sexta-feira, outubro 07, 2005

Ti-ti-ti (com Ivson Alves)

Amigos,

Ti-ti-ti é o que o nome sugere: um papo informal com gente, daqui e daí, que pensa, escreve e tem algo a dizer.

A estréia é neste segundo com o jornalista Ivson Alves, que, além de muitas outras coisas, criou em 1996 o site ‘Coleguinhas”, um dos pioneiros no jornalismo interneteiro no Brasil. Para quem não sabe, ele pode ser encontrado facinho, facinho, no blog ‘Picadinho”, garantia de boa informacão na rede.

Quer saber mais sobre ele? Vai lá, mané: http://www.coleguinhas.jor.br/picadinho.html


e: Vota SIM ou NÃO no dia 23?

i: Voto sim.

e: Quem resolveu buscar na imprensa brasileira uma orientação sobre
como votar no plebiscito saiu feliz da vida ou mais perdido que cego em
tiroteio?

i: Deve ter ficado puto, pois não conseguiu encontrar um debate real, com argumentos de um e de outro lado.

e: O projeto de transposição do São Francisco é a Transamazônica do
Lula?

i: Como vou saber? Ninguém bota os dois lados da questão. Só sei que ouço essa idéia tem pelo menos uns 30 anos e, pelo que entendi até agora, tem uma parte que nem é contra o projeto totalmente, quer apenas que ele leve mais tempo, havendo uma revitalização do rio primeiro, para depois modificar-lhe o curso.

e: E este Bispo Cappio, hein? Está mais para herói dos sertanejos ou para instrumento político de ACM?

i: Mais uma encarnação do messianismo típica do Nordeste - Padim Ciço, Frei Damião... - usado como arma política pelos poderosos de sempre.

e: Lula, nosso guia ou rei do trambique?

i: Um brasileiro comum que, como brasileiro comum, não entende os mecanismos do poder.

e: Remoção de favelas ontem, esterilização dos pobres hoje, o que está acontecendo com a direita festiva carioca?

i: Não tenho idéia. Não faço parte da corrente. Experimenta perguntar pro Millôr.

e: Denise Frossard ou Rosinha?

i: Passo.

e: Hillary ou Condoleezza?

i: Dureza...Hillary, mas só pra contrariar o Bush.

e: Castro ou Chavez?

i: Castro. Práxis muito superior

e: Os americanos agora estão chiando por conta da nova legislação venezuelana, que obriga as estações a tocar música produzida no país. A fiscalização é intensa e gente como Simon Diaz, que estava esquecida, voltou às paradas. Acha que responsabilidade social passa pela determinação do que deve ou não tocar no rádio?

i: Não, mas passa por determinar uma cota razoável - uns 35, 40% -, pois não dá pra encarar a indústria cultural americana na cara limpa.

e: Uma nota, maestro, para a política externa do governo Lula. E explica um tiquinho seus critérios.

i: Nota Oito. Ela procura um caminho próprio, diversificando parceiros, na política do "nunca segurar apenas numa Alca só". Não leva Dez, nota Dez, pela mania de "liderança". Como entre gente, liderança não se impõe também em política internacional.

e: Os blogs políticos são uma realidade por aqui e são vistos como meio importantíssimo nas eleições de 2008. E aí em Lulalândia? Eles terão alguma importância no pleito do ano que vem?

i: Cê só pode tá de sacanagem. Só uns 10% da população tem acesso à Internet e 90% desses tem como maior exercício intelectual escrever scraps no Orkut.

e: Qual foi a mais recente epifania que você viveu a partir de uma obra de arte produzida em 2005?

i: Produzida? Nenhuma. Mas lida, agora, "Fronda dos Mazombos", de Evaldo Cabral de Melo.

e: O peão gay se assume em ‘America’?

i: Não vejo novela. Não é pernosticismo não. Prefiro a Série B do Brasileiro, onde o Náutico vai bem, e as séries do Universal Channel.

e: E a esta altura do campeonato, o que você faria com o corpo de Lênin?

i: Botaria em praça pública e levaria crianças para elas verem que houve tempos em que os homens viam que o mundo estava indo pro brejo e faziam algo a respeito para impedir.

Diretinho da Redação (32)

O texto abaixo já pode ser lido no Direto da Redação (www.diretodaredacao.com)

TOLERÂNCIA ZERO COM O PREFEITO MALUQUINHO

Nada mais desigual. Enquanto o prefeito César Maia resolve desenterrar a idéia fascista de remoção de populações inteiras das favelas cariocas, por aqui a campanha municipal esquenta com o republicano Mike Bloomberg ostentando uma arma poderosíssima na luta pela reeleição: o índice de criminalidade nunca esteve tão baixo em Nova Iorque.

Na semana passada, aqui no Brooklyn, ele comemorou com uma platéia atenta o fato de que ‘nós somos a metrópole mais segura da América”. É claro, você vai me lembrar que tudo isso começou com Rudi Giuliani, o prefeito conservador que fechou sex shops, acabou com o vale-tudo da Rua 42 e cunhou um termo para as prisões em massa com pesadas penas dadas aos infratores: a tal da tolerância zero. De fato, Giuliani se elegeu com uma plataforma que esculhambava com a política de segurança do alcaide da vez, o negro democrata David Dinkins, perdido em uma batalha aparentemente sem fim contra a epidemia de crack na cidade.

Com Giuliani, o tráfico realmente deixou as ruas, mas para se confinar nos projetos habitacionais, e nunca tantos negros foram passar uma temporada no xilindró. Afinal, só entra para o ramo das drogas quem está nos patamares mais baixos da economia local. O republicano foi canonizado no exterior e é uma das possíveis opções do partido situacionista para a sucessão de Bush, mas os efeitos colaterais de sua política do ‘big stick’ local, copiadas da costa leste à Califórnia, são chagas ainda não cicatrizadas aqui na Big Apple.

O numero de adolescentes confinados para sempre na cadeias americanas é o maior do mundo – um dado que envergonha o país – e as tensões sociais criadas pela tolerância zero levaram o Harlem e os cafundós do Queens, do Bronx e do Brooklyn a uma sensação de segregação que não se via desde os anos 60. Quando um judeu ortodoxo apanhou mais do que Judas em sábado de Aleluia depois de atropelar um estudante negro em Crown Heights e, meses depois, seis brancos lincharam um negro no Queens em frente a um bar, a rica fauna de Park Avenue absorveu estas tragédias como ‘seqüelas inevitáveis’ de uma cidade de 8 milhões de habitantes e mais de 50 nacionalidades diferentes. Coisas da vida. Dos outros, é claro.

Bloomberg, um republicano de última hora, que só abandonou o Partido Democrata para conseguir legenda, pensa diferente. Sua estratégia, em um primeiro momento, parecia suicida. Ele reduziu o número de policiais, diminuiu o orçamento e a munição da polícia, concentrando sua ação nas áreas mais conflituosas, na chamada “Operação Impacto”. No entanto, desde que ele tomou o poder, os crimes reduziram em 20% . Mais: uma pesquisa acaba de mostrar que 53% dos negros aprovam a atuação de sua polícia, contra 21% no caso de Giuliani.

Semana passada o alcaide bilionário andava tranqüilamente pelo Harlem, uma área tradicionalmente hostil a políticos conservadores. Bloomberg lembrava os eleitores de que seu principal investimento na corporação foi em inteligência e tecnologia: hoje a polícia nova-iorquina mapeia melhor a cidade, identifica mais rapidamente as ameaças, conhece melhor os criminosos. As ligações para o 911 são agora todas digitalizadas – e usadas como evidência nos tribunais – , o uso de testes de DNA para evitar injustiças baseadas em preconceitos raciais é corriqueiro, e foi criado o ‘real time crime center’, que envia informações sobre suspeitos em tempo real, quase igual ao que se vê nas séries de televisão.

É claro que este é um investimento maciço de dinheiro que cidades como o Rio de Janeiro talvez não pudessem arcar. Mas quem disse que Nova Iorque tinha tudo isso em caixa? No exato momento a administração republicana projeta para 2006 um déficit de US$ 6 bilhões. Seus moradores, sentindo-se muito mais seguros, não parecem estar nem aí.

Com um índice de aprovação que beira os 70%, Bloomberg pensa agora em integrar mais os projetos habitacionais, aumentando as opções de transporte público e deslocando policiais para as escolas em que a população de renda mais baixa matricula seus filhos. Como se vê, até mesmo para um político conservador e com um terrível cacoete de desrespeitar as liberdades civis como Bloomberg, é possível executar uma política de segurança racional e efetiva ao mesmo tempo em que se combate o apartheid social. Tolerância zero com o prefeito maluquinho, minha gente!

Deda & Zuenir

Hoje o Correio me trouxe uma surpresa deliciosa: uma edição de sábado do jornal "Público", de Portugal. Lá dentro, na capa do suplemento-cabeça 'Mil Folhas', uma entrevista sensacional da querida amiga Andréia Azevedo Soares com seu colega Zuenir Ventura. Uma conversa carinhosa, animada, repleta de informação e que ocupa quatro páginas, destas que a gente raramente vê nos cadernos culturais dos jornais brasileiros.

Infelizmente, o bate-papo, ilustrado por imagens clicadas pelo fotógrafo Pedro Vilela, não está disponível na rede. Mas...a Deda, colega de outros tempos de outro 'Jornal do Brasil', pode ser encontrada a um clique do mouse em seu blog "Notícias do Cais", diretamente de Porto, Portugal:

www.noticiasdocais.blogspot.com

quinta-feira, outubro 06, 2005

Una Republica Bananera

O indispensável poeta argentino Juan Gelman desceu a lenha no governo norte-americano em artigo hoje no jornal argentino 'Pagina 12'.

Algumas tiradas:

* se um país se torna uma República das Bananas pelo tamanho de sua corrupção, os Estados Unidos são membros honorários do clube. Nada menos do que 273 ex-funcionários públicos deixaram seus postos entre 1998 e 2004 e conseguiram fechar contratos acima da casa dos milhão de dólar com a Casa Branca.

* o número de lobistas em Washington nunca foi tão grande: são 4.600 escritórios dedicados à prática de convencer legisladores, o Executivo e o Judiciário, de que suas idéias são as melhores. Para quem, é a questão mais capciosa, lembra Gelman.

* pelo menos cinco figurões ligados ao governo Bush respondem a procesos judiciais e foram afastados do poder por conta de corrupção.

O artigo, infelizmente apenas em espanhol, pode ser lido na íntegra em

http://www.pagina12.com.ar/imprimir/diario/contratapa/13-57506-2005-10-06.html.

segunda-feira, outubro 03, 2005

O Maravilhoso Mundo do Design

www.wmwmwm.com



O site do meu parceiro William Morrisey, reunindo sua produção mais recente e suas invencionices geniais já está no ar.

Eu sou mais do que suspeito - mas acho que vocês deveriam ir lá no http://www.wmwmwm.com/

Vale o passeio.

Santa Sinead do Reggae




"Throw Down Your Arms" - quando o reggae ganha um charme para lá de celta







Depois de uma entrevista nervosa à "Mojo" de outburo, Sinead O'Connor, a própria, foi destaque no caderno de Artes do "The New York Times" de hoje. Depois de ser ordenada 'sacerdotisa' por um dissidente da Igreja Católica e anunciar que jamais voltaria a gravar um disco de música, a irlandesa acaba de lançar "Throw Down Your Arms", inteiramente dedicado ao..reggae!

Pois o que poderia ser o dancehall da irlandesa maluca é um achado. O crítico Ben Ratliff, do NYT, chama o disco produzido por Sly Dunbar e Robbie Shakespeare de uma deliciosa surpresa.

- É conciso e elegante, com uma economia de sopros e de elementos característicos do ritmo. Seu sotaque irlandês e sua óvia crença no que canta fazem de "Throw Down Your Arms" uma obra-prima de interpretação pop.

Ou seja, a moça conseguiu mesmo traduzir no estúdio sua concepção de reggae - música popular para se rezar.

Quem quiser ter uma idéia do som, basta ir lá no http://www.scissorkick.com/2005/08/sinead-oconnor.html e baixar 'He Prayed", uma versão caprichadíssima de Burning Spear, que oferece quase metade dos clássicos revistos por Sinèad.

domingo, outubro 02, 2005

Tracy Chapman & America

Tracy Chapman, voz negra da América Contemporânea


Parece que foi ontem, mas lá se vão dezessete anos desde que aquela menina bochechuda, dos subúrbios da Nova Inglaterra, invadiu os aparelhos de som do mundo todo com seu violão afiado, uma voz poderosa e letras fortes em músicas como 'Talkin' Bout a Revolution", "Across The Lines", a grudenta "Baby Can I Hold You" e sua obra-prima, a delicada 'Fast Car".

Mês passado, Tracy voltou a pegar pesado com a América em seu "Where You Live". Não chega nem perto do discaço de 1988. Mas uma das faixas mais lindas, batizada apenas de "America", diz, em meio a fúnebres batidas afro, que "nós estamos cansados e de saco cheio, famintos e pobres, porque vocês ainda estão conquistando a América'".

Depois do que aconteceu em Nova Orleans, o timing de Chapman não poderia ser mais exato. Ela soa como um dedo apontado na cara de um país dividido e miserável.

Para ouvir "America", cá entre nós, basta ir lá no http://www.streetknowledge.net, um ótimo site-cabeça de uns amigos que adoram boa música. A foto de Tracy, que ilustra o post, é deles.

quinta-feira, setembro 29, 2005

O Banquete da Vergonha

Convidada para tomar um café da manhã com a primeira-dama Laura Bush no último sábado - coincidentemente o mesmo dia em que a grande manifestação contra a invasão do Iraque estava programada em Washington - a poeta e professora da NYU Sharon Olds não só recusou o 'privilégio' como publicou, na 'The Nation', uma carta aberta à primeira-dama norte-americana, com o sugestivo título 'Não Há Lugar para uma Poeta no Banquete da Vergonha'.

Vencedora do prêmio da National Books Critics Circle, ela desceu lenha na administração republicana, com tradução livre do blogueiro aqui:

_ Não poderia passar pela minha cabeça dividir o pão do café da manhã com a senhora. Eu sei que se sentasse para dividir uma refeicão com a senhora, pareceria para mim que eu estava, de alguma maneira, concordando com a barbárie promovida pela administração do seu marido. Muitos cidadãos que se sentiam orgulhosos por serem norte-americanos agora se sentem angustiados e envergonhados, por conta do atual regime de sangue, tortura e agressão. Quando recebi seu convite, eu pensei na impecável toalha de linho de sua mesa, na louça brilhante e nas velas tão bem cuidadas e, sinceramente, eu não teria estômago para tanto.

A carta, excepcional, pode ser lida na íntegra, infelizmente apenas em inglês, no www.thenation.com/doc/20051010/olds.

quarta-feira, setembro 28, 2005

Perversão Democrática

Acaba de chegar às ruas de Nova Iorque o semanário Village Voice com o título 'Quantos Mais Devem Morrer'?. A pergunta, sem rodeios, é feita pelo jornalista Sydney H.Schanberg, vencedor do Prêmio Pulitzer por suas reportagens sobre o Camboja, no fim dos anos 70, e um dos grandes repórteres que ajudaram a fazer a fama da revista dominical do The New York Times.

Em seu texto, Schanberg qualifica a situação atual - em que a maioria do país parece 'esquecer' que está em guerra em quatro continentes (contra os insurgentes iraquianos e afegãos na Ásia, terroristas na Ásia, África e Europa, e contra Castro e, extra-oficialmente, Chavez na América) - de 'perversão democrática'.

Em determinado momento, Schanberg, que viveu os horrores da guerra no Sudeste Asiático, pergunta aos americanos: "Estes homens e mulheres que se alistaram para lutar no Iraque e no Afeganistão serão tratados por nós como mercenários que lá nos representam? Ou nós verdadeiramente nos preocupamos com eles?"

Até hoje, 2.154 soldados americanos morreram nas incursões de Bush pela Ásia. Os feridos são mais de 15 mil. Não há qualquer estimativa oficial para o número de civis iraquianos mortos, mas grupos independentes afirmam que mais de 30 mil cidadãos pereceram desde a invasão militar de 2003.

Em tempo: o belo texto de Schanberg pode ser encontrado, de graça, no seguinte endereço: http://villagevoice.com/news/0539,schanberg,68215,6.html.

No site, o leitor ainda ganha um outro presente: a fantástica ilustração de Viktor Koen, em que um capacete militar é carimbado com os nomes de todos os americanos mortos na mais recente aventura militar do doutor George Bush.

Diretinho da Redação (31)


O texto abaixo já pode ser lido no Direto da Redação

A Desgraça dos Flagelados, II

É feia a situação.‘Seu Mister’ chega em casa depois de um dia duro de trabalho e ouve Jim Lehrer falar no jornal das sete que não tem nem Rita nem Katrina. O mais novo furacão que ameaça o sul dos Estados Unidos chama-se capitalismo de desastre, em sua versão caseira. Histórias e imagens do desespero e da miséria americanas continuam pipocando na televisão, mas o chocante agora é a disputa para saber quem é que vai ganhar mais dinheiro com a tragédia. A briga é de cachorro grande.

A AshBritt, empresa ligada ao governador republicano do Mississippi, Haley Barbour, saiu na frente e fechou contratos no valor de US$ 568 milhões para ‘remoção de entulho e lixo’ das áreas atingidas pelo furacão. Ela entra na categoria ‘emergencial’, que inclui 80% dos US$ 1,5 bilhão de contratos sem licitação já assinados pela FEMA (a agência federal de gerenciamento de emergências, uma espécie de Defesa Civil mais inflada e burocratizada).

Como a saudável e capitalista competição não aconteceu, ‘Seu Mister’ não se surpreendeu quando Lehrer contou que dois dos contratos mais suculentos – voltados para a reconstrução de infra-estrutura e saneamento básico em toda costa do Golfo do México – pararam justamente nas mãos da Halliburton e do Shaw Group. A primeira, como todos sabem, foi comandada pelo vice-presidente Dick Cheney. Já o Shaw Group tem entre seus representantes mais conhecidos ninguém menos que Joe Allbaugh, gerente das campanhas de Bush e diretor, até 2003, da mesma FEMA. Geni da vez, a agência foi responsabilizada pelo fiasco no atendimento aos flagelados de Nova Orleans. Foi Allbaugh quem (des)montou a equipe de emergência da FEMA, substituindo nos primeiros anos do governo republicano especialistas por quadros políticos.

Quando o Congresso liberou verbas especiais para a reconstrução da costa do Golfo do México (até esta semana US$ 250 milhões/dia), 'Seu Mister’ imaginou que estava dando dinheiro para os flagelados, não para os barões do capitalismo de desastre. Quando pensa na Halliburton, ele lembra que esta é a empresa que cobrou do governo (isto é, dos bolsos de seus amigos, o médico de Nova Jérsei, o mecânico de Detroit e o advogado de Manhattan) US$ 100 por trouxa de roupa dos militares americanos das bases de Bagdá. E que ofereceu para centenas de trabalhadores de origem filipina e turca contratados para a ‘recuperação’ do Iraque as sobras de comida vindas do lixo das tropas.

O senador negro Barack Obama, democrata de Chicago, já elaborou um projeto de lei exigindo que o governo Bush explique, tim-tim por tim-tim, como está gastando os bilhões de dólares liberados para a ‘recuperação dos nossos irmãos sulistas’, nas palavras do presidente. Ninguém sabe se o rolo-compressor republicano na casa vai aprovar esta boa iniciativa. Crente como a maioria de seus patrícios, 'Seu Mister' me diz que ainda aposta que não há nada como um dia atrás do outro. Mas até ele, quem diria, já começa a temer pelas ramificações desta tragédia, que começou com o abandono dos miseráveis e segue impiedosa na farra do dinheiro público e do lucro fácil a partir da desgraça dos flagelados americanos.

quinta-feira, setembro 22, 2005

Diretinho da Redação (30)

O texto abaixo já pode ser lido no Direto da Redação

As Voltas que o Tempo Dá

Às vezes é assim mesmo. A gente fecha os olhos e, quando olha novamente o mundo do lado de fora, parece que entrou em uma daquelas máquinas do tempo bem fuleiras, típicas dos filmes de ficção científica dos anos 60. Na televisão, um descabelado Bob Dylan canta ‘Blowin’in the Wind” anunciando que o novo sempre vem, na promoção de lançamento do aguardado documentário de Martin Scorsese. No sul do país começam os julgamentos de uma série de imbecis racistas responsáveis pelo linchamento de estudantes negros e ativistas pelos direitos civis quarenta anos atrás. E nas ruas de todos os Estados Unidos mães e jovens dão-se as mãos para protestar contra uma guerra sem sentido, a milhas e milhas de suas casas.

A amarga sensação de déja-vu me bateu ainda mais forte nesta segunda-feira, com a polícia prendendo manifestantes em plena Union Square. Cindy Sheehan, a mãe de Casey, soldado de 24 anos morto no Iraque, que ficou famosa por passar o verão acampada na frente do rancho de George W.Bush, estava lá. Esta era sua parada nova-iorquina em uma gigantesca viagem de ônibus que ela está fazendo por todo o país, sempre lançando no ar a mesma questão: o que nossos meninos ainda estão fazendo no Iraque e no Afeganistão?

Em Manhattan, Cindy não conseguiu terminar seu discurso. Os policiais, obedecendo uma determinação da administração republicana de Michael Bloomberg, cortaram-lhe o microfone. A justificativa era que os manifestantes não tinham uma licença especial para ficar incomodando os compradores das lojas vizinhas da Virgin Megastore e da Barnes & Noble. Enquanto centenas de ativistas políticos e consumidores em potencial gritavam juntos ‘Vergonha, Vergonha!”, o líder esquerdista Paul Zulkowitz foi levado de camburão para a delegacia – acusado de ‘promover a desordem em praça pública’.

Quando ainda podia falar, Cindy criticou a senadora Hillary Clinton por seu apoio à invasão do Iraque e à permanência das tropas em Bagdá. Depois contou que já percorreu 51 cidades em 28 estados do país, e que não pretende parar tão cedo. Em cada bairro ela descobre uma nova história, faz uma nova amizade, recebe o apoio de mais mães e familiares de soldados. Pode até ser um exagero de quem acaba de voltar de uma intensa viagem de algum lugar do passado, mas, com sua caravana, mamãe Cindy vai se tornando uma imagem importante no jogo político norte-americano. Como ela mesma diz, neste vaivém incessante de passado e futuro, 2008, afinal de contas, é logo ali.

terça-feira, setembro 20, 2005

Etica, Liberdade & Verdade

O texto abaixo, de César Benjamin, publicado na "Caros Amigos" de Setembro, me foi enviado pela querida Ana Cristina Machado. Belíssimo:


A diversidade de comportamento dos seres humanos sempre foi um enigma. Todos os outros seres, existentes na natureza, apresentam comportamentos de espécie, repetitivos, limitados, com possibilidade quase nula de variações individuais. O homem, porém, como diz Lévi-Strauss, é o único que, ao nascer, pode viver mil vidas diferentes. Qualquer um de nós poderia ser Mozart, qualquer um poderia ser Hitler. A criação de sinfonias e a perpetração de genocídios são possibilidades inscritas em nossa mais íntima constituição.

A constatação da diversidade humana foi feita, ao longo da história, por filósofos, historiadores, cronistas e viajantes, quase sempre como curiosidade. Passou a ser uma interrogação politicamente relevante no mundo ocidental quando se formaram os gigantescos impérios multinacionais centrados na Europa. Compreender as diferenças e manejar comportamentos desiguais tornaram-se desafios relevantes para quem precisava gerenciar sistemas de poder muito abrangentes.

As primeiras tentativas sistemáticas nesse sentido buscaram explicações no corpo dos indivíduos, no contexto da antropologia física. Sua culminância foi a construção do conceito de raças humanas, o mais importante e mais desastrado empreendimento das ciências sociais européias no século XIX. Ecos desse desacerto nos assombram até hoje. Estudos detalhados da fisiologia do cérebro e até do formato do crânio, para relacioná-los ao caráter de cada um, e medidas de inteligência, que tiveram respeitabilidade até a segunda metade do século XX, completaram as tentativas de localizar nos corpos de indivíduos e grupos a origem da diversidade humana.

A superação desse caminho, pela antropologia cultural, teve como ponto de partida a constatação de que o homem não apenas age, como os demais animais, mas interpreta sua ação. Todas as ações humanas são ações interpretadas, e ao mesmo tempo todas resultam de uma interpretação. Compreender o comportamento humano exige compreender os sistemas de interpretação construídos pela imaginação do próprio homem, o que nos remete ao universo simbólico, que é constitutivo da nossa existência tanto quanto o nosso corpo físico.

Por isso, quando tratamos do homem, qualquer discussão sobre o ser engloba necessariamente a questão do dever ser, aspectos indissolúveis. Este é o fundamento ontológico da ética, que desde Platão e Aristóteles ocupa um lugar de destaque na investigação sobre nós mesmos. Ethos, em grego, designa a morada do homem. Uma das sentenças mais antigas de Heráclito diz que “o ethos é o gênio protetor do homem”. Os gregos da idade clássica enxergaram aí uma verdade que convém nunca esquecer: seres vocacionados para a liberdade são livres para se destruir. Por isso, o espaço do mundo só se torna habitável, para esses seres, se eles se abrigarem no domínio do ethos.

Ao contrário do que nos dizem os marqueteiros todos os dias, para vender políticos e bugigangas, o mundo da liberdade não é aquele em que o homem faz o que quer ou faz o que é capaz de fazer em desabalada competição com os demais. É aquele em que o potencial criador se exerce dentro de um espaço culturalmente delimitado, socialmente legítimo, em que o certo e o errado, o bem e o mal estão definidos com suficiente clareza. Esse espaço não é rígido e imutável, é claro, mas precisa existir sempre. Fora dele o que se tem é a anomia e a ruína.

Com o descalabro do governo Lula, parece que nos aproximamos um pouco mais dessa temida situação que não queremos sequer conceber. É verdade: comissões parlamentares funcionam, o Ministério Público diz que investiga e a Justiça se mexe com os seus cuidados tradicionais, todos em busca de provas positivas e irrefutáveis que permitam avaliações supostamente sóbrias, baseadas na verdade dos fatos, exaustivamente demonstrada. Dificílima tarefa, muitas vezes impossível de ser cumprida, pois em princípio nenhuma afirmação factual pode estar além da dúvida. Aliás, como nos mostra a atividade política, freqüentemente as mentiras são mais plausíveis do que as verdades, que só vêm a público como exceção. Há um limite estrutural no funcionamento das instituições, entretanto necessárias em situações normais.

Todo cuidado é pouco. Silenciosamente, o Brasil pode estar transitando para além disso tudo, embora nos faltem os conceitos para expressar esse passo. Talvez a sociedade, em algum momento, busque socorro em possibilidades mais amplas, forçando os limites do que hoje se considera pensável. Talvez se canse da mentira e procure reencontrar uma verdade sua. Não será, certamente, a verdade dos letrados. Como será ela?

Os antigos persas usavam uma palavra que é traduzida como verdade: rta. Mas rta, para eles, também significava a potência que assegura que o Sol nasça a cada manhã, os princípios ordenadores que mantêm o universo funcionando, o conjunto de valores que liga pessoas e gerações, e outras verdades não passíveis de prova, sem as quais, porém, a existência é impossível. Na vida real, as verdades que resultam da experimentação científica, a qual serve de modelo para o nosso sistema jurídico, convivem com muitos outros tipos de verdade, entre as quais se destacam a tradição, a evidência e o bom senso. Ninguém pode provar que o Sol nascerá amanhã – como mostrou Poincaré, não se pode provar a estabilidade do sistema solar –, mas se não acreditarmos nisso a vida se torna inviável.

As verdades que podem ser provadas são apenas uma pequena parcela das verdades de que necessitamos para viver. Isso vale também para a sociedade. Se as instituições em vigor, com seus procedimentos formais, não forem capazes de favorecer um ambiente propício à vida em comum, se as únicas verdades que conseguem encontrar e aceitar são aquelas que as conduzem à impotência diante da grande crise, a sociedade poderá apelar à rta – aquela verdade-evidência que se impõe por seu peso e clareza –, baseando nela as suas decisões e ações. Foi o que os argentinos fizeram quando gritaram: que se vayan todos!

Se quisermos sair da crise, precisamos redescobrir urgentemente os significados mais amplos de conceitos fundamentais, como ética, liberdade e verdade.

César Benjamin é autor de A opção brasileira (Contraponto, 1998, nona edição) e Bom combate (Contraponto, 2004). Integra a coordenação nacional do Movimento Consulta Popular.

sexta-feira, setembro 16, 2005

A Verdade


Este texto eu fiz para o Valor Econômico no fim de agosto. Para quem não leu, é uma resenha sobre livros recém-lançados de dois filósofos tratando de tema recorrente nesses dias de crise: a tal da verdade.


A verdade, somente a verdade, nada mais do que a verdade. No momento em que a mentira se estabelece como moeda corrente no Brasil de Delúbios, Silvinhos, Valérios, Marinhos e Jeffersons, dois livros aparecem ao mesmo tempo nas livrarias daqui a fim de tratar de tema caro às democracias contemporâneas: a conquista da verdade. True To Life, do professor da Universidade de Connecticut Michael P. Lynch, é um livraço. Em pouco mais de 200 páginas, sem hermetismos, o filósofo mostra que a verdade não é uma idéia abstrata e que é ela, ainda, que faz a diferença no mundo contemporâneo, tanto na esfera pessoal quanto, especialmente, na pública. E em Truth – A Guide, o filósofo britânico Simon Blackburn traça a história da verdade na cultura ocidental, desde os gregos, passando pelas narrativas bíblicas, os pensadores da Idade Média, o pragmatismo norte-americano e os pós-modernos.

True To Life começa com uma mentira de Estado bem conhecida dos norte-americanos: a justificativa do governo George W. Bush para se iniciar a invasão do Iraque. Como se sabe, as tais armas químicas que poderiam prover Saddam Hussein com um poder de fogo assombroso jamais foram encontradas. Ninguém foi punido pela ‘mentira oficial’. Muito pelo contrario, o presidente foi reeleito mesmo depois da descoberta de que a motivação para o conflito carecia de fundamento. “E aí é claro que o cidadão tem todo o direito de se perguntar: por que prestar tanta atenção na verdade quando a mentira dá tanto resultado?”, questiona Lynch.

Ele mesmo responde. Este é um dos casos em que a maioria da sociedade – ou boa parte dela – prefere ‘esquecer certos deslizes’ em nome do pragmatismo. Assim, a noção de segurança e de proteção contra o ‘terror’, lembra Lynch, foram as principais justificativas para não se levar em conta a mentira republicana. Da mesma maneira, pode-se entender que boa parte da elite brasileira julgue de modo diferente figuras de um mesmo escândalo de corrupção. O ministro da Fazenda, ao atrelar sua imagem à calmaria do mercado financeiro, recebe um tratamento mais condescendente tanto da oposição quanto dos chamados setores produtivos da sociedade, preocupados em manter a estabilidade econômica. A idéia de que os fins justificam os meios, anti-democrática, anti-liberal e anti-republicana, ironicamente, pontua Lynch, é um dos principais legados do pragmatismo ianque à civilização ocidental.

Para o professor, esta idéia transviada da verdade nos chega hoje disfarçada de um cinismo pernicioso, que brota de nossa própria confusão. Lynch acredita que vivemos o tempo do ataque à verdade, e que esta batalha é travada em dois flancos principais. De um lado, as teorias contemporâneas sobre a noção de verdade nos garantem que esta é relativa e depende de inúmeros fatores – da concentração de conhecimento, da linguagem utilizada, da cultura, do gênero, da classe, da ideologia, do desejo, e, claro, do tamanho do poder de quem a propaga. De outro, como que em uma reação aos relativistas liberais, há a apropriação da verdade pelos neo-conservadores populistas, que se apegam aos ‘valores da moral’ e transformam a ‘verdade’ em ‘verdade única’, mesclando crença pessoal com dogmatismo e purificação ética, em que seus propagadores estão sempre certos e os opositores constantemente errados. “Valorizar a verdade passa necessariamente pelo reconhecimento do erro. Aquele que realmente entende o significado da verdade está sempre aberto para a possibilidade de que seus ideais e atos possam estar equivocados”, prega Lynch. O filósofo vai além e escreve que a arrogância dos que não vêm a público se penitenciar por erros cometidos durante o período em que estavam administrando a coisa pública é um dos maiores incentivos para o retrocesso democrático.

A se dar crédito a Lynch, quando uma sociedade se descobre emaranhada em uma rede de mentiras, como a brasileira dos Anos Lula ou a norte-americana de Bush, um caminho para a recuperação da cidadania é o entendimento da verdade como um valor por si só, objetivo, identificável e capaz de nos prover com uma segurança não-alienante. Discípulo do liberalismo clássico, Lynch elege como uma das principais vítimas de True to Life outro medalhão da inteligência norte-americana, Stanley Fish. Um dos papas do pós-modernismo, Fish defende que a verdade objetiva não é apenas uma ilusão, mas que a mera preocupação com sua natureza é uma imensa perda de tempo. Para ele, a verdade, por si só, não tem valor algum. “Ele afirma que as pessoas ‘dizem’ que querem acreditar na verdade, mas, no fim, desejam mesmo é acreditar no que lhes é proveitoso, no que as levam a algo concreto, como bons ternos, menos impostos a pagar ou uma fonte infinita de gasolina para seus veículos utilitários (os onipresentes SUVs). No fim do dia, ele acha que a verdade do que acreditamos deixa de ser importante. O que vale são as conseqüências”, escreve Lynch.

O professor da Universidade de Connecticut, é claro, pensa de modo completamente diverso. Um dos grandes desafios das democracias contemporâneas seria justamente o de lidar com a verdade no âmbito público sem concessões a expressões do cinismo mais rasteiro- como ‘ele é corrupto, mas quem não é?’ ou ‘ele emprega os parentes como funcionários do Estado, mas eu faria o mesmo’ – que nos impede de agir com integridade de modo coletivo, uma das armas mais importantes dos regimes políticos representativos. “Este é o valor mais poderoso para tratarmos com quem detém o poder político. E este é o motivo principal pelo qual devemos cuidar e preservar a verdade, valor fundamental para o bem-viver e para a qualidade de vida no mundo de hoje”, defende Lynch.

Ser verdadeiro consigo mesmo é um exercício diário e doloroso. Cobrar integridade e autenticidade de quem detém o Poder não é menos estafante. Mas, para Lynch, achar que a verdade não importa mais é um sinal de covardia, individual ou social. Ele lembra um dos mais famosos lemas do movimento dos Direitos Civis, nos anos 60, que dizia que ‘deixar de lutar pela verdade deixa para o Poder o monopólio da realidade’. A covardia social, especialmente, é alimentada pelos que o filósofo classifica como ‘mentirosos de resultado’, os que ganham o Poder e lá permanecem apesar de ou por conta das mentiras utilizadas para lá se chegar. “Muitas vezes o mentiroso de resultados, em uma visão romântica, transforma-se em celebridade e é admirado como o trapaceiro, o esperto, o malandro que consegue impor sua maneira de pensar o mundo, uma figura extremamente erotizada pela nossa sociedade”, escreve.

Tanto para Lynch quanto para Blackburn não há tema mais importante e urgente do que a verdade. Eles lembram quem já em “A República” Platão nos apresentava o diálogo sobre justiça entre Sócrates e Glauco como uma metáfora da apropriação perniciosa de valores caros à nossa civilização. Glauco acreditava que a Justiça era destinada a punir os outros e que jamais deveria ser utilizada para questionar seus atos. Lynch escreve que é assim que boa parte da sociedade ocidental percebe a verdade: como algo similar ao dinheiro, uma arma que nos permite realizar certos objetivos. A única saída possível para o filósofo é perceber que a verdade é muito mais próxima da noção de amor: é objetiva em sua essência, subjetiva em sua apreciação e tem a capacidade de existir em mais de uma forma. E também pode ser extremamente complicado encontrá-la e conviver com ela, mas vale a pena. Se há uma verdade absoluta, provoca Lynch, é que o aniquilamento da verdade leva ao assassinato da esperança e à corrupção não apenas de uma classe de dirigentes políticos ou religiosos, mas de toda a sociedade.

quinta-feira, setembro 15, 2005

Diretinho da Redação (29)

O texto abaixo já está no site Direto da Redação


Neguinho é f...

Neguinho é f... A contrapartida americana aos que não conseguem nem ouvir falar em ‘reserva de quotas’ para negros nas universidades brasileiras se mexeu com desenvoltura esta semana. Analistas e intelectuais conservadores saíram da toca em que haviam se metido desde a primeira semana de setembro para dizer que a ‘miséria escancarada’ de Nova Orleans não representa toda a nação. Que a pobreza americana é social e não racial. Um trelelê bem conhecido e repleto de intenções duvidosas, que pode ser derrubado facilmente com dados concretos.

A partir de fontes tão diversas quanto a Drug Police Alliance, o New England Journal of Medicine e os jornais Village Voice, Philadelphia Inquirer e Washington Post, o texto desta semana vai em tópicos mesmo, a fim de escancarar de forma direta e crua a cara - negra - da miséria americana:

• Negros norte-americanos na cadeia: cerca de 1 milhão de pessoas (quase todas perdem permanentemente o direito ao voto), ou 12% dos negros entre 20 e 34 anos.
• Negros norte-americanos desempregados: 1,4 milhão (ou 13% dos negros adultos). Em Nova Iorque, 50% dos negros não trabalham.
• Tráfico: 13% dos usuários de drogas são negros, mas 35% dos presos são afro-americanos, sendo que 74% dos presos por uso de drogas são negros.
• Apesar do uso de drogas por grávidas entre negras e brancas ser o mesmo, o Serviço Social reporta 10 vezes mais mulheres afro-americanas do que caucasianas a órgãos de proteção da criança.
• A expectativa de vida no Harlem é menor do que a de Bangladesh. As causas? Exposição demasiada ao estresse, traduzidas em problemas cardíacos, câncer e péssimo tratamento médico (descaso)
• Nos últimos 25 anos, um terço dos hospitais públicos norte-americanos fechou as portas.
• A família-padrão negra nos Estados Unidos recebe salários que equivalem a 60% da família padrão caucasiana. Esta mesma família concentra apenas 18% da riqueza arregimentada pela caucasiana.
• Os negros são 25% dos 37 milhões de pobres reconhecidos pelo governo americano. Para ilustrar: 20% são ‘latinos’.
• Desde 1968 o salário-mínimo nos Estados Unidos caiu, em valores reais, mais de 35%.
• Apesar de representarem 12% da população americana, 37% dos portadores de vírus da AIDS são negros. O grupo que vem aumentando mais rapidamente a infecção pelo HIV é o de mulheres negras.

E há muito mais. Mas então, mais desesperado do que combalido, peço a licença para pôr o volume no máximo com a Elza Soares berrando, com toda lucidez, que ‘a carne mais barata do mercado é a carne negra’. Aqui e acolá. Neguinho é f...

quarta-feira, setembro 14, 2005

O Que Ele Fala Por Aqui

Do diretor de 'Cidade de Deus', Fernando Meirelles, esta semana, lançando seu elogiado "O Jardineiro Fiel":

"O Brasil tem um programa de combate à epidemia da AIDS que é uma das únicas coisas que realmente funcionam direitinho no país. A outra é o futebol"

Frases, Frases

São dois para cá e dois para lá, sobre o furacão Katrina e suas feridas, para pensar:

"George Bush não dá a mínima para os negros".
Kayne West, estrela do rap.

"Já é hora de nós, americanos, derrubarmos esta horrenda verdade de que a cor da pele, a idade e a renda, nesta ordem, sejam fatores decisivos na hora de saber quem sobrevive e quem morre nas tragédias nacionais".
Howard Dean, presidente do Partido Democrata

"Para ser bem honesta, eu acho que estas duas declarações foram de um imenso mau gosto. É claro que o presidente Bush preza todos os cidadãos deste país".
Laura Bush, primeira-dama, em uma entrevista para uma rádio da Louisiana.

"Ninguém, especialmente o presidente Bush, decidiria que pessoas ficariam desassistidas por conta da raça delas".
Condoleezza Rice, Secretária de Estado e a negra na posição hierárquica mais alta do governo Bush.

quinta-feira, setembro 08, 2005

Diretinho da Redação (28)



O texto da semana já pode ser lido no www.diretodarecao.com e no www.click21.com.br



Vergonha, vergonha, vergonha

Os americanos atravessaram esta semana sob o signo da vergonha. Vergonha nacional. A destruição impiedosa causada pelo furacão Katrina é o 11 de Setembro às avessas de George W. Bush. É também – ao custo de dezenas de milhares de mortos, nas estimativas da prefeitura de Nova Orleans – o apocalipse da política neoliberal calcada no desmonte do Estado. Em todo o pais a pergunta é a mesma: aonde está a Guarda Nacional? Cadê o pessoal da Emergência? O que está fazendo o governo federal? Os bombeiros? A defesa civil? O serviço médico? O Terceiro Mundo é aqui.

As histórias que invadiram as casas democratas e republicanas dos Estados Unidos alimentaram o cidadão comum de vergonha.

Vergonha da mãe negra que teve de escolher entre as quatro filhas qual seria resgatada, pois o helicóptero utilizado para o salvamento tinha menos espaço do que deveria. Os demais ficaram ao deus-dará, no telhado de uma casa que já não existia, sem água, sem comida.

Vergonha do imigrante que preferiu enfrentar os riscos de uma cidade sem luz, sem ruas, sem serviços, sem lei, a ir para um abrigo e acabar deportado para o México.

Vergonha dos dois policiais que, não suportando mais as pressões, preferiram dar um tiro em suas próprias cabeças do que alvejar vizinhos.

Vergonha de um presidente omisso e que somente deixou suas férias no Texas – as mais longas jamais desfrutadas por um ocupante da Casa Branca - para dizer que estava sim mandando mais gente para a região do Golfo do México. Gente para dar cacetada nos que saqueavam as lojas e supermercados fechados.

Como em todas as tragédias, o desastre de Nova Orleans pode ser contado em detalhes aparentemente banais, mas que decidem vidas. O dia em que as águas ocuparam o centro histórico da cidade era justamente a véspera do recebimento do dinheiro contado da Previdência Social para milhares de pessoas. A ração dada pelo governo – uma média de US$ 600 para famílias de até seis componentes – poderia ter sido o maná a ser utilizado na compra de passagens de ônibus, de mantimentos, de água.

Mas, vergonha, a esmola federal jamais chegou aos lares miseráveis da Louisiana.

Foi preciso Nova Orleans desaparecer nas águas do Mississipi para que os americanos pudessem enxergar os milhares e milhares de abandonados por Tio Sam. A favela que existe em cada metrópole daqui saiu de sua invisibilidade na Louisiana de um modo dramático, tal qual um Mardi Gras sem música, uma quarta-feira de cinzas sem fim. A miséria norte-americana é negra e hispânica em sua maioria, mas cheira mal e é repleta de desespero e ignorância como em qualquer Mumbai, qualquer Rio de Janeiro, qualquer Cidade do Cabo, qualquer São Paulo, qualquer Bagdá.

As águas de Setembro que fecham este triste verão na zona norte do mundo podem carregar algo mais do que a vergonhosa falta de liderança republicana. Pesquisador de Nova Orleans, John Barry escreveu em 1998 “Rising Tide”, livro que, por motivos óbvios, pulou esta semana para a lista dos mais vendidos nas livrarias dos Estados Unidos.

De maneira objetiva, mas sem perder a emoção, ele conta detalhadamente como o dilúvio de 1927, no mesmo Mississipi, modificou para sempre os Estados Unidos, abrindo caminho para o New Deal de Roosevelt. O sistema de Previdência Social americano deve muito aos reflexos daquele desastre. O mesmo sistema que George W. Bush quer privatizar, uma de suas principais metas neste segundo mandato na Casa Branca.

Como agora, na enchente de 27 o governo federal, comandado por um conservador, Calvin Coolidge, foi acusado de negligência e descaso. Atordoados, os americanos seguem procurando descobrir um antídoto para a vergonha nacional. Ou, parafraseando Demétrio Magnoli, eles estão finalmente tendo de lidar com sua vergonhosa opção histórica: a de terem se transformado em uma civilização que sabe matar como poucas, mas que não tem a menor idéia de como proteger a vida. O Terceiro Mundo, definitivamente, é aqui.

quinta-feira, setembro 01, 2005

Diretinho da Redação (27)

O texto já está no Direto da Redação (www.diretodaredacao.com) e também no www.click21.com.br.

Uma Tragédia Social

Os barracos amontoados uns nos outros e o esgoto à céu aberto intensificam a sensação de filme repetido. Os rostos dos moradores são, em sua esmagadora maioria, negros. E a rotina de vida por eles descrita também não é novidadeira: milhares de pessoas vivendo sem a presença do Estado ou da polícia, jogadas ao deus-dará, sem água potável e eletricidade. E na favela de Cité Soleil, em Porto Príncipe, capital do Haiti ocupado pelas forças da ONU, os soldados de boina azul - em sua maioria brasileiros - são vistos com a mesma mescla de ódio e medo com que os moradores das favelas percebem nossa policia nos morros cariocas e na periferia paulistana. Se o Haiti não é aqui, como diz a música de Caetano e Gil, uma parte do Brasil – feia, miserável e injusta – está sendo bisada nas Antilhas.

Ao menos é o que nos contam os repórteres Walt Bogdanich e Jenny Nordberg, enviados pelo NY Times para cobrir as eleições gerais de novembro. Um outro jornalista, o excelente Ben Terral (autor de reportagens que doem nos ossos, seja no San Francisco Chronicle ou na Progressive e na In These Times) mantém uma página eletrônica diária do Haiti, em que segue denunciando atrocidades cometidas contra os moradores de favelas controladas por rebeldes saudosos do presidente Jean-Baptiste Aristide, deposto em fevereiro de 2004, com decidida ajuda americana.

Os militantes do Lavalas, o partido de Aristide, dizem que forças policiais treinadas pela ONU estão assassinando ‘rebeldes’ e ‘líderes comunitários’, sem distinção, com golpes de machado. O inimigo número um dos bonés azuis, Emanuel Wilmer (‘Wilmé, o Temido’), foi morto em um ataque no dia 6 de julho, em que pereceram outros ‘rebeldes’ e, de acordo com os moradores, muitas crianças e mulheres.

Um morador da favela, René Momplaisir, mostrou para os repórteres do NYT esta semana as fotos das crianças que ele conseguiu fotografar, ‘antes que os cachorros as comessem’, na noite do dia 6. “Por que as pessoas morrem deste jeito no Haiti? Porque aqui não há lei”, diz. Adeline Pierre, 28 anos, conta que estava grávida e perdeu o filho, vítima de uma bala perdida. A ONU acusa os rebeldes de usarem infantes e mulheres como escudo.

O mundo do vale-tudo haitiano é muito semelhante à tragédia social brasileira. O coordenador do Médicos Sem Fronteiras de lá conta que atendeu pelo menos 27 mulheres e/ou crianças feridas à bala na invasão do dia 6 de julho. Invasão, principalmente, porque em Porto Príncipe, assim como em muitas ‘comunidades’ cariocas, é preciso pedir permissão a quem manda para se entrar. A alternativa parece ser a de chegar atirando.

Com a aproximação das eleições, a pergunta é uma só: como fazer com que estes seres abandonados à própria sorte (instituições filantrópicas temem entrar nas áreas controladas pelos ‘rebeldes’) acreditem na democracia imposta? Como fazê-los sair de seus barracos no dia 13 de novembro e andar até às cabines eleitorais improvisadas para eleger presidente e legisladores, quando ‘representante popular’ é um termo nebuloso, quase irônico?

Apesar da boa cobertura da mídia daqui, os norte-americanos mandam sinais cada vez mais nítidos de que têm mais com o que se preocupar. Com um índice de reprovação na casa dos 53% por conta dos desmandos no Iraque ocupado e do aumento no preço da gasolina, o governo Bush não quer nem ouvir falar de Haiti. O presidente, que pretende manter algum poder de fogo na escolha de seu sucessor, interrompeu suas férias esta semana para se dedicar a assuntos internos, como os estragos do furacão Katrina no sul do país, qualificado pelos republicanos como ‘o nosso tsunami’, e a cruzada conservadora pela reforma da Previdência Social.

Não preciso nem dizer que o Brasil está mais do que ocupado tentando preservar a República dos dramalhões de Jeffersons e Dirceus, mas quem sabe uma dose de Cité Soleil não nos ensinaria mais sobre nossa própria desgraça social?

Durante a Segunda Guerra relatos como os de Rubem Braga nos ajudaram a repensar o Brasil governado por um ditador enquanto nossos pracinhas ‘lutavam pela liberdade’. Sim, a batalha era outra, o cenário e o tempo completamente diversos, mas ainda estamos a esperar o escriba brasileiro de Porto Príncipe.

Enquanto isso uma imagem de um Brasil preconceituoso, conivente com a exclusão, covarde e submisso vai sendo forjada nas Antilhas sem que tenhamos noção do tamanho do estrago. Já é hora de a imprensa abrir suas páginas e discutir de forma ampla o que esta aventura nas ilhas nos revela de nossa própria alma verde e amarela.

quinta-feira, agosto 25, 2005

A Verdade

Para quem quiser prestigiar o blogueiro aqui, sai amanhã, no suplemento de fim de semana do Valor Econômico uma matéria sobre dois livros que tratam de tema interessante e atual para nosso Brasil - a verdade.

Os filósofos Simon Blackburn, de Cambridge, e, principalmente, Michael P. Lynch, da Universidade de Connecticut, tratam da importância da Verdade para o funcionamento das democracias contemporâneas, criticam o cinismo imperante, falam das mentiras de Estado e do perigo das sociedades dominadas pela covardia social, que vêem a Verdade mais como um fim do que como um princípio. Amanhã, nas bancas brasileiras ou, para assinantes, no www.valor.com.br.

abraços em todos,
Edu

quarta-feira, agosto 24, 2005

Diretinho da Redação (26)



Uma & Eu

Uma das obsessões dos nova-iorquinos é encontrar restaurantes e bares ao ar livre no verão. Como aqui a estação dura de fato pouco menos de quatro meses, esta é a chance de se apreciar uma refeição ao sol, com céu azul ao fundo e um monte de gente querendo ver e ser vista. Gente que vai ao Shake Shack, uma lanchonete assim-assim que tem como maior atração justamente o fato de estar situada na Madison Square, a meio caminho da Union Square e da Penn Station. Foi lá que lanchei, dia desses, ao lado de Uma Thurman, Ethan Hawke e seus pimpolhos Maya e Roan.

Antes de mais nada – eu não sabia que o casal de divorciados tinha dois filhos. Também não poderia imaginar que Maya tinha seis e Roan três aninhos. Muito menos que eles curtiam brincar no parquinho da Madison nestas tardes quentes de verão e que aquele era justamente o local em que a atriz e seu ex-marido colocavam o papo em dia. Tá bem, confesso, eu escutei a conversa alheia, mas somente depois que Uma colocou o dedo na cara do Ethan. Foi justamente este detalhe que motivou a amiga a me condenar, mais tarde: “mas você deveria ter fotografado a cena! Iria ganhar uma bolada com esta imagem!”

Eu nunca havia me deparado com a Uma antes. Não ao vivo. Fiquei me perguntando o que o Ethan teria feito para despertar tanta raiva assim da Noiva de Kill Bill e se ele não sabia com quem estava mexendo. Depois lembrei que minha câmera estava logo ali na parte da frente da bolsa, pois depois do sanduba seguiria para uma reportagem sobre a inauguração de um novo museu nas cercanias de Columbus Circle.

Um turbilhão de sensações e pensamentos invadiu minha cabeça: estava em uma posição privilegiada - o que nos separava era uma vegetação baixa - tiro ou não tiro a foto? - minha digital é mínima - eles jamais iriam perceber - tiro ou não? - o dedo longilíneo de Uma continua em riste - eu nunca fui mesmo com a cara do Ethan - tiro ou? - sempre o achei um canastrão com cara de bebê chorão - ele bem que merecia - tiro? - as crianças voltam para a mesa sorridentes - o dedo baixa - eles sorriem - não tiro.

Não cliquei. No caminho para o museu, um jornal distribuído gratuitamente no metrô cai nas minhas mãos. A reportagem conta a história da terceirização dos caçadores de celebridades: imigrantes ilegais estão sendo treinados por revistas de fofoca para fotografar os famosos. Como trabalham sem contrato formal e em geral não são facilmente identificáveis, torna-se quase impossível para os caríssimos advogados de Beverly Hills conseguir arrancar algum dinheiro ou reparação para seus clientes, em geral estrelas de Hollywood. Se flagrados antes de a foto chegar às mãos dos editores de fotografia, as revistas dizem que jamais fizeram qualquer contato com tal indivíduo.

Mas, de acordo com dois renomados especialistas entrevistados pelo repórter, há um atrativo ainda maior do que o dinheiro para o substancial aumento do número de paparazzi nos Estados Unidos: eles acreditam que fazem parte de Hollywood e, claro, concluem, todos querem fazer parte de Hollywood. Jogo imediatamente o jornal lixeira abaixo, decidido a passar um longo tempo afastado das salas de cinema-pipoca da cidade. Eu, hein..

terça-feira, agosto 23, 2005

Trilhões de Dólares

Secretária-assistente do Departamento de Comércio dos Estados Unidos no governo Clinton, Linda Bilmes fez as contas da aventura ianque no Iraque e no Afeganistão, que o New York Times publicou neste fim de semana. Os números são impressionantes, todos em bilhões de dólares:

• montante gasto até o momento apenas nas operações militares: 258 bi
• custo estimado da ocupação nos próximos cinco anos: 460 bi
• custo com veteranos de guerra (tanto Iraque quanto Afeganistão): 315 bi
• déficit financeiro estimado (cinco anos): 220 bi
• impacto econômico interno gerado pelo aumento do preço do barril de petróleo (cálculo do FMI): 119 bi
• Custo total das invasões de Iraque e Afeganistão até 2010: 1,372 trilhão de dólares.

A dimensão da gastança, diz a professora Bilmes, uma das estrelas da prestigiada Kennedy School, de Harvard, tem sido mascarada por Washington. Eles agora estão sendo cantados em verso e prosa em todas as manifestações que pedem o retorno das tropas ativas no Oriente Médio. Se o governo Bush não se sensibiliza com os mais de 2 mil americanos mortos e 15 mil feridos seriamente desde 2001, o imenso buraco nas contas públicas já está fazendo com que muitos republicanos temam uma derrota retumbante nas eleições parlamentares do ano que vem.

quinta-feira, agosto 18, 2005

Diretinho da Redação (25)

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VOVÔ TERIA UM TROÇO


Neto de político, passei boa parte de minha infância ouvindo causos sobre Miguel Arraes. Meu avô adorava me vender os homens públicos de antanho como seres sobrenaturais, super-heróis mais brasileiros e humanos dos que eu poderia encontrar nos gibis. A morte do ex-governador pernambucano me encheu de lembranças do "Dotô Arraia", personagem destacado das forças do bem que tinha o poder de criar, do nada, a abençoada chuva tão aguardada pelos sertanejos. E em quem, eu escutava com olhos arregalados, bastava se tocar na fronte para se ter sorte por toda a vida. Vovô gostava especialmente de narrar a história "Arraia e as leis trabalhistas". Finalmente, me dizia, os camponeses haviam vencido a tirania dos usineiros, os bandidos deste faroeste improvisado no árido nordeste da imaginação do vovô.

Super-heróis não cabem na política. Especialmente os que acreditam em seus poderes. Fico aliviado em saber que vovô vibrou com o primeiro governo de Arraes, nos anos 60, mas que mal percebeu a segunda passagem do político pelo Palácio das Princesas (mas bem que ele repetia, feliz da vida, três batidinhas ritmadas no tórax, seguidas de três risadinhas, nem duas, nem quatro: "ele vai entrar pela porta que saiu", referindo-se, claro, à resistência do governador em 1964). Mais importante ainda, ele aqui já não estava quando nosso abatido super-herói, cansado de idas e vindas à Sala da Justiça, enredou-se na trama viciada dos precatórios.

Foi justamente quando tentava se reeleger, em 1998, que Arraes chamou para sua campanha um tal de Duda Mendonça. Ao perceber que não havia chance de lutar contra a criptonita do Plano Real, o marqueteiro tentou convencer o governador a abandonar a peleja. Foi quando, Arraes, antípoda da "esquerda de resultados", lhe disse que, no mundo da política, "há eleição em que a gente ganha eleitoralmente e perde politicamente. E há eleição em que a gente perde eleitoralmente e ganha politicamente".

A mensagem não poderia ser mais atual. O abatido super-herói perdeu a batalha com a maior dignidade possível, mas Duda jamais compreendeu o sentido daquela sentença. Tive esta certeza na semana que voou. Enquanto Arraes enterrava consigo uma estirpe de homens públicos que não volta mais, Duda, em última instância o principal responsável pela imagem da "República Petista", confessava crimes gravíssimos, como sonegação fiscal e recebimento ilegal de dinheiro em paraísos fiscais.

E disse, televisão escancarada agora em outra sala de estar, que "poderia dormir tranqüilo, pois não cometera erro de honestidade e estava liberado para beijar e abraçar seus filhos". Vovô teria um troço. E ficaria arrasado ao imaginar aquelas crianças de Duda desprovidas do mundo fantástico em que os superpoderes dos políticos eram resumidos em honra e caráter - remédios infalíveis para se derrotar as forças das trevas.

terça-feira, agosto 16, 2005

Triste Fundo De Pensão

Para quem ainda não leu, a cacetada de Jânio de Freitas, na Folha de S.Paulo de hoje, no sumido José Genoíno:

José Genoino requereu, para receber a partir deste mês, R$ 8.148 a título de aposentadoria por seus 20 anos de deputado. O provento corresponde a cerca de 65% do vencimento de deputado ativo. Ativo? Quem? Digamos, deputado com mandato.

José Genoino tem um bom motivo para a reivindicação e o recebimento: "É uma questão de sobrevivência".José Genoino, quando voltar a ter coragem de aparecer e falar em público, por certo vai explicar de que questão se tratava para os idosos e doentes cujas aposentadorias indecentes ele, como deputado e como presidente do PT no governo Lula, tanto contribuiu para tornar humilhantes e mais degradantes da velhice e da doença -não depois de 20 anos, mas de 35, 40 e mais anos de trabalho verdadeiro.

A rigor, nem essa explicação se precisa mais ouvir desse José Genoino que se esconde atrás da própria sombra, para fugir às altas responsabilidades que lhe cabem na montagem e na operação, dentro da Câmara e entre os partidos, das imoralidades que se desvendam.

Aaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiieeeeeeeeeeeeeeeeee!



Alguns amigos deste blog que tinham visto os primeiros ensaios na Costa Oeste já tinham me dito que a coisa era horrenda. Agora Ben Brantley, no The New York Times, esculhambou de vez com o espetáculo autorizado por Yoko Ono. A reação a Lennon (acima Will Chase, um dos cinco 'Lennons' do espetáculo, em foto de Joan Marcus) é resumida na crítica a um daqueles gritos primais de Yoko: aaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiie!

De acordo com Brantley, Lennon aparece mais como o ‘parceiro criativo de sua mulher japonesa’ do que como um Beatle ou gênio do pop. Artificial, boboca, non-sense, musicalmente xoxo. Estes são apenas alguns dos adjetivos usados pelo crítico no texto que pode ser conferido na seção de artes do jornal nova-iorquino. Pelo visto, Lennon, que eu não posso deixar de perder, vai ter o mesmo destino da adaptação das músicas dos Beach Boys para o palco, o maior mico da temporada passada da Broadway. A parceria rock e teatro já viveu dias melhores...

CONGRESSO TRAPALHÃO. ONDE? NOS EUA!

Na terça-feira passada o jornalista Henry Fountain, do The New York Times, estava tocando uma reportagem sobre a nova legislação relativa à Energia aqui nos Estados Unidos, enviada ao Congresso pelo presidente Bush, quando se deparou com um fato curioso. Incluída no último minuto pelo deputado republicano Ralph M.Hall havia uma emenda que previa a liberação de US$ 250 mil para os estudos de algo chamado ‘cold cracking’ do petróleo.

A fim de saber que diabos era o tal do ‘cold cracking’, Fountain ligou para o legislador. Este confessou não saber exatamente do que se tratava. Mas avisou que havia incluído o tal adendo de última hora a pedido de outro deputado republicano, Mike Rodgers, do Alabama. Lá foi Fountain perguntar ao ilustre representante sulista, que também não conseguiu explicar a necessidade de estudo do tal ‘cold cracking’ do petróleo. Mas ele indicou ao repórter a fonte perfeita: Bud Brainerd, presidente da Renaissance Petroleum Technologies, que, exatamente por se tratar da única empresa no mundo que estuda o ‘cold cracking’ invariavelmente vai receber a bolada do contribuinte norte-americano.

Fountain descobriu que a sede da Renaissece fica em Auburn, no mesmíssimo Alabama do deputado Rodgers. Em uma entrevista por telefone, Brainerd explicou que o ‘cold cracking’ é uma forma alternativa de refinar petróleo, esmigalhando longas cadeias de hidro-carbonetos por um processo similar ao da esterelização de equipamento médico (ou seja, exposição aos raios gama) mas que, ele frisa, não tem nada a ver com radiação. O ‘cold cracking’ reduziria os riscos de um processo que hoje é feito em alta temperatura. No entanto, até agora, ele só foi realizado em laboratório e os US$ 250 mil serão utilizados, diz Brainerd, justamente para provar que esta nova tecnologia pode ser um belo investimento para os Estados Unidos. Ao menos agora os dois deputados devem estar sabendo para que, afinal, incluíram a tal emenda na nova legislação de energia.

Pílula da Noite

De uma antiga entrevista do por aqui cada vez mais cultuado escritor chileno Roberto Bolaño (1953-2003) à Playboy mexicana:

Sou um latino-americano. Meu único país são meus dois filhos e, talvez, embora em segundo plano, alguns momentos, ruas, restos ou livros que carrego comigo.

sexta-feira, agosto 12, 2005

Elite, mas que elite?

Para quem ainda não leu, trecho do artigo da psicanalista Maria Rita Kehl, hoje, na Folha de S.Paulo:


A elite, hoje, somos nós. Não me refiro aos novos ricos do PT, aos que aumentaram o patrimônio ou ganharam carros importados de empresários "amigos".

Refiro-me à elite governante, responsável por democratizar a relação do Estado com a população, por construir o país por meio de concorrências públicas limpas, por gerir o dinheiro do povo em nome dos interesses do povo.

Essa elite tem o dever de tomar o pulso da situação. Punir responsáveis. Pedir desculpas à sociedade. Modificar radicalmente a estrutura burocrática e de poder dentro do partido, como pretende o atual presidente Tarso Genro.

Há uma enorme diferença simbólica quanto aos efeitos sobre o tecido social entre os crimes políticos e os crimes comuns. Quando a elite governante não respeita a lei que ela própria representa, a desmoralização que se instaura corrompe a sociedade inteira.

quarta-feira, agosto 10, 2005

O novo Rolling Stones

O New York Daily News liberou hoje os versos de uma música do novo álbum dos Rolling Stones. Pau puro de Mick Jagger contra o conservadorismo norte-americano:
Como você pode estar tão errado, meu querido neo-con? Você pode se dizer um Cristão, mas eu digo que você é mesmo um hipócrita. Você se diz um patriota. Ora, eu acho que você é mesmo cheio de merda! ele canta, em tradução livre do blogueiro aqui.

Ainda deu tempo para Jagger zoar com Keith Richards. O pai do filho de Luciana Gimenez disse que o amigo está um pouco preocupado ‘porque, afinal de contas, ele mora nos Estados Unidos’. A propósito, o novo disco, que está saindo do forno, se chama ‘A Bigger Bang’, e já começa a ser boicotado pela direita raivosa local.

Diretinho da Redação (24)



Diálogo Distante e Impreciso

Quando a vida se degrada e a esperança abandona o coração dos homens, só mesmo a revolução. O mantra de Oscar Niemeyer me martela a cabeça no dia quente do sufocante verão nova-iorquino. Vá lá, me diz a amiga, a tal revolução do arquiteto não pode mais nascer de uma mobilização pela ética comandada por intelectuais cada vez mais desimportantes no tresloucado dia-a-dia que nos invade feito filme de Wong Kar Wai. Alguém ainda os escuta? Seus seminários e manifestos ainda ecoam em uma sociedade seqüestrada pela imagem, que absorve idéias de forma completamente diversa do que a de dez anos atrás?

Outra amiga me conta que próceres da inteligência brasileira, gente admirável mesmo, estão evitando sair de casa. Temem ouvir do barbeiro e do porteiro cobranças embaraçosas: por que cargas d'água o senhor me convenceu a votar nos companheiros? Dureza. Afinal, qual a resposta a ser dada? O que fazer quando a vida se degrada e a esperança abandona o coração dos homens? Outro amigo me sugere em missiva emocionada que talvez a revolução já tenha começado, ali mesmo com o gasto princípio de se tratar o outro como se fosse vocêzinho mesmo. Lá vem ele com o velho trotskismo cristão, mais demodé impossível, outro rebate. Tá certo.

Afeita a desafios, aquela outra amiga tinhosa que luta para não cair no niilismo-quase-espelho-do-cinismo tenta avançar. E pondera que chegamos ao ponto-limite em que a coisa pública não pode mais ser tratada como um patrimônio à disposição dos mais ditosos. Algo assim como um fundo comum que, aqui e acolá, vai sendo apropriado por gente diferente, mais ou menos conectada a grupos que chegam ao poder em um rodízio viciado e sufocante. Se continuarmos tratando do tema com a naturalidade própria de quem já viu tudo, estaremos oficializando a barbárie. E aí, ela abre os grandes olhos amendoados, é que eu quero ver!

Mais constatações óbvias? O produtor de eventos me garante que não. E sugere que cada brasileiro passe uma semana - com ou sem crise - pelos corredores de qualquer estatal brasileira. Qualquer uma, ele me diz. Neste país de miseráveis, a mesma gente que sai às ruas vestida de branco pedindo paz na Zona Sul carioca acha correto receber R$ 20 mil dos contribuintes para proferir palestras sobre a importância do dia da mulher. Ou superfaturar naquela genial série de espetáculos musicais que, no fim das contas, garante um apartamento por ano mas também leva o circo ao povo. E um bom circo. Este, me conta o produtor, é o mensalão mais profundo, geral e restrito. Um mensalão que corta a sociedade de modo desconcertante - quem tem e mama, sem culpa, quem tem e não mama, com mais ou menos revolta, e quem chora, não mama e nem tem como protestar. Estes últimos, claro, configuram a maioria da nação.

Nesta conversa de bar sem chope gelado e com copos vazios o outro amigo que vive fora do Brasil me lembra que a mentalidade da corrupção não está só em Brasília, não é exclusiva dos políticos e dos lobistas, não pode ser representada apenas por personagens mais ou menos folclóricos que garantem, aqui e ali, assunto para mídia e humoristas. Que nada. Ela também está nas comissões levadas por funcionários de todos os escalões, na muda de planta do parque nacional que vai parar no jardim da casa da madame, e, principalmente, no voto de quem elege o mesmo parlamentar que renunciou ao mandato no escândalo anterior e que agora é presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Congresso. O nome deste, aliás, é Antônio Carlos Magalhães.

A catequese da picaretagem também se encontra nas falas do presidente. Daquele que foi saudadado pelas elites do país - especialmente a pensante -como 'o representante mais genuíno do brasileiro'. Então o 'brasileiro' - esta figura que para o intelectual pode ser encontrada ali do outro lado do interfone_ pensa que 'é assim mesmo', que 'todo mundo faz', como vem repetindo Luiz Ignácio de Garanhuns?

Eu digo aos amigos que ele ainda pode surpreender. O 'brasileiro', não o Luiz Ignácio. Que ele pode até nos dar algumas dicas do que fazer quando a vida se degrada e a esperança abandona o coração dos homens. Digo que a primeira talvez seja a de aceitar nossa ignorância momentânea. Reconhecê-la e até aprender a conviver com ela. Ignorância, veja bem, não impotência.

Sim, pois o segundo pitaco será o de que é preciso reagir. De que mais que nunca é preciso reagir. De que é preciso reagir depositando um derradeiro ato de fé no 'brasileiro'. De que é cada vez mais necessário deixar que o porteiro e o barbeiro nos digam o que fazer. Esta mera inversão de papéis pode até não dar em nada muito maior do que irmanarmos, uma vez só, na obscuridade e desimportância de nosso destino verde-e-amarelo. Mas, daqui de longe, e corrijam-me se estiver americanizadamente errado, parece ser o que de mais revolucionário poderíamos alcançar em momento tão cinzento.

Enquanto escrevo o termômetro avança sorrateiro para os 42 graus. Lembro dos amigos, penso no país e tento me refrescar em meio a uma incômoda certeza: a de que esta nossa febre nada tem de êfemera.

p.s: o texto acima tambem pode ser lido no www.diretodaredacao.com e no www.click21.com.br

quinta-feira, agosto 04, 2005

La Cucaracha, La Cucaracha!

Sai hoje, no suplemento semanal Eu&Cultura, do Valor Econômico, uma reportagem do blogueiro aqui sobre o tal ‘boom hispânico’ em Bushland. “Hispânico” foi um termo muito do rastaqüera invetado pelos assessores de Richard Nixon para o censo norte-americano nos anos 70. Apesar da oposição do movimento (me) chicano, a maioria branca e protestante oficializou-o nas universidades da Ivy League e confinou em um mesmo gueto cubanos, porto-riquenhos, mexicanos, espanhóis e, para alguns estudiosos, até brasileiros e portugueses – hispânico seria entendido como ‘descendente de populações originárias da Hispania, nome dado pelos romanos para a Península Ibérica, incluindo a terrinha também’.

Enfim, na reportagem tem o béisbol (escrito assim mesmo) sendo tomado pelos dominicanos, as salas de cinema do Maya, um multiplex en lengua castellana, a nova mega-produção de uma dupla de diretores mexicanos que acaba de embolsar US$ 25 milhões em sua mais recente produção e, claro, as novas aventuras hollywoodianas de nossos Walter Salles e Fernando Meirelles. Sim, também deu tempo – ufa! – para falar do novo prefeito de Los Angeles, Antonio Villaraigosa, e do favorito do Partido Democrata para enfrentar Mike Bloomberg, aqui em Nova Iorque, no ano que vem, na peleja pelo controle da cidade, o boricua Fernando Ferrer, del Bronx. Amanhã, nas bancas ou, só para assinantes, no valoronline.

quarta-feira, agosto 03, 2005

Diretinho da Redação (23)




O texto abaixo, sobre a atualíssima fábula de Mia Couto, acaba de ser publicado no site do Direto da Redação.

Ai de ti, Brasília!

Quem diz é Ana Deusqueira: “Quando se quer limpar um país, tudo o que se encontra é sujeira”. A autora da frase não é uma intelectual européia radicada aqui em Nova Iorque. Ela é uma prostituta da pequena cidade de Tizangara, em Moçambique, na África. Ela é uma personagem genial de meu fabulista favorito, o moçambicano Mia Couto.

Em “O Último Vôo do Flamingo”, que saiu no Brasil este ano, Deusqueira é uma das cidadãs que observam, sem muita surpresa, a morte misteriosa dos soldados da força de paz da ONU, enviados para o país durante a guerra civil que já dura décadas. Logo descobre-se que os corpos dos soldados explodem do nada mas suas genitálias, intactas, surgem aqui e acolá, nos mais improváveis locais.

Em Tizangara é difícil saber quem é morto, quem é vivo, quem é vivo demais. Lá, a esquerda chega ao poder de modo festivo e sucumbe a um populismo vazio e ao ritmo inconfundível do capitalismo de periferia. Lá, na parte meridional do país, os flamingos, quando voltam de suas longas viagens pelo imenso continente, são recebidos com júbilo. Eles são os anunciadores da esperança, de que tempos melhores virão.

E se os flamingos não voltarem? E se a esperança partir de vez? Ana Deusqueira, uma atenta especialista, se debruça sobre as genitálias e não chega a conclusões definitivas. Mas segue dizendo: “A moral aqui é assim: enriquece-se, sim, mas nunca sozinho. São perseguidos pelos pobres de dentro, desrespeitados pelos ricos de fora. Tenho pena deles, coitados, sempre moleques”.

E quando a esperança trazida pelos flamingos revela-se uma falácia, como ficam os pobres? Com seus históricos defensores agindo do mesmo modo que os opressores da direita conservadora, não lhes resta mais nada. Os flamingos não voltam mais. Cansaram-se de tanta molecagem. E aquele Moçambique é entregue ao passado, governado pelos mortos. Acaba dissolvido nas brumas, levado pelos deuses africanos para lugar longínqüo, em que mantém-se invisível pela incompetência dos vivos, dos muito vivos. Deusqueira que Ana já não esteja pregando, sem que possamos ver e ouvir, pelas amplas avenidas de Brasília.

terça-feira, agosto 02, 2005

Do Noblat - Ciro 2002

Ricardo Noblat, em seu ótimo blog, acaba de publicar a nota abaixo, que dá o que pensar sobre a aliança eleitoral de 2002, quando Ciro Gomes (PPS-PTB-PDT) apoiou Lula no segundo-turno da campanha eleitoral:

PT usou dinheiro de caixa 2 para pagar despesas da campanha de Ciro em 2002

Foi para pagar despesas com o marketing político da campanha de Ciro Gomes à presidência da República em 2002 que Márcio Lacerda sacou R$ 1 milhão da conta no Banco Rural da agência SMPB de Marcos Valério. O nome dele foi fornecido ontem à Polícia Federal por Simone Sales, diretora financeira da agência.

Ciro foi adversário de Lula no primeiro turno da eleição daquele ano e aliado no segundo. Isso significa que dinheiro de Valério, repassado ao PT ou a quem o tesoureiro Delúbio Soares indicasse, e jamais declarado à Justiça Eleitoral, honrou compromisso assumido pela campanha de Lula em 2002.

Esta tarde, Márcio Lacerda pediu demissão do cargo de secretário-executivo do Ministério da Integração. O pedido foi aceito pelo ministro Ciro Gomes.

Mais um cai

Secretário-executivo de Ciro pede demissão

De Bernardo de la Peña, agorinha no Globo Online:

Em nota divulgada nesta terça-feira, o Ministério da Integração anuncia que o secretário-executivo da pasta, Márcio Lacerda, pediu nesta terça-feira seu afastamento para evitar envolver o ministério e o ministro Ciro Gomes no escândalo do esquema de pagamentos a políticos e parlamentares feitos com dinheiro vindo das contas do empresário Marcos Valério.
Lacerda é um dos nomes que consta da lista de pessoas às quais Valério teria dado dinheiro a pedido do então tesoureiro do PT Delúbio Soares. Ele teria recebido R$ 457 mil.
O secretário-executivo do Ministério da Integração Nacional negou ao ministro Ciro Gomes ter recebido qualquer recurso financeiro", informa a nota.


Segundo a nota, Lacerda pediu seu afastamento porque não deseja que "essa suspeição infundada, contra ele assacada, prejudique a instituição". "O ministro Ciro Gomes aceitou o pedido, presume a inocência do secretário-executivo e ajudará para que todos esses fatos sejam totalmente esclarecidos no mais breve espaço de tempo possível", conclui a nota.

A Primeira Lista



Enquanto Zé Dirceu (PT-SP) depõe no Conselho de Ética vale dar uma conferidinha na primeira lista anunciada de quem teria embolsado dinheiro através do suposto mensalão. Entre as ‘novidades’, um assessor do ministro Ciro Gomes, que anda bem quietinho. A lista foi publicada pelo UOL.

* Sócia do publicitário Duda Mendonça
** Irmão do ex-presidente do PT José Genoino
*** Tesoureiro informal do PTB
**** Presidente do PTB que morreu em acidente aéreo
***** Secretário-executivo do ministro Ciro Gomes (Integração Nacional)

sexta-feira, julho 29, 2005

Lá Como Cá

Deu no NY Times. O embaixador da Coréia do Sul nos Estados Unidos, Hong Seok Hyun, anunciou sua renúncia ao cargo. O motivo? Denúncias envolvendo o diplomata na arrecadação ilegal de fundos para a campanha presidencial da Coréia em 1997.

Plebiscito é Golpe

Na mesma reunião da ABI, segundo O Globo, a senadora Heloísa Helena (P-SOL-AL), disse que ‘se as apurações alcançarem o presidente, é a favor de um plebiscito para antecipação das eleições'. Não entendi.

Ora, se as investigações – seja na CPI, seja na Polícia Federal – envolverem diretamente Lula cabe ao Congresso Nacional iniciar um processo de interrupção do mandato do presidente, com todo direito à mais ampla defesa. Tudo nos conformes, como manda o figurino de um país democrático em que as insitituições, apesar de tudo, têm funcionado bem. Foi assim na crise de 1992 e o país continuou seguindo sua vida normalmente.

A senadora ecoou o equivocado artigo desta semana no Jornal do Brasil do ex-deputado Milton Temer, agora no P-SOL, em que este defendia a tese do referendo popular para decidir se Lula deve ou não terminar seu mandato. Pensar em plebiscito é uma avenida de mão dupla: ao mesmo tempo em que se embarca no discurso golpista de interrupção do mandato de um presidente eleito por 52 milhões de cidadãos - em um desrespeito que revela uma cara-de-pau sem tamanho - também se coloca mais lenha na fogueira de que o Legislativo carece de legitimidade.

Mas revela também um velho cacoete de nossos políticos: o de jogar por fora das regras democráticas – seja recebendo jabá para campanha política, seja aprovando reeleição em benefício próprio, seja querendo 'ouvir as massas' nas questões por eles consideradas de ‘emergência nacional’. Este sim é um mal que precisa ser cortado pela raiz. E os que pretendem estar trazendo o novo à cena política nacional, especialmente estes, já deveriam ter aprendido a lição.

Fraude Histórica

A frase veio de um político que não me cansou de decepcionar. Mas é a mais exata até agora sobre o filme de terror que se transformou a esquerda brasileira. “O PT é uma fraude histórica”, disse o deputado-federal Roberto Freire (PPS-PE), na manifestação dos partidos progressistas ontem na ABI, no Rio. Como discordar do neo-comunista?

quinta-feira, julho 28, 2005

De Mulher Pra Mulher

Do blog Coleguinhas, Uni-Vos!, do amigo Ivson Alves, em http://www.coleguinhas.jor.br/picadinho.html:

O próximo alvo da Veja é a Dona Marisa, mulher do Nove-Dedos. A revista está urdindo matéria segundo a qual ela teria feito compras com cartão de crédito de uma empresa do Marcos Valério. O problema é que até agora a revista do Civita ainda não encontrou qualquer indício para afirmar tal coisa, mesmo contando com o apoio de toda a tropa de choque tucano-pefelê trabalhando horas e horas nas últimas duas semanas. Mas mesmo que não ache nem o mais leve indício, a revista deve publicar algo neste sentido em breve, pois é essencial atingir o N-D no seu esteio mais forte, que é a família, especificamente a sua companheira. Isso, pelos cálculos da oposição tucano-pefelê, faria com que N-D ou ficasse cego de ódio, reagindo descontroladamente, ou caísse em depressão, deixando o barco à deriva. De qualquer maneira, ficaria em desvantagem séria na hora de reagir a um pedido de impeachment.

O Lapso de FHC

De Jânio de Freitas, na Folha de S.Paulo de hoje:

(...) meu colega Marcelo Beraba me chamou a atenção para este lapso anunciador de Fernando Henrique Cardoso, ao saber da descoberta de envolvimento do PSDB com Marcos Valério: "Precisamos investigar tudo mas sem perder o foco de que a crise é hoje. O que aconteceu no passado, no meu governo, é coisa da história". A descoberta só era relativa à sucessão no governo de Minas em 98. Fernando Henrique entregou logo o seu governo como outro manancial para descobertas.

a coluna de Jânio pode ser lida em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2807200504.htm

Os Donos do Poder

De Demétrio Magnoli, na página de Opinião da Folha de S.Paulo de hoje:

Lula encarna a tradição do patronato político brasileiro. Vezes sem conta, o presidente definiu a nação pela metáfora da família, na qual ele desempenha o papel de pai provedor, governando com o coração e zelando por todos os filhos, sobretudo os mais fracos. Governar é distribuir privilégios seletivamente: eis o conceito arcaico que emana do pensamento do presidente.


O texto completo pode ser lido, para assinantes do UOL ou do jornal paulistano, em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2807200507.htm

quarta-feira, julho 27, 2005

Diretinho da Redação (23)



O texto abaixo pode ser lido no www.diretodaredacao.com


Todo Mundo Faz!

Um pouco de História sempre cai bem. Ainda mais História recente, recentíssima. Em 1988, um grupo de parlamentares do PMDB, descontente com os rumos da sigla de Ulysses Guimarães e assustado com a aliança perpétua com o PFL - revelada de forma mais crua no chamado “Centrão” – decidiu fundar um novo partido. Escolhem o tucano como símbolo e criam o PSDB. Dez anos antes o PT fora criado para fugir das tradições autoritárias do velho PCB e para pregar um socialismo libertário, feito para e por trabalhadores. A idéia era provar que os dois partidos não faziam o que todos fazem e, coincidência ou não, nos últimos 14 anos, desde a crise do governo Collor, PSDB e PT vêm dominando, de São Paulo, a cena política nacional.

Tá bem, deu no que deu. O PSDB, igualzinho ao PT agora, provou das benesses do governo federal e saiu manchado. Aliou-se ao mesmo PFL e dedicou-se em demasia a tenebrosas transações feitas com Valérios dos mais variados quilates. Só a campanha para governador do atual presidente do partido, senador Eduardo Azeredo (MG), embolsou R$ 11,7 milhões via caixa dois. E isso em 1998. A reação do tucanato às denúnicas – que envolvem outros mineiros conhecidos, como o ex-ministro Roberto Brant e o atual governador Aécio Neves - é a mesma do petismo: “todo mundo faz”.

PT e PSDB são hoje, fósseis andantes, mortos-vivos que se alimentam de um fiapo de esperança que a sociedade brasileira ainda teima em depositar na conta de seu futuro político. A saída, única, viável e possível, é uma união de gente de bem deste país – os 21 deputados da esquerda petista, o PSOL de Heloísa Helena, exceções como Fernando Gabeira, Denise Frossard e Jefferson Peres – em uma nova agremiação partidária. Uma que já nasça musculosa, mas sem vícios. Uma que não repita os erros cometidos no passado.

Que encontre novos erros e os enfrente de cabeça erguida. Que não tenha um projeto único de poder e de tomada da máquina pública do Estado. Que se preocupe menos com a reeleição e mais em combater as desigualdes sociais que vão transformando, diariamente, mais pobres em miseráveis e mais ricos em milionários. Que tenha moral e coragem para lidar de frente com a violência e assumir e derrotar o terrorismo verde-e-amarelo. Que, principalmente, não represente apenas o pensamento da elite paulistana – intelectual ou sindical - mas entenda o tamanho da federação, suas diferenças, suas contingências, seus nós.

Este partido político não existe. Não ainda. Quando fundado, o PSDB reunia 8 senadores e 40 deputados. Não é impossível, acreditem, encontrar 50 parlamentares éticos, cujos nomes não aparecerão na lista do mensalão, indignados com a sujeirada que gruda em todo o Congresso Nacional. Uma faxina geral, que valorize novamente a idéia da democracia representativa, começa com esta gente vestindo a camisa de um mesmo time. Eles precisam de um nome, uma bandeira, um slogan e uma certeza apenas: a de que os fins não justificam os meios. Ou a política de nossos dias, por si só, exclui esta definição?

terça-feira, julho 26, 2005

Estranhas Prioridades – o Retrocesso da Imprensa

Você quer saber mais sobre a Martha Stewart ou sobre o genocídio de Darfur? Em sua coluna de hoje no The New York Times, Nicholas Kristof dá um puxão de orelhas na cobertura que a imprensa norte-americana não tem feito do desastre no Sudão e da tragédia de Darfur. Mais: diz que se pode criticar a administração republicana por sua passividade quanto à ajuda humanitária aos africanos, mas Washington também tem munição de sobra para esculhambar com a imprensa norte-americana, que se mantém tão omissa quanto o governo Bush ao tratar do tema.

Para se ter uma idéia, apenas 18 minutos sobre Darfur foram mostrados na ABC News (todas reportagens de Peter Jennings) e outros míseros 5 na NBC em 2004. Já a CBS dedicou 3 minutos a Darfur contra 130 ao caso Martha Stewart no mesmo período. Na conta de Kristof, os canais de tevê aberta dos Estados Unidos dedicaram, em média, um minuto para cada 100 mil mortes no país africano.

Ele vai além: a cobertura do genocídio de Darfur foi pior do que a do massacre turco contra os armênios em 1912. Um retrocesso que passa por uma desculpa conhecida da imprensa brasileira: a de que é muito caro manter um correspondente no Sudão. Kristof é irônico: ‘se ao menos o julgamento de Michael Jackson tivesse acontecido em Darfur!”.

Em tempo - a coluna pode ser lida, no original, para leitores cadastrados no NYT, em http://www.nytimes.com/2005/07/26/opinion/

quinta-feira, julho 14, 2005

Muito Bem Dito

De Sillio Boccanera, hoje, na página de Opinião de O Globo, sobre o que ele muito propriamente qualifica de terrorismo tupiniquim:

(...) em termos de segurança da população, mesmo com terrorismo ocasional, Londres permanece muito menos perigosa do que cidades como Rio de Janeiro ou São Paulo. Isso não é um elogio à capital britânica e sim uma crítica às grandes cidades brasileiras. Cinqüenta mortos em quatro explosões no centro de Londres, quinta-feira passada, constituem uma selvageria. Mas também é selvagem o fato de que um número equivalente de pessoas é vítima de assassinato a cada fim de semana no Grande Rio. Diferença: a barbárie em Londres é episódica e rara, choca o país, mobiliza as autoridades; a do Rio é rotineira e só provoca indiferença.

O fato de que a maioria dessas mortes no Rio ocorre na periferia pobre da cidade (embora cada vez mais avance pelas áreas “nobres”) não tira dos números o significado de horror que efetivamente têm. Vive-se no Rio o equivalente a uma guerra civil, só que mais discreta, sem tanques ou aviões, não proclamada oficialmente. Mas tão letal quanto as que devastaram outras cidades em luta fratricida. É uma espécie de terrorismo tupiniquim.

o excepcional artigo, enviado por minha amiga Regina Zappa, deve ser lido na íntegra, por leitores cadastrados, em http://oglobo.globo.com/jornal/opiniao/.

Diretinho da Redação (22)



A Volta do Pesadelo em Nova Iorque

O texto abaixo, sobre o pesadelo eterno da ameaça terrorista aqui em Nova Iorque também pode ser encontrado no excelente www.diretodaredacao.com

No dia 7 de julho eu e uma amiga ficamos parados durante meia hora entre duas estações de metrô aqui no Brooklyn, em Nova Iorque. Tínhamos passado a manhã com os narizes grudados no aparelho de televisão, acompanhando pela BBC o ataque terrorista a Londres. Tínhamos de fazer compras e a maneira mais rápida era pegar a linha G, duas paradas apenas. Pouco antes de chegarmos à última estação o trem parou. Depois de 10 minutos uma voz feminina avisou que havia uma emergência relacionada ao trem que estava à nossa frente. E repetiu a mesma explicação, feito mantra tenebroso, de quando em quando nos 20 minutos seguintes.

O ar-condicionado, ainda bem, funcionava. O vagão não estava lotado, mas havia um nervosismo no ar. Todos pensavam em Londres. Depois em Madri. Depois no World Trade Center, logo ali do outro lado do East River. Todos buscavam, ainda que inconscientemente, visualizar malas, pacotes, turbantes, barbas. Sim, turbantes e barbas. Aqui vive-se como nunca o preconceito religioso. Descarado. Sem encontrar a ameaça mais óbvia, os passageiros, resignados, se livraram dos sapatos e gravatas, mas ninguém se encarava. Mesmo no desespero rotineiro de uma tarde asfixiante na capital do mundo, olhos nos olhos é quimera distante.

Meia hora depois finalmente nos movemos e, em menos de dois minutos, chegamos ao destino. Todos seguiram apressados para suas vidas na superfície e apenas os jornalistas se deram ao trabalho de inquirir o motivo do incidente, aparentemente causado por um alarme disparado por acidente no trem que corria cinco minutos à frente do nosso. Não importa. Assim como o absurdo da violência no Rio de Janeiro foi assimilado pelos cariocas, a ameaça terrorista, aqui em Nova Iorque, já faz parte do dia-a-dia de seus habitantes.

Durante todo o dia 7 poucos demostraram desconforto em cruzar com hordas de policiais muito bem armados nas estações de metrô dos cinco distritos da cidade. Não deve causar estranheza, também, a informação de que o preço do metro quadrado em Lower Manhattan – onde ficavam as Torres Gêmeas destruídas pelo atentado de 11 de setembro de 2001- quase duplicou desde então. E que Madri, desde a tragédia de 2003, tem recebido mais e mais visitantes. Os hotéis estão saindo pelo ladrão. Aliás, a terra arrasada onde ficava o World Trade Center é um ponto turístico disputadíssimo em Nova Iorque. Todos querem tirar fotos e brigam por um espaço para garantir esquisitíssimo souvenir.

Cansados de guerra, estressados depois de décadas de difícil relacionamento com o IRA, os britânicos descobriram hoje que quatro dos terroristas de 7 de julho eram jovens. O mais novo adolescente, o mais velho acabara de completar 30 anos. Todos criados na Inglaterra. Todos filhos de trabalhadores de classe-méda baixa completamente adaptados à vida na Europa. Meninos educados nos colégios ingleses são os responsáveis pela morte de 52 pessoas, sem esquecer dos mais de 700 feridos, muitos em estado grave. Como lidar com esta nova bomba?

Há alguma esperança de bom-senso no ar. Ao contrário de seu parceiro Bush II, o primeiro-ministro Tony Blair optou por uma estratégia diversa. Ele já convocou, em uma jogada inteligentíssima, a maioria da comunidade islâmica britânica – formada por gente trabalhadora, pacífica e honesta – para ajudá-lo a liderar uma faxina interna contra quem prega o ódio e a violência. Em suas palavras ‘a moderada e verdadeira voz do Islã precisa ser mobilizada’.

Uma das bombas explodiu justamente em uma das regiões – Eldridge – em que a maioria dos moradores se identifica como muçulmana. Eles estão entre as principais vítimas do atentado. Parentes e amigos das vítimas de fé islâmica que vivem na região se sentem acuados e dizem que o ataque também foi ‘uma mensagem dada pelos fundamentalistas a nós. A de que ou lutamos contra o inimigo cristão ou temos de voltar para casa’’, isto é, para a Ásia e o norte da África, de onde seus pais saíram em busca de trabalho. Como disse Blair - e agora, mais do que nunca, é preciso acreditar na sinceridade de suas palavras - em última instância não há outra maneira de enfrentar e liqüidar este problema, a não ser dentro da própria comunidade muçulmana.

Em Nova Iorque, onde adolescentes de fé islâmica são presos pela polícia federal na calada da noite e devolvidos com um pedido de desculpas a pais atônitos, o maniqueísmo republicano não ajudou em nada a população a lidar com um problema originado na miséria, na desinformação e no totalitarismo apoiado decididamente no passado pelas grandes nações ocidentais. Quem sabe um sopro de argúcia nos chegue aqui também, ainda que quatro estações atrasado?

domingo, julho 10, 2005

Trabalhadores do Meu Brasil

De Jânio de Freitas, na Folha de S.Paulo de hoje:


Ao fazer a nomeação de Luiz Marinho para o Ministério do Trabalho, Lula estará oficializando a CUT como instrumento do governo, ou seja, da política econômica em vigor. Logo, com a CUT no atual Ministério do Trabalho, os trabalhadores nunca estiveram tão longe do governo.

sábado, julho 09, 2005

Mais Uma da Direita Festiva

Tá hoje na Veja. Depois de Cora Rónai, mais uma tiradinha da direita festiva que povoa a Zona Sul carioca. Desta vez foi Millôr Fernandes, com esta pérola:

E você, que acha que todas as falhas do nosso Supremo Mandatário são vistas com preconceito só por sua falta de educação formal (se é que tem outra), me diz aí: você operaria sua cabeça com um neurocirurgião sem diploma? Você, sentado em sua poltrona de avião de partida pra Europa, continuaria sentado se o microfone anunciasse: "O comandante não pôde comparecer, mas fiquem tranqüilos – vamos ser pilotados por um companheiro que aprendeu a pilotar maravilhosamente numa metalúrgica de Santo André?

Por conta da lambança dos companheiros, esta gente agora se arvora de senhores da verdade. Tristes tempos.

quinta-feira, julho 07, 2005

Mas por R$ 2 mil?

Ganha uma jujuba de morango quem souber dizer em que país vive o deputado-federal Jorge Bittar (PT-RJ). Ele acaba de perguntar à secretária Fernanda Karina, na CPI dos Correios, se ela agia em nome do publicitário Marcos Valério por um salário que o engenheiro achou muito baixo. Bittar foi enfático: “Mas a senhora se submetia a tudo isso por R$ 2 mil?”. A secretária não se fez de rogada e lembrou que é difícil arrumar emprego no governo dos companheiros. O deputado podia dormir sem essa.

Diretinho da Redação (21)


O texto abaixo pode ser conferido ainda no www.diretodaredacao.com

Política é showbusiness. E showbusiness feito por gente feia. Política é, em última instância, uma Hollywood sem gatinhas e gatões. Quem disse isso, neste fim de semana, pensando em Washington, foi o senador Chuck Hagel, de Nebraska, herói da Guerra do Vietnã e um forte presidenciável do Partido Republicano para a sucessão de Bush II. Brasília está para esta definição como a Globofilme para a Miramax. Basta acompanhar as sessões das CPIs instaladas no Congresso Nacional. Deputados e senadores brigam por uma fala tal qual figurantes de “Malhação”. E na era dos reality shows, a imprensa, afoita, quer saber quem será o eliminado da semana: Dirceu, Delúbio, Silvinho, Gushiken, Genoíno?

Data venia, para os espectadores não há diferença alguma. É tudo farinha do mesmo saco, diz Dona Maria. Político é tudo igual, retruca Seu José. A novela que Dona Marocas acompanha está repleta de vilões assustadores interpretando, com maior ou menor canastrice, variações de um triste papel – aquele em que ‘gente rica fala em nome de gente pobre tentando assegurar votos para que continue ganhando dinheiro no próximo quatriênio’.

Pois é. Há dinheiro. E muito. Assim como se discute abertamente quantos doláres Julia Roberts está levando a mais do que Nicole Kidman por filme, roem-se unhas e gastam-se calculadoras para saber quanto um deputado – através de nomeações, mesadas e otras cositas más – leva para casa a cada fim de mês.

Durante as eleições presidencais do ano passado, meu amigo Donald se mostrou intrigado com o interesse da imprensa internacional em explorar as diferenças entre Bush II e John Kerry. Por que eles não entendem que o que importava eram as semelhanças? Os dois eram fruto de um mesmo sistema que permite apenas a milionários e filhos da chamada Ivy League – a elite norte-americana que estuda nas melhores e caríssimas universidades do país – a prerrogativa de comandar o governo dos Estados Unidos. Certamente, me dizia, não é assim no Brasil, em que um operário pode ser eleito para o cargo máximo do país.

É justamente este o nó mais complicado das democracias ocidentais e que precisa ser encarado de frente por todos nós: o sistema de representação política naufragou. Faliu. Lobbies, campanhas publicitárias calculadas em dólares, empréstimos milionários dados a partidos políticos avalizados por publicitáros produzem a natural sensação do ‘é tudo igual mesmo’, recordes de abstenção em eleições parlamentares e a certeza de que, no fim das contas, aqueles políticos do reality show do Congresso não representam os vários estratos da sociedade civil. Sejam eles Jeffersons ou Dirceus. O raciocínio da Dona Maria, mesmo com o operário no Alvorada, faz cada vez mais sentido.

Esta semana, Lula voltou a bater na tecla de que vai punir severamente aqueles que enriqueceram se aproveitando do dinheiro público. Para o bem de todos e felicidade geral da nação já é hora de o presidente perceber que o buraco é mais embaixo. Nem nas cifras nem na tática envolvida – a compra de políticos a peso de ouro através da institucionalização de uma mesada – a crise em Brasília é mais do que apenas um caso de políticos se apropriando do leite das crianças.

Como bem tem dito o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), a mera insinuação do ‘mensalão’ já é um crime de honra contra a democracia tal qual a conhecemos. E os indícios, diariamente, vêm se transformado em fatos tenebrosos. Não é a hora de se pensar em reforma política de fato? Uma que não esteja centrada na exclusão dos pequenos partidos do Congresso – jogando no ‘mesmo saco da Dona Maria’ um PL e um PcdoB, um PTB e um PSOL – mas que reafirme a importância e a necessidade da democracia representativa? Ou será que Dona Maria, já com os dois pés fora da sala de cinema, frustrada por não conseguir encontrar um mocinho sequer no showbusiness da política brasileira, está mesmo repleta de razão?