sexta-feira, novembro 18, 2005

O Show de Truman



O texto abaixo, sobre o filme 'Capote", escrevi para o caderno "Eu & Fim de Semana", do Valor Econômico, que acaba de chegar às bancas. A ilustração é do "Valor".

Eduardo Graça, de Nova Iorque, para o Valor.

O Show de Truman

Há uma grande cena em “Capote”. Ela se dá quando a primeira-amiga Harper Lee, vencedora do prêmio Pulitzer por “To Kill a Mockingbird”, joga o escritor contra a parede, provocando-o sobre o mito de que teria se tornado amante do assassino Perry Smith, matéria-prima de “A Sangue Frio”. “Eu não me apaixonei por ele. De certa forma, eu SOU ele. É como se nós tivéssemos sido criados na mesma casa, mas Perry saiu pela porta dos fundos e eu pela entrada principal”, responde o ator Philip Seymour Hoffman, em uma interpretação magistral. Ele lembra que, exatamente como o descendente de índios acusado de dizimar uma família no Kansas em 1959, também havia sido abandonado pela mãe. E que, como boa parte da família do assassino, esta cometera suicídio. Nada mais distante do jet-set de Manhattan do que a vida do zé-ninguém do meio-oeste. Mas ao encontrá-lo ele experimentara de modo intenso o paradoxo da nova sociedade americana, perdida no êxtase de seu próprio individualismo. O diálogo foi inspirado no trabalho do jornalista Gerald Clarke, escritor e amigo de Truman Capote, autor da biografia definitiva do atormentado filho de Nova Orleans que virou a literatura e o jornalismo de pernas para o ar.

De sua casa em Bridgehampton, no norte do estado de Nova Iorque, Clarke, colaborador bissexto das revistas ‘Time” e “Esquire”, conversou com o Valor sobre Capote, sua influência na inteligência norte-americana e a emergência de uma certa ‘capotemania’ que, ironicamente, não tem ajudado muito a engordar a bilheteria do bom filme de Bennet Miller. A Barnes&Noble anunciou que os títulos de Capote – entre eles “Bonequinha de Luxo” – estão saindo 30% a mais do que o normal e “A Sangue Frio”, de 1966, foi o livro mais vendido da rede de livrarias na semana em que o filme entrou em cartaz nos Estados Unidos. Outro campeão de vendas é o relato de Clarke, intitulado “Capote: uma biografia”, publicado em 1986, dois anos após a morte do escritor, e que acaba de ser reeditado com uma foto gigantesca de Hoffman – e quem mais? – estampada na capa e mais de 30 mil novos exemplares encomendados nos últimos 20 dias.

“Veja bem, Philip Seymour Hoffman é um tremendo Truman Capote. Digo mais, ele é assustadoramente exato”, diz Clarke. Para encontrar o tom de seu personagem, Hoffman se debruçou sobre as cassetes gravadas por Clarke quando entrevistou, seguidamente, o autor de ‘A Sangue Frio’. O resultado é um passo – ou dois – à frente das corriqueiras imitações do falsete de Capote, uma das brincadeiras favoritas de professores de literatura norte-americana das escolas da Ivy League. “É engraçado isso tudo. Eu passei centenas de horas com o Truman e quando me pediram para definir quem ele era eu...eu simplesmente não conseguia dizer nada. Ele era tantos em um só. Um artista e um estilista como poucos, talvez o maior de sua geração. Era também muito generoso e, às vezes, malicioso além da conta. Ele adorava publicidade, mas odiava quando ela se voltava contra sua vida privada. Ele era mesmo único”, recorda Clarke.

Quando Clarke se tornou amigo de Capote, este já era uma caricatura do monstro social dos anos 50 e 60. Vivia isolado, abandonado pelos amigos, refém da bebida, dos barbitúricos e dos anti-depressivos. O primeiro contato foi para uma série de perfis dos grandes escritores do século, um projeto da ‘Esquire’. Lá estavam Vladimir Nabokov, Woodhouse, Ginsberg. E Capote. Clarke quis mais. E propôs a biografia, desde que ajudado pelo arredio escritor. Capote aquiesceu. “Em nossos encontros percebi que ele sempre arrumava um jeito de me dizer que este tal de Capote era mais uma criação sua. E que era mesmo difícil para as pessoas lidarem com alguém que, mais do que tudo, recusava-se a ser um cidadão comum. Ele então me dizia que havia apenas um único T.C. Que jamais houve alguém como ele antes e que não haveria um novo Capote”, lembra Clarke.

O biógrafo também escreveu “Too Brief a Treat”, em que reuniu pela primeira vez, no ano passado, as cartas do escritor por mais de quarto décadas, no que pode ser tomado como uma, vá lá, ‘quase-autobiografia’. Os destinatários são gente como Jacqueline Kennedy Onassis, Tennessee Williams, Audrey Hepburn, Gloria Vanderbilt, Cecil Beaton, seu companheiro Jack Dunphy, o detetive de Kansas Alvin Dewey e, claro, Perry Smith. Mas, para além das fofocas, o livro revela um Capote dadivoso a ponto de aconselhar o filho mais velho de Dewey, que sonha em se tornar escritor: “Não há nenhum problema em gostar de má literatura. Eu mesmo adoro Agatha Christie e Ian Fleming. Mas você não pode jamais deixar de lembrar que eles são maus escritores”.

Clarke ainda se impressiona com as dicas aparentemente banais de Capote, um profissional que primava pela disciplina. “Não é exagero dizer que ele modificou a literatura e o jornalismo de tal modo que poucos jovens podem compreender nos dias de hoje. Antes de “A Sangue Frio”, escritores talentosos e ambiciosos achavam que a única maneira de alcançarem sucesso e reconhecimento seria publicar um romance. Todos estavam à procura do novo Faulkner, do novo Hemingway. Isso acabou”, diz.

Quando vislumbrou o que seria “A Sangue Frio”, Capote almejou escrever um livro que reuniria a credibilidade da reportagem ao imediatismo do cinema, à precisão da poesia e à profundidade e liberdade da prosa. Como enfatiza Clarke, trata-se de um dos mais ambiciosos projetos da literatura ocidental. De fato, não há como se pensar no ‘novo jornalismo’ – termo que ele abominava, a ponto de qualificar um de seus protagonistas, o escritor Tom Wolfe, de ‘analfabeto da técnica literária’ – mas também na reportagem policial, na indústria das celebridades e na televisão-verdade sem “A Sangue Frio” e sua acachapante narrativa da morte dos quatro membros da família Clutter, assassinados nos cafundós do Kansas por dois jovens desajustados. Para Capote, lembra Clarke, “A Sangue Frio” seria o instrumento que o tornaria um escritor verdadeiramente popular, algo que um rival que invejava – o também homossexual e bem-nascido Gore Vidal – jamais alcançou.

O editor-chefe da Carroll & Graf, Philip Turner, que detém os direitos do livro de Clarke, sublinha a atualidade de “A Sangue Frio” e sua ‘ode à ambigüidade’ quando busca entender o sucesso de Capote nas prateleiras das livrarias americanas neste outono de 2005. Os leitores, lembra, andam mais do que intrigados sobre como os jornalistas lidam com suas fontes, especialmente depois que Judith Miller, uma das estrelas do ‘The New York Times”, foi parar na cadeia para proteger a identidade do auxiliar mais próximo do vice-presidente Dick Cheney. Miller acabou se divorciando do jornal mais importante dos EUA em uma novela que envolveu o desmascaramento de uma agente secreta da C.I.A. e a manipulação da imprensa pelo governo republicano. “Depois de “A Sangue Frio” os jornalistas americanos, alguns mais outros menos talentosos, procuram quase sempre trazer para seu trabalho as técnicas da ficção. Mas muitas vezes, devo admitir, elas estão no texto apenas para disfarçar a preguiça da apuração exata, algo extremamente caro para o Truman”, diz Clarke. No livro de Capote, a ambigüidade começa a partir do fato de que sua principal fonte é um dos assassinos.

Como nos mostra ‘Capote”, o filme, “A Sangue Frio” modificou a vida de seu autor para sempre. Rico, morreu aos 59 anos, em 1984, e nunca mais publicou livro algum. Viveu 19 anos atormentado pela idéia fixa de que ‘apesar de não ter podido fazer nada para evitar a execução dos assassinos de Kansas, apenas a morte deles poderia tornar seu relato o mais importante de sua geração’. De certa forma, lembra Clarke, era como se carregasse para sempre a culpa de ter, ele também, participado de forma decisiva daquela tragédia americana. Ou, como lhe disse certa vez, ‘se soubesse o quanto aquele livro me atingiria emocionalmente, eu jamais teria começado a escrevê-lo”.

sexta-feira, novembro 11, 2005

Que Mensalão Que Nada!


Hoje o Valor publica reportagem do blogueiro aqui sobre o sistema eleitoral norte-americano. Conversei com o correspondente do "The Independent" aqui nos Estados Unidos, Andrew Gumbel, que lançou um livaço, "Steal This Vote", em que conta a história das falcatruas eleitorais por aqui. Na terça-feira, em média, menos de 40% dos americanos compareceram às urnas - aqui o voto não é obrigatório - e elegaram novos governadores (de Nova Jérsei e Virgínia, duas vitórias democratas) e prefeitos de cidades importantes como Nova Iorque, Boston e Atlanta. A matéria está ai:


O PODER DAS CORPORAÇÕES NAS ELEIÇÕES

Eduardo Graça, de Nova Iorque, para o Valor Econômico

Nesta terça-feira, menos de 40% dos americanos, em média, compareceram às urnas para decidir quem vai governar nos próximos anos os estados de Nova Jérsei e Geórgia e metrópoles como Nova Iorque e Boston. Esta imensa minoria também se posicionou sobre temas que alteram de forma significativa o dia-a-dia dos cidadãos, como a criação de linhas de transporte e o redirecionamento de polpudas fatias do orçamento público. “Os EUA são a democracia com menor participação popular do Ocidente. Se o voto aqui fosse obrigatório, como no Brasil, a coisa seria diferente. Mas este sistema serve a democratas e a republicanos, que preferem manter o eleitorado reduzido. A conseqüência é que os interesses econômicos e políticos dos menos abonados são completamente ignorados em Washington”. A afirmação, em entrevista exclusiva para o Valor, é do jornalista britânico Andrew Gumbel, correspondente do jornal ‘The Independent’ nos Estados Unidos e autor do livro definitivo sobre o processo eleitoral norte-americano, “Steal This Vote: Dirty Elections and the Rotten History of Democracy in América” (”Roube este voto: eleições sujas e a história podre da democracia norte-americana”).

A análise de Gumbel ajuda a preencher a lacuna de investigações sobre o controverso pleito de 2004. Enquanto a imprensa americana preferiu centrar fogo nas chamadas ‘guerras culturais’, apontando como razão central da vitória republicana temas como o aborto, o casamento gay e a relação cada vez mais nebulosa entre religião e Estado, quatro jornalistas, um acadêmico especializado no estudo das grandes corporações de mídia norte-americana e um respeitado político liberal de Illinois chegaram à conclusão de que os conservadores apenas se aproveitaram com mais esperteza de um sistema eleitoral viciado e anti-democrático.

Os livros também saem do forno no exato momento em que os brasileiros têm de lidar com a aparente falência de seu sistema representativo, em uma das mais vergonhosas legislaturas da história do Congresso Nacional. “Ao menos a virtual mesada que os deputados estariam recebendo para votar com o governo é uma prática completamente ilegal no Brasil. Nos EUA o sistema de financiamento eleitoral através das corporações é como uma mesada dentro da lei, desde que você respeite certos limites. Os congressistas não precisam receber um mensalão da Casa Branca porque os compromissos assumidos com seus financiadores são definidos de forma tão clara que eles votarão com o governo de forma automática”.

“Steal this Vote” mostra que dois aspectos do atual sistema eleitoral americano são especialmente funestos: o poder de influência das corporações, associado aos esquemas cada vez mais sofisticados de propaganda, e a ameaça das urnas eletrônicas. Como nos Estados Unidos os computadores não permitem uma recontagem manual, Gumbel lembra que é possível alterar o resultado de qualquer eleição de forma muito mais drástica: não apenas em uma seção, mas em centenas e centenas de distritos ao mesmo tempo, com a ajuda de um simples programa malicioso. Pior: as empresas que entraram na disputa para fornecer as urnas são grandes contribuintes dos partidos. E uma comissão eleitoral controlada pelos governos estaduais decide como as unidades devem ser distribuídas.

Assim, em Ohio, um estado decisivo nas eleições do ano passado, as filas nas grandes cidades, redutos democratas, impediram milhares de eleitores de votar, enquanto zonas eleitorais nas áreas menos populosas, de forte apelo republicano, receberam muito mais computadores, como mostra “O Que Deu Errado no Ohio?”, o relatório final de um aguerrido participante da comissão parlamentar que investigou o caótico pleito. Entre outras irregularidades que manchariam qualquer disputa realizada em países do Terceiro Mundo, zonas eleitorais registraram um comparecimento de mais de 98% e um distrito apurou os votos ‘em segredo’ por conta da ‘ameaça de um ato terrorista’. O comando das eleições em Ohio ficou nas mãos do secretário de Estado do governo local, que, exatamente como na Flórida em 2000, fazia parte do comitê executivo da campanha de Bush.

Para além de artimanhas e fraudes, todos tratam do destaque cada vez maior do dinheiro nas eleições americanas. Esta semana, dois milionários foram consagrados nas urnas: o republicano Michael Bloomberg, reeleito prefeito de Nova Iorque, e o democrata John Corzine, que fez sua fortuna na Goldman Sachs e troca o senado pelo governo de Nova Jérsei. Seu adversário foi o magnata da indústria farmacêutica Douglas Forrester. Eles gastaram oficialmente US$ 72 milhões nas campanhas, um recorde nacional. Bloomberg queimou US$ 66 milhões. “Democracia também pode ser definida pela distinção entre poder político e econômico. Era exatamente por isso que Thomas Jefferson prevenia os americanos da ascensão da tal ‘aristocracia dos endinheirados’. O montante investido nas candidaturas dos dois lados é a maior ameaça à democracia americana desde a década de 20”, ressalta Gumbel.

O jornalista aponta como única solução para a crise das democracias contemporâneas o financiamento público exclusivo das campanhas eleitorais. Para ele as eleições que presenciou desde que chegou ao país em 1998 deixaram claro que, nos EUA, nem republicanos nem democratas estão interessados no jogo limpo da democracia. E que a polarização entre duas forças políticas, seja de conservadores e liberais ou de socialistas e social-democratas, acaba por estabelecer um perigoso padrão maniqueísta eleitoral em que o perdedor é, sempre, o eleitor. “Democratas e republicanos querem vencer a qualquer custo e construíram um sistema eleitoral que não permite sequer a viabilização de uma terceira força política, no que talvez seja a maior traição ao mais básico princípio democrático”, diz Gumbel, um ardoroso defensor do direito de escolha.


AS ELEIÇÕES AMERICANAS E SEUS LIVROS


“Steal This Vote” – Lançado no ano passado, acaba de chegar às livrarias em formato de bolso. O livro de Andrew Gumbel foi uma coqueluche nas semanas que antecederam as eleições desta semana. A narrativa começa com a declaração do ex-presidente Jimmy Carter de que reprovaria sem hesitar o sistema eleitoral norte-americano, a começar pela inexistência de dois quesitos considerados fundamentais pelo Carter Center para um pleito justo: a igualitária exposição dos candidatos na mídia e a possibilidade de uma recontagem exata dos votos. Nation Books. US$ 16.

“Did George Bush Steal America’s 2004 Election? – Essential Documents” (“Bush surrupiou as eleições americanas de 2004? Documentos Essenciais”) - Bob Fitrakis, Henry Wasserman e Steve Rosenfeld, repórteres de Ohio, mostram como a vitória no pleito presidencial está ligada umbilicalmente ao controle das máquinas estaduais, em uma desconcertante semelhança com a República Velha brasileira. CICJ Books. US $40

“What Went Wrong In Ohio?” (“O Que Deu Errado em Ohio?”) – Com introdução de Gore Vidal, o livro é a reprodução do relatório final de John Conyers, deputado democrata de Detroit que investigou detalhadamente as eleições de 2004, revelando a manipulação do resultado especialmente através do controle das listas de votação. Academy Chicago. US$10.95.

“Fooled Again: How the Right Stole the 2004 Election & Why They’ll Steal the Next One Too (Unless We Stop Them)” (“Tapeados de novo: como a direita fraudou as eleições de 2004 e por que ela vai nos roubar a próxima, a não ser que a gente a impeça”) – O professor Mark Crispin Miller, da New York University, escreveu o livro em que conta como estrategistas democratas convenceram John Kerry a reconhecer a derrota imediatamente, para evitar a repetição da batalha de 2000. Em um encontro com o senador, na última semana de outubro, Miller conseguiu fazer com que Kerry, pela primeira vez, revelasse que acredita ter sido de fato garfado em 2004. Basic Books. $24.95.

O Massacre Que Ninguém Viu?

Esta semana o repórter Peter Popham, do jornal britânico "The Independent", escreveu uma bela reportagem sobre as novas evidências de que os EUA utilizaram armas químicas - em quantidades massivas - contra civis na cidade iraquiana de Falluja em novembro de 2004. Apesar de a história só aparecer na imprensa ocidental um ano depois do ocorrido, o que começa a ser chamado pelos jornalistas americanos de 'o massacre que ninguém viu' já era motivo de conversas mais ou menos sérias entre soldados que voltavam do Iraque e os poucos jornalistas independentes que seguem mandando notícias do país ocupado.

Popham lembra da terrível ironia de que o possível ataque a Falluja - um dos bastiões da resistência sunita - com armas químicas lembra o massacre dos curdos por Saddam Hussein, que teria utilizado o mesmo método para dizimar opositores da etnia no outro extremo do país.

A coisa ficou ainda mais feia quando outro repórter, Sigfrido Ranucci, da RAI italiana, colocou no ar imagens e uma série de entrevistas com jovens soldados americanos que participaram da 'tomada de Falluja' e que qualificam a ação de novembro de 2004 de 'matança de árabes'. Um dos soldados diz que 'viu os corpos de mulheres e crianças queimando depois do uso de armas químicas. Em um raio de 150 metros forma-se uma nuvem e ninguém sai dela vivo'.

A Rai também afirma que há provas de que se usou Napalm - uma violação à Convenção da ONU de 1980, que proíbe seu uso em perímetros urbanos - contra a população civil de Falluja.

As reportagens de Popham e de Ranucci podem ser lidas e vistas (o vídeo é especialmente forte) no endereço da sempre atenta TruthOut, é só clicar:

www.truthout.org/docs_2005/110805Z.shtml

quinta-feira, novembro 03, 2005

Chavito!


O jornal argentino "Pagina 12" anunciou com toda pompa domingo o objeto mais popular entre os militantes de esquerda em Mar del Plata: o bonequinho do Chavez. Pode?

Do meu iPod - Leroy Carr


Uma de minhas alegrias tem sido ouvir Leroy Carr (1905-1935). Foi ele, mais do que qualquer outro bluesman, quem fez a ponte, nos anos 30, do blues rural para o urbano, dando o tom do que seria a cena da música popular americana depois da Segunda Guerra Mundial. E fez tudo isso de seu piano. Carr formou em 1928, em Indianápolis, uma dupla com o guitarrista Francis Scrapper Blackwell que rendeu mais de 200 composições, coisas finas como “How Long, How Long Blues”, cantadas um tom abaixo de seus ídolos do blues rural. Esta, aliás, não por acaso, era a musica favorita de Robert Johnson.

Antes da fama, o adolescente Carr tocou seu piano em circo, passou um tempo no exército e, claro, participou da indústria do ‘bootleggin’ no sul americano, destilando e vendendo seu uísque ilegalmente durante a Lei Seca. Mas sua vocação principal era mesmo o blues. Muito se fala no piano de Carr. Eu ando mais fixado em sua voz. Na cadência mais rápida e menos lânguida de quem quer dar o recado com a maior rapidez possível. Uma voz nasal, tensa, furtiva. Mas divina.

Durante sete anos, entre 1928 e 1934, Carr e Blackwell gravaram para o selo Vocalion alguns dos mais belos blues jamais escritos pelas bandas de cá. E também, vá lá, outra razão para minha paixonite por Carr, baladas e coisas mais ou menos similares ao vaudeville e ao ragtime. Seu desprezo pelos clubes fechados e pepitas como “Midnight Hour Blues” e ‘Shady Lane Blues’ o transformaram em algo como uma estrela pop da época. Derrotado pelo alcoolismo, ele morreu em abril de 1935, no auge da fama. Para ele Amos Easton escreveu, a doída “The Death of Leroy Carr”, que diz assim:

“Agora gente, eu vou contar, da maneira mais fiel possível, como Leroy Carr morreu. Ela era meu melhor amigo. Em um domingo, exatamente às nove da manhã, aquele trem passou por cima dele, e ele começou a estrebuchar. Ele então disse: Senhor, tenha piedade, estou tão desesperado! E me pediu, por favor, que fizesse tudo o que pudesse por ele. Na segunda-feira de manhã bem cedo, logo que o dia nasceu, nós começamos a chorar, quando ele começava a morrer. Eu então liguei para o médico e quando ele chegou, minha gente, Leroy já havia morrido e nos abandonado”.

Blackwell seguiu carreira, e até hoje é considerado um dos maiores compositores da primeira geração do blues urbano. Mas pouco se fala de Carr. Quando o blues virou notícia de jornal, ele já era uma lenda. Ray Charles e Elmore James regravaram seu "Blues Before Sunrise", em inspiradas versões. Muddy Waters contou que a primeira música que aprendeu a tocar na guitarra foi "How Long". Count Basie fez versões apenas para o piano dos sucessos de Carr. E o primeiro hit de Nat King Cole, "That Ain't Right", era, como conta o crítico Eliah Wald, 'infestado da música de Carr'. E o especialista Arnold Shaw diz que a balada soul começa em Carr, passa por Dinah Washington e Sam Cooke, desaguando em Otis Redding e Jerry Butler.

Favorito de gente como T-Bone Walker, Otis Spann e, acima de todos, John Lee Hooker, o gênio esquecido dos anos 30 sobrevive em coletâneas lançadas a partir dos anos 90. Meu disco favorito saiu por aqui pela Magpie e se chama ‘The Piano Blues 1930-1935’, reunindo o que ele e Blackwell produziram de mais interessante e que, uma década depois, seriam a base para o que de melhor se tocou numa certa Chicago.

Quem quiser ouvir um pouco do blues suave e urgente de Carr pode aproveitar e correr lá no “The Smudge of Ashen Fluff”, do blogueiro de muito bom gosto Canowine.

“New How Long, How Long Blues, Part 2” e “Sloppy Drunk Blues” valem a clicada: http://popdrivel.blogspot.com/2005/10/sloppy-drunk-blues.html

quarta-feira, novembro 02, 2005

Diretinho da Redação (34)



A AMERICANIZAÇÃO DA POLÍTICA BRASILEIRA

Já são favas contadas o referendo do dia 23 de outubro. Sim ou não? Ora, o que menos importou, já é consenso, foi se posicionar sobre a livre comercialização de armas de fogo e munição no território brasileiro. Mas, para além de uma derrota do governo ou de um recado dado pela população à classe política – uma versão verde-e-amarela do “Que Se Vayan Todos” – chama a atenção um aspecto pouco explorado das seqüelas deste plebiscito inoportuno: a galopante americanização da cultura política brasileira.

Um dos melhores textos sobre o que de fato aconteceu no dia 23 de outubro foi a análise de Wilson Tosta, no site ‘Vida & Política’, sobre a consolidação de um novo pensamento conservador brasileiro, ‘supostamente racional e capaz de dialogar com faixas do eleitorado que chamamos de progressista’. O jornalista chama a atenção para a tática de apreensão do imaginário popular a partir da ‘racionalização do irracional’. A direita brasileira deixa de lado os Sivucas e os Bolsonaros e substitui o ‘bandido bom é bandido morto’ por um discurso ‘aparentemente’ não-emocional, com ênfase no direito individual.

Depois do fim da ameaça vermelha, foi justamente este movimento – a substituição do medo dos comunistas, dos pobres, das massas, dos imigrantes, pela aversão aos homossexuais, aos pró-aborto, aos verdes – que impulsionou a sociedade americana a eleger por três vezes um presidente com sobrenome Bush e a transformar o Capitólio – inclusive nos dois governos Clinton – em domínio absoluto dos republicanos. Aqui, as chamadas ‘guerras culturais’ são centradas na idéia de que a ‘elite liberal’ é formada por milionários da Park Avenue e estrelas excêntricas de Hollywood, interessados em impregnar a sociedade de valores alienígenas à grande massa ordeira e trabalhadora. Valores que não se coadunam com a tradição puritana de um pais imaginado por missionários.

E o que nós temos com isso? Tosta conta que no Brasil vai-se erguendo diariamente um muro entre as ‘elites esclarecidas’ e o povo ‘abandonado’. A propaganda do ‘sim’ menosprezou este aspecto: o que pode me dizer esta gente que vive em condomínios fortemente protegidos com seguranças por todos os lados ou em suas coberturas na Vieira Souto, de frente para o mar? Se é bom para o Chico Buarque e para a Fernanda Montenegro, porque é que seria para mim também? Os defensores do não se apresentam como ‘gente comum’, distante dos privilégios das ‘celebridades’, interessados em preservar os ‘direitos individuais’ do grosso da população. Este raciocínio encontra campo naturalmente fértil no Brasil, com a notória incompetência do setor público para resolver nossos gigantescos problemas sociais.

Em um movimento raro na política brasileira, o plebiscito do dia 23 marca o avanço do conservadorismo para além de seu gueto social e político. Mais: ele se consolida como primeiro herdeiro oficial do PT ao tomar deste o discurso moralista que o impulsionou – na definição brizolista da ‘UDN de macacão’ – nas décadas que passaram. Esta inversão de papéis no tabuleiro político revela-se tão instigante quanto perigosa. Não é por acaso que próceres da ‘nova’ direita já decidiram centrar sua munição em alvos bem específicos: a redução do limite de idade (fala-se em 12, 13 anos) para a penalização de infratores jovens, a oposição à união civil dos homossexuais, o combate à regulamentação do consumo e venda de drogas e do aborto. Vem mais por aí.

links: DR: www.diretodaredacao.com
Vida & Política: http://www.blog-se.com.br/blog/conteudo/home.asp?idBlog=11888

sexta-feira, outubro 28, 2005

Eu & Cultura - Valor Econômico de 28/10




Amigos, deixei o blog um pouco de lado, por conta da quantidade de reportagens que estive tocando nas duas últimas semanas. Esta aqui, sobre a ascensão da pornografia digital em terras de Uncle Sam, que inclui um bate-bola com a jornalista Pamela Paul, autora de 'Pornified", acaba de sair, neste fim de semana, no Valor Econômico.

TUDO O QUE VOCÊ GOSTARIA DE SABER SOBRE SEXO

Eduardo Graça, de Nova Iorque, para o Valor

Eles são jovens e decidiram encarar de frente o que consideram ser um aspecto sufocante da atual cultura pop americana: a pornografia. Colaboradora da revista “Time”, Pamela Paul escreveu ‘Pornified: How the Culture of Pornography Is Changing Our Lives, Our Relationships and Our Families’, um libelo contra os efeitos da exposição à pornografia vinte e quatro horas por dia que será lançado no Brasil pela Editora Cultrix. Repórter da “New York”, Ariel Levy acaba de lançar ‘Female Chauvinist Pigs: Women and the Rise of Raunch Culture’, em que cerra fogo contra uma visão vulgarizada da sexualidade feminina. E dois pastores da costa oeste, Craig Cross e Mike Foster, criaram a única igreja do mundo dedicada exclusivamente ao combate da pornografia. Afinal de contas, o que está acontecendo de tão intrigante assim na vida sexual dos americanos?

Pamela Paul, ‘trinta e poucos anos’, decididamente não gosta do que vê. Ela decidiu escrever ‘Pornified’ depois de terminar, há pouco menos de dois anos, uma reportagem para a ‘Time’ intitulada ‘O Elemento Pornô”. Os anos 90, conta, trouxeram o que ela qualifica de ‘massificação da pornografia’, com sua transformação em valor positivo, libertador e ‘cool’ dentro da cena cultural americana.

“O Elemento Pornô” se tornou a reportagem mais procurada e enviada por e-mail pelos assinantes da “Time”. Todos queriam ler a história dos homens que admitiam não conseguir mais manter uma ereção com suas esposas de 40 anos ou namoradas de 25. O motivo: elas não se pareciam nada com as estrelas pornográficas que passavam o dia, fogosas e lampeiras, nas telas de seus computadores.

Para investigar os efeitos da pornografia no cidadão comum, a repórter entrevistou mais de uma centena de pessoas e contratou um instituto de pesquisas. Os dados encontrados resultaram em um livro controverso, desde a capa – uma calcinha com as cores da bandeira americana, de dimensões mínimas, pendurada por pregadores em um varal. Por “Pornified” passam personagens como as meninas interessadas em criar seu próprio site erótico, a mulher que descobre a caixa secreta do marido com disquetes repletos de imagens de pornografia infantil e os garotos que gravam, exatamente como em um caso recente no Rio de Janeiro, suas relações sexuais com as adolescentes da escola.

Um mundo em que a intimidade é substituída pela valorização extrema da fantasia, do cinismo, da constante insatisfação e do isolamento emocional. E em que espectadores passivos vêem de casa, em rede de tevê aberta, os seios de Janet Jackson, para logo depois correr para a internet a fim de conferir o vídeo explícito de Paris Hilton, guardando um tempinho para devorar a autobiografia da atriz pornô Jenna Jameson, durante meses na lista dos mais vendidos na categoria não-ficção dos principais jornais do país. “A pornografia está em todos os lugares. Ela se tornou ‘hip’, sensual e divertida. É, oficialmente, parte de nossa rotina e interfere de modo inequívoco com a vida real”, diz a autora.

Se “Pornified” foi recebido por liberais como uma apologia alarmista dos tempos ‘neo-conservadores’ de Bush & cia, “Female Chauvinist Pigs” percorre caminhos diversos para chegar a conclusões parecidas. Para Ariel Levy, 30, o problema se agravou com as políticas neo-conservadoras: “Eu discordo de que a cultura americana seja sexualizada em demasia. É exatamente o oposto. Nós ainda estamos tão desconfortáveis com a complexidade do sexo que precisamos nos cercar destas caricaturas de ‘gostosonas’ para aceitarmos o prazer e a paixão. E agora, com a educação sexual pública direcionada para a abstinência, os adolescentes ficam espremidos entre duas mensagens opostas e radicais – a política conservadora do ‘apenas diga não’ e o discurso do ‘quanto mais selvagem melhor’”.

Ariel batizou uma personagem já conhecida da maioria dos americanos– a ‘mulher chauvinista’. Se o ‘porco chauvinista’ era aquele que tratava o sexo oposto como mercadoria, as meninas agora se apresentam felizes como objetos sexuais. Um dos exemplos de ‘mulheres chauvinistas’ usados por Ariel são as protagonistas do filme “As Panteras”, que chegou ao topo da bilheteria em 2000: “As atrizes falavam o tempo todo de estarem encarnando ‘mulheres fortes’, ‘senhoras de si’, enquanto seu figurino era baseado no estilo ‘soft-porn’. E a seqüência, em 2003, exigiu que elas fizessem um strip-tease para vencer os antagonistas”.

Mas Ariel sabe que ali mesmo, no mundo das revistas, um novo gênero emerge como sucesso de público – as ‘Lad Mags’, que incluem títulos como ‘Maxim’ e ‘Stuff’, oferecendo celebridades fotografadas em minúsculas roupas nas posições mais ousadas. Quando conversou com as editoras das revistas, Ariel ouviu que ‘finalmente as mulheres conseguiram o direito de ler a ‘Playboy’, de não se preocupar com a fetichização e a misoginia’. Se os homens tinham o direito de se afirmarem como ‘porcos chauvinistas’, por que não as mulheres?

Os dois estudos chegam às livrarias ao mesmo tempo em que a Universidade da Califórnia divulga uma pesquisa comparativa sobre os hábitos sexuais dos jovens americanos. De acordo com o estudo, , publicado pela ‘Review of General Psicology” e que se debruça sobre um universo de mais de um milhão de jovens entrevistados em cinco décadas, de 1943 a 1999, a idade em que a maioria das mulheres perdeu a virgindade caiu dos 19 para os 15 anos de idade. E a porcentagem de adolescentes sexualmente ativa subiu de 13 para 47%. Se a geração do ‘baby boom’ teve sua iniciação sexual na universidade, a garotada de hoje começa a manter relações sexuais na escola secundária.

Uma mudança cultural, observa Ariel, muito veloz: “Apenas trinta anos atrás minha mãe estava queimado sutiãs e comandando um boicote à ‘Playboy’. Agora minhas amigas estão colocando prótese e vestindo camisetas do coelhinho como símbolo de liberação. Para mim, liberada e libertária ainda são termos bem díspares. E acho válido perguntar a nós mesmas se este mundo de ‘peitolas’ e ‘coxões’ que ressuscitamos reflete o quão longe nós chegamos ou apenas o quão longe nos deixaram chegar”.

Em uma de suas edições deste outubro, outra revista, a insuspeita semanal ‘Time Out-New York’ dedicava-se justamente a mapear a invasão da indústria pornográfica no cotidiano cidade. “Talvez por nossa herança puritana, nós lidamos com a pornografia em um arco que vai da hipocrisia à esquizofrenia”, justificou o editor Howard Halle, ao explicar aos leitores por que a revista decidira abrir na capa uma foto de uma perna não-identificada, usando meia arrastão com o carimbo: ‘cuidado, contém material explícito!’.

Halle lembrou que até mesmo os conservadores já se renderam ao vocabulário da pornografia como uma maneira mais direta de se comunicar com seu rebanho. Uma dupla de pastores da Costa Oeste, Craig Gross, 29 e Mike Foster, 34, decidiu, com sucesso, se dedicar ao ministério da anti-pornografia.“Um dia eu estava no chuveiro e Deus disse uma única palavra – pornografia. E assim tudo começou”, lembra Foster no documentário “Missionary Positions”, hit entre jovens cristãos.

No filme, o diretor Bill Day acompanha os pastores em suas peregrinações por feiras de eventos eróticos em Las Vegas, sets de filmes de sexo explícito em Hollywood, casas de reabilitação para viciados em sexo no Kentucky. A dupla revela sua missão: “recuperar os profissionais do sexo e ajudar a pobre massa de sofredores afetada pela praga pornô que toma conta do planeta”.

O que atraiu Day para o projeto foi a transformação de dois surfistas que se utilizam das gírias da chamada ‘geração Jackass’ para difundir uma mensagem religiosa de grande aceitação nos flancos conservadores do país. No endereço www.xxxchurch.com, com a paginação gráfica típica dos sites de sexo pago, seios são substituídos por sermões, atos sexuais por salmos, contos eróticos por depoimentos de gente que deixou de lado a ‘dependência pornográfica’ para seguir ‘uma nova vida’. O sucesso da ação da dupla pode ser medido pela centena de igrejas que já aderiram ao “Porn Sunday”, um pacote de pregações que inclui um ‘kit-pornô’ para se discutir o tema e a apresentação do documentário. Tudo a módicos US$ 2.500, utilizados para a compra de materiais eveangélicos. “As pessoas ainda pensam que a pornografia é apenas uma questão de foro íntimo. Mas de acordo com nossa experiência ela é a responsável por um terço dos divórcios neste pais”, prega Gross.

Halle lembra que o ‘Journal of Religion and Society’ acaba de publicar uma pesquisa mostrando que os Estados Unidos são a nação do Primeiro Mundo que têm a maior incidência de aborto e doenças sexualmente transmissíveis, exatamente pela presença maciça de campanhas religiosas conservadoras: “Vai ver que isso também explica nosso caso de amor e ódio com a pornografia”.

ENTREVISTA/ PAMELA PAUL

- Qual a diferença entre o momento que vivemos agora e os anos 80, quando os vídeo levou a pornografia para dentro de casa?

- É muito importante destingir sexualidade e pornografia, que é a representação comercial de certas formas de sexualidade. Tende-se a pensar na pornografia como um entretenimento inofensivo, mas há efeitos colaterais extremamente negativos para quem a consome, particularmente em quantidades cavalares e em tempo real. A invenção do vídeo-cassete mudou sim a maneira das pessoas lidarem com a pornografia. Mas os canais à cabo e a internet intensificou este processo. Ninguém precisa mais ir ao cinema de filmes adultos, diminuindo-se, assim, o risco e a vergonha. A indústria pornográfica é hoje um negócio anônimo, acessível e razoavelmente barato, muito diferente de vinte anos atrás.

- Quando uma pessoa pode começar a pensar que a pornografia é um problema em sua vida pessoal?

- Alguns homens que eu entrevistei para o livro me contaram que para conseguir chegar ao orgasmo eles tinham de imitar os movimentos do que viam na internet. Outros contavam que perdiam horas no computador, viciados na pornografia, e que não conseguiam se dedicar da mesma forma ao trabalho. E outros se descobriam assustados com seu excitamento por um lado mais ‘hardcore’, incluindo falsas cenas de estupro.

- - “Pornified” defende a tese de que, hoje em dia, é mais difícil evitar a pornografia do que encontrá-la...

- É muito difícil evitar a pornografia on-line porque ela surge nos lugares mais inesperados. Trata-se de um negócio lucrativo e seus criadores são insaciáveis na promoção de seu produto. Há detalhes perniciosos como os sites com nomes de personagens de Disney, com a pronúncia alterada, criados especialmente para atrair crianças.

- Você diria que a pornografia na rede afeta a educação sexual de adolescentes?

-Ela é bem diferente das velhas imagens de mulheres nuas da “Playboy”, é mais extrema e mais literal. Adolescentes muitas vezes não conseguem realmente entender o que estão vendo. Pior: muitas crianças entram em contato com este mundo antes da puberdade. Outro dia eu conversei com uma pediatra que tratou de crianças que repetiam cenas pornôs que viram nos computadores de seus pais.

- 11 milhões de vídeos pornográficos são alugados todos os dias nos EUA. Você não acha que é um tempo imenso dedicado à pornografia?

- O tempo aumenta com o incremento da oferta. Imagine se as bebidas alcoólicas passassem a ser aceitas normalmente durante o dia. Se, ao invés de cafés, os bares abrissem de manhã e todos tomassem um coquetel antes de ir para o trabalho. E, no escritório, ao invés do cafezinho, as pessoas bebessem goles do seu drinque favorito o dia todo. Obviamente, o consumo de álcool seria elevado ao cubo! É exatamente o que está acontecendo com a pornografia. Ela é tão acessível, tão naturalmente aceita, que as pessoas estão consumindo-a aos borbotões.

- E por que você acha que um governo tão cioso da moral e dos bons costumes não se dedica a uma cruzada contra a pornografia?

-Porque estamos lidando com uma indústria imensa, poderosa, com um lobby muito eficiente. A maioria das empresas de comunicação a vê como uma cliente endinheirada, disposta como poucas a investir em propaganda. E os republicanos são ardentes defensores do mercado livre, contrários a qualquer medida reguladora. Mais: a pornografia ainda é vista por muitos como um assunto ‘feminista’.

- Mas você não acha que, de fato, a pornografia heterossexual retrata as mulheres de uma maneira ofensiva?

- Claro que sim, e o livro da Ariel(Levy) trata com atenção deste aspecto. Eu penso que a pornografia apresenta uma visão limitada e negativa da sexualidade feminina. Não concordo que ela possa ser sensual ou liberalizante. Ela é estreita, comercial e estereotipada. Mas ela limita igualmente o papel do homem.

- Mas não há nenhum momento em que a pornografia possa ser saudável?

- O sexo é saudável, a fantasia pode ser saudável, a masturbação é saudável e representações artísticas e sexualizadas da realidade podem ser maravilhosas. A pornografia, não. É terrível viver em uma sociedade em que nossas idéias sobre sexualidade são mediadas pela indústria pornográfica a um ponto tal que muitos pensam no consumo de seu produto como um sinal de saúde sexual.

domingo, outubro 23, 2005

O tempo, danado, tinhoso, certeiro.

Hoje é aniversário de Charly Garcia. O roqueiro argentino faz 54 anos e comemora com um show no Gran Rex, em Buenos Aires. Se eu pudesse, estaria sacolejando por lá. O 'Pagina 12' brindou a data publicando uma de suas letras mais doídas, do disco Filosofía barata y zapatos de goma, de 1990, sobre ele, o danado, o tinhoso, o certeiro:

Reloj de Plastilina

Una vez creí que nada iba a pasarme.
Una vez pensé que nadie iba a matarme.

El tiempo pasó
entre rayuelas y cometas
entre un amor y bicicletas
y aunque estuviera solo sabía jugar
aunque quisiera llorar.

Yo te quería amar y no sabía tu nombre.

Te quería encontrar, pero no sabía dónde
yo te fui a buscar
quería que todo fuera eterno
se fue el amor
llegó el invierno
y anduve tiritando en cualquier lugar
y sólo pude llorar.

Alcanzar lo interminable
rebotando en la pared
dando vueltas en el aire
mientras el payaso hace la red.

Nadie pudo ver que el tiempo era una herida
lástima nacer
y no salir con vida
yo quiero llorar.

Reloj de plastilina
no existes más
ya no te puedo esperar
mientras el payaso hace la red.

Salgo a caminar
y sigo imaginando
fui lo que creí
soy lo que está pasando
No quiero llorar.

No quiero estar envuelto en penas
siempre arrastrando estas cadenas
si el tiempo no es amigo
no importa más
yo sólo quiero jugar.

Jugar, jugar
sólo quiero ver jugar
yo sólo quiero jugar
sólo quiero jugar.

quinta-feira, outubro 13, 2005

Pobreza...aonde mesmo?

Hoje o NYT traz uma reportagem de Celia W.Dugger analisando os dados do Banco Mundial que mostram uma redução significativa dos níveis de pobreza na...antiga União Soviética. Desde 1998, quando a Crise Russa derrubou mercados em todo o mundo, 40 milhões de pessoas deixaram a pobreza para trás no Leste Europeu e nos países da antiga URSS. Os pobres ainda são 61 milhões, mas a proporção de miseráveis caiu de um para cada cinco habitantes para um e cada oito.

As razões para a melhora? Para o neo-con Banco Mundial foram duas: crescimento econômico e aumento da oferta de empregos. Mas pesquisadores locais falam do nível educacional dos trabalhadores da antiga União Soviética, mais alto do que o padrão, como um fator fundamental para a mobilidade social.

Os dados mostram um crescimento desigual: enquanto Rússia, Hungria, Moldávia, Romênia e Cazaquistão diminuem a pobreza a passos largos, a Polônia e a Geórgia continuam a aumentar as desigualdades sociais.

Enquanto isso, no Brasil e nos Estados Unidos...

A reportagem, em inglês, pode ser encontrada, para leitores cadastrados (de graça), no endereço http://www.nytimes.com/2005/10/13/international/europe/13russia.html

Pinter, sempre Pinter


"Os Estados Unidos são o mais perigoso império da história planetária. Eles são o autêntico Estado Bárbaro"

Harold Pinter, dramaturgo inglês, que acaba de ganhar o Nobel de Literatura-2005, em 10 de setembro de 2001, poucas horas antes do atentado contra as Torres Gêmeas, aqui em Nova Iorque.

Diretinho da Redação (33)




VOU VOTAR SIM

Os americanos estão morrendo de rir. Nas pequenas notas que aparecem nos jornais de cá sobre o plebiscito do dia 23, o deboche tem sido a regra. Ninguém consegue compreender como um país envolto em um gigantesco escândalo de corrupção e em uma perigosa crise institucional pode gastar mais de R$ 200 milhões no referendo sobre o desarmamento de seus cidadãos. Só no Brasil, me dizem.

Não, eu não sou apostolo do não. Não mesmo. Se o controle de venda de armas e munições estivesse valendo aqui nos Estados Unidos, não teríamos testemunhado a barbárie de Nova Orleans, quando um dos maiores problemas da polícia foi justamente lidar com cidadãos armados. O Centre for Humanitarian Dialogue, uma ONG seriíssima sediada em Genebra, acaba de lançar uma publicação em que mostra como a posse de armas por civis atravanca e muitas vezes impede mesmo a ajuda a necessitados em todo o mundo. Um em cada cinco trabalhadores engajados em programas de auxílio a populações afetadas por desastres já foram baleados por civis.

É claro que o desarmamento é uma pedra enorme no sapato dos americanos. Há todo o catecismo liberal de que uma consulta popular como a do dia 23 atenta contra a liberdade do indivíduo. Mas o buraco é mais embaixo. Os Estados Unidos são, desde 1993, o líder na exportação de armas para países ‘em desenvolvimento’, com lucros de US$ 61,5 bilhões. O negócio mobiliza mais de 300 fábricas e o mercado doméstico é considerado o maior do mundo. Estima-se que 34% dos americanos (uma multidão de 95 milhões de pessoas) possuem ao menos uma arma de fogo em casa. Existem hoje mais de 200 milhões de armas nas mãos de civis por aqui e pesquisas mostram que a maioria não se sente mais segura ao adquirir seu armamento.

Como não há legislação específica – o plebiscito brasileiro é pioneiro no mundo – a revenda de armas é hoje um dos grandes problemas da polícia norte-americana. A cada chacina em colégio de segundo grau ouve-se especialistas em segurança pública reclamando que não há como prevenir a compra de armas por adolescentes ou gente que já passou algum tempo no xilindró.

Aqui, vende quem quer, compra quem pode. E os crimes hediondos têm diminuído na mesma proporção em que aumentam os casos fatais de violência doméstica com o uso de armas.

Não me iludo achando que este desarmamento vai acabar com a violência urbana no país.

Mas, vem cá, afinal de contas, de que tanto riem os americanos?

Eu voto sim no dia 23.

Regina é de Morte



Minha amiga Regina Zappa lança dia 19 de outubro, na Argumento, seu mais novo livro, 'Doce Lar". Um suspense delicioso. Tô doido para chegar dezembro e poder ler este e o próximo que vem por aí...o perfilzão de Hugo Carvana.

Viva Regina!

sexta-feira, outubro 07, 2005

Ti-ti-ti (com Ivson Alves)

Amigos,

Ti-ti-ti é o que o nome sugere: um papo informal com gente, daqui e daí, que pensa, escreve e tem algo a dizer.

A estréia é neste segundo com o jornalista Ivson Alves, que, além de muitas outras coisas, criou em 1996 o site ‘Coleguinhas”, um dos pioneiros no jornalismo interneteiro no Brasil. Para quem não sabe, ele pode ser encontrado facinho, facinho, no blog ‘Picadinho”, garantia de boa informacão na rede.

Quer saber mais sobre ele? Vai lá, mané: http://www.coleguinhas.jor.br/picadinho.html


e: Vota SIM ou NÃO no dia 23?

i: Voto sim.

e: Quem resolveu buscar na imprensa brasileira uma orientação sobre
como votar no plebiscito saiu feliz da vida ou mais perdido que cego em
tiroteio?

i: Deve ter ficado puto, pois não conseguiu encontrar um debate real, com argumentos de um e de outro lado.

e: O projeto de transposição do São Francisco é a Transamazônica do
Lula?

i: Como vou saber? Ninguém bota os dois lados da questão. Só sei que ouço essa idéia tem pelo menos uns 30 anos e, pelo que entendi até agora, tem uma parte que nem é contra o projeto totalmente, quer apenas que ele leve mais tempo, havendo uma revitalização do rio primeiro, para depois modificar-lhe o curso.

e: E este Bispo Cappio, hein? Está mais para herói dos sertanejos ou para instrumento político de ACM?

i: Mais uma encarnação do messianismo típica do Nordeste - Padim Ciço, Frei Damião... - usado como arma política pelos poderosos de sempre.

e: Lula, nosso guia ou rei do trambique?

i: Um brasileiro comum que, como brasileiro comum, não entende os mecanismos do poder.

e: Remoção de favelas ontem, esterilização dos pobres hoje, o que está acontecendo com a direita festiva carioca?

i: Não tenho idéia. Não faço parte da corrente. Experimenta perguntar pro Millôr.

e: Denise Frossard ou Rosinha?

i: Passo.

e: Hillary ou Condoleezza?

i: Dureza...Hillary, mas só pra contrariar o Bush.

e: Castro ou Chavez?

i: Castro. Práxis muito superior

e: Os americanos agora estão chiando por conta da nova legislação venezuelana, que obriga as estações a tocar música produzida no país. A fiscalização é intensa e gente como Simon Diaz, que estava esquecida, voltou às paradas. Acha que responsabilidade social passa pela determinação do que deve ou não tocar no rádio?

i: Não, mas passa por determinar uma cota razoável - uns 35, 40% -, pois não dá pra encarar a indústria cultural americana na cara limpa.

e: Uma nota, maestro, para a política externa do governo Lula. E explica um tiquinho seus critérios.

i: Nota Oito. Ela procura um caminho próprio, diversificando parceiros, na política do "nunca segurar apenas numa Alca só". Não leva Dez, nota Dez, pela mania de "liderança". Como entre gente, liderança não se impõe também em política internacional.

e: Os blogs políticos são uma realidade por aqui e são vistos como meio importantíssimo nas eleições de 2008. E aí em Lulalândia? Eles terão alguma importância no pleito do ano que vem?

i: Cê só pode tá de sacanagem. Só uns 10% da população tem acesso à Internet e 90% desses tem como maior exercício intelectual escrever scraps no Orkut.

e: Qual foi a mais recente epifania que você viveu a partir de uma obra de arte produzida em 2005?

i: Produzida? Nenhuma. Mas lida, agora, "Fronda dos Mazombos", de Evaldo Cabral de Melo.

e: O peão gay se assume em ‘America’?

i: Não vejo novela. Não é pernosticismo não. Prefiro a Série B do Brasileiro, onde o Náutico vai bem, e as séries do Universal Channel.

e: E a esta altura do campeonato, o que você faria com o corpo de Lênin?

i: Botaria em praça pública e levaria crianças para elas verem que houve tempos em que os homens viam que o mundo estava indo pro brejo e faziam algo a respeito para impedir.

Diretinho da Redação (32)

O texto abaixo já pode ser lido no Direto da Redação (www.diretodaredacao.com)

TOLERÂNCIA ZERO COM O PREFEITO MALUQUINHO

Nada mais desigual. Enquanto o prefeito César Maia resolve desenterrar a idéia fascista de remoção de populações inteiras das favelas cariocas, por aqui a campanha municipal esquenta com o republicano Mike Bloomberg ostentando uma arma poderosíssima na luta pela reeleição: o índice de criminalidade nunca esteve tão baixo em Nova Iorque.

Na semana passada, aqui no Brooklyn, ele comemorou com uma platéia atenta o fato de que ‘nós somos a metrópole mais segura da América”. É claro, você vai me lembrar que tudo isso começou com Rudi Giuliani, o prefeito conservador que fechou sex shops, acabou com o vale-tudo da Rua 42 e cunhou um termo para as prisões em massa com pesadas penas dadas aos infratores: a tal da tolerância zero. De fato, Giuliani se elegeu com uma plataforma que esculhambava com a política de segurança do alcaide da vez, o negro democrata David Dinkins, perdido em uma batalha aparentemente sem fim contra a epidemia de crack na cidade.

Com Giuliani, o tráfico realmente deixou as ruas, mas para se confinar nos projetos habitacionais, e nunca tantos negros foram passar uma temporada no xilindró. Afinal, só entra para o ramo das drogas quem está nos patamares mais baixos da economia local. O republicano foi canonizado no exterior e é uma das possíveis opções do partido situacionista para a sucessão de Bush, mas os efeitos colaterais de sua política do ‘big stick’ local, copiadas da costa leste à Califórnia, são chagas ainda não cicatrizadas aqui na Big Apple.

O numero de adolescentes confinados para sempre na cadeias americanas é o maior do mundo – um dado que envergonha o país – e as tensões sociais criadas pela tolerância zero levaram o Harlem e os cafundós do Queens, do Bronx e do Brooklyn a uma sensação de segregação que não se via desde os anos 60. Quando um judeu ortodoxo apanhou mais do que Judas em sábado de Aleluia depois de atropelar um estudante negro em Crown Heights e, meses depois, seis brancos lincharam um negro no Queens em frente a um bar, a rica fauna de Park Avenue absorveu estas tragédias como ‘seqüelas inevitáveis’ de uma cidade de 8 milhões de habitantes e mais de 50 nacionalidades diferentes. Coisas da vida. Dos outros, é claro.

Bloomberg, um republicano de última hora, que só abandonou o Partido Democrata para conseguir legenda, pensa diferente. Sua estratégia, em um primeiro momento, parecia suicida. Ele reduziu o número de policiais, diminuiu o orçamento e a munição da polícia, concentrando sua ação nas áreas mais conflituosas, na chamada “Operação Impacto”. No entanto, desde que ele tomou o poder, os crimes reduziram em 20% . Mais: uma pesquisa acaba de mostrar que 53% dos negros aprovam a atuação de sua polícia, contra 21% no caso de Giuliani.

Semana passada o alcaide bilionário andava tranqüilamente pelo Harlem, uma área tradicionalmente hostil a políticos conservadores. Bloomberg lembrava os eleitores de que seu principal investimento na corporação foi em inteligência e tecnologia: hoje a polícia nova-iorquina mapeia melhor a cidade, identifica mais rapidamente as ameaças, conhece melhor os criminosos. As ligações para o 911 são agora todas digitalizadas – e usadas como evidência nos tribunais – , o uso de testes de DNA para evitar injustiças baseadas em preconceitos raciais é corriqueiro, e foi criado o ‘real time crime center’, que envia informações sobre suspeitos em tempo real, quase igual ao que se vê nas séries de televisão.

É claro que este é um investimento maciço de dinheiro que cidades como o Rio de Janeiro talvez não pudessem arcar. Mas quem disse que Nova Iorque tinha tudo isso em caixa? No exato momento a administração republicana projeta para 2006 um déficit de US$ 6 bilhões. Seus moradores, sentindo-se muito mais seguros, não parecem estar nem aí.

Com um índice de aprovação que beira os 70%, Bloomberg pensa agora em integrar mais os projetos habitacionais, aumentando as opções de transporte público e deslocando policiais para as escolas em que a população de renda mais baixa matricula seus filhos. Como se vê, até mesmo para um político conservador e com um terrível cacoete de desrespeitar as liberdades civis como Bloomberg, é possível executar uma política de segurança racional e efetiva ao mesmo tempo em que se combate o apartheid social. Tolerância zero com o prefeito maluquinho, minha gente!

Deda & Zuenir

Hoje o Correio me trouxe uma surpresa deliciosa: uma edição de sábado do jornal "Público", de Portugal. Lá dentro, na capa do suplemento-cabeça 'Mil Folhas', uma entrevista sensacional da querida amiga Andréia Azevedo Soares com seu colega Zuenir Ventura. Uma conversa carinhosa, animada, repleta de informação e que ocupa quatro páginas, destas que a gente raramente vê nos cadernos culturais dos jornais brasileiros.

Infelizmente, o bate-papo, ilustrado por imagens clicadas pelo fotógrafo Pedro Vilela, não está disponível na rede. Mas...a Deda, colega de outros tempos de outro 'Jornal do Brasil', pode ser encontrada a um clique do mouse em seu blog "Notícias do Cais", diretamente de Porto, Portugal:

www.noticiasdocais.blogspot.com

quinta-feira, outubro 06, 2005

Una Republica Bananera

O indispensável poeta argentino Juan Gelman desceu a lenha no governo norte-americano em artigo hoje no jornal argentino 'Pagina 12'.

Algumas tiradas:

* se um país se torna uma República das Bananas pelo tamanho de sua corrupção, os Estados Unidos são membros honorários do clube. Nada menos do que 273 ex-funcionários públicos deixaram seus postos entre 1998 e 2004 e conseguiram fechar contratos acima da casa dos milhão de dólar com a Casa Branca.

* o número de lobistas em Washington nunca foi tão grande: são 4.600 escritórios dedicados à prática de convencer legisladores, o Executivo e o Judiciário, de que suas idéias são as melhores. Para quem, é a questão mais capciosa, lembra Gelman.

* pelo menos cinco figurões ligados ao governo Bush respondem a procesos judiciais e foram afastados do poder por conta de corrupção.

O artigo, infelizmente apenas em espanhol, pode ser lido na íntegra em

http://www.pagina12.com.ar/imprimir/diario/contratapa/13-57506-2005-10-06.html.

segunda-feira, outubro 03, 2005

O Maravilhoso Mundo do Design

www.wmwmwm.com



O site do meu parceiro William Morrisey, reunindo sua produção mais recente e suas invencionices geniais já está no ar.

Eu sou mais do que suspeito - mas acho que vocês deveriam ir lá no http://www.wmwmwm.com/

Vale o passeio.

Santa Sinead do Reggae




"Throw Down Your Arms" - quando o reggae ganha um charme para lá de celta







Depois de uma entrevista nervosa à "Mojo" de outburo, Sinead O'Connor, a própria, foi destaque no caderno de Artes do "The New York Times" de hoje. Depois de ser ordenada 'sacerdotisa' por um dissidente da Igreja Católica e anunciar que jamais voltaria a gravar um disco de música, a irlandesa acaba de lançar "Throw Down Your Arms", inteiramente dedicado ao..reggae!

Pois o que poderia ser o dancehall da irlandesa maluca é um achado. O crítico Ben Ratliff, do NYT, chama o disco produzido por Sly Dunbar e Robbie Shakespeare de uma deliciosa surpresa.

- É conciso e elegante, com uma economia de sopros e de elementos característicos do ritmo. Seu sotaque irlandês e sua óvia crença no que canta fazem de "Throw Down Your Arms" uma obra-prima de interpretação pop.

Ou seja, a moça conseguiu mesmo traduzir no estúdio sua concepção de reggae - música popular para se rezar.

Quem quiser ter uma idéia do som, basta ir lá no http://www.scissorkick.com/2005/08/sinead-oconnor.html e baixar 'He Prayed", uma versão caprichadíssima de Burning Spear, que oferece quase metade dos clássicos revistos por Sinèad.

domingo, outubro 02, 2005

Tracy Chapman & America

Tracy Chapman, voz negra da América Contemporânea


Parece que foi ontem, mas lá se vão dezessete anos desde que aquela menina bochechuda, dos subúrbios da Nova Inglaterra, invadiu os aparelhos de som do mundo todo com seu violão afiado, uma voz poderosa e letras fortes em músicas como 'Talkin' Bout a Revolution", "Across The Lines", a grudenta "Baby Can I Hold You" e sua obra-prima, a delicada 'Fast Car".

Mês passado, Tracy voltou a pegar pesado com a América em seu "Where You Live". Não chega nem perto do discaço de 1988. Mas uma das faixas mais lindas, batizada apenas de "America", diz, em meio a fúnebres batidas afro, que "nós estamos cansados e de saco cheio, famintos e pobres, porque vocês ainda estão conquistando a América'".

Depois do que aconteceu em Nova Orleans, o timing de Chapman não poderia ser mais exato. Ela soa como um dedo apontado na cara de um país dividido e miserável.

Para ouvir "America", cá entre nós, basta ir lá no http://www.streetknowledge.net, um ótimo site-cabeça de uns amigos que adoram boa música. A foto de Tracy, que ilustra o post, é deles.

quinta-feira, setembro 29, 2005

O Banquete da Vergonha

Convidada para tomar um café da manhã com a primeira-dama Laura Bush no último sábado - coincidentemente o mesmo dia em que a grande manifestação contra a invasão do Iraque estava programada em Washington - a poeta e professora da NYU Sharon Olds não só recusou o 'privilégio' como publicou, na 'The Nation', uma carta aberta à primeira-dama norte-americana, com o sugestivo título 'Não Há Lugar para uma Poeta no Banquete da Vergonha'.

Vencedora do prêmio da National Books Critics Circle, ela desceu lenha na administração republicana, com tradução livre do blogueiro aqui:

_ Não poderia passar pela minha cabeça dividir o pão do café da manhã com a senhora. Eu sei que se sentasse para dividir uma refeicão com a senhora, pareceria para mim que eu estava, de alguma maneira, concordando com a barbárie promovida pela administração do seu marido. Muitos cidadãos que se sentiam orgulhosos por serem norte-americanos agora se sentem angustiados e envergonhados, por conta do atual regime de sangue, tortura e agressão. Quando recebi seu convite, eu pensei na impecável toalha de linho de sua mesa, na louça brilhante e nas velas tão bem cuidadas e, sinceramente, eu não teria estômago para tanto.

A carta, excepcional, pode ser lida na íntegra, infelizmente apenas em inglês, no www.thenation.com/doc/20051010/olds.

quarta-feira, setembro 28, 2005

Perversão Democrática

Acaba de chegar às ruas de Nova Iorque o semanário Village Voice com o título 'Quantos Mais Devem Morrer'?. A pergunta, sem rodeios, é feita pelo jornalista Sydney H.Schanberg, vencedor do Prêmio Pulitzer por suas reportagens sobre o Camboja, no fim dos anos 70, e um dos grandes repórteres que ajudaram a fazer a fama da revista dominical do The New York Times.

Em seu texto, Schanberg qualifica a situação atual - em que a maioria do país parece 'esquecer' que está em guerra em quatro continentes (contra os insurgentes iraquianos e afegãos na Ásia, terroristas na Ásia, África e Europa, e contra Castro e, extra-oficialmente, Chavez na América) - de 'perversão democrática'.

Em determinado momento, Schanberg, que viveu os horrores da guerra no Sudeste Asiático, pergunta aos americanos: "Estes homens e mulheres que se alistaram para lutar no Iraque e no Afeganistão serão tratados por nós como mercenários que lá nos representam? Ou nós verdadeiramente nos preocupamos com eles?"

Até hoje, 2.154 soldados americanos morreram nas incursões de Bush pela Ásia. Os feridos são mais de 15 mil. Não há qualquer estimativa oficial para o número de civis iraquianos mortos, mas grupos independentes afirmam que mais de 30 mil cidadãos pereceram desde a invasão militar de 2003.

Em tempo: o belo texto de Schanberg pode ser encontrado, de graça, no seguinte endereço: http://villagevoice.com/news/0539,schanberg,68215,6.html.

No site, o leitor ainda ganha um outro presente: a fantástica ilustração de Viktor Koen, em que um capacete militar é carimbado com os nomes de todos os americanos mortos na mais recente aventura militar do doutor George Bush.

Diretinho da Redação (31)


O texto abaixo já pode ser lido no Direto da Redação

A Desgraça dos Flagelados, II

É feia a situação.‘Seu Mister’ chega em casa depois de um dia duro de trabalho e ouve Jim Lehrer falar no jornal das sete que não tem nem Rita nem Katrina. O mais novo furacão que ameaça o sul dos Estados Unidos chama-se capitalismo de desastre, em sua versão caseira. Histórias e imagens do desespero e da miséria americanas continuam pipocando na televisão, mas o chocante agora é a disputa para saber quem é que vai ganhar mais dinheiro com a tragédia. A briga é de cachorro grande.

A AshBritt, empresa ligada ao governador republicano do Mississippi, Haley Barbour, saiu na frente e fechou contratos no valor de US$ 568 milhões para ‘remoção de entulho e lixo’ das áreas atingidas pelo furacão. Ela entra na categoria ‘emergencial’, que inclui 80% dos US$ 1,5 bilhão de contratos sem licitação já assinados pela FEMA (a agência federal de gerenciamento de emergências, uma espécie de Defesa Civil mais inflada e burocratizada).

Como a saudável e capitalista competição não aconteceu, ‘Seu Mister’ não se surpreendeu quando Lehrer contou que dois dos contratos mais suculentos – voltados para a reconstrução de infra-estrutura e saneamento básico em toda costa do Golfo do México – pararam justamente nas mãos da Halliburton e do Shaw Group. A primeira, como todos sabem, foi comandada pelo vice-presidente Dick Cheney. Já o Shaw Group tem entre seus representantes mais conhecidos ninguém menos que Joe Allbaugh, gerente das campanhas de Bush e diretor, até 2003, da mesma FEMA. Geni da vez, a agência foi responsabilizada pelo fiasco no atendimento aos flagelados de Nova Orleans. Foi Allbaugh quem (des)montou a equipe de emergência da FEMA, substituindo nos primeiros anos do governo republicano especialistas por quadros políticos.

Quando o Congresso liberou verbas especiais para a reconstrução da costa do Golfo do México (até esta semana US$ 250 milhões/dia), 'Seu Mister’ imaginou que estava dando dinheiro para os flagelados, não para os barões do capitalismo de desastre. Quando pensa na Halliburton, ele lembra que esta é a empresa que cobrou do governo (isto é, dos bolsos de seus amigos, o médico de Nova Jérsei, o mecânico de Detroit e o advogado de Manhattan) US$ 100 por trouxa de roupa dos militares americanos das bases de Bagdá. E que ofereceu para centenas de trabalhadores de origem filipina e turca contratados para a ‘recuperação’ do Iraque as sobras de comida vindas do lixo das tropas.

O senador negro Barack Obama, democrata de Chicago, já elaborou um projeto de lei exigindo que o governo Bush explique, tim-tim por tim-tim, como está gastando os bilhões de dólares liberados para a ‘recuperação dos nossos irmãos sulistas’, nas palavras do presidente. Ninguém sabe se o rolo-compressor republicano na casa vai aprovar esta boa iniciativa. Crente como a maioria de seus patrícios, 'Seu Mister' me diz que ainda aposta que não há nada como um dia atrás do outro. Mas até ele, quem diria, já começa a temer pelas ramificações desta tragédia, que começou com o abandono dos miseráveis e segue impiedosa na farra do dinheiro público e do lucro fácil a partir da desgraça dos flagelados americanos.

quinta-feira, setembro 22, 2005

Diretinho da Redação (30)

O texto abaixo já pode ser lido no Direto da Redação

As Voltas que o Tempo Dá

Às vezes é assim mesmo. A gente fecha os olhos e, quando olha novamente o mundo do lado de fora, parece que entrou em uma daquelas máquinas do tempo bem fuleiras, típicas dos filmes de ficção científica dos anos 60. Na televisão, um descabelado Bob Dylan canta ‘Blowin’in the Wind” anunciando que o novo sempre vem, na promoção de lançamento do aguardado documentário de Martin Scorsese. No sul do país começam os julgamentos de uma série de imbecis racistas responsáveis pelo linchamento de estudantes negros e ativistas pelos direitos civis quarenta anos atrás. E nas ruas de todos os Estados Unidos mães e jovens dão-se as mãos para protestar contra uma guerra sem sentido, a milhas e milhas de suas casas.

A amarga sensação de déja-vu me bateu ainda mais forte nesta segunda-feira, com a polícia prendendo manifestantes em plena Union Square. Cindy Sheehan, a mãe de Casey, soldado de 24 anos morto no Iraque, que ficou famosa por passar o verão acampada na frente do rancho de George W.Bush, estava lá. Esta era sua parada nova-iorquina em uma gigantesca viagem de ônibus que ela está fazendo por todo o país, sempre lançando no ar a mesma questão: o que nossos meninos ainda estão fazendo no Iraque e no Afeganistão?

Em Manhattan, Cindy não conseguiu terminar seu discurso. Os policiais, obedecendo uma determinação da administração republicana de Michael Bloomberg, cortaram-lhe o microfone. A justificativa era que os manifestantes não tinham uma licença especial para ficar incomodando os compradores das lojas vizinhas da Virgin Megastore e da Barnes & Noble. Enquanto centenas de ativistas políticos e consumidores em potencial gritavam juntos ‘Vergonha, Vergonha!”, o líder esquerdista Paul Zulkowitz foi levado de camburão para a delegacia – acusado de ‘promover a desordem em praça pública’.

Quando ainda podia falar, Cindy criticou a senadora Hillary Clinton por seu apoio à invasão do Iraque e à permanência das tropas em Bagdá. Depois contou que já percorreu 51 cidades em 28 estados do país, e que não pretende parar tão cedo. Em cada bairro ela descobre uma nova história, faz uma nova amizade, recebe o apoio de mais mães e familiares de soldados. Pode até ser um exagero de quem acaba de voltar de uma intensa viagem de algum lugar do passado, mas, com sua caravana, mamãe Cindy vai se tornando uma imagem importante no jogo político norte-americano. Como ela mesma diz, neste vaivém incessante de passado e futuro, 2008, afinal de contas, é logo ali.

terça-feira, setembro 20, 2005

Etica, Liberdade & Verdade

O texto abaixo, de César Benjamin, publicado na "Caros Amigos" de Setembro, me foi enviado pela querida Ana Cristina Machado. Belíssimo:


A diversidade de comportamento dos seres humanos sempre foi um enigma. Todos os outros seres, existentes na natureza, apresentam comportamentos de espécie, repetitivos, limitados, com possibilidade quase nula de variações individuais. O homem, porém, como diz Lévi-Strauss, é o único que, ao nascer, pode viver mil vidas diferentes. Qualquer um de nós poderia ser Mozart, qualquer um poderia ser Hitler. A criação de sinfonias e a perpetração de genocídios são possibilidades inscritas em nossa mais íntima constituição.

A constatação da diversidade humana foi feita, ao longo da história, por filósofos, historiadores, cronistas e viajantes, quase sempre como curiosidade. Passou a ser uma interrogação politicamente relevante no mundo ocidental quando se formaram os gigantescos impérios multinacionais centrados na Europa. Compreender as diferenças e manejar comportamentos desiguais tornaram-se desafios relevantes para quem precisava gerenciar sistemas de poder muito abrangentes.

As primeiras tentativas sistemáticas nesse sentido buscaram explicações no corpo dos indivíduos, no contexto da antropologia física. Sua culminância foi a construção do conceito de raças humanas, o mais importante e mais desastrado empreendimento das ciências sociais européias no século XIX. Ecos desse desacerto nos assombram até hoje. Estudos detalhados da fisiologia do cérebro e até do formato do crânio, para relacioná-los ao caráter de cada um, e medidas de inteligência, que tiveram respeitabilidade até a segunda metade do século XX, completaram as tentativas de localizar nos corpos de indivíduos e grupos a origem da diversidade humana.

A superação desse caminho, pela antropologia cultural, teve como ponto de partida a constatação de que o homem não apenas age, como os demais animais, mas interpreta sua ação. Todas as ações humanas são ações interpretadas, e ao mesmo tempo todas resultam de uma interpretação. Compreender o comportamento humano exige compreender os sistemas de interpretação construídos pela imaginação do próprio homem, o que nos remete ao universo simbólico, que é constitutivo da nossa existência tanto quanto o nosso corpo físico.

Por isso, quando tratamos do homem, qualquer discussão sobre o ser engloba necessariamente a questão do dever ser, aspectos indissolúveis. Este é o fundamento ontológico da ética, que desde Platão e Aristóteles ocupa um lugar de destaque na investigação sobre nós mesmos. Ethos, em grego, designa a morada do homem. Uma das sentenças mais antigas de Heráclito diz que “o ethos é o gênio protetor do homem”. Os gregos da idade clássica enxergaram aí uma verdade que convém nunca esquecer: seres vocacionados para a liberdade são livres para se destruir. Por isso, o espaço do mundo só se torna habitável, para esses seres, se eles se abrigarem no domínio do ethos.

Ao contrário do que nos dizem os marqueteiros todos os dias, para vender políticos e bugigangas, o mundo da liberdade não é aquele em que o homem faz o que quer ou faz o que é capaz de fazer em desabalada competição com os demais. É aquele em que o potencial criador se exerce dentro de um espaço culturalmente delimitado, socialmente legítimo, em que o certo e o errado, o bem e o mal estão definidos com suficiente clareza. Esse espaço não é rígido e imutável, é claro, mas precisa existir sempre. Fora dele o que se tem é a anomia e a ruína.

Com o descalabro do governo Lula, parece que nos aproximamos um pouco mais dessa temida situação que não queremos sequer conceber. É verdade: comissões parlamentares funcionam, o Ministério Público diz que investiga e a Justiça se mexe com os seus cuidados tradicionais, todos em busca de provas positivas e irrefutáveis que permitam avaliações supostamente sóbrias, baseadas na verdade dos fatos, exaustivamente demonstrada. Dificílima tarefa, muitas vezes impossível de ser cumprida, pois em princípio nenhuma afirmação factual pode estar além da dúvida. Aliás, como nos mostra a atividade política, freqüentemente as mentiras são mais plausíveis do que as verdades, que só vêm a público como exceção. Há um limite estrutural no funcionamento das instituições, entretanto necessárias em situações normais.

Todo cuidado é pouco. Silenciosamente, o Brasil pode estar transitando para além disso tudo, embora nos faltem os conceitos para expressar esse passo. Talvez a sociedade, em algum momento, busque socorro em possibilidades mais amplas, forçando os limites do que hoje se considera pensável. Talvez se canse da mentira e procure reencontrar uma verdade sua. Não será, certamente, a verdade dos letrados. Como será ela?

Os antigos persas usavam uma palavra que é traduzida como verdade: rta. Mas rta, para eles, também significava a potência que assegura que o Sol nasça a cada manhã, os princípios ordenadores que mantêm o universo funcionando, o conjunto de valores que liga pessoas e gerações, e outras verdades não passíveis de prova, sem as quais, porém, a existência é impossível. Na vida real, as verdades que resultam da experimentação científica, a qual serve de modelo para o nosso sistema jurídico, convivem com muitos outros tipos de verdade, entre as quais se destacam a tradição, a evidência e o bom senso. Ninguém pode provar que o Sol nascerá amanhã – como mostrou Poincaré, não se pode provar a estabilidade do sistema solar –, mas se não acreditarmos nisso a vida se torna inviável.

As verdades que podem ser provadas são apenas uma pequena parcela das verdades de que necessitamos para viver. Isso vale também para a sociedade. Se as instituições em vigor, com seus procedimentos formais, não forem capazes de favorecer um ambiente propício à vida em comum, se as únicas verdades que conseguem encontrar e aceitar são aquelas que as conduzem à impotência diante da grande crise, a sociedade poderá apelar à rta – aquela verdade-evidência que se impõe por seu peso e clareza –, baseando nela as suas decisões e ações. Foi o que os argentinos fizeram quando gritaram: que se vayan todos!

Se quisermos sair da crise, precisamos redescobrir urgentemente os significados mais amplos de conceitos fundamentais, como ética, liberdade e verdade.

César Benjamin é autor de A opção brasileira (Contraponto, 1998, nona edição) e Bom combate (Contraponto, 2004). Integra a coordenação nacional do Movimento Consulta Popular.

sexta-feira, setembro 16, 2005

A Verdade


Este texto eu fiz para o Valor Econômico no fim de agosto. Para quem não leu, é uma resenha sobre livros recém-lançados de dois filósofos tratando de tema recorrente nesses dias de crise: a tal da verdade.


A verdade, somente a verdade, nada mais do que a verdade. No momento em que a mentira se estabelece como moeda corrente no Brasil de Delúbios, Silvinhos, Valérios, Marinhos e Jeffersons, dois livros aparecem ao mesmo tempo nas livrarias daqui a fim de tratar de tema caro às democracias contemporâneas: a conquista da verdade. True To Life, do professor da Universidade de Connecticut Michael P. Lynch, é um livraço. Em pouco mais de 200 páginas, sem hermetismos, o filósofo mostra que a verdade não é uma idéia abstrata e que é ela, ainda, que faz a diferença no mundo contemporâneo, tanto na esfera pessoal quanto, especialmente, na pública. E em Truth – A Guide, o filósofo britânico Simon Blackburn traça a história da verdade na cultura ocidental, desde os gregos, passando pelas narrativas bíblicas, os pensadores da Idade Média, o pragmatismo norte-americano e os pós-modernos.

True To Life começa com uma mentira de Estado bem conhecida dos norte-americanos: a justificativa do governo George W. Bush para se iniciar a invasão do Iraque. Como se sabe, as tais armas químicas que poderiam prover Saddam Hussein com um poder de fogo assombroso jamais foram encontradas. Ninguém foi punido pela ‘mentira oficial’. Muito pelo contrario, o presidente foi reeleito mesmo depois da descoberta de que a motivação para o conflito carecia de fundamento. “E aí é claro que o cidadão tem todo o direito de se perguntar: por que prestar tanta atenção na verdade quando a mentira dá tanto resultado?”, questiona Lynch.

Ele mesmo responde. Este é um dos casos em que a maioria da sociedade – ou boa parte dela – prefere ‘esquecer certos deslizes’ em nome do pragmatismo. Assim, a noção de segurança e de proteção contra o ‘terror’, lembra Lynch, foram as principais justificativas para não se levar em conta a mentira republicana. Da mesma maneira, pode-se entender que boa parte da elite brasileira julgue de modo diferente figuras de um mesmo escândalo de corrupção. O ministro da Fazenda, ao atrelar sua imagem à calmaria do mercado financeiro, recebe um tratamento mais condescendente tanto da oposição quanto dos chamados setores produtivos da sociedade, preocupados em manter a estabilidade econômica. A idéia de que os fins justificam os meios, anti-democrática, anti-liberal e anti-republicana, ironicamente, pontua Lynch, é um dos principais legados do pragmatismo ianque à civilização ocidental.

Para o professor, esta idéia transviada da verdade nos chega hoje disfarçada de um cinismo pernicioso, que brota de nossa própria confusão. Lynch acredita que vivemos o tempo do ataque à verdade, e que esta batalha é travada em dois flancos principais. De um lado, as teorias contemporâneas sobre a noção de verdade nos garantem que esta é relativa e depende de inúmeros fatores – da concentração de conhecimento, da linguagem utilizada, da cultura, do gênero, da classe, da ideologia, do desejo, e, claro, do tamanho do poder de quem a propaga. De outro, como que em uma reação aos relativistas liberais, há a apropriação da verdade pelos neo-conservadores populistas, que se apegam aos ‘valores da moral’ e transformam a ‘verdade’ em ‘verdade única’, mesclando crença pessoal com dogmatismo e purificação ética, em que seus propagadores estão sempre certos e os opositores constantemente errados. “Valorizar a verdade passa necessariamente pelo reconhecimento do erro. Aquele que realmente entende o significado da verdade está sempre aberto para a possibilidade de que seus ideais e atos possam estar equivocados”, prega Lynch. O filósofo vai além e escreve que a arrogância dos que não vêm a público se penitenciar por erros cometidos durante o período em que estavam administrando a coisa pública é um dos maiores incentivos para o retrocesso democrático.

A se dar crédito a Lynch, quando uma sociedade se descobre emaranhada em uma rede de mentiras, como a brasileira dos Anos Lula ou a norte-americana de Bush, um caminho para a recuperação da cidadania é o entendimento da verdade como um valor por si só, objetivo, identificável e capaz de nos prover com uma segurança não-alienante. Discípulo do liberalismo clássico, Lynch elege como uma das principais vítimas de True to Life outro medalhão da inteligência norte-americana, Stanley Fish. Um dos papas do pós-modernismo, Fish defende que a verdade objetiva não é apenas uma ilusão, mas que a mera preocupação com sua natureza é uma imensa perda de tempo. Para ele, a verdade, por si só, não tem valor algum. “Ele afirma que as pessoas ‘dizem’ que querem acreditar na verdade, mas, no fim, desejam mesmo é acreditar no que lhes é proveitoso, no que as levam a algo concreto, como bons ternos, menos impostos a pagar ou uma fonte infinita de gasolina para seus veículos utilitários (os onipresentes SUVs). No fim do dia, ele acha que a verdade do que acreditamos deixa de ser importante. O que vale são as conseqüências”, escreve Lynch.

O professor da Universidade de Connecticut, é claro, pensa de modo completamente diverso. Um dos grandes desafios das democracias contemporâneas seria justamente o de lidar com a verdade no âmbito público sem concessões a expressões do cinismo mais rasteiro- como ‘ele é corrupto, mas quem não é?’ ou ‘ele emprega os parentes como funcionários do Estado, mas eu faria o mesmo’ – que nos impede de agir com integridade de modo coletivo, uma das armas mais importantes dos regimes políticos representativos. “Este é o valor mais poderoso para tratarmos com quem detém o poder político. E este é o motivo principal pelo qual devemos cuidar e preservar a verdade, valor fundamental para o bem-viver e para a qualidade de vida no mundo de hoje”, defende Lynch.

Ser verdadeiro consigo mesmo é um exercício diário e doloroso. Cobrar integridade e autenticidade de quem detém o Poder não é menos estafante. Mas, para Lynch, achar que a verdade não importa mais é um sinal de covardia, individual ou social. Ele lembra um dos mais famosos lemas do movimento dos Direitos Civis, nos anos 60, que dizia que ‘deixar de lutar pela verdade deixa para o Poder o monopólio da realidade’. A covardia social, especialmente, é alimentada pelos que o filósofo classifica como ‘mentirosos de resultado’, os que ganham o Poder e lá permanecem apesar de ou por conta das mentiras utilizadas para lá se chegar. “Muitas vezes o mentiroso de resultados, em uma visão romântica, transforma-se em celebridade e é admirado como o trapaceiro, o esperto, o malandro que consegue impor sua maneira de pensar o mundo, uma figura extremamente erotizada pela nossa sociedade”, escreve.

Tanto para Lynch quanto para Blackburn não há tema mais importante e urgente do que a verdade. Eles lembram quem já em “A República” Platão nos apresentava o diálogo sobre justiça entre Sócrates e Glauco como uma metáfora da apropriação perniciosa de valores caros à nossa civilização. Glauco acreditava que a Justiça era destinada a punir os outros e que jamais deveria ser utilizada para questionar seus atos. Lynch escreve que é assim que boa parte da sociedade ocidental percebe a verdade: como algo similar ao dinheiro, uma arma que nos permite realizar certos objetivos. A única saída possível para o filósofo é perceber que a verdade é muito mais próxima da noção de amor: é objetiva em sua essência, subjetiva em sua apreciação e tem a capacidade de existir em mais de uma forma. E também pode ser extremamente complicado encontrá-la e conviver com ela, mas vale a pena. Se há uma verdade absoluta, provoca Lynch, é que o aniquilamento da verdade leva ao assassinato da esperança e à corrupção não apenas de uma classe de dirigentes políticos ou religiosos, mas de toda a sociedade.

quinta-feira, setembro 15, 2005

Diretinho da Redação (29)

O texto abaixo já está no site Direto da Redação


Neguinho é f...

Neguinho é f... A contrapartida americana aos que não conseguem nem ouvir falar em ‘reserva de quotas’ para negros nas universidades brasileiras se mexeu com desenvoltura esta semana. Analistas e intelectuais conservadores saíram da toca em que haviam se metido desde a primeira semana de setembro para dizer que a ‘miséria escancarada’ de Nova Orleans não representa toda a nação. Que a pobreza americana é social e não racial. Um trelelê bem conhecido e repleto de intenções duvidosas, que pode ser derrubado facilmente com dados concretos.

A partir de fontes tão diversas quanto a Drug Police Alliance, o New England Journal of Medicine e os jornais Village Voice, Philadelphia Inquirer e Washington Post, o texto desta semana vai em tópicos mesmo, a fim de escancarar de forma direta e crua a cara - negra - da miséria americana:

• Negros norte-americanos na cadeia: cerca de 1 milhão de pessoas (quase todas perdem permanentemente o direito ao voto), ou 12% dos negros entre 20 e 34 anos.
• Negros norte-americanos desempregados: 1,4 milhão (ou 13% dos negros adultos). Em Nova Iorque, 50% dos negros não trabalham.
• Tráfico: 13% dos usuários de drogas são negros, mas 35% dos presos são afro-americanos, sendo que 74% dos presos por uso de drogas são negros.
• Apesar do uso de drogas por grávidas entre negras e brancas ser o mesmo, o Serviço Social reporta 10 vezes mais mulheres afro-americanas do que caucasianas a órgãos de proteção da criança.
• A expectativa de vida no Harlem é menor do que a de Bangladesh. As causas? Exposição demasiada ao estresse, traduzidas em problemas cardíacos, câncer e péssimo tratamento médico (descaso)
• Nos últimos 25 anos, um terço dos hospitais públicos norte-americanos fechou as portas.
• A família-padrão negra nos Estados Unidos recebe salários que equivalem a 60% da família padrão caucasiana. Esta mesma família concentra apenas 18% da riqueza arregimentada pela caucasiana.
• Os negros são 25% dos 37 milhões de pobres reconhecidos pelo governo americano. Para ilustrar: 20% são ‘latinos’.
• Desde 1968 o salário-mínimo nos Estados Unidos caiu, em valores reais, mais de 35%.
• Apesar de representarem 12% da população americana, 37% dos portadores de vírus da AIDS são negros. O grupo que vem aumentando mais rapidamente a infecção pelo HIV é o de mulheres negras.

E há muito mais. Mas então, mais desesperado do que combalido, peço a licença para pôr o volume no máximo com a Elza Soares berrando, com toda lucidez, que ‘a carne mais barata do mercado é a carne negra’. Aqui e acolá. Neguinho é f...

quarta-feira, setembro 14, 2005

O Que Ele Fala Por Aqui

Do diretor de 'Cidade de Deus', Fernando Meirelles, esta semana, lançando seu elogiado "O Jardineiro Fiel":

"O Brasil tem um programa de combate à epidemia da AIDS que é uma das únicas coisas que realmente funcionam direitinho no país. A outra é o futebol"

Frases, Frases

São dois para cá e dois para lá, sobre o furacão Katrina e suas feridas, para pensar:

"George Bush não dá a mínima para os negros".
Kayne West, estrela do rap.

"Já é hora de nós, americanos, derrubarmos esta horrenda verdade de que a cor da pele, a idade e a renda, nesta ordem, sejam fatores decisivos na hora de saber quem sobrevive e quem morre nas tragédias nacionais".
Howard Dean, presidente do Partido Democrata

"Para ser bem honesta, eu acho que estas duas declarações foram de um imenso mau gosto. É claro que o presidente Bush preza todos os cidadãos deste país".
Laura Bush, primeira-dama, em uma entrevista para uma rádio da Louisiana.

"Ninguém, especialmente o presidente Bush, decidiria que pessoas ficariam desassistidas por conta da raça delas".
Condoleezza Rice, Secretária de Estado e a negra na posição hierárquica mais alta do governo Bush.

quinta-feira, setembro 08, 2005

Diretinho da Redação (28)



O texto da semana já pode ser lido no www.diretodarecao.com e no www.click21.com.br



Vergonha, vergonha, vergonha

Os americanos atravessaram esta semana sob o signo da vergonha. Vergonha nacional. A destruição impiedosa causada pelo furacão Katrina é o 11 de Setembro às avessas de George W. Bush. É também – ao custo de dezenas de milhares de mortos, nas estimativas da prefeitura de Nova Orleans – o apocalipse da política neoliberal calcada no desmonte do Estado. Em todo o pais a pergunta é a mesma: aonde está a Guarda Nacional? Cadê o pessoal da Emergência? O que está fazendo o governo federal? Os bombeiros? A defesa civil? O serviço médico? O Terceiro Mundo é aqui.

As histórias que invadiram as casas democratas e republicanas dos Estados Unidos alimentaram o cidadão comum de vergonha.

Vergonha da mãe negra que teve de escolher entre as quatro filhas qual seria resgatada, pois o helicóptero utilizado para o salvamento tinha menos espaço do que deveria. Os demais ficaram ao deus-dará, no telhado de uma casa que já não existia, sem água, sem comida.

Vergonha do imigrante que preferiu enfrentar os riscos de uma cidade sem luz, sem ruas, sem serviços, sem lei, a ir para um abrigo e acabar deportado para o México.

Vergonha dos dois policiais que, não suportando mais as pressões, preferiram dar um tiro em suas próprias cabeças do que alvejar vizinhos.

Vergonha de um presidente omisso e que somente deixou suas férias no Texas – as mais longas jamais desfrutadas por um ocupante da Casa Branca - para dizer que estava sim mandando mais gente para a região do Golfo do México. Gente para dar cacetada nos que saqueavam as lojas e supermercados fechados.

Como em todas as tragédias, o desastre de Nova Orleans pode ser contado em detalhes aparentemente banais, mas que decidem vidas. O dia em que as águas ocuparam o centro histórico da cidade era justamente a véspera do recebimento do dinheiro contado da Previdência Social para milhares de pessoas. A ração dada pelo governo – uma média de US$ 600 para famílias de até seis componentes – poderia ter sido o maná a ser utilizado na compra de passagens de ônibus, de mantimentos, de água.

Mas, vergonha, a esmola federal jamais chegou aos lares miseráveis da Louisiana.

Foi preciso Nova Orleans desaparecer nas águas do Mississipi para que os americanos pudessem enxergar os milhares e milhares de abandonados por Tio Sam. A favela que existe em cada metrópole daqui saiu de sua invisibilidade na Louisiana de um modo dramático, tal qual um Mardi Gras sem música, uma quarta-feira de cinzas sem fim. A miséria norte-americana é negra e hispânica em sua maioria, mas cheira mal e é repleta de desespero e ignorância como em qualquer Mumbai, qualquer Rio de Janeiro, qualquer Cidade do Cabo, qualquer São Paulo, qualquer Bagdá.

As águas de Setembro que fecham este triste verão na zona norte do mundo podem carregar algo mais do que a vergonhosa falta de liderança republicana. Pesquisador de Nova Orleans, John Barry escreveu em 1998 “Rising Tide”, livro que, por motivos óbvios, pulou esta semana para a lista dos mais vendidos nas livrarias dos Estados Unidos.

De maneira objetiva, mas sem perder a emoção, ele conta detalhadamente como o dilúvio de 1927, no mesmo Mississipi, modificou para sempre os Estados Unidos, abrindo caminho para o New Deal de Roosevelt. O sistema de Previdência Social americano deve muito aos reflexos daquele desastre. O mesmo sistema que George W. Bush quer privatizar, uma de suas principais metas neste segundo mandato na Casa Branca.

Como agora, na enchente de 27 o governo federal, comandado por um conservador, Calvin Coolidge, foi acusado de negligência e descaso. Atordoados, os americanos seguem procurando descobrir um antídoto para a vergonha nacional. Ou, parafraseando Demétrio Magnoli, eles estão finalmente tendo de lidar com sua vergonhosa opção histórica: a de terem se transformado em uma civilização que sabe matar como poucas, mas que não tem a menor idéia de como proteger a vida. O Terceiro Mundo, definitivamente, é aqui.

quinta-feira, setembro 01, 2005

Diretinho da Redação (27)

O texto já está no Direto da Redação (www.diretodaredacao.com) e também no www.click21.com.br.

Uma Tragédia Social

Os barracos amontoados uns nos outros e o esgoto à céu aberto intensificam a sensação de filme repetido. Os rostos dos moradores são, em sua esmagadora maioria, negros. E a rotina de vida por eles descrita também não é novidadeira: milhares de pessoas vivendo sem a presença do Estado ou da polícia, jogadas ao deus-dará, sem água potável e eletricidade. E na favela de Cité Soleil, em Porto Príncipe, capital do Haiti ocupado pelas forças da ONU, os soldados de boina azul - em sua maioria brasileiros - são vistos com a mesma mescla de ódio e medo com que os moradores das favelas percebem nossa policia nos morros cariocas e na periferia paulistana. Se o Haiti não é aqui, como diz a música de Caetano e Gil, uma parte do Brasil – feia, miserável e injusta – está sendo bisada nas Antilhas.

Ao menos é o que nos contam os repórteres Walt Bogdanich e Jenny Nordberg, enviados pelo NY Times para cobrir as eleições gerais de novembro. Um outro jornalista, o excelente Ben Terral (autor de reportagens que doem nos ossos, seja no San Francisco Chronicle ou na Progressive e na In These Times) mantém uma página eletrônica diária do Haiti, em que segue denunciando atrocidades cometidas contra os moradores de favelas controladas por rebeldes saudosos do presidente Jean-Baptiste Aristide, deposto em fevereiro de 2004, com decidida ajuda americana.

Os militantes do Lavalas, o partido de Aristide, dizem que forças policiais treinadas pela ONU estão assassinando ‘rebeldes’ e ‘líderes comunitários’, sem distinção, com golpes de machado. O inimigo número um dos bonés azuis, Emanuel Wilmer (‘Wilmé, o Temido’), foi morto em um ataque no dia 6 de julho, em que pereceram outros ‘rebeldes’ e, de acordo com os moradores, muitas crianças e mulheres.

Um morador da favela, René Momplaisir, mostrou para os repórteres do NYT esta semana as fotos das crianças que ele conseguiu fotografar, ‘antes que os cachorros as comessem’, na noite do dia 6. “Por que as pessoas morrem deste jeito no Haiti? Porque aqui não há lei”, diz. Adeline Pierre, 28 anos, conta que estava grávida e perdeu o filho, vítima de uma bala perdida. A ONU acusa os rebeldes de usarem infantes e mulheres como escudo.

O mundo do vale-tudo haitiano é muito semelhante à tragédia social brasileira. O coordenador do Médicos Sem Fronteiras de lá conta que atendeu pelo menos 27 mulheres e/ou crianças feridas à bala na invasão do dia 6 de julho. Invasão, principalmente, porque em Porto Príncipe, assim como em muitas ‘comunidades’ cariocas, é preciso pedir permissão a quem manda para se entrar. A alternativa parece ser a de chegar atirando.

Com a aproximação das eleições, a pergunta é uma só: como fazer com que estes seres abandonados à própria sorte (instituições filantrópicas temem entrar nas áreas controladas pelos ‘rebeldes’) acreditem na democracia imposta? Como fazê-los sair de seus barracos no dia 13 de novembro e andar até às cabines eleitorais improvisadas para eleger presidente e legisladores, quando ‘representante popular’ é um termo nebuloso, quase irônico?

Apesar da boa cobertura da mídia daqui, os norte-americanos mandam sinais cada vez mais nítidos de que têm mais com o que se preocupar. Com um índice de reprovação na casa dos 53% por conta dos desmandos no Iraque ocupado e do aumento no preço da gasolina, o governo Bush não quer nem ouvir falar de Haiti. O presidente, que pretende manter algum poder de fogo na escolha de seu sucessor, interrompeu suas férias esta semana para se dedicar a assuntos internos, como os estragos do furacão Katrina no sul do país, qualificado pelos republicanos como ‘o nosso tsunami’, e a cruzada conservadora pela reforma da Previdência Social.

Não preciso nem dizer que o Brasil está mais do que ocupado tentando preservar a República dos dramalhões de Jeffersons e Dirceus, mas quem sabe uma dose de Cité Soleil não nos ensinaria mais sobre nossa própria desgraça social?

Durante a Segunda Guerra relatos como os de Rubem Braga nos ajudaram a repensar o Brasil governado por um ditador enquanto nossos pracinhas ‘lutavam pela liberdade’. Sim, a batalha era outra, o cenário e o tempo completamente diversos, mas ainda estamos a esperar o escriba brasileiro de Porto Príncipe.

Enquanto isso uma imagem de um Brasil preconceituoso, conivente com a exclusão, covarde e submisso vai sendo forjada nas Antilhas sem que tenhamos noção do tamanho do estrago. Já é hora de a imprensa abrir suas páginas e discutir de forma ampla o que esta aventura nas ilhas nos revela de nossa própria alma verde e amarela.

quinta-feira, agosto 25, 2005

A Verdade

Para quem quiser prestigiar o blogueiro aqui, sai amanhã, no suplemento de fim de semana do Valor Econômico uma matéria sobre dois livros que tratam de tema interessante e atual para nosso Brasil - a verdade.

Os filósofos Simon Blackburn, de Cambridge, e, principalmente, Michael P. Lynch, da Universidade de Connecticut, tratam da importância da Verdade para o funcionamento das democracias contemporâneas, criticam o cinismo imperante, falam das mentiras de Estado e do perigo das sociedades dominadas pela covardia social, que vêem a Verdade mais como um fim do que como um princípio. Amanhã, nas bancas brasileiras ou, para assinantes, no www.valor.com.br.

abraços em todos,
Edu

quarta-feira, agosto 24, 2005

Diretinho da Redação (26)



Uma & Eu

Uma das obsessões dos nova-iorquinos é encontrar restaurantes e bares ao ar livre no verão. Como aqui a estação dura de fato pouco menos de quatro meses, esta é a chance de se apreciar uma refeição ao sol, com céu azul ao fundo e um monte de gente querendo ver e ser vista. Gente que vai ao Shake Shack, uma lanchonete assim-assim que tem como maior atração justamente o fato de estar situada na Madison Square, a meio caminho da Union Square e da Penn Station. Foi lá que lanchei, dia desses, ao lado de Uma Thurman, Ethan Hawke e seus pimpolhos Maya e Roan.

Antes de mais nada – eu não sabia que o casal de divorciados tinha dois filhos. Também não poderia imaginar que Maya tinha seis e Roan três aninhos. Muito menos que eles curtiam brincar no parquinho da Madison nestas tardes quentes de verão e que aquele era justamente o local em que a atriz e seu ex-marido colocavam o papo em dia. Tá bem, confesso, eu escutei a conversa alheia, mas somente depois que Uma colocou o dedo na cara do Ethan. Foi justamente este detalhe que motivou a amiga a me condenar, mais tarde: “mas você deveria ter fotografado a cena! Iria ganhar uma bolada com esta imagem!”

Eu nunca havia me deparado com a Uma antes. Não ao vivo. Fiquei me perguntando o que o Ethan teria feito para despertar tanta raiva assim da Noiva de Kill Bill e se ele não sabia com quem estava mexendo. Depois lembrei que minha câmera estava logo ali na parte da frente da bolsa, pois depois do sanduba seguiria para uma reportagem sobre a inauguração de um novo museu nas cercanias de Columbus Circle.

Um turbilhão de sensações e pensamentos invadiu minha cabeça: estava em uma posição privilegiada - o que nos separava era uma vegetação baixa - tiro ou não tiro a foto? - minha digital é mínima - eles jamais iriam perceber - tiro ou não? - o dedo longilíneo de Uma continua em riste - eu nunca fui mesmo com a cara do Ethan - tiro ou? - sempre o achei um canastrão com cara de bebê chorão - ele bem que merecia - tiro? - as crianças voltam para a mesa sorridentes - o dedo baixa - eles sorriem - não tiro.

Não cliquei. No caminho para o museu, um jornal distribuído gratuitamente no metrô cai nas minhas mãos. A reportagem conta a história da terceirização dos caçadores de celebridades: imigrantes ilegais estão sendo treinados por revistas de fofoca para fotografar os famosos. Como trabalham sem contrato formal e em geral não são facilmente identificáveis, torna-se quase impossível para os caríssimos advogados de Beverly Hills conseguir arrancar algum dinheiro ou reparação para seus clientes, em geral estrelas de Hollywood. Se flagrados antes de a foto chegar às mãos dos editores de fotografia, as revistas dizem que jamais fizeram qualquer contato com tal indivíduo.

Mas, de acordo com dois renomados especialistas entrevistados pelo repórter, há um atrativo ainda maior do que o dinheiro para o substancial aumento do número de paparazzi nos Estados Unidos: eles acreditam que fazem parte de Hollywood e, claro, concluem, todos querem fazer parte de Hollywood. Jogo imediatamente o jornal lixeira abaixo, decidido a passar um longo tempo afastado das salas de cinema-pipoca da cidade. Eu, hein..

terça-feira, agosto 23, 2005

Trilhões de Dólares

Secretária-assistente do Departamento de Comércio dos Estados Unidos no governo Clinton, Linda Bilmes fez as contas da aventura ianque no Iraque e no Afeganistão, que o New York Times publicou neste fim de semana. Os números são impressionantes, todos em bilhões de dólares:

• montante gasto até o momento apenas nas operações militares: 258 bi
• custo estimado da ocupação nos próximos cinco anos: 460 bi
• custo com veteranos de guerra (tanto Iraque quanto Afeganistão): 315 bi
• déficit financeiro estimado (cinco anos): 220 bi
• impacto econômico interno gerado pelo aumento do preço do barril de petróleo (cálculo do FMI): 119 bi
• Custo total das invasões de Iraque e Afeganistão até 2010: 1,372 trilhão de dólares.

A dimensão da gastança, diz a professora Bilmes, uma das estrelas da prestigiada Kennedy School, de Harvard, tem sido mascarada por Washington. Eles agora estão sendo cantados em verso e prosa em todas as manifestações que pedem o retorno das tropas ativas no Oriente Médio. Se o governo Bush não se sensibiliza com os mais de 2 mil americanos mortos e 15 mil feridos seriamente desde 2001, o imenso buraco nas contas públicas já está fazendo com que muitos republicanos temam uma derrota retumbante nas eleições parlamentares do ano que vem.