quinta-feira, novembro 02, 2006

Diretinho da Redação (49)



ARMADILHAS DE CAMPANHA

Eduardo Graça


O ministro Celso Amorim comentou e a agência Reuters publicou que o presidente George Bush telefonou ontem para seu colega brasileiro cumprimentando-o pela vitória na corrida presidencial. De bate-pronto teria perguntado, em tom jocoso, se Lula poderia lhe emprestar o 'know-how' para o pleito que, em uma semana, vai decidir como serão os anos derradeiros do ex-governador do Texas em seu segundo período na Casa Branca. Na próxima terça-feira os eleitores americanos vão votar para governador, senador e o equivalente a deputados federais e estaduais em todo o país. E Bush tem toda razão de pedir arrego a Lula. As pesquisas indicam que os Democratas devem retomar o controle da Câmara dos Representantes (que perderam em 1994) e quiçá também do Senado.

O chanceler brasileiro não disse se Lula revelou a receita de sua vitória acachapante sobre os social-democratas no domingo que passou. Mas, vejam só, no mesmo dia em que os dois comandantes das maiores democracias da América bateram o papo cordial, Bush animou a campanha daqui batendo numa tecla tocada incessantemente pelo petista durante o segundo turno e em seu discurso de posse (em que vestiu a camiseta com a mensagem de que ‘a vitória era do Brasil’): o nacionalismo.

Se a campanha de Lula criou a idéia de que o PSDB, em sua segunda encarnação em Brasília, iria acabar de vez com o patrimônio público, se desfazendo de Petrobras, Correios, Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil e o que ainda restasse em poder do Estado, os republicanos saíram-se hoje com a exigência de que os democratas se desculpem por denegrirem os heróicos soldados americanos que lutam pela vitória da ‘liberdade’ no Iraque ocupado. Se Lula permite-se confundir com o Brasil, Bush é o Tio Sam em armas no Oriente Médio.

Em infeliz declaração, o senador democrata John Kerry, em um palanque na Califórnia, afirmou que os jovens americanos de classe média-baixa têm duas claras opções pela frente: ou investem na educação e entram no cada vez mais competitivo mercado de trabalho ou acabarão em armadilhas como o Iraque ocupado. Simplista, realista, mas pouco cuidadoso. O veterano de guerra do Vietnã ofereceu um prato cheio para os republicanos, quase tão saboroso quanto o que, na semana passada, Fernando Henrique Cardoso deu de lambuja ao PT ao dizer que ‘não tinha nada contra a privatização da Petrobras’.

Os republicanos, acuados por uma série de escândalos e atolados até o pescoço no mar de lama do Iraque, finalmente saíram para o ataque, acusando os Democratas de preconceito social e de anti-patriotismo, ao apostatem na derrota das forças armadas ianques. Em um inflamado discurso na Geórgia, onde seu candidato ao senado andou comparando os negros a macacos e corre o risco de não se reeleger, Bush exigiu que Kerry se desculpasse com os militares e seus familiares, virando pela primeira vez o jogo do Iraque a favor dos Republicanos.

Do mesmo modo que não se sabe o que o presidente Lula andou aconselhando a Bush Júnior, é difícil prever o efeito da derrapada de Kerry nos resultados de uma eleição que, até o momento, se resumia a um plebiscito nacional sobre o apoio à permanência das tropas no Iraque ocupado. Ao menos já se sabe que os democratas não andam se consultando com os tucanos. Ao contrário de Geraldo Alckmin, que apareceu fantasiado de garoto-propaganda do governo federal, com bonés do BB, camisetas da Petrobras e bolsas de mão da CEF, retrato de uma oposição caipira em um país determinado a não encarar suas reais deficiências de frente, Kerry, tentando provar que aprendeu as lições da campanha presidencial de 2004, convocou imediatamente a imprensa para dizer peremptoriamente que não tinha nada que se desculpar com a política desastrosa de Washington no Oriente Médio, responsável pela morte de milhares de americanos.

Em menos de uma semana vamos descobrir o resultado, por aqui, de tamanho fuzuê.

ENTREVISTA/Christian Bale


Christian Bale e Hugh Jackman: Um grande confronto
Por Eduardo Graça, de Los Angeles


O ator do Batman e o alter ego de Wolverine se enfrentam num filme sobre mágica e obsessão


O que será que acontece quando Batman encontra Wolverine? A resposta é um tapa nas costas e um demorado abraço. Christian Bale, 32 anos, a mais recente encarnação de Bruce Wayne (com e sem máscara) nas telonas, e Hugh Jackman, 38, estrela-mor da cinessérie X-Men, são os protagonistas de O Grande Truque, novo longa do diretor Christopher Nolan (o mesmo de Batman Begins, que em fevereiro estará dirigindo Christian Bale na continuação do filme, O Cavaleiro
Negro
).

Os dois, que fora das telas levam uma vida até que bem parecidas - são muito bem-casados e Bale é pai de uma menina (ele não diz por nada deste mundo o nome dela) de 1 ano, enquanto Jackman é de um casal, Oscar, 6, e Ava, 1 -, conversaram com Contigo! em um hotel de Los Angeles para falar dos dois mágicos enredados em uma rivalidade sem tamanho, alimentada por mortes, acidentes, paixões e muita ambição. Abaixo, os principais trechos das entrevistas realizadas no encontro da revista com os dois belos e talentosos atores.

Christian Bale - marido fiel e apaixonado


Sir Michael Caine (que está em O Grande Truque e faz o Alfred de Batman Begins) disse que o admira muito, por sua extrema dedicação. Ele jura que, observando seu método de trabalho, descobriu que era um profissional muito preguiçoso (risos)...


Bondade dele. Cá entre nós, sou um completo molengão (risos). Adoro uma boa soneca. Sou tão preguiçoso quanto Michael Caine, juro! Embora talvez tão obsessivo quanto Borden, meu personagem em O Grande Truque.

Como foi sua preparação para entrar na pele de Borden? Aprendeu mágica?

Li o romance que inspirou o filme (The Prestige, de Christopher Priest), pesquisei sobre a vida de mágicos famosos, conversei com alguns deles e, sim, aprendi alguns truques. Eu sabia que não teria a chance de usar a maioria dos truques no filme, mas foi uma maneira de entrar no personagem. Alguns truques - como quando faço objetos desaparecerem em minhas mãos - acabaram me levando a desenvolver tiques nervosos (risos).


No filme você trabalha com assistentes belíssimas, uma delas vivida pela atriz Scarlett Johansson. Se fosse um mágico de verdade e pudesse escolher uma assistente, quem seria?


Sem dúvida, minha mulher, Sibi (Blazic, 36. Ela, que é assistente pessoal da atriz Winona Ryder, é realmente linda). Nesta você não me pega! (risos). E, ao contrário do Borden, que é cheio de mistérios, eu jamais teria segredos com a minha família.

ENTREVISTA/Hugh Jackman


Agora a entrevista com om simpaticíssimo Hugh Jackman, também para a Contigo!

Hugh Jackman - fantasia de infância


No filme, você vive um mágico que gosta de estar no palco o tempo todo. Você também tem essa relação com o teatro?
Eu adoro o palco (diz isso após acariciar cuidadosamente o cabelo e tomar um gole de seu chá). Se Chris Nolan (diretor do filme) me chamar agora para fazer uma peça em um teatro-poeira de Manchester, eu vou correndo (risos).

Bale disse que aprendeu alguns truques...
Ah, é? Não me peça para fazer nenhum! (risos). Não, sério, eu faria. O problema é que não trouxe minha caixinha de mágica (risos). Sabe, quando a gente é criança, na Austrália (onde nasceu), um dos presentes clássicos é a tal caixinha de mágica, com truques, varinhas, poções. De certa forma, O Grande Truque me permitiu retomar essa fantasia.

Como foi para o Wolverine encontrar Batman? (risos)...

Christian é um cara muito legal, mas até mesmo ele sabe que Wolverine é mais poderoso que Batman. O homem-morcego tem aqueles cintos e um carro todo incrementado, mas Wolverine é um mutante, né? (risos).

Bale se diz um workaholic. Você também é?

Eu não, mas minha mulher acha que sim! Debra (Lee Furness, 46, atriz) vive dizendo que sou muito caxias. Eu acho que não sou workaholic porque tenho uma imensa capacidade de me desligar do trabalho. Adoro atuar e trabalho duro, mas sei desligar o botão (risos).

O GRANDE TRUQUE - THE PRESTIGE (2006)


Saiu hoje na Folha de S.Paulo (texto aqui, para assinantes) meu texto sobre o filme O Grande Truque, que estréia este fim de semana nos cinemas brasileiros. Conversei com o diretor Christopher Nolan e os atores Michael Caine, Hugh Jackman e Christian Bale.

Filme reúne intérpretes de Batman e Wolverine

Christian Bale e Hugh Jackman vivem "jogo de espelhos" de Nolan em "O Grande Truque"


Os atores e o diretor, Christopher Nolan, falam à Folha sobre o filme, que também tem David Bowie no papel de cientista


EDUARDO GRAÇA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE LOS ANGELES

Em um confronto entre Wolverine e Batman, você apostaria suas fichas em qual super-herói? O novo filme de Christopher Nolan (de "Batman Begins") contrapõe Hugh Jackman - famoso por encarnar o mais esquentado dos X-Men - a Christian Bale - o Bruce Wayne mais convincente do cinema- num duelo situado no ocaso da Inglaterra vitoriana. "O Grande Truque" chega hoje ao Brasil, depois de ocupar o topo da lista dos mais vistos em sua estréia nos EUA e de arrecadar R$ 30 milhões em duas semanas. O filme tem ainda Michael Caine, que voltará a viver o mordomo Alfred na continuação da saga do homem-morcego, "O Cavaleiro Negro"; Scarlett Johansson, como uma sensual ajudante de palco; e David Bowie, um cientista rival de Thomas Edison.

Óculos escuros pendurados na camiseta preta, Christian Bale encara a reportagem da Folha com um silêncio enigmático antes de sacudir as mãos em um vaivém frenético, dar uma exclamação de espanto e cair na gargalhada. "Desculpe a brincadeira. É que as pessoas acham que o filme é uma série de truques que Hugh e eu executamos em teatros.
Nada mais falso", diz. O ator lembra que o coelho na cartola de "O Grande Truque" é o jogo de espelhos dos Nolan - assim como em "Amnésia", o roteiro é do irmão caçula, Jonathan. O espectador nunca sabe bem o que é realidade e o que é ilusão.

Há sete anos, quando leu o romance "The Prestige", de Chritopher Priest, Nolan soube que tinha um filme em mãos. "Só não sabia que caminho seguir. Tive de passar por "Amnésia", "Insônia" e "Batman Begins" até entender o que fazer." Foi em um jantar em Londres, após as filmagens de "Batman", que Nolan mostrou a Bale o roteiro de "O Grande Truque". "Liguei para ele no dia seguinte dizendo que queria fazer o Alfred, personagem de origem social mais pobre. Ele topou, e pensei: será que ele conseguirá me ver como alguém diferente do Bruce Wayne?", conta Bale. "Engraçado ele ter achado isso. É um dos atores mais talentosos que conheço", diz Nolan.

Nesta reunião informal de súditos da rainha, sir Michael Caine não faz feio. "Meu personagem é o mais próximo do homem comum. É com ele que o público se identifica", acredita. Seu Cutter é o tutor de dois jovens que se tornarão inimigos mortais após um acidente que deixa marcas profundas em Robert Angier (Hugh Jackman). "Convidei o Hugh pelo domínio de palco dele. Ele tem o carisma de um mágico, prende a audiência até o último suspiro", diz Nolan. Há dois anos, Jackman estrelou com sucesso na Broadway o musical "The Boy from Oz". "Não me senti um peixe fora d'água por Christian e sir Michael terem trabalhado com Nolan antes. Só deixei claro quem ganharia uma batalha entre Batman e Wolverine. O mutante, claro!", completa, rindo, o ator e produtor de "Wolverine", que deve chegar aos cinemas brasileiros na mesma época que "O Cavaleiro Negro".

O jornalista EDUARDO GRAÇA viajou a convite da distribuidora Warner

domingo, outubro 22, 2006

Pop: Um senhor bate-papo

Infelizmente apenas em inglês, está no site do jornal dominical inglês The Observer um sensacional bate-papo entre Jarvis Cocker (leia-se Pulp), Nick Cave, a cantora de folk Beth Orton, meu querido Antony Hegarty (a doce voz dos nova-iorquinos Antony & The Johnsons, a canadense Mary Margaret O'Hara, o britânico Anthony Glenn (da banda The Hours) e o jornalista Paul Morley. Esta turma se reuniu em Dublin para discutir algo aparentemente tão banal quanto saber para que serve, afinal de contas, a música nos dias de hoje. Entre as muitas histórias divertidas estão a negativa de Cave em ceder os direitos de Red Right Hand para uma propaganda de papel higiênico na Nova Zelândia e o lembrete que Barney Summer, do New Order, exigiu para gravar Blue Monday em uma propaganda de refrigerantes, no início dos anos 80: um imenso cartaz que dizia:"Estamos fazendo isso por US$ 400 mil".

Raízes do Brasil, 70 Anos


Por conta do lançamento da edição comemorativa dos 70 Anos de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, uma das obras fundamentais para se entender Pindorama, o Estadão publicou dois belos textos no Caderno 2 de hoje. O meu favorito é o da professora da USP, e autora do ótimo Nas Barbas do Imperador, Lilia Schwarcz.

Nossa Raízes Profundas
Lilia Moritz Schwarcz

Há quem diga que o Brasil não é para principiantes e que, para entender o País, é preciso um esforço de tradução. É fato que não há cultura que abra mão de um bom tradutor; a nossa, porém, contou com um, particularmente, bem sucedido: Sérgio Buarque de Holanda. Dono de frases e definições lapidares, Holanda fez da interdisciplinaridade mais do que uma voga rápida: foi ensaísta, crítico literário, historiador.

É do historiador a descoberta pelo 'gosto da maravilha e do mistério', dupla inseparável na literatura de viagem e presente em seu livro Visão do Paraíso. É também do pesquisador a arguta definição encontrada no ensaio O Pássaro e a Sombra, quando analisou o poder pessoal de D. Pedro II e concluiu que a vontade imperial carregava 'muito lastro para pouca vela': paródia certeira para pensar a política brasileira, também nos dias de hoje. É ainda o crítico quem descreve nossos 'sertões ermos', em O Extremo Oeste, não distinguindo um espanhol de um português, senão pela montada. É por fim de Sérgio Buarque de Holanda o alerta, contido em Raízes do Brasil, ao apego irrestrito que manifestamos aos 'valores da personalidade'. Em questão estava a possível - e desejável - emergência de instâncias de representação que se sobrepusessem às persistentes estruturas privadas. 'Em terra onde há muito barão não há acordo possível' resumia Holanda, ironizando nosso teimoso e renitente clientelismo.

É por essas e por outras que os setenta anos da publicação de Raízes do Brasil merecem retomada, leitura e atenção. O livro envelheceu tão bem como os bons vinhos, e continua trazendo um incômodo alerta acerca dos limites dessa nossa 'modernidade tropical', condicionada pelo descrédito com relação às instituições e pelo antigo ditado: 'aos amigos tudo, aos inimigos a lei'. A obra carrega, ainda, a marca de ter lançado a voga da 'cordialidade', termo tão citado como mal compreendido. O País se definiria a partir da mania de jogar tudo para a esfera do privado; sinal maior de nossa identidade, entendida, em Raízes, como problema e não solução.

Mas essa obsessão com a definição do caráter particular de nossa cultura, refletido na busca de interpretações do Brasil, não data desta época e muito menos do livro de Holanda. Não é hora de fazer uma lista das teorias ou passar a limpo autores que - como Silvio Romero, Euclides da Cunha, Manuel Bonfim, Joaquim Nabuco ou Oliveira Viana - enfrentaram o tema da identidade, tudo isso entre finais do 19 e inícios do 20. Também não é o caso de retomar as máximas da geração realista dos anos 1870, que elegeu a raça como elemento definidor da nacionalidade. Na verdade, restara um certo mal-estar, legado por este grupo de intelectuais, que entendeu o cruzamento de raças como sinônimo da falência da nação. Por isso mesmo, os grandes intérpretes dos anos 1930 produziram ensaios que se contrapunham frontalmente ao antigo suposto teórico, que resumiu mestiçagem como degeneração.

A nova aposta centrava-se em desenhar a variedade desse imenso País a partir de uma imagem só, alentada até. E é nesse momento que algumas obras nascem clássicas. Casa Grande Senzala, de Gilberto Freyre, publicado em 1933, invertia o papel do escravo e dos negros na formação nacional. Inspirado na antropologia cultural norte-americana, o livro trazia o ambiente patriarcal nordestino como modelo de nacionalidade e propunha uma nova visão desse país. A mestiçagem - menos biológica e mais cultural - era destacada não mais como veneno, mas tal qual redenção.


O texto completo, e uma outra análise bem interessante, do embaixador Sérgio Paulo Rouanet, pode ser lido aqui, para assinantes do Estadão.

sexta-feira, outubro 20, 2006

Diretinho da Redação (50)


O texto da semana, sobre a investida das gravadoras contra os 'piratas musicais' jea está no DR.

PIRATARIA BRASIL

Eduardo Graça


Em uma conversa com os alunos da faculdade de economia da NYU na abertura do ano letivo, que aqui começa no outono, depois das férias de verão, o Prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz, um dos críticos mais perspicazees da globalização como ela é, contou que viveu há pouco tempo, na China, um dilema pessoal que revela muito os tempos paradoxais em que vivemos. Stiglitz fora inquirido por profissionais chineses ávidos por saber mais sobre sua posição sobre direitos autorais na era da internet. O ex-presidente do Banco Mundial parou por um segundo e decidiu ser honesto: não tinha a menor idéia se preferiria saber que seus livros – incluindo o recente best-seller Making The Globalization Work - haviam sido pirateados ou completamente ignorados pelos chineses. A resposta o deixou aliviado: suas obras, todas, vendiam muitíssimo bem no mercado negro de Pequim. A troca do conhecimento, ainda que por meios ilegais, existia. Mas será que a W.W.Norton, que publicou o livro em setembro, concorda com o professor da Universidade de Columbia?

A historieta vem a calhar na semana em que a indústria musical – leia-se as grandes corporações que controlam a produção, distribuição e venda de CDs e DVDs mundo afora – anunciou uma nova leva de 8 mil processos contra indivíduos que andam trocando arquivos musicais na rede de computadores. E, pela primeira vez, alguns dos processados pelas ‘majors’ são cidadãos brasileiros.

A Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), que move os processos em nome das corporações, acredita que os piratas – indivíduos que colocaram na rede álbuns inteiros de artistas para o consumo gratuito de felizes internautas – incentivam o desrespeito à lei, ao direito autoral e à propriedade privada. E um dos maiores mercados ilegais seria o brasileiro. No país, mais de 1 bilhão de músicas (quase 5% de todo o consumo no mundo) baixadas ilegalmente estariam circulando pelos computadores de jovens das classes alta e média de Pindorama, parcela da população que tem acesso ao sistema de banda larga.

Aqui nos EUA já há quase um consenso entre a geração mais jovem de que música não se compra na loja, se troca na rede. Gasta dinheiro quem é otário ou tem muito para esbanjar. Pode-se levar em conta a perversidade de tal raciocínio, que pune os artistas tanto quanto seus mecenas, mas os preços altos dos CDs e a facilidade de reprodução na era digital viraram de cabeça para baixo os padrões éticos em vigor.

A IFPI anda especialmente preocupada com o mercado brasileiro, onde os lucros das gravadoras teriam diminuído pela metade nos últimos seis anos. Mas será que os processos – parte dos piratas já entrou em acordo, pagando multas de até U$ 3 mil (mais de R$ 6 mil) – vão diminuir o troca-troca musical na rede? Será que eles não acontecem justamente por conta da distância astronômica estabelecida pelas gravadoras com seu público-alvo? Os piratas oferecem, quase sempre, um catálogo mais apurado e abrangente do que as boas lojas do mercado tradicional – eles não se limitam aos lançamentos do momento, mas investem no apetite dos colecionadores, que se vêem abandonados por uma indústria focada de modo desproporcional no lucro em detrimento do conhecimento, exatamente o oposto do que preocupa o professor Stiglitz. A batalha, aqui, está apenas começando.

Diretinho da Redação (50)


O texto da semana, sobre a investida das gravadoras contra os 'piratas musicais' jea está no DR.

PIRATARIA BRASIL

Eduardo Graça


Em uma conversa com os alunos da faculdade de economia da NYU na abertura do ano letivo, que aqui começa no outono, depois das férias de verão, o Prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz, um dos críticos mais perspicazees da globalização como ela é, contou que viveu há pouco tempo, na China, um dilema pessoal que revela muito os tempos paradoxais em que vivemos. Stiglitz fora inquirido por profissionais chineses ávidos por saber mais sobre sua posição sobre direitos autorais na era da internet. O ex-presidente do Banco Mundial parou por um segundo e decidiu ser honesto: não tinha a menor idéia se preferiria saber que seus livros – incluindo o recente best-seller Making The Globalization Work - haviam sido pirateados ou completamente ignorados pelos chineses. A resposta o deixou aliviado: suas obras, todas, vendiam muitíssimo bem no mercado negro de Pequim. A troca do conhecimento, ainda que por meios ilegais, existia. Mas será que a W.W.Norton, que publicou o livro em setembro, concorda com o professor da Universidade de Columbia?

A historieta vem a calhar na semana em que a indústria musical – leia-se as grandes corporações que controlam a produção, distribuição e venda de CDs e DVDs mundo afora – anunciou uma nova leva de 8 mil processos contra indivíduos que andam trocando arquivos musicais na rede de computadores. E, pela primeira vez, alguns dos processados pelas ‘majors’ são cidadãos brasileiros.

A Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), que move os processos em nome das corporações, acredita que os piratas – indivíduos que colocaram na rede álbuns inteiros de artistas para o consumo gratuito de felizes internautas – incentivam o desrespeito à lei, ao direito autoral e à propriedade privada. E um dos maiores mercados ilegais seria o brasileiro. No país, mais de 1 bilhão de músicas (quase 5% de todo o consumo no mundo) baixadas ilegalmente estariam circulando pelos computadores de jovens das classes alta e média de Pindorama, parcela da população que tem acesso ao sistema de banda larga.

Aqui nos EUA já há quase um consenso entre a geração mais jovem de que música não se compra na loja, se troca na rede. Gasta dinheiro quem é otário ou tem muito para esbanjar. Pode-se levar em conta a perversidade de tal raciocínio, que pune os artistas tanto quanto seus mecenas, mas os preços altos dos CDs e a facilidade de reprodução na era digital viraram de cabeça para baixo os padrões éticos em vigor.

A IFPI anda especialmente preocupada com o mercado brasileiro, onde os lucros das gravadoras teriam diminuído pela metade nos últimos seis anos. Mas será que os processos – parte dos piratas já entrou em acordo, pagando multas de até U$ 3 mil (mais de R$ 6 mil) – vão diminuir o troca-troca musical na rede? Será que eles não acontecem justamente por conta da distância astronômica estabelecida pelas gravadoras com seu público-alvo? Os piratas oferecem, quase sempre, um catálogo mais apurado e abrangente do que as boas lojas do mercado tradicional – eles não se limitam aos lançamentos do momento, mas investem no apetite dos colecionadores, que se vêem abandonados por uma indústria focada de modo desproporcional no lucro em detrimento do conhecimento, exatamente o oposto do que preocupa o professor Stiglitz. A batalha, aqui, está apenas começando.

quinta-feira, outubro 12, 2006

Diretinho da Redação (49)

O texto da semana é sobre a reportagem da tevê australiana que flagrou um Alckmin diferente. Dêem uma olhada no vídeo.

UM OUTRO ALCKMIN NO YOUTUBE

Eduardo Graça

Se o presidente Lula fosse um dos cerca de 40 milhões de internautas que entram todos os dias no site YouTube ele não teria ficado tão espantado com a agressividade de Geraldo Alckmin no debate de domingo na Bandeirantes. Está lá, para quem quiser ver, uma faceta pouco conhecida do ex-governador. Se nas tevês brasileiras ele aparece calmo ao extremo, uma combinação de coroinha de igreja com professor de magistério, no programa Dateline, apresentado no dia 2 de agosto pela rede australiana SBS, ele reage indignado, interrompendo bruscamente a repórter Olivia Rousset quando questionado sobre a falência da política de segurança pública do PSDB em São Paulo.

Durante doze anos Alckmin despachou no Palácio Bandeirantes, sede do governo paulista. No entanto, não entendeu a insistência da repórter em saber se ele estava de fato chocado com a ação dos grupos de extermínio em São Paulo. A reação de Alckmin – “se eu soubesse que este era o tema do programa não teria dado a entrevista” – só não é cômica porque arreganha a um só tempo o grau de subserviência da mídia brasileira e o descaso de boa parte de nossa elite política com a inteligência do cidadão de Pindorama. Por que não se fez uma entrevista como esta na televisão brasileira? Será que os políticos exigem dos jornalistas o conhecimento prévio da pauta e só conversam com a imprensa se as perguntas os agradam? “Este é um problema do governo do estado de São Paulo, vá procurar as autoridades”, ensina Alckmin à imprensa estrangeira.

Quando Olívia Rousset, em vão, argumenta que ninguém nos Bandeirantes quer ouvir falar sobre o assunto, nem mesmo a Secretaria de Segurança Pública e a chefia da Polícia, Alckmin usa seu inglês pela primeira vez e deixa a repórter falando sozinha: “Bye, bye!”. Tudo isso pode ser acompanhado no YouTube, site criado em fevereiro de 2005 por três amigos e que acaba de ser comprado por US$ 1,67 bilhões pela turma do Google. Todos os dias aproximadamente 100 milhões de vídeos são baixados de graça no site, que responde sozinho por 46% do mercado de vídeos na internet e, até ontem, contava com 67 funcionários em sua folha de pagamento.

Em pouco mais de um ano o YouTube se transformou em uma impressionante videoteca virtual, reunindo tanto imagens históricas da televisão mundial quanto registros de concertos de rock que pareciam perdidos para sempre. Com eleições por aqui em quatro semanas, pululam no site imagens que mostram candidatos ao Congresso norte-americano em situações comprometedoras, especialmente em comícios e aparições públicas (que ganharam nova dimensão com a gravação amadora, livre das regras das grandes redes jornalísticas). O vírus, felizmente, parece ter chegado ao Brasil. O Google, ao abocanhar o site, anunciou estar ciente de que terá de encontrar meios para assegurar a seriedade das imagens publicadas e evitar a pirataria. Mas também assegurou que seu novo produto manterá a vocação libertária que o caracteriza desde o nascedouro.

A transcrição do programa da SBS sobre o descaso das autoridades com a violência em São Paulo, uma aula de jornalismo inteligente e independente, pode ser lida em http://news.sbs.com.au/dateline/index.php?page=transcript&dte=2006-08-02&headlineid=1166, infelizmente apenas em inglês. Mas o link da gravação com Alckmin foi felizmente postado no YouTube. E conta com legendas em português. Para quem tem acesso à rede de computadores e vai votar no segundo turno das eleições presidenciais, o endereço, obrigatório, é o http://www.youtube.com/watch?v=vsRynm18_Eg

quinta-feira, outubro 05, 2006

Diretinho da Redação (50)


O texto da semana, que já está no DR, lembra que aqui nos EUA e aí no Brasil não há lugar para santos no exercício do poder. E que todo o cuidado é pouco com os iconoclastas de ocasião.


NOS EUA DE FOLEY, NO BRASIL DE CLODOVIL

Eduardo Graça

O Congresso dos EUA vive uma de suas mais graves crises com a descoberta de que o deputado que comandava o programa federal dedicado à erradicação da pedofilia trocava picantes mensagens eletrônicas com estagiários adolescentes. O republicano Mark Foley, da Flórida, renunciou ao mandato esta semana quando o escândalo ganhou a primeira página dos jornais. O Foleygate tem tudo para ser a versão ianque da ‘compra do dossiê’ que faltava para os democratas tentarem virar o jogo e retomarem o controle do Congresso. Até porque ninguém sabe ao certo como a baixaria veio a público justamente há um mês das eleições.

O Foleygate é mais um de uma série de escândalos que levou os americanos, em pesquisas conduzidas por diferentes institutos, a considerar esta a pior legislatura da República. Aqui não se tem Waldomiro, Freud ou Marcos Valério, mas pululam os Jack Abramoffs, que compram boa parte dos congressistas e controlam seus votos. Um deputado da Califórnia processado por corrupção teve o desplante de dizer que era impossível resistir a iates, mansões e viagens internacionais proporcionadas por intermediários de certas corporações. E ainda buscou dividir a vergonha com a sociedade, perguntando, exatamente como Clodovil em sua primeira entrevista pós-eleição: e quem não faria o mesmo?

Nos EUA de Foley, não se ouviu sequer de um único congressista envolvido nos seguidos escândalos de corrupção nos últimos quatro anos um pedido de desculpas. Ninguém se disse arrependido por ter utilizado um cargo público para estabelecer seu balcão de negociatas. E o Foleygate só aumentou o tamanho da bronca. Líderes cristãos de extrema-direita agora disputam espaço com os progressistas na sessão livre de catiripapos contra os mandatários públicos. O Legislativo, denunciam, se reduziu a um ‘parque de diversões para predadores sexuais’.

Mas o que vem tirando mesmo o sono dos eleitores é a revelação de que alguns congressistas republicanos, incluindo a autoridade mais alta da casa, J.Dennis Hastert, fiel aliado do presidente Bush, sabiam, desde junho, das investidas do deputado Foley aos ‘meninos do Capitólio’. E abafaram o caso de olho nas eleições do mês que vem, que vão decidir quem controlará o Senado e a Câmara Baixa nos próximos dois anos. Pior: o deputado Thomas Reynolds, de Nova Iorque, que enfrenta uma dura batalha em seu distrito, sabia do caso, calou-se e ainda recebeu de lambuja, dos bolsos de Foley, uma ajuda de US$ 100 mil para sua campanha. Enquanto o escândalo vai ganhando dimensões gigantescas, com a imprensa pedindo as cabeças de Reynolds e Hastert, o ultra-conservador Foley, pressionado por seus próprios advogados, assumiu sua homossexualidade, revelou, a quem interessar possa, que foi molestado por um sacerdote quando tinha 13 anos, jurou ter ‘apenas’ trocado e-mails picantes mas jamais mantido relações sexuais com os meninos do Capitólio e prometeu abandonar a política.

No Brasil de Clodovil há quem se espante com o aparente paradoxo de o PT, justamente o PT, ungido árbitro da ética pela mídia, pela academia e pelas urnas, ter se envolvido em tanta falcatrua. Nos EUA de Foley, o Partido Republicano, que chegou ao poder pregando do púlpito o culto à moral e aos bons costumes e a defesa do cidadão comum, marca sua passagem por Washington com um ataque sem precedentes à família, aos direitos individuais, ao bolso da classe média, à liberdade de expressão e às minorias. Os cenários se assemelham quando revelam a corrosão do atual modelo de democracia representativa. Mas também nos mostram a necessidade de se desconfiar daqueles que almejam a canonização social através da política. Não há lugar para santos no exercício do poder. Do mesmo modo, todo o cuidado é pouco com os iconoclastas de ocasião. Nos EUA de Foley, os republicanos acabam de desenterrar o caso do deputado democrata Mel Reynolds, de Chicago, que foi parar na prisão tanto pelo recebimento de propinas de lobistas quanto por seu envolvimento com um menor de idade, voluntário em sua campanha. Reynolds foi vergonhosamente perdoado pelo presidente Bill Clinton. No Brasil de Clodovil o solo também é fértil para os que quiserem fuçar o passado dos novos paladinos da descência nacional – ou alguém reza de olhos fechados na igreja de Antônio Carlos Magalhães, César Maia, Eduardo Azeredo, Fernando Henrique, Anthony Garotinho e Geraldo Alckmin?

sexta-feira, setembro 29, 2006

ENTREVISTA/NICHOLAS CAGE

Hoje o Valor Econômico publicou a entrevista que fiz com Nicholas Cage, estrela do novo filme de Oliver Stone, Torres Gêmeas, que estréia este fim de semana nos cinemas brasileiros.

Para Cage, Dor Não É Política

29/09/2006

Valor
: "As Torres Gêmeas" foi recebido com festa pela direita americana. Como se posiciona sobre a reação do governo Bush aos ataques de 11 de setembro?
Nicholas Cage: Nosso filme termina no dia 12 de setembro. Não quero de modo algum pensar neste filme de forma política. Acho que seria desonesto com Oliver [Stone] e com a força de "As Torres Gêmeas". O filme trata da luta pela sobrevivência e da coragem de dois policiais.

Valor: Há o aspecto religioso. O personagem do policial Will Jimeno chega a ver Jesus Cristo. Isso o incomodou?
Cage: Um de meus principais exercícios antes de começar a filmar foi me encontrar com o policial John McLoughlin, ver sua família. Gravei em vídeo o encontro e fiz milhares de perguntas. Uma das coisas de que ele se lembra é que ele e Will pediam a Deus por suas vidas, pela chance de saírem daqueles escombros com vida. Quis entender como sua mente venceu a luta. Minha busca foi entender isso, observar e aprender com seus momentos de desespero e, sim, claro, de fé. "As Torres Gêmeas" é um filme emocional. Não é, no entanto, uma obra que o deixará para baixo quando sair do cinema. Você sai com a sensação de que anjos, de fato, existem. John e Will são heróis. Para sobreviver, tiveram de virar um só. Tentar politizar a história é um erro.

Valor: É sua primeira colaboração com Oliver Stone, um diretor marcado por filmes como "Platoon", "JFK" e "Nixon". Não passou por sua cabeça que ele aumentaria o teor político da história?
Cage: Sabe que a gente não conversou sobre o aspecto político dos ataques, Al-Quaeda, Osama, Bush? Até porque John McLoughlin não sabia de nada disso quando estava soterrado nos escombros. Oliver é sensacional. A principal característica de seus filmes, para mim, é que nos fazem pensar. Meu maior receio seria o foco na violência, no desastre. Ele tem interesse zero nisso.

Valor
: Houve chiadeira de parte da opinião pública americana contra o que seria a exploração econômica da tragédia...
Cage: Aquelas imagens foram reais e é sempre melhor enfrentar a realidade do que abraçar a ignorância. Quero saber o que aconteceu nos escombros do World Trade Center. É claro que entendo a preocupação das famílias dos sobreviventes e a dor de reviver a história. Quanto à exploração econômica, doei o cachê para diversas instituições. Boa parte da bilheteria irá para a caridade.

Valor: Foi bom exercício trabalhar apenas com o rosto na maior parte do filme?
Cage: Usei a imaginação para tentar representar aquilo que John me contou que tinha sentido durante as horas em que ficou soterrado.

Valor: Como Nicholas Cage, cidadão americano que estava em casa quando os ataques aconteceram, vê o filme?
Cage: O longa-metragem foi uma boa resposta a minhas preces. Pretendia fazer algo que inspirasse as pessoas, que ajudasse outros seres. Espero ter atingido o objetivo. Acho que contar a história de John McLoughlin e Will Jimeno é uma boa maneira de nos purificar, de curar nossas feridas.
(Eduardo Graça, para o Valor, de Nova York)

quinta-feira, setembro 21, 2006

FILME/ THE U.S. VS. JOHN LENNON



US. X John Lennon
Eduardo Graça, de Nova Iorque e Toronto, para a Bizz


Saiba como é o filme sobre John Lennon que virou a capa da Bizz 205

A primeira reação é quase um reflexo à fauna que anda em direção ao Bowery ou ao Soho nas cercanias do Landmark Sunshine Cinema, casa do documentário Os Estados Unidos Contra John Lennon: decepção. Não com o filme, mas com o momento. Três décadas depois que o governo Nixon tentou deportar o ex-beattle e Yoko Onno, vivemos tempos intensamente mais chatos. As canções de protesto não mobilizam mais multidões, Nova Iorque rende-se cada vez mais à ditadura do mainstream e não há no horizonte uma só celebridade disposta a usar conscientemente o mito criado em torno de sua imagem para alcançar um objetivo político. Bono Vox? Então, tá.

Em uma das cenas mais marcantes do documentário de pouco mais de uma hora e meia dirigido por David Leaf e John Scheinfeld, John Lennon diz que só quis fazer uma coisa na vida: tocar em uma banda de rock. E isso jamais iriam tirar dele: "Sou acima de tudo um músico, depois um político". A frase pode ser lida de trás para a frente: ele fora político ao revelar, ao som do iê-iê-iê, que 'I wanna hold your hand'. Em tempos de guerra do Vietnã, pedia, com a mesma ludicidade, 'to give peace a chance'.

Não foi por isso, apenas, que o governo Nixon resolveu mandar Lennon para fora dos EUA. A justificativa oficial do processo era a detenção do Beatle em Londres, anos atrás, por posse de maconha. Antecedentes criminais. Balela. "Quase todas as estrelas do rock que entram a todo momento nos EUA foram detidas em algum momento de sua carreira pelo uso de drogas. Mas nenhum deles pensa como eu. Ou, melhor, não é explícito sobre como vê o mundo politicamente”, dizia Lennon.


O conflito era ainda mais profundo: o ex-Beatle e Ono passaram a última metade dos anos 60 e a primeira dos 70 financiando movimentos da esquerda americana, como os Panteras Negras. Entrevistados pelos diretores, figuras importantes do F.B.I. pré-Watergate e próceres da televisão populista de direita por aqui, como o apresentador Geraldo Rivera, abordam o mito Lennon da forma que mais os convém: era um ingênuo, explorado pelas mentes perversas dos jovens ‘comunas’, filhos da rebelião de 68. E precisava ser detido.

Do outro lado do flanco, o escritor Gore Vidal, o mais lennoniano dos entrevistados, lembra que ‘Lennon representava a vida, do mesmo modo que Nixon, e agora Bush, representam a morte’. Na mesma linha seguem Tariq Ali e Noam Chomsky, o primeiro revelando que o pensamento político de Lennon o influenciou decisivamente.

Os EUA Contra John Lennon
é um documentário construído pela e para a tevê. Leva a assinatura do canal VH1 e padece das limitações de seu gênesis. Mas o momento em que chega aos cinemas dos norte-americanos é mais do que propício. Em Toronto na semana passada para apresentar seu filme em um dos mais importantes festivais de cinema da América do Norte, os diretores Leaf e Scheinfeld lembraram que ‘há toda uma nova geração que se vê novamente enfrentando uma guerra sem sentido e pergunta: cadê nosso John Lennon quando mais precisamos dele?”.

Os tempos são outros, a esquerda radical dissipou-se, os inimigos da ocasião são religiosos, os ricos nunca lucraram tanto, a música pop lida com seus próprios fantasmas representados pela revolução da internet e a pirataria musical e a oposição democrata, que tinha líderes do quilate de um Bob Kennedy e de um senador George McGovern (candidato derrotado por Nixxon em 72), hoje pena para unir em um mesmo programa o discurso de segurança nacional (fundamental para alcançar a amedrontada classe média) e a manutenção das liberdades individuais e dos avanços democráticos que, séculos a fio, traduziram o que há de melhor no experimento norte-americano.

O tempo, repito, é modorrento. E não existirão dois Lennons. Voltemos ao filme. Perguntado de forma agressiva pela imprensa quanto havia gasto para colocar em outdoors de grandes cidades americanas e da Europa a famosa propaganda ‘The war is over! If you want it” (A guerra acabou, se você quiser), o compositor respondeu de imediato: ‘menos do que vale a vida de um soldado americano’.

“De fato, não haverá outro Lennon. Ao mesmo tempo, o Lennon que inspira Bono Vox e a todos nós continua presente em sua música, mais relevante do que nunca. Sua inteligência e carisma ainda nos tocam. Mas acima de tudo sua coragem. A coragem de usar sua arte para abraçar a causa da paz e lutar contra o governo dos Estados Unidos da América”, dizem os diretores, completamente seguros de quem venceu a batalha cultural retratada em Os EUA Contra John Lennon. A que acontece hoje, do lado de fora da sala de cinema do Landmark Sunshine, é uma outra história.

Diretinho da Redação (50)


A coluna da semana, que já está no DR, é sobre o genial filme Half Nelson, produção independente em cartaz aqui nos EUA infelizmente ainda sem distribuição garantida no Brasil.


HALF NELSON

Eduardo Graça

Nova Iorque - Há um pequeno grande filme em cartaz nos cinemas americanos. Chama-se Half Nelson, alusão a uma posição da luta-livre que imobiliza o adversário mas pode acabar se voltando contra o atacante. O filme poderia ser apenas a história do encontro de um professor branco viciado em crack com sua aluna negra de 13 anos, que tenta de todas as maneiras não ser recrutada pelo exército do tráfico. Mas vai muito além desta síntese simplista.

Half Nelson passa-se na fronteira do Gowanus Canal, uma espécie de linha divisória do Brooklyn dos anos Bloomberg: de um lado as áreas ‘resgatadas’ que caminham para se tornar uma nova Manhattan (ao norte), repletas de restaurantes e butiques da moda. Do outro o decadente e esquecido distrito industrial, ocupado predominantemente por negros, ao sul do canal. O filme é dirigido por Ryan Fleck, que foi quase tão saudado pela crítica quanto seu protagonista, Ryan Gosling, o professor de História Dan Dunne, comparado a Marlon Brando por sua interpretação impressionista, repleta de silêncios e de uma intensidade sem par.

Enquanto esta produção independente vai acumulando prêmios nos festivais de cinema europeus e se fala abertamente da possível indicação de Gosling a melhor ator no Oscar do ano que vem (o que, quem sabe, animaria algum distribuidor a colocar o filme em cartaz no Brasil), Half Nelson conquista fãs aqui nos EUA ao mesclar de forma nada didática o golpe militar chileno, a luta pelos direitos civis dos negros e homossexuais e a epopéia dos imigrantes sem oferecer fórmulas possíveis de redenção. É um filme que, ao contrário de peças menos ousadas como as Torres Gêmeas de Oliver Stone, não tem medo de apresentar aos espectadores uma visão política que passa pela necessidade – e dificuldade – nossa de transportar a ética e a moral para a esfera pessoal. Aqui, a única possibilidade de cura parece ser o contato humano. Mas, mesmo assim, ainda quando se decide prender a respiração e adentrar na intimidade do outro, o resultado quase sempre não é recompensador.

Half Nelson revela-se universal ao reconhecer que hoje o ser humano pode mesmo quase tudo, inclusive destruir-se com intensidade sem par. Mas o filme de Fleck, abençoado pela atuação magistral de Gosling, é essencialmente uma obra de arte nova-iorquina, na medida em que, justamente como a cidade mais rica da mais rica das nações, abraça com orgulho a tolerância ao diferente, sem no entanto jamais buscar entendê-lo.

sexta-feira, setembro 15, 2006

ENTREVISTA/MATT DILLON

A agência de notícias BRPress publicou e vendeu minha entrevista com o ator Matt Dillon, que virou capa - vejam só! - de cadernos culturais de jornais do interior de S.Paulo. O moço é um charme só, e é fã ardoroso da emepebê.

CINEMA - Matt Dillon versão comédia
Eduardo Graça/Especial para BR Press

(Nova York, BR Press) - Matt Dillon não é propriamente um ator associado a comédias. Ele pôde ser visto no engraçadinho Quem Vai Ficar com Mary? ou no mais picante Garotas Selvagens, mas sua carreira é marcada pela escolha de personagens fortes em filmes marcantes, como o dependente químico de Drugstore Cowboy e o marido apático da psicopata vivida por Nicole Kidman em Um Sonho Sem Limites, ambos de Gus Van Sant. Isso sem esquecer do policial sádico de Crash, pelo qual foi indicado ao Oscar de melhor ator no ano passado.

Pois a partir desta sexta-feira (15/09), o público brasileiro passa a conhecer uma outra faceta deste nova-iorquino de 42 anos: sua habilidade de nos fazer gargalhar até cair das poltronas das salas de cinema. Em Dois É Bom, Três É Demais, Dillon é um jovem recém-casado que tem de agüentar o típico amigo de infância ‘mala’: aquele que se instala em sua casa e não sai nunca mais.

No filme, a mais nova empreitada dos irmãos Anthony e Joe Russo (famosos pela série de televisão Arrested Development), seu personagem, o boa-pinta Carl, enfrenta ao mesmo tempo as cobranças da mulher, Molly (Kate Hudson, rebento de uma rainha da comédia norte-americana, Goldie Hawn) e do amigo cara-de-pau Dupree (Owen Wilson). E ainda precisa ter muita paciência para lidar com o sogro sabe-tudo Thompson (Michael Douglas).

Na entrevista a seguir, concedida em um hotel à beira-mar em Santa Mônica, Los Angeles, Dillon, que havia acabado de ter um animado almoço com sua mãe, conta de sua paixão por música brasileira, o amadurecimento como ator, as experiências com amigos famosos que andavam sem roupa por seu jardim e o desafio de dirigir seus próprios filmes.



É muito diferente trabalhar com dois diretores ao mesmo tempo?

Matt Dillon - Você quer mesmo saber? (risos). Foi ótimo, mas é claro que às vezes acontecia de Anthony me dizer: "Matt, faça isso desta maneira". E em seguida Joe dizia exatamente o oposto. Eu cheguei a pensar se eles não estavam gozando com a minha cara, me pregando uma ‘pegadinha’ (risos). Mas, sério, eles sabiam exatamente o que queriam com este filme, o que é um alívio, porque já me aconteceu, e não adianta perguntar que não vou dar nomes, de diretores não terem a menor idéia do que queriam de um ator no set de filmagem, amedrontados mesmo. Aí ficava difícil.

O personagem de Owen (Wilson) é mais escrachado e o seu passeia pela comédia e pelo drama...

Dillon - Pois é, no início, vou ser sincero, fiquei em dúvida se deveria fazer o filme porque meu personagem, o Carl, é aquele sujeito muito certinho. Certinho até demais (risos). Eu acho que poderia sim ter feito o papel do Owen, claro, mas ele está perfeito. O que eu acho que não poderia fazer tão bem é o papel da Kate (risos). Mas, de verdade, fiquei impressionado com o talento dela, não a conhecia pessoalmente e ela tem um senso de humor único.

Você dirigiu seu primeiro filme, Cidade Fantasma, há três anos. Pretende voltar à direção?

Dillon - Pois é, Cidade Fantasma foi um ‘tour de force’. Foi um dos grandes e mais ousados projetos de minha vida, dirigir Gerard Depardieu, ficar do outro lado também na produção, tentar conseguir uma distribuição decente, não foi nada fácil. Não conseguia deixar de pensar em David Lynch, em diretores que conseguem fazer trabalhos extremamente pessoais, o que é difícil aqui em Hollywood. Mas, mesmo apenas protagonizando, foi exatamente o que eu senti quando fiz Factotum este ano.

Um filme baseado na obra e na vida do escritor Charles Bukowski e que passa longe da comicidade de Dois É Bom, Três É Demais...

Dillon - Mas lá, exatamente como na comédia dos irmãos Russo, eu encontrei o que busco como ator – algo que nunca havia feito anteriormente. Eu sei que posso ficar fazendo, cá entre nós, papeis semelhantes aos que já fiz em outros momentos de minha carreira, é até mais fácil. Mas não me interessa, não quero me repetir, não quero ficar enjoado de mim mesmo. Quero cada vez mais ajudar os diretores. Até porque agora eu sei que dirigir é, ao mesmo tempo, o melhor e o pior trabalho do mundo.

Então você acha que mudou como ator depois de experimentar a direção?


Dillon - Sim, é claro! Estou menos preocupado em trabalhar mais freqüentemente e mais relaxado em relação à indústria, a Hollywood. Aprendi que, como ator, não sou responsável pelo que acontece, pelo sucesso ou o fracasso, dos filmes que não dirigi. Isso eu aprendi. Tive de ficar velho para entender isso, mas finalmente descobri que as decisões, a visão do filme como um todo, é do diretor. O Matt Dillon ator é apenas um facilitador do pensamento deste diretor, ou diretores, como aqui. Mas minha responsabilidade não vai além disso. E, quando jovem, acreditava mesmo que eu era um fator decisivo para o sucesso de um filme. Que pretensão a minha! (risos).

Você teve ao menos um Dupree em sua vida, amigos que chegam para passar uma noite em sua casa e jamais vão embora?


Dillon - Um? Tive vários! (risos). Quer saber qual foi meu principal erro nesta questão? Foi quando comprei uma casa com um quarto de visitas famoso por ser especialmente confortável. E vários amigos me dizem o quão sensacional é minha casa, o quarto deles. E, olha, uma coisa que ainda não aprendi é dizer a eles que não é tão sensacional assim para mim! (risos). Mas, sabe, pensando bem, teve um amigo, conhecido, que tem este, digamos assim, um ‘espírito mais livre’, que teimava em se hospedar lá em casa e andar nu pelo jardim. Juro! E eu vivia lá com minha namorada da época, foi uma situação delicada, mas tive de lidar com aquilo. Hoje parece muito engraçado, mas na época me deu uma enorme dor de cabeça. Ele foi meu Dupree mais complicado. Ainda bem que nenhum dos meus Duprees é brasileiro, então não tem problema eu ser indiscreto com você (risos).

É verdade que você é um apaixonado pela musica brasileira?

Dillon - A mais pura verdade! Curto muito jazz, música africana, cubana e porto-riquenha, mas principalmente brasileira. Eu adoro música brasileira, e não apenas as coisas mais óbvias, Bossa Nova, João Gilberto, Jorge Ben, que amo também, mas alguns amigos DJs me apresentaram, por exemplo, a Orlandivo, Elza Soares e Cartola, que são mais obscuros aqui nos EUA e são absolutamente geniais. Meninos e meninas, escutem Orlandivo, Elza e Cartola já!

Por Acaso, Gullar


Ele foi meu primeiro empregador, milênios atrás. Agora ele recebe esta homenagem que eu ainda não vi e já amei de meus amigos queridos Maria Rezende e Rodrigo Bittencourt. O documentário Por Acaso, Gullar é uma das atrações do Festival de Cinema do Rio de Janeiro, o Festival do Rio 2006, com apresentações nos dias 22 de Setembro, no Odeon, e 29 e 30 no Caixa Cultural 2. Se eu estivesse no balneário, eu maracaria presença.

Ah, além do genial poeta maranhense, o filme de Maria - que é outra poeta de primeiro time - e Rodrigo - um senhor compositor e cantor - conta com a partipação de uma cantora de Santo Amaro da Purificação chamada Maria Bethânia.

Diretinho da Redação (50)


O texto da semana já está no DR, e é sobre as profecias - quase sempre nefastas - sobre o futuro dos jornais impressos nas próximas décadas aqui no hemisfério norte.

A MORTE DO JORNAL IMPRESSO

Eduardo Graça

Nova Iorque - Neste setembro a revista The Economist dedicou uma de suas capas à ‘morte do jornal impresso’. Em meio a uma miscelânea de números, análises e profecias, a reportagem previa uma diminuição drástica de títulos no mundo desenvolvido nos próximos anos e a sobrevivência de alguns produtos de excelência, como um The New York Times, um El País, um Guardian.

Foi justamente no jornal britânico que o jornalista Richard Addis, até pouco tempo responsável pela ótima edição de fim de semana do Financial Times, publicou nesta segunda-feira um artigo provocativo intitulado ‘Jornais De Graça Para Todo Mundo’, que oferece uma interessante contra-partida ao estudo daquela que talvez seja a mais influente revista do momento.

Aqui nos EUA há uma espécie de consenso entre a maioria dos jovens de que notícia, assim como música, deve ser um produto de consumo livre. Quem assina dois jornais por dia, e uma série de revistas, passa, para a nova geração de leitores acostumados com o mundo on-line, um atestado de imbecilidade.

Barões da velha imprensa, como Rupert Murdoch (Fox, London Times) e o lorde Jonathan Rothermere (Daily Mail), parecem ter entendido o impacto da internet em seus negócios, e, assim como o NYT fez em Boston, lançaram jornais gratuitos em Londres, a fim de atingir justamente o leitor que se recusa a pagar por um artigo de produção sofisticada – encacercida pela produção de reportagens e entrevistas que envolvem pesquisa, o investimento em pessoal especializado e tecnologia.

Basta uma folheada rápida nestes jornais gratuitos para perceber, no entanto, que eles não passam em um teste de qualidade de conteúdo. São prisioneiros do entretenimento, da leitura rápida, da cópia do release enviado às redações por assessores de imprensa. Richard Addis lembra que o aumento de leitura de um jornal que decidir parar de cobrar nas bancas (assinaturas, é claro, envolvem a taxa de entrega) corresponderia a um incremento de 25% na circulação, em média (e o mesmo percentual de aumento de custo para a impressão em maior quantidade).

Ele aposta que o ganho em publicidade diminuiria o peso das despesas com o aumento de gastos no papel – que, a longo prazo, tenderia a diminuir, com a equiparação do preço da publicidade no jornal e na internet gratuitos. Mais: ele aposta que uma gama imensa de leitores que hoje prefere os tablóides ou os semanários gratuitos, especialmente os mais jovens, vai migrar para os grandes jornais, em busca de qualidade. E dá como exemplos as experiências do The Washington Post (com sua versão Express) e do alemão Welt (e seu Kompact). O futuro da imprensa escrita a eles pertence? É pagar – ou não – para ver.

sexta-feira, setembro 08, 2006

ENTREVISTA / RORY STEWART


O Valor Econômico publicou hoje minha entrevista com o historiador escocês, diplomata, ex-vice rei do Iraque e autor de dois best-sellers aqui nos EUA, Rory Stewart.

UMA TRAGÉDIA AMERICANA

Por Eduardo Graça, para o Valor
08/09/2006

"Há uma sensação de 1968 no ar. Não percebe quem não quer." A frase é de Hendrik Hertzberger, decano articulista político da revista "New Yorker", que pensa menos nos estudantes maoístas em Paris e mais na assimilação, pela América Profunda, da idéia de mais um fiasco militar. Antes, o Vietnã. Agora, o Iraque. O jornalista não está só. Tanto liberais intervencionistas encastelados em Cambridge quanto conservadores cada vez mais irritados com o governo Bush buscam as razões - e um discurso coerente - para explicar o fracasso do projeto do "novo Oriente Médio", elaborado em Washington, que se iniciaria no Iraque pós-Saddam Hussein. O diplomata britânico Rory Stewart está, não por acaso, no centro dessa discussão. Governador durante 11 meses da província de Maysan, território criado por britânicos e americanos no sul do Iraque, ele lançou nos últimos dois anos os best-sellers "The Places in Between" e "The Prince of the Marshes", em que divide com o leitor suas experiências no processo de reconstrução do Afeganistão e do Iraque e se diz "arrependido" de ter acreditado na possibilidade de uma intervenção das forças ocidentais no mundo árabe mostrar-se benéfica. Em uma livraria no Chelsea, em Nova York, Stewart conversou sobre as razões do fracasso. Camisa branca, terno cinza sem gravata, cabelo nigérrimo, olhos azuis brilhantes, muito magro, Stewart fala com pesado sotaque escocês. Inicialmente, passa uma impressão de fragilidade, que pode enganar o ouvinte apressado.

"Uma das tentativas de explicar este revés é apontar para a falta de inteligência, de planejamento, de Washington. Ou se deter sobre certos personagens, como [o presidente] Bush ou o secretário [Donald] Rumsfield. Mas a reconstrução dos países árabes também não funcionaria com uma estratégia mais sofisticada", afirma Stewart. "É verdade que não estávamos preparados para o tamanho da reação da população iraquiana e muitos erros foram cometidos. E é preciso reconhecer que não temos recursos, vontade política e preparo para governar um país em que a grande maioria da população não quer que estejamos lá. É uma irreflexão, e uma irreflexão perigosa, culpar este governo pelo fracasso, como se pudéssemos fazer isso de forma melhor no futuro."

Outro ardoroso ex-defensor da invasão do Iraque, Thomas L. Friedman, do "New York Times", um dos articulistas mais influentes do país, discorda de Stewart. Ele escreveu que o desastre no Iraque se deve à teoria Rumsfield de ocupação, baseada na menor utilização possível de tropas, para diminuir a resistência da opinião pública americana, oposta à teoria Colin Powell, que defendia o envio de um contingente maior de soldados e investimento pesado em segurança, para conter eventuais rebeliões.



Um político ligado à Casa Branca disse à imprensa que o presidente Bush, em conversa com funcionários de alto escalão do Pentágono, revelou-se profundamente insatisfeito com os rumos da ocupação do Iraque, especialmente depois de ver pela TV milhares de pessoas, nas ruas de Bagdá, manifestando-se a favor das ações do Hezbollah em resposta ao bombardeio do Líbano por Israel.

Bush também teria demonstrado desapontamento com o governo xiita, que nunca agradeceu publicamente aos EUA por seus esforços e sacrifícios na liberação do Iraque. Recentemente, o embaixador Paul Bremer, governador-geral do Iraque por 14 meses e superior imediato de Rory Stewart, revelou que, de fato, Bush esperava que as diversas facções do mundo árabe viessem de público agradecer o "desprendimento" dos EUA.

Stewart, que, como diplomata, recebeu a Ordem do Império Britânico pelos serviços prestados à rainha no Iraque, era um oficial da infantaria britânica quando percorreu boa parte do Oriente Próximo, da Turquia até Bangladesh. Participou da força internacional de ocupação na Bósnia e no Kosovo e governou mais de 850 mil pessoas em Maysan, uma área de população predominantemente xiita no Afeganistão.

Suas andanças pela Ásia o deixaram com poucas ilusões sobre a possibilidade de a cultura ocidental ser transposta para o Oriente Médio. "Em Maysan, as pessoas odiavam profundamente o regime de Saddam. Parecia fácil envolvê-las na reconstrução do país. Mas logo nos demos conta de que teríamos de enfrentar, ao mesmo tempo, a imensa pobreza, a ausência de um governo central, a destruição da economia e da infra-estrutura e as divergências de interesses entre as lideranças locais", conta.

Stewart diz que todos os líderes regionais acreditavam ter direito a uma fração de poder no novo governo. Alguns eram líderes religiosos, enquanto outros representavam tribos seculares. Muitos haviam voltado do Irã depois de duas décadas de exílio. As alianças entre eles eram frágeis e os partidos políticos, proibidos durante o governo Saddam, agora eram 54, apenas em Maysan.

"Hoje, vejo que um iraquiano teria vantagem em relação a alguém como eu. No mínimo, saberia reconhecer a hierarquia das famílias no tabuleiro político, teria noção melhor do contexto em que circulam. Eu, um estrangeiro, não tinha como compreender o funcionamento daquela engrenagem", admite Stewart.

O governo de ocupação, comandado por americanos e britânicos, buscou trabalhar com aquela parte da população iraquiana - em geral, profissionais liberais da classe média - que havia estabelecido algum tipo de contato com a cultura ocidental - pessoas que valorizassem a idéia de se estabelecer em seu país, a partir de invasão armada, uma democracia pluralista, e que eram classificadas pelos estrategistas ocidentais como "moderadas". Seriam futuros "exemplos" de líderes iraquianos.

Stewart ficou muito próximo de um desses iraquianos, que, em "The Prince of the Marshes", chama de Ali. Era um jovem de 26 anos, que havia se formado na Universidade de Bagdá, falava inglês fluentemente e acreditava na implantação de um programa de direitos humanos e justiça no país. "Ele acreditava que esta era a oportunidade de se erguer um país mais justo, mais democrático. No entanto, percebi que estava completamente divorciado da realidade da política local. Era, também, um alienígena completo para as pessoas que, de fato, controlavam aquele lugar", relembra Stewart. Ali foi morto a tiros quando entrava em seu carro, em Maysan, aparentemente executado por uma milícia ligada ao atual governo.



"Foi um erro de proporções trágicas invadir o Iraque", diz Rory Stewart, comentando em seu livro "a imensa ignorância ocidental"

Stewart afirma que esse é um exemplo extremo dos problemas que qualquer coalizão de forças ocidentais vai enfrentar em países como o Iraque ou o Afeganistão. Ele pergunta, olhos fixos no público da livraria: "De que adianta buscar pessoas muito bem-educadas, que possam se tornar líderes comprometidos com ideais democráticos, se carecem de representatividade entre a população local?"

Em abril de 2004, oito meses depois de sua chegada a Maysan, Stewart via claramente a insatisfação da população, mesmo dos xiitas, que odiavam Saddam, com o fato de serem governados por estrangeiros. Há no Iraque, diz, um forte sentimento nacionalista e islâmico, que a invasão apenas reforçou. Alguns reclamavam da falta de progresso econômico, outros de progresso político. Insurretos comandados por um antigo aliado iraquiano cercaram a sede do governo. Stewart escapou por pouco.

Foi na primavera de 2004 que uma milícia de iraquianos atacou os funcionários terceirizados contratados para trabalhar na prisão de Fallujah. Alguns dos sobreviventes deram depoimentos marcantes ao cineasta Robert Greenwald, contando como alguns de seus colegas foram arrastados pelas ruas e enforcados na ponte da cidade. Diretor conhecido do público americano por seus documentários contra Rupert Murdoch e a rede de supermercados Wal-Mart, Greenwald lança seu "Iraque à Venda: Quem Lucrou com a Guerra", focado na atividade das empresas que trabalham para as forças de ocupação. O filme tenta, diz Greenwald, fazer com que as eleições parlamentares de novembro nos EUA sejam nacionalizadas a partir de um tema: o fracasso americano no Iraque.

Em "Iraque à Venda", as empresas contratadas para reconstruir e reorganizar o Iraque - em sua maioria, dirigidas por ex-altos funcionários dos governos Reagan, Bush pai e Bush Jr. - não aparecem apenas como assaltantes do contribuinte, quando cobram US$ 45 do governo por uma caixa com seis garrafas de Coca-Cola, mas também são denunciadas pelo modo irresponsável como atuam, que ameaçaria os cidadãos iraquianos, as tropas americanas e seus próprios empregados. Entre os vilões do filme estão a Blackwater Security Consulting, que oferece segurança privada (guarda-costas) em países em convulsão crônica; a KBR, subsidiária da Halliburton, responsável por suprir quase todas as necessidades dos militares, de combustível a comida e banheiros químicos; e a Caci International, que fornece funcionários para as mal-afamadas prisões de Fallujah e Abu Ghraib , também incumbidos de interrogar prisioneiros.

Uma das principais críticas à expedição americana no Iraque é justamente a de ter permitido às corporações privadas fazerem o que bem entendessem por lá. De fato, nada saiu como anunciado pela Inspetoria Especial para a Reconstrução do Iraque, criada em 2003. Os lucros do petróleo, inicialmente, seriam destinados para a restauração da eletricidade em toda Bagdá e investimento pesado em saneamento básico e infra-estrutura. No entanto, de acordo com o próprio Departamento de Estado, 45% dos projetos envolvendo água potável sequer saíram do papel e um terço dos projetos relacionados à geração de energia elétrica estão parados.

Três anos depois, nem mesmo a menina-dos-olhos da primeira-dama Laura Bush, o hospital para crianças que seria construído pela Bechtel, foi inaugurado. Detalhe: a empresa já avisou que exauriu o orçamento e precisa de mais dinheiro público para colocar o hospital em funcionamento. E dezenas de investigações estão sendo feitas para apurar possíveis irregularidades em contratos assinados por empresas envolvidas no programa de reconstrução.

Stewart estava no Iraque quando a população reclamava da falta de energia elétrica em Bagdá. "Por que não resolvem de uma vez esse problema? Ora, ainda não resolvemos no Kosovo, sete anos depois da intervenção. O fato é que é bastante difícil implementar esse tipo de investimento com eficiência, mesmo em lugares como o Kosovo, onde a população era menor, cerca de 500 mil habitantes, e mais receptiva."

Os números do malogro americano impressionam: em três anos, mais de 2.500 soldados morreram no Iraque, outros 20 mil de lá saíram seriamente feridos ou incapacitados e pelo menos 75 mil iraquianos morreram em conflitos internos com os americanos. E há os gastos, que já ultrapassam os US$ 350 bilhões. Mais: apesar de toda a atenção dada pela mídia aos conflitos no Líbano, mais gente foi assassinada no Iraque (uma média de 100 por dia) do que nas batalhas entre Israel e o Hezbollah.

Jessica Stern, especialista em terrorismo de Harvard, , autora de "Terror em Nome de Deus: Por que Militantes Religiosos Matam", diz que Washington criou no Iraque algo inédito, uma espécie de "nação-escola de terrorismo, com um Estado completamente incapacitado de proteger suas fronteiras nacionais ou mesmo suprir as necessidades mais elementares de seus cidadão". Mesmo assim, no mês passado, a ocupação do Iraque ultrapassou importante barreira psicológica: as forças armadas do país já estavam há mais tempo lutando em solo nacional do que o fizeram em toda a campanha da Segunda Guerra Mundial.

Intelectuais americanos das mais diversas linhas de pensamento apontam para o perigo da falta de conexão entre o cidadão americano - as mais recentes pesquisas mostram que mais de 65% consideram a invasão do Iraque um equívoco - e a diplomacia de Washington, algo comparável justamente com o quadro pintado por Hendrik Hertzberger para lembrar as semelhanças com 1968..

A lógica do prolongamento da agonia, que empurrou o governo Lyndon Johnson para o atoleiro do Vietnã, pode repetir-se agora no governo de George W. Bush. Não se sabe ao certo por que as tropas permanecem em Bagdá, nem por que tiveram de ocupar o país. Autor de "Fiasco: a Aventura Militar Americana no Iraque", o jornalista Thomas E. Ricks, do "Washington Post", vai direto ao ponto: "Não há mais esperança alguma para a vitória". O embaixador Charles Freeman Jr., que serviu na Arábia Saudita durante o governo de Bush pai, vai além. "O que quer que aconteça no Iraque terá repercussões sobre o exercício do poder americano, não apenas no Oriente Médio, mas em todo o mundo".

Como, então, encontrar internamente, em um ano de eleições legislativas, o discurso mais seguro para assimilar a derrota? Deverá ser um discurso que, como lembra Hertzberger, inevitavelmente terá de levar em conta os danos ao prestígio moral dos EUA, os níveis recordes de antiamericanismo no mundo árabe e na Europa, o crescimento da ameaça nuclear no Irã e na Coréia do Norte, o avanço do terrorismo e mesmo a necessidade de se combater o "fascismo islâmico", denominação criada pelos neoconservadores para abrigar os financiadores do Hezbollah, que, no entanto, não se encontram em solo iraquiano. A tarefa é das mais árduas. Neste momento, apenas Washington e os neoconservadores abrigados no "The Wall Street Journal" e na "Weekly Standard" parecem negar em público o que Rory Stewart classifica como absolutamente óbvio.

Mas vem do ex-governador da província de ficção criada por britânicos e americanos no Iraque a pista para democratas e republicanos encontrarem um discurso possível. Stewart diz que viveu uma das experiências mais caóticas das últimas décadas. E que carrega consigo uma profunda sensação de fracasso. "Em meus livros, procurei enfatizar a imensa ignorância ocidental. Alguns americanos citam o escritor V. S. Naipaul e sua afirmação de que a experiência britânica na Índia, no fim, foi positiva, pois teria desmantelado uma sociedade tribal e desigual e implantado a obediência à lei para todos. Por favor, olhem para a colonização britânica no Afeganistão ou mesmo no Iraque e vejam o resultado. Os iraquianos sabem mais de si mesmos do que nós", afirma Stewart. E completa: "Temos de sair de lá. Foi um erro de proporções trágicas invadir o Iraque. E precisamos parar com a chantagem de que, se admitirmos a derrota, o país entra em guerra civil. Balela. Nossa presença tem tido uma conseqüência imprevisível: estamos unindo sunitas e xiitas, que vêm falando, e não apenas no Iraque, e cada vez mais, de um Islã unificado. Acredito que eles vão conseguir se entender e enfrentarão os radicais com mais legitimidade. E se, como diz Thomas L. Friedman, realmente precisamos de mais de 135 mil soldados para controlar o Iraque, então essa é a tradução maior do grande fracasso das potências ocidentais ne terrível aventura iraquiana".

Diretinho da Redação (49)



A coluna da semana, sobre o filme Torres Gêmeas, de Oliver Stone, que estréia no dia 28 no Brasil, já está no DR.

TORRES GÊMEAS E UMA OUTRA HIST HISTÓRIA DOS ATAQUES TERRORISTAS A NOVA IORQUE

Na segunda-feira se completarão cinco anos desde os atentados terroristas de 11 de Setembro. Nas telas de cinema de Nova Iorque uma das opções para o cinéfilo desavisado é pagar dez dólares para reviver o dia fatídico, apresentado por Oliver Stone em seu “Torres Gêmeas”, que estréia no Brasil no próximo dia 28 . Durante as filmagens, gastou-se saliva e tutano com a reclamação de alguns familiares das vitimas da destruição do World Trade Center. Estes diziam que Hollywood explorava economicamente a tragédia que para eles era ainda tão recente. No flanco republicano, dizia-se que o público norte-americano ainda não estava preparado para um relato tão ‘realista’, sem concessões à ficção, como prometia Stone. Temia-se um novo “JFK”.

Surpreendentemente, as primeiras sessões de “Torres Gêmeas”, agradaram em cheio parte do público que, acreditava-se, poderia sair ofendido das salas de cinema. Depois do fiasco de “Alexandre”, um filme sobre um conquistador obstinado em levar os valores da civilização ocidental para a Mesopotâmia a qualquer preço, no mesmo momento em que os EUA iniciavam sua ocupação fadada ao fracasso no Iraque, Stone decidiu agradar a gregos e americanos. E o fez de modo assombroso.

“Torres Gêmeas” é, um mês depois de sua estréia nos EUA, celebrado efusivamente pela direita mais raivosa. É também um filme fraco. A ação gira em torno da história real de dois policiais que seriam retirados com vida dos escombros do WTC no fim daquele dia 11. Talvez assombrado pelo fracasso de “Alexandre”, Stone dá as costas para a História. E não oferece qualquer reflexão aos espectadores sobre os motivos, as seqüelas, os antecedentes do 11 de Setembro. Ao contrário, aproxima perigosamente seu filme de um discurso muito caro aos conservadores – o de que a infâmia terrorista serviu para despertar os valores mais nobres do homem comum dos Estados Unidos. Sua crença na família, nos valores cristãos, na honra e no excepcionalismo dos heróis ianques.

“Torres Gêmeas” pode ser visto apenas como mais um enorme desperdício de dinheiro de Hollywood e um degrau abaixo na produção artística de um dos mais interessantes diretores do cinemão americano. Mas sua perversidade histórica – explicitada ao insinuar que haveria de fato, quem sabe, uma conexão entre o governo iraquiano e a Al-Qaeda – resulta em um maiores desserviços prestados à compreensão de momento histórico tão crucial. Não há dúvidas de que Oliver Stone se reencontrou, em seu mais recente filme, com a América Profunda. Mas a um preço altíssimo.

quarta-feira, setembro 06, 2006

ENTREVISTA/ OLIVER STONE

A edição de setembro da revista Continente Multicultural, nas bancas brasileiras, traz na capa uma série de reportagens sobre os cinco anos dos ataques terroristas do 11 de Setembro. Entra elas minha entrevista com Oliver Stone, o diretor de "Torres Gêmeas", que estréia nos cinemas brasileiros no dia 28.

STONE E O MITO DO HERÓI AMERICANO

Novo filme de Oliver Stone, o "cineasta maldito" de JFK e Platoon, surpreende pela abordagem sentimental dos heróis do World Trade Center e é aclamado pela direita norte-americana


Por Eduardo Graça, de Nova York

Bastidores do Festival de Cinema de Chicago. Nicholas Cage aproxima-se de Oliver Stone e pergunta, sem mais rodeios: “Meu caro, como é que nós nunca trabalhamos juntos?”. O diretor, espirituoso, não perde a deixa: “E você me faria um preço camarada?”. Cage sorri. Meses depois ele estava debruçado sobre o roteiro de Torres Gêmeas, o filme de Stone que procura contar, a partir do resgate de dois policiais nova-iorquinos dos escombros do World Trade Center, a história do 11 de Setembro de 2001. Um filme, de acordo com todos os envolvidos na produção, apolítico. Como se tal objetivo fosse possível.

Os brasileiros que forem aos cinemas, a partir do dia 28 de setembro, a fim de se reencontrar com o diretor de JFK ficarão desapontados. Nas Torres Gêmeas de Stone não há tempo para metáforas, digressões, teorias conspiratórias. O filme não pretende ir além da experiência, das sensações, do choque que os norte-americanos viveram naquele dia fatídico. Aqui não há nem mesmo o aspecto documental, mais rígido, utilizado por Peter Greengrass em seu Vôo 93. Torres Gêmeas se passa quase que exclusivamente no chamado Ground Zero. E é centrado na história – real – dos policiais John McLoughlin (Nicholas Cage) e Will Jimeno (Michael Peña), duas das últimas vítimas a serem retiradas com vida dos escombros do World Trade Center, e de suas famílias.



Cabelo esgarçado, um terno cinza que destoa de sua camisa lilás, Stone se confessa exaurido. Na suíte do Hotel Regency, em Manhattan, ele trata das surpresas da Copa do Mundo de Futebol antes de encarar o repórter. E, seguindo a receita de seu ator principal, vai direto ao ponto: “Francamente, acho que há um equívoco fundamental na análise das pessoas sobre o que venho fazendo nos últimos 30 anos. Eu me vejo como um simples dramaturgo do cinema. Sempre quis dramatizar a vida, contar histórias. Algumas eram mesmo políticas, como JFK, mas poderia lhe dizer que aquela é, também, uma história de detetive, à maneira de um Rashomon, de Kurosawa, ou de um Z, de Costa-Gavras. Nixon e Alexander eram biografias. O ponto é que nunca me considerei um cineasta político. Não é que não goste do termo. Mas não sou um polemista. A própria definição de cinema engajado – engagé – passa longe de meu trabalho. Ela se aplica a um Costa-Gavras, a um Rossi, a um Pontecorvo, quem sabe até mesmo a Goddard. Nunca estive lá. Sempre fui um pensador livre, pouco ortodoxo, radicalmente independente”.

Em Torres Gêmeas, é bom que se lembre, os dois personagens principais não têm a mais vaga idéia da motivação por trás do atentado. Não se fala de Al Qaeda, de Osama bin Laden, de guerra santa. Nem se vê a imagem dos aviões adentrando os arranha-céus. A perspectiva é sempre subjetiva, de dentro dos prédios. As figuras do presidente George W.Bush e do então prefeito de Nova York Rudy Giuliani, virtual candidato republicano à Presidência em 2008, no entanto, aparecem na tevê, de forma compungida. “Olha, é possível contar a história do 11 de Setembro de muitas maneiras. Pode-se contar do ponto de vista dos árabes, do de Bush. Torres Gêmeas é a história que eu quis contar. Diria que Torres é mais hollywoodiano, por exemplo, do que o Vôo 93 de Greengrass, um filme que, aliás, adorei. Aqui queremos estabelecer uma conexão entre o público e os policiais e suas famílias, em uma abordagem, diria, mais tradicional, à la Frank Capra”, segue Stone.

Depois de duas horas de projeção, é óbvio que Stone faz mais do que isso. Não são apenas os dois policiais que são resgatados, mas suas famílias, e a crença nos valores mais caros da classe média norte-americana. Aqui, não se louva apenas a coragem dos heróis ianques, mas sua honra e seu Deus. Se este é um raio-x “capriano” da América do século 21, a harmonia e a união nos momentos mais difíceis, a transmutação da tragédia em mito refundador da sociedade norte-americana são, no mínimo, conformistas.

Rosto sério, olhos semicerrados, Nicholas Cage não sorri sequer um momento durante a meia hora de entrevista. Conta que o filme foi uma resposta às “minhas preces”. Que queria muito fazer algo que inspirasse as pessoas, que ajudasse outros seres humanos. “Não sou um ser político e acho que contar a história de John é uma maneira de todos nós nos purificarmos, de curarmos nossas feridas. Digo mais: se eu começar a falar dos aspectos políticos do pós-11 de Setembro serei injusto com o filme”, diz. Talvez Cage já temesse o que as primeiras projeções de Torres Gêmeas para platéias selecionadas parecem sugerir: este é, também, o filme da reabilitação nacional de Oliver Stone, de seu reencontro com a América Profunda. O odiado cineasta de JFK vem sendo saudado pela direita mais raivosa dos EUA como seu novo campeão. “Este é um dos filmes mais pró-EUA, mais pró-família jamais feitos. Saímos dos cinemas agitando a bandeira nacional e cantando ‘God Bless America’”, diz o comentarista conservador da rede Fox, Carl Thomas.



Não há sinal de Michael Moore nas Torres de Stone, muito menos concessões às muitas teorias conspiratórias que sugeriam uma ligação de Washington com os terroristas. “É claro que estou ciente de que as conseqüências do 11 de Setembro foram muito piores do que aconteceu naquele dia. Tivemos muito mais mortes, o terrível ataque à Constituição e às liberdades civis, sem falar no fato de que vivemos sob o domínio do medo. Estamos pagando um imenso preço por conta de nossas reações ao ataque. Mas esta é outra história. Torres é sobre o resgate destes dois homens daquele inferno. E mesmo o fuzileiro naval que expressa seu desejo de vingança oferece uma reação emocional, e não política”, diz Stone.

Não deixa de ser irônico ler, agora, o editorial do jornal mais direitista do país, o Washington Times, defendendo entusiasticamente o filme de Stone. “Mas o importante é a história destes dois homens, dos policiais! Quando li o script, quis conhecê-los pessoalmente e isso me fez um bem enorme, sabia? Eu queria que o público apenas se deixasse levar pela emoção. Mais nada.”, diz o diretor, ecoado por Cage: “Juro que não tivemos sequer uma conversa sobre o aspecto político do 11 de Setembro. O tempo todo pensávamos apenas em ser o mais realista possível. O que há de mais bonito nas Torres Gêmeas é o fato de que, para sobreviver, aqueles dois homens tiveram de se transformar em um só”.

Ainda em 2001, em um outro festival de cinema, o de Nova York, poucas semanas após o ataque às Torres, em uma mesa-redonda chamada “Fazendo Filmes Que Marcam”, alguém da audiência perguntou a Stone como seria um filme seu sobre o 11 de Setembro. Ele respondeu que certamente seria algo que lembrasse A Batalha de Algiers, o clássico do engajado Gillo Pontecorvo, um filme que mostrasse como o terrorismo do novo milênio funcionava na cabeça de árabes e norte-americanos. Disse ainda mais – ‘que se ele fosse filmado de modo realista, sem a busca de um herói, teria um resultado ainda mais fascinante’. Cinco anos depois, Torres Gêmeas é, curiosamente, a exata antítese desta descrição.

THE LOOMING TOWER - Lawrence Wright

Também parte do especial sobre os cinco anos do 11 de Setembro na Continente Cultural, meu texto sobre o sensacional livro do repórter Lawrence Wright, da revista The New Yorker, The Looming Tower.

TERROR E HUMILHAÇÃO


Livro do jornalista e acadêmico americano Lawrence Wright explica as raízes do ódio muçulmano e tenta responder à pergunta: o terrorismo é inevitável?

Por Por Eduardo Graça, de Nova York

Um dia antes de Torres Gêmeas de Oliver Stone estrear nos cinemas americanos, um outro thriller sobre o atentado de 11 de Setembro de 2001 invadiu as livrarias da cidade. The Looming Tower – Al-Qaeda And The Road to 9/11, do jornalista Lawrence Wright, ainda sem editora no Brasil, já é considerado pela crítica a mais importante análise sobre a teia de eventos que levaram o ataque ao centro do império.

Repórter da revista New Yorker, professor da Universidade Americana do Cairo, no Egito, e um dos nomes mais respeitados do Centro de Direito e Segurança da New York University (NYU), Wright escreve para um leitor que busca, cinco anos depois de terroristas sauditas explodirem um Boeing 767 na torre norte do World Trade Center, entender o que de fato aconteceu naquele dia e se haveria uma maneira de se prevenir outros atentados. O terrorismo que nos cerca é inevitável?



Para responder a esta pergunta, Wright nos transporta para os subúrbios de capitais árabes, penetra na vida isolada das mesquitas da Europa Central, apresenta-nos à busca desesperada pela ordem tanto nos rincões pobres do Paquistão quanto nos subúrbios ricos e vazios do meio-oeste americano. Wright nos apresenta a John O’Neill, o comandante do FBI em Nova York, personagem shakespeariano, que trabalhou até o último segundo para desmantelar a Al-Qaeda e que acaba perecendo justamente no ataque às Torres. E a um outro Osama Bin-Laden, baixote, humilhado e destratado pelos revolucionários afegãos, que não conseguem entender como um “guerrilheiro pode ser tão fraco de saúde, tão preguiçoso”.

A intensificação da violência nos últimos cinco anos vem se caracterizando como algo mais complexo do que um “choque das civilizações”, na visão simplista dos conservadores norte-americanos. The Looming Tower bate fundo no perigo da co-existência do fundamentalismo islâmico apoiado por Estados religiosos radicais como o Irã e o antigo Talibã com sua contrapartida cristã, apoiada por um status quo de extrema-direita, fantasiado de “democracia evangelizadora”. Um dos personagens mais fascinantes deste estudo impressionante da miséria de idéias do mundo contemporâneo é Sayyid Qutb, principal ideólogo do que os republicanos de Washington agora chamam – em uma referência à Segunda Guerra Mundial, à luta contra o totalitarismo e ao ataque aos judeus – de “fascismo islâmico”. Wright nos conta que Qutb escreveu quase toda a sua obra a partir da sua experiência como visitante-convidado da Universidade do Colorado, em 1940. E de seu horror aos excessos e preconceitos de uma sociedade que parecia destinada a engolir o mundo por meio de sua crença em uma superioridade ética que, no entanto, não se comprovava na prática. Diante de seus escritos, Osama, escreve, é um “teólogo amador”.

Wright tem horror ao fundamentalismo islâmico. Mas não tem medo de afirmar que suas raízes estão em uma experiência profunda de humilhação. Não apenas as classes mais baixas, mas mesmo os que têm acesso à educação sentem na pele as privações da ocupação, termo que um norte-americano comum, assim como um brasileiro, que nunca viveu a sujeição diária, a necessidade de se obedecer ao estrangeiro, ao estranho, para sobreviver, não pode compreender com exatidão.

“Os líderes da Al-Qaeda se revelaram, muitas vezes, amadores incompetentes que tinham de se reerguer depois de cada um dos muitos revezes que sofreram. Mas a organização que eles criaram tinha apenas um único objetivo em mente e permaneceram fiéis a seu objetivo. No caso do 11 de Setembro, os conflitos burocráticos e rivalidades entre CIA e FBI, sua falta de profissionalismo mesmo, jogaram contra uma inegável vantagem que os EUA tinham sobre os seus adversários e que poderia ter impedido a catástrofe”, escreve, por e-mail, Wright, no dia em que agentes britânicos impediram mais um ataque terrorista aos EUA. Mas, então, um novo 11 de Setembro pode ocorrer a qualquer momento? The Looming Tower não termina aqui em Nova York. Não por acaso, o cenário, em março de 2002, é a fronteira do Afeganistão com o Paquistão:

Apesar de toda a artilharia, um grupo de homens à cavalo segue rumando para o Paquistão. Eles chegam a uma aldeia e conversam com o líder local, Gula Jen. Seu turbante negro e longa barba faz com que ele pareça um talibã. Quatro dias depois, Jan contaria aos americanos que havia sim ‘visto um homem gordo, velho, árabe, com grossos óculos negros e um turbante branco. Ele se vestia como um afegão, mas portava um manto muito bonito, que não se vê por aqui, e viajava ao lado de dois outros árabes, que não tinham suas faces à mostra”. O homem do turbante branco desceu do cavalo e conversou com Jan de forma especialmente polida e graciosa. Ele perguntou a Jan a localização das tropas anti-talibã que haviam invadido o país. Enquanto eles conversavam, Jan olhou de relance para o panfleto que havia sido jogado por aviões americanos dias atrás. Ele mostrava a foto de um homem com óculos e um turbante branco. Tinha um calo negro em sua testa, certamente resultado de horas dedicadas à louvação de Allah. O panfleto também dizia que a recompensa por aquele terrorista era de 25 milhões de dólares. Jan voltou a conversar com aquele que ele agora acreditava ser o Dr.Ayman Al-Zawahiri, egípcio e principal ideólogo da Al-Quaeda. Ele lhe disse ‘que Allah o abençoe e mantenha-o a salvo dos inimigos do Islã. E, por favor, se for possível, tente não revelar a eles de onde viemos e para onde iremos, quando eles chegarem”. Havia um número no panfleto, mas Jan não possuía um aparelho telefônico. Zawahiri e os homens mascarados desapareceram pelas montanhas.