domingo, junho 15, 2008

Coluna de Domingo: Frank Rich, NY

A obrigatória coluna dominical de Frank Rich no NYT, hoje, está tinindo. O jornalista contesta o novo conto de fadas da mídia norte-americana: o de que os eleitores - mais precisamente, as eleitoras - de Hillary estariam migrando para McCain.

A coluna, completa, apenas em inglês, você lê aqui.

Seguem alguns bons trechos:

* "Pelas propagandas de McCain dizendo que ele, e não Obama, está mais próximo das eleitoras de Hillary, você jamais desconfiaria que o senador republicano é um dos maiores inimigos ao direito de escolha da mulher na questão do aborto. Ou que ele ajudou a derrubar o programa público de ajuda ao combate de câncer de mama"

* "As últimas três pesquisas de opinião, no entanto (Gallup, Rasmussen E Wall Street Journal-ABC) mostram Obama liderando entre as mulheres, com vantagem que vai de 13% a 19%. Para se ter uma idéia, as mulheres, que nos EUA historicamente votam com os democratas, deram a Al Gore uma vantagem de 11% sobre Bush em 2000 e a John Kerry uma vantagem de apenas 3% em 2004. A vantagem de Obama impressiona".

* "A noção de que as eleitoras de Hillary Clinton se transformaram, com sua derrota, em angry white women, é, por si só, sexista e estereotipada. O cenário fictício de hordas de mulheres furiosas migrando para a candidatura McCain é apenas mais um capítulo de uma história que querem nos vender como real - a de que o Partido Democrata é invariavelmente dividido e que apenas se Hillary for convidada para a vice-presidência a lealdade de seus eleitores (18 milhões nas primárias) seria garantida por Obama. Esta é a realidade de pernas pro ar. São os republicanos que vivem nas gargantas uns dos outros, e não os democratas".

* "A mídia se concentrou nos problemas de Obama apresentados pelas pesquisas - ele está bem atrás de McCain entre os homens caucasianos (20%) e entre as mulheres caucasianas que vivem nos subúrbios (6%). Mas está bem à frente quando se consideram todas as mulheres (19%) ou mesmo apenas a totalidade das mulheres caucasianas (7%). A rede NBC, por exemplo, sequer mencionou que Obama vence McCain em todos os outros grupos: eleitores brancos de origem hispânica, independentes, católicos e trabalhadores de baixa-renda. A vantagem de Obama entre os hispânicos é a mais assustadora para os republicanos: 62% a 28%. Não custa lembrar que Bush só chegou à Casa Branca com os 44% de votos dos hispânicos."

* "É claro que há muitas maneiras de Obama perder esta eleição, mas não se pode deixar de notar que os 6% de vantagem sobre McCain (47% a 41% da totalidade dos votos) é maior do que a de Bush, em qualquer momento da campanha, sobre Kerry em 2004."

* "Quem não consegue unir seu partido é McCain. O acadêmico conservador Douglas Kmiec já anunciou seu apoio a Obama. Exatamente como o economista republicano Lawrence Hunter e um dos pais do neo-conservadorismo, Francis Fukuyama. Até Rupert Murdoch, o dono da Fox, anda namorando explicitamente os democratas. E simplesmente 14 republicanos do Congresso se recusam a declarar o apoio a McCain. Dos 62.800 doadores da campanha Bush-2004, apenas 8% (ou 5.000) estão dando alguma ajuda a McCain".

sábado, junho 14, 2008

Leitura de Sábado: Entrevista com Gore Vidal

Ótima a entrevista publicada hoje no jornal espanhol El Mundo com um dos maiores intelectuais americanos, o escritor Gore Vidal, 82 anos. O título? Ainda Vai Levar Um Século Para Repararmos Todo o Mal Que Bush Fez.

Em determinado momento ele diz que a eleição de John McCain significaria a continuação do governo de Junta Militar, no 'pior estilo latino-americano' que têm nos comandado ultimamente.

A entrevista completa, infelizmente apenas em espanhol, pode ser conferida aqui.

Alguns destaques:

* "O Império está se acabando porque o dinheiro desapareceu"

* "Sigo tendo minhas dúvidas em relação a Obama. No início, pensei que ele era o maior demagogo da paróquia desde Martin Luther King. Depois ele subiu em meu conceito com o discurso sobre raça que fez. Ele, pelo menos, é inteligente, o que já seria uma bela novidade na Casa Branca"

* "A Espanha têm as touradas, nós a tortura de estrangeiros"

* "Os escritores contemporâneos não têm a menor noção de História, passam o tempo todo escrevendo sobre eles mesmos"

* "Vivemos em um país que me dá medo. Deixamos para trás a República e nos esquecemos da Constituição"

* "Hoje temos um presidente tão preguiçoso que não lê sequer os resumos que seus assessores lhe preparam"

* "McCain me lembra muito de George Bush. Ele seria o prolongamento deste governo de Junta Militar, no estilo da América Latina, que tem nos governado"

sexta-feira, junho 13, 2008

PERFIL/SALMAN RUSHDIE

O expresso Oriente de Salman Rushdie
Por Eduardo Graça, para o Valor, de Nova York

Depois de uma hora ouvindo sir Salman Rushdie, sai-se do encontro mais entusiasmado com a criatura do que com sua mais nova criação. Não se trata de depreciação gratuita. "A Encantadora de Florença" (Companhia das Letras), o décimo romance do escritor britânico de 60 anos, que chega às livrarias brasileiras em novembro, é uma delícia de ler. Se não é uma obra-prima como "Os Filhos da Meia-Noite", oferece uma eletrizante aventura pelos três continentes no ocaso da Idade Média, em meio a conflitos entre Ocidente e Oriente, ao mesmo tempo em que se revela uma ode ao prazer de contar histórias. "Contamos histórias sobre nós essencialmente para entendermo-nos. Elas são o coração do ser", diz o escritor.

Ele encara uma multidão de fãs no lançamento da obra em uma livraria no coração nervoso de Nova York. Vinte anos depois da publicação de "Os Versos Satânicos" e da declaração de fatwa do aiatolá Khomeini, afirmando ser dever de todo muçulmano eliminar o "escritor herege", não deixa de surpreender a falta de policiamento ostensivo no local. Rushdie não parece preocupado. Gripado ou alérgico, trajando um longo sobretudo negro apesar do calor fora de época em plena primavera, lê um trecho do livro passado em meio à histórica Batalha de Chaldiran, em 1514. Pára repetidas vezes, assoa o nariz, mas segue em frente, vitorioso diante do silêncio da platéia. Seus personagens se mesclam a figuras históricas e fica evidente o prazer do historiador formado em Cambridge em revelar de onde retirou determinada informação.

Maquiavel, um dos personagens de "A Encantadora de Florença": "Ao falar sobre alguém que foi tão demonizado em seu tempo, não consegui deixar de ter uma certa simpatia por ele, não é?", diz, bem-humorado, o escritor

Rushdie escreveu esse romance no mesmo momento em que o casamento com a atriz - agora apresentadora de um dos maiores sucessos da TV paga americana, o reality show "Top Chef", do canal Bravo - Padma Lakshmi, de 38 anos, sua quarta mulher, chegava ao fim. Ele já disse que, de certa forma, escrever o livro que começa na Itália renascentista do século XVI e passeia por 50 anos de história na Índia, Pérsia e Turquia, salvou sua vida. Estar naqueles confins perdidos de história era "mais confortável" do que na vida real.

O projeto do livro, porém, é mais antigo. Foram sete anos de estudos revelados em uma bibliografia de mais de 80 títulos. "Tive de fazer uma pesquisa detalhada, por exemplo, sobre o 'Kama Sutra'. O capítulo 4 é um espetáculo, eu recomendo! E há pelo menos outras três narrativas fundadoras do estudo da sexualidade no Oriente. E, neles, exatamente como no 'Kama Sutra', há uma ênfase na preparação, nos cremes, nos preparados. Não posso dizer que eles de fato ajudam na hora do vamos ver, porque não fiz uma pesquisa tão empírica assim, mas todas essas narrativas já são puro realismo mágico", conta, com humor.

Rushdie se diverte ao revelar que, em "A Encantadora de Florença", trechos que os leitores pensarão ser um recurso estético advindo do realismo mágico que ele tanto admira são, de fato, pura história. E vice-versa. Um dos mais saborosos é o da rainha hindu inventada por Akbar, o Grande, o maior dos monarcas do Império Mughal, para a corte muçulmana, tornando-se o primeiro soberano da Índia pré-moderna a valorizar a tolerância religiosa. Rushdie lembra que, na Índia, acredita-se piamente na existência física de tal rainha. Qualquer criança sabe que a mulher de Akbar, o Grande, foi a rainha Jodha, uma figura, entretanto, inexistente nos anais da história.

O título, no entanto, refere-se à lenda da Princesa Desaparecida, Kara Koz, uma nobre mughal que decidira abandonar a Índia para viver com estrangeiros. Quiçá na Toscana renascentista? É um misterioso viajante, vindo das bandas da Itália com ajuda de piratas escoceses, quem traz ao imperador uma solução possível para o mistério da tal "encantadora" (ao mesmo tempo incrivelmente bela e conhecedora de encantamentos mágicos). Em uma trama com nomes e sobrenomes que se confundem mesmo na cabeça do leitor atento, a figura mais bem-construída é a de Akbar. Em seu longo reinado (1556-1605), foi guerreiro incansável e amante da literatura, devoto muçulmano, mas contava no gabinete com seguidores de diversas religiões. Recebeu até jesuítas portugueses (retratados de forma jocosa) na luxuosa capital que construiu para si.

"O livro parte da idéia de que o mundo não mudou. Os homens não estão diferentes. Religião é um negócio tão sangrento quanto há cinco séculos"

Outras figuras históricas surgem na narrativa, incluindo um certo Nicolau Maquiavel. "A Encantadora de Florença" também pode ser lido como uma conversa imaginária entre Maquiavel e Akbar, que, em um intervalo de 50 anos, refletiram sobre variados aspectos do exercício do poder e do bem-fazer público na era dos príncipes. Rushdie revela que almejou recuperar a reputação do italiano. "Maquiavel não estava nem um pouco errado sobre a natureza humana. Ele era um republicano exemplar, um sujeito íntegro que jamais se curvou à corrupção, um homem que foi cruel e direto com os príncipes amorais de seu tempo", afirma. "Sua obra-prima é uma formulação condensada do exercício do poder naquele momento histórico. Ele também era bem-humorado, autor das comédias mais populares da Itália de então. E, ao falar sobre alguém que foi tão demonizado em seu tempo, não consegui deixar de ter uma certa simpatia por ele, não é?", diz, piscando o olho.

Muito alto, com movimentos elegantes, Rushdie transpira o humor e a mágica que povoam seus romances. Quando pensa em Maquiavel, remete tanto à celeuma causada pelos exemplares de "Versos Satânicos" queimados por muçulmanos irados quanto à percepção, por parte do público, de que ele é mais uma personalidade do que um autor de obras fundamentais da literatura contemporânea, como "Os Filhos da Meia-Noite", única a receber duas vezes o prestigioso Booker Prize (em 1981, como livro do ano, e em 1995, como o melhor em 25 anos de premiação).

"Não quero ser um 'talking head', que fala sobre todos os assuntos nos jornais", diz. Mas refuta críticas de que "A Encantadora de Florença" seja seu trabalho mais apolítico. "O livro parte de minha idéia de que o mundo não mudou tanto assim. Os homens não estão tão diferentes. Religião é um negócio tão sangrento quanto o era há cinco séculos. O quão constante é a natureza humana - e aqui incluo também, por favor, todos os aspectos positivos da humanidade - é talvez o tema que mais me interesse. É o que me faz escrever."

Para um homem daquele tamanho e com a história que carrega, seu sorriso manso, suave, quase pedindo licença para ocupar o ambiente, deixa o público intrigado. A imagem de um ser "mais sombrio do que a escuridão", na autodepreciação do escritor, passa longe da personalidade mundana revelada nessa noite quente de Nova York. Aqui ele está mais próximo do dublê de ator bonachão (Rushdie interpreta um ginecologista no primeiro filme dirigido pela atriz Helen Hunt, "The She Found Me", lançado este ano) do que do pomposo cavaleiro da coroa britânica.

"A Encantadora de Florença" teve uma recepção díspar pela crítica especializada dos dois lados do Atlântico. Lançado primeiro na Grã-Bretanha, o livro foi recebido por especialistas como John Sutherland com toda a pompa. No "Financial Times" ele chegou a dizer que "se o Booker Prize não o escolher como melhor livro do ano, vou marinar minha prova com curry e comê-la em um jantar de protesto". Nas terras da rainha, louvou-se este como "o mais novo manifesto de Rushdie pelo poder transformador da narrativa".

Já a inteligência americana, sempre refratrária ao menor traço de melodrama, foi dura. No "New York Times", Michiko Kakutami escreveu que o livro é uma "paródia previsível", em que o melhor de Rushdie - suas analogias políticas em que uma família pode ser a metáfora de uma nação, como em "Os Filhos da Meia-Noite" - é substituído por "ruminações filosóficas sobre o artesanato de escrever ficção e as relações entre arte e vida". Rushdie não segue mais interessado na sugestão de que não houve só um Renascimento, mas dois. E tal peculiaridade histórica pode nos ser deveras útil. Entre as passagens de "A Encantadora de Florença", uma das mais pungentes é quando a rainha Jodha lembra que "os ocidentais são o nosso sonho. E nós, por sua vez, a quimera deles". Impossível não imaginar o sorriso de sir Rushdie ao criar essa fala.

quarta-feira, junho 11, 2008

ENTREVISTA/Liv Tyler

A Contigo! que chegou às bancas hoje publicou minha entrevista com a atriz Liv Tyler, estrela de O Incrível Hulk. Aí vai:

Liv Tyler
A musa de Hulk

Por Eduardo Graça, de Nova York

Não havia aliança no dedo de Liv Tyler, 30 anos, quando ela entrou na suíte do hotel de luxo localizado nas imediações do Central Park, em Nova York, para conversar com os jornalistas da imprensa internacional. Há no ar o temor de uma conversa tensa - afinal, os rumores de que o casamento de cinco anos com o músico inglês Royston Langdom, 36, da banda The Quick, acabou, circulavam nos jornais e revistas americanos. De fato, uma semana depois de dar entrevista para a Contigo!, os pais de Milo, 3 anos, anunciaram a separação.

A tempestade pessoal pela qual passava a bela Liv, uma das estrelas do novo O Incrível Hulk, que estréia sexta-feira (13/6/2008), não transpareceu em nenhum momento da entrevista. Neste novo filme da cinessérie, cujo início retoma o ponto final do primeiro longa, de 2003 - dirigido por Ang Lee e estrelado por Eric Bana, Jennifer Connelly e Nick Nolte -, ela é a doutora Betty Ross, a namorada de Bruce Banner, médico vivido por Edward Norton, 38 - famoso em Hollywood por seu temperamento difícil (desentendimentos com os produtores do filme, sobre aspectos do roteiro, que ele assina junto com Zak Penn, 40, só provam essa sua fama de irascível) -, que busca a cura para a sua raiva radioativa, a princípio, no Brasil. Até que o pai de Betty, o general Ross (papel de William Hurt) resolve caçá-lo e ele acaba voltando aos Estados Unidos.

Filha do roqueiro Steven Tyler, 60, da banda Aerosmith, e de Bebe Buell, 54, uma das primeiras modelos de moda a posar nua para a revista Playboy e que viveu casos com Mick Jagger, 64, e Iggy Pop, 61, entre outros, Liv só soube quem era seu pai de fato quando tinha 11 anos. Três anos depois, ela já estrelava como modelo em Nova York e, cerca de seis anos adiante, em uma série de filmes que lhe renderam milhares de fãs tanto por seu talento quanto por sua beleza - como esquecer a Lucy de Beleza Roubada (1996) ou a princesa Arwen da trilogia O Senhor dos Anéis (2001/2002/2003)?

Muito bem-humorada, apesar do fim de seu casamento, ela fez questão de anunciar sua admiração pela brasileira Débora Nascimento, 22, a Andréia Bijou da novela Duas Caras (Globo), que está no elenco do filme. Generosa, a atriz, eleita sucessivas vezes umas das mais belas faces do mundo pela revista People, saiu-se com essa quando descobriu que o repórter era brasileiro: ''Eu entrava no meu trailer, via a foto dela (Débora) no filme, saía e dizia para todo mundo: 'Isso é que é mulher bonita, hein? Lin-da!'. Fiquei fazendo isso por dias a fio''. A seguir, trechos de sua entrevista para a Contigo!.

- Nossa, que barato o seu gravador de iPod!

- Pois é, ele anda fazendo um certo sucesso em Hollywood. Acho que vou pedir para o Steve Jobs (o gênio por trás da Apple) uma verba pela propaganda gratuita que eu e a Contigo! temos feito do produto dele com as celebridades!
- (rindo muito) Sabe que o meu pai (o roqueiro Steven Tyler, do Aerosmith) me deu um gravador digital mas ainda não aprendi a usar? Ainda estou na fase do velho toca-fitas. Eu adoro fitas e não ligo de vê-las empilhadas, com um monte de rabiscos meus. Também adoro ver um CD na minha frente, com aquela imagem, aquele desenho, que me diz do que se trata. Como vou saber naquele abismo de MP3 o que de fato eu quero ouvir hoje?

- Sendo filha de quem é, deve ter passado uma fase gravando coletâneas de fitas das suas bandas preferidas, não?
- Claaaaaaaro que sim! Ainda guardo algumas daquelas mixtapes. Tem muito Led Zeppelin, Sonic Youth e Iggy Pop, meus favoritos. Atualmente, ando obcecada pelo Gram Parsons, já era fã dele na adolescência, mas agora estou ainda mais. Também gosto muito, muito, muito de Kings of Leon e The Kills. E adoro aquela coisa cool, bem anos 70, do Devendra Banhart. Ouço tudo em aparelhos de som que tenho no banheiro e na cozinha!

- Som no banheiro e na cozinha? Isso é coisa de quem tem filho pequeno, não é?
- É verdade. Quase sempre me pego fazendo alguma coisa com o Milo enquanto ouço rock clássico no rádio mesmo, sabe? Por isso o CD-player fica no banheiro, onde eu consigo ouvir música e dançar debaixo do chuveiro. Milo adora dançar comigo! Mas ele já tem gostos bem definidos, mesmo aos 3 anos! Outro dia, coloquei uma música dos Ramones e ele teve o topete de me pedir para trocar de faixa imediatamente (risos)! É engraçado, porque ele ama Sex Pistols (mais risos). E, como você pode imaginar, o que mais ouço em fitas cassetes são historinhas de criança. Ele ama! O sonho da minha vida, de toda a minha vida, era ter um filho. Nunca tive um sonho específico sobre carreira, por exemplo.

- E você deve ter vivido uma infância daquelas, eu imagino...
- Muito excêntrica, né? Sim! Boa parte dela foi recheada de fantasia. Da fantasia, inclusive, de ter um filho. Então a experiência da maternidade foi tudo o que eu imaginava e ainda mais. É o trabalho mais difícil da face da Terra, mas o mais recompensador também. Me sinto sortuda e maravilhosa por ter encontrado meu pequeno parceiro de crimes (risos). É uma bênção.

- Você acha que a maneira pouco convencional como foi criada fez com que você se tornasse uma mãe um pouco mais conservadora?
- Bem, minha vida exige muita flexibilidade, como você pode imaginar. Mas eu diria que o mais importante para mim, hoje, é que Milo saiba que eu sempre estarei ao lado dele. Ele é a prioridade da minha vida. Nós vivemos um pouco como ciganos, tem filmagem em Toronto, nos mudamos pra lá por três meses. Voltamos um pouco para casa, em Nova York, e embarcamos de novo para o mundo. Quando Milo vê um trailer na rua, ele aponta, todo animado, e diz: Olha lá a casa da mamãe (risos). Sei que isso vai mudar quando ele estiver mais crescido, mas, por hora, gosto de olhá-lo nos olhos o máximo possível e ter a certeza de que ele está sendo ouvido. Sempre.

- Você gostaria de ter mais um filho em breve?
- Adoro ser mãe, mas, olha, Milo tem toda a minha dedicação agora e estou cada vez mais apaixonada pelo meu trabalho. Humm... Nunca entendi esta coisa de planejar filhos. Gravidez é um estado milagroso, se vier, vou amar.
- Sua vida romântica mudou com a chegada de Milo?
- Sim, claro! Não há muito romance quando chega um filho. Você está tão apaixonada por seu filho e ao mesmo tempo não tem muito tempo nem para dormir nem para ficar com seu marido. É um período de transição, creio, pelo qual todo casal passa. Tenho uma faxineira duas vezes por semana, mas adoro cozinhar. Sou eu quem lava os pratos e, aqui e ali, coloco a roupa toda para lavar, com Milo me ajudando. Não estou querendo dizer que sou Cinderela, mas nunca gostei de ter um bando de gente me ajudando o tempo todo, sabe? Gosto de ser protagonista de minha própria vida, gosto de saber que estou no controle.

- Diz a lenda que é especialmente difícil criar uma criança em Nova York...
- É que tudo é muito, muito caro. É preciso ter algum dinheiro para se viver aqui hoje em dia com família. Por outro lado, você tem os mercados mais sensacionais na sua rua, parques e playgrounds em cada esquina, portanto é bem conveniente também. Tento passar o máximo de tempo com ele. E sou sortuda: ele é um anjo! Não é uma criança egoísta, mas é independente. Ele não fica atrás de mim o tempo todo e já gosta de sua privacidade. Vejo outras crianças chamando mamãe, mamãe o tempo todo e ele, não. Às vezes, fico pensando se seria bom ele ser um pouco mais grudado na barra da minha saia (risos)! De qualquer modo, estou sempre viajando, por conta das filmagens, com Milo. Ele fica todo feliz, afinal, nesta idade ainda está com os horários mais flexíveis.

- Mas vocês não acompanharam o Edward Norton nas filmagens no Brasil, né?
- Nem me fale! Eu já era conhecida pelos roteiristas como uma ''mala'' pois vivia pedindo para eles criarem alguma situação qualquer para eu ir ao Brasil (risos). Bolei até uma seqüência de sonho em que eu passava um bom tempo deitada nas areias de Ipanema, no Rio, mas por alguma razão muito estranha eles não se comoveram (ri muito)! Mas eu preciso dizer uma coisa sobre o Brasil...

- Ai... fale então!
- Não é nada ruim, não! Ao contrário! É que eu fiquei completamente fascinada pela beleza da atriz, muito jovem, que está no nosso filme e faz a amiga brasileira de Bruce Banner...

- A Débora Nascimento?
- Eu literalmente não consigo olhar para a foto dela sem cair para trás. É insano! Escreva o que eu digo: ela será uma estrela. Uma sensação, da noite para o dia! Ela é tão linda! E nas fotos do filme, ela estava toda molhada de suor, com aqueles lábios e seios! Gente, esta mulher é poderosa! Ela é de uma beleza fenomenal.

- Mas você, com todo o respeito, também é fenomenal...
- Não! Não! Ela é fenomenal em um outro nível! Eu passava pela foto dela no trailer e não conseguia parar de pensar: mas quem é esta pessoa? E como é que, no mundo real, o Bruce Banner voltaria para mim e deixaria ela lá no Brasil? No way (risos)! Ele deveria fugir com a brasileira!

- Você agora vai dizer também que não tem nenhum cuidado especial com sua beleza...
- Sigo uma rotina que aprendi desde menina. Lavo sempre que posso o rosto, por exemplo! E minha avó, minha mãe e meu pai são bem vaidosos. Colocar creme no rosto e no corpo e passar fio-dental depois de todas as refeições eram normas da casa. Diariamente, coloco máscaras de beleza no rosto, tenho todo um armário cheio de produtos que adoro, mas eles já não são mais especiais, sabe? São rotina. E adoro correr para manter o peso ideal. Tenho um personal trainer e adoro malhar.

- Você deve ter usado essa sua malhação um pouco no filme, não? Vi o trailer e você corre para todos os lados...
- Foi o filme que mais me exigiu fisicamente em toda a carreira. O Incrível Hulk é um longa de ação, com um monte de explosões e cenas duras de se fazer. Meu make-up era sempre às 4h da madrugada e eu pensava, ainda bem que eu tenho 30 anos (risos)!. E foi feliz também ter descoberto, depois de ter tido meu filho, uma força nova dentro de mim. É como se agora eu fosse mais forte. Usei isso no filme também. Odeio quando vejo um filme de ação e a heroína sempre está impecavelmente linda, caindo de um helicóptero com o cabelo escovado e batom impecável. Não dá, né? Neste filme, abolimos isso. Apareço bem suada, cansada, com as pernas bambas de cãibra. E adorei!

segunda-feira, junho 09, 2008

Radiohead/Portishead

Ó só o que se ouve por aqui. A linda versão - feita no backstage do show do Radiohead neste finde em Dublin - da linda The Rip, do meu amado Portishead (o álbum dos moços tá ali do lado Na Vitrola). 

domingo, junho 08, 2008

Eu Tinha Um Sonho/CARTA CAPITAL


A Carta Capital desta semana saiu com meu texto sobre a confirmação de Barack Obama como o candidato democrata à presidência dos EUA. Ó só:

Eu tinha um sonho
Eduardo Graça, de Nova York

Depois de mais de um ano de disputa interna, o senador Barack Obama, de 46 anos, é o primeiro político negro escolhido por um partido majoritário para disputar as eleições à Presidência dos Estados Unidos. Ao conseguir, na terça-feira 3, os delegados necessários para se tornar o candidato do Partido Democrata à Casa Branca, Obama fez história e ofereceu aos eleitores norte-americanos a possibilidade de votar, pela primeira vez em 16 anos, em dois presidenciáveis que não carregam os sobrenomes Bush ou Clinton. Seu adversário é o também senador John McCain, de 71 anos. “Esta noite marca o fim de uma jornada histórica e o começo de outra, que trará dias melhores para a América. Hoje, posso afirmar a vocês que eu serei o candidato do Partido Democrata à Presidência”, disse Obama, em um discurso emocionado para milhares de militantes na cidade de Saint Paul, em Minneapolis.

Na manhã seguinte, enquanto subia as escadas do Capitólio, o deputado negro John Lewis, da Geórgia, viu-se abordado pelo turista Larry Ellery, que lhe perguntou o que Martin Luther King diria daquela noite memorável. Lewis, um destacado líder estudantil nos anos 60, é o único palestrante vivo do evento em que o reverendo pronunciou seu famoso discurso “Eu Tenho Um Sonho”, há quatro décadas. “Ele teria ficado muito, muito, satisfeito”, respondeu o deputado. “E provavelmente teria dito Aleluia!” A convenção do Partido Democrata, que oficializará a candidatura de Obama, está marcada para 28 de agosto, exatos 45 anos após o discurso de Luther King e 55 depois do assassinato do adolescente Emmett Till no Mississippi, fato que desencadeou a grande campanha pelos direitos civis, responsável por mudar para sempre a política norte-americana. No Congresso, muitos parlamentares negros choravam de emoção e repetiam, atônitos, que, no fim das contas, jamais haviam imaginado que este dia chegaria. Alguns lembraram que quando Obama nasceu, em 1961, um filho mestiço de pai do Quênia e mãe do Kansas dificilmente conseguiria votar no Sul segregacionista. Foi em outro estado do Sul, a Virgínia, que o senador de Illinois comemorou a vitória, explicitando sua vontade de brigar por votos de estados da parte meridional do país, que há mais de meio século se alinham religiosamente com os republicanos. Essas regiões se transformaram em um campo de batalha por conta da animação da militância negra, que representa cerca de um quarto do eleitorado em alguns estados da área mais conservadora.

Do outro lado do campo democrata, Hillary Clinton resistiu até onde pôde. Em meio ao carnaval dos “obamaníacos”, a ex-primeira-dama lembrou que ela também conduzira uma campanha memorável. Era, afinal, a primeira mulher a ter uma oportunidade real de se tornar presidente dos EUA. Quando Obama já havia conseguido a maioria dos votos dos delegados democratas, ela comemorava o fim das primárias em Nova York. Seus partidários, concentrados no Baruch College, não tinham, providencialmente, acesso a celulares ou a aparelhos de tevê. Portando faixas com os dizeres “ou Hillary ou ninguém mais”, muitos ainda vibravam com o anúncio, feito pelo coordenador-geral da campanha, de que o próximo discurso do dia seria “da futura presidente dos EUA”. Hillary foi aclamada aos gritos de “Denver! Denver!”, referência à cidade do Colorado que sediará a convenção democrata. Clinton procurava ganhar mais tempo, valorizando os 18 milhões de votos angariados na campanha e a maioria absoluta de eleitores brancos, de classes mais baixas e do sexo feminino. Mas, na manhã da quarta-feira 4, 23 deputados e oito senadores de seu grupo mais próximo avisaram à senadora que iriam anunciar o apoio a Obama em nome da unidade do partido, com ou sem ela. A pré-candidata decidiu então convocar seus militantes para um evento no sábado 7, em Washington, com o objetivo de anunciar o apoio oficial ao adversário. Não sem antes dizer, por meio de partidários fiéis, que aceitaria ser vice-presidente se Obama a convidasse. Na mesa de negociação entre as duas estrelas democratas, estará também o imenso buraco financeiro de sua campanha. De acordo com colaboradores próximos da ex-primeira-dama, as dívidas chegam a 23 milhões de dólares. O bolso milionário dos Clinton teria injetado 11 milhões de dólares na campanha a título de “empréstimo”.

Em sua primeira entrevista sobre o tema, na quarta-feira 4, para a rede NBC, Obama saiu pela tangente. Disse que ainda é cedo para decidir sobre seu vice e que, de qualquer modo, “Hillary não espera que eu decida isso nos próximos dias”. Assessores do senador lembram que o ícone histórico de Obama sempre foi Abraham Lincoln. Uma das virtudes que ele mais admira no presidente que venceu a Guerra Civil foi a capacidade de indicar para seu gabinete alguns de seus opositores políticos mais ferrenhos. “Lincoln deixou de lado todos os atritos pessoais e se concentrou na seguinte questão: como sairemos desta crise em que vive o país? Este é exatamente o meu sentimento agora”, disse Obama aos assessores. Sua idéia seria a de convocar ao governo os adversários na primária democrata John Edwards, Joe Biden e Hillary Clinton, respectivamente como secretário de Justiça, secretário de Estado e titular de uma pasta que englobasse Saúde e Projetos Sociais. A senhora Clinton poderia deslanchar seu plano mais ambicioso, o de reformar o sistema de saúde pública.

Seria o bastante para garantir os votos de Hillary para o novo indicado? Uma pesquisa do Pew Research Institute realizada no fim de maio mostra que 8% das democratas em todo o país não votam em Obama de jeito nenhum. Foi para esse público que o senador John McCain centrou seu mais forte – e raivoso – discurso até agora em uma tentativa de diminuir a festa democrata. Depois de um elogio à “minha amiga Hillary Clinton, que não tem sido tratada como deveria”, o republicano lembrou que, ao contrário de Obama, “não busco a Presidência na presunção de que fui abençoado com tal grandeza pessoal que a História me escolheu para salvar o país em uma hora de necessidade”. A mensagem era referência ao suposto elitismo de Obama.

As duas pesquisas realizadas logo após o anúncio de que Obama vencera as prévias democratas mostram que a briga será feia: o senador tem entre 42% e 46% dos votos segundo a CBS e de 45% a 47% (configurando empate técnico) na apuração da CNN. O primeiro debate entre Obama e McCain deve acontecer em 12 de junho, em Nova York. Peter Hart, estrategista do Partido Democrata, usa uma analogia interessante para definir o momento político: “Metade do eleitorado hoje celebra, feliz, ‘sim, nós podemos’. A outra metade, incluindo boa parte dos independentes e indecisos, pergunta, atônita: ‘Mas, afinal, quem é este sujeito?’ E muitos deles estão descobrindo a resposta por meio dos sermões de Jeremiah Wright”, diz, em uma referência ao pastor radical de Chicago que foi o mentor espiritual do senador democrata.

Apesar de Obama ter-se desligado oficialmente da congregação de Wright nesta semana, estrategistas conservadores e liberais concordam que a grande questão de 2008 é saber se na boca-de-urna de novembro o fato de Barack Obama ser negro será fonte de júbilo como foi nesta semana. McCain prometeu não se aproveitar do preconceito racial na campanha. Mas em uma disputa tão acirrada e com os republicanos temendo sofrer uma derrota de proporções gigantescas, as dúvidas sobre os métodos utilizados pelos dois lados nos próximos meses aumentaram estupidamente.

terça-feira, junho 03, 2008

Sex&the City/Sarah Jessica Parker

A revista Monet, na edição deste mês, publicou o perfil que escrevi de Sarah Jessica Parker, a Carrie Bradshaw de Sex&The City. O filme, que chega aos cinemas brasileiros na sexta-feira, derrubou Indiana Jones do posto de primeiro lugar nos cinemas norte-americanos neste fim de semana, com uma bilheteria de US$ 55,7 milhões. Trata-se da maior bilheteria de um filme protagonizado por um mulher em toda a história de Hollywood. Obviamente já se fala por aqui de uma seqüência no ano que vem.

O perfil, na íntegra:

O Poder da Marca
Eduardo Graça, de Nova York, para a Monet

SJP. Parece nome de código de aeroporto. Ou de spray desodorante. É, sim, uma marca. E das mais poderosas do mundo do entretenimento. Sarah Jessica Parker – ou SJP, como preferem público e mídia norte-americanos – é, aos 43 anos, um dos rostos mais reconhecidos dos EUA. Quando Sex & the City, o filme, chegar aos cinemas brasileiros, no dia 6 de junho, milhares de curiosos estarão tão interessados em saber o que acontece com Carrie Bradshaw, Mr.Big, Miranda Hobbes, Samatha Jones e Charlotte York Rosenblatt, quanto no que os personagens estarão vestindo. Não por acaso o que primeiro chama a atenção no bate-papo com SJP na suíte de um hotel de luxo de frente para o Central Park é o cinto da atriz. Vermelhíssimo, imenso. “É vintage Yves-Saint Laurent. Mas seu leitores vão pensar que eu gosto mais de moda do que de atuar, o que não é verdade!”, ela protesta, com um sorriso calmo antes de morder os lábios tal qual Carrie em um de seus momentos mais indefesos. Não há quem resista.

Pequenina, com imensos olhos azuis e nariz pronunciado, SJP parece ser uma daquelas mulheres que sabem exatamente o tamanho de seu poder e estão focadas em exercê-lo de maneira sábia. A tarefa não é das mais fáceis. As seis temporadas da série de televisão (vencedora de oito Globos de Ouro e sete Emmys) reativaram sua carreira em Hollywood (ela protagonizou os sucessos de público, embora não de crítica, Tudo em Família e Armações do Amor) e a transformaram em garota-propaganda da Gap. Sem esquecer da oportunidade de criar sua própria linha de perfumes e uma grife de roupas famosa tanto pela qualidade quanto pelos preços baixos. Agora ela se prepara para emprestar sua face a um shopping center de São Paulo. Nos EUA, já há quem fale do ‘Sarah Jessica Parker Mall’ brasileiro. Quando escuta a heresia a atriz gargalha com vontade. “Não! Não! O nome do local é Ci-da-de Jar-dim”, diz, em português impecável.

Quando sua pronúncia é elogiada ela revela ter grandes amigos brasileiros. “Mas ainda não consegui passar muito do muito obrigado, é tão difícil! E preciso aprender mais, pois vocês, brasileiros, são gentilíssimos, agradáveis ao extremo, fica difícil dizer não. No caso do Cidade Jardim, resisti muito até concordar em participar, de alguma forma, do projeto. Mas é assim que a gente consegue negociar e produzir filmes independentes, que não são bancados por grandes estúdios. Abrindo portas em outros mercados, estabelecendo parcerias com gente legal”, conta a atriz, que emprega na casa do West Village duas babás brasileiras. Seu filho James, 5 anos, de acordo com o pai coruja, o ator Matthew Broderick, é famoso na vizinhança por falar inglês com perfeito sotaque brasileiro.

SJP é caseira, odeia badalações e cultiva o saudável hábito de fazer graça de si mesma. Uma das cenas mais engraçadas de Sex & the City acontece quando as quatro amigas resolvem recordar os velhos tempos e saem para tomar aquele que era seu drinque favorito – o Cosmopolitan. Em determinado momento elas começam a refletir por que haviam parado de beber seus Cosmos. “Porque todo mundo parou, né, gente?”, dispara Sarah, ou melhor, Carrie.

Para quem acompanhou as andanças de Miss Bradshaw pelo concreto de Manhattan, fica difícil separar a personagem da atriz. Uma sensação que, aliás, não se restringe a SJP. Kristin Davis chega na suíte nas pontas do pés, andando em pulinhos exatamente como Charlotte em seus momentos mais enervantes. Cynthia Nixon é objetiva como sua Miranda. “Andaram dizendo que eu iria me casar com minha namorada no fim do ano. Acho ótimo poder desmentir isso. Assim posso mencionar que não, em Nova Iorque, nós, homossexuais, não temos o direito de nos casar. Ah, se eu pudesse!”, diz, com um sorriso desconcertante. Apenas Kim Catrall, a Samantha, parece mais uma senhora elegante de 50 anos do que a esfuziante predadora da série da HBO. Foram suas exigências – de um cachê maior e de maior controle criativo sobre sua personagem – que reportadamente levaram o filme (gestado por SJP desde o fim da série) a demorar quatro anos para sair do forno. Coincidentemente, Samantha é o membro do quarteto que tem um final mais singular na nova trama, destoante das outras três ‘meninas’.

O foco principal, claro, é em Carrie, que se vê novamente às voltas com as idiossincrasias de Mr.Big. Desta vez, ele parece ter se superado, criando tamanho trauma que obriga as meninas a uma viagem de recuperação, no distante México. Na volta à cidade querida, a jornalista contrata uma assistente vivida pela dreamgirl Jennifer Hudson. Vencedora do Oscar de melhor atriz-coadjuvante em sua estréia no cinema, Hudson diz que SJP se transformou em uma espécie de ‘mentora’ para ela. “Quando cheguei no set, ela, que é uma figuraça, vivia me pedindo para eu cantar o tempo todo. Até que um dia tomei coragem e disse que não, eu não era uma jukebox, e nos acabamos de tanto rir”, diz.

O segredo por detrás da mística de SJP parece vir mesmo de sua capacidade de interagir com seu interlocutor, com seu público, com o outro. É este também o tema central do filme: encontrar na capacidade de se perdoar o parceiro o significado exato do ato amoroso. Chris Noth, que vive Mr. Big, diz que o filme é quase uma extensão de sua amiga SJP: “Quando a gente se conheceu, na leitura dos textos no primeiro ano da série, comecei a balbuciar as músicas de Sweeney Todd entre um intervalo e outro. Sou fã de Sonsheim e Sarah, que é uma primorosa atriz de musicais, me acompanhou de primeira. Foi conexão imediata! Eu a chamo carinhosamente de ‘meu pequeno verme’. E costumo dizer que ela é o meu céu azul e límpido. É que ela diz que sou um rio turbulento e escuro. Eu concordo, e ela vai me ajudando a clarear as águas enquanto o dia passa. Ela sabe, como poucos, exatamente quem eu sou. É isso: SJP tem este dom de te decifrar”.

Bo Diddley

Lá se foi Bo Diddley, o xerife da música popular norte-americana. Um dos criadores do que chamamos de rock'n'roll, Diddley foi a trilha musical de muitas tardes deliciosas que passamos, Will e eu, trabalhando em nosso estúdio na Almirante Tamandaré, no Flamengo. Volta e meia ele entrava em nossa seleção musical - sempre gostamos de trabalhar juntos e ouvindo música sem parar - com sua batida de guitarra única. O NYT deu hoje em primeira-página um de seus mais belos necrológios, que reproduzo aqui embaixo enquanto cozinho um galeto ao alecrim com batatas ao forno e escuto Bo Diddley is a Gunslinger no último volume.

Bo Diddley, Who Gave Rock His Beat, Dies at 79
By BEN RATLIFF

Bo Diddley, a singer and guitarist who invented his own name, his own guitars, his own beat and, with a handful of other musical pioneers, rock ’n’ roll itself, died Monday at his home in Archer, Fla. He was 79.
The cause was heart failure, a spokeswoman, Susan Clary, said.

Mr. Diddley had a heart attack last August, only months after suffering a stroke while touring in Iowa.
In the 1950s, as a founder of rock ’n’ roll, Mr. Diddley — along with Chuck Berry, Little Richard, Jerry Lee Lewis and a few others — helped to reshape the sound of popular music worldwide, building on the templates of blues, Southern gospel, R&B and postwar black American vernacular culture. His original style of rhythm and blues influenced generations of musicians. And his Bo Diddley syncopated beat — three strokes/rest/two strokes — became a stock rhythm of rock ’n’ roll. It can be found in Buddy Holly’s “Not Fade Away,” Johnny Otis’s “Willie and the Hand Jive,” the Who’s “Magic Bus,” Bruce Springsteen’s “She’s the One” and U2’s “Desire,” among hundreds of other songs. Yet the rhythm was only one element of his best records.

In songs like “Bo Diddley,” “Who Do You Love,” “Mona,” “Crackin’ Up,” “Say, Man,” “Ride On Josephine” and “Road Runner,” his booming voice was loaded up with echo and his guitar work came with distortion and a novel bubbling tremolo.

The songs were knowing, wisecracking and full of slang, mother wit and sexual cockiness. They were both playful and radical.
So were his live performances: trancelike ruckuses instigated by a large man with a strange-looking guitar.

It was square and he designed it himself, long before custom guitar shapes became commonplace in rock.
Mr. Diddley was a wild performer: jumping, lurching, balancing on his toes and shaking his knees as he wrestled with his instrument, sometimes playing it above his head. Elvis Presley, it has long been supposed, borrowed from Mr. Diddley’s stage moves; Jimi Hendrix, too.

Still, for all his fame, Mr. Diddley felt that his standing as a father of rock ’n’ roll was never properly acknowledged. It frustrated him that he could never earn royalties from the songs of others who had borrowed his beat.
“I opened the door for a lot of people, and they just ran through and left me holding the knob,” he told The New York Times in 2003.

He was a hero to those who had learned from him, including the Rolling Stones and the Beatles. A generation later, he became a model of originality to punk or post-punk bands like the Clash and the Fall. In 1979 Joe Strummer and Paul Simonon of the Clash asked that Mr. Diddley open for them on the band’s first American tour. “I can’t look at him without my mouth falling open,” Mr. Strummer, star-struck, said during the tour.

For his part Mr. Diddley had no misgivings about facing a skeptical audience. “You cannot say what people are gonna like or not gonna like,” he explained later to the biographer George R. White. “You have to stick it out there and find out! If they taste it, and they like the way it tastes, you can bet they’ll eat some of it!”
Mr. Diddley was born Otha Ellas Bates in McComb, Miss., a small city about 15 miles from the Louisiana border.

He was reared primarily by Gussie McDaniel, the first cousin of his mother, Esther Wilson. After the death of her husband, Ms. McDaniel, who had three children of her own, took the family to Chicago, where young Otha’s name was changed to Ellas B. McDaniel. Gussie McDaniel became his legal guardian and sent him to school.
He was 6 when the family resettled on Chicago’s South Side.

He described his youth as one of school, church, trouble with street toughs and playing the violin for both band and orchestra, under the tutelage of O. W. Frederick, a prominent music teacher at the Ebenezer Baptist Church, where Gussie McDaniel taught Sunday school. Ellas studied classical violin from 7 to 15 and started on guitar at 12, when a family member gave him an acoustic model.
He then enrolled at Foster Vocational School, where he built a guitar as well as a violin and an upright bass. But he dropped out before graduating. Instead, with guitar in hand, he began performing in a duo with his friend Roosevelt Jackson, who played the washtub bass.

The group became a trio when they added another guitarist, Jody Williams, then a quartet when they added a harmonica player, Billy Boy Arnold.
The band, first called the Hipsters and then the Langley Avenue Jive Cats, started playing at the Maxwell Street open-air market. They were sometimes joined by another friend, Samuel Daniel, known as Sandman because of the shuffling rhythms he made with his feet on a wooden board sprinkled with sand.

Mr. Diddley could not make a living playing with the Jive Cats in the early days, so he found jobs where he could: at a grocery store, a picture-frame factory, a blacktop company. He worked as an elevator operator and a meat packer. He also started boxing, hoping to turn professional.
In 1954 Mr. Diddley made a demonstration recording with his band, which now included Jerome Green on maracas. Phil and Leonard Chess of Chess Records liked the demo, especially Mr. Diddley’s tremolo on the guitar, a sound that seemed to slosh around like water. They saw it as a promising novelty and encouraged the group to return. By Billy Boy Arnold’s account, the next day, as the band and the men who were soon to be their producers were setting up for a rehearsal, they were idly casting about for a stage name for Ellas McDaniel when Mr. Arnold thought of Bo Diddley.

The name described a “bow-legged guy, a comical-looking guy,” Mr. Arnold said, as quoted by Mr. White in his 1995 biography, “Bo Diddley: Living Legend.”
That may be all there is to tell about the name, except for the fact that a certain one-string guitar — native to the Mississippi Delta, often homemade, in which a length of wire is stretched between two nails in a board — is called a diddley bow. By his account, however, Mr. Diddley had never played one. In any case, Otha Ellas McDaniel had a new name and the title of a new song, whose lyrics began, “Bo Diddley bought his babe a diamond ring.” “Bo Diddley” became the A side of his first single, in 1955, on the Checker label, a subsidiary of Chess. It reached No. 2 on the Billboard singles chart. Mr. Diddley said he had first heard the “Bo Diddley beat” — three-stroke/rest/two-stroke, or bomp-ba-domp-ba-domp, ba-domp-domp — in a church in Chicago.

But variations of it were in the air. The children’s game hambone used a similar rhythm, and so did the ditty that goes “shave and a haircut, two bits.”
The beat is also related to the Afro-Cuban clave, which had been popularized at the time by the New Orleans mambo carnival song “Jock-A-Mo,” recorded by Sugar Boy Crawford in 1953. Whatever the source, Mr. Diddley felt the beat’s power. In early songs like “Bo Diddley” and “Pretty Thing,” he arranged the rhythm for tom-toms, guitar, maracas and voice, with no cymbals and no bass. (Also arranged in his signature rhythm was the eerie “Mona,” a song of praise he wrote for a 45-year-old exotic dancer who worked at the Flame Show Bar in Detroit; this song became the template for Buddy Holly’s “Not Fade Away.”)

Appearing on “The Ed Sullivan Show” in 1955, Mr. Diddley was asked to play “Sixteen Tons,” the song popularized by Tennessee Ernie Ford. Without telling Mr. Sullivan, he played “Bo Diddley” instead. Afterward, in an off-camera confrontation, Mr. Sullivan told him that he would never work in television again. Mr. Diddley did not play again on a network show for 10 years. For decades Mr. Diddley was bitter about his relationship with the Chess family, whom he accused of withholding money owed to him. In her book “Spinning Blues Into Gold,” Nadine Cohodas quoted Marshall Chess, Leonard’s son, as saying, “What’s missing from Bo’s version of events is all the gimmes.” Mr. Diddley would borrow so heavily against projected royalties, Mr. Chess said, that not much was left over in the final accounting.

Mr. Diddley’s watery tremolo effect, from 1955 onward, came from one of the first effects boxes to be manufactured for guitars: the DeArmond Model 60 Tremolo Control. But Mr. Diddley contended that he had already built something similar himself, with automobile parts and an alarm-clock spring.
His first trademark guitar was also handmade: he took the neck and the circuitry off a Gretsch guitar and connected it to a square body he had built. In 1958 he asked Gretsch to make him a better one to the same specifications. Gretsch made it as a limited-edition guitar called “Big B.”

On songs like “Who Do You Love,” his guitar style — bright chicken-scratch rhythm patterns on a few strings at a time — was an extension of his early violin playing, he said.
“My technique comes from bowing the violin, that fast wrist action,” he told Mr. White, explaining that his fingers were too big to move around easily. Rather than fingering the fretboard, Mr. Diddley said, he tuned the guitar to an open E and moved a single finger up and down to create chords.

As his fame rose, his personal life grew complicated. His first marriage, at 18, to Louise Woolingham, lasted less than a year. His second marriage, in 1949, to Ethel Smith, unraveled in the late 1950s. He then moved from Chicago to Washington, settling in the Mount Pleasant district, where he built a studio in his home.
Separated from his wife, he was performing in Birmingham, Ala., when, backstage, he met a young door-to-door magazine saleswoman named Kay Reynolds, a fan, who was 15 and white. They moved in together in short order and were soon married, in spite of Southern taboos against intermarriage.

During the late 1950s Mr. Diddley’s band featured a female guitarist, Peggy Jones (stage-named Lady Bo), at a time when there were scarcely any women in rock. She was replaced by Norma-Jean Wofford, whom Mr. Diddley called the Duchess. He pretended she was his sister, he said, to be in a better position to protect her on the road.


The early 1960s were low times. Chess, searching for a hit, had Mr. Diddley make albums to capitalize on the twist dance craze, as Chubby Checker had done, and on the surf music of the Beach Boys. But soon a foreign market for his earlier music began to grow, thanks in large part to the Rolling Stones, a newly popular band that was regularly playing several of his songs in its concerts. It paved the way for Mr. Diddley’s successful tour of Britain in the fall of 1963, performing with the Everly Brothers, Little Richard and the Rolling Stones, the opening act.
But Mr. Diddley was not willing to move to Europe, and in America the picture worsened: the Beatles, the Stones, Bob Dylan and the Byrds quickly made him sound quaint. When work all but dried up, Mr. Diddley moved to New Mexico in the early 1970s and became a deputy sheriff in the town of Los Lunas.

With his sound updated to resemble hard rock and soul, he continued to make albums for Chess until his contract expired in 1974.
His recording career never picked up after that, despite flirtations with synthesizers, religious rock and hip-hop. But he continued apace as a performer and public figure, popping up in places both obvious, like rock ’n’ roll nostalgia revues, and not so obvious: a Nike advertisement, the film “Trading Places” with Eddie Murphy, the 1979 tour with the Clash, and inaugural balls for two presidents, George H. W. Bush and Bill Clinton.

His last recording was the 1996 album “A Man Amongst Men” (Code Blue/Atlantic), which was nominated for a Grammy. He was inducted into the Rock and Roll Hall of Fame in 1987 and in 1998 was inducted into the National Academy of Recording Arts and Sciences Hall of Fame as a musician of lasting historical importance.
Since the early 1980s Mr. Diddley had lived in Archer, Fla., near Gainesville, where he owned 76 acres and a recording studio. His passions were fishing and old cars, including a 1969 purple Cadillac hearse.

The last of Mr. Diddley’s marriages was to Sylvia Paiz, in 1992; his spokeswoman, Ms. Clary, said they were no longer married. His survivors include his children, Evelyn Kelly, Ellas A. McDaniel, Tammi D. McDaniel and Terri Lynn McDaniel; a brother, the Rev. Kenneth Haynes; and 15 grandchildren, 15 great-grandchildren and three great-great-grandchildren.
Mr. Diddley attributed his longevity to abstinence from drugs and drinking, but in recent years he had suffered from diabetes. After a concert in Council Bluffs, Iowa, on May 13, 2007, he had a stroke and was taken to Creighton University Medical Center in Omaha. On Aug. 28 he suffered a heart attack in Gainesville and was hospitalized. Mr. Diddley always believed that he and Chuck Berry had started rock ’n’ roll, and the fact that he couldn’t financially reap all that he had sowed made him a deeply suspicious man. “I tell musicians, ‘Don’t trust nobody but your mama,’ ” he said in an interview with Rolling Stone magazine in 2005. “And even then, look at her real good.”

Gente Nervosinha

Esta é uma homenagem aos que acompanham, como eu, por força da profissão, o jornalismo televisivo norte-americano. O compêndio de ataques nervosos - à direita e à esquerda do monitor - é hilário. E dá uma pista do nível do tele-jornalismo diário (há muitas exceções, claro) por aqui.

segunda-feira, junho 02, 2008

Como Se Perde Uma Eleição

A Vanity Fair de julho - que chega nesta sexta-feira na casa dos assinantes e em mais alguns dias nas bancas de todo o país - traz uma bombástica reportagem assinada por Todd Purdum, que durante anos comandou o escritório do NYT em Los Angeles e, não por acaso, é casado com Dee Dee Myers, ex-assessora de imprensa de Bill Clinton. A reportagem - com aspas de um punhado de assessores dos dois Clinton - conta como o 'cavernoso narcisismo' do ex-presidente ajudou a candidatura Obama decolar.

De acordo com a revista, o senador Ted Kennedy, por exemplo, não agüentava mais as pressões nada discretas de Hllary e Bill para que ele anunciasse seu apoio às aspirações presidenciais da senadora de Nova Iorque. Quando Bill percebeu a hesitação do 'leão de Massachusetts', inciou, de forma insistente, debates sobre o 'quão ruim' Obama era como candidato. A tática teria feito com que Ted Kennedy anunciasse ainda mais rapidamente seu apoio público a Obama.

Alguns assessores de Bill Clinton contam na reportagem que dois amigos, o bilionário playboy Ron Burkle e o produtor de Hollywood Steve Bing, são as piores companhias do ex-presidente, levando-o para festas mais do que suspeitas. Há um ano e meio alguns assessores tentaram comandar uma 'intervenção' para evitar que o presidente 'continuasse vendo um monte de garotas durante suas viagens'. Pois é - o velho filme parece se repetir.

A assessoria de Bill Clinton anunciou que negava as especulações e denunciou a reportagem de Todd Purdum como uma 'peça de ataque'. Enquanto isso, espera-se para amanhã ou, no mais tardar, quarta-feira, o anúncio de desistência da candidatura Hillary Clinton. Fontes próximas à ex-primeira-dama dizem que ela deve encerrar a campanha com um discurso aqui em Nova Iorque, onde celebrará os mais de 17 milhões de votos que recebeu nas primárias. Nada se diz sobre um apoio oficial a Obama. Será que os democratas vão se recuperar de tantas chagas a tempo de enfrentar a candidatura cada vez mais fortalecida do vovô do Arizona? 

quarta-feira, maio 28, 2008

Mãos-de-Vaca em NYC


Está hoje na página de turismo do portal Terra minha conversa com os autores do Guia Nova York para Mãos-de-Vaca, os simpaticíssimos Henry e Denise. A idéia é muito boa, e estes dois jovens brasileiros descobriram um belo nicho - um guia turístico para quem sonha em vir a NYC mas não quer gastar os tubos na cidade. Ó só:


Guia turístico dá dicas para "mãos-de-vaca"
Eduardo Graça, direto de Nova York

Quem disse que é preciso juntar muito dinheiro para aproveitar Nova York? Os namorados Henry Alfred Bugalho, 27 anos, e Denise Nappi, 26 anos, tiveram a idéia de escrever o Guia NY Para Mãos-de-Vaca depois de perceberem que muitos amigos deixavam para lá o sonho de viajar à "capital informal do planeta" por conta dos preços de hospedagem, passagem e alimentação na cidade, sem falar nas entradas para atrações turísticas e espetáculos na cidade que nunca dorme.

Depois de seis meses na cidade, eles perceberam que o que faltava para os amigos era um compêndio de dicas caprichadas. Foi assim que Henry - com a ajuda providencial de Denise, que diz "adorar xeretar tudo" - começou a publicar um blog apresentando uma cidade tão barata quanto divertida, ao alcance do turista brasileiro mais consciencioso. Logo, o blog virou uma comunidade no Orkut e um guia que, em português ao menos, é produto singularíssimo no mercado turístico internacional. "Este não é um guia apenas para os pão-duros ou para mochileiros. Ele também é voltado para os que têm um objetivo muito específico, como comprar produtos eletrônicos ou de informática e que querem aproveitar a cidade sem esbanjar. Ou seja, para quem quer ser inteligente na hora de manejar os gastos em uma viagem para NY", diz Henry.

A dupla, que vive no East Harlem e abriu a empresa Dog Care, dedicada ao dog walking (ou seja, passeiam com cachorros dos moradores da cidade quando estes não podem agradar os bichanos), lembra que no início tudo foi tão complicado que um belo dia eles se viram com US$ 7 no bolso para passar um dia na cidade. Foi aí que descobriram as lojas de US$ 0,99 e perceberam que o perrengue poderia se transformar em um bom conselho para turistas interessados em viver a NY de verdade, com menos fantasia mas sem perder o encanto jamais.

As dicas começaram a pipocar. Compre passagem sempre com antecedência e lembre que os vôos mais baratos são os da Japan Airlines (mas eles só vendem por telefone e em São Paulo), que segue para Tóquio, ou os da Copa Airlines (estas saem até por menos de US$ 500, mas há a parada de um dia no aeroporto da Cidade do Panamá). Ainda há a opção de se viajar de ônibus até Manaus (haja disposição para os que saírem do sul do País) e voar de lá pela TAM, lembra Denise.

Entre as diversões gratuitas mais pitorescas estão, por exemplo, a dos astros de Hollywood dando sopa filmando nas ruas da cidade (para descobrir as filmagens do dia basta fuçar a Internet, de graça, em uma das três Apple Stores da cidade, que, além de belíssimas, funcionam como o internet-café gratuito do novo milênio).

O guia também oferece dicas práticas como uma tabela de gorjetas (para motoristas de táxi e também garçons) e uma seleção de lojas barateiras para sacoleira nenhuma botar defeito. "A cidade é repleta de brechós sensacionais. Meu favorito chama-se Housing Works e fica na Rua 23. Lá comprei um casaco da Banana Republic por US$ 7,50 tão novo que a etiqueta original, de US$ 180, ainda não havia sido retirada. Também achei um livro de capa-dura de US$ 230 que o Henry queria, em ótimo estado, por US$ 1. E uma bota linda do Alexandre Herchcovitch, de US$ 250, por US$ 20", conta Denise.

Mas pergunte a qualquer turista interessado em passar alguns dias em NY e a resposta será a mesma - o gasto mais assustador é sempre com a acomodação. Os hotéis da cidade - mesmo os mais baratos - costumam cobrar em média US$ 100 por noite. Pois os mãos-de-vaca garantem que a solução são os Hostels, mais voltados para um público jovem. A rede de hotéis Jazz oferece a opção mais barata da cidade: o Jazz on Lennox, na Rua 128, no coração do Harlem, onde se dorme em um quarto com beliches e banheiro compartilhado por módicos US$ 15. Reservas podem ser feitas no site do hotel (http://www.jazzhostels.com/jazzonthelenox.php). O valor da diária ainda é dos tempos em que o bairro era considerado um dos mais perigosos de Manhattan. Hoje é um dos mais valorizados da cidade, a passos do Central Park e com suas brownstones (casas históricas, erguidas em sua maioria na segunda metade do século XIX) vendidas em média por US$ 1 milhão.

Talvez parte do segredo do sucesso do Guia NY Para Mãos-de-Vaca deve-se ao fato de Henry e Denise serem dois típicos jovens brasileiros da geração ano 2000. Eles se conheceram pela web (ela trabalhava na Varig e ele em uma livraria em Curitiba), resolveram vencer na América juntos e vivem muito bem no mundo da economia informal nova-iorquina. A hora do passeio com os cachorros sai por US$ 25. O guia é um sucesso de vendas em uma editora virtual (ou seja, os gastos de produção são mínimos) e os meninos continuam felizes descobridores de mais e mais atrações boas e baratas na cidade que já chamam de sua. "Não sabemos o que virá pela frente, mas ainda sonhamos em fazer um Guia Buenos Aires, um Madri, e, o maior desafio de todos, um Londres para Mãos-De-Vaca", conta Denise.

Dez dicas imperdíveis para mãos-de-vaca em NY

1. Jack's 99 Midtown
Localizada na Rua 32 entre a Sexta e a Sétima Avenidas, é, com seus três andares, a melhor loja das muitas redes dedicadas a produtos com valores inferiores a US$ 1 espalhadas pela cidade. Os interessados em um piquenique no Central Park encontram queijos dos mais variados sabores e nacionalidades, pãezinhos artesanais e até sanduíches prontos para os mais preguiçosos. Tudo a menos de US$ 1.

2. Metrocard
Marinheiros de primeira-viagem desconhecem as vantagens de se comprar um Metrocard (em se chegando via aeroporto JFK, pode-se comprar na estação do Air Train), que vale para o metrô e para o ônibus em toda a cidade. Como cada viagem custa US$ 2, o mão-de-vaca profissional deve estudar as vantagens de se comprar um passe diário (por US$ 7,50), semanal (por US$ 25) ou o válido por 15 dias (por US$ 47). E nunca, jamais, usar os táxis da cidade, cada vez mais caros por conta da alta do preço da gasolina.

3. Barca de Staten Island
Um dos passeios mais bonitos da cidade é completamente gratuito. Pega-se a barca para Staten Island no sul da ilha de Manhattan, perto de Battery Park. A vista é magnífica: as luzes dos arranha-céus do Distrito Financeiro, a Estátua da Liberdade, Ellis Island, aonde chegavam os turistas de toda a costa do Brooklyn com as pontes de Manhattan, Williamsburg e Brooklyn ao norte. A viagem é rápida - menos de 25 minutos - confortável e ainda é possível ver alguns dos mais famosos cartões-postais da cidade sem gastar um tostão.

4. Metropolitan Museum
É o mais famoso museu da uma cidade. E, embora muitos turistas não saibam, tem uma política clara para atrair visitantes de todas as classes sociais do mundo todo - aqui, paga-se quanto pode. O Metropolitan sugere que se pague US$ 20, mas ninguém vai chamá-lo de mão-de-vaca se você desembolsar US$ 1 para conferir o sensacional acervo do museu.

5. Broadway + e-bay
É a parceria mais explosiva para os turistas da cidade. Quer ver o musical-sensação Wicked, cujos ingressos oficiais saem por US$ 255? Entre no e-bay e compre seu tíquete por US$ 16,95, uma economia de mais de 90%. Importante: o e-bay entrega o tíquete em casa e é severamente monitorado por órgãos de defesa do consumidor, garantindo a seriedade do negócio. Na comunidade Orkut dos Mãos-de-Vaca, os quase 800 usuários colocam regularmente cupons de desconto para musicais da Broadway que podem ser usados por novos viajantes em um sistema de trocas tão democrático quanto econômico.

6. Wendy's
Os criadores do Guia NY Para Mãos-de-Vaca não têm nenhuma ligação comercial com esta rede de fast-food. Eles simplesmente recomendam por conta da relação valor/sabor. Por US$ 1,29 compra-se uma batata assada de primeira, e por US$ 3 acrescenta-se ao prato uma cobertura de chilli e um refrigerante. Os menos ousados têm ainda a opção da Ceasar Salad, por US$ 1.

7. MoMA
O museu mais caro da cidade (a entrada, obrigatória, sai por US$ 20) é também a casa do acervo mais impressionante de arte moderna e contemporânea do planeta. E, graças a uma parceria com a loja Target, oferece entrada gratuita todas as sextas-feiras a partir das 16h (e até às 20h). É só agendar bem a viagem e guardar um fim de tarde de sexta-feira para o museu.

8. Museu de História Natural
Aqui o jogo é o mesmo do Metropolitan, com a admissão para o acervo permanente ficando a cargo do visitante. O passeio é especialmente indicado para os casais com crianças, que vão adorar os animais empalhados, os dinossauros e as salas dedicadas aos continentes. De novo, mão-de-vaca profissional desembolsa apenas US$ 1 para passear pelo museu.

9. Century 21
Vir a NY e não se render a compras é como ir a Roma e não ver o Papa. Dentre as muitas opções oferecidas pela cidade, a loja de departamentos Century 21 é a que oferece um pacote de sete meias por US$ 5, toalha de banho Calvin Klein por US$ 2 e tênis Nike por US$ 30. A loja fica na 22 Cortland Street, no sul da ilha.

10. Manhattan Mall
Localizado na Rua 34, no encontro da Broadway com a Sexta Avenida, é o paraíso das sacoleiras mais estilosas. Aqui elas podem comprar as coleções da Steve &Berry¿s (incluindo a linha da atriz Sarah Jéssica Parker), a linha mais esportiva da tenista Venus Williams e os tênis Starbury, todas peças na faixa de US$ 8. Nada na loja ultrapassa os US$ 20.
Serviço:
O Guia NY Para Mãos-de-Vaca pode ser comprado por R$ 11,99 no site www.maosdevaca.com.

domingo, maio 25, 2008

CARTA CAPITAL/O Teste de Obama

A Carta Capital desta semana sai com reportagem minha sobre os desafios que o senador Barack Obama enfrenta agora que é quase certa sua escolha pelo Partido Democrata para disputar a presidência dos EUA contra o republicano John McCain. Conversei com o cientista político Frederick C. Harris, da Universidade de Columbia, também negro, diretor de um dos centros de estudos políticos mais prestigiados do país. Ele me disse que a imagem da sociedade pós-racial defendida por Obama funciona mais para o cenário internacional do que para a realidade do dia-a-dia dos afro-americanos aqui nos EUA.

A reportagem segue abaixo:


O TESTE DE OBAMA
Por Eduardo Graça, de Nova Iorque


Cada vez mais perto de ser indicado a candidato democrata, o senador ainda precisa mostrar que é capaz de vencer a eleição



A escolha, pelo senador Barack Obama, da pequena Des Moines, no Meio-Oeste americano, para a celebração da conquista da maioria dos delegados estaduais à convenção nacional do Partido Democrata não foi apenas uma rendição ao simbolismo político. Sim, foi na capital de Iowa, em janeiro, que ele iniciou sua impressionante corrida à Casa Branca. Mas, ainda mais importante, lá ele recebeu mais de um terço dos votos dos eleitores brancos de classe média baixa, o que não se repetiu nos quatro meses seguintes. Detalhe: mais da metade desses eleitores em estados-chave para a vitória da oposição afirmaram, em pesquisas de boca-de-urna, logo após optarem por Hillary Clinton, que votarão em John McCain contra Obama em 4 de novembro.


Para o comando do Partido Democrata, o jogo de xadrez de 2008 está ficando cada vez mais complicado. Quanto mais Obama e sua mensagem de mudança ganham os setores progressistas do partido e parte do establishment, mais nebulosas ficam as perspectivas de vitória em um pleito com características únicas, aparentemente favoráveis à oposição.

“Não se iludam. As eleições deste ano serão disputadíssimas. Aqui interessa mais o colégio eleitoral do que o voto popular. E Barack Obama terá muitos problemas para vencer em estados importantíssimos, os que definem de fato quem chegará à Presidência, como Ohio e Pensilvânia, onde os eleitores são sensíveis à questão racial e foram afetados pela campanha que tenta caracterizá-lo como menos patriota do que Hillary ou McCain”, diz o professor Frederick C. Harris, diretor do Centro de Estudos de Política e de Sociedade Afro-Americanas da Universidade de Colúmbia.

Na quinta-feira 22, o Instituto Rasmussen anunciou nova pesquisa nacional na qual McCain tem 46% da preferência dos norte-americanos ante 42% de Obama. “Há todo um discurso sobre a sociedade pós-racial, que não levaria mais em conta a cor do indivíduo, que não se respalda na realidade. A candidatura Obama, assim como outras conquistas simbólicas dos negros nos EUA, são mais importantes em termos internacionais, exportando a idéia de que aqui há espaço para as minorias, inclusive os afro-americanos. Mas enquanto ainda tivermos a desigualdade social escancarada entre negros e brancos, o tratamento diferenciado pela polícia e a concentração de negros vivendo em conjuntos habitacionais país afora, esses símbolos têm um efeito menor quando pensamos na modificação das relações entre os diferentes grupos que formam os EUA”, diz Harris.

Políticos negros que chegaram às prefeituras de grandes metrópoles norte-americanas como David Dinkins, em Nova York, e Harold Washington, em Chicago, jamais conseguiram o apoio da classe média branca, especialmente de comunidades mais fechadas, como a de descendentes de italianos e poloneses, base do Partido Democrata nas duas cidades. Nos rincões do país, a barreira é ainda maior. E a decisão de Hillary Clinton de seguir em campanha apesar de suas chances diminutas de conquistar a indicação à Presidência na convenção de agosto não ajudam Obama.

Na terça 20, a senadora de Nova York recebeu 65% dos votos dos eleitores do estado sulista do Kentucky, uma repetição do que aconteceu na semana passada na Virgínia Ocidental. Mais de 50% deles avisaram que ou ficarão em casa ou votarão em McCain em novembro se Obama for o candidato. E o mesmo número considerava “importante” a ligação entre o candidato negro e o pastor Jeremiah Wright, visto como radical por boa parte da opinião pública e mídia nos EUA. Em meio século, nenhum democrata chegou à Casa Branca sem vencer na Virgínia Ocidental, incluindo Bill Clinton.

A vice-presidente na chapa de Dukakis, a primeira mulher indicada ao posto por um dos dois partidos majoritários, Geraldine Ferraro, acusou o senador Obama de “sexista” e anunciou que não votará nele para presidente em novembro. Em anúncio de página inteira nos jornais mais influentes do país, o grupo WomenCount pregava a necessidade de Hillary Clinton continuar na disputa até “o último voto ser contado”, para além das três derradeiras primárias, em junho, até a convenção de agosto. Pelas regras do Partido Democrata, além dos delegados eleitos em cada estado, um colégio à parte, formado por superdelegados (caciques políticos e detentores de postos eletivos) unge o candidato à Presidência. Obama lidera nos dois flancos, mas matematicamente Hillary ainda pode virar o jogo se conseguir 70% dos superdelegados que ainda não se comprometeram com candidato algum. Entre eles estão importantes formadores de opinião, como o ex-vice-presidente Al Gore, o ex-presidente Jimmy Carter e Nancy Pelosi, que detém um cargo que no Brasil seria o equivalente ao de presidente da Câmara dos Deputados.

Os Clinton apostam as fichas na reunião da cúpula do partido – que ainda pende para ela – no próximo fim de semana, para decidir se dois estados em que ela foi vitoriosa no voto popular por larga margem – Flórida e Michigan – entrarão na contagem final de votos. Como alteraram suas datas de votação sem permissão do partido, os estados foram punidos e seus pleitos considerados nulos. Obama não fez campanha na Flórida e nem sequer teve seu nome na cédula oficial em Michigan. O problema é que o comparecimento eleitoral foi massivo e pró-Hillary. Se considerados os eleitores dos dois estados, a senadora fica à frente no voto popular e cresce de importância o seu argumento de que é a candidata mais forte para enfrentar McCain.

Enquanto os democratas parecem se unir apenas nos discursos emocionados em apoio ao senador Ted Kennedy, um dos maiores símbolos do partido, diagnosticado com câncer no cérebro, McCain ri sozinho. O senador participou recentemente do programa Saturday Night Live e implorou a Hillary Clinton que “continue na disputa até o último segundo”. Ao mesmo tempo, iniciou uma série de duros ataques contra Obama, tentando transferir a discussão nacional da economia para a segurança nacional e a política externa.

Em um discurso voltado à comunidade cubana na Flórida, McCain garantiu que continuará o bloqueio econômico a Cuba e pinçou o que seria sua política para a América Latina, com uma presença ainda maior na Colômbia. Também insinuou que somente a inexperiência de Obama poderia justificar sua decisão de iniciar um processo de distensão com “a ditadura dos Castro” e de suspensão da Lei Helms-Burton, que proíbe o comércio entre EUA e Cuba.

A propaganda do Partido Republicano acusa o senador negro de antipatriota e usa uma declaração de sua mulher, Michelle Obama, como prova. A advogada disse, em emocionado discurso depois da histórica vitória do marido em Iowa, que, “pela primeira vez, sentira orgulho de ser norte-americana”. A reação foi imediata, com o candidato dizendo que “não admitiria ataques à sua mulher”, enquanto seus estrategistas denunciavam a relação íntima de McCain com lobistas e a recusa de sua mulher, Cindy, de tornar pública, como fizeram Obama e Michelle, sua declaração de imposto de renda, alimentando rumores de que ela teria investimentos ligados ao governo autoritário do Sudão.

Cindy McCain é a milionária herdeira de uma das maiores distribuidoras de bebidas do país. Obama também alertou que a eleição de McCain seria a continuação do governo Bush, seguindo uma política externa truculenta e unilateral, e comandada por um presidente ainda mais militarista do que o ex-governador do Texas. Trincheiras estabelecidas, candidatos quase definidos, a batalha pela Casa Branca parece mais quente do que nunca.