quarta-feira, junho 22, 2005

Diretinho da Redação (20)


O texto abaixo pode ser lido também no site Direto da Redação.

Uma Volta Inglória?

Parecia estádio de futebol em dia de clássico. O deputado José Dirceu voltou ao Congresso. Foi recebido por deputados e militantes com bandeiras e faixas. Disse que sua vida é pública. Que bom. Se é assim mesmo, não seria uma boa idéia que ele decidisse começar do começo? Já explico. Antes da ‘profunda reforma política e do sistema eleitoral’ que o deputado pretende comandar lá da Câmara dos Deputados, com o auxilio de PSDB, PFL e PMDB, não seria importante tratar do episódio que, de certa maneira, inicia toda a maré bravia que vem assombrando o governo Lula?

Não se trata das novas descobertas da CPI dos Correios, com o funcionário Maurício Marinho pedindo em pleno Congresso Nacional proteção ‘pois suas revelações poderiam chegar a muitos deputados e senadores’. Nem da CPI do Bingo, a do Waldomiro Diniz, que depois da decisão de hoje do STF deve finalmente sair do papel. Não. Estou falando do assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel, em janeiro de 2002. Foi naquela ocasião, que, pela primeira vez, se investigou a possibilidade da existência de ‘caixa dois’ destinada às campanhas do PT. De esquemas montados em prefeituras petistas para beneficiar candidatos ligados ao partido. Infelizmente jamais saberemos por Celso Daniel, então um dos principais caciques do PT paulista, se algo de errado acontecia na prefeitura de sua cidade.

Mas, se Dirceu - aplaudidíssimo dizendo que o governo ‘não rouba nem permite roubalheira’ – quiser realmente passar o PT a limpo – ele deveria, repito, começar pelo começo. Ontem, ele repetiu o ‘doa a quem doer’ de Collor. Também teve de ouvir com calma os patéticos gritos do tenebroso deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ): ‘terrorista! Terrorista’!. Reagiu com calma e fez questão de marcar sua nova posição dentro do tabuleiro do governo Lula: saudado pela militância, se disse ‘à esquerda de Lula’ e que ela, a esquerda, ‘agora tinha voz no Plenário da Câmara’. Folgo em saber.

Deslocada do governo para o Congresso Nacional, esta 'vanguarda de esquerda' pode derreter com facilidade a bola de neve que vem esmagando o PT, os setores progressistas e o país. Basta responder com exatidão, uma a uma, questões como as de Santo André. Na semana passada, o Tribunal de Justiça (TJ) negou a Dirceu liminar que o liberaria de uma acareação com o médico João Francisco Daniel, irmão do prefeito assassinado, que o acusa há tempos de ser o destinatário do dinheiro arrecadado em esquema de corrupção na prefeitura de Santo André. Os dois estarão frente à frente no dia 8 de agosto. Quem sabe o TJ não tenha, involuntariamente, dado o primeiro passo para que se comece a desfazer a estratégia de gambá do deputado Roberto Jefferson. Esta mesmo que vem espalhando mau-cheiro República afora. Só nos resta torcer.

segunda-feira, junho 20, 2005

Ao Que Vai Nascer

Do jornalista e pensador César Benjamin, um dos fundadores do PT, na Folha de S.Paulo deste domingo, sobre a crise da esquerda brasileira:

O momento agora é de dispersão. O velho já está morrendo, e o novo ainda não nasceu.

A reportagem completa, sobre 'intelectuais petistas', pode ser lida em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/

sexta-feira, junho 17, 2005

Do Meu iPod (Adem)




Ele não sai do meu iPod. Já está quase virando obsessão. Não tem nada a ver com o verão que chega sufocante. Também não tem nada a ver com Nova Iorque. Nem com o Brasil. Mas melodias fantásticas e as letras dor-de-cotovelo com uma esperança lá no fundo do baú bem que poderiam entrar na trilha sonora do Delúbiogate. Não acho que muita gente conheça o Adem aí no Brasil. Aqui em Nova Iorque quase ninguém ouviu falar dele. Eu vivo perturbando minha amiga Manoela Zappa para ela ir a um show dele e me contar como é o moço ao vivo e a cores. Profundamente inspirado pelo fantástico Nick Drake – que se matou em 1974 e com quem me reencontrei um belo dia de 2004 via CD de minha amiga Gabriela Máximo – Adem Ilham é o fino do folk inglês. Seu primeiro disco – Homesongs – é saboroso como comida caseira. Em Homesongs ele toca todos os instrumentos, com destaque para uma guitarra acústica absolutamente sedutora e nada entediante. E há a voz. A voz. Cheia de sussurros a falsetos que nos fazem pensar que ainda é possível encontrar algo de novo na música pop. A minha música favorita é These Are Your Friends, em que ele repete o mantra ‘everybody needs some help sometimes’. Dá para ouvi-la no http://2005.sxsw.com/music/showcases/band/20343.html A letra diz: I wish that I'd arrived a little sooner You really should have called we'd have come here right away You tried to help yourself but you got it wrong You've thrown yourself Into the flames 'cause you're covered in cold But these are your friends They give out a nice warm glow You've tried so hard to see for yourself Your perspective is wrong These are your friends Let them come guide you on Listen now - now's the time to listen There're lessons to be learned I've seen this before in my own life You feel covered up, removed from the world around you With all your senses dulled you'd do anything to feel You tried to help yourself, but you got it wrong You've thrown yourself Into the flames 'cause you're covered in cold But these are your friends They give out a nice warm glow What have you done? You're cutting your cord You're floating in space But these are your friends They'll be your star-map home Everybody needs some help sometimes Para quem ficou com vontade de saber mais sobre o moço, Adem tem um site bem legal, lá no http://www.adem.tv/, com um diário online.

quinta-feira, junho 16, 2005

Mais Massacre de Volta Redonda - 1988

O amigo Cristiano Beraldo, colega de classe naquele 1988, lembra outros detalhes do massacre de Volta Redonda, que ele me autorizou a publicar abaixo:

Lendo a coluna, lembrei dessa história como se fosse ontem... e já se passaram 17 anos.
Tinha acabado de subir, junto com a minha mãe, do curso de inglês que fazia na época, o CCAA, na Vila Sta. Cecília. Mais cedo, da janela do curso, presenciei dezenas de carros da PM e do Exército chegando em Volta Redonda.


Pelo que minha mãe conta, meu pai, que também estava dentro da CSN mantendo-a funcionando, tinha ligado para ela e pedido para me buscar porque o clima estava ficando perigoso na cidade. Chegando em casa, ouvi uns estouros e cheguei na janela para ver o que era. Como tinha uma posição privilegiada, morando no bairro Bela Vista, consegui ver o início da confusão, quando o exército atacou a multidão com bombas de gás e tiros para o alto.

A princípio imaginei que os tiros fossem de festim, mas logo percebi que não eram, quando comecei a ver as balas traçantes passando próximas da janela da minha casa. Dava para ver e ouvir o zumbido delas. Logo, várias pessoas se aglomeraram na grade do Laboratório de Pesquisa da CSN, que fica localizado entre o Bela Vista e o Conforto, para ver o que estava acontecendo. E foi essa confusão durante o resto da noite e madrugada.

Pessoas sendo espancadas, carros quebrados e furtados, e outros barbaridades mais. O pior foi quando, em determinado momento, os carros do Exército começaram a entrar na usina. Foi quando começamos a ouvir os tiros ecoando lá de dentro, por toda a noite. Foi uma madrugada de apreensão e preocupação com as pessoas que estavam lá dentro, entre elas o meu pai e o seu.

Ainda teve outro capítulo dessa história no Primeiro de Maio do ano seguinte, com a bomba jogada pelo Comando de Caça aos Comunistas no monumento projetado por Niemeyer aos três operários mortos.

Foi uma época complicada...

Um abraço, cara, foi legal ter lembrado disso tudo...

Cristiano Beraldo

Poesia da Dona Olga

O leitor do site Direto da Redação, Diógenes Pereira de Araújo, se inspirou no “Cadê a Dona Olga do PT?” para compor os seguintes versos:

BANDEIRA VERMELHA!

Bandeira do PT. Inda é vermelha.
Mas agora é vermelha de vergonha.
Em Brasília o PT é qual pamonha, pra não dizer que a ratos se assemelha,

que a sua situação, mais que bisonha,
nos tem feito franzir a sobrancelha
e quanto a olhar, olhar sempre de esguelha.
Pobre trabalhador que já não sonha

que o partido a louvar-se no seu nome
o represente com dignidade
no tocante a eficácia e seriedade.

Pelo menos não é mais zero a fome:
de fato é hoje a fome mais de mil
e há "cositas más"...
Pobre Brasil.

Diógenes Pereira de Araújo

Valeu, Diógenes!

quarta-feira, junho 15, 2005

Mais da Bolívia

A querida Ana Cristina Machado manda mais dois links para se saber mais da Bolívia: http://www.bolivia.com/noticias/AutoNoticias/DetalleNoticia26976.asp, com notícias diárias em espanhol, e o www.planetaportoalegre.net, em que pode se ler uma boa entrevista com Gustavo Torrico, em bom e claro português, com o dirigente do Movimento ao Socialismo (MAS), parceiro do principal líder da oposição, Evo Morales.

Diretinho da Redação (19)


O texto abaixo, mescla de memória e indignação, também pode ser lido no www.diretodaredacao.com, onde estão relatos de outros jornalistas espalhados pelo mundo.

Cadê a Dona Olga do PT?

Sete de Novembro de 1988, uma quarta-feira ensolarada em Volta Redonda, estado do Rio. O presidente é José Sarney. O governador atende pelo nome de Wellington Moreira Franco. Em Brasília, parlamentares, entre eles Luiz Ignácio Lula da Silva, haviam aprovado, um mês antes, uma nova Constituição. Os operários da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) decidem entrar em greve. Querem a implantação do turno de seis horas, a reposição salarial referente a perdas por inúmeros planos econômicos desastrosos e a reintegração de demitidos pela atuação salarial.

Nove de Novembro. Na CSN, ninguém entra, ninguém sai. A esta altura a cidade está profundamente envolvida com a greve. A maioria dos moradores se junta a parentes e amigos nas cada vez mais animadas manifestações, que acontecem na entrada do escritório central da usina, a três quadras de nossa casa. Acredita-se que vivemos em estado democrático. Acabara-se a ditadura militar, desconhecia-se a ditadura burguesa. Meu pai está lá dentro com outros funcionários tentando manter a coqueria funcionando. Liga para casa de quando em quando – estamos falando de priscas eras, antes do celular. Pede para que não arrumemos confusão com o pessoal do exército. Mas que exército?

Poucos minutos depois, soldados de vários quartéis do estado, comandados pelo General José Luís Lopes da Silva, dispersam à bala uma manifestação e invadem a usina a fim de acabar com os piquetes. Funcionários, mulheres e crianças correm desesperados pelas ruas próximas. Homens armados os perseguem. Nossa rua vira um palco de guerra. Minha mãe e minha irmã resolvem abrir a porta de casa e convidar as pessoas a se abrigarem em nossa sala. Quando percebo estamos deitados, estranhos e conhecidos, no chão, em emocionada comunhão, usando o sofá como proteção. Tapamos ouvidos e colocamos as mãos sobre a cabeça com medo de estilhaços.

Um dia depois damos conta do tamanho do massacre. O centro velho da cidade está detruído. Marcas de bala enfeitam os portões das garagens dos vizinhos. Um cinema fôra quebrado a pauladas de cassetete. Muito mais grave – três operários estão mortos. William, 22 anos, com um tiro de metralhadora no pescoço. Valmir, 27, com um tiro de metralhadora nas costas. Carlos, 19, por esmagamento de crânio. Os operários decidem manter a greve, agora com apoio incondincional da traumatizada população. As aulas são suspensas nos colégios e nas universidades da cidade.

23 de novembro de 1988. Um soldado, como nas semanas anteriores, permanece de prontidão na nossa rua, mas desta vez ele resolve montar guarda no gramado em frente à nossa casa. Minha mãe acha que aquilo já é demais. Dona Olga abre a porta e, dedo em riste, tensa como jamais a vi, obriga o soldado a se retirar. Abomina sua truculência e lembra que os tempos são outros, que eles não estão mais no poder, que seus crimes serão apurados, que a casa era dela e que ali ele não pisava mais. Assustado, o soldado bate em retirada.

Algumas horas depois a greve acaba. Os operários conquistam todos os seus direitos. Ao contrário de William, Valmir e Carlos, meu pai volta para casa. Nas eleições municipais que acontecem em meio à ocupação militar de Volta Redonda o PT ganha suas primeiras prefeituras significativas – em São Paulo e em Porto Alegre. Eu guardo para sempre a lição de que democracia é o regime em que se pode botar o dedo na cara de quem representa uma ameaça ao estado de direito.

Ontem, um dos dias mais deprimentes da história da democracia brasileira, aquela imagem voltou a me assombrar. Acompanhei todo o depoimento do deputado Roberto Jefferson na Comissão de Ética do Congresso. Ele deveria encarar seus pares na constrangedora posição de acusado. Não foi o que se viu. Durante mais de seis horas foi dado ao soldado da tropa de choque de Collor de Mello o poder para decidir quem na imprensa é sério e quem não é, quem é honesto e quem é picareta no Congresso Nacional. A confiança era tamanha que ele quis até demitir, de lá mesmo, um ministro de Estado.

Quase no finzinho da maratona, Jefferson foi interpelado por seu colega Chico Alencar. O deputado petista queria saber por que só agora ele denunciara o recebimento de dinheiro ilícito do PT para o financiamento de candidaturas de políticos do PTB, nas eleições municipais de 2004. Jefferson, ator de primeira, não titubeou. E nos lembrou que ‘parceiro ajuda parceiro’. Tinha ficado quieto para proteger o PT, ora essa. “Matei no peito, deputado, matei no peito e agüentei tudo sozinho”. Ao que Alencar retrucou: “O partido que nós queremos construir não precisa disso”. Construir? Pera lá. Mas a esta altura do campeonato?

Em 1988, a bandeira que tremulava mais alto nas manifestações de Volta Redonda era vermelha e tinha uma estrela no centro. Muitos acreditavam que estavam construindo um partido. Muitos vibraram nas ruas da cidade com as vitórias de Luiza Erundina e de Olívio Dutra como se eles, no próximo ano, pudessem em um passe de mágica administrar a cidade dos operários e não São Paulo ou Porto Alegre. Cadê a Dona Olga do PT? Por que será que ninguém se arvora a colocar o dedo na cara de Roberto Jefferson para lembrá-lo que não estamos mais no governo Collor? De que os tempos são outros? De que sua biografia vale ainda menos do que a dos Valdemares, Bispos Rodrigues e Janenes da vida?

Ontem, não havia um líder do governo, um defensor gabaritado, uma voz para lembrar a Jefferson que não poderia haver inquisidor menos qualificado na igrejinha do Congresso. Será que o PT agora é veremelho de vergonha? Será que Waldomiros, Cachoeiras, Adautos, Flamarions, Delúbios e Silvinhos surrupiaram para sempre dos petistas seu amor-próprio, seu necessário orgulho, sua crença de que o PT é, afinal, diferente do fisiologismo que domina o cenário político brasileiro? Ou será que o partido, comandado por uma cúpula deslumbrada e insensata, decidiu entregar de vez os pontos? Dos muitos desserviços que o governo Lula tem prestado ao país, jogar na lama a legenda dos trabalhadores será o pior. Gente, cadê a Dona Olga do PT?

terça-feira, junho 14, 2005

Blogs da Bolívia

Para os que estão acompanhando com atenção o que acontece na Bolívia, há dois blog bem legais. Um, de Jim Schultz, do The Democracy Center, diretamente de Cochabamba, pode ser acessadoo em http://democracyctr.org/blog/. Outro, de Nick Buxton, craque em ativismo politico na Internet, fica no http://www.nickbuxton.info/bolivia/

Como diria meu amigo Ivson, vai lá, mané!

segunda-feira, junho 13, 2005

Viva Yuka!

Do músico Marcelo Yuka, exato, na Folha de S.Paulo de hoje:

A elite está emburrecendo. Não entendeu que, por não ter assumido certos compromissos, não vai viver em paz. Por que ostentar tanto e viver sempre cercado de segurança? O shopping Daslu é um monumento à estupidez da elite. De um país que é campeão em desigualdade social. Que só vira brasileiro na Copa. Há uma elite que ainda é traumatizada por ter perdido a corte e precisa de similaridade com um foco internacional.O que temos como identidade são as manifestações populares, mas, mesmo quando se vê isso, é conseqüência de uma tendência internacional. Um país que não se percebe unido não respeita suas diferenças.

A entrevista completa, dada ao repórter Igor Ribeiro, está lá em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/folhatee/fm1306200504.htm

domingo, junho 12, 2005

Do Outro Lado da Fronteira : O Apartheid Boliviano

Especialista em Relações Internacionais, William Powers vive desde 2003 na Bolívia, onde está pesquisando para o lançamento de A Natural Nation, um livro em que trata de ecologia nos trópicos e da exploração de petróleo e ernergia na nação andina. No ano passado seu Blue Clay People, uma narrativa sobre o período em que passou na Libéria trabalhando para uma ONG ligada à Confederação Nacional dos Bispos da Igreja Católica daqui, causou algum burburinho.

Neste fim de semana, ele publicou um ensaio no New York Times sobre o que chama de Apartheid Boliviano, entitulado Poor Little Rich Nation. O artigo está dando o que falar aqui nos Estados Unidos. Abaixo vai uma tradução livre feita pelo blogueiro aqui. O negrito é meu. O original, infelizmente apenas em inglês, pode ser lido em http://www.nytimes.com/2005/06/11/opinion/11powers.html.

Pobre Naçãozinha Rica

WILLIAM POWERS
Samaipata, Bolivia

* Powers está parado, como muitos outros motoristas, em Samaipata, na estrada que liga Santa Cruz a Bogotá. Ele conta:

Por três semanas, a Bolívia ficou paralizada por barricadas e protestos. Os manifestantes querem nacionalizar as vastas reservas de gás natural do país, a segunda maior da América do Sul. A British Petroleum acaba de quintuplicar sua estimativa das reservas bolivianas, que devem valer algo próximo a US$ 250 bilhões.

* Dos manifestantes:

Manifestantes? Não, eles são a maioria da população, formada por descendentes de tribos indígeneas, principalmente Aymara e Quechua. Eles querem a saída imediata do FMI e de corporações como a British Gas, a Repsol, da Espanha e a Petrobras, do Brasil, que investiram bilhões de dólares em exploração e extração.

* O que está acontecendo de fato na Bolívia?

Muitos estão dizendo que o que aconteceu nos últimos e memoráveis cinco anos aqui foi uma guerra contra a globalização. De certa maneira, eles estão certos. O Mc Donald’s fechou suas portas. Uma nova taxa sugerida pelo FMI foi derrubada pela pressão popular. E dois presidentes foram retirados do poder – um deles, Gonzalo Sánchez de Lozado, falava Espanhol com um fortíssimo sotaque norte-americano. Mas o que acontece aqui não está relacionado à criação de um mundo utópico, livre dos Wall-Mart da vida. É muito mais uma queda-de-braço entre quem tem mais poder neste país. A maioria indigena ou aqueles ‘de pele menos morena’, europeizados e, em muitos casos, parte de uma elite que estabeleceu sua relação com o mundo através de uma viciada relação de corrupção?

* Da elite boliviana:

Pode-se dizer que a Bolívia se auto-colonizou. Quando o Império Espanhol fechou sua vendinha aqui em 1824, os ‘europeus’ que aqui ficaram aparentemente não perceberam isso. Aliás, só foram começar a se dar conta cinco anas atrás. Mesmo na América Latina, de acordo com o Banco Mundial a região com maior índice de desigualdade social no mundo, a Bolívia é considerada uma das nações mais injustas e corruptas, de acordo com a Transparency International. É também dividida de modo radical em estratos raciais muito bem definidos.

* Do Apartheid Boliviano:

Quase dois-terços dos bolivianos vêm das Terras Altas ou da Amazônia. O país têm a maior proporção de índios no hemisfério. É como se os Estados Unidos tivessem 160 milhões de apaches e iroqueses. O apartheid boliviano é poderoso e continua vigente de forma escandalosa. A exclusão é parte do dia-a-dia de quem vive aqui. A maioria da população é proibida de usar as piscinas dos principais clubes, por exemplo. Nas ‘haciendas’ pouco ou anda tocadas por alguma reforma agrária, eles ainda são os peões. Em La Paz, estava andando na moderna Zona Sul da cidade com Fátima, uma Aymara, quando um boliviano puxou-a bruscamente para fora da calçada. Fátima não ficou chocada com o desrespeito, mas se admirou de que ele se permitiu tocá-la. Em geral, não há sequer contato físico entre as duas ‘razas’.Os estados mais ricos em energia, no lado oriental, na fronteira com o Brasil, querem mais ‘autonomia’, que se traduz na prática apenas por privar a maioria indígena das reservas de óleo e gás.

* O que pode ser feito para se evitar o colapso?

A resposta, é claro, precisa ser dada inicialmente pelos próprios bolivianos. As elites aqui precisam reconhecer de uma vez por todas que os ‘morenos’ e seus organizados movimentos sociais são mais fortes do que qualquer partido político ou presidente, e que já está claro que eles não vão desistir. Qualquer solução real passa por dividir o poder com a maioria – pobre -da população. Para resolver a crise, no entanto, diminuir a exclusão não é suficiente. É preciso prestar bastante atenção na maneira com que o mundo vai se relacionar com a Bolívia, principalmente no que diz respeito à sua economia.

* Uma ‘nova Venezuela’?

Sim, a secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, estava certa ao apontar esta semana o deficit democrático boliviano. Mas mais do que dar pitos, nós precisamos reconhecer que DEMOCRACIA significa, no mínimo, deixar que a maioria da população decida o que bem se quer fazer com seus recursos naturais. Vamos lembrar aqui que os contratos de exploração com companhias de petróleo de diversos países foram assinadas – como bem lembra Condelezza – por líderes bolivianos corruptos, sem sequer a aprovação do Congresso. Ainda que se prove que a nacionalização do petróleo é uma péssima idéia, os bolivianos precisam decidir por si prórpios.

* Da política externa norte-americana:

Também não podemos esquecer que as nossas próprias idéias para a América do Sul não são lá estas coisas. A Bolívia foi, por excelência, a cobaia em que o FMI treinou sua ‘terapia de choque’ de liberalismo, iniciada em 1985. A receita rendeu milhões de dólares para petromagnatas e barões da soja, mas quase nenhuma geração de emprego e redução nula de desigualdade social. Duas décadas depois a economia boliviana permanece estagnada e metade da população vive com uma renda de menos de US$ 2 ao dia. O mundo deveria contribuir com algo que ajudaria profundamente a dimunição das desigualdades sociais e à busca da democracia por aqui: o perdão da dívida externa para a reconstrução da governabilidade. Hoje, a dívida externa da Bolívia representa 82% do PIB, corroendo 40% dos gastos a cada ano. Números que se traduzem em mais desordem e miséria.

* Tiananmen do outro lado do Mato Grosso:

Um jovem Quechua, braços cruzados, sentado em frente ao caminhão que tentava inutilmente furar o bloqueio de pessoas em Samaipata, na estrada que vem de Santa Cruz, lembrou-me das imagens da Praça Tiananmen, na China. Ele me disse: "Nossas culturas – quechua, aymara - têm sido bloqueadas por 500 anos. Esta é nossa única voz".

quinta-feira, junho 09, 2005

Fernando Gabeira, na Folha de Sábado

Está lá, disponível, no arquivo da Folha de S.Paulo, o fantástico texto de Fernando Gabeira, publicado neste sábado. Um trecho:

(...) essa certeza de que tudo se vence com dinheiro, essa confiança cega em neutralizar a televisão, ampliar a clientela social e simplesmente ignorar os milhares de consciências que assistem a tudo, é um dado novo. Os amigos não estão perdidos; simplesmente passaram a acreditar que o bandido vence no final. Enfrentamos cadeia, tortura e exílio e, de certa forma, sobrevivemos moralmente inteiros. A experiência do poder quebrou mais nossa vontade do que todos os paus-de-arara; os holofotes e o cordão de puxa-sacos nos confundiram mais do que choques elétricos. Amigos que enfrentaram horas de tortura para salvar os outros hoje se dedicam a produzir notinhas, uns contra os outros. Tudo o que é sólido se desmancha no ar. Há dissoluções mais bonitas, passagens mais perfumadas. Esse episódio, mascarado de ascensão de um trabalhador ao governo, é uma crueldade histórica. Levarei muitos anos para justificar a mim mesmo como foi possível acreditar nisso, já no fim do século 20, quando experiência e prática nos incitavam a duvidar. Ignorantes da tragédia histórica, fomos condenados à farsa.

Verissimo, sobre a lama

Hoje, no Globo: (...) Não fosse por um detalhe, o que estaria em curso hoje no Brasil seria um clássico golpe conservador, com todo o seu arsenal de moralismo seletivo e denuncismo dirigido, contra um inadmissível governo de esquerda. O detalhe que falta, claro, é o governo de esquerda. No fim, a explicação que tem de ser dada não é a dos suspeitos para os jornais e as CPIs, é a do PT para os seus militantes e eleitores, para aquele cara acenando sua bandeira vermelha na esquina, sozinho, de graça, porque acreditava e confiava. E o que precisam lhe explicar é por que mágica seu voto no PT deu num Roberto Jefferson com tantos poderes no governo, inclusive o de derrubá-lo.

quarta-feira, junho 08, 2005

Diretinho da Redação (18)


Ao que vai nascer

Há uma grave lacuna política no país e ela precisa ser ocupada com urgência. O PT, aquele, foi atingido duramente na segunda-feira pela entrevista desavergonhada do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) à Folha de S.Paulo. Não se trata de ‘mais um escândalo político envolvendo o governo Lula’. Se nos fiarmos nas denúncias do deputado, do governador de Goiás e do prefeito do Rio de Janeiro, parlamentares do PL e do PP recebiam uma mesada de R$ 30 mil para aprovar projetos do governo. Pior: desde janeiro, pelo menos, sabiam do ‘mensalão’ e, até prova em contrário, nada fizeram, por ordem de importância, os seguintes condôminos do governo: o presidente da república e seis ministros de Estado, entre eles José Dirceu, Aldo Rebelo, Ciro Gomes e Miro Teixeira. Este último ameaçou botar a boca no trombone, mas voltou atrás. Em entrevistas, Teixeira, indignado, vem dizendo que ‘a democracia não pode ficar nas mãos de ladrões”.

A frase é boa, mas vale a pergunta: qual foi a providência tomada pelos próceres da República desde janeiro, quando foram informados do ‘mensalão’? Parar de correr a sacolinha? É assim que se estanca a corrupção no governo dos companheiros? De acordo com Jefferson, Lula chorou, Dirceu deu murros na mesa e Ciro disse que não acreditava na denúncia pois ‘se tratava de muito dinheiro’. Isso apesar de Jefferson considerar que a prática do ‘mensalão’ era ‘coisa de câmara de vereadores de quinta categoria’. E nós com isso?

Aonde está o que resta do PT, daquele PT? Enquanto o velório do partido segue animado pelas verônicas de sempre e ‘neocorvos’ como o prefeito do Rio – fingindo indignação e dizendo que ‘nunca houve tanta corrupção no país’ – a sociedade brasileira ruma perigosamente para a ‘fascistização’ dos modos. Quando os políticos são considerados todos farinha do mesmo saco, policiais parabeninzados por aparecerem em fotos de jornais chutando a cabeça de acusados de crimes e cidadãos honestos vítimas de um ato de violência a cada 15 segundos no Rio de Janeiro, a serpente já está com metade da cebeça para fora do ovo.

Há 26 anos o PT surgiu traduzindo uma inegável evolução das forças progressistas do país. Nos falava de democracia, de combate ferrenho à corrupção e de uma crença na ética e na seriedade do trato com a coisa pública. Queiram seus detratores ou não, o PT foi sim o personagem mais importante da chamada Nova República. A cada vitória eleitoral daqueles que não tinham medo de ser feliz havia a certeza de que o país diminuía o fosso que separa a classe alta do imenso miserê. Acreditou quem quis, permanece de joelhos na igreja sem choro nem vela os acomodados, acostumados ao dízimo da vez.

Um dos personagens mais nefastos da política brasileira, Roberto Jefferson esfrega na cara de mais de 50 milhões de fiéis eleitores a questão: quem votou em Lula para que seu governo reorganizasse a partilha dos reais com os parlamentares dos partidos do Maluf e do Bispo Rodrigues? A triste ‘PMDBização’ do PT corrobora o que a senadora Heloísa Helena (PSOL-AL) detectou como ‘a metamorfose da ética petista no poder’.

O PT, aquele, acabou, não há mais. E agora, eleitor? Em apenas dois anos e meio de governo, os morubixabas do PT conseguiram de uma só vez assassinar a sigla, jogar a esquerda brasileira em uma crise sem tamanho e, mais importante, colocar em cheque, com seus Waldomiros, Delúbios e Silvinhos, as insituições da República, da qual o presidente Lula, em discurso emocionado, finalmente se lembrou que é o ‘seu maior defensor’. Trabalhador vota em Tabalhador? Balela. No Brasil, ontem e hoje, o mote é um só – aqui, meu amigo, parceiro apóia parceiro. O momento é o de respirar fundo, tapar o nariz e dar o passo à frente. É preciso jogar a pá de cal no caixão que reluz em nossa frente e depositar as esperanças ao que vai nascer. Quem sabe os que têm coragem para tanto não nos ofereçam algo tão novo quanto aquele tal de PT. Quem me acompanha?

Quando a gente pensa que já ouviu de tudo...

Acaba de dar na Rádio Guaíba que o ‘Repórter Vesgo’ foi expulso do Congresso. Os humoristas da Rede TV estavam gravando seu “Pânico” sobre o mensalão e, aparentemente, deputados e senadores se sentiram ‘ofendidos’. E nós, cara-pálida? Devemos nos sentir como?

terça-feira, junho 07, 2005

Quando a gente pensa que já leu de tudo...

...tá na Folha de S.Paulo de hoje:

...o ator Raul Cortez se dizia "admirado" no lançamento da nova Daslu, no sábado. Ele vai à loja uma vez a cada três meses e diz nunca ter desembolsado "mais de R$ 20 mil em uma compra. Mas já cheguei quase lá".

Folha - Que tal a nova Daslu?
Raul Cortez - Estupenda! A Daslu se assume como uma butique de luxo, que vende luxo. Admiro a coragem de quem não tem culpa de ter dinheiro e de expor isso de uma maneira tão aberta.
Folha - Essa culpa é comum?

Cortez - É. E aí as pessoas começam a contribuir com essas ONGs, essas obras beneméritas... O paulistano é um povo provinciano, preocupado com o que o outro vai pensar. E não vê que acontecem coisas piores no país. A corrupção desse governo me revolta. Essa história de barrar a CPI, de compra de deputados é terrível.
Folha - Mas o governo de Fernando Henrique, com o qual o senhor simpatizava, também sofreu denúncias.

Cortez - Mas [a corrupção] é um mal do povo brasileiro! Está na nossa genética ruim, feita com imigrantes, um povo degradado. As pessoas de Portugal que vieram eram as que mais atrapalhavam. Depois chegaram os outros imigrantes, já tentando impor respeito. Começou tudo errado.

PODE?

domingo, junho 05, 2005

Diretinho da Redação (17)


O texto abaixo está lá no www.diretodaredacao.com e trata de triste ironia. Ao mesmo tempo em que dois jornalistas – Bob Woodward e Carl Bernstein – são festejados por proteger durante três décadas sua fonte confidencial, outros 18 – entre eles Judith Miller, do “The New York Times” e Matt Cooper, da “Time” – podem parar na cadeia pelo mesmíssimo motivo. Sinal dos tempos.


Ele não podia ter aparecido em melhor hora. Garganta Profunda era W.Mark Felt, o número dois do F.B.I. na segunda metade dos anos 70. Foi ele quem ajudou os repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein, do The Washington Post, a iniciar a queda irreversível do governo Nixon. Poderia hoje a imprensa repetir com qualquer membro do alto-escalão do governo Bush a seqüência de denúncias e provas inconstestáveis de sérias irregularidades que levaram à renúncia daquele outro governo republicano? Provavelmente não.

Nas últimas semanas a Casa Branca vem batendo na tecla de que a reportagem da Newsweek sobre a utilização de métodos nada ortodoxos – incluindo jogar o Corão privada abaixo – para conseguir informações de prisioneiros muçulmanos na base naval de Guantânamo, na ilha de Cuba, é o tipo de história que deveria ser banida do jornalismo sério e responsável. Principalmente porque a fonte principal da reportagem pediu que seu nome não fosse revelado. Ironia ou não, a Newsweek é a revista do mesmo grupo que publica o The Washington Post. E atinge novamente um governo extremamente conservador, comandado pela linha-dura do Partido Republicano.

A reportagem de Michael Isikoff e John Barry – dois sérios e premiados repórteres – gerou protestos em todo o mundo islâmico, notadamente no Afeganistão e no Paquistão. Uma das funções mais importantes – e raramente alcançada – das boas hostórias jornalísticas é justamente a de mexer com os leitores, chacoalhar o status quo, tornar-se o ponto de partida para a modificação da realidade. O governo Bush acha que este ‘jornalismo irresponsável’ representa nada mais do que uma ‘propaganda negativa’ para os Estados Unidos em uma região estratégica como o Oriente Médio.

Propaganda política e jornalismo não devem se misturar, a não ser em casos extremos. São como água e vinho. Mas tanto a denúncia da tortura de seres humanos praticada sistematicamente por soldados que representam um país reconhecido pela O.N.U. quanto a revelação do esquema fraudulento da eleição do principal mandatário da nação são traduzidos pelo neo-cons como anti-patriotismo. Não por acaso, neste exato momento, 18 jornalistas respondem a processo aqui nos Estados Unidos por conta de reportagens com graves denúncias em que o informante ajudou o trabalho do repórter, com a condição de que permaneceria anônimo. Na maior parte dos casos acredita-se que a fonte faz parte do establishment governamental – exatamente como no caso do Garganta Profunda.

Neste mês os donos dos principais jornais do país, incluindo o The New York Times, concordaram em diminuir progressivamente as reportagens que não apresentem todas as fontes ‘on the record’. O U.S.A. Today chegou ao cúmulo de banir para sempre de suas páginas histórias baseadas em informantes anônimos. Pena. Histórias como a do Garganta Profunda dependem de os capitães da imprensa confiarem mais em seus empregados do que nas benesses do governo federal. Mas também não deixa de ser revelador o motivo final pelo qual Felt decidiu, quase três décadas depois, revelar sua identidade. Glória e dinheiro. Busca de reconhecimento e de segurança financeira. Duas metas mais do que fundamentais na receita batida de se encontrar a felicidade ao modo norte-americano.

sexta-feira, junho 03, 2005

Quem Tem Medo de Kathleen Turner?


foto:Carol Rosegg

Há um momento crucial na encenação de Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, em cartaz aqui na Broadway. É quando Kathleen Turner, ou melhor Martha, encara o teatro repleto e diz: “Eu não tenho senso de humor algum. Possuo um apurado senso do ridículo, mas careço do mínimo senso de humor!”. O público, por razões reveladas no texto que segue, aplaude de pé. Na quinta-feira passada consegui uma cobiçada cadeira no mezanino do Longacre Theatre, na rua 48, para realizar missão agradabilíssima: contar para o público português os motivos pelo qual se tornou quase uma obrigação cívica testemunhar a atuação de la Turner, que, neste domingo, concorre ao prêmio Tony de melhor atriz, o Oscar do teatro norte-americano.

Expectativas havia. E muitas. Para começar, o autor Edward Albee decidiu dar o sinal verde para a encenação do diretor britânico Anthony Page, mas pediu para escolher os atores que fariam os protagonistas do espetáculo – vividos no cinema magistralmente por Elizabeth Taylor e Richard Burton. Durante seis anos – isso mesmo, seis anos – Albee entrevistou inúmeras possíveis ‘Marthas’, gente fina como Jessica Lange, Frances McDormand, Stockard Channing e até Bette Midler. Mas o autor, de 77 anos, só bateu o martelo quando escutou a peça, frase após frase, lida por Turner e seu magnífico parceiro de palco, Bill Irwin, no loft de Page no Chelsea, em julho do ano passado.

Ninguém sabia disso, mas naquele dia Kathleen Turner completava exatos 50 anos. Sem consultar ninguém, assim que foi informada da reação emocionada de Albee, a atriz, em fase final de recuperação de um caso severo de artrite reumática, decidiu fazer uma operação no joelho. Queria se movimentar com destreza pelo palco durante as três horas de trabalho.

Em cena, tudo o que se sabe dos últimos anos de Kathleen Turner parecem potencializar uma atuação catártica, que leva o público a se deliciar cada vez que ela revela, em uma piscadela de olhos, uma nova Martha. Primeiro, a quarentona bebum que parece certa de ter vivido uma história sem razão de ser. Em seguida, a mulher sedutora que ataca o convidado da noite na frente do marido. No derradeiro ato, a desprotegida racional, lidando com medos imensos, mas ciosa de que eles são todos seus. Seus e de George.

Não há como não se pensar no drama de Turner enquanto Martha desce as escadas de sua casa em uma cidade universitária na Nova Inglaterra em um vestido negro colado e sóbrio, insinuante e exato. Pouco tempo atrás, médicos temeram que a hilária protagonista de “Mamãe é de Morte” iria parar numa cadeira-de-rodas. Confessadamente assustada, Turner conta que só teve um remédio: mergulhar de cabeça em um tratamento pesado que incluiu quimioterapia e uso de esteróides. Ao mesmo tempo, começaram a surgir rumores de que ela estava bebendo além da conta.

De fato, poucas semanas depois de encerrada sua temporada em “A Primeira Noite de Um Homem”, aprensentada na Broadway três anos atrás com críticas horrendas, Turner se internou em uma clínica de reabilitação para se livrar do álcool. E como a Martha de Albee tem um aptetite insaciável por bebida, o autor não negou que esta foi uma das razões pela qual escolheu Turner para a encenação.

Da primeira fileira do segundo andar do Longacre, deleitando-me com a coreografia desenhada por Page e pensando no que escreveria para a Sabado, só pude aplaudir as escolhas de Albee. Os atores coadjuvantes – David Harbour e Mireille Enos – estão soberbos. Não é à toa que os quatro artistas foram indicados para o Tony, juntamente com a figurinista Jane Greenwood e a peça, na categoria melhor releitura. Também não é gratuita a consagração de Turner como “a diva das divas” pela crítica local, em uma temporada que ainda conta com Jessica Lange (vivendo Amanda Wingfield , de “À Margem da Vida”, de Tennesse Williams) e Natascha Richardson (encarnando a Blance DuBois de “Um Bonde Chamado Desejo”).

Em exata metáfora, Matt Wolf, crítico do jornal inglês “The Observer”, comparou a interpretação de Kahtleen Turner a um balão que, furado de modo violento, vai se esvaziando lentamente para choque e fascínio do público. Imperial, a atriz conduz sem pausas este bolero de bêbados. Uma dança triste de um casamento destruído por uma tragédia oculta do público, que permanece atento até o último rodopio. Ou até o sibilar derradeiro de Martha, rendida aos braços de seu George no chão do palco da Broadway, tal qual uma criança indefesa, mas consciente de seu lugar: “Quem-tem-medo-de-Virginia-Woolf-Virginia-Woolf-Virginia-Woolf?”. Kathleen Turner tem.

terça-feira, maio 31, 2005

Diretinho da Redação (16)



Defuntos redivivos apoiando seus candidatos favoritos em dia de eleição, compra de votos, gente comparecendo duas vezes à mesa eleitoral, denúncias de corrupção e tráfico de influência para todos os lados, três resultados diferentes em seis meses de apuração de votos. Aonde? Em Severinópolis? Não. Aqui, nos Estados Unidos mesmo, mais precisamente no estado de Washington, na costa oeste, cuja capital é a cosmopolita Seatlle.Esta semana televisões e jornais daqui acompanham com atenção mais um capítulo desta sitcom política que não tem data para terminar. A Côrte Estadual de Washington começou a ouvir os advogados do candidato republicano, Dino Rossi, que perdeu o pleito de novembro, depois de três recontagens, para a democrata Chrsitine Gregoire, por 129 votos, em um universo de 2,8 milhões de eleitores. Ele não aceita a derrota. Se alguém decidir ligar hoje para o comitê de Dino Rossi vai encontrar do outro lado linha simpáticos atendentes dizendo “Rossi para governador, bom dia!”. Lobistas dos dois lados do campo político local rumaram para Seattle e, ao som do pós-grunge característico da bela cidade em que chove mais por ano do que em Londres, tentam sair vitoriosos desta queda-de-braço a qualquer custo.A qualquer custo mesmo. Os democratas anunciaram um ‘investimento’ de US$ 500 mil dólares – vindos em boa parte de sobras da caixa de campanha do senador Kerry em 2004 – em lobistas, advogados e material para a miliância. Os republicanos estimam que os custos finais da brincadeira, que deve seguir para a Suprema Côrte, já estão em US$ 3 milhões. O irônico é que a principal linha da defesa democrata para a acusação republicana de que inúmeras irreglaridades – como o voto dos mortos-vivos – foram cometidas em redutos liberais do estado é a de que as bandalhas também ocorreram, só que com mais intensidade, nos cantões conservadores. Todos concordam que corrupção elitoral houve, é claro.A eleição que nunca acaba está sendo acompanhada, ‘atentamente’, pela Casa Branca, avisa o cada vez mais poderoso líder do governo no senado, Bill Frist. E nós com isso? George Bush, é verdade, não apareceu na tevê dizendo que apóia as obstruções de Dino Rossi porque, afinal de contas, ‘parceiro ajuda parceiro’. Mas, no exato momento em que a sociedade brasileira se debate com mais um escândalo, desta vez envolvendo a aliança PT-PTB, é bom lembrar que corrupção não cheira mal apenas no Brasil. Que é uma vantagem e um direito democrático podermos vê-la estampada de modo gritante nas primeiras páginas dos jornais, para horror de governistas e guardiães do $, aflitos por conta de uma virtual contaminação da crise política nos humores do mercado. Cá como lá, o importante é apurar. CPI já.

sexta-feira, maio 20, 2005

Diretinho da Redação (15)



Na semana passada comecei a reproduzir aqui o texto do escritor alemão Günter Grass, uma reflexão publicada no The New York Times sobre os 60 anos de democracia na Alemanha pós-Hitler. Grass trata da crise da representação parlamentar, do esgotamento da classe política e principalmente da derrocada do ideal democrático frente a um novo tipo de totalitarismo - o absolutismo do mercado. Segue aqui a segunda parte do texto, não menos contundente:

· "Hoje há quase um 'consenso' de que o preço a pagar para se 'viver em liberdade' é o da diminuição do emprego direto, dentro desta lógica perversa da tal globalização. Aqui na Alemanha, o aumento do lucro do setor industrial e o incremento nas exportações não significa mais o incremento de postos de trabalho. A esperança de ter toda a sociedade alemã empregada desmanchou-se no ar. E tudo é visto como se ordenado por Deus, 'como tinha de ser'.

· Aqueles que ousam apontar para o crime de se condenar uma parte da população ao 'esquecimento social' são ridicularizados por jovens jornalistas. Estes os chamam de 'românticos sociais' ou 'bonzinhos'. Dúvidas sobre os motivos reais para o aumento do fosso cada vez maior que separa ricos de pobres são ignoradas a título de se evitar o retorno de uma 'política do ódio'. O desejo por Justiça é considerado ridículo e utópico. O conceito de solidariedade é relegado à lista de palavras estrangeiras no dicionário.

· Embora nós não soubéssemos inicialmente o que fazer com a liberdade que nos foi dada de bandeja, nós fomos aprendendo gradualmente a lidar com a tal da democracia. A geração de 68 nos ofereceu, ao mesmo tempo, um diferente tipo de liderança política e uma clara noção de tolerância. Também descobrimos que nosso passado, nosa herança alemã, estará sempre presente para nos assombrar, passada de avô para pai, de pai para filho. Pense nos neo-nazistas, que, volta e meia, nos presentearam, nestes 60 anos, com o espelho do desrespeito. Ainda assim, nós sentíamos que a democracia tinha chegado aqui para ficar.

· Tarde, talvez tarde demais, nós viemos a reconhecer que a ameaça à nação alemã, o que deveríamos chamar de inimigo público número 1, não vem do radicalismo conservador de direita, mas da impotência de toda a nossa classe política, que deixa centenas de cidadãos desprotegidos frente às ordens da economia. O que está sendo destruído, diariamente, na Alemanha, não é o Estado, mas a Democracia.

· Hoje nós podemos apenas ter a esperança de que poderemos lidar com o novo risco de totalitarismo, sustentado pela última ideologia viva no mundo globalizado. No papel de democratas conscientes nós deveríamos resistir ao poder do mercado e lutar pela liberdade mais uma vez perdida. A ideologia vigente enxerga o homem como pouco mais do que alguma coisa que consume e produz. E só. Estes que encaram a liberdade com que foram presenteados seis décadas astrás como se esta fosse um investimento na bolsa de valores não entenderam absolutamente nada do que o Dia 8 de Maio de 1945 nos ensina ano após ano."

sexta-feira, maio 13, 2005

Riot On The Radio!!!


Ontem fomos ao show do The Dead 60's - o nome é ótimo! - no Northsix, um clube aqui de Williamsburg. Eles são quatro meninos de Liverpool que ouviram Clash até dizer chega e fazem parte de uma cena que também inclui o The Coral e o The Zutons. No ano passado eles abriram os shows da turnê inglesa do Morrisey e este ano vão fazer o abre-alas da nova sensação aqui do Brooklyn, o The Bravery.