quinta-feira, setembro 08, 2005

Diretinho da Redação (28)



O texto da semana já pode ser lido no www.diretodarecao.com e no www.click21.com.br



Vergonha, vergonha, vergonha

Os americanos atravessaram esta semana sob o signo da vergonha. Vergonha nacional. A destruição impiedosa causada pelo furacão Katrina é o 11 de Setembro às avessas de George W. Bush. É também – ao custo de dezenas de milhares de mortos, nas estimativas da prefeitura de Nova Orleans – o apocalipse da política neoliberal calcada no desmonte do Estado. Em todo o pais a pergunta é a mesma: aonde está a Guarda Nacional? Cadê o pessoal da Emergência? O que está fazendo o governo federal? Os bombeiros? A defesa civil? O serviço médico? O Terceiro Mundo é aqui.

As histórias que invadiram as casas democratas e republicanas dos Estados Unidos alimentaram o cidadão comum de vergonha.

Vergonha da mãe negra que teve de escolher entre as quatro filhas qual seria resgatada, pois o helicóptero utilizado para o salvamento tinha menos espaço do que deveria. Os demais ficaram ao deus-dará, no telhado de uma casa que já não existia, sem água, sem comida.

Vergonha do imigrante que preferiu enfrentar os riscos de uma cidade sem luz, sem ruas, sem serviços, sem lei, a ir para um abrigo e acabar deportado para o México.

Vergonha dos dois policiais que, não suportando mais as pressões, preferiram dar um tiro em suas próprias cabeças do que alvejar vizinhos.

Vergonha de um presidente omisso e que somente deixou suas férias no Texas – as mais longas jamais desfrutadas por um ocupante da Casa Branca - para dizer que estava sim mandando mais gente para a região do Golfo do México. Gente para dar cacetada nos que saqueavam as lojas e supermercados fechados.

Como em todas as tragédias, o desastre de Nova Orleans pode ser contado em detalhes aparentemente banais, mas que decidem vidas. O dia em que as águas ocuparam o centro histórico da cidade era justamente a véspera do recebimento do dinheiro contado da Previdência Social para milhares de pessoas. A ração dada pelo governo – uma média de US$ 600 para famílias de até seis componentes – poderia ter sido o maná a ser utilizado na compra de passagens de ônibus, de mantimentos, de água.

Mas, vergonha, a esmola federal jamais chegou aos lares miseráveis da Louisiana.

Foi preciso Nova Orleans desaparecer nas águas do Mississipi para que os americanos pudessem enxergar os milhares e milhares de abandonados por Tio Sam. A favela que existe em cada metrópole daqui saiu de sua invisibilidade na Louisiana de um modo dramático, tal qual um Mardi Gras sem música, uma quarta-feira de cinzas sem fim. A miséria norte-americana é negra e hispânica em sua maioria, mas cheira mal e é repleta de desespero e ignorância como em qualquer Mumbai, qualquer Rio de Janeiro, qualquer Cidade do Cabo, qualquer São Paulo, qualquer Bagdá.

As águas de Setembro que fecham este triste verão na zona norte do mundo podem carregar algo mais do que a vergonhosa falta de liderança republicana. Pesquisador de Nova Orleans, John Barry escreveu em 1998 “Rising Tide”, livro que, por motivos óbvios, pulou esta semana para a lista dos mais vendidos nas livrarias dos Estados Unidos.

De maneira objetiva, mas sem perder a emoção, ele conta detalhadamente como o dilúvio de 1927, no mesmo Mississipi, modificou para sempre os Estados Unidos, abrindo caminho para o New Deal de Roosevelt. O sistema de Previdência Social americano deve muito aos reflexos daquele desastre. O mesmo sistema que George W. Bush quer privatizar, uma de suas principais metas neste segundo mandato na Casa Branca.

Como agora, na enchente de 27 o governo federal, comandado por um conservador, Calvin Coolidge, foi acusado de negligência e descaso. Atordoados, os americanos seguem procurando descobrir um antídoto para a vergonha nacional. Ou, parafraseando Demétrio Magnoli, eles estão finalmente tendo de lidar com sua vergonhosa opção histórica: a de terem se transformado em uma civilização que sabe matar como poucas, mas que não tem a menor idéia de como proteger a vida. O Terceiro Mundo, definitivamente, é aqui.

quinta-feira, setembro 01, 2005

Diretinho da Redação (27)

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Uma Tragédia Social

Os barracos amontoados uns nos outros e o esgoto à céu aberto intensificam a sensação de filme repetido. Os rostos dos moradores são, em sua esmagadora maioria, negros. E a rotina de vida por eles descrita também não é novidadeira: milhares de pessoas vivendo sem a presença do Estado ou da polícia, jogadas ao deus-dará, sem água potável e eletricidade. E na favela de Cité Soleil, em Porto Príncipe, capital do Haiti ocupado pelas forças da ONU, os soldados de boina azul - em sua maioria brasileiros - são vistos com a mesma mescla de ódio e medo com que os moradores das favelas percebem nossa policia nos morros cariocas e na periferia paulistana. Se o Haiti não é aqui, como diz a música de Caetano e Gil, uma parte do Brasil – feia, miserável e injusta – está sendo bisada nas Antilhas.

Ao menos é o que nos contam os repórteres Walt Bogdanich e Jenny Nordberg, enviados pelo NY Times para cobrir as eleições gerais de novembro. Um outro jornalista, o excelente Ben Terral (autor de reportagens que doem nos ossos, seja no San Francisco Chronicle ou na Progressive e na In These Times) mantém uma página eletrônica diária do Haiti, em que segue denunciando atrocidades cometidas contra os moradores de favelas controladas por rebeldes saudosos do presidente Jean-Baptiste Aristide, deposto em fevereiro de 2004, com decidida ajuda americana.

Os militantes do Lavalas, o partido de Aristide, dizem que forças policiais treinadas pela ONU estão assassinando ‘rebeldes’ e ‘líderes comunitários’, sem distinção, com golpes de machado. O inimigo número um dos bonés azuis, Emanuel Wilmer (‘Wilmé, o Temido’), foi morto em um ataque no dia 6 de julho, em que pereceram outros ‘rebeldes’ e, de acordo com os moradores, muitas crianças e mulheres.

Um morador da favela, René Momplaisir, mostrou para os repórteres do NYT esta semana as fotos das crianças que ele conseguiu fotografar, ‘antes que os cachorros as comessem’, na noite do dia 6. “Por que as pessoas morrem deste jeito no Haiti? Porque aqui não há lei”, diz. Adeline Pierre, 28 anos, conta que estava grávida e perdeu o filho, vítima de uma bala perdida. A ONU acusa os rebeldes de usarem infantes e mulheres como escudo.

O mundo do vale-tudo haitiano é muito semelhante à tragédia social brasileira. O coordenador do Médicos Sem Fronteiras de lá conta que atendeu pelo menos 27 mulheres e/ou crianças feridas à bala na invasão do dia 6 de julho. Invasão, principalmente, porque em Porto Príncipe, assim como em muitas ‘comunidades’ cariocas, é preciso pedir permissão a quem manda para se entrar. A alternativa parece ser a de chegar atirando.

Com a aproximação das eleições, a pergunta é uma só: como fazer com que estes seres abandonados à própria sorte (instituições filantrópicas temem entrar nas áreas controladas pelos ‘rebeldes’) acreditem na democracia imposta? Como fazê-los sair de seus barracos no dia 13 de novembro e andar até às cabines eleitorais improvisadas para eleger presidente e legisladores, quando ‘representante popular’ é um termo nebuloso, quase irônico?

Apesar da boa cobertura da mídia daqui, os norte-americanos mandam sinais cada vez mais nítidos de que têm mais com o que se preocupar. Com um índice de reprovação na casa dos 53% por conta dos desmandos no Iraque ocupado e do aumento no preço da gasolina, o governo Bush não quer nem ouvir falar de Haiti. O presidente, que pretende manter algum poder de fogo na escolha de seu sucessor, interrompeu suas férias esta semana para se dedicar a assuntos internos, como os estragos do furacão Katrina no sul do país, qualificado pelos republicanos como ‘o nosso tsunami’, e a cruzada conservadora pela reforma da Previdência Social.

Não preciso nem dizer que o Brasil está mais do que ocupado tentando preservar a República dos dramalhões de Jeffersons e Dirceus, mas quem sabe uma dose de Cité Soleil não nos ensinaria mais sobre nossa própria desgraça social?

Durante a Segunda Guerra relatos como os de Rubem Braga nos ajudaram a repensar o Brasil governado por um ditador enquanto nossos pracinhas ‘lutavam pela liberdade’. Sim, a batalha era outra, o cenário e o tempo completamente diversos, mas ainda estamos a esperar o escriba brasileiro de Porto Príncipe.

Enquanto isso uma imagem de um Brasil preconceituoso, conivente com a exclusão, covarde e submisso vai sendo forjada nas Antilhas sem que tenhamos noção do tamanho do estrago. Já é hora de a imprensa abrir suas páginas e discutir de forma ampla o que esta aventura nas ilhas nos revela de nossa própria alma verde e amarela.

quinta-feira, agosto 25, 2005

A Verdade

Para quem quiser prestigiar o blogueiro aqui, sai amanhã, no suplemento de fim de semana do Valor Econômico uma matéria sobre dois livros que tratam de tema interessante e atual para nosso Brasil - a verdade.

Os filósofos Simon Blackburn, de Cambridge, e, principalmente, Michael P. Lynch, da Universidade de Connecticut, tratam da importância da Verdade para o funcionamento das democracias contemporâneas, criticam o cinismo imperante, falam das mentiras de Estado e do perigo das sociedades dominadas pela covardia social, que vêem a Verdade mais como um fim do que como um princípio. Amanhã, nas bancas brasileiras ou, para assinantes, no www.valor.com.br.

abraços em todos,
Edu

quarta-feira, agosto 24, 2005

Diretinho da Redação (26)



Uma & Eu

Uma das obsessões dos nova-iorquinos é encontrar restaurantes e bares ao ar livre no verão. Como aqui a estação dura de fato pouco menos de quatro meses, esta é a chance de se apreciar uma refeição ao sol, com céu azul ao fundo e um monte de gente querendo ver e ser vista. Gente que vai ao Shake Shack, uma lanchonete assim-assim que tem como maior atração justamente o fato de estar situada na Madison Square, a meio caminho da Union Square e da Penn Station. Foi lá que lanchei, dia desses, ao lado de Uma Thurman, Ethan Hawke e seus pimpolhos Maya e Roan.

Antes de mais nada – eu não sabia que o casal de divorciados tinha dois filhos. Também não poderia imaginar que Maya tinha seis e Roan três aninhos. Muito menos que eles curtiam brincar no parquinho da Madison nestas tardes quentes de verão e que aquele era justamente o local em que a atriz e seu ex-marido colocavam o papo em dia. Tá bem, confesso, eu escutei a conversa alheia, mas somente depois que Uma colocou o dedo na cara do Ethan. Foi justamente este detalhe que motivou a amiga a me condenar, mais tarde: “mas você deveria ter fotografado a cena! Iria ganhar uma bolada com esta imagem!”

Eu nunca havia me deparado com a Uma antes. Não ao vivo. Fiquei me perguntando o que o Ethan teria feito para despertar tanta raiva assim da Noiva de Kill Bill e se ele não sabia com quem estava mexendo. Depois lembrei que minha câmera estava logo ali na parte da frente da bolsa, pois depois do sanduba seguiria para uma reportagem sobre a inauguração de um novo museu nas cercanias de Columbus Circle.

Um turbilhão de sensações e pensamentos invadiu minha cabeça: estava em uma posição privilegiada - o que nos separava era uma vegetação baixa - tiro ou não tiro a foto? - minha digital é mínima - eles jamais iriam perceber - tiro ou não? - o dedo longilíneo de Uma continua em riste - eu nunca fui mesmo com a cara do Ethan - tiro ou? - sempre o achei um canastrão com cara de bebê chorão - ele bem que merecia - tiro? - as crianças voltam para a mesa sorridentes - o dedo baixa - eles sorriem - não tiro.

Não cliquei. No caminho para o museu, um jornal distribuído gratuitamente no metrô cai nas minhas mãos. A reportagem conta a história da terceirização dos caçadores de celebridades: imigrantes ilegais estão sendo treinados por revistas de fofoca para fotografar os famosos. Como trabalham sem contrato formal e em geral não são facilmente identificáveis, torna-se quase impossível para os caríssimos advogados de Beverly Hills conseguir arrancar algum dinheiro ou reparação para seus clientes, em geral estrelas de Hollywood. Se flagrados antes de a foto chegar às mãos dos editores de fotografia, as revistas dizem que jamais fizeram qualquer contato com tal indivíduo.

Mas, de acordo com dois renomados especialistas entrevistados pelo repórter, há um atrativo ainda maior do que o dinheiro para o substancial aumento do número de paparazzi nos Estados Unidos: eles acreditam que fazem parte de Hollywood e, claro, concluem, todos querem fazer parte de Hollywood. Jogo imediatamente o jornal lixeira abaixo, decidido a passar um longo tempo afastado das salas de cinema-pipoca da cidade. Eu, hein..

terça-feira, agosto 23, 2005

Trilhões de Dólares

Secretária-assistente do Departamento de Comércio dos Estados Unidos no governo Clinton, Linda Bilmes fez as contas da aventura ianque no Iraque e no Afeganistão, que o New York Times publicou neste fim de semana. Os números são impressionantes, todos em bilhões de dólares:

• montante gasto até o momento apenas nas operações militares: 258 bi
• custo estimado da ocupação nos próximos cinco anos: 460 bi
• custo com veteranos de guerra (tanto Iraque quanto Afeganistão): 315 bi
• déficit financeiro estimado (cinco anos): 220 bi
• impacto econômico interno gerado pelo aumento do preço do barril de petróleo (cálculo do FMI): 119 bi
• Custo total das invasões de Iraque e Afeganistão até 2010: 1,372 trilhão de dólares.

A dimensão da gastança, diz a professora Bilmes, uma das estrelas da prestigiada Kennedy School, de Harvard, tem sido mascarada por Washington. Eles agora estão sendo cantados em verso e prosa em todas as manifestações que pedem o retorno das tropas ativas no Oriente Médio. Se o governo Bush não se sensibiliza com os mais de 2 mil americanos mortos e 15 mil feridos seriamente desde 2001, o imenso buraco nas contas públicas já está fazendo com que muitos republicanos temam uma derrota retumbante nas eleições parlamentares do ano que vem.

quinta-feira, agosto 18, 2005

Diretinho da Redação (25)

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VOVÔ TERIA UM TROÇO


Neto de político, passei boa parte de minha infância ouvindo causos sobre Miguel Arraes. Meu avô adorava me vender os homens públicos de antanho como seres sobrenaturais, super-heróis mais brasileiros e humanos dos que eu poderia encontrar nos gibis. A morte do ex-governador pernambucano me encheu de lembranças do "Dotô Arraia", personagem destacado das forças do bem que tinha o poder de criar, do nada, a abençoada chuva tão aguardada pelos sertanejos. E em quem, eu escutava com olhos arregalados, bastava se tocar na fronte para se ter sorte por toda a vida. Vovô gostava especialmente de narrar a história "Arraia e as leis trabalhistas". Finalmente, me dizia, os camponeses haviam vencido a tirania dos usineiros, os bandidos deste faroeste improvisado no árido nordeste da imaginação do vovô.

Super-heróis não cabem na política. Especialmente os que acreditam em seus poderes. Fico aliviado em saber que vovô vibrou com o primeiro governo de Arraes, nos anos 60, mas que mal percebeu a segunda passagem do político pelo Palácio das Princesas (mas bem que ele repetia, feliz da vida, três batidinhas ritmadas no tórax, seguidas de três risadinhas, nem duas, nem quatro: "ele vai entrar pela porta que saiu", referindo-se, claro, à resistência do governador em 1964). Mais importante ainda, ele aqui já não estava quando nosso abatido super-herói, cansado de idas e vindas à Sala da Justiça, enredou-se na trama viciada dos precatórios.

Foi justamente quando tentava se reeleger, em 1998, que Arraes chamou para sua campanha um tal de Duda Mendonça. Ao perceber que não havia chance de lutar contra a criptonita do Plano Real, o marqueteiro tentou convencer o governador a abandonar a peleja. Foi quando, Arraes, antípoda da "esquerda de resultados", lhe disse que, no mundo da política, "há eleição em que a gente ganha eleitoralmente e perde politicamente. E há eleição em que a gente perde eleitoralmente e ganha politicamente".

A mensagem não poderia ser mais atual. O abatido super-herói perdeu a batalha com a maior dignidade possível, mas Duda jamais compreendeu o sentido daquela sentença. Tive esta certeza na semana que voou. Enquanto Arraes enterrava consigo uma estirpe de homens públicos que não volta mais, Duda, em última instância o principal responsável pela imagem da "República Petista", confessava crimes gravíssimos, como sonegação fiscal e recebimento ilegal de dinheiro em paraísos fiscais.

E disse, televisão escancarada agora em outra sala de estar, que "poderia dormir tranqüilo, pois não cometera erro de honestidade e estava liberado para beijar e abraçar seus filhos". Vovô teria um troço. E ficaria arrasado ao imaginar aquelas crianças de Duda desprovidas do mundo fantástico em que os superpoderes dos políticos eram resumidos em honra e caráter - remédios infalíveis para se derrotar as forças das trevas.

terça-feira, agosto 16, 2005

Triste Fundo De Pensão

Para quem ainda não leu, a cacetada de Jânio de Freitas, na Folha de S.Paulo de hoje, no sumido José Genoíno:

José Genoino requereu, para receber a partir deste mês, R$ 8.148 a título de aposentadoria por seus 20 anos de deputado. O provento corresponde a cerca de 65% do vencimento de deputado ativo. Ativo? Quem? Digamos, deputado com mandato.

José Genoino tem um bom motivo para a reivindicação e o recebimento: "É uma questão de sobrevivência".José Genoino, quando voltar a ter coragem de aparecer e falar em público, por certo vai explicar de que questão se tratava para os idosos e doentes cujas aposentadorias indecentes ele, como deputado e como presidente do PT no governo Lula, tanto contribuiu para tornar humilhantes e mais degradantes da velhice e da doença -não depois de 20 anos, mas de 35, 40 e mais anos de trabalho verdadeiro.

A rigor, nem essa explicação se precisa mais ouvir desse José Genoino que se esconde atrás da própria sombra, para fugir às altas responsabilidades que lhe cabem na montagem e na operação, dentro da Câmara e entre os partidos, das imoralidades que se desvendam.

Aaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiieeeeeeeeeeeeeeeeee!



Alguns amigos deste blog que tinham visto os primeiros ensaios na Costa Oeste já tinham me dito que a coisa era horrenda. Agora Ben Brantley, no The New York Times, esculhambou de vez com o espetáculo autorizado por Yoko Ono. A reação a Lennon (acima Will Chase, um dos cinco 'Lennons' do espetáculo, em foto de Joan Marcus) é resumida na crítica a um daqueles gritos primais de Yoko: aaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiie!

De acordo com Brantley, Lennon aparece mais como o ‘parceiro criativo de sua mulher japonesa’ do que como um Beatle ou gênio do pop. Artificial, boboca, non-sense, musicalmente xoxo. Estes são apenas alguns dos adjetivos usados pelo crítico no texto que pode ser conferido na seção de artes do jornal nova-iorquino. Pelo visto, Lennon, que eu não posso deixar de perder, vai ter o mesmo destino da adaptação das músicas dos Beach Boys para o palco, o maior mico da temporada passada da Broadway. A parceria rock e teatro já viveu dias melhores...

CONGRESSO TRAPALHÃO. ONDE? NOS EUA!

Na terça-feira passada o jornalista Henry Fountain, do The New York Times, estava tocando uma reportagem sobre a nova legislação relativa à Energia aqui nos Estados Unidos, enviada ao Congresso pelo presidente Bush, quando se deparou com um fato curioso. Incluída no último minuto pelo deputado republicano Ralph M.Hall havia uma emenda que previa a liberação de US$ 250 mil para os estudos de algo chamado ‘cold cracking’ do petróleo.

A fim de saber que diabos era o tal do ‘cold cracking’, Fountain ligou para o legislador. Este confessou não saber exatamente do que se tratava. Mas avisou que havia incluído o tal adendo de última hora a pedido de outro deputado republicano, Mike Rodgers, do Alabama. Lá foi Fountain perguntar ao ilustre representante sulista, que também não conseguiu explicar a necessidade de estudo do tal ‘cold cracking’ do petróleo. Mas ele indicou ao repórter a fonte perfeita: Bud Brainerd, presidente da Renaissance Petroleum Technologies, que, exatamente por se tratar da única empresa no mundo que estuda o ‘cold cracking’ invariavelmente vai receber a bolada do contribuinte norte-americano.

Fountain descobriu que a sede da Renaissece fica em Auburn, no mesmíssimo Alabama do deputado Rodgers. Em uma entrevista por telefone, Brainerd explicou que o ‘cold cracking’ é uma forma alternativa de refinar petróleo, esmigalhando longas cadeias de hidro-carbonetos por um processo similar ao da esterelização de equipamento médico (ou seja, exposição aos raios gama) mas que, ele frisa, não tem nada a ver com radiação. O ‘cold cracking’ reduziria os riscos de um processo que hoje é feito em alta temperatura. No entanto, até agora, ele só foi realizado em laboratório e os US$ 250 mil serão utilizados, diz Brainerd, justamente para provar que esta nova tecnologia pode ser um belo investimento para os Estados Unidos. Ao menos agora os dois deputados devem estar sabendo para que, afinal, incluíram a tal emenda na nova legislação de energia.

Pílula da Noite

De uma antiga entrevista do por aqui cada vez mais cultuado escritor chileno Roberto Bolaño (1953-2003) à Playboy mexicana:

Sou um latino-americano. Meu único país são meus dois filhos e, talvez, embora em segundo plano, alguns momentos, ruas, restos ou livros que carrego comigo.

sexta-feira, agosto 12, 2005

Elite, mas que elite?

Para quem ainda não leu, trecho do artigo da psicanalista Maria Rita Kehl, hoje, na Folha de S.Paulo:


A elite, hoje, somos nós. Não me refiro aos novos ricos do PT, aos que aumentaram o patrimônio ou ganharam carros importados de empresários "amigos".

Refiro-me à elite governante, responsável por democratizar a relação do Estado com a população, por construir o país por meio de concorrências públicas limpas, por gerir o dinheiro do povo em nome dos interesses do povo.

Essa elite tem o dever de tomar o pulso da situação. Punir responsáveis. Pedir desculpas à sociedade. Modificar radicalmente a estrutura burocrática e de poder dentro do partido, como pretende o atual presidente Tarso Genro.

Há uma enorme diferença simbólica quanto aos efeitos sobre o tecido social entre os crimes políticos e os crimes comuns. Quando a elite governante não respeita a lei que ela própria representa, a desmoralização que se instaura corrompe a sociedade inteira.

quarta-feira, agosto 10, 2005

O novo Rolling Stones

O New York Daily News liberou hoje os versos de uma música do novo álbum dos Rolling Stones. Pau puro de Mick Jagger contra o conservadorismo norte-americano:
Como você pode estar tão errado, meu querido neo-con? Você pode se dizer um Cristão, mas eu digo que você é mesmo um hipócrita. Você se diz um patriota. Ora, eu acho que você é mesmo cheio de merda! ele canta, em tradução livre do blogueiro aqui.

Ainda deu tempo para Jagger zoar com Keith Richards. O pai do filho de Luciana Gimenez disse que o amigo está um pouco preocupado ‘porque, afinal de contas, ele mora nos Estados Unidos’. A propósito, o novo disco, que está saindo do forno, se chama ‘A Bigger Bang’, e já começa a ser boicotado pela direita raivosa local.

Diretinho da Redação (24)



Diálogo Distante e Impreciso

Quando a vida se degrada e a esperança abandona o coração dos homens, só mesmo a revolução. O mantra de Oscar Niemeyer me martela a cabeça no dia quente do sufocante verão nova-iorquino. Vá lá, me diz a amiga, a tal revolução do arquiteto não pode mais nascer de uma mobilização pela ética comandada por intelectuais cada vez mais desimportantes no tresloucado dia-a-dia que nos invade feito filme de Wong Kar Wai. Alguém ainda os escuta? Seus seminários e manifestos ainda ecoam em uma sociedade seqüestrada pela imagem, que absorve idéias de forma completamente diversa do que a de dez anos atrás?

Outra amiga me conta que próceres da inteligência brasileira, gente admirável mesmo, estão evitando sair de casa. Temem ouvir do barbeiro e do porteiro cobranças embaraçosas: por que cargas d'água o senhor me convenceu a votar nos companheiros? Dureza. Afinal, qual a resposta a ser dada? O que fazer quando a vida se degrada e a esperança abandona o coração dos homens? Outro amigo me sugere em missiva emocionada que talvez a revolução já tenha começado, ali mesmo com o gasto princípio de se tratar o outro como se fosse vocêzinho mesmo. Lá vem ele com o velho trotskismo cristão, mais demodé impossível, outro rebate. Tá certo.

Afeita a desafios, aquela outra amiga tinhosa que luta para não cair no niilismo-quase-espelho-do-cinismo tenta avançar. E pondera que chegamos ao ponto-limite em que a coisa pública não pode mais ser tratada como um patrimônio à disposição dos mais ditosos. Algo assim como um fundo comum que, aqui e acolá, vai sendo apropriado por gente diferente, mais ou menos conectada a grupos que chegam ao poder em um rodízio viciado e sufocante. Se continuarmos tratando do tema com a naturalidade própria de quem já viu tudo, estaremos oficializando a barbárie. E aí, ela abre os grandes olhos amendoados, é que eu quero ver!

Mais constatações óbvias? O produtor de eventos me garante que não. E sugere que cada brasileiro passe uma semana - com ou sem crise - pelos corredores de qualquer estatal brasileira. Qualquer uma, ele me diz. Neste país de miseráveis, a mesma gente que sai às ruas vestida de branco pedindo paz na Zona Sul carioca acha correto receber R$ 20 mil dos contribuintes para proferir palestras sobre a importância do dia da mulher. Ou superfaturar naquela genial série de espetáculos musicais que, no fim das contas, garante um apartamento por ano mas também leva o circo ao povo. E um bom circo. Este, me conta o produtor, é o mensalão mais profundo, geral e restrito. Um mensalão que corta a sociedade de modo desconcertante - quem tem e mama, sem culpa, quem tem e não mama, com mais ou menos revolta, e quem chora, não mama e nem tem como protestar. Estes últimos, claro, configuram a maioria da nação.

Nesta conversa de bar sem chope gelado e com copos vazios o outro amigo que vive fora do Brasil me lembra que a mentalidade da corrupção não está só em Brasília, não é exclusiva dos políticos e dos lobistas, não pode ser representada apenas por personagens mais ou menos folclóricos que garantem, aqui e ali, assunto para mídia e humoristas. Que nada. Ela também está nas comissões levadas por funcionários de todos os escalões, na muda de planta do parque nacional que vai parar no jardim da casa da madame, e, principalmente, no voto de quem elege o mesmo parlamentar que renunciou ao mandato no escândalo anterior e que agora é presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Congresso. O nome deste, aliás, é Antônio Carlos Magalhães.

A catequese da picaretagem também se encontra nas falas do presidente. Daquele que foi saudadado pelas elites do país - especialmente a pensante -como 'o representante mais genuíno do brasileiro'. Então o 'brasileiro' - esta figura que para o intelectual pode ser encontrada ali do outro lado do interfone_ pensa que 'é assim mesmo', que 'todo mundo faz', como vem repetindo Luiz Ignácio de Garanhuns?

Eu digo aos amigos que ele ainda pode surpreender. O 'brasileiro', não o Luiz Ignácio. Que ele pode até nos dar algumas dicas do que fazer quando a vida se degrada e a esperança abandona o coração dos homens. Digo que a primeira talvez seja a de aceitar nossa ignorância momentânea. Reconhecê-la e até aprender a conviver com ela. Ignorância, veja bem, não impotência.

Sim, pois o segundo pitaco será o de que é preciso reagir. De que mais que nunca é preciso reagir. De que é preciso reagir depositando um derradeiro ato de fé no 'brasileiro'. De que é cada vez mais necessário deixar que o porteiro e o barbeiro nos digam o que fazer. Esta mera inversão de papéis pode até não dar em nada muito maior do que irmanarmos, uma vez só, na obscuridade e desimportância de nosso destino verde-e-amarelo. Mas, daqui de longe, e corrijam-me se estiver americanizadamente errado, parece ser o que de mais revolucionário poderíamos alcançar em momento tão cinzento.

Enquanto escrevo o termômetro avança sorrateiro para os 42 graus. Lembro dos amigos, penso no país e tento me refrescar em meio a uma incômoda certeza: a de que esta nossa febre nada tem de êfemera.

p.s: o texto acima tambem pode ser lido no www.diretodaredacao.com e no www.click21.com.br

quinta-feira, agosto 04, 2005

La Cucaracha, La Cucaracha!

Sai hoje, no suplemento semanal Eu&Cultura, do Valor Econômico, uma reportagem do blogueiro aqui sobre o tal ‘boom hispânico’ em Bushland. “Hispânico” foi um termo muito do rastaqüera invetado pelos assessores de Richard Nixon para o censo norte-americano nos anos 70. Apesar da oposição do movimento (me) chicano, a maioria branca e protestante oficializou-o nas universidades da Ivy League e confinou em um mesmo gueto cubanos, porto-riquenhos, mexicanos, espanhóis e, para alguns estudiosos, até brasileiros e portugueses – hispânico seria entendido como ‘descendente de populações originárias da Hispania, nome dado pelos romanos para a Península Ibérica, incluindo a terrinha também’.

Enfim, na reportagem tem o béisbol (escrito assim mesmo) sendo tomado pelos dominicanos, as salas de cinema do Maya, um multiplex en lengua castellana, a nova mega-produção de uma dupla de diretores mexicanos que acaba de embolsar US$ 25 milhões em sua mais recente produção e, claro, as novas aventuras hollywoodianas de nossos Walter Salles e Fernando Meirelles. Sim, também deu tempo – ufa! – para falar do novo prefeito de Los Angeles, Antonio Villaraigosa, e do favorito do Partido Democrata para enfrentar Mike Bloomberg, aqui em Nova Iorque, no ano que vem, na peleja pelo controle da cidade, o boricua Fernando Ferrer, del Bronx. Amanhã, nas bancas ou, só para assinantes, no valoronline.

quarta-feira, agosto 03, 2005

Diretinho da Redação (23)




O texto abaixo, sobre a atualíssima fábula de Mia Couto, acaba de ser publicado no site do Direto da Redação.

Ai de ti, Brasília!

Quem diz é Ana Deusqueira: “Quando se quer limpar um país, tudo o que se encontra é sujeira”. A autora da frase não é uma intelectual européia radicada aqui em Nova Iorque. Ela é uma prostituta da pequena cidade de Tizangara, em Moçambique, na África. Ela é uma personagem genial de meu fabulista favorito, o moçambicano Mia Couto.

Em “O Último Vôo do Flamingo”, que saiu no Brasil este ano, Deusqueira é uma das cidadãs que observam, sem muita surpresa, a morte misteriosa dos soldados da força de paz da ONU, enviados para o país durante a guerra civil que já dura décadas. Logo descobre-se que os corpos dos soldados explodem do nada mas suas genitálias, intactas, surgem aqui e acolá, nos mais improváveis locais.

Em Tizangara é difícil saber quem é morto, quem é vivo, quem é vivo demais. Lá, a esquerda chega ao poder de modo festivo e sucumbe a um populismo vazio e ao ritmo inconfundível do capitalismo de periferia. Lá, na parte meridional do país, os flamingos, quando voltam de suas longas viagens pelo imenso continente, são recebidos com júbilo. Eles são os anunciadores da esperança, de que tempos melhores virão.

E se os flamingos não voltarem? E se a esperança partir de vez? Ana Deusqueira, uma atenta especialista, se debruça sobre as genitálias e não chega a conclusões definitivas. Mas segue dizendo: “A moral aqui é assim: enriquece-se, sim, mas nunca sozinho. São perseguidos pelos pobres de dentro, desrespeitados pelos ricos de fora. Tenho pena deles, coitados, sempre moleques”.

E quando a esperança trazida pelos flamingos revela-se uma falácia, como ficam os pobres? Com seus históricos defensores agindo do mesmo modo que os opressores da direita conservadora, não lhes resta mais nada. Os flamingos não voltam mais. Cansaram-se de tanta molecagem. E aquele Moçambique é entregue ao passado, governado pelos mortos. Acaba dissolvido nas brumas, levado pelos deuses africanos para lugar longínqüo, em que mantém-se invisível pela incompetência dos vivos, dos muito vivos. Deusqueira que Ana já não esteja pregando, sem que possamos ver e ouvir, pelas amplas avenidas de Brasília.

terça-feira, agosto 02, 2005

Do Noblat - Ciro 2002

Ricardo Noblat, em seu ótimo blog, acaba de publicar a nota abaixo, que dá o que pensar sobre a aliança eleitoral de 2002, quando Ciro Gomes (PPS-PTB-PDT) apoiou Lula no segundo-turno da campanha eleitoral:

PT usou dinheiro de caixa 2 para pagar despesas da campanha de Ciro em 2002

Foi para pagar despesas com o marketing político da campanha de Ciro Gomes à presidência da República em 2002 que Márcio Lacerda sacou R$ 1 milhão da conta no Banco Rural da agência SMPB de Marcos Valério. O nome dele foi fornecido ontem à Polícia Federal por Simone Sales, diretora financeira da agência.

Ciro foi adversário de Lula no primeiro turno da eleição daquele ano e aliado no segundo. Isso significa que dinheiro de Valério, repassado ao PT ou a quem o tesoureiro Delúbio Soares indicasse, e jamais declarado à Justiça Eleitoral, honrou compromisso assumido pela campanha de Lula em 2002.

Esta tarde, Márcio Lacerda pediu demissão do cargo de secretário-executivo do Ministério da Integração. O pedido foi aceito pelo ministro Ciro Gomes.

Mais um cai

Secretário-executivo de Ciro pede demissão

De Bernardo de la Peña, agorinha no Globo Online:

Em nota divulgada nesta terça-feira, o Ministério da Integração anuncia que o secretário-executivo da pasta, Márcio Lacerda, pediu nesta terça-feira seu afastamento para evitar envolver o ministério e o ministro Ciro Gomes no escândalo do esquema de pagamentos a políticos e parlamentares feitos com dinheiro vindo das contas do empresário Marcos Valério.
Lacerda é um dos nomes que consta da lista de pessoas às quais Valério teria dado dinheiro a pedido do então tesoureiro do PT Delúbio Soares. Ele teria recebido R$ 457 mil.
O secretário-executivo do Ministério da Integração Nacional negou ao ministro Ciro Gomes ter recebido qualquer recurso financeiro", informa a nota.


Segundo a nota, Lacerda pediu seu afastamento porque não deseja que "essa suspeição infundada, contra ele assacada, prejudique a instituição". "O ministro Ciro Gomes aceitou o pedido, presume a inocência do secretário-executivo e ajudará para que todos esses fatos sejam totalmente esclarecidos no mais breve espaço de tempo possível", conclui a nota.

A Primeira Lista



Enquanto Zé Dirceu (PT-SP) depõe no Conselho de Ética vale dar uma conferidinha na primeira lista anunciada de quem teria embolsado dinheiro através do suposto mensalão. Entre as ‘novidades’, um assessor do ministro Ciro Gomes, que anda bem quietinho. A lista foi publicada pelo UOL.

* Sócia do publicitário Duda Mendonça
** Irmão do ex-presidente do PT José Genoino
*** Tesoureiro informal do PTB
**** Presidente do PTB que morreu em acidente aéreo
***** Secretário-executivo do ministro Ciro Gomes (Integração Nacional)

sexta-feira, julho 29, 2005

Lá Como Cá

Deu no NY Times. O embaixador da Coréia do Sul nos Estados Unidos, Hong Seok Hyun, anunciou sua renúncia ao cargo. O motivo? Denúncias envolvendo o diplomata na arrecadação ilegal de fundos para a campanha presidencial da Coréia em 1997.

Plebiscito é Golpe

Na mesma reunião da ABI, segundo O Globo, a senadora Heloísa Helena (P-SOL-AL), disse que ‘se as apurações alcançarem o presidente, é a favor de um plebiscito para antecipação das eleições'. Não entendi.

Ora, se as investigações – seja na CPI, seja na Polícia Federal – envolverem diretamente Lula cabe ao Congresso Nacional iniciar um processo de interrupção do mandato do presidente, com todo direito à mais ampla defesa. Tudo nos conformes, como manda o figurino de um país democrático em que as insitituições, apesar de tudo, têm funcionado bem. Foi assim na crise de 1992 e o país continuou seguindo sua vida normalmente.

A senadora ecoou o equivocado artigo desta semana no Jornal do Brasil do ex-deputado Milton Temer, agora no P-SOL, em que este defendia a tese do referendo popular para decidir se Lula deve ou não terminar seu mandato. Pensar em plebiscito é uma avenida de mão dupla: ao mesmo tempo em que se embarca no discurso golpista de interrupção do mandato de um presidente eleito por 52 milhões de cidadãos - em um desrespeito que revela uma cara-de-pau sem tamanho - também se coloca mais lenha na fogueira de que o Legislativo carece de legitimidade.

Mas revela também um velho cacoete de nossos políticos: o de jogar por fora das regras democráticas – seja recebendo jabá para campanha política, seja aprovando reeleição em benefício próprio, seja querendo 'ouvir as massas' nas questões por eles consideradas de ‘emergência nacional’. Este sim é um mal que precisa ser cortado pela raiz. E os que pretendem estar trazendo o novo à cena política nacional, especialmente estes, já deveriam ter aprendido a lição.

Fraude Histórica

A frase veio de um político que não me cansou de decepcionar. Mas é a mais exata até agora sobre o filme de terror que se transformou a esquerda brasileira. “O PT é uma fraude histórica”, disse o deputado-federal Roberto Freire (PPS-PE), na manifestação dos partidos progressistas ontem na ABI, no Rio. Como discordar do neo-comunista?

quinta-feira, julho 28, 2005

De Mulher Pra Mulher

Do blog Coleguinhas, Uni-Vos!, do amigo Ivson Alves, em http://www.coleguinhas.jor.br/picadinho.html:

O próximo alvo da Veja é a Dona Marisa, mulher do Nove-Dedos. A revista está urdindo matéria segundo a qual ela teria feito compras com cartão de crédito de uma empresa do Marcos Valério. O problema é que até agora a revista do Civita ainda não encontrou qualquer indício para afirmar tal coisa, mesmo contando com o apoio de toda a tropa de choque tucano-pefelê trabalhando horas e horas nas últimas duas semanas. Mas mesmo que não ache nem o mais leve indício, a revista deve publicar algo neste sentido em breve, pois é essencial atingir o N-D no seu esteio mais forte, que é a família, especificamente a sua companheira. Isso, pelos cálculos da oposição tucano-pefelê, faria com que N-D ou ficasse cego de ódio, reagindo descontroladamente, ou caísse em depressão, deixando o barco à deriva. De qualquer maneira, ficaria em desvantagem séria na hora de reagir a um pedido de impeachment.

O Lapso de FHC

De Jânio de Freitas, na Folha de S.Paulo de hoje:

(...) meu colega Marcelo Beraba me chamou a atenção para este lapso anunciador de Fernando Henrique Cardoso, ao saber da descoberta de envolvimento do PSDB com Marcos Valério: "Precisamos investigar tudo mas sem perder o foco de que a crise é hoje. O que aconteceu no passado, no meu governo, é coisa da história". A descoberta só era relativa à sucessão no governo de Minas em 98. Fernando Henrique entregou logo o seu governo como outro manancial para descobertas.

a coluna de Jânio pode ser lida em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2807200504.htm

Os Donos do Poder

De Demétrio Magnoli, na página de Opinião da Folha de S.Paulo de hoje:

Lula encarna a tradição do patronato político brasileiro. Vezes sem conta, o presidente definiu a nação pela metáfora da família, na qual ele desempenha o papel de pai provedor, governando com o coração e zelando por todos os filhos, sobretudo os mais fracos. Governar é distribuir privilégios seletivamente: eis o conceito arcaico que emana do pensamento do presidente.


O texto completo pode ser lido, para assinantes do UOL ou do jornal paulistano, em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2807200507.htm

quarta-feira, julho 27, 2005

Diretinho da Redação (23)



O texto abaixo pode ser lido no www.diretodaredacao.com


Todo Mundo Faz!

Um pouco de História sempre cai bem. Ainda mais História recente, recentíssima. Em 1988, um grupo de parlamentares do PMDB, descontente com os rumos da sigla de Ulysses Guimarães e assustado com a aliança perpétua com o PFL - revelada de forma mais crua no chamado “Centrão” – decidiu fundar um novo partido. Escolhem o tucano como símbolo e criam o PSDB. Dez anos antes o PT fora criado para fugir das tradições autoritárias do velho PCB e para pregar um socialismo libertário, feito para e por trabalhadores. A idéia era provar que os dois partidos não faziam o que todos fazem e, coincidência ou não, nos últimos 14 anos, desde a crise do governo Collor, PSDB e PT vêm dominando, de São Paulo, a cena política nacional.

Tá bem, deu no que deu. O PSDB, igualzinho ao PT agora, provou das benesses do governo federal e saiu manchado. Aliou-se ao mesmo PFL e dedicou-se em demasia a tenebrosas transações feitas com Valérios dos mais variados quilates. Só a campanha para governador do atual presidente do partido, senador Eduardo Azeredo (MG), embolsou R$ 11,7 milhões via caixa dois. E isso em 1998. A reação do tucanato às denúnicas – que envolvem outros mineiros conhecidos, como o ex-ministro Roberto Brant e o atual governador Aécio Neves - é a mesma do petismo: “todo mundo faz”.

PT e PSDB são hoje, fósseis andantes, mortos-vivos que se alimentam de um fiapo de esperança que a sociedade brasileira ainda teima em depositar na conta de seu futuro político. A saída, única, viável e possível, é uma união de gente de bem deste país – os 21 deputados da esquerda petista, o PSOL de Heloísa Helena, exceções como Fernando Gabeira, Denise Frossard e Jefferson Peres – em uma nova agremiação partidária. Uma que já nasça musculosa, mas sem vícios. Uma que não repita os erros cometidos no passado.

Que encontre novos erros e os enfrente de cabeça erguida. Que não tenha um projeto único de poder e de tomada da máquina pública do Estado. Que se preocupe menos com a reeleição e mais em combater as desigualdes sociais que vão transformando, diariamente, mais pobres em miseráveis e mais ricos em milionários. Que tenha moral e coragem para lidar de frente com a violência e assumir e derrotar o terrorismo verde-e-amarelo. Que, principalmente, não represente apenas o pensamento da elite paulistana – intelectual ou sindical - mas entenda o tamanho da federação, suas diferenças, suas contingências, seus nós.

Este partido político não existe. Não ainda. Quando fundado, o PSDB reunia 8 senadores e 40 deputados. Não é impossível, acreditem, encontrar 50 parlamentares éticos, cujos nomes não aparecerão na lista do mensalão, indignados com a sujeirada que gruda em todo o Congresso Nacional. Uma faxina geral, que valorize novamente a idéia da democracia representativa, começa com esta gente vestindo a camisa de um mesmo time. Eles precisam de um nome, uma bandeira, um slogan e uma certeza apenas: a de que os fins não justificam os meios. Ou a política de nossos dias, por si só, exclui esta definição?

terça-feira, julho 26, 2005

Estranhas Prioridades – o Retrocesso da Imprensa

Você quer saber mais sobre a Martha Stewart ou sobre o genocídio de Darfur? Em sua coluna de hoje no The New York Times, Nicholas Kristof dá um puxão de orelhas na cobertura que a imprensa norte-americana não tem feito do desastre no Sudão e da tragédia de Darfur. Mais: diz que se pode criticar a administração republicana por sua passividade quanto à ajuda humanitária aos africanos, mas Washington também tem munição de sobra para esculhambar com a imprensa norte-americana, que se mantém tão omissa quanto o governo Bush ao tratar do tema.

Para se ter uma idéia, apenas 18 minutos sobre Darfur foram mostrados na ABC News (todas reportagens de Peter Jennings) e outros míseros 5 na NBC em 2004. Já a CBS dedicou 3 minutos a Darfur contra 130 ao caso Martha Stewart no mesmo período. Na conta de Kristof, os canais de tevê aberta dos Estados Unidos dedicaram, em média, um minuto para cada 100 mil mortes no país africano.

Ele vai além: a cobertura do genocídio de Darfur foi pior do que a do massacre turco contra os armênios em 1912. Um retrocesso que passa por uma desculpa conhecida da imprensa brasileira: a de que é muito caro manter um correspondente no Sudão. Kristof é irônico: ‘se ao menos o julgamento de Michael Jackson tivesse acontecido em Darfur!”.

Em tempo - a coluna pode ser lida, no original, para leitores cadastrados no NYT, em http://www.nytimes.com/2005/07/26/opinion/

quinta-feira, julho 14, 2005

Muito Bem Dito

De Sillio Boccanera, hoje, na página de Opinião de O Globo, sobre o que ele muito propriamente qualifica de terrorismo tupiniquim:

(...) em termos de segurança da população, mesmo com terrorismo ocasional, Londres permanece muito menos perigosa do que cidades como Rio de Janeiro ou São Paulo. Isso não é um elogio à capital britânica e sim uma crítica às grandes cidades brasileiras. Cinqüenta mortos em quatro explosões no centro de Londres, quinta-feira passada, constituem uma selvageria. Mas também é selvagem o fato de que um número equivalente de pessoas é vítima de assassinato a cada fim de semana no Grande Rio. Diferença: a barbárie em Londres é episódica e rara, choca o país, mobiliza as autoridades; a do Rio é rotineira e só provoca indiferença.

O fato de que a maioria dessas mortes no Rio ocorre na periferia pobre da cidade (embora cada vez mais avance pelas áreas “nobres”) não tira dos números o significado de horror que efetivamente têm. Vive-se no Rio o equivalente a uma guerra civil, só que mais discreta, sem tanques ou aviões, não proclamada oficialmente. Mas tão letal quanto as que devastaram outras cidades em luta fratricida. É uma espécie de terrorismo tupiniquim.

o excepcional artigo, enviado por minha amiga Regina Zappa, deve ser lido na íntegra, por leitores cadastrados, em http://oglobo.globo.com/jornal/opiniao/.

Diretinho da Redação (22)



A Volta do Pesadelo em Nova Iorque

O texto abaixo, sobre o pesadelo eterno da ameaça terrorista aqui em Nova Iorque também pode ser encontrado no excelente www.diretodaredacao.com

No dia 7 de julho eu e uma amiga ficamos parados durante meia hora entre duas estações de metrô aqui no Brooklyn, em Nova Iorque. Tínhamos passado a manhã com os narizes grudados no aparelho de televisão, acompanhando pela BBC o ataque terrorista a Londres. Tínhamos de fazer compras e a maneira mais rápida era pegar a linha G, duas paradas apenas. Pouco antes de chegarmos à última estação o trem parou. Depois de 10 minutos uma voz feminina avisou que havia uma emergência relacionada ao trem que estava à nossa frente. E repetiu a mesma explicação, feito mantra tenebroso, de quando em quando nos 20 minutos seguintes.

O ar-condicionado, ainda bem, funcionava. O vagão não estava lotado, mas havia um nervosismo no ar. Todos pensavam em Londres. Depois em Madri. Depois no World Trade Center, logo ali do outro lado do East River. Todos buscavam, ainda que inconscientemente, visualizar malas, pacotes, turbantes, barbas. Sim, turbantes e barbas. Aqui vive-se como nunca o preconceito religioso. Descarado. Sem encontrar a ameaça mais óbvia, os passageiros, resignados, se livraram dos sapatos e gravatas, mas ninguém se encarava. Mesmo no desespero rotineiro de uma tarde asfixiante na capital do mundo, olhos nos olhos é quimera distante.

Meia hora depois finalmente nos movemos e, em menos de dois minutos, chegamos ao destino. Todos seguiram apressados para suas vidas na superfície e apenas os jornalistas se deram ao trabalho de inquirir o motivo do incidente, aparentemente causado por um alarme disparado por acidente no trem que corria cinco minutos à frente do nosso. Não importa. Assim como o absurdo da violência no Rio de Janeiro foi assimilado pelos cariocas, a ameaça terrorista, aqui em Nova Iorque, já faz parte do dia-a-dia de seus habitantes.

Durante todo o dia 7 poucos demostraram desconforto em cruzar com hordas de policiais muito bem armados nas estações de metrô dos cinco distritos da cidade. Não deve causar estranheza, também, a informação de que o preço do metro quadrado em Lower Manhattan – onde ficavam as Torres Gêmeas destruídas pelo atentado de 11 de setembro de 2001- quase duplicou desde então. E que Madri, desde a tragédia de 2003, tem recebido mais e mais visitantes. Os hotéis estão saindo pelo ladrão. Aliás, a terra arrasada onde ficava o World Trade Center é um ponto turístico disputadíssimo em Nova Iorque. Todos querem tirar fotos e brigam por um espaço para garantir esquisitíssimo souvenir.

Cansados de guerra, estressados depois de décadas de difícil relacionamento com o IRA, os britânicos descobriram hoje que quatro dos terroristas de 7 de julho eram jovens. O mais novo adolescente, o mais velho acabara de completar 30 anos. Todos criados na Inglaterra. Todos filhos de trabalhadores de classe-méda baixa completamente adaptados à vida na Europa. Meninos educados nos colégios ingleses são os responsáveis pela morte de 52 pessoas, sem esquecer dos mais de 700 feridos, muitos em estado grave. Como lidar com esta nova bomba?

Há alguma esperança de bom-senso no ar. Ao contrário de seu parceiro Bush II, o primeiro-ministro Tony Blair optou por uma estratégia diversa. Ele já convocou, em uma jogada inteligentíssima, a maioria da comunidade islâmica britânica – formada por gente trabalhadora, pacífica e honesta – para ajudá-lo a liderar uma faxina interna contra quem prega o ódio e a violência. Em suas palavras ‘a moderada e verdadeira voz do Islã precisa ser mobilizada’.

Uma das bombas explodiu justamente em uma das regiões – Eldridge – em que a maioria dos moradores se identifica como muçulmana. Eles estão entre as principais vítimas do atentado. Parentes e amigos das vítimas de fé islâmica que vivem na região se sentem acuados e dizem que o ataque também foi ‘uma mensagem dada pelos fundamentalistas a nós. A de que ou lutamos contra o inimigo cristão ou temos de voltar para casa’’, isto é, para a Ásia e o norte da África, de onde seus pais saíram em busca de trabalho. Como disse Blair - e agora, mais do que nunca, é preciso acreditar na sinceridade de suas palavras - em última instância não há outra maneira de enfrentar e liqüidar este problema, a não ser dentro da própria comunidade muçulmana.

Em Nova Iorque, onde adolescentes de fé islâmica são presos pela polícia federal na calada da noite e devolvidos com um pedido de desculpas a pais atônitos, o maniqueísmo republicano não ajudou em nada a população a lidar com um problema originado na miséria, na desinformação e no totalitarismo apoiado decididamente no passado pelas grandes nações ocidentais. Quem sabe um sopro de argúcia nos chegue aqui também, ainda que quatro estações atrasado?

domingo, julho 10, 2005

Trabalhadores do Meu Brasil

De Jânio de Freitas, na Folha de S.Paulo de hoje:


Ao fazer a nomeação de Luiz Marinho para o Ministério do Trabalho, Lula estará oficializando a CUT como instrumento do governo, ou seja, da política econômica em vigor. Logo, com a CUT no atual Ministério do Trabalho, os trabalhadores nunca estiveram tão longe do governo.

sábado, julho 09, 2005

Mais Uma da Direita Festiva

Tá hoje na Veja. Depois de Cora Rónai, mais uma tiradinha da direita festiva que povoa a Zona Sul carioca. Desta vez foi Millôr Fernandes, com esta pérola:

E você, que acha que todas as falhas do nosso Supremo Mandatário são vistas com preconceito só por sua falta de educação formal (se é que tem outra), me diz aí: você operaria sua cabeça com um neurocirurgião sem diploma? Você, sentado em sua poltrona de avião de partida pra Europa, continuaria sentado se o microfone anunciasse: "O comandante não pôde comparecer, mas fiquem tranqüilos – vamos ser pilotados por um companheiro que aprendeu a pilotar maravilhosamente numa metalúrgica de Santo André?

Por conta da lambança dos companheiros, esta gente agora se arvora de senhores da verdade. Tristes tempos.

quinta-feira, julho 07, 2005

Mas por R$ 2 mil?

Ganha uma jujuba de morango quem souber dizer em que país vive o deputado-federal Jorge Bittar (PT-RJ). Ele acaba de perguntar à secretária Fernanda Karina, na CPI dos Correios, se ela agia em nome do publicitário Marcos Valério por um salário que o engenheiro achou muito baixo. Bittar foi enfático: “Mas a senhora se submetia a tudo isso por R$ 2 mil?”. A secretária não se fez de rogada e lembrou que é difícil arrumar emprego no governo dos companheiros. O deputado podia dormir sem essa.

Diretinho da Redação (21)


O texto abaixo pode ser conferido ainda no www.diretodaredacao.com

Política é showbusiness. E showbusiness feito por gente feia. Política é, em última instância, uma Hollywood sem gatinhas e gatões. Quem disse isso, neste fim de semana, pensando em Washington, foi o senador Chuck Hagel, de Nebraska, herói da Guerra do Vietnã e um forte presidenciável do Partido Republicano para a sucessão de Bush II. Brasília está para esta definição como a Globofilme para a Miramax. Basta acompanhar as sessões das CPIs instaladas no Congresso Nacional. Deputados e senadores brigam por uma fala tal qual figurantes de “Malhação”. E na era dos reality shows, a imprensa, afoita, quer saber quem será o eliminado da semana: Dirceu, Delúbio, Silvinho, Gushiken, Genoíno?

Data venia, para os espectadores não há diferença alguma. É tudo farinha do mesmo saco, diz Dona Maria. Político é tudo igual, retruca Seu José. A novela que Dona Marocas acompanha está repleta de vilões assustadores interpretando, com maior ou menor canastrice, variações de um triste papel – aquele em que ‘gente rica fala em nome de gente pobre tentando assegurar votos para que continue ganhando dinheiro no próximo quatriênio’.

Pois é. Há dinheiro. E muito. Assim como se discute abertamente quantos doláres Julia Roberts está levando a mais do que Nicole Kidman por filme, roem-se unhas e gastam-se calculadoras para saber quanto um deputado – através de nomeações, mesadas e otras cositas más – leva para casa a cada fim de mês.

Durante as eleições presidencais do ano passado, meu amigo Donald se mostrou intrigado com o interesse da imprensa internacional em explorar as diferenças entre Bush II e John Kerry. Por que eles não entendem que o que importava eram as semelhanças? Os dois eram fruto de um mesmo sistema que permite apenas a milionários e filhos da chamada Ivy League – a elite norte-americana que estuda nas melhores e caríssimas universidades do país – a prerrogativa de comandar o governo dos Estados Unidos. Certamente, me dizia, não é assim no Brasil, em que um operário pode ser eleito para o cargo máximo do país.

É justamente este o nó mais complicado das democracias ocidentais e que precisa ser encarado de frente por todos nós: o sistema de representação política naufragou. Faliu. Lobbies, campanhas publicitárias calculadas em dólares, empréstimos milionários dados a partidos políticos avalizados por publicitáros produzem a natural sensação do ‘é tudo igual mesmo’, recordes de abstenção em eleições parlamentares e a certeza de que, no fim das contas, aqueles políticos do reality show do Congresso não representam os vários estratos da sociedade civil. Sejam eles Jeffersons ou Dirceus. O raciocínio da Dona Maria, mesmo com o operário no Alvorada, faz cada vez mais sentido.

Esta semana, Lula voltou a bater na tecla de que vai punir severamente aqueles que enriqueceram se aproveitando do dinheiro público. Para o bem de todos e felicidade geral da nação já é hora de o presidente perceber que o buraco é mais embaixo. Nem nas cifras nem na tática envolvida – a compra de políticos a peso de ouro através da institucionalização de uma mesada – a crise em Brasília é mais do que apenas um caso de políticos se apropriando do leite das crianças.

Como bem tem dito o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), a mera insinuação do ‘mensalão’ já é um crime de honra contra a democracia tal qual a conhecemos. E os indícios, diariamente, vêm se transformado em fatos tenebrosos. Não é a hora de se pensar em reforma política de fato? Uma que não esteja centrada na exclusão dos pequenos partidos do Congresso – jogando no ‘mesmo saco da Dona Maria’ um PL e um PcdoB, um PTB e um PSOL – mas que reafirme a importância e a necessidade da democracia representativa? Ou será que Dona Maria, já com os dois pés fora da sala de cinema, frustrada por não conseguir encontrar um mocinho sequer no showbusiness da política brasileira, está mesmo repleta de razão?

sábado, julho 02, 2005

Estados Imaginados

Eu o conheci cinco anos atrás. Naquela época ele também morava aqui no Brooklyn. Hoje ele vive no exílio, em sua Paris natal. Já naquela época, o fotógrafo Eric Baudelaire se equilibrava na ponte aérea Nova Iorque-Pirlimpimpim. Mas não vamos misturar lé com cré. Meu amigo Ricola não leu Monteiro Lobato, mas devorou Kafka a ponto de se inspirar em seus castelos invisíveis para criar, jutamente com seu amigo de infancia, o professor do Kings College Dov Lynch, o fantástico projeto “Imagined States”, que em setembro vira exposição e livro de luxo para inglês e francês verem.

Neste fim de semana escrevi para o Valor Econômico uma reportagem sobre o tema central do projeto artístico e político da dupla – os países do chamado “Quarto Mundo”, que, embora tenham proclamado sua independência, possuam poderes executivos respeitados por milhares de almas, não são reconhecidos pela comunidade internacional. Vivem num limbo estranhíssimo, ‘como se estivessem ao mesmo tempo no século XIX e no XXI’, nas palavras de Lynch, cientista político e consultor da Comunidade Européia.

Eles são a Transnístria e a Abcázia, Nagorno-Karabakh e Ossétia Meridional, todos na região entre o Mar Negro e o Mar Cáspio, parte esquecida do mundo desde o colapso da União Soviética, que por quase um século dominou a região. Mas também entram na definição dos ‘estados de fato’ – mas não ‘de direito’ – a Chechênia e Taiwan, a Somalilândia, na África, e o Tibet, o Curdistão, que existe nos corações de milhares de curdos espalhados pelo Iraque, Irã, Síria e Turquia. Sem esquecer de Sealand, uma ilhota, antiga fortaleza militar britanica na Segunda Guerra Mundial, que proclamou sua independência em 1967. Lá vive o cidadão britânico Paddy Roy Bates e sua mulher, a Princesa Joan. O Príncipe Roy cunhou sua própria moeda, passaporte e até um lema nacional (“Do Mar, Liberdade!”).

Quem quer conhecer mais as histórias incríveis dos países do “Quarto Mundo” pode ler a reportagem nas bancas no Valor deste fim de semana (um trecho está online em www.valor.com.br) ou correr para o belíssimo site de Baudelaire – http://anthropic.net/eric/ - em que se pode observar algumas de suas fotografias tiradas na região do Cáspio. Inspirada no projeto, a BBC acaba de passar na Inglaterra e na Espanha a série “Lugares Que Não Existem”.

Um dos programas mais chocantes é o que mostra jovens e velhos da Transnístria – área ocupada pela minoria eslava (russa e ucraniana) da Moldávia, por sua vez parte da Romênia – dizendo que não desejavam o fim da União Soviética, têm horror ao McDonald’s e ao Starbucks e que, definitivamente, não querem se tornar um estado à imagem e semelhança das democracias ocidentais. No mínimo, intrigante.

quinta-feira, junho 30, 2005

Diretinho da Redação (21)



O texto abaixo pode ser lido tambem no www.diretodaredacao.com e trata da praga nossa de cada dia, a corrupção.

Dia desses um amigo brasileiro me disse que uma de suas alegrias era saber que eu não precisava acompanhar de lá a lama ocupando cada vez mais espaço nos prédios de nossas instituições nacionais. Muito que bem. Na quinta-feira desliguei todas as conexões eletrônicas que me transportavam para Brasília e, ecoando o amigo, resolvi encarnar o presonagem que vive a quilômetros de distância do centro da crise do governo e do PT. Andei cinco blocos e me enfiei no centro cultural aqui perto de casa. Fui assistir “Hécuba”, com Vanessa Redgrave, 68 anos, no papel-título, à frente dos atores da Royal Shakespeare Company.

A adaptação do poeta britânico Tony Harrison prometia uma passagem, via Grécia Antiga, para o campo de destruição de Bagdá e adjacências. As críticas ao governo Bush e ao caráter belicoso dos norte-americanos seria o centro desta nova encenação. Mas nem bem me acomodo na belíssima sala de espetáculos do século XIX e a rainha de Tróia fala do grande vício da humanidade – a corrupção. Não dá para escapar.

Ali por volta de 425 A.C., em meio à Guerra do Peloponeso, Eurípedes viajou oito séculos no passado e situou sua tragédia logo após a queda de Tróia. Ou, como Redgrave prefere dizer, ‘durante a primeira grande guerra conhecida entre o Ocidente e o Oriente, comandada por uma coalização de estados que invade e pilha uma área da Ásia’. No palco, tendas verde-oliva aglomeradas umas nas outras remetem a um campo de prisioneiros povoado por desespero, tortura e ódio.

Rainha sem coroa de Tróia, Hécuba-Redgrave nos diz que será transportada para a Grécia em breve com todas as mulheres de Tróia. Que seus filhos foram mortos, um a um. Que sua filha acaba de ser assassinada pelo exército ocupado. E que ela está organizando, de modo racional, uma vingança sangrenta, ávida que está por fazer justiça pelas próprias mãos. Não parece familiar? Além de esfregar na cara dos americanos o desespero de mães palestinas, bósnias e iraquianas, “Hécuba” trata de traição e corrupção, do abandono de princípios éticos em favor do ouro e do poder.

Do palco, Redgrave nos encara. Redgrave, a que declarou publicamente seu apoio a Fidel nos anos 60. A que recusou o título de nobreza do Reino Unido. A que advogou em Hollywood, ao receber o Oscar em 1977, em favor dos palestinos. A embaixadora da UNICEF que pagou a fiança de US$ 50 mil para libertar o separatista Akhmed Zakayev, da Chechênia, preso pelo governo russo. Olhos nos olhos ela nos conta que, pior do que a guerra, pior do que a escravidão, só mesmo a corrupção. Onipresente, ela não é o mal do século. É o mal da humanidade, nos garante a rainha-escrava.

Nos anos 80, a atriz foi acusada de participar de um equema de corrupção no Partido Revolucionário dos Trabalhadores (WRP), organização marxista inglesa de tendência trotskista, comandada por, entre outros, seu irmão, Corin, e da qual foi militante até 1986. A acusação era a de que o partido receberia ajuda financeira do Iraque de Hussein e da Líbia de Khadafi. Em tempo: nada ficou provado contra os Redgrave.

quarta-feira, junho 22, 2005

Diretinho da Redação (20)


O texto abaixo pode ser lido também no site Direto da Redação.

Uma Volta Inglória?

Parecia estádio de futebol em dia de clássico. O deputado José Dirceu voltou ao Congresso. Foi recebido por deputados e militantes com bandeiras e faixas. Disse que sua vida é pública. Que bom. Se é assim mesmo, não seria uma boa idéia que ele decidisse começar do começo? Já explico. Antes da ‘profunda reforma política e do sistema eleitoral’ que o deputado pretende comandar lá da Câmara dos Deputados, com o auxilio de PSDB, PFL e PMDB, não seria importante tratar do episódio que, de certa maneira, inicia toda a maré bravia que vem assombrando o governo Lula?

Não se trata das novas descobertas da CPI dos Correios, com o funcionário Maurício Marinho pedindo em pleno Congresso Nacional proteção ‘pois suas revelações poderiam chegar a muitos deputados e senadores’. Nem da CPI do Bingo, a do Waldomiro Diniz, que depois da decisão de hoje do STF deve finalmente sair do papel. Não. Estou falando do assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel, em janeiro de 2002. Foi naquela ocasião, que, pela primeira vez, se investigou a possibilidade da existência de ‘caixa dois’ destinada às campanhas do PT. De esquemas montados em prefeituras petistas para beneficiar candidatos ligados ao partido. Infelizmente jamais saberemos por Celso Daniel, então um dos principais caciques do PT paulista, se algo de errado acontecia na prefeitura de sua cidade.

Mas, se Dirceu - aplaudidíssimo dizendo que o governo ‘não rouba nem permite roubalheira’ – quiser realmente passar o PT a limpo – ele deveria, repito, começar pelo começo. Ontem, ele repetiu o ‘doa a quem doer’ de Collor. Também teve de ouvir com calma os patéticos gritos do tenebroso deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ): ‘terrorista! Terrorista’!. Reagiu com calma e fez questão de marcar sua nova posição dentro do tabuleiro do governo Lula: saudado pela militância, se disse ‘à esquerda de Lula’ e que ela, a esquerda, ‘agora tinha voz no Plenário da Câmara’. Folgo em saber.

Deslocada do governo para o Congresso Nacional, esta 'vanguarda de esquerda' pode derreter com facilidade a bola de neve que vem esmagando o PT, os setores progressistas e o país. Basta responder com exatidão, uma a uma, questões como as de Santo André. Na semana passada, o Tribunal de Justiça (TJ) negou a Dirceu liminar que o liberaria de uma acareação com o médico João Francisco Daniel, irmão do prefeito assassinado, que o acusa há tempos de ser o destinatário do dinheiro arrecadado em esquema de corrupção na prefeitura de Santo André. Os dois estarão frente à frente no dia 8 de agosto. Quem sabe o TJ não tenha, involuntariamente, dado o primeiro passo para que se comece a desfazer a estratégia de gambá do deputado Roberto Jefferson. Esta mesmo que vem espalhando mau-cheiro República afora. Só nos resta torcer.

segunda-feira, junho 20, 2005

Ao Que Vai Nascer

Do jornalista e pensador César Benjamin, um dos fundadores do PT, na Folha de S.Paulo deste domingo, sobre a crise da esquerda brasileira:

O momento agora é de dispersão. O velho já está morrendo, e o novo ainda não nasceu.

A reportagem completa, sobre 'intelectuais petistas', pode ser lida em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/

sexta-feira, junho 17, 2005

Do Meu iPod (Adem)




Ele não sai do meu iPod. Já está quase virando obsessão. Não tem nada a ver com o verão que chega sufocante. Também não tem nada a ver com Nova Iorque. Nem com o Brasil. Mas melodias fantásticas e as letras dor-de-cotovelo com uma esperança lá no fundo do baú bem que poderiam entrar na trilha sonora do Delúbiogate. Não acho que muita gente conheça o Adem aí no Brasil. Aqui em Nova Iorque quase ninguém ouviu falar dele. Eu vivo perturbando minha amiga Manoela Zappa para ela ir a um show dele e me contar como é o moço ao vivo e a cores. Profundamente inspirado pelo fantástico Nick Drake – que se matou em 1974 e com quem me reencontrei um belo dia de 2004 via CD de minha amiga Gabriela Máximo – Adem Ilham é o fino do folk inglês. Seu primeiro disco – Homesongs – é saboroso como comida caseira. Em Homesongs ele toca todos os instrumentos, com destaque para uma guitarra acústica absolutamente sedutora e nada entediante. E há a voz. A voz. Cheia de sussurros a falsetos que nos fazem pensar que ainda é possível encontrar algo de novo na música pop. A minha música favorita é These Are Your Friends, em que ele repete o mantra ‘everybody needs some help sometimes’. Dá para ouvi-la no http://2005.sxsw.com/music/showcases/band/20343.html A letra diz: I wish that I'd arrived a little sooner You really should have called we'd have come here right away You tried to help yourself but you got it wrong You've thrown yourself Into the flames 'cause you're covered in cold But these are your friends They give out a nice warm glow You've tried so hard to see for yourself Your perspective is wrong These are your friends Let them come guide you on Listen now - now's the time to listen There're lessons to be learned I've seen this before in my own life You feel covered up, removed from the world around you With all your senses dulled you'd do anything to feel You tried to help yourself, but you got it wrong You've thrown yourself Into the flames 'cause you're covered in cold But these are your friends They give out a nice warm glow What have you done? You're cutting your cord You're floating in space But these are your friends They'll be your star-map home Everybody needs some help sometimes Para quem ficou com vontade de saber mais sobre o moço, Adem tem um site bem legal, lá no http://www.adem.tv/, com um diário online.

quinta-feira, junho 16, 2005

Mais Massacre de Volta Redonda - 1988

O amigo Cristiano Beraldo, colega de classe naquele 1988, lembra outros detalhes do massacre de Volta Redonda, que ele me autorizou a publicar abaixo:

Lendo a coluna, lembrei dessa história como se fosse ontem... e já se passaram 17 anos.
Tinha acabado de subir, junto com a minha mãe, do curso de inglês que fazia na época, o CCAA, na Vila Sta. Cecília. Mais cedo, da janela do curso, presenciei dezenas de carros da PM e do Exército chegando em Volta Redonda.


Pelo que minha mãe conta, meu pai, que também estava dentro da CSN mantendo-a funcionando, tinha ligado para ela e pedido para me buscar porque o clima estava ficando perigoso na cidade. Chegando em casa, ouvi uns estouros e cheguei na janela para ver o que era. Como tinha uma posição privilegiada, morando no bairro Bela Vista, consegui ver o início da confusão, quando o exército atacou a multidão com bombas de gás e tiros para o alto.

A princípio imaginei que os tiros fossem de festim, mas logo percebi que não eram, quando comecei a ver as balas traçantes passando próximas da janela da minha casa. Dava para ver e ouvir o zumbido delas. Logo, várias pessoas se aglomeraram na grade do Laboratório de Pesquisa da CSN, que fica localizado entre o Bela Vista e o Conforto, para ver o que estava acontecendo. E foi essa confusão durante o resto da noite e madrugada.

Pessoas sendo espancadas, carros quebrados e furtados, e outros barbaridades mais. O pior foi quando, em determinado momento, os carros do Exército começaram a entrar na usina. Foi quando começamos a ouvir os tiros ecoando lá de dentro, por toda a noite. Foi uma madrugada de apreensão e preocupação com as pessoas que estavam lá dentro, entre elas o meu pai e o seu.

Ainda teve outro capítulo dessa história no Primeiro de Maio do ano seguinte, com a bomba jogada pelo Comando de Caça aos Comunistas no monumento projetado por Niemeyer aos três operários mortos.

Foi uma época complicada...

Um abraço, cara, foi legal ter lembrado disso tudo...

Cristiano Beraldo

Poesia da Dona Olga

O leitor do site Direto da Redação, Diógenes Pereira de Araújo, se inspirou no “Cadê a Dona Olga do PT?” para compor os seguintes versos:

BANDEIRA VERMELHA!

Bandeira do PT. Inda é vermelha.
Mas agora é vermelha de vergonha.
Em Brasília o PT é qual pamonha, pra não dizer que a ratos se assemelha,

que a sua situação, mais que bisonha,
nos tem feito franzir a sobrancelha
e quanto a olhar, olhar sempre de esguelha.
Pobre trabalhador que já não sonha

que o partido a louvar-se no seu nome
o represente com dignidade
no tocante a eficácia e seriedade.

Pelo menos não é mais zero a fome:
de fato é hoje a fome mais de mil
e há "cositas más"...
Pobre Brasil.

Diógenes Pereira de Araújo

Valeu, Diógenes!

quarta-feira, junho 15, 2005

Mais da Bolívia

A querida Ana Cristina Machado manda mais dois links para se saber mais da Bolívia: http://www.bolivia.com/noticias/AutoNoticias/DetalleNoticia26976.asp, com notícias diárias em espanhol, e o www.planetaportoalegre.net, em que pode se ler uma boa entrevista com Gustavo Torrico, em bom e claro português, com o dirigente do Movimento ao Socialismo (MAS), parceiro do principal líder da oposição, Evo Morales.

Diretinho da Redação (19)


O texto abaixo, mescla de memória e indignação, também pode ser lido no www.diretodaredacao.com, onde estão relatos de outros jornalistas espalhados pelo mundo.

Cadê a Dona Olga do PT?

Sete de Novembro de 1988, uma quarta-feira ensolarada em Volta Redonda, estado do Rio. O presidente é José Sarney. O governador atende pelo nome de Wellington Moreira Franco. Em Brasília, parlamentares, entre eles Luiz Ignácio Lula da Silva, haviam aprovado, um mês antes, uma nova Constituição. Os operários da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) decidem entrar em greve. Querem a implantação do turno de seis horas, a reposição salarial referente a perdas por inúmeros planos econômicos desastrosos e a reintegração de demitidos pela atuação salarial.

Nove de Novembro. Na CSN, ninguém entra, ninguém sai. A esta altura a cidade está profundamente envolvida com a greve. A maioria dos moradores se junta a parentes e amigos nas cada vez mais animadas manifestações, que acontecem na entrada do escritório central da usina, a três quadras de nossa casa. Acredita-se que vivemos em estado democrático. Acabara-se a ditadura militar, desconhecia-se a ditadura burguesa. Meu pai está lá dentro com outros funcionários tentando manter a coqueria funcionando. Liga para casa de quando em quando – estamos falando de priscas eras, antes do celular. Pede para que não arrumemos confusão com o pessoal do exército. Mas que exército?

Poucos minutos depois, soldados de vários quartéis do estado, comandados pelo General José Luís Lopes da Silva, dispersam à bala uma manifestação e invadem a usina a fim de acabar com os piquetes. Funcionários, mulheres e crianças correm desesperados pelas ruas próximas. Homens armados os perseguem. Nossa rua vira um palco de guerra. Minha mãe e minha irmã resolvem abrir a porta de casa e convidar as pessoas a se abrigarem em nossa sala. Quando percebo estamos deitados, estranhos e conhecidos, no chão, em emocionada comunhão, usando o sofá como proteção. Tapamos ouvidos e colocamos as mãos sobre a cabeça com medo de estilhaços.

Um dia depois damos conta do tamanho do massacre. O centro velho da cidade está detruído. Marcas de bala enfeitam os portões das garagens dos vizinhos. Um cinema fôra quebrado a pauladas de cassetete. Muito mais grave – três operários estão mortos. William, 22 anos, com um tiro de metralhadora no pescoço. Valmir, 27, com um tiro de metralhadora nas costas. Carlos, 19, por esmagamento de crânio. Os operários decidem manter a greve, agora com apoio incondincional da traumatizada população. As aulas são suspensas nos colégios e nas universidades da cidade.

23 de novembro de 1988. Um soldado, como nas semanas anteriores, permanece de prontidão na nossa rua, mas desta vez ele resolve montar guarda no gramado em frente à nossa casa. Minha mãe acha que aquilo já é demais. Dona Olga abre a porta e, dedo em riste, tensa como jamais a vi, obriga o soldado a se retirar. Abomina sua truculência e lembra que os tempos são outros, que eles não estão mais no poder, que seus crimes serão apurados, que a casa era dela e que ali ele não pisava mais. Assustado, o soldado bate em retirada.

Algumas horas depois a greve acaba. Os operários conquistam todos os seus direitos. Ao contrário de William, Valmir e Carlos, meu pai volta para casa. Nas eleições municipais que acontecem em meio à ocupação militar de Volta Redonda o PT ganha suas primeiras prefeituras significativas – em São Paulo e em Porto Alegre. Eu guardo para sempre a lição de que democracia é o regime em que se pode botar o dedo na cara de quem representa uma ameaça ao estado de direito.

Ontem, um dos dias mais deprimentes da história da democracia brasileira, aquela imagem voltou a me assombrar. Acompanhei todo o depoimento do deputado Roberto Jefferson na Comissão de Ética do Congresso. Ele deveria encarar seus pares na constrangedora posição de acusado. Não foi o que se viu. Durante mais de seis horas foi dado ao soldado da tropa de choque de Collor de Mello o poder para decidir quem na imprensa é sério e quem não é, quem é honesto e quem é picareta no Congresso Nacional. A confiança era tamanha que ele quis até demitir, de lá mesmo, um ministro de Estado.

Quase no finzinho da maratona, Jefferson foi interpelado por seu colega Chico Alencar. O deputado petista queria saber por que só agora ele denunciara o recebimento de dinheiro ilícito do PT para o financiamento de candidaturas de políticos do PTB, nas eleições municipais de 2004. Jefferson, ator de primeira, não titubeou. E nos lembrou que ‘parceiro ajuda parceiro’. Tinha ficado quieto para proteger o PT, ora essa. “Matei no peito, deputado, matei no peito e agüentei tudo sozinho”. Ao que Alencar retrucou: “O partido que nós queremos construir não precisa disso”. Construir? Pera lá. Mas a esta altura do campeonato?

Em 1988, a bandeira que tremulava mais alto nas manifestações de Volta Redonda era vermelha e tinha uma estrela no centro. Muitos acreditavam que estavam construindo um partido. Muitos vibraram nas ruas da cidade com as vitórias de Luiza Erundina e de Olívio Dutra como se eles, no próximo ano, pudessem em um passe de mágica administrar a cidade dos operários e não São Paulo ou Porto Alegre. Cadê a Dona Olga do PT? Por que será que ninguém se arvora a colocar o dedo na cara de Roberto Jefferson para lembrá-lo que não estamos mais no governo Collor? De que os tempos são outros? De que sua biografia vale ainda menos do que a dos Valdemares, Bispos Rodrigues e Janenes da vida?

Ontem, não havia um líder do governo, um defensor gabaritado, uma voz para lembrar a Jefferson que não poderia haver inquisidor menos qualificado na igrejinha do Congresso. Será que o PT agora é veremelho de vergonha? Será que Waldomiros, Cachoeiras, Adautos, Flamarions, Delúbios e Silvinhos surrupiaram para sempre dos petistas seu amor-próprio, seu necessário orgulho, sua crença de que o PT é, afinal, diferente do fisiologismo que domina o cenário político brasileiro? Ou será que o partido, comandado por uma cúpula deslumbrada e insensata, decidiu entregar de vez os pontos? Dos muitos desserviços que o governo Lula tem prestado ao país, jogar na lama a legenda dos trabalhadores será o pior. Gente, cadê a Dona Olga do PT?

terça-feira, junho 14, 2005

Blogs da Bolívia

Para os que estão acompanhando com atenção o que acontece na Bolívia, há dois blog bem legais. Um, de Jim Schultz, do The Democracy Center, diretamente de Cochabamba, pode ser acessadoo em http://democracyctr.org/blog/. Outro, de Nick Buxton, craque em ativismo politico na Internet, fica no http://www.nickbuxton.info/bolivia/

Como diria meu amigo Ivson, vai lá, mané!

segunda-feira, junho 13, 2005

Viva Yuka!

Do músico Marcelo Yuka, exato, na Folha de S.Paulo de hoje:

A elite está emburrecendo. Não entendeu que, por não ter assumido certos compromissos, não vai viver em paz. Por que ostentar tanto e viver sempre cercado de segurança? O shopping Daslu é um monumento à estupidez da elite. De um país que é campeão em desigualdade social. Que só vira brasileiro na Copa. Há uma elite que ainda é traumatizada por ter perdido a corte e precisa de similaridade com um foco internacional.O que temos como identidade são as manifestações populares, mas, mesmo quando se vê isso, é conseqüência de uma tendência internacional. Um país que não se percebe unido não respeita suas diferenças.

A entrevista completa, dada ao repórter Igor Ribeiro, está lá em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/folhatee/fm1306200504.htm

domingo, junho 12, 2005

Do Outro Lado da Fronteira : O Apartheid Boliviano

Especialista em Relações Internacionais, William Powers vive desde 2003 na Bolívia, onde está pesquisando para o lançamento de A Natural Nation, um livro em que trata de ecologia nos trópicos e da exploração de petróleo e ernergia na nação andina. No ano passado seu Blue Clay People, uma narrativa sobre o período em que passou na Libéria trabalhando para uma ONG ligada à Confederação Nacional dos Bispos da Igreja Católica daqui, causou algum burburinho.

Neste fim de semana, ele publicou um ensaio no New York Times sobre o que chama de Apartheid Boliviano, entitulado Poor Little Rich Nation. O artigo está dando o que falar aqui nos Estados Unidos. Abaixo vai uma tradução livre feita pelo blogueiro aqui. O negrito é meu. O original, infelizmente apenas em inglês, pode ser lido em http://www.nytimes.com/2005/06/11/opinion/11powers.html.

Pobre Naçãozinha Rica

WILLIAM POWERS
Samaipata, Bolivia

* Powers está parado, como muitos outros motoristas, em Samaipata, na estrada que liga Santa Cruz a Bogotá. Ele conta:

Por três semanas, a Bolívia ficou paralizada por barricadas e protestos. Os manifestantes querem nacionalizar as vastas reservas de gás natural do país, a segunda maior da América do Sul. A British Petroleum acaba de quintuplicar sua estimativa das reservas bolivianas, que devem valer algo próximo a US$ 250 bilhões.

* Dos manifestantes:

Manifestantes? Não, eles são a maioria da população, formada por descendentes de tribos indígeneas, principalmente Aymara e Quechua. Eles querem a saída imediata do FMI e de corporações como a British Gas, a Repsol, da Espanha e a Petrobras, do Brasil, que investiram bilhões de dólares em exploração e extração.

* O que está acontecendo de fato na Bolívia?

Muitos estão dizendo que o que aconteceu nos últimos e memoráveis cinco anos aqui foi uma guerra contra a globalização. De certa maneira, eles estão certos. O Mc Donald’s fechou suas portas. Uma nova taxa sugerida pelo FMI foi derrubada pela pressão popular. E dois presidentes foram retirados do poder – um deles, Gonzalo Sánchez de Lozado, falava Espanhol com um fortíssimo sotaque norte-americano. Mas o que acontece aqui não está relacionado à criação de um mundo utópico, livre dos Wall-Mart da vida. É muito mais uma queda-de-braço entre quem tem mais poder neste país. A maioria indigena ou aqueles ‘de pele menos morena’, europeizados e, em muitos casos, parte de uma elite que estabeleceu sua relação com o mundo através de uma viciada relação de corrupção?

* Da elite boliviana:

Pode-se dizer que a Bolívia se auto-colonizou. Quando o Império Espanhol fechou sua vendinha aqui em 1824, os ‘europeus’ que aqui ficaram aparentemente não perceberam isso. Aliás, só foram começar a se dar conta cinco anas atrás. Mesmo na América Latina, de acordo com o Banco Mundial a região com maior índice de desigualdade social no mundo, a Bolívia é considerada uma das nações mais injustas e corruptas, de acordo com a Transparency International. É também dividida de modo radical em estratos raciais muito bem definidos.

* Do Apartheid Boliviano:

Quase dois-terços dos bolivianos vêm das Terras Altas ou da Amazônia. O país têm a maior proporção de índios no hemisfério. É como se os Estados Unidos tivessem 160 milhões de apaches e iroqueses. O apartheid boliviano é poderoso e continua vigente de forma escandalosa. A exclusão é parte do dia-a-dia de quem vive aqui. A maioria da população é proibida de usar as piscinas dos principais clubes, por exemplo. Nas ‘haciendas’ pouco ou anda tocadas por alguma reforma agrária, eles ainda são os peões. Em La Paz, estava andando na moderna Zona Sul da cidade com Fátima, uma Aymara, quando um boliviano puxou-a bruscamente para fora da calçada. Fátima não ficou chocada com o desrespeito, mas se admirou de que ele se permitiu tocá-la. Em geral, não há sequer contato físico entre as duas ‘razas’.Os estados mais ricos em energia, no lado oriental, na fronteira com o Brasil, querem mais ‘autonomia’, que se traduz na prática apenas por privar a maioria indígena das reservas de óleo e gás.

* O que pode ser feito para se evitar o colapso?

A resposta, é claro, precisa ser dada inicialmente pelos próprios bolivianos. As elites aqui precisam reconhecer de uma vez por todas que os ‘morenos’ e seus organizados movimentos sociais são mais fortes do que qualquer partido político ou presidente, e que já está claro que eles não vão desistir. Qualquer solução real passa por dividir o poder com a maioria – pobre -da população. Para resolver a crise, no entanto, diminuir a exclusão não é suficiente. É preciso prestar bastante atenção na maneira com que o mundo vai se relacionar com a Bolívia, principalmente no que diz respeito à sua economia.

* Uma ‘nova Venezuela’?

Sim, a secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, estava certa ao apontar esta semana o deficit democrático boliviano. Mas mais do que dar pitos, nós precisamos reconhecer que DEMOCRACIA significa, no mínimo, deixar que a maioria da população decida o que bem se quer fazer com seus recursos naturais. Vamos lembrar aqui que os contratos de exploração com companhias de petróleo de diversos países foram assinadas – como bem lembra Condelezza – por líderes bolivianos corruptos, sem sequer a aprovação do Congresso. Ainda que se prove que a nacionalização do petróleo é uma péssima idéia, os bolivianos precisam decidir por si prórpios.

* Da política externa norte-americana:

Também não podemos esquecer que as nossas próprias idéias para a América do Sul não são lá estas coisas. A Bolívia foi, por excelência, a cobaia em que o FMI treinou sua ‘terapia de choque’ de liberalismo, iniciada em 1985. A receita rendeu milhões de dólares para petromagnatas e barões da soja, mas quase nenhuma geração de emprego e redução nula de desigualdade social. Duas décadas depois a economia boliviana permanece estagnada e metade da população vive com uma renda de menos de US$ 2 ao dia. O mundo deveria contribuir com algo que ajudaria profundamente a dimunição das desigualdades sociais e à busca da democracia por aqui: o perdão da dívida externa para a reconstrução da governabilidade. Hoje, a dívida externa da Bolívia representa 82% do PIB, corroendo 40% dos gastos a cada ano. Números que se traduzem em mais desordem e miséria.

* Tiananmen do outro lado do Mato Grosso:

Um jovem Quechua, braços cruzados, sentado em frente ao caminhão que tentava inutilmente furar o bloqueio de pessoas em Samaipata, na estrada que vem de Santa Cruz, lembrou-me das imagens da Praça Tiananmen, na China. Ele me disse: "Nossas culturas – quechua, aymara - têm sido bloqueadas por 500 anos. Esta é nossa única voz".

quinta-feira, junho 09, 2005

Fernando Gabeira, na Folha de Sábado

Está lá, disponível, no arquivo da Folha de S.Paulo, o fantástico texto de Fernando Gabeira, publicado neste sábado. Um trecho:

(...) essa certeza de que tudo se vence com dinheiro, essa confiança cega em neutralizar a televisão, ampliar a clientela social e simplesmente ignorar os milhares de consciências que assistem a tudo, é um dado novo. Os amigos não estão perdidos; simplesmente passaram a acreditar que o bandido vence no final. Enfrentamos cadeia, tortura e exílio e, de certa forma, sobrevivemos moralmente inteiros. A experiência do poder quebrou mais nossa vontade do que todos os paus-de-arara; os holofotes e o cordão de puxa-sacos nos confundiram mais do que choques elétricos. Amigos que enfrentaram horas de tortura para salvar os outros hoje se dedicam a produzir notinhas, uns contra os outros. Tudo o que é sólido se desmancha no ar. Há dissoluções mais bonitas, passagens mais perfumadas. Esse episódio, mascarado de ascensão de um trabalhador ao governo, é uma crueldade histórica. Levarei muitos anos para justificar a mim mesmo como foi possível acreditar nisso, já no fim do século 20, quando experiência e prática nos incitavam a duvidar. Ignorantes da tragédia histórica, fomos condenados à farsa.

Verissimo, sobre a lama

Hoje, no Globo: (...) Não fosse por um detalhe, o que estaria em curso hoje no Brasil seria um clássico golpe conservador, com todo o seu arsenal de moralismo seletivo e denuncismo dirigido, contra um inadmissível governo de esquerda. O detalhe que falta, claro, é o governo de esquerda. No fim, a explicação que tem de ser dada não é a dos suspeitos para os jornais e as CPIs, é a do PT para os seus militantes e eleitores, para aquele cara acenando sua bandeira vermelha na esquina, sozinho, de graça, porque acreditava e confiava. E o que precisam lhe explicar é por que mágica seu voto no PT deu num Roberto Jefferson com tantos poderes no governo, inclusive o de derrubá-lo.

quarta-feira, junho 08, 2005

Diretinho da Redação (18)


Ao que vai nascer

Há uma grave lacuna política no país e ela precisa ser ocupada com urgência. O PT, aquele, foi atingido duramente na segunda-feira pela entrevista desavergonhada do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) à Folha de S.Paulo. Não se trata de ‘mais um escândalo político envolvendo o governo Lula’. Se nos fiarmos nas denúncias do deputado, do governador de Goiás e do prefeito do Rio de Janeiro, parlamentares do PL e do PP recebiam uma mesada de R$ 30 mil para aprovar projetos do governo. Pior: desde janeiro, pelo menos, sabiam do ‘mensalão’ e, até prova em contrário, nada fizeram, por ordem de importância, os seguintes condôminos do governo: o presidente da república e seis ministros de Estado, entre eles José Dirceu, Aldo Rebelo, Ciro Gomes e Miro Teixeira. Este último ameaçou botar a boca no trombone, mas voltou atrás. Em entrevistas, Teixeira, indignado, vem dizendo que ‘a democracia não pode ficar nas mãos de ladrões”.

A frase é boa, mas vale a pergunta: qual foi a providência tomada pelos próceres da República desde janeiro, quando foram informados do ‘mensalão’? Parar de correr a sacolinha? É assim que se estanca a corrupção no governo dos companheiros? De acordo com Jefferson, Lula chorou, Dirceu deu murros na mesa e Ciro disse que não acreditava na denúncia pois ‘se tratava de muito dinheiro’. Isso apesar de Jefferson considerar que a prática do ‘mensalão’ era ‘coisa de câmara de vereadores de quinta categoria’. E nós com isso?

Aonde está o que resta do PT, daquele PT? Enquanto o velório do partido segue animado pelas verônicas de sempre e ‘neocorvos’ como o prefeito do Rio – fingindo indignação e dizendo que ‘nunca houve tanta corrupção no país’ – a sociedade brasileira ruma perigosamente para a ‘fascistização’ dos modos. Quando os políticos são considerados todos farinha do mesmo saco, policiais parabeninzados por aparecerem em fotos de jornais chutando a cabeça de acusados de crimes e cidadãos honestos vítimas de um ato de violência a cada 15 segundos no Rio de Janeiro, a serpente já está com metade da cebeça para fora do ovo.

Há 26 anos o PT surgiu traduzindo uma inegável evolução das forças progressistas do país. Nos falava de democracia, de combate ferrenho à corrupção e de uma crença na ética e na seriedade do trato com a coisa pública. Queiram seus detratores ou não, o PT foi sim o personagem mais importante da chamada Nova República. A cada vitória eleitoral daqueles que não tinham medo de ser feliz havia a certeza de que o país diminuía o fosso que separa a classe alta do imenso miserê. Acreditou quem quis, permanece de joelhos na igreja sem choro nem vela os acomodados, acostumados ao dízimo da vez.

Um dos personagens mais nefastos da política brasileira, Roberto Jefferson esfrega na cara de mais de 50 milhões de fiéis eleitores a questão: quem votou em Lula para que seu governo reorganizasse a partilha dos reais com os parlamentares dos partidos do Maluf e do Bispo Rodrigues? A triste ‘PMDBização’ do PT corrobora o que a senadora Heloísa Helena (PSOL-AL) detectou como ‘a metamorfose da ética petista no poder’.

O PT, aquele, acabou, não há mais. E agora, eleitor? Em apenas dois anos e meio de governo, os morubixabas do PT conseguiram de uma só vez assassinar a sigla, jogar a esquerda brasileira em uma crise sem tamanho e, mais importante, colocar em cheque, com seus Waldomiros, Delúbios e Silvinhos, as insituições da República, da qual o presidente Lula, em discurso emocionado, finalmente se lembrou que é o ‘seu maior defensor’. Trabalhador vota em Tabalhador? Balela. No Brasil, ontem e hoje, o mote é um só – aqui, meu amigo, parceiro apóia parceiro. O momento é o de respirar fundo, tapar o nariz e dar o passo à frente. É preciso jogar a pá de cal no caixão que reluz em nossa frente e depositar as esperanças ao que vai nascer. Quem sabe os que têm coragem para tanto não nos ofereçam algo tão novo quanto aquele tal de PT. Quem me acompanha?

Quando a gente pensa que já ouviu de tudo...

Acaba de dar na Rádio Guaíba que o ‘Repórter Vesgo’ foi expulso do Congresso. Os humoristas da Rede TV estavam gravando seu “Pânico” sobre o mensalão e, aparentemente, deputados e senadores se sentiram ‘ofendidos’. E nós, cara-pálida? Devemos nos sentir como?

terça-feira, junho 07, 2005

Quando a gente pensa que já leu de tudo...

...tá na Folha de S.Paulo de hoje:

...o ator Raul Cortez se dizia "admirado" no lançamento da nova Daslu, no sábado. Ele vai à loja uma vez a cada três meses e diz nunca ter desembolsado "mais de R$ 20 mil em uma compra. Mas já cheguei quase lá".

Folha - Que tal a nova Daslu?
Raul Cortez - Estupenda! A Daslu se assume como uma butique de luxo, que vende luxo. Admiro a coragem de quem não tem culpa de ter dinheiro e de expor isso de uma maneira tão aberta.
Folha - Essa culpa é comum?

Cortez - É. E aí as pessoas começam a contribuir com essas ONGs, essas obras beneméritas... O paulistano é um povo provinciano, preocupado com o que o outro vai pensar. E não vê que acontecem coisas piores no país. A corrupção desse governo me revolta. Essa história de barrar a CPI, de compra de deputados é terrível.
Folha - Mas o governo de Fernando Henrique, com o qual o senhor simpatizava, também sofreu denúncias.

Cortez - Mas [a corrupção] é um mal do povo brasileiro! Está na nossa genética ruim, feita com imigrantes, um povo degradado. As pessoas de Portugal que vieram eram as que mais atrapalhavam. Depois chegaram os outros imigrantes, já tentando impor respeito. Começou tudo errado.

PODE?

domingo, junho 05, 2005

Diretinho da Redação (17)


O texto abaixo está lá no www.diretodaredacao.com e trata de triste ironia. Ao mesmo tempo em que dois jornalistas – Bob Woodward e Carl Bernstein – são festejados por proteger durante três décadas sua fonte confidencial, outros 18 – entre eles Judith Miller, do “The New York Times” e Matt Cooper, da “Time” – podem parar na cadeia pelo mesmíssimo motivo. Sinal dos tempos.


Ele não podia ter aparecido em melhor hora. Garganta Profunda era W.Mark Felt, o número dois do F.B.I. na segunda metade dos anos 70. Foi ele quem ajudou os repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein, do The Washington Post, a iniciar a queda irreversível do governo Nixon. Poderia hoje a imprensa repetir com qualquer membro do alto-escalão do governo Bush a seqüência de denúncias e provas inconstestáveis de sérias irregularidades que levaram à renúncia daquele outro governo republicano? Provavelmente não.

Nas últimas semanas a Casa Branca vem batendo na tecla de que a reportagem da Newsweek sobre a utilização de métodos nada ortodoxos – incluindo jogar o Corão privada abaixo – para conseguir informações de prisioneiros muçulmanos na base naval de Guantânamo, na ilha de Cuba, é o tipo de história que deveria ser banida do jornalismo sério e responsável. Principalmente porque a fonte principal da reportagem pediu que seu nome não fosse revelado. Ironia ou não, a Newsweek é a revista do mesmo grupo que publica o The Washington Post. E atinge novamente um governo extremamente conservador, comandado pela linha-dura do Partido Republicano.

A reportagem de Michael Isikoff e John Barry – dois sérios e premiados repórteres – gerou protestos em todo o mundo islâmico, notadamente no Afeganistão e no Paquistão. Uma das funções mais importantes – e raramente alcançada – das boas hostórias jornalísticas é justamente a de mexer com os leitores, chacoalhar o status quo, tornar-se o ponto de partida para a modificação da realidade. O governo Bush acha que este ‘jornalismo irresponsável’ representa nada mais do que uma ‘propaganda negativa’ para os Estados Unidos em uma região estratégica como o Oriente Médio.

Propaganda política e jornalismo não devem se misturar, a não ser em casos extremos. São como água e vinho. Mas tanto a denúncia da tortura de seres humanos praticada sistematicamente por soldados que representam um país reconhecido pela O.N.U. quanto a revelação do esquema fraudulento da eleição do principal mandatário da nação são traduzidos pelo neo-cons como anti-patriotismo. Não por acaso, neste exato momento, 18 jornalistas respondem a processo aqui nos Estados Unidos por conta de reportagens com graves denúncias em que o informante ajudou o trabalho do repórter, com a condição de que permaneceria anônimo. Na maior parte dos casos acredita-se que a fonte faz parte do establishment governamental – exatamente como no caso do Garganta Profunda.

Neste mês os donos dos principais jornais do país, incluindo o The New York Times, concordaram em diminuir progressivamente as reportagens que não apresentem todas as fontes ‘on the record’. O U.S.A. Today chegou ao cúmulo de banir para sempre de suas páginas histórias baseadas em informantes anônimos. Pena. Histórias como a do Garganta Profunda dependem de os capitães da imprensa confiarem mais em seus empregados do que nas benesses do governo federal. Mas também não deixa de ser revelador o motivo final pelo qual Felt decidiu, quase três décadas depois, revelar sua identidade. Glória e dinheiro. Busca de reconhecimento e de segurança financeira. Duas metas mais do que fundamentais na receita batida de se encontrar a felicidade ao modo norte-americano.