas todas essas narrativas já são puro realismo mágico", conta, com humor.

Rushdie se diverte ao revelar que, em "A Encantadora de Florença", trechos que os leitores pensarão ser um recurso estético advindo do realismo mágico que ele tanto admira são, de fato, pura história. E vice-versa. Um dos mais saborosos é o da rainha hindu inventada por Akbar, o Grande, o maior dos monarcas do Império Mughal, para a corte muçulmana, tornando-se o primeiro soberano da Índia pré-moderna a valorizar a tolerância religiosa. Rushdie lembra que, na Índia, acredita-se piamente na existência física de tal rainha. Qualquer criança sabe que a mulher de Akbar, o Grande, foi a rainha Jodha, uma figura, entretanto, inexistente nos anais da história.

O título, no entanto, refere-se à lenda da Princesa Desaparecida, Kara Koz, uma nobre mughal que decidira abandonar a Índia para viver com estrangeiros. Quiçá na Toscana renascentista? É um misterioso viajante, vindo das bandas da Itália com ajuda de piratas escoceses, quem traz ao imperador uma solução possível para o mistério da tal "encantadora" (ao mesmo tempo incrivelmente bela e conhecedora de encantamentos mágicos). Em uma trama com nomes e sobrenomes que se confundem mesmo na cabeça do leitor atento, a figura mais bem-construída é a de Akbar. Em seu longo reinado (1556-1605), foi guerreiro incansável e amante da literatura, devoto muçulmano, mas contava no gabinete com seguidores de diversas religiões. Recebeu até jesuítas portugueses (retratados de forma jocosa) na luxuosa capital que construiu para si.

"O livro parte da idéia de que o mundo não mudou. Os homens não estão diferentes. Religião é um negócio tão sangrento quanto há cinco séculos"

Outras figuras históricas surgem na narrativa, incluindo um certo Nicolau Maquiavel. "A Encantadora de Florença" também pode ser lido como uma conversa imaginária entre Maquiavel e Akbar, que, em um intervalo de 50 anos, refletiram sobre variados aspectos do exercício do poder e do bem-fazer público na era dos príncipes. Rushdie revela que almejou recuperar a reputação do italiano. "Maquiavel não estava nem um pouco errado sobre a natureza humana. Ele era um republicano exemplar, um sujeito íntegro que jamais se curvou à corrupção, um homem que foi cruel e direto com os príncipes amorais de seu tempo", afirma. "Sua obra-prima é uma formulação condensada do exercício do poder naquele momento histórico. Ele também era bem-humorado, autor das comédias mais populares da Itália de então. E, ao falar sobre alguém que foi tão demonizado em seu tempo, não consegui deixar de ter uma certa simpatia por ele, não é?", diz, piscando o olho.

Muito alto, com movimentos elegantes, Rushdie transpira o humor e a mágica que povoam seus romances. Quando pensa em Maquiavel, remete tanto à celeuma causada pelos exemplares de "Versos Satânicos" queimados por muçulmanos irados quanto à percepção, por parte do público, de que ele é mais uma personalidade do que um autor de obras fundamentais da literatura contemporânea, como "Os Filhos da Meia-Noite", única a receber duas vezes o prestigioso Booker Prize (em 1981, como livro do ano, e em 1995, como o melhor em 25 anos de premiação).

"Não quero ser um 'talking head', que fala sobre todos os assuntos nos jornais", diz. Mas refuta críticas de que "A Encantadora de Florença" seja seu trabalho mais apolítico. "O livro parte de minha idéia de que o mundo não mudou tanto assim. Os homens não estão tão diferentes. Religião é um negócio tão sangrento quanto o era há cinco séculos. O quão constante é a natureza humana - e aqui incluo também, por favor, todos os aspectos positivos da humanidade - é talvez o tema que mais me interesse. É o que me faz escrever."

Para um homem daquele tamanho e com a história que carrega, seu sorriso manso, suave, quase pedindo licença para ocupar o ambiente, deixa o público intrigado. A imagem de um ser "mais sombrio do que a escuridão", na autodepreciação do escritor, passa longe da personalidade mundana revelada nessa noite quente de Nova York. Aqui ele está mais próximo do dublê de ator bonachão (Rushdie interpreta um ginecologista no primeiro filme dirigido pela atriz Helen Hunt, "The She Found Me", lançado este ano) do que do pomposo cavaleiro da coroa britânica.

"A Encantadora de Florença" teve uma recepção díspar pela crítica especializada dos dois lados do Atlântico. Lançado primeiro na Grã-Bretanha, o livro foi recebido por especialistas como John Sutherland com toda a pompa. No "Financial Times" ele chegou a dizer que "se o Booker Prize não o escolher como melhor livro do ano, vou marinar minha prova com curry e comê-la em um jantar de protesto". Nas terras da rainha, louvou-se este como "o mais novo manifesto de Rushdie pelo poder transformador da narrativa".

Já a inteligência americana, sempre refratrária ao menor traço de melodrama, foi dura. No "New York Times", Michiko Kakutami escreveu que o livro é uma "paródia previsível", em que o melhor de Rushdie - suas analogias políticas em que uma família pode ser a metáfora de uma nação, como em "Os Filhos da Meia-Noite" - é substituído por "ruminações filosóficas sobre o artesanato de escrever ficção e as relações entre arte e vida". Rushdie não segue mais interessado na sugestão de que não houve só um Renascimento, mas dois. E tal peculiaridade histórica pode nos ser deveras útil. Entre as passagens de "A Encantadora de Florença", uma das mais pungentes é quando a rainha Jodha lembra que "os ocidentais são o nosso sonho. E nós, por sua vez, a quimera deles". Impossível não imaginar o sorriso de sir Rushdie ao criar essa fala.

quarta-feira, junho 11, 2008

ENTREVISTA/Liv Tyler

A Contigo! que chegou às bancas hoje publicou minha entrevista com a atriz Liv Tyler, estrela de O Incrível Hulk. Aí vai:

Liv Tyler
A musa de Hulk

Por Eduardo Graça, de Nova York

Não havia aliança no dedo de Liv Tyler, 30 anos, quando ela entrou na suíte do hotel de luxo localizado nas imediações do Central Park, em Nova York, para conversar com os jornalistas da imprensa internacional. Há no ar o temor de uma conversa tensa - afinal, os rumores de que o casamento de cinco anos com o músico inglês Royston Langdom, 36, da banda The Quick, acabou, circulavam nos jornais e revistas americanos. De fato, uma semana depois de dar entrevista para a Contigo!, os pais de Milo, 3 anos, anunciaram a separação.

A tempestade pessoal pela qual passava a bela Liv, uma das estrelas do novo O Incrível Hulk, que estréia sexta-feira (13/6/2008), não transpareceu em nenhum momento da entrevista. Neste novo filme da cinessérie, cujo início retoma o ponto final do primeiro longa, de 2003 - dirigido por Ang Lee e estrelado por Eric Bana, Jennifer Connelly e Nick Nolte -, ela é a doutora Betty Ross, a namorada de Bruce Banner, médico vivido por Edward Norton, 38 - famoso em Hollywood por seu temperamento difícil (desentendimentos com os produtores do filme, sobre aspectos do roteiro, que ele assina junto com Zak Penn, 40, só provam essa sua fama de irascível) -, que busca a cura para a sua raiva radioativa, a princípio, no Brasil. Até que o pai de Betty, o general Ross (papel de William Hurt) resolve caçá-lo e ele acaba voltando aos Estados Unidos.

Filha do roqueiro Steven Tyler, 60, da banda Aerosmith, e de Bebe Buell, 54, uma das primeiras modelos de moda a posar nua para a revista Playboy e que viveu casos com Mick Jagger, 64, e Iggy Pop, 61, entre outros, Liv só soube quem era seu pai de fato quando tinha 11 anos. Três anos depois, ela já estrelava como modelo em Nova York e, cerca de seis anos adiante, em uma série de filmes que lhe renderam milhares de fãs tanto por seu talento quanto por sua beleza - como esquecer a Lucy de Beleza Roubada (1996) ou a princesa Arwen da trilogia O Senhor dos Anéis (2001/2002/2003)?

Muito bem-humorada, apesar do fim de seu casamento, ela fez questão de anunciar sua admiração pela brasileira Débora Nascimento, 22, a Andréia Bijou da novela Duas Caras (Globo), que está no elenco do filme. Generosa, a atriz, eleita sucessivas vezes umas das mais belas faces do mundo pela revista People, saiu-se com essa quando descobriu que o repórter era brasileiro: ''Eu entrava no meu trailer, via a foto dela (Débora) no filme, saía e dizia para todo mundo: 'Isso é que é mulher bonita, hein? Lin-da!'. Fiquei fazendo isso por dias a fio''. A seguir, trechos de sua entrevista para a Contigo!.

- Nossa, que barato o seu gravador de iPod!

- Pois é, ele anda fazendo um certo sucesso em Hollywood. Acho que vou pedir para o Steve Jobs (o gênio por trás da Apple) uma verba pela propaganda gratuita que eu e a Contigo! temos feito do produto dele com as celebridades!
- (rindo muito) Sabe que o meu pai (o roqueiro Steven Tyler, do Aerosmith) me deu um gravador digital mas ainda não aprendi a usar? Ainda estou na fase do velho toca-fitas. Eu adoro fitas e não ligo de vê-las empilhadas, com um monte de rabiscos meus. Também adoro ver um CD na minha frente, com aquela imagem, aquele desenho, que me diz do que se trata. Como vou saber naquele abismo de MP3 o que de fato eu quero ouvir hoje?

- Sendo filha de quem é, deve ter passado uma fase gravando coletâneas de fitas das suas bandas preferidas, não?
- Claaaaaaaro que sim! Ainda guardo algumas daquelas mixtapes. Tem muito Led Zeppelin, Sonic Youth e Iggy Pop, meus favoritos. Atualmente, ando obcecada pelo Gram Parsons, já era fã dele na adolescência, mas agora estou ainda mais. Também gosto muito, muito, muito de Kings of Leon e The Kills. E adoro aquela coisa cool, bem anos 70, do Devendra Banhart. Ouço tudo em aparelhos de som que tenho no banheiro e na cozinha!

- Som no banheiro e na cozinha? Isso é coisa de quem tem filho pequeno, não é?
- É verdade. Quase sempre me pego fazendo alguma coisa com o Milo enquanto ouço rock clássico no rádio mesmo, sabe? Por isso o CD-player fica no banheiro, onde eu consigo ouvir música e dançar debaixo do chuveiro. Milo adora dançar comigo! Mas ele já tem gostos bem definidos, mesmo aos 3 anos! Outro dia, coloquei uma música dos Ramones e ele teve o topete de me pedir para trocar de faixa imediatamente (risos)! É engraçado, porque ele ama Sex Pistols (mais risos). E, como você pode imaginar, o que mais ouço em fitas cassetes são historinhas de criança. Ele ama! O sonho da minha vida, de toda a minha vida, era ter um filho. Nunca tive um sonho específico sobre carreira, por exemplo.

- E você deve ter vivido uma infância daquelas, eu imagino...
- Muito excêntrica, né? Sim! Boa parte dela foi recheada de fantasia. Da fantasia, inclusive, de ter um filho. Então a experiência da maternidade foi tudo o que eu imaginava e ainda mais. É o trabalho mais difícil da face da Terra, mas o mais recompensador também. Me sinto sortuda e maravilhosa por ter encontrado meu pequeno parceiro de crimes (risos). É uma bênção.

- Você acha que a maneira pouco convencional como foi criada fez com que você se tornasse uma mãe um pouco mais conservadora?
- Bem, minha vida exige muita flexibilidade, como você pode imaginar. Mas eu diria que o mais importante para mim, hoje, é que Milo saiba que eu sempre estarei ao lado dele. Ele é a prioridade da minha vida. Nós vivemos um pouco como ciganos, tem filmagem em Toronto, nos mudamos pra lá por três meses. Voltamos um pouco para casa, em Nova York, e embarcamos de novo para o mundo. Quando Milo vê um trailer na rua, ele aponta, todo animado, e diz: Olha lá a casa da mamãe (risos). Sei que isso vai mudar quando ele estiver mais crescido, mas, por hora, gosto de olhá-lo nos olhos o máximo possível e ter a certeza de que ele está sendo ouvido. Sempre.

- Você gostaria de ter mais um filho em breve?
- Adoro ser mãe, mas, olha, Milo tem toda a minha dedicação agora e estou cada vez mais apaixonada pelo meu trabalho. Humm... Nunca entendi esta coisa de planejar filhos. Gravidez é um estado milagroso, se vier, vou amar.
- Sua vida romântica mudou com a chegada de Milo?
- Sim, claro! Não há muito romance quando chega um filho. Você está tão apaixonada por seu filho e ao mesmo tempo não tem muito tempo nem para dormir nem para ficar com seu marido. É um período de transição, creio, pelo qual todo casal passa. Tenho uma faxineira duas vezes por semana, mas adoro cozinhar. Sou eu quem lava os pratos e, aqui e ali, coloco a roupa toda para lavar, com Milo me ajudando. Não estou querendo dizer que sou Cinderela, mas nunca gostei de ter um bando de gente me ajudando o tempo todo, sabe? Gosto de ser protagonista de minha própria vida, gosto de saber que estou no controle.

- Diz a lenda que é especialmente difícil criar uma criança em Nova York...
- É que tudo é muito, muito caro. É preciso ter algum dinheiro para se viver aqui hoje em dia com família. Por outro lado, você tem os mercados mais sensacionais na sua rua, parques e playgrounds em cada esquina, portanto é bem conveniente também. Tento passar o máximo de tempo com ele. E sou sortuda: ele é um anjo! Não é uma criança egoísta, mas é independente. Ele não fica atrás de mim o tempo todo e já gosta de sua privacidade. Vejo outras crianças chamando mamãe, mamãe o tempo todo e ele, não. Às vezes, fico pensando se seria bom ele ser um pouco mais grudado na barra da minha saia (risos)! De qualquer modo, estou sempre viajando, por conta das filmagens, com Milo. Ele fica todo feliz, afinal, nesta idade ainda está com os horários mais flexíveis.

- Mas vocês não acompanharam o Edward Norton nas filmagens no Brasil, né?
- Nem me fale! Eu já era conhecida pelos roteiristas como uma ''mala'' pois vivia pedindo para eles criarem alguma situação qualquer para eu ir ao Brasil (risos). Bolei até uma seqüência de sonho em que eu passava um bom tempo deitada nas areias de Ipanema, no Rio, mas por alguma razão muito estranha eles não se comoveram (ri muito)! Mas eu preciso dizer uma coisa sobre o Brasil...

- Ai... fale então!
- Não é nada ruim, não! Ao contrário! É que eu fiquei completamente fascinada pela beleza da atriz, muito jovem, que está no nosso filme e faz a amiga brasileira de Bruce Banner...

- A Débora Nascimento?
- Eu literalmente não consigo olhar para a foto dela sem cair para trás. É insano! Escreva o que eu digo: ela será uma estrela. Uma sensação, da noite para o dia! Ela é tão linda! E nas fotos do filme, ela estava toda molhada de suor, com aqueles lábios e seios! Gente, esta mulher é poderosa! Ela é de uma beleza fenomenal.

- Mas você, com todo o respeito, também é fenomenal...
- Não! Não! Ela é fenomenal em um outro nível! Eu passava pela foto dela no trailer e não conseguia parar de pensar: mas quem é esta pessoa? E como é que, no mundo real, o Bruce Banner voltaria para mim e deixaria ela lá no Brasil? No way (risos)! Ele deveria fugir com a brasileira!

- Você agora vai dizer também que não tem nenhum cuidado especial com sua beleza...
- Sigo uma rotina que aprendi desde menina. Lavo sempre que posso o rosto, por exemplo! E minha avó, minha mãe e meu pai são bem vaidosos. Colocar creme no rosto e no corpo e passar fio-dental depois de todas as refeições eram normas da casa. Diariamente, coloco máscaras de beleza no rosto, tenho todo um armário cheio de produtos que adoro, mas eles já não são mais especiais, sabe? São rotina. E adoro correr para manter o peso ideal. Tenho um personal trainer e adoro malhar.

- Você deve ter usado essa sua malhação um pouco no filme, não? Vi o trailer e você corre para todos os lados...
- Foi o filme que mais me exigiu fisicamente em toda a carreira. O Incrível Hulk é um longa de ação, com um monte de explosões e cenas duras de se fazer. Meu make-up era sempre às 4h da madrugada e eu pensava, ainda bem que eu tenho 30 anos (risos)!. E foi feliz também ter descoberto, depois de ter tido meu filho, uma força nova dentro de mim. É como se agora eu fosse mais forte. Usei isso no filme também. Odeio quando vejo um filme de ação e a heroína sempre está impecavelmente linda, caindo de um helicóptero com o cabelo escovado e batom impecável. Não dá, né? Neste filme, abolimos isso. Apareço bem suada, cansada, com as pernas bambas de cãibra. E adorei!

segunda-feira, junho 09, 2008

Radiohead/Portishead

Ó só o que se ouve por aqui. A linda versão - feita no backstage do show do Radiohead neste finde em Dublin - da linda The Rip, do meu amado Portishead (o álbum dos moços tá ali do lado Na Vitrola). 

domingo, junho 08, 2008

Eu Tinha Um Sonho/CARTA CAPITAL


A Carta Capital desta semana saiu com meu texto sobre a confirmação de Barack Obama como o candidato democrata à presidência dos EUA. Ó só:

Eu tinha um sonho
Eduardo Graça, de Nova York

Depois de mais de um ano de disputa interna, o senador Barack Obama, de 46 anos, é o primeiro político negro escolhido por um partido majoritário para disputar as eleições à Presidência dos Estados Unidos. Ao conseguir, na terça-feira 3, os delegados necessários para se tornar o candidato do Partido Democrata à Casa Branca, Obama fez história e ofereceu aos eleitores norte-americanos a possibilidade de votar, pela primeira vez em 16 anos, em dois presidenciáveis que não carregam os sobrenomes Bush ou Clinton. Seu adversário é o também senador John McCain, de 71 anos. “Esta noite marca o fim de uma jornada histórica e o começo de outra, que trará dias melhores para a América. Hoje, posso afirmar a vocês que eu serei o candidato do Partido Democrata à Presidência”, disse Obama, em um discurso emocionado para milhares de militantes na cidade de Saint Paul, em Minneapolis.

Na manhã seguinte, enquanto subia as escadas do Capitólio, o deputado negro John Lewis, da Geórgia, viu-se abordado pelo turista Larry Ellery, que lhe perguntou o que Martin Luther King diria daquela noite memorável. Lewis, um destacado líder estudantil nos anos 60, é o único palestrante vivo do evento em que o reverendo pronunciou seu famoso discurso “Eu Tenho Um Sonho”, há quatro décadas. “Ele teria ficado muito, muito, satisfeito”, respondeu o deputado. “E provavelmente teria dito Aleluia!” A convenção do Partido Democrata, que oficializará a candidatura de Obama, está marcada para 28 de agosto, exatos 45 anos após o discurso de Luther King e 55 depois do assassinato do adolescente Emmett Till no Mississippi, fato que desencadeou a grande campanha pelos direitos civis, responsável por mudar para sempre a política norte-americana. No Congresso, muitos parlamentares negros choravam de emoção e repetiam, atônitos, que, no fim das contas, jamais haviam imaginado que este dia chegaria. Alguns lembraram que quando Obama nasceu, em 1961, um filho mestiço de pai do Quênia e mãe do Kansas dificilmente conseguiria votar no Sul segregacionista. Foi em outro estado do Sul, a Virgínia, que o senador de Illinois comemorou a vitória, explicitando sua vontade de brigar por votos de estados da parte meridional do país, que há mais de meio século se alinham religiosamente com os republicanos. Essas regiões se transformaram em um campo de batalha por conta da animação da militância negra, que representa cerca de um quarto do eleitorado em alguns estados da área mais conservadora.

Do outro lado do campo democrata, Hillary Clinton resistiu até onde pôde. Em meio ao carnaval dos “obamaníacos”, a ex-primeira-dama lembrou que ela também conduzira uma campanha memorável. Era, afinal, a primeira mulher a ter uma oportunidade real de se tornar presidente dos EUA. Quando Obama já havia conseguido a maioria dos votos dos delegados democratas, ela comemorava o fim das primárias em Nova York. Seus partidários, concentrados no Baruch College, não tinham, providencialmente, acesso a celulares ou a aparelhos de tevê. Portando faixas com os dizeres “ou Hillary ou ninguém mais”, muitos ainda vibravam com o anúncio, feito pelo coordenador-geral da campanha, de que o próximo discurso do dia seria “da futura presidente dos EUA”. Hillary foi aclamada aos gritos de “Denver! Denver!”, referência à cidade do Colorado que sediará a convenção democrata. Clinton procurava ganhar mais tempo, valorizando os 18 milhões de votos angariados na campanha e a maioria absoluta de eleitores brancos, de classes mais baixas e do sexo feminino. Mas, na manhã da quarta-feira 4, 23 deputados e oito senadores de seu grupo mais próximo avisaram à senadora que iriam anunciar o apoio a Obama em nome da unidade do partido, com ou sem ela. A pré-candidata decidiu então convocar seus militantes para um evento no sábado 7, em Washington, com o objetivo de anunciar o apoio oficial ao adversário. Não sem antes dizer, por meio de partidários fiéis, que aceitaria ser vice-presidente se Obama a convidasse. Na mesa de negociação entre as duas estrelas democratas, estará também o imenso buraco financeiro de sua campanha. De acordo com colaboradores próximos da ex-primeira-dama, as dívidas chegam a 23 milhões de dólares. O bolso milionário dos Clinton teria injetado 11 milhões de dólares na campanha a título de “empréstimo”.

Em sua primeira entrevista sobre o tema, na quarta-feira 4, para a rede NBC, Obama saiu pela tangente. Disse que ainda é cedo para decidir sobre seu vice e que, de qualquer modo, “Hillary não espera que eu decida isso nos próximos dias”. Assessores do senador lembram que o ícone histórico de Obama sempre foi Abraham Lincoln. Uma das virtudes que ele mais admira no presidente que venceu a Guerra Civil foi a capacidade de indicar para seu gabinete alguns de seus opositores políticos mais ferrenhos. “Lincoln deixou de lado todos os atritos pessoais e se concentrou na seguinte questão: como sairemos desta crise em que vive o país? Este é exatamente o meu sentimento agora”, disse Obama aos assessores. Sua idéia seria a de convocar ao governo os adversários na primária democrata John Edwards, Joe Biden e Hillary Clinton, respectivamente como secretário de Justiça, secretário de Estado e titular de uma pasta que englobasse Saúde e Projetos Sociais. A senhora Clinton poderia deslanchar seu plano mais ambicioso, o de reformar o sistema de saúde pública.

Seria o bastante para garantir os votos de Hillary para o novo indicado? Uma pesquisa do Pew Research Institute realizada no fim de maio mostra que 8% das democratas em todo o país não votam em Obama de jeito nenhum. Foi para esse público que o senador John McCain centrou seu mais forte – e raivoso – discurso até agora em uma tentativa de diminuir a festa democrata. Depois de um elogio à “minha amiga Hillary Clinton, que não tem sido tratada como deveria”, o republicano lembrou que, ao contrário de Obama, “não busco a Presidência na presunção de que fui abençoado com tal grandeza pessoal que a História me escolheu para salvar o país em uma hora de necessidade”. A mensagem era referência ao suposto elitismo de Obama.

As duas pesquisas realizadas logo após o anúncio de que Obama vencera as prévias democratas mostram que a briga será feia: o senador tem entre 42% e 46% dos votos segundo a CBS e de 45% a 47% (configurando empate técnico) na apuração da CNN. O primeiro debate entre Obama e McCain deve acontecer em 12 de junho, em Nova York. Peter Hart, estrategista do Partido Democrata, usa uma analogia interessante para definir o momento político: “Metade do eleitorado hoje celebra, feliz, ‘sim, nós podemos’. A outra metade, incluindo boa parte dos independentes e indecisos, pergunta, atônita: ‘Mas, afinal, quem é este sujeito?’ E muitos deles estão descobrindo a resposta por meio dos sermões de Jeremiah Wright”, diz, em uma referência ao pastor radical de Chicago que foi o mentor espiritual do senador democrata.

Apesar de Obama ter-se desligado oficialmente da congregação de Wright nesta semana, estrategistas conservadores e liberais concordam que a grande questão de 2008 é saber se na boca-de-urna de novembro o fato de Barack Obama ser negro será fonte de júbilo como foi nesta semana. McCain prometeu não se aproveitar do preconceito racial na campanha. Mas em uma disputa tão acirrada e com os republicanos temendo sofrer uma derrota de proporções gigantescas, as dúvidas sobre os métodos utilizados pelos dois lados nos próximos meses aumentaram estupidamente.