quarta-feira, maio 28, 2008

Mãos-de-Vaca em NYC


Está hoje na página de turismo do portal Terra minha conversa com os autores do Guia Nova York para Mãos-de-Vaca, os simpaticíssimos Henry e Denise. A idéia é muito boa, e estes dois jovens brasileiros descobriram um belo nicho - um guia turístico para quem sonha em vir a NYC mas não quer gastar os tubos na cidade. Ó só:


Guia turístico dá dicas para "mãos-de-vaca"
Eduardo Graça, direto de Nova York

Quem disse que é preciso juntar muito dinheiro para aproveitar Nova York? Os namorados Henry Alfred Bugalho, 27 anos, e Denise Nappi, 26 anos, tiveram a idéia de escrever o Guia NY Para Mãos-de-Vaca depois de perceberem que muitos amigos deixavam para lá o sonho de viajar à "capital informal do planeta" por conta dos preços de hospedagem, passagem e alimentação na cidade, sem falar nas entradas para atrações turísticas e espetáculos na cidade que nunca dorme.

Depois de seis meses na cidade, eles perceberam que o que faltava para os amigos era um compêndio de dicas caprichadas. Foi assim que Henry - com a ajuda providencial de Denise, que diz "adorar xeretar tudo" - começou a publicar um blog apresentando uma cidade tão barata quanto divertida, ao alcance do turista brasileiro mais consciencioso. Logo, o blog virou uma comunidade no Orkut e um guia que, em português ao menos, é produto singularíssimo no mercado turístico internacional. "Este não é um guia apenas para os pão-duros ou para mochileiros. Ele também é voltado para os que têm um objetivo muito específico, como comprar produtos eletrônicos ou de informática e que querem aproveitar a cidade sem esbanjar. Ou seja, para quem quer ser inteligente na hora de manejar os gastos em uma viagem para NY", diz Henry.

A dupla, que vive no East Harlem e abriu a empresa Dog Care, dedicada ao dog walking (ou seja, passeiam com cachorros dos moradores da cidade quando estes não podem agradar os bichanos), lembra que no início tudo foi tão complicado que um belo dia eles se viram com US$ 7 no bolso para passar um dia na cidade. Foi aí que descobriram as lojas de US$ 0,99 e perceberam que o perrengue poderia se transformar em um bom conselho para turistas interessados em viver a NY de verdade, com menos fantasia mas sem perder o encanto jamais.

As dicas começaram a pipocar. Compre passagem sempre com antecedência e lembre que os vôos mais baratos são os da Japan Airlines (mas eles só vendem por telefone e em São Paulo), que segue para Tóquio, ou os da Copa Airlines (estas saem até por menos de US$ 500, mas há a parada de um dia no aeroporto da Cidade do Panamá). Ainda há a opção de se viajar de ônibus até Manaus (haja disposição para os que saírem do sul do País) e voar de lá pela TAM, lembra Denise.

Entre as diversões gratuitas mais pitorescas estão, por exemplo, a dos astros de Hollywood dando sopa filmando nas ruas da cidade (para descobrir as filmagens do dia basta fuçar a Internet, de graça, em uma das três Apple Stores da cidade, que, além de belíssimas, funcionam como o internet-café gratuito do novo milênio).

O guia também oferece dicas práticas como uma tabela de gorjetas (para motoristas de táxi e também garçons) e uma seleção de lojas barateiras para sacoleira nenhuma botar defeito. "A cidade é repleta de brechós sensacionais. Meu favorito chama-se Housing Works e fica na Rua 23. Lá comprei um casaco da Banana Republic por US$ 7,50 tão novo que a etiqueta original, de US$ 180, ainda não havia sido retirada. Também achei um livro de capa-dura de US$ 230 que o Henry queria, em ótimo estado, por US$ 1. E uma bota linda do Alexandre Herchcovitch, de US$ 250, por US$ 20", conta Denise.

Mas pergunte a qualquer turista interessado em passar alguns dias em NY e a resposta será a mesma - o gasto mais assustador é sempre com a acomodação. Os hotéis da cidade - mesmo os mais baratos - costumam cobrar em média US$ 100 por noite. Pois os mãos-de-vaca garantem que a solução são os Hostels, mais voltados para um público jovem. A rede de hotéis Jazz oferece a opção mais barata da cidade: o Jazz on Lennox, na Rua 128, no coração do Harlem, onde se dorme em um quarto com beliches e banheiro compartilhado por módicos US$ 15. Reservas podem ser feitas no site do hotel (http://www.jazzhostels.com/jazzonthelenox.php). O valor da diária ainda é dos tempos em que o bairro era considerado um dos mais perigosos de Manhattan. Hoje é um dos mais valorizados da cidade, a passos do Central Park e com suas brownstones (casas históricas, erguidas em sua maioria na segunda metade do século XIX) vendidas em média por US$ 1 milhão.

Talvez parte do segredo do sucesso do Guia NY Para Mãos-de-Vaca deve-se ao fato de Henry e Denise serem dois típicos jovens brasileiros da geração ano 2000. Eles se conheceram pela web (ela trabalhava na Varig e ele em uma livraria em Curitiba), resolveram vencer na América juntos e vivem muito bem no mundo da economia informal nova-iorquina. A hora do passeio com os cachorros sai por US$ 25. O guia é um sucesso de vendas em uma editora virtual (ou seja, os gastos de produção são mínimos) e os meninos continuam felizes descobridores de mais e mais atrações boas e baratas na cidade que já chamam de sua. "Não sabemos o que virá pela frente, mas ainda sonhamos em fazer um Guia Buenos Aires, um Madri, e, o maior desafio de todos, um Londres para Mãos-De-Vaca", conta Denise.

Dez dicas imperdíveis para mãos-de-vaca em NY

1. Jack's 99 Midtown
Localizada na Rua 32 entre a Sexta e a Sétima Avenidas, é, com seus três andares, a melhor loja das muitas redes dedicadas a produtos com valores inferiores a US$ 1 espalhadas pela cidade. Os interessados em um piquenique no Central Park encontram queijos dos mais variados sabores e nacionalidades, pãezinhos artesanais e até sanduíches prontos para os mais preguiçosos. Tudo a menos de US$ 1.

2. Metrocard
Marinheiros de primeira-viagem desconhecem as vantagens de se comprar um Metrocard (em se chegando via aeroporto JFK, pode-se comprar na estação do Air Train), que vale para o metrô e para o ônibus em toda a cidade. Como cada viagem custa US$ 2, o mão-de-vaca profissional deve estudar as vantagens de se comprar um passe diário (por US$ 7,50), semanal (por US$ 25) ou o válido por 15 dias (por US$ 47). E nunca, jamais, usar os táxis da cidade, cada vez mais caros por conta da alta do preço da gasolina.

3. Barca de Staten Island
Um dos passeios mais bonitos da cidade é completamente gratuito. Pega-se a barca para Staten Island no sul da ilha de Manhattan, perto de Battery Park. A vista é magnífica: as luzes dos arranha-céus do Distrito Financeiro, a Estátua da Liberdade, Ellis Island, aonde chegavam os turistas de toda a costa do Brooklyn com as pontes de Manhattan, Williamsburg e Brooklyn ao norte. A viagem é rápida - menos de 25 minutos - confortável e ainda é possível ver alguns dos mais famosos cartões-postais da cidade sem gastar um tostão.

4. Metropolitan Museum
É o mais famoso museu da uma cidade. E, embora muitos turistas não saibam, tem uma política clara para atrair visitantes de todas as classes sociais do mundo todo - aqui, paga-se quanto pode. O Metropolitan sugere que se pague US$ 20, mas ninguém vai chamá-lo de mão-de-vaca se você desembolsar US$ 1 para conferir o sensacional acervo do museu.

5. Broadway + e-bay
É a parceria mais explosiva para os turistas da cidade. Quer ver o musical-sensação Wicked, cujos ingressos oficiais saem por US$ 255? Entre no e-bay e compre seu tíquete por US$ 16,95, uma economia de mais de 90%. Importante: o e-bay entrega o tíquete em casa e é severamente monitorado por órgãos de defesa do consumidor, garantindo a seriedade do negócio. Na comunidade Orkut dos Mãos-de-Vaca, os quase 800 usuários colocam regularmente cupons de desconto para musicais da Broadway que podem ser usados por novos viajantes em um sistema de trocas tão democrático quanto econômico.

6. Wendy's
Os criadores do Guia NY Para Mãos-de-Vaca não têm nenhuma ligação comercial com esta rede de fast-food. Eles simplesmente recomendam por conta da relação valor/sabor. Por US$ 1,29 compra-se uma batata assada de primeira, e por US$ 3 acrescenta-se ao prato uma cobertura de chilli e um refrigerante. Os menos ousados têm ainda a opção da Ceasar Salad, por US$ 1.

7. MoMA
O museu mais caro da cidade (a entrada, obrigatória, sai por US$ 20) é também a casa do acervo mais impressionante de arte moderna e contemporânea do planeta. E, graças a uma parceria com a loja Target, oferece entrada gratuita todas as sextas-feiras a partir das 16h (e até às 20h). É só agendar bem a viagem e guardar um fim de tarde de sexta-feira para o museu.

8. Museu de História Natural
Aqui o jogo é o mesmo do Metropolitan, com a admissão para o acervo permanente ficando a cargo do visitante. O passeio é especialmente indicado para os casais com crianças, que vão adorar os animais empalhados, os dinossauros e as salas dedicadas aos continentes. De novo, mão-de-vaca profissional desembolsa apenas US$ 1 para passear pelo museu.

9. Century 21
Vir a NY e não se render a compras é como ir a Roma e não ver o Papa. Dentre as muitas opções oferecidas pela cidade, a loja de departamentos Century 21 é a que oferece um pacote de sete meias por US$ 5, toalha de banho Calvin Klein por US$ 2 e tênis Nike por US$ 30. A loja fica na 22 Cortland Street, no sul da ilha.

10. Manhattan Mall
Localizado na Rua 34, no encontro da Broadway com a Sexta Avenida, é o paraíso das sacoleiras mais estilosas. Aqui elas podem comprar as coleções da Steve &Berry¿s (incluindo a linha da atriz Sarah Jéssica Parker), a linha mais esportiva da tenista Venus Williams e os tênis Starbury, todas peças na faixa de US$ 8. Nada na loja ultrapassa os US$ 20.
Serviço:
O Guia NY Para Mãos-de-Vaca pode ser comprado por R$ 11,99 no site www.maosdevaca.com.

domingo, maio 25, 2008

CARTA CAPITAL/O Teste de Obama

A Carta Capital desta semana sai com reportagem minha sobre os desafios que o senador Barack Obama enfrenta agora que é quase certa sua escolha pelo Partido Democrata para disputar a presidência dos EUA contra o republicano John McCain. Conversei com o cientista político Frederick C. Harris, da Universidade de Columbia, também negro, diretor de um dos centros de estudos políticos mais prestigiados do país. Ele me disse que a imagem da sociedade pós-racial defendida por Obama funciona mais para o cenário internacional do que para a realidade do dia-a-dia dos afro-americanos aqui nos EUA.

A reportagem segue abaixo:


O TESTE DE OBAMA
Por Eduardo Graça, de Nova Iorque


Cada vez mais perto de ser indicado a candidato democrata, o senador ainda precisa mostrar que é capaz de vencer a eleição



A escolha, pelo senador Barack Obama, da pequena Des Moines, no Meio-Oeste americano, para a celebração da conquista da maioria dos delegados estaduais à convenção nacional do Partido Democrata não foi apenas uma rendição ao simbolismo político. Sim, foi na capital de Iowa, em janeiro, que ele iniciou sua impressionante corrida à Casa Branca. Mas, ainda mais importante, lá ele recebeu mais de um terço dos votos dos eleitores brancos de classe média baixa, o que não se repetiu nos quatro meses seguintes. Detalhe: mais da metade desses eleitores em estados-chave para a vitória da oposição afirmaram, em pesquisas de boca-de-urna, logo após optarem por Hillary Clinton, que votarão em John McCain contra Obama em 4 de novembro.


Para o comando do Partido Democrata, o jogo de xadrez de 2008 está ficando cada vez mais complicado. Quanto mais Obama e sua mensagem de mudança ganham os setores progressistas do partido e parte do establishment, mais nebulosas ficam as perspectivas de vitória em um pleito com características únicas, aparentemente favoráveis à oposição.

“Não se iludam. As eleições deste ano serão disputadíssimas. Aqui interessa mais o colégio eleitoral do que o voto popular. E Barack Obama terá muitos problemas para vencer em estados importantíssimos, os que definem de fato quem chegará à Presidência, como Ohio e Pensilvânia, onde os eleitores são sensíveis à questão racial e foram afetados pela campanha que tenta caracterizá-lo como menos patriota do que Hillary ou McCain”, diz o professor Frederick C. Harris, diretor do Centro de Estudos de Política e de Sociedade Afro-Americanas da Universidade de Colúmbia.

Na quinta-feira 22, o Instituto Rasmussen anunciou nova pesquisa nacional na qual McCain tem 46% da preferência dos norte-americanos ante 42% de Obama. “Há todo um discurso sobre a sociedade pós-racial, que não levaria mais em conta a cor do indivíduo, que não se respalda na realidade. A candidatura Obama, assim como outras conquistas simbólicas dos negros nos EUA, são mais importantes em termos internacionais, exportando a idéia de que aqui há espaço para as minorias, inclusive os afro-americanos. Mas enquanto ainda tivermos a desigualdade social escancarada entre negros e brancos, o tratamento diferenciado pela polícia e a concentração de negros vivendo em conjuntos habitacionais país afora, esses símbolos têm um efeito menor quando pensamos na modificação das relações entre os diferentes grupos que formam os EUA”, diz Harris.

Políticos negros que chegaram às prefeituras de grandes metrópoles norte-americanas como David Dinkins, em Nova York, e Harold Washington, em Chicago, jamais conseguiram o apoio da classe média branca, especialmente de comunidades mais fechadas, como a de descendentes de italianos e poloneses, base do Partido Democrata nas duas cidades. Nos rincões do país, a barreira é ainda maior. E a decisão de Hillary Clinton de seguir em campanha apesar de suas chances diminutas de conquistar a indicação à Presidência na convenção de agosto não ajudam Obama.

Na terça 20, a senadora de Nova York recebeu 65% dos votos dos eleitores do estado sulista do Kentucky, uma repetição do que aconteceu na semana passada na Virgínia Ocidental. Mais de 50% deles avisaram que ou ficarão em casa ou votarão em McCain em novembro se Obama for o candidato. E o mesmo número considerava “importante” a ligação entre o candidato negro e o pastor Jeremiah Wright, visto como radical por boa parte da opinião pública e mídia nos EUA. Em meio século, nenhum democrata chegou à Casa Branca sem vencer na Virgínia Ocidental, incluindo Bill Clinton.

A vice-presidente na chapa de Dukakis, a primeira mulher indicada ao posto por um dos dois partidos majoritários, Geraldine Ferraro, acusou o senador Obama de “sexista” e anunciou que não votará nele para presidente em novembro. Em anúncio de página inteira nos jornais mais influentes do país, o grupo WomenCount pregava a necessidade de Hillary Clinton continuar na disputa até “o último voto ser contado”, para além das três derradeiras primárias, em junho, até a convenção de agosto. Pelas regras do Partido Democrata, além dos delegados eleitos em cada estado, um colégio à parte, formado por superdelegados (caciques políticos e detentores de postos eletivos) unge o candidato à Presidência. Obama lidera nos dois flancos, mas matematicamente Hillary ainda pode virar o jogo se conseguir 70% dos superdelegados que ainda não se comprometeram com candidato algum. Entre eles estão importantes formadores de opinião, como o ex-vice-presidente Al Gore, o ex-presidente Jimmy Carter e Nancy Pelosi, que detém um cargo que no Brasil seria o equivalente ao de presidente da Câmara dos Deputados.

Os Clinton apostam as fichas na reunião da cúpula do partido – que ainda pende para ela – no próximo fim de semana, para decidir se dois estados em que ela foi vitoriosa no voto popular por larga margem – Flórida e Michigan – entrarão na contagem final de votos. Como alteraram suas datas de votação sem permissão do partido, os estados foram punidos e seus pleitos considerados nulos. Obama não fez campanha na Flórida e nem sequer teve seu nome na cédula oficial em Michigan. O problema é que o comparecimento eleitoral foi massivo e pró-Hillary. Se considerados os eleitores dos dois estados, a senadora fica à frente no voto popular e cresce de importância o seu argumento de que é a candidata mais forte para enfrentar McCain.

Enquanto os democratas parecem se unir apenas nos discursos emocionados em apoio ao senador Ted Kennedy, um dos maiores símbolos do partido, diagnosticado com câncer no cérebro, McCain ri sozinho. O senador participou recentemente do programa Saturday Night Live e implorou a Hillary Clinton que “continue na disputa até o último segundo”. Ao mesmo tempo, iniciou uma série de duros ataques contra Obama, tentando transferir a discussão nacional da economia para a segurança nacional e a política externa.

Em um discurso voltado à comunidade cubana na Flórida, McCain garantiu que continuará o bloqueio econômico a Cuba e pinçou o que seria sua política para a América Latina, com uma presença ainda maior na Colômbia. Também insinuou que somente a inexperiência de Obama poderia justificar sua decisão de iniciar um processo de distensão com “a ditadura dos Castro” e de suspensão da Lei Helms-Burton, que proíbe o comércio entre EUA e Cuba.

A propaganda do Partido Republicano acusa o senador negro de antipatriota e usa uma declaração de sua mulher, Michelle Obama, como prova. A advogada disse, em emocionado discurso depois da histórica vitória do marido em Iowa, que, “pela primeira vez, sentira orgulho de ser norte-americana”. A reação foi imediata, com o candidato dizendo que “não admitiria ataques à sua mulher”, enquanto seus estrategistas denunciavam a relação íntima de McCain com lobistas e a recusa de sua mulher, Cindy, de tornar pública, como fizeram Obama e Michelle, sua declaração de imposto de renda, alimentando rumores de que ela teria investimentos ligados ao governo autoritário do Sudão.

Cindy McCain é a milionária herdeira de uma das maiores distribuidoras de bebidas do país. Obama também alertou que a eleição de McCain seria a continuação do governo Bush, seguindo uma política externa truculenta e unilateral, e comandada por um presidente ainda mais militarista do que o ex-governador do Texas. Trincheiras estabelecidas, candidatos quase definidos, a batalha pela Casa Branca parece mais quente do que nunca.

sexta-feira, maio 23, 2008

O Sonho da Revolução Verde-e-Vermelha nos EUA

Saiu hoje no caderno Eu&Cultura, do jornal Valor Econômico, meu texto sobre a explosão do mercado de trabalho relacionado à energia sustentável e à ecologia aqui nos EUA. Também fiz uma retranca sobre a situação brasileira.

Os colarinhos-verdes
Por Eduardo Graça, para o Valor, de Nova York
23/05/2008

Eles aparecem em todos os programas dos candidatos à Casa Branca e são considerados estratégicos pelos democratas. São os trabalhadores de colarinho-verde - variante do colarinho-branco dos empresários e do colarinho-azul dos operários -, encontrados nas indústrias de energia renovável, combustíveis alternativos e na construção de prédios ecologicamente corretos. Em dezembro, George W. Bush sancionou o Green Jobs Act, autorizando investimento de US$ 125 milhões para treinamento de trabalhadores interessados em se especializar na área. O alvo dos candidatos é a massa de operários-eleitores que perderam emprego por causa da mão-de-obra mais barata na China e na Índia. Mas a tentativa de ligar o movimento verde à solução de um dos maiores entraves socioeconômicos dos EUA também está mexendo de forma intensa com a inteligência progressista da zona norte do mundo.


Coordenador-geral da Oakland Apollo Alliance, coalizão de ambientalistas, trabalhadores e ativistas políticos voltada para a criação de empregos verdes na área de Oakland (subúrbio operário da Califórnia), Ian Kim participou do lobby que levou Washington a reconhecer a necessidade de investir em especialização para uma área que cresce a olhos vistos, em trabalhos como a instalação de painéis solares, a jardinagem orgânica e a construção verde. "Foi um investimento modesto. Nosso setor precisa de bilhões de recursos para começarmos a combater a pobreza por meio da ampliação do universo do colarinho-verde. Hoje gastamos US$ 1,4 bilhão/ano no Iraque. Parte desse dinheiro poderia estar sendo investida na reorganização de nossa economia", diz Kim, professor de estudos urbanos da Universidade de São Francisco.

Ele sublinha que a importância simbólica do Green Jobs Act, no entanto, é inegável. De acordo com estimativas da Sociedade de Energia Solar Americana (Ases), a atual força de trabalho de 8,5 milhões de colarinhos-verdes deve chegar a 40 milhões em 2030. Um estudo da Cleantech Network, especializada em investimento verde, mostra que para cada US$ 100 milhões investidos, criam-se hoje 250 mil novos postos de trabalho nos EUA. Em 2007, apenas na Califórnia, corporações privadas investiram US$ 654 milhões na criação de 33 painéis solares (ante US$ 253 milhões em 2006). Não por acaso, uma nova função aparece no mercado: a dos headhunters especializados em empregos de colarinho-verde, como a Green Careers. O Instituto de Tecnologia do Oregon (OIT), por sua vez, acaba de formar o primeiro grupo de 50 estudantes superiores especializados em energias renováveis. Outros cursos semelhantes pipocam país afora, para entusiasmo dos candidatos à Casa Branca, que não querem ver esses postos de trabalho rumarem para a Ásia.

Liderada pelo advogado Van Jones, a Oakland Apollo Alliance foi criada por ativistas sociais e ambientalistas de uma das áreas mais afetadas pela crise da pós-industrialização. Enquanto o Vale do Silício multiplicava fortunas, Oakland amargava índices recordes de desemprego e crime. O mote de Jones é marxista: "Ofereça o trabalho de que mais precisamos para as pessoas que mais precisam de trabalho." Parece simples, mas a união de ecologistas com operários em torno da idéia de que os EUA deveriam acelerar o passo na direção de uma economia limpa, com a criação de milhares de empregos no meio do caminho, levou a discussão da ética verde para além da eco-elite e encontrou surpreendente abrigo nas centrais sindicais mais poderosas do país. "Nosso maior orgulho foi estabelecer essa ligação com os trabalhadores. Se o movimento verde ficar preso aos aspectos comportamentais, estaremos fadados à desimportância", diz Kim.

Ao lado do Sustainable South Bronx, de Nova York, a Apollo Alliance criou a campanha Verde para Todos, que defende o investimento imediato de US$ 1 bilhão do governo federal para deslanchar uma revolução verde-e-vermelha no país, com a capacitação de pelo menos 250 mil trabalhadores no que já é conhecido como o Plano Marshall do século XXI.

A mobilização já começou. Oakland é a primeira cidade dos EUA a contar com um Green Jobs Corps (GJC), voltado para a capacitação de profissionais nas áreas de manufaturas de biocombustíveis e instalação de painéis solares. A prefeitura decidiu investir US$ 250 mil para dar o gatilho no GJC. Na cidade, 13% dos menores de idade vivem abaixo da linha de pobreza. Ao mesmo tempo, o governo local anunciou incentivos fiscais para atrair empresas como a Grid Alternatives, que, desde 2004, já habilitou 1.700 profissionais na prática de instalação de painéis solares. De acordo com a Apollo Alliance, em 2006 foram investidos US$ 2,9 bi no setor, aumento de 80% em relação ao ano anterior.

Uma das figuras políticas mais importantes do país, a democrata Nancy Pelosi, é uma entusiasta da criação de um Green Job Corps nacional. Durante anos a fio compreendido nos EUA como uma subcultura fechada em si mesma, o pensamento ecológico tem conquistado novos espaços desde a exposição dos perigos do aquecimento global e da transformação do ex-vice-presidente Al Gore em apóstolo do crescimento sustentável.


Estimativa mostra que atual força de trabalho de 8,5 milhões de trabalhadores dessa área deve chegar a 40 milhões em 2030


Agora, ativistas ligados a movimentos sociais, como Jones e Kim, começam a dizer sem medo que os trabalhadores precisam ver o verde, também, no bolso. E recebem mais interesse da opinião pública dos verdes mais tradicionais, como o eterno candidato à Presidência pelo Partido Verde, Ralph Nader.

No Brasil, Beto Mesquita, diretor do Instituto BioAtlântica, pensa que a excitação por conta dos empregos de colarinho-verde nos EUA tem tudo para ser repetida no país. "Um dos maiores desafios para a recuperação da Mata Atlântica, por exemplo, é a conciliação da necessidade de ações de restauração florestal com a geração de novas oportunidades de trabalho e renda. A cadeia produtiva da restauração florestal - que inclui atividades como coleta de sementes de espécies nativas, produção de mudas, plantio e manutenção de áreas - apresenta um tremendo potencial de expansão e de profissionalização."

Mesquita lembra que regiões economicamente deprimidas no Brasil, com baixos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH), distantes dos grandes parques industriais e com reduzida cobertura florestal nativa, podem se beneficiar de oportunidades relacionadas à recuperação e à preservação dos serviços ambientais das florestas nativas. Ele cita como exemplos a produção e o armazenamento de água, o seqüestro de carbono da atmosfera e a proteção de paisagens naturais, fundamentais para o ecoturismo, segmento da indústria de viagens que mais cresceu no mundo na última década.

Mas nem tudo é consenso. Nos EUA, ambientalistas têm criticado a ligação entre criação de postos de trabalho na área do meio ambiente e diminuição da pobreza e da desigualdade. Acabar com a poluição e com a pobreza da maior economia do globo parece tarefa complexa demais para ser abordada de forma simplista. Gente como Rich Sweeney, da organização Ressources for the Future, pondera que a relação de causa e efeito, quando estabelecida, enfraquece o discurso verde e desvia o foco de um problema completamente diverso das mazelas sociais enfrentadas em países com sociedades desiguais, como os Estados Unidos, ou, em um caso extremo, o Brasil.

Qual seria, afinal, a relação possível entre a adoção de uma política ambiental responsável e o combate à pobreza? "Quem mais sofre com a degradação ambiental são as camadas mais pobres. Também é possível perceber uma tendência de certos setores em relacionar preservação ambiental com pobreza a partir da idéia de que os impactos ambientais graves - e muitos deles perfeitamente evitáveis, com a adoção de tecnologias limpas e sustentáveis - seriam apenas um aspecto inevitável do crescimento econômico", comenta Mesquita.

O diretor do BioAtlântica lembra o estudo feito pelo professor José Augusto Pádua, da Universidade Rural do Rio de Janeiro, apresentando correlação entre altas taxas de desemprego e desmatamento das florestas nativas. "Não é justo atribuir à criação de um parque nacional ou de uma reserva extrativista a função de, além de proteger a natureza, gerar renda e combater a pobreza. Essa combinação de fatores só será possível em situações muito peculiares. Seria a mesma coisa que exigir, como contrapartida e de maneira genérica, que o Bolsa Família fosse também um programa de preservação ambiental."

Ian Kim diz que a experiência vitoriosa de Oakland tem tudo para se repetir em outras cidades economicamente deprimidas, como Detroit. Em todo o Estado de Michigan, um dos berços da hoje enfraquecida indústria automobilística americana, os investimentos têm se concentrado na energia eólica e na construção de turbinas utilizando a mão-de-obra especializada oriunda dos muitos desempregados do parque industrial tradicional, cada vez mais diminuto. Beto Mesquita concorda. E lembra que no Brasil, também, a nova fronteira dos serviços ambientais, especialmente a proteção e a recuperação dos mananciais hídricos e as ações de redução da concentração dos gases de efeito estufa na atmosfera, aponta claramente para esse novo paradigma. Uma parceria verde-e-vermelha que parece ter chegado para ficar.


Lógica de candidatos americanos mostra-se ineficaz no Brasil


Ao pregar a multiplicação dos empregos do colarinho-verde para combater problemas sociais, Barack Obama, Hillary Clinton e John McCain (um republicano que sempre se diferenciou da maioria de seus pares quando se trata de política ambiental) batem na mesma tecla: a de que é fundamental investir no setor para garantir logo uma "reserva de mercado", ou seja, impedir que esses postos de trabalho migrem para economias emergentes onde a mão-de-obra barata, ainda que especializada, será mais farta.

Curiosamente, o mesmo raciocínio não funciona quando a lógica é aplicada na zona sul do planeta. O pedido de demissão da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, na semana passada, foi visto pela inteligência liberal do mundo ocidental como peça importante de um quebra-cabeça ainda insolúvel, em que os principais jogadores parecem guiados ora pela necessidade de afirmação da soberania nacional da Amazônia, ora pela sugestão - cada vez mais imperativa - de que a região é um patrimônio de toda a humanidade.

Em reportagem extensa o jornal "The New York Times" considerou medidas propostas recentemente pelo governo brasileiro - como a criação de um visto especial para os estrangeiros interessados em visitar a Amazônia - reflexos de uma certa "paranóia" protecionista que grassaria no país. A saída de Marina Silva, contrária à ânsia desenvolvimentista vista anteriormente com tamanha força apenas no governo de Emílio Garrastazu Médici, ilustraria um aparente paradoxo do governo do PT. Brasília estaria ao mesmo tempo interessada em consolidar sua liderança na discussão de temas fundamentais para a economia verde, como energias alternativas, combate ao efeito estufa e compensação financeira pela preservação da áreas verdes, e em definir a Amazônia como tema unicamente brasileiro.

Do outro lado do Atlântico, o britânico "The Independent" saiu com um superlativo editorial afirmando que a saída de cena da "fada da floresta" era nada menos do que uma ameaça para a sobrevivência do planeta. O texto lembra que quase 25% da emissão de gás carbônico no mundo vem da derrubada das florestas tropicais, ante 14% produzida por carros, aviões e indústrias. E que a queimada de florestas, em um único dia, coloca mais dióxido de carbono na atmosfera do que 8 milhões de pessoas voando entre Londres e Nova York. O jornal sugere o investimento - dividido entre todas as nações do planeta, com exceção do Brasil - de US$ 80 bilhões para a proteção da Amazônia, o que geraria uma multidão de empregos de colarinho-verde no país. Mas, em contra-partida, Brasília concordaria que "essa região do Brasil é importante demais para ficar a cargo apenas dos brasileiros".

Com ou sem a proliferação de postos de trabalho na área verde, a queda-de-braço em torno da Amazônia é cada vez mais protagonista no planejamento estratégico do Brasil dos anos 2000. (EG)

quinta-feira, maio 22, 2008

Eleições 2008: Racismo No Sul dos EUA

Muito boa esta reportagem da Al-Jazeera em inglês sobre a dificuldade de Barack Obama em convencer os norte-americanos brancos de classe média-baixa, especialmente os do sul do país, a apoiarem um candidato negro nas eleições de novembro. Dá o que pensar...

125 Anos de Ponte do Brooklyn



As fotos são do fantástico fotógrafo e querido amigo Fábio Seixo. A ponte é a do Brooklyn, aqui ao lado de casa, que celebra hoje 125 anos. Para mim, disparada, a atração mais bonita da cidade, com vistas de se perder o fôlego.

terça-feira, maio 20, 2008

Os Números de uma Eleição

Mais do que conceitos e propostas, o que impressiona na disputa pelo controle do Império são números, números, números. O ótimo site político Daily Kos recebeu por e-mail, da campanha do senador do Illinois, hoje de noite, um dado mais do que interessante: dos novos doadores à campanha de Obama no mês de abril (200 mil cidadãos), 94% contribuíram menos de US$ 200.

É assim que ele vem revolucionando a maneira de se tornar uma candidatura finaceiramente viável aqui nos EUA, chegando ao total de US$ 31,9 milhões arrecadados no mês passado. Neste exato momento ele conta com US$ 46,5 milhões em caixa. A campanha de Hillary Clinton, que se fixou no velho modelo dos grandes doadores, amarga cerca de US$ 20 milhões...em dívidas.

A primeira-dama, que acaba de vencer a primária do Kentucky graças ao voto dos eleitores mais conservadores, da zona rural do estado sulista, tem justamente na dívida milionária seu ponto mais fraco na tentativa ainda desesperada de conseguir a indicação à presidência.

ENTREVISTA/Stefan Sagmeister


A mais recente edição da revista FLORENSE trouxe o perfil que escrevi sobre o designer gráfico Stefan Sagmeister. Passamos - eu e o fotógrafo Victor Affaro - um fim de tarde de fim de inverno na cobertura do artista austríaco radicado em Nova Iorque desde o fim dos anos 70. O papo foi descontraído e rendeu 4 páginas. Ó só:

Stefan Sagmeister - O Johnny Depp do Design Contemporâneo
Por Eduardo Graça, de Nova York

A primeira reação ao se entrar no estúdio de Stefan Sagmeister, localizado em uma cobertura no Chelsea, é a de que um dos mais importantes designers gráficos do planeta cultua os contrastes como poucos. No primeiro andar, entre uma cozinha-bar e um banheiro, funciona o estúdio de fato. O segundo, a sala de reuniões onde esta entrevista aconteceu, é dominado pelo chandelier pop que Rody Graumans criou para a Droog em 1993. Sagmeister conta que o que chamou sua atenção foi o uso de elementos básicos (fios e muitas, muitas lâmpadas, destas que se compram na lojinha da esquina) para criar um efeito único. O terceiro andar é um paredão aberto ao céu de Nova Iorque, com o Empire State Building ao alcance do nariz. Daqui de cima pode-se até ver a fila de formiguinhas que vai se formando na entrada de um dos pontos turísticos mais populares da cidade.

O designer, que nasceu em Bregenz, na Áustria, e conversa em inglês com um sotaque igualmente forte e gracioso, sabe que o alto design pode ser encontrado no mais ordinário dos meios. Em seu mais recente livro – Things I Have Learned In My Life So Far (algo como Coisas Que Aprendi Em Minha Vida Até Agora, editado pela Abrams, a US$ 40) - ele utiliza papel higiênico, chocolate, fita adesiva, cachorro-quente, entre muitos outros meios nada convencionais, para apresentar mensagens de afirmação. Talvez a mais impactante seja a do macaco inflável, gigantesco, em que se precisa virar a página (ou, na exposição que ele apresentou no começo do ano na Deitch Projects, em Nova Iorque, dar a volta em torno da instalação) para apreender toda a mensagem: “Todos sempre pensam...”, começa, para terminar: “...que estão certos o tempo inteiro”.

Com uma suéter azul-clara, calça de pano azul-escura e um modernoso tênis azul-marinho, Sagmeister parece mais novo do que seus 45 anos. E do alto de seus 1,95m, acha graça dos sete anos que demorou para finalizar Things I Have Learned In My Life So Far. Também sorri da comparação feita recentemente por Paola Anteonelli, curadora-sênior de Arquitetura e Design do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA), que o batizou de o ‘Johnny Depp do design contemporâneo’. Surpreendente, radical, independente, quase ingênuo, quiçá brutal, o designer conta em entrevista exclusiva à Florense por que deixou de lado seu icônico trabalho com os gigantes nomes da música pop norte-americana (vide Lou Reed emergindo do nada em Set the Twilight, de 1996, o boneco G-I-Joe de David Byrne na capa de Feelings, e o leão assírio de Bridges to Babylon, dos Rolling Stones, ambos de 1997) a fim de explorar outros campos oferecidos pelo maravilhoso mundo do desenho gráfico contemporâneo: projetos sociais, científicos e pessoais. O fundamental, garante, é saber que ‘o tempo em que vivemos é o mais interessante e gratificante para as artes gráficas’.

"Não Há Melhor Momento Para Se Tornar um Desenhista Gráfico Do Que Este Em Que Vivemos"


- Depois de um ano sabático, você voltou a Nova Iorque, virou seu estúdio de pernas para o ar, lançou um livro que é a sensação do desenho gráfico no Hemisfério Norte e uma exposição que se transformou em um dos sites mais visitados do seu meio. Você aconselharia um período de descanso para um bom profissional se reinventar com sucesso?
- Pode-se ter uma idéia do que almejo fazer com meu trabalho olhando para o exemplar da Florense que você acaba de me dar. Aqui estão dois de meus maiores ídolos, Milton Glaser e Oscar Niemeyer, que têm uma inequívoca capacidade de reinvenção. No meu caso, o ano sabático, claro, funcionou muito bem para mim. Mas não posso, de fato, afirmar que esta é a melhor maneira de se preparar para uma nova etapa criativa. Tenho uma enorme dificuldade em ouvir conselhos, então não vou fazer o mesmo. Agora, a maioria dos designers que respeito criaram suas próprias maneiras de recarregar as baterias. Glaser, por exemplo, não trabalha às sextas-feiras, Massimo Vignelli sai mais cedo todos os dias, fecha o estúdio às três ou quatro da tarde. No meu caso, o peso do trabalho contínuo foi sentido, assim como acontece de forma geral com acadêmicos. Precisava recarregar as baterias. Cheguei em NY em 1993, decidi descansar sete ano depois, em 2000.

- O livro surgiu deste ano de descanso?
- Um pouco do que viria a se tornar o livro surgiu de fato naquele ano, mas de forma alguma a motivação da parada foi publicar algo. Ed Fella, um designer que admiro muito, professor da Califórnia Institute of Arts (Calarts), veio ocupar o estúdio na mesma época, começou a fazer sketch books muito interessantes, se dedicando exclusivamente a estes experimentos. Pensei que seria interessante fazer algo parecido justamente no momento em que eu chegava à maturidade de minha carreira. Ou assim eu pensava. Mas Ed foi minha real inspiração para o ano sabático.

- Você chegou a pensar em deixar o design gráfico de lado, não é?
- Na verdade, durante aquele ano, inicialmente, pensei que iria me tornar diretor de cinema. Cheguei a trabalhar bem a idéia na minha cabeça, mas abandonei este plano completamente depois de quatro semanas de muitas maquinações. Cheguei à conclusão de que precisaria de pelo menos dez anos para aprender uma linguagem nova como a do cinema. O tempo até que me animava, sabia? O que me amedrontou mesmo foi pensar que investiria uma década no aprendizado de uma nova linguagem para depois descobrir que possivelmente não teria nada a dizer de uma forma cinematográfica! Mas será que ainda havia algo diferente a dizer na linguagem que eu conheço? Na minha linguagem? No desenho gráfico? Talvez, mas queria fazer algo que não tivesse nada a ver com promoção e/ou música, vendas. Se você olhar para os principais estúdios de design de Nova Iorque, eles certamente estão hoje centrados na parte corporativa, mais comercial. Não queria isso. Comecei a pensar então nas muitas outras fronteiras que o design pode atingir...

- E você decidiu abandonar de vez justamente uma das características mais fortes da marca Sagmeister: sua fantástica produção de imagens voltadas para a música pop.
- É verdade. Estamos oficialmente fora da esfera da indústria musical. Esta foi uma das primeiras decisões depois do ano sabático. É que a música popular não tem mais a importância que teve em minha vida. Acho que hoje até temos acesso a mais música, de mais gêneros, de mais culturas, mas a maneira como a consumimos e como a encaramos é completamente diferente da dos anos 60 e 70, por exemplo. Quando tinha 17 anos, no fim dos anos 70, minha coleção de discos definia quem eu era. Não é o caso hoje para um jovem adolescente. Veja bem, não sou um nostálgico, de forma alguma. Há uma série de aspectos interessantes que o design pode ter um efeito direto e é para estes nichos que o estúdio está se focando, incluindo, com destaque, ciência e a arena social.


- Você poderia me dar alguns exemplos práticos desta guinada do estúdio?
- Temos aqui, por exemplo, um projeto de uma revista científica mais popular, voltada para jovens não necessariamente nerds, também estamos trabalhando ativamente na comunicação de um grupo que propõe uma modificação na legislação norte-americana para limitar os gastos militares no orçamento, obrigando certa porcentagem a ser direcionada para os gastos sociais. E mantemos projetos na Palestina, mais educacional, com o grupo OneVoice, voltado para as negociações de paz entre Israel e a Autoridade Palestina, e no Panamá, ligado à preservação da floresta tropical. Acho importante frisar que fiz esta transição logo antes da explosão do MP3, o que foi ao mesmo tempo providencial – hoje, em 2008, não sei de nenhum estúdio de design que tenha seu foco principal na indústria musical – e extremamente pessoal, no sentido de que foi uma decisão tomada por mim e não por uma imposição da indústria.

- Então é mesmo impossível imaginar hoje um estúdio de design gráfico repetindo sua experiência de se concentrar no universo musical...
- É impossível, especialmente por conta da desimportância atual do packaging musical. Mas, de novo, nada de nostalgia! Quem se tornou um designer nos anos 80 por conta das capas de disco, hoje se torna um profissional do ramo por conta dos vídeo games, ou dos telefones celulares. Aliás, se você olhar para a história da música com atenção, vai perceber que ela jamais precisou de qualquer aspecto visual. É possível que a tentativa de se criar um código visual para a música tenha acontecido entre os anos 40 e nossa década que agora vai ser lembrado como um período histórico.

"Experimente, Tente, Ouse, Faça Coisas em Todas as Direções"


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The Things I Have Learned é a cara dos anos 00. Fiquei impressionado ao entrar no site do livro e ver o espaço reservado para colaborações de internautas. Você vê o livro, que rendeu uma bela exposição no SoHo no início do ano, como ‘em progresso constante’?
- Sim! The Things I Have Learned, desde o título, é, nitidamente, um trabalho em progresso. Até a idéia de deixar em aberto as contribuições de amadores e designers dos quatro cantos do globo foi, também, uma sugestão externa, de visitantes da exposição. E adorei a idéia! Sempre fui muito crítico com relação a websites de livros. Queria fazer algo que fizesse sentido e se relacionasse com a obra em papel. E fiquei extremamente surpreso, não apenas com a qualidade das obras que apareceram lá, quase todas de amadores, mas também com a quantidade e com a velocidade com que elas são postadas. Abri o site há quatro semanas e já temos uma coleção impressionante. Diariamente há novidades! É impressionante quanta gente decidiu dedicar o seu tempo para postar lá, colocar suas próprias mensagens, em forma gráfica, do que aprenderam vida afora. Existem obras lá que certamente levaram horas e horas para serem concluídas.

- Isso me faz lembrar de uma de suas frases mais famosas, a de que o que você almeja fazer é criar design para não-designers. É isso mesmo?
- Sim, e, para o designer com esta ambição, não existe tempo melhor do que o que vivemos hoje. Há um interesse brutal por design de pessoas claramente fora do mundo do desenho gráfico. De uma certa maneira, design é mais acessível do que arte contemporânea, é mais próximo do dia-a-dia do cidadão comum. Senti isso em nossa exposição aqui no SoHo. Recentemente, também, o MoMA abriu uma exposição dedicada à relação entre a ciência e o design, extremamente sofisticada, e teve casa cheia todos os dias. Então, temos de aproveitar e deixar de lado a tentação de fazer design para nós mesmos, os criadores, o que pode até ser interessante aqui e acolá, mas é tão insular. Eu definitivamente decidi me tornar um designer porque gosto de falar com muitas pessoas ao mesmo tempo, de criar em meio à confusão, sabe? Talvez por isso os profissionais que admiro mais no mundo do desenho sejam justamente os que conseguem atingir uma audiência imensa, como Matt Groening e seus Simpsons.

- Você já disse aqui que não gosta de dar conselhos, mas teria uma mensagem para os estudantes de design no Brasil que vierem a ler a Florense?
- Experimente, tente, ouse, faça coisas em todas as direções. De novo, lembre-se que este é o tempo perfeito para se tornar um designer.

sábado, maio 17, 2008

Marina

Por aqui pegou muito mal a notícia da saída da ministra Marina Silva do ministério do Meio-Ambiente. Todos os jornais lamentaram a perda da maior responsável pela mudança de atitude do chamado primeiro mundo em relação ao Brasil quando se trata de proteção à floresta amazônica e ao verde. Até agora o texto que mais me chamou a atenção sobre o pedido de demissão de Marina foi o de seu ex-colega de Planalto no primeiro governo Lula, Frei Betto, publicado ontem na Folha:

Querida Marina
FREI BETTO

CAÍSTE DE pé! Trazes no sangue a efervescente biodiversidade da floresta amazônica. Teu coração desenha-se no formato do Acre e em teus ouvidos ressoa o grito de alerta de Chico Mendes. Corre em tuas veias o curso caudaloso dos rios ora ameaçados por aqueles que ignoram o teu valor e o significado de sustentabilidade.

Na Esplanada dos Ministérios, como ministra do Meio Ambiente, tu eras a Amazônia cabocla, indígena, mulher. Muitas vezes, ao ouvir tua voz clamar no deserto, me perguntei até quando agüentarias.


Não te merece um governo que se cerca de latifundiários e cúmplices do massacre de ianomâmis. Não te merecem aqueles que miram impassíveis os densos rolos de fumaça volatilizando a nossa floresta para abrir espaço ao gado, à soja, à cana, ao corte irresponsável de madeiras nobres.


Por que foste excluída do Plano Amazônia Sustentável? A quem beneficiará esse plano, aos ribeirinhos, aos povos indígenas, aos caiçaras, aos seringueiros ou às mineradoras, às hidrelétricas, às madeireiras e às empresas do agronegócio?

Quantas derrotas amargaste no governo? Lutaste ingloriamente para impedir a importação de pneus usados e a transformação do país em lixeira das nações metropolitanas; para evitar a aprovação dos transgênicos; para que se cumprisse a promessa histórica de reforma agrária.

Não te muniram de recursos necessários à execução do Plano de Ação para a Prevenção e Controle do Desmatamento da Amazônia Legal, aprovado pelo governo em 2004.


Entre 1990 e 2006, a área de cultivo de soja na Amazônia se expandiu ao ritmo médio de 18% ao ano. O rebanho se multiplicou 11% ao ano. Os satélites do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) detectaram, entre agosto e dezembro de 2007, a derrubada de 3.235 km2 de floresta.


É importante salientar que os satélites não contabilizam queimadas, apenas o corte raso de árvores. Portanto, nem dá para pôr a culpa na prolongada estiagem do segundo semestre de 2007. Como os satélites só captam cerca de 40% da área devastada, o próprio governo estima que 7.000 km2 tenham sido desmatados.

Mato Grosso é responsável por 53,7% do estrago; o Pará, por 17,8%; e Rondônia, por 16%. Do total de emissões de carbono do Brasil, 70% resultam de queimadas na Amazônia.

Quem será punido? Tudo indica que ninguém. A bancada ruralista no Congresso conta com cerca de 200 parlamentares, um terço dos membros da Câmara dos Deputados e do Senado Federal.


E, em ano de eleições municipais, não há nenhum indício de que os governos federal e estaduais pretendam infligir qualquer punição aos donos das motosserras com poder de abater árvores e eleger ($) candidatos.


Tu eras, Marina, um estorvo àqueles que comemoram, jubilosos, a tua demissão, os agressores do meio ambiente, os mesmos que repudiam a proposta de proibir no Brasil o fabrico de placas de amianto e consideram que "índio atrapalha o progresso".


Defendeste com ousadia nossas florestas, nossos biomas e nossos ecossistemas, incomodando quem não raciocina senão em cifrões e lucros, de costas para os direitos das futuras gerações. Teus passos, Marina, foram sempre guiados pela ponderação e pela fé.


Em teu coração jamais encontrou abrigo a sede de poder, o apego a cargos, a bajulação aos poderosos, e tua bolsa não conhece o dinheiro escuso da corrupção.

Retorna à tua cadeira no Senado Federal. Lembra-te ali de teu colega Cícero, de quem estás separada por séculos, porém unida pela coerência ética, a justa indignação e o amor ao bem comum.

Cícero se esforçou para que Catilina admitisse seus graves erros: "É tempo, acredita-me, de mudares essas disposições; desiste das chacinas e dos incêndios. Estás apanhado por todos os lados. Todos os teus planos são para nós mais claros que a luz do dia.
Em que país do mundo estamos nós, afinal? Que governo é o nosso?"

Faz ressoar ali tudo que calaste como ministra. Não temas, Marina. As gerações futuras haverão de te agradecer e reconhecer o teu inestimável mérito.


CARLOS ALBERTO LIBÂNIO CHRISTO, o Frei Betto, 63, frade dominicano, escritor e assessor de movimentos sociais, é autor de, entre outras obras, "A Obra do Artista Uma Visão Holística do Universo". Foi assessor especial da Presidência da República (2003-2004).

sexta-feira, maio 16, 2008

Na Prateleira: Richard Price

A Bravo! deste mês traz uma resenha minha sobre o mais recente livro do escritor norte-americano Richard Price, Lush Life, que está na minha estante. É daqueles livros que vai dando uma pena quando a gente está próximo do fim...

O texto:

Volta ao Mundo

Nova York


Em Lush Life, o romancista Richard Price desafina o coro dos que festejam Manhattan como um lugar seguro

Por Eduardo Graça, para a Bravo!

Recentemente, o roteirista e escritor Richard Price apareceu na revista Time assinando um manifesto com outros colegas. Alarmados pela revelação de que 1 em cada 100 norte-americanos está na cadeia, os manifestantes convocaram a população a protestar contra a existência de “duas Américas”, que só se esbarram nas páginas de crimes dos jornais. Ou em livros como Lush Life, que Price acaba de lançar e que ainda não tem data para chegar ao Brasil.

O olhar azedo sobre as últimas quatro décadas de vida nas grandes metrópoles dos EUA, quando a chamada “guerra às drogas” travestiu-se de “guerra aos pobres”, é o pano de fundo do romance. Lush Life (algo como Vida Opulenta) conta a história de Eric Cash, 35 anos, gerente de um café e escritor frustrado que mora na região de Manhattan conhecida por Lower East Side, onde “aos 30 anos você já parece ter 50”. Ele é suspeito de um crime que, aparentemente, não cometeu.

Ao deixar o batente às quatro da madrugada – acompanhado de um outro funcionário do café, Issac “Ike” Marcus, e de Steve, um amigo de “Ike”, que está completamente alcoolizado –, sofre um assalto por parte de dois jovens mal-encarados, possivelmente moradores de um dos muitos conjuntos habitacionais da ilha. “Ike” reage à abordagem com a frase “Hoje não, meu amigo” e acaba baleado. Morre no ato. Como ninguém mais viu os marginais, e uma das testemunhas estava sob o efeito do álcool, é preciso acreditar na palavra de Cash. Ou não.

A exatidão crua das falas de seus personagens e o pendor cinematográfico do livro levaram outro célebre romancista, Dennis Lehane, autor de Sobre Meninos e Lobos, a afirmar que, com Lush Life, Price se torna o escritor que melhor elaborou diálogos em toda a história da literatura norte-americana. Russell Banks, de Temporada de Caça e O Doce Amanhã, foi além. “Price”, escreveu, “é o nosso Balzac pós-moderno”. Exageros à parte, o que prende a atenção do leitor é a sensação de que o roteirista do filme A Cor do Dinheiro nos leva pela mão através dos labirintos de uma cidade escondida dentro da cidade. Ele atua como o cicerone de uma Manhattan sem brilho, a antítese da metrópole “seguríssima” proclamada pelos guias turísticos e pelos políticos. Um lugar ainda pulsante de vida subterrânea, desejos primários, cobiça e muita injustiça social.

quarta-feira, maio 14, 2008

Hollywood: duas irmãs, aos 90, ainda não se topam


Genial a reportagem de Rupert Cornwell que abre a página de Cultura do The Independent desta quinta-feira (já é dia em Londres). Quem diria que Olivia de Havilland e Joan Fontaine ainda se detestam, aos 90? E que a rivalidade voltaria à tona por conta de ...Bette Davis!

Toda a deliciosa fofoca das nonegenárias de Hollywood (muito mais interssantes do que Britneys & Lindsays) aqui, infelizmente apenas em inglês:


Sibling rivalry: Hollywood's oldest feud

Screen legends Olivia de Havilland and Joan Fontaine have always had one problem: each other. Now in their nineties, the antagonism goes on. Rupert Cornwell reports
Thursday, 15 May 2008


Whatever happened to Olivia and Joan? Olivia de Havilland and Joan Fontaine that is, among the brightest jewels of 1940s Hollywood, Oscar-winners both but also sisters locked into an ancient sibling rivalry that, according to accounts from the tinsel city, is alive and well even though both are now in their 90s, grandes dames from a vanished era.
Eight decades or more, you would have thought, is time enough to let bygones be bygones. But in this sad, remarkable but all too human instance, the answer appears to be, no. A couple of weeks ago, the Academy of Motion Pictures which organises the Oscars held a bash honouring the late actress Bette Davis on the 100th anniversary of her birth. In so doing, they unwittingly laid bare this celebrity feud for the ages.

Naturally, Joan and Olivia, among the closest surviving contemporaries of Bette Davis were invited. According to insiders, Olivia – who lives in Paris – at first let it be known she could not manage so long a trip. Upon learning her sister would not be coming, Joan agreed to attend. Then Olivia decided after all she would be there in person to commemorate Davis, her friend with whom she had worked in films such as Hush Sweet Charlotte. So Joan in the end took a pass. There are some wounds, it seems, that time cannot heal.


That Bette Davis was indirectly responsible for this latest contretemps, is fitting. If the real-life sibling rivalry between Hollywood stars has any equivalent on the silver screen, it is in the brilliantly macabre Whatever Happened to Baby Jane? that Davis made in 1962 with a rival of her era, another Joan, this one Joan Crawford.
In the film, Davis plays Jane, the star child actress, fallen on booze and hard times, who is fated to have to look after her elder, far more successful, but now crippled famous sister Blanche. Neither Olivia de Havilland nor Joan Fontaine of course ever lost their lustre, nor have they ever behaved to each other with the sadism and criminal intent manifested by Jane and Blanche. On the other hand, even in their bitter declining years, Jane and Blanche were striplings by comparison.

Olivia and Joan were born to an English couple just one year apart in Tokyo, in 1916 and 1917. The father was a patent lawyer, their mother an actress. Both girls suffered from ill health, and when Olivia was just two, the family moved to California, where her parents divorced and the father returned to Japan.
By the time she was 19, both Joan (who had by now taken the stage name of Fontaine) and Olivia were already starting to make a name for themselves in Hollywood. They were not only setting out on glittering careers, but with each successive step up the ladder of stardom more salt seems to have been rubbed into the raw emotions that by all accounts had divided them from their childhood.

An industry as dynastic and interconnected as Hollywood has had its share of feuds, but the Fontaine/de Havilland estrangement is one for the ages. Theirs is no petulant exchange of talcum powder, forgiven or forgotten the next morning. For seven decades, maybe nine decades, it has separated two of the leading actresses of their generation.
They were the first sisters to win Oscars, and the first to be nominated for best actress in the same year, a co-incidence that repeated itself in 1965 with Lynn and Vanessa Redgrave. In that particular family there was no feud, and in any case neither Redgrave won. Not so in 1941. The previous year, Joan had been nominated for her role as the sweet and unworldly second Ms De Winter in Alfred Hitchcock's masterpiece Rebecca, based on the novel by Daphne du Maurier. Indeed, the feud between the sisters may have been sealed at that moment. One story is that both were chasing the part, and Joan got it. In the event, the Oscar went to Ginger Rogers, but within 12 months they were in contention again, Joan for her role in Suspicion, her second film with Hitchcock, and Olivia for Hold Back The Dawn. The award was presented by Rogers, and the winner was ... Joan Fontaine. Years later, Joan would remember how she froze as her name rang out, with her older sister sitting next to her.

As Olivia told her to "Get up there," Joan burst into tears, she wrote of the moment. All the resentments and jealousies of an uncomfortably shared childhood returned; "the hair-pulling, the savage wrestling matches, the time Olivia fractured my collar bone, all came rushing back in kaleidoscopic imagery. My paralysis was total ... I felt age four, being confronted by my older sister. Damn it! I had incurred her wrath again."


Such feuds, of course, make glorious copy. The imagined tiffs between Brad Pitt and Angelina Jolie are fodder enough for today's supermarket tabloids. But imagine the coverage if Jolie and, say, Gwyneth Paltrow were siblings, and truly at each other's throats. That is the star megawattage of the two de Havilland sisters in their day.
In a historical context, it is even more remarkable. If Rebecca was indeed the match that lit the fuse of rivalry, the sisters have been at it since Hitler invaded France. But by Joan's account, the feud extends from the 1920s; in other words they were fighting with each other when Charles Lindbergh first flew the Atlantic.

Of course, the quarrel may have been exaggerated on occasion for publicity purposes; Joan at one stage claimed the whole thing had been cooked up by studio PR people. But the events on that same Oscars stage five years later suggest otherwise.
In 1946 Olivia was nominated again, for To Each His Own, and this time she won. The prize was to have been presented by Joan Crawford. But Crawford pulled out, and the Academy, perhaps believing that there could be better setting for reconciliation, replaced her with Fontaine. So Joan it was who called her sister's name, and Olivia stepped up to the podium. The grudge match, you might have thought, was over, but it was not. Anyone expecting a soft hug of reconciliation, now that honours were finally even, watched as Olivia even refused to shake her younger sister's hand. In 1949, Olivia won a second Oscar, for her role in William Wyler's The Heiress. But the ancient enmity persisted. By 1975, it is said, they were no longer on speaking terms, after Olivia did not invite Joan to a memorial service for their mother. That was Joan's version. Olivia says she did invite Joan, who was too busy to attend.

In 1987, both were invited to the Oscars awards ceremony in its 60th anniversary year. Instead, the story goes, someone made the error of booking them in next door to each other at the Four Seasons hotel, prompting Joan to have her room switched. Later she was stuck in limo gridlock as she arrived for the ceremony, and was forced to get out and walk, "This is the last Oscars show for me," she is reported to have said. "From now on they can muck it up for themselves."


Today, these legends of the silver screen are 91 and 90 years old. Olivia is the last surviving major cast member of the 1939 epic Gone With The Wind (in which she won her first Oscar nomination, for the part of Melanie, only to be beaten out by Hattie McDaniel, the first black actress to be so honoured). Olivia has been based in Paris since the 1950s, while Joan, apparently in better health, lives in Carmel, California, where she is sometimes seen out with five dogs.


But why can't they make up? Despite Whatever Happened to Baby Jane? most movies heal such rifts in the final reel. But for a couple of nonagenarians, the "happy ending" possibilities are running low. But then again, life can be more complicated, more untidy, and on occasion just plain nastier than the movies.
Siblings can share love, or they can drift apart. But they cannot be indifferent to each other. If they don't get on, the ability to get on each other's nerves, and thus to press their mutual rage button, is encoded in their genes.

Charles Higham, in his 1987 biography, Sisters: The Story of Olivia De Havilland and Joan Fontaine, says Olivia never got used to the idea of a younger sister. She would, apparently, rip up her old clothes that Joan was supposed to wear as hand-me-downs, forcing her to stitch them back together. Joan is said to have resented what she saw as her mother's favouritism for Olivia.
This volatile mix was stirred into the dog-eat-dog, celebrity culture of the movie industry, where the greatest feat of all is to retain a sense of proportion. For Olivia de Havilland and Joan Fontaine, that task proved too great.

Edwards Anuncia Apoio a Obama

O ex-senador John Edwards, que fez uma belíssima campanha à presidência e deixou vários eleitores órfãos quando abandonou a corrida eleitoral, acaba de anunciar seu apoio ao senador Barack Obama. A declaração de apoio (abaixo, no vídeo) é uma grande vitória para o político do Illinois. Edwards acrescenta a Obama mais delegados e o apoio de sindicatos, boa parte dos trabalhadores, e da classe média-baixa branca, até agora mais próxima de Hillary.

segunda-feira, maio 12, 2008

W, por Oliver Stone

O fim de semana por aqui foi todo da primeira-família. Nos tablóides, apareceram as fotos do casamento de Jenna, uma das gêmeas de George e Laura. Novas pesquisas deram conta que quase 80% dos norte-americanos acreditam que o país está sendo governado de forma equivocada. Mas o melhor estava na EW, que trouxe com exclusividade as primeiras fotos - e detalhes - de W, o filme que Oliver Stone quer lançar às vésperas das eleições, neste outono.

A capa traz Elizabeth Banks como a primeira-dama Laura e um irreconhecível Josh Brolin (estrela de Onde os Fracos Não Tem Vez, dos irmãos Coen) como o homem que chegou à Casa Branca em 2000 apesar de ter recebido menos votos do que Al Gore. O enteado de Barbara Streisand está usando uma prótese no nariz para ficar mais parecido com George W. Bush. É de arrepiar!

O repórter Benjamin Svetkey acompanhou as primeiras movimentações da produção do longa (que deve completar a trilogia de presidentes de Stone, responsável por JFK e Nixon) nos cafundós da Louisiana. O roteiro - assinado por Stone e Stanley Weiser (de Wall Street - Poder e Cobiça) - ainda está sendo azeitado, mas algumas cenas já vazaram para a imprensa, tais como:

* o presidente se engasgando e quase sufocando com um pretzel enquanto acompanhava uma partida de futebol-americano na tevê

*  dando apelidos a Condolezza Rice ('guru') , Colin Powell ('pé-chato') e Karl Rove ('turd-blossom', uma flor que dá no Texas e cresce aonde há uma grande concentração de esterco) no meio de uma reunião para definir como seria feita a invasão do Iraque.

* aos 26 anos, embriagado, estacionando o carro no gramado de seus pais e gritando insultos contra o pai 'certinho'.

* anos depois, quase protagonizando um acidente fatal ao pilotar um jatinho alcoolizado.

* brigando com Dick Cheney e dizendo que 'quem decide é ele'.

* tentando convencer Tony Blair de que uma boa idéia para se provocar uma guerra com o Iraque seria mandar um avião da Força Aérea norte-americana com as cores da ONU para atacar Bagdá de supresa ou, no caso de ter de usar um Plano B, 'simplesmente assassinar o filho-de-uma-égua do Saddam'.

* quando seu pai é eleito presidente, ele confessa a Laura que 'no fundo queria que ele tivesse perdido a eleição para o democrata Michael Dukakis'. É que agora ele 'jamais sairia da sombra do pai'.

* quando a França decide denunciar a invasão do Iraque, em 2003, Bush solta palavrões contra Jacques Chirac, a quem nunca suportou.

* em 1999, governador do Texas, ele diz a um tele-evangelista que 'a verdade é que eu não tenho o menor interesse em concorrer à presidência, mas sinto que Deus quer que eu seja o novo presidente e eu devo concorrer. Eu tenho que concorrer!".

* em uma conversa com Prince Bandar, o embaixador da Arábia Saudita em Washington, Bush confessa que desde a invasão do Iraque ele abandonara os doces. "É meu sacrifício pessoal para mostrar o apoio moral que dou às nossas tropas".

No elenco de W já estão confirmados o ótimo James Cromwell como Bush pai, Ellen Burstyn como mama Barbara, a ingelsa Thandie Newton (de À Procura da Felicidade) como Condi, Jeffrey Wright como Colin Powell e outro súdito da rainha, Toby Jones (o Capote caricaturizado de Confidencial), como Karl Rove. Ainda falta escolher quem encarnará o todo-poderoso Dick Cheney. Diz-se que Robert Duvall, depois de ler o roteiro, pulou fora do barco correndo.

O último filme de Stone, Torres Gêmeas, tinha Nicholas Cage à frente do elenco, faturou US$ 70 milhões na bilheteria, mas foi massacrado pelos liberais, que viram a obra, curiosamente, como um libelo pró-Bush, uma tentativa ingênua de ligar os atentados às Torres Gêmeas à invasão do Iraque. Para a esquerda, o filme, um Stone menor, parecia justificar os atos do homem que ele agora quer biografar na tela.

O diretor, que estudou na Universidade de Yale na mesma época que Bush e John Kerry, diz que pretende contar a história 'de um homem que tinha talentos limitados, com a exceção de um dom: a impressionante habilidade de ser ele mesmo. Se Scott Fitzgerald estivesse vivo ele estaria escrevendo sobre George W. Bush. Ele, é, de certa maneira, um Gatsby ao contrário', diz.

Já dá para ter uma idéia do que será o W de Stone.

Iron Man trucida Speed Racer

Massacrado pela crítica norte-americana, Speed Racer fez apenas US$ 20, 2 milhões de bilheteria em sua semana de estréia, ficando em segundo lugar nos cinemas dos EUA, à frente da comédia Jogo de Amor em Las Vegas, com Ashton Kutcher e Cameron Diaz, que chegaram aos US$ 19 milhões. Em sua segunda semana em cartaz, Homem de Ferro faturou mais US$ 50,5 milhões, chegando a US$ 177,1 milhão apenas nos EUA. O filme estrelado por Robert Downey Jr. é o primeiro hit do verão nos EUA e Speed Racer o primeiro grande fracasso por aqui.

Los Angeles Times: Obama na frente

A pesquisa mais recente da corrida presidencial colocou Barack Obama novamente à frente do candidato republicano, John McCain. Mas Hillary - que deve ter seu canto do cisne esta semana na primária de Virgínia Ocidental - ganharia com margem ainda maior.

Obama 46%  X 40% McCain

Hillary 47%  x 38% McCain

A organização ultra-liberal MoveOn.org gastou rios de dólares para produzir este anúncio, que mostra bem as razões para o novo disparo democrata (o descontentamento de eleitores tradicionalmente republicanos com o partido cada vez mais radical à direita):



Por Onde Andará...

Lorena Bobbitt?

A musa das feministas desesperadas, famosa por cortar aquela parte do marido John, que a traía o tempo todo, agora...corta cabelos em um salão em uma cidadezinha da Virgínia! É o que os tablóides de NYC informam hoje. Parece que ela pegou o gosto pela tesoura. Coisas dos EUA...

Bye-Bye, Chicory



Rstaurantes favoritos são fundamentais no dia-a-dia de quem vive aqui em Nova Iorque. Restaurantes favoritos do bairro, aqueles nem tão caros nem tão bagaceiras que a gente retorna tanto em uma emergência no meio da noite quanto no dia em que quer descansar do forno e do fogão, são catedrais informais. Eu me ajoelhei nos últimos dois anos no altar do chef Gavin McAleer, que abandonara a haute cuisine (ele foi durante anos acólito de David Burke e Rocco Dispirito) para nos servir, em seu Chicory, saladas caprichadas, um burguer fenomenal e porções inesquecíveis de arroz selvagem com cranberry. Foi com ele que aprendi a gostar de succotash, uma mistura de feijão mulatinho com grãos de milho e pedacinhos de carne-seca que me levavam ao céu. Depois descobri que era o prato mais tradicional na celebração do Dia de Ação de Graças na Filadélfia.

E McAleer ainda servia o melhor fried chicken do lado de cá da ponte...

Quem se lambuzou comigo no Chicory mais de uma vez foi minha amiga e expert em gastronomia Catherine Vieira.

Cathê, acabou!

Já estou com saudades de meu succotash nas noites de outono do Brooklyn!