sexta-feira, setembro 15, 2006

ENTREVISTA/MATT DILLON

A agência de notícias BRPress publicou e vendeu minha entrevista com o ator Matt Dillon, que virou capa - vejam só! - de cadernos culturais de jornais do interior de S.Paulo. O moço é um charme só, e é fã ardoroso da emepebê.

CINEMA - Matt Dillon versão comédia
Eduardo Graça/Especial para BR Press

(Nova York, BR Press) - Matt Dillon não é propriamente um ator associado a comédias. Ele pôde ser visto no engraçadinho Quem Vai Ficar com Mary? ou no mais picante Garotas Selvagens, mas sua carreira é marcada pela escolha de personagens fortes em filmes marcantes, como o dependente químico de Drugstore Cowboy e o marido apático da psicopata vivida por Nicole Kidman em Um Sonho Sem Limites, ambos de Gus Van Sant. Isso sem esquecer do policial sádico de Crash, pelo qual foi indicado ao Oscar de melhor ator no ano passado.

Pois a partir desta sexta-feira (15/09), o público brasileiro passa a conhecer uma outra faceta deste nova-iorquino de 42 anos: sua habilidade de nos fazer gargalhar até cair das poltronas das salas de cinema. Em Dois É Bom, Três É Demais, Dillon é um jovem recém-casado que tem de agüentar o típico amigo de infância ‘mala’: aquele que se instala em sua casa e não sai nunca mais.

No filme, a mais nova empreitada dos irmãos Anthony e Joe Russo (famosos pela série de televisão Arrested Development), seu personagem, o boa-pinta Carl, enfrenta ao mesmo tempo as cobranças da mulher, Molly (Kate Hudson, rebento de uma rainha da comédia norte-americana, Goldie Hawn) e do amigo cara-de-pau Dupree (Owen Wilson). E ainda precisa ter muita paciência para lidar com o sogro sabe-tudo Thompson (Michael Douglas).

Na entrevista a seguir, concedida em um hotel à beira-mar em Santa Mônica, Los Angeles, Dillon, que havia acabado de ter um animado almoço com sua mãe, conta de sua paixão por música brasileira, o amadurecimento como ator, as experiências com amigos famosos que andavam sem roupa por seu jardim e o desafio de dirigir seus próprios filmes.



É muito diferente trabalhar com dois diretores ao mesmo tempo?

Matt Dillon - Você quer mesmo saber? (risos). Foi ótimo, mas é claro que às vezes acontecia de Anthony me dizer: "Matt, faça isso desta maneira". E em seguida Joe dizia exatamente o oposto. Eu cheguei a pensar se eles não estavam gozando com a minha cara, me pregando uma ‘pegadinha’ (risos). Mas, sério, eles sabiam exatamente o que queriam com este filme, o que é um alívio, porque já me aconteceu, e não adianta perguntar que não vou dar nomes, de diretores não terem a menor idéia do que queriam de um ator no set de filmagem, amedrontados mesmo. Aí ficava difícil.

O personagem de Owen (Wilson) é mais escrachado e o seu passeia pela comédia e pelo drama...

Dillon - Pois é, no início, vou ser sincero, fiquei em dúvida se deveria fazer o filme porque meu personagem, o Carl, é aquele sujeito muito certinho. Certinho até demais (risos). Eu acho que poderia sim ter feito o papel do Owen, claro, mas ele está perfeito. O que eu acho que não poderia fazer tão bem é o papel da Kate (risos). Mas, de verdade, fiquei impressionado com o talento dela, não a conhecia pessoalmente e ela tem um senso de humor único.

Você dirigiu seu primeiro filme, Cidade Fantasma, há três anos. Pretende voltar à direção?

Dillon - Pois é, Cidade Fantasma foi um ‘tour de force’. Foi um dos grandes e mais ousados projetos de minha vida, dirigir Gerard Depardieu, ficar do outro lado também na produção, tentar conseguir uma distribuição decente, não foi nada fácil. Não conseguia deixar de pensar em David Lynch, em diretores que conseguem fazer trabalhos extremamente pessoais, o que é difícil aqui em Hollywood. Mas, mesmo apenas protagonizando, foi exatamente o que eu senti quando fiz Factotum este ano.

Um filme baseado na obra e na vida do escritor Charles Bukowski e que passa longe da comicidade de Dois É Bom, Três É Demais...

Dillon - Mas lá, exatamente como na comédia dos irmãos Russo, eu encontrei o que busco como ator – algo que nunca havia feito anteriormente. Eu sei que posso ficar fazendo, cá entre nós, papeis semelhantes aos que já fiz em outros momentos de minha carreira, é até mais fácil. Mas não me interessa, não quero me repetir, não quero ficar enjoado de mim mesmo. Quero cada vez mais ajudar os diretores. Até porque agora eu sei que dirigir é, ao mesmo tempo, o melhor e o pior trabalho do mundo.

Então você acha que mudou como ator depois de experimentar a direção?


Dillon - Sim, é claro! Estou menos preocupado em trabalhar mais freqüentemente e mais relaxado em relação à indústria, a Hollywood. Aprendi que, como ator, não sou responsável pelo que acontece, pelo sucesso ou o fracasso, dos filmes que não dirigi. Isso eu aprendi. Tive de ficar velho para entender isso, mas finalmente descobri que as decisões, a visão do filme como um todo, é do diretor. O Matt Dillon ator é apenas um facilitador do pensamento deste diretor, ou diretores, como aqui. Mas minha responsabilidade não vai além disso. E, quando jovem, acreditava mesmo que eu era um fator decisivo para o sucesso de um filme. Que pretensão a minha! (risos).

Você teve ao menos um Dupree em sua vida, amigos que chegam para passar uma noite em sua casa e jamais vão embora?


Dillon - Um? Tive vários! (risos). Quer saber qual foi meu principal erro nesta questão? Foi quando comprei uma casa com um quarto de visitas famoso por ser especialmente confortável. E vários amigos me dizem o quão sensacional é minha casa, o quarto deles. E, olha, uma coisa que ainda não aprendi é dizer a eles que não é tão sensacional assim para mim! (risos). Mas, sabe, pensando bem, teve um amigo, conhecido, que tem este, digamos assim, um ‘espírito mais livre’, que teimava em se hospedar lá em casa e andar nu pelo jardim. Juro! E eu vivia lá com minha namorada da época, foi uma situação delicada, mas tive de lidar com aquilo. Hoje parece muito engraçado, mas na época me deu uma enorme dor de cabeça. Ele foi meu Dupree mais complicado. Ainda bem que nenhum dos meus Duprees é brasileiro, então não tem problema eu ser indiscreto com você (risos).

É verdade que você é um apaixonado pela musica brasileira?

Dillon - A mais pura verdade! Curto muito jazz, música africana, cubana e porto-riquenha, mas principalmente brasileira. Eu adoro música brasileira, e não apenas as coisas mais óbvias, Bossa Nova, João Gilberto, Jorge Ben, que amo também, mas alguns amigos DJs me apresentaram, por exemplo, a Orlandivo, Elza Soares e Cartola, que são mais obscuros aqui nos EUA e são absolutamente geniais. Meninos e meninas, escutem Orlandivo, Elza e Cartola já!

Por Acaso, Gullar


Ele foi meu primeiro empregador, milênios atrás. Agora ele recebe esta homenagem que eu ainda não vi e já amei de meus amigos queridos Maria Rezende e Rodrigo Bittencourt. O documentário Por Acaso, Gullar é uma das atrações do Festival de Cinema do Rio de Janeiro, o Festival do Rio 2006, com apresentações nos dias 22 de Setembro, no Odeon, e 29 e 30 no Caixa Cultural 2. Se eu estivesse no balneário, eu maracaria presença.

Ah, além do genial poeta maranhense, o filme de Maria - que é outra poeta de primeiro time - e Rodrigo - um senhor compositor e cantor - conta com a partipação de uma cantora de Santo Amaro da Purificação chamada Maria Bethânia.

Diretinho da Redação (50)


O texto da semana já está no DR, e é sobre as profecias - quase sempre nefastas - sobre o futuro dos jornais impressos nas próximas décadas aqui no hemisfério norte.

A MORTE DO JORNAL IMPRESSO

Eduardo Graça

Nova Iorque - Neste setembro a revista The Economist dedicou uma de suas capas à ‘morte do jornal impresso’. Em meio a uma miscelânea de números, análises e profecias, a reportagem previa uma diminuição drástica de títulos no mundo desenvolvido nos próximos anos e a sobrevivência de alguns produtos de excelência, como um The New York Times, um El País, um Guardian.

Foi justamente no jornal britânico que o jornalista Richard Addis, até pouco tempo responsável pela ótima edição de fim de semana do Financial Times, publicou nesta segunda-feira um artigo provocativo intitulado ‘Jornais De Graça Para Todo Mundo’, que oferece uma interessante contra-partida ao estudo daquela que talvez seja a mais influente revista do momento.

Aqui nos EUA há uma espécie de consenso entre a maioria dos jovens de que notícia, assim como música, deve ser um produto de consumo livre. Quem assina dois jornais por dia, e uma série de revistas, passa, para a nova geração de leitores acostumados com o mundo on-line, um atestado de imbecilidade.

Barões da velha imprensa, como Rupert Murdoch (Fox, London Times) e o lorde Jonathan Rothermere (Daily Mail), parecem ter entendido o impacto da internet em seus negócios, e, assim como o NYT fez em Boston, lançaram jornais gratuitos em Londres, a fim de atingir justamente o leitor que se recusa a pagar por um artigo de produção sofisticada – encacercida pela produção de reportagens e entrevistas que envolvem pesquisa, o investimento em pessoal especializado e tecnologia.

Basta uma folheada rápida nestes jornais gratuitos para perceber, no entanto, que eles não passam em um teste de qualidade de conteúdo. São prisioneiros do entretenimento, da leitura rápida, da cópia do release enviado às redações por assessores de imprensa. Richard Addis lembra que o aumento de leitura de um jornal que decidir parar de cobrar nas bancas (assinaturas, é claro, envolvem a taxa de entrega) corresponderia a um incremento de 25% na circulação, em média (e o mesmo percentual de aumento de custo para a impressão em maior quantidade).

Ele aposta que o ganho em publicidade diminuiria o peso das despesas com o aumento de gastos no papel – que, a longo prazo, tenderia a diminuir, com a equiparação do preço da publicidade no jornal e na internet gratuitos. Mais: ele aposta que uma gama imensa de leitores que hoje prefere os tablóides ou os semanários gratuitos, especialmente os mais jovens, vai migrar para os grandes jornais, em busca de qualidade. E dá como exemplos as experiências do The Washington Post (com sua versão Express) e do alemão Welt (e seu Kompact). O futuro da imprensa escrita a eles pertence? É pagar – ou não – para ver.

sexta-feira, setembro 08, 2006

ENTREVISTA / RORY STEWART


O Valor Econômico publicou hoje minha entrevista com o historiador escocês, diplomata, ex-vice rei do Iraque e autor de dois best-sellers aqui nos EUA, Rory Stewart.

UMA TRAGÉDIA AMERICANA

Por Eduardo Graça, para o Valor
08/09/2006

"Há uma sensação de 1968 no ar. Não percebe quem não quer." A frase é de Hendrik Hertzberger, decano articulista político da revista "New Yorker", que pensa menos nos estudantes maoístas em Paris e mais na assimilação, pela América Profunda, da idéia de mais um fiasco militar. Antes, o Vietnã. Agora, o Iraque. O jornalista não está só. Tanto liberais intervencionistas encastelados em Cambridge quanto conservadores cada vez mais irritados com o governo Bush buscam as razões - e um discurso coerente - para explicar o fracasso do projeto do "novo Oriente Médio", elaborado em Washington, que se iniciaria no Iraque pós-Saddam Hussein. O diplomata britânico Rory Stewart está, não por acaso, no centro dessa discussão. Governador durante 11 meses da província de Maysan, território criado por britânicos e americanos no sul do Iraque, ele lançou nos últimos dois anos os best-sellers "The Places in Between" e "The Prince of the Marshes", em que divide com o leitor suas experiências no processo de reconstrução do Afeganistão e do Iraque e se diz "arrependido" de ter acreditado na possibilidade de uma intervenção das forças ocidentais no mundo árabe mostrar-se benéfica. Em uma livraria no Chelsea, em Nova York, Stewart conversou sobre as razões do fracasso. Camisa branca, terno cinza sem gravata, cabelo nigérrimo, olhos azuis brilhantes, muito magro, Stewart fala com pesado sotaque escocês. Inicialmente, passa uma impressão de fragilidade, que pode enganar o ouvinte apressado.

"Uma das tentativas de explicar este revés é apontar para a falta de inteligência, de planejamento, de Washington. Ou se deter sobre certos personagens, como [o presidente] Bush ou o secretário [Donald] Rumsfield. Mas a reconstrução dos países árabes também não funcionaria com uma estratégia mais sofisticada", afirma Stewart. "É verdade que não estávamos preparados para o tamanho da reação da população iraquiana e muitos erros foram cometidos. E é preciso reconhecer que não temos recursos, vontade política e preparo para governar um país em que a grande maioria da população não quer que estejamos lá. É uma irreflexão, e uma irreflexão perigosa, culpar este governo pelo fracasso, como se pudéssemos fazer isso de forma melhor no futuro."

Outro ardoroso ex-defensor da invasão do Iraque, Thomas L. Friedman, do "New York Times", um dos articulistas mais influentes do país, discorda de Stewart. Ele escreveu que o desastre no Iraque se deve à teoria Rumsfield de ocupação, baseada na menor utilização possível de tropas, para diminuir a resistência da opinião pública americana, oposta à teoria Colin Powell, que defendia o envio de um contingente maior de soldados e investimento pesado em segurança, para conter eventuais rebeliões.



Um político ligado à Casa Branca disse à imprensa que o presidente Bush, em conversa com funcionários de alto escalão do Pentágono, revelou-se profundamente insatisfeito com os rumos da ocupação do Iraque, especialmente depois de ver pela TV milhares de pessoas, nas ruas de Bagdá, manifestando-se a favor das ações do Hezbollah em resposta ao bombardeio do Líbano por Israel.

Bush também teria demonstrado desapontamento com o governo xiita, que nunca agradeceu publicamente aos EUA por seus esforços e sacrifícios na liberação do Iraque. Recentemente, o embaixador Paul Bremer, governador-geral do Iraque por 14 meses e superior imediato de Rory Stewart, revelou que, de fato, Bush esperava que as diversas facções do mundo árabe viessem de público agradecer o "desprendimento" dos EUA.

Stewart, que, como diplomata, recebeu a Ordem do Império Britânico pelos serviços prestados à rainha no Iraque, era um oficial da infantaria britânica quando percorreu boa parte do Oriente Próximo, da Turquia até Bangladesh. Participou da força internacional de ocupação na Bósnia e no Kosovo e governou mais de 850 mil pessoas em Maysan, uma área de população predominantemente xiita no Afeganistão.

Suas andanças pela Ásia o deixaram com poucas ilusões sobre a possibilidade de a cultura ocidental ser transposta para o Oriente Médio. "Em Maysan, as pessoas odiavam profundamente o regime de Saddam. Parecia fácil envolvê-las na reconstrução do país. Mas logo nos demos conta de que teríamos de enfrentar, ao mesmo tempo, a imensa pobreza, a ausência de um governo central, a destruição da economia e da infra-estrutura e as divergências de interesses entre as lideranças locais", conta.

Stewart diz que todos os líderes regionais acreditavam ter direito a uma fração de poder no novo governo. Alguns eram líderes religiosos, enquanto outros representavam tribos seculares. Muitos haviam voltado do Irã depois de duas décadas de exílio. As alianças entre eles eram frágeis e os partidos políticos, proibidos durante o governo Saddam, agora eram 54, apenas em Maysan.

"Hoje, vejo que um iraquiano teria vantagem em relação a alguém como eu. No mínimo, saberia reconhecer a hierarquia das famílias no tabuleiro político, teria noção melhor do contexto em que circulam. Eu, um estrangeiro, não tinha como compreender o funcionamento daquela engrenagem", admite Stewart.

O governo de ocupação, comandado por americanos e britânicos, buscou trabalhar com aquela parte da população iraquiana - em geral, profissionais liberais da classe média - que havia estabelecido algum tipo de contato com a cultura ocidental - pessoas que valorizassem a idéia de se estabelecer em seu país, a partir de invasão armada, uma democracia pluralista, e que eram classificadas pelos estrategistas ocidentais como "moderadas". Seriam futuros "exemplos" de líderes iraquianos.

Stewart ficou muito próximo de um desses iraquianos, que, em "The Prince of the Marshes", chama de Ali. Era um jovem de 26 anos, que havia se formado na Universidade de Bagdá, falava inglês fluentemente e acreditava na implantação de um programa de direitos humanos e justiça no país. "Ele acreditava que esta era a oportunidade de se erguer um país mais justo, mais democrático. No entanto, percebi que estava completamente divorciado da realidade da política local. Era, também, um alienígena completo para as pessoas que, de fato, controlavam aquele lugar", relembra Stewart. Ali foi morto a tiros quando entrava em seu carro, em Maysan, aparentemente executado por uma milícia ligada ao atual governo.



"Foi um erro de proporções trágicas invadir o Iraque", diz Rory Stewart, comentando em seu livro "a imensa ignorância ocidental"

Stewart afirma que esse é um exemplo extremo dos problemas que qualquer coalizão de forças ocidentais vai enfrentar em países como o Iraque ou o Afeganistão. Ele pergunta, olhos fixos no público da livraria: "De que adianta buscar pessoas muito bem-educadas, que possam se tornar líderes comprometidos com ideais democráticos, se carecem de representatividade entre a população local?"

Em abril de 2004, oito meses depois de sua chegada a Maysan, Stewart via claramente a insatisfação da população, mesmo dos xiitas, que odiavam Saddam, com o fato de serem governados por estrangeiros. Há no Iraque, diz, um forte sentimento nacionalista e islâmico, que a invasão apenas reforçou. Alguns reclamavam da falta de progresso econômico, outros de progresso político. Insurretos comandados por um antigo aliado iraquiano cercaram a sede do governo. Stewart escapou por pouco.

Foi na primavera de 2004 que uma milícia de iraquianos atacou os funcionários terceirizados contratados para trabalhar na prisão de Fallujah. Alguns dos sobreviventes deram depoimentos marcantes ao cineasta Robert Greenwald, contando como alguns de seus colegas foram arrastados pelas ruas e enforcados na ponte da cidade. Diretor conhecido do público americano por seus documentários contra Rupert Murdoch e a rede de supermercados Wal-Mart, Greenwald lança seu "Iraque à Venda: Quem Lucrou com a Guerra", focado na atividade das empresas que trabalham para as forças de ocupação. O filme tenta, diz Greenwald, fazer com que as eleições parlamentares de novembro nos EUA sejam nacionalizadas a partir de um tema: o fracasso americano no Iraque.

Em "Iraque à Venda", as empresas contratadas para reconstruir e reorganizar o Iraque - em sua maioria, dirigidas por ex-altos funcionários dos governos Reagan, Bush pai e Bush Jr. - não aparecem apenas como assaltantes do contribuinte, quando cobram US$ 45 do governo por uma caixa com seis garrafas de Coca-Cola, mas também são denunciadas pelo modo irresponsável como atuam, que ameaçaria os cidadãos iraquianos, as tropas americanas e seus próprios empregados. Entre os vilões do filme estão a Blackwater Security Consulting, que oferece segurança privada (guarda-costas) em países em convulsão crônica; a KBR, subsidiária da Halliburton, responsável por suprir quase todas as necessidades dos militares, de combustível a comida e banheiros químicos; e a Caci International, que fornece funcionários para as mal-afamadas prisões de Fallujah e Abu Ghraib , também incumbidos de interrogar prisioneiros.

Uma das principais críticas à expedição americana no Iraque é justamente a de ter permitido às corporações privadas fazerem o que bem entendessem por lá. De fato, nada saiu como anunciado pela Inspetoria Especial para a Reconstrução do Iraque, criada em 2003. Os lucros do petróleo, inicialmente, seriam destinados para a restauração da eletricidade em toda Bagdá e investimento pesado em saneamento básico e infra-estrutura. No entanto, de acordo com o próprio Departamento de Estado, 45% dos projetos envolvendo água potável sequer saíram do papel e um terço dos projetos relacionados à geração de energia elétrica estão parados.

Três anos depois, nem mesmo a menina-dos-olhos da primeira-dama Laura Bush, o hospital para crianças que seria construído pela Bechtel, foi inaugurado. Detalhe: a empresa já avisou que exauriu o orçamento e precisa de mais dinheiro público para colocar o hospital em funcionamento. E dezenas de investigações estão sendo feitas para apurar possíveis irregularidades em contratos assinados por empresas envolvidas no programa de reconstrução.

Stewart estava no Iraque quando a população reclamava da falta de energia elétrica em Bagdá. "Por que não resolvem de uma vez esse problema? Ora, ainda não resolvemos no Kosovo, sete anos depois da intervenção. O fato é que é bastante difícil implementar esse tipo de investimento com eficiência, mesmo em lugares como o Kosovo, onde a população era menor, cerca de 500 mil habitantes, e mais receptiva."

Os números do malogro americano impressionam: em três anos, mais de 2.500 soldados morreram no Iraque, outros 20 mil de lá saíram seriamente feridos ou incapacitados e pelo menos 75 mil iraquianos morreram em conflitos internos com os americanos. E há os gastos, que já ultrapassam os US$ 350 bilhões. Mais: apesar de toda a atenção dada pela mídia aos conflitos no Líbano, mais gente foi assassinada no Iraque (uma média de 100 por dia) do que nas batalhas entre Israel e o Hezbollah.

Jessica Stern, especialista em terrorismo de Harvard, , autora de "Terror em Nome de Deus: Por que Militantes Religiosos Matam", diz que Washington criou no Iraque algo inédito, uma espécie de "nação-escola de terrorismo, com um Estado completamente incapacitado de proteger suas fronteiras nacionais ou mesmo suprir as necessidades mais elementares de seus cidadão". Mesmo assim, no mês passado, a ocupação do Iraque ultrapassou importante barreira psicológica: as forças armadas do país já estavam há mais tempo lutando em solo nacional do que o fizeram em toda a campanha da Segunda Guerra Mundial.

Intelectuais americanos das mais diversas linhas de pensamento apontam para o perigo da falta de conexão entre o cidadão americano - as mais recentes pesquisas mostram que mais de 65% consideram a invasão do Iraque um equívoco - e a diplomacia de Washington, algo comparável justamente com o quadro pintado por Hendrik Hertzberger para lembrar as semelhanças com 1968..

A lógica do prolongamento da agonia, que empurrou o governo Lyndon Johnson para o atoleiro do Vietnã, pode repetir-se agora no governo de George W. Bush. Não se sabe ao certo por que as tropas permanecem em Bagdá, nem por que tiveram de ocupar o país. Autor de "Fiasco: a Aventura Militar Americana no Iraque", o jornalista Thomas E. Ricks, do "Washington Post", vai direto ao ponto: "Não há mais esperança alguma para a vitória". O embaixador Charles Freeman Jr., que serviu na Arábia Saudita durante o governo de Bush pai, vai além. "O que quer que aconteça no Iraque terá repercussões sobre o exercício do poder americano, não apenas no Oriente Médio, mas em todo o mundo".

Como, então, encontrar internamente, em um ano de eleições legislativas, o discurso mais seguro para assimilar a derrota? Deverá ser um discurso que, como lembra Hertzberger, inevitavelmente terá de levar em conta os danos ao prestígio moral dos EUA, os níveis recordes de antiamericanismo no mundo árabe e na Europa, o crescimento da ameaça nuclear no Irã e na Coréia do Norte, o avanço do terrorismo e mesmo a necessidade de se combater o "fascismo islâmico", denominação criada pelos neoconservadores para abrigar os financiadores do Hezbollah, que, no entanto, não se encontram em solo iraquiano. A tarefa é das mais árduas. Neste momento, apenas Washington e os neoconservadores abrigados no "The Wall Street Journal" e na "Weekly Standard" parecem negar em público o que Rory Stewart classifica como absolutamente óbvio.

Mas vem do ex-governador da província de ficção criada por britânicos e americanos no Iraque a pista para democratas e republicanos encontrarem um discurso possível. Stewart diz que viveu uma das experiências mais caóticas das últimas décadas. E que carrega consigo uma profunda sensação de fracasso. "Em meus livros, procurei enfatizar a imensa ignorância ocidental. Alguns americanos citam o escritor V. S. Naipaul e sua afirmação de que a experiência britânica na Índia, no fim, foi positiva, pois teria desmantelado uma sociedade tribal e desigual e implantado a obediência à lei para todos. Por favor, olhem para a colonização britânica no Afeganistão ou mesmo no Iraque e vejam o resultado. Os iraquianos sabem mais de si mesmos do que nós", afirma Stewart. E completa: "Temos de sair de lá. Foi um erro de proporções trágicas invadir o Iraque. E precisamos parar com a chantagem de que, se admitirmos a derrota, o país entra em guerra civil. Balela. Nossa presença tem tido uma conseqüência imprevisível: estamos unindo sunitas e xiitas, que vêm falando, e não apenas no Iraque, e cada vez mais, de um Islã unificado. Acredito que eles vão conseguir se entender e enfrentarão os radicais com mais legitimidade. E se, como diz Thomas L. Friedman, realmente precisamos de mais de 135 mil soldados para controlar o Iraque, então essa é a tradução maior do grande fracasso das potências ocidentais ne terrível aventura iraquiana".

Diretinho da Redação (49)



A coluna da semana, sobre o filme Torres Gêmeas, de Oliver Stone, que estréia no dia 28 no Brasil, já está no DR.

TORRES GÊMEAS E UMA OUTRA HIST HISTÓRIA DOS ATAQUES TERRORISTAS A NOVA IORQUE

Na segunda-feira se completarão cinco anos desde os atentados terroristas de 11 de Setembro. Nas telas de cinema de Nova Iorque uma das opções para o cinéfilo desavisado é pagar dez dólares para reviver o dia fatídico, apresentado por Oliver Stone em seu “Torres Gêmeas”, que estréia no Brasil no próximo dia 28 . Durante as filmagens, gastou-se saliva e tutano com a reclamação de alguns familiares das vitimas da destruição do World Trade Center. Estes diziam que Hollywood explorava economicamente a tragédia que para eles era ainda tão recente. No flanco republicano, dizia-se que o público norte-americano ainda não estava preparado para um relato tão ‘realista’, sem concessões à ficção, como prometia Stone. Temia-se um novo “JFK”.

Surpreendentemente, as primeiras sessões de “Torres Gêmeas”, agradaram em cheio parte do público que, acreditava-se, poderia sair ofendido das salas de cinema. Depois do fiasco de “Alexandre”, um filme sobre um conquistador obstinado em levar os valores da civilização ocidental para a Mesopotâmia a qualquer preço, no mesmo momento em que os EUA iniciavam sua ocupação fadada ao fracasso no Iraque, Stone decidiu agradar a gregos e americanos. E o fez de modo assombroso.

“Torres Gêmeas” é, um mês depois de sua estréia nos EUA, celebrado efusivamente pela direita mais raivosa. É também um filme fraco. A ação gira em torno da história real de dois policiais que seriam retirados com vida dos escombros do WTC no fim daquele dia 11. Talvez assombrado pelo fracasso de “Alexandre”, Stone dá as costas para a História. E não oferece qualquer reflexão aos espectadores sobre os motivos, as seqüelas, os antecedentes do 11 de Setembro. Ao contrário, aproxima perigosamente seu filme de um discurso muito caro aos conservadores – o de que a infâmia terrorista serviu para despertar os valores mais nobres do homem comum dos Estados Unidos. Sua crença na família, nos valores cristãos, na honra e no excepcionalismo dos heróis ianques.

“Torres Gêmeas” pode ser visto apenas como mais um enorme desperdício de dinheiro de Hollywood e um degrau abaixo na produção artística de um dos mais interessantes diretores do cinemão americano. Mas sua perversidade histórica – explicitada ao insinuar que haveria de fato, quem sabe, uma conexão entre o governo iraquiano e a Al-Qaeda – resulta em um maiores desserviços prestados à compreensão de momento histórico tão crucial. Não há dúvidas de que Oliver Stone se reencontrou, em seu mais recente filme, com a América Profunda. Mas a um preço altíssimo.

quarta-feira, setembro 06, 2006

ENTREVISTA/ OLIVER STONE

A edição de setembro da revista Continente Multicultural, nas bancas brasileiras, traz na capa uma série de reportagens sobre os cinco anos dos ataques terroristas do 11 de Setembro. Entra elas minha entrevista com Oliver Stone, o diretor de "Torres Gêmeas", que estréia nos cinemas brasileiros no dia 28.

STONE E O MITO DO HERÓI AMERICANO

Novo filme de Oliver Stone, o "cineasta maldito" de JFK e Platoon, surpreende pela abordagem sentimental dos heróis do World Trade Center e é aclamado pela direita norte-americana


Por Eduardo Graça, de Nova York

Bastidores do Festival de Cinema de Chicago. Nicholas Cage aproxima-se de Oliver Stone e pergunta, sem mais rodeios: “Meu caro, como é que nós nunca trabalhamos juntos?”. O diretor, espirituoso, não perde a deixa: “E você me faria um preço camarada?”. Cage sorri. Meses depois ele estava debruçado sobre o roteiro de Torres Gêmeas, o filme de Stone que procura contar, a partir do resgate de dois policiais nova-iorquinos dos escombros do World Trade Center, a história do 11 de Setembro de 2001. Um filme, de acordo com todos os envolvidos na produção, apolítico. Como se tal objetivo fosse possível.

Os brasileiros que forem aos cinemas, a partir do dia 28 de setembro, a fim de se reencontrar com o diretor de JFK ficarão desapontados. Nas Torres Gêmeas de Stone não há tempo para metáforas, digressões, teorias conspiratórias. O filme não pretende ir além da experiência, das sensações, do choque que os norte-americanos viveram naquele dia fatídico. Aqui não há nem mesmo o aspecto documental, mais rígido, utilizado por Peter Greengrass em seu Vôo 93. Torres Gêmeas se passa quase que exclusivamente no chamado Ground Zero. E é centrado na história – real – dos policiais John McLoughlin (Nicholas Cage) e Will Jimeno (Michael Peña), duas das últimas vítimas a serem retiradas com vida dos escombros do World Trade Center, e de suas famílias.



Cabelo esgarçado, um terno cinza que destoa de sua camisa lilás, Stone se confessa exaurido. Na suíte do Hotel Regency, em Manhattan, ele trata das surpresas da Copa do Mundo de Futebol antes de encarar o repórter. E, seguindo a receita de seu ator principal, vai direto ao ponto: “Francamente, acho que há um equívoco fundamental na análise das pessoas sobre o que venho fazendo nos últimos 30 anos. Eu me vejo como um simples dramaturgo do cinema. Sempre quis dramatizar a vida, contar histórias. Algumas eram mesmo políticas, como JFK, mas poderia lhe dizer que aquela é, também, uma história de detetive, à maneira de um Rashomon, de Kurosawa, ou de um Z, de Costa-Gavras. Nixon e Alexander eram biografias. O ponto é que nunca me considerei um cineasta político. Não é que não goste do termo. Mas não sou um polemista. A própria definição de cinema engajado – engagé – passa longe de meu trabalho. Ela se aplica a um Costa-Gavras, a um Rossi, a um Pontecorvo, quem sabe até mesmo a Goddard. Nunca estive lá. Sempre fui um pensador livre, pouco ortodoxo, radicalmente independente”.

Em Torres Gêmeas, é bom que se lembre, os dois personagens principais não têm a mais vaga idéia da motivação por trás do atentado. Não se fala de Al Qaeda, de Osama bin Laden, de guerra santa. Nem se vê a imagem dos aviões adentrando os arranha-céus. A perspectiva é sempre subjetiva, de dentro dos prédios. As figuras do presidente George W.Bush e do então prefeito de Nova York Rudy Giuliani, virtual candidato republicano à Presidência em 2008, no entanto, aparecem na tevê, de forma compungida. “Olha, é possível contar a história do 11 de Setembro de muitas maneiras. Pode-se contar do ponto de vista dos árabes, do de Bush. Torres Gêmeas é a história que eu quis contar. Diria que Torres é mais hollywoodiano, por exemplo, do que o Vôo 93 de Greengrass, um filme que, aliás, adorei. Aqui queremos estabelecer uma conexão entre o público e os policiais e suas famílias, em uma abordagem, diria, mais tradicional, à la Frank Capra”, segue Stone.

Depois de duas horas de projeção, é óbvio que Stone faz mais do que isso. Não são apenas os dois policiais que são resgatados, mas suas famílias, e a crença nos valores mais caros da classe média norte-americana. Aqui, não se louva apenas a coragem dos heróis ianques, mas sua honra e seu Deus. Se este é um raio-x “capriano” da América do século 21, a harmonia e a união nos momentos mais difíceis, a transmutação da tragédia em mito refundador da sociedade norte-americana são, no mínimo, conformistas.

Rosto sério, olhos semicerrados, Nicholas Cage não sorri sequer um momento durante a meia hora de entrevista. Conta que o filme foi uma resposta às “minhas preces”. Que queria muito fazer algo que inspirasse as pessoas, que ajudasse outros seres humanos. “Não sou um ser político e acho que contar a história de John é uma maneira de todos nós nos purificarmos, de curarmos nossas feridas. Digo mais: se eu começar a falar dos aspectos políticos do pós-11 de Setembro serei injusto com o filme”, diz. Talvez Cage já temesse o que as primeiras projeções de Torres Gêmeas para platéias selecionadas parecem sugerir: este é, também, o filme da reabilitação nacional de Oliver Stone, de seu reencontro com a América Profunda. O odiado cineasta de JFK vem sendo saudado pela direita mais raivosa dos EUA como seu novo campeão. “Este é um dos filmes mais pró-EUA, mais pró-família jamais feitos. Saímos dos cinemas agitando a bandeira nacional e cantando ‘God Bless America’”, diz o comentarista conservador da rede Fox, Carl Thomas.



Não há sinal de Michael Moore nas Torres de Stone, muito menos concessões às muitas teorias conspiratórias que sugeriam uma ligação de Washington com os terroristas. “É claro que estou ciente de que as conseqüências do 11 de Setembro foram muito piores do que aconteceu naquele dia. Tivemos muito mais mortes, o terrível ataque à Constituição e às liberdades civis, sem falar no fato de que vivemos sob o domínio do medo. Estamos pagando um imenso preço por conta de nossas reações ao ataque. Mas esta é outra história. Torres é sobre o resgate destes dois homens daquele inferno. E mesmo o fuzileiro naval que expressa seu desejo de vingança oferece uma reação emocional, e não política”, diz Stone.

Não deixa de ser irônico ler, agora, o editorial do jornal mais direitista do país, o Washington Times, defendendo entusiasticamente o filme de Stone. “Mas o importante é a história destes dois homens, dos policiais! Quando li o script, quis conhecê-los pessoalmente e isso me fez um bem enorme, sabia? Eu queria que o público apenas se deixasse levar pela emoção. Mais nada.”, diz o diretor, ecoado por Cage: “Juro que não tivemos sequer uma conversa sobre o aspecto político do 11 de Setembro. O tempo todo pensávamos apenas em ser o mais realista possível. O que há de mais bonito nas Torres Gêmeas é o fato de que, para sobreviver, aqueles dois homens tiveram de se transformar em um só”.

Ainda em 2001, em um outro festival de cinema, o de Nova York, poucas semanas após o ataque às Torres, em uma mesa-redonda chamada “Fazendo Filmes Que Marcam”, alguém da audiência perguntou a Stone como seria um filme seu sobre o 11 de Setembro. Ele respondeu que certamente seria algo que lembrasse A Batalha de Algiers, o clássico do engajado Gillo Pontecorvo, um filme que mostrasse como o terrorismo do novo milênio funcionava na cabeça de árabes e norte-americanos. Disse ainda mais – ‘que se ele fosse filmado de modo realista, sem a busca de um herói, teria um resultado ainda mais fascinante’. Cinco anos depois, Torres Gêmeas é, curiosamente, a exata antítese desta descrição.

THE LOOMING TOWER - Lawrence Wright

Também parte do especial sobre os cinco anos do 11 de Setembro na Continente Cultural, meu texto sobre o sensacional livro do repórter Lawrence Wright, da revista The New Yorker, The Looming Tower.

TERROR E HUMILHAÇÃO


Livro do jornalista e acadêmico americano Lawrence Wright explica as raízes do ódio muçulmano e tenta responder à pergunta: o terrorismo é inevitável?

Por Por Eduardo Graça, de Nova York

Um dia antes de Torres Gêmeas de Oliver Stone estrear nos cinemas americanos, um outro thriller sobre o atentado de 11 de Setembro de 2001 invadiu as livrarias da cidade. The Looming Tower – Al-Qaeda And The Road to 9/11, do jornalista Lawrence Wright, ainda sem editora no Brasil, já é considerado pela crítica a mais importante análise sobre a teia de eventos que levaram o ataque ao centro do império.

Repórter da revista New Yorker, professor da Universidade Americana do Cairo, no Egito, e um dos nomes mais respeitados do Centro de Direito e Segurança da New York University (NYU), Wright escreve para um leitor que busca, cinco anos depois de terroristas sauditas explodirem um Boeing 767 na torre norte do World Trade Center, entender o que de fato aconteceu naquele dia e se haveria uma maneira de se prevenir outros atentados. O terrorismo que nos cerca é inevitável?



Para responder a esta pergunta, Wright nos transporta para os subúrbios de capitais árabes, penetra na vida isolada das mesquitas da Europa Central, apresenta-nos à busca desesperada pela ordem tanto nos rincões pobres do Paquistão quanto nos subúrbios ricos e vazios do meio-oeste americano. Wright nos apresenta a John O’Neill, o comandante do FBI em Nova York, personagem shakespeariano, que trabalhou até o último segundo para desmantelar a Al-Qaeda e que acaba perecendo justamente no ataque às Torres. E a um outro Osama Bin-Laden, baixote, humilhado e destratado pelos revolucionários afegãos, que não conseguem entender como um “guerrilheiro pode ser tão fraco de saúde, tão preguiçoso”.

A intensificação da violência nos últimos cinco anos vem se caracterizando como algo mais complexo do que um “choque das civilizações”, na visão simplista dos conservadores norte-americanos. The Looming Tower bate fundo no perigo da co-existência do fundamentalismo islâmico apoiado por Estados religiosos radicais como o Irã e o antigo Talibã com sua contrapartida cristã, apoiada por um status quo de extrema-direita, fantasiado de “democracia evangelizadora”. Um dos personagens mais fascinantes deste estudo impressionante da miséria de idéias do mundo contemporâneo é Sayyid Qutb, principal ideólogo do que os republicanos de Washington agora chamam – em uma referência à Segunda Guerra Mundial, à luta contra o totalitarismo e ao ataque aos judeus – de “fascismo islâmico”. Wright nos conta que Qutb escreveu quase toda a sua obra a partir da sua experiência como visitante-convidado da Universidade do Colorado, em 1940. E de seu horror aos excessos e preconceitos de uma sociedade que parecia destinada a engolir o mundo por meio de sua crença em uma superioridade ética que, no entanto, não se comprovava na prática. Diante de seus escritos, Osama, escreve, é um “teólogo amador”.

Wright tem horror ao fundamentalismo islâmico. Mas não tem medo de afirmar que suas raízes estão em uma experiência profunda de humilhação. Não apenas as classes mais baixas, mas mesmo os que têm acesso à educação sentem na pele as privações da ocupação, termo que um norte-americano comum, assim como um brasileiro, que nunca viveu a sujeição diária, a necessidade de se obedecer ao estrangeiro, ao estranho, para sobreviver, não pode compreender com exatidão.

“Os líderes da Al-Qaeda se revelaram, muitas vezes, amadores incompetentes que tinham de se reerguer depois de cada um dos muitos revezes que sofreram. Mas a organização que eles criaram tinha apenas um único objetivo em mente e permaneceram fiéis a seu objetivo. No caso do 11 de Setembro, os conflitos burocráticos e rivalidades entre CIA e FBI, sua falta de profissionalismo mesmo, jogaram contra uma inegável vantagem que os EUA tinham sobre os seus adversários e que poderia ter impedido a catástrofe”, escreve, por e-mail, Wright, no dia em que agentes britânicos impediram mais um ataque terrorista aos EUA. Mas, então, um novo 11 de Setembro pode ocorrer a qualquer momento? The Looming Tower não termina aqui em Nova York. Não por acaso, o cenário, em março de 2002, é a fronteira do Afeganistão com o Paquistão:

Apesar de toda a artilharia, um grupo de homens à cavalo segue rumando para o Paquistão. Eles chegam a uma aldeia e conversam com o líder local, Gula Jen. Seu turbante negro e longa barba faz com que ele pareça um talibã. Quatro dias depois, Jan contaria aos americanos que havia sim ‘visto um homem gordo, velho, árabe, com grossos óculos negros e um turbante branco. Ele se vestia como um afegão, mas portava um manto muito bonito, que não se vê por aqui, e viajava ao lado de dois outros árabes, que não tinham suas faces à mostra”. O homem do turbante branco desceu do cavalo e conversou com Jan de forma especialmente polida e graciosa. Ele perguntou a Jan a localização das tropas anti-talibã que haviam invadido o país. Enquanto eles conversavam, Jan olhou de relance para o panfleto que havia sido jogado por aviões americanos dias atrás. Ele mostrava a foto de um homem com óculos e um turbante branco. Tinha um calo negro em sua testa, certamente resultado de horas dedicadas à louvação de Allah. O panfleto também dizia que a recompensa por aquele terrorista era de 25 milhões de dólares. Jan voltou a conversar com aquele que ele agora acreditava ser o Dr.Ayman Al-Zawahiri, egípcio e principal ideólogo da Al-Quaeda. Ele lhe disse ‘que Allah o abençoe e mantenha-o a salvo dos inimigos do Islã. E, por favor, se for possível, tente não revelar a eles de onde viemos e para onde iremos, quando eles chegarem”. Havia um número no panfleto, mas Jan não possuía um aparelho telefônico. Zawahiri e os homens mascarados desapareceram pelas montanhas.

ENTREVISTA/ Uma Thurman

A edição desta semana da revista Contigo! traz minha entrevista com a atriz Uma Thurman, protagonista de Minha Super Ex-Namorada, comédia em cartaz nos cinemas brasileiros.

UM MULHERÃO QUE GOSTA DE COLO

Por Eduardo Graça, de Nova York


No filme Minha Súper Ex-Namorada, que estréia sexta, ela é trocada por outra e parte pra cima. Na vida real, a atriz diz que prefere homens fortes:''Busco alguém que possa me dar apoio e carinho''


Aos 36 anos, linda como nunca, queimada de sol - efeito adquirido após férias ao lado do namorado, o empresário André Balazs, em Saint Tropez, em julho -, Uma Thurman é, definitivamente, uma supermulher. Nas telas, ela o é, literalmente, a partir desta sexta (1°), quando estréia a comédia Minha Súper Ex-Namorada. No filme, a atriz é G-Girl, uma heroína dotada de superpoderes, que tem de lidar com o fato de ser abandonada pelo arquiteto Matt Saunders (Luke Wilson), interessado em outra mulher. No longa, a vingança de sua personagem é turbinada por maldades (hilárias, é bem verdade).



Na vida real, há quase três anos ela se separou do ator Ethan Hawke, 35, após cerca de seis anos juntos e com quem teve dois filhos, Maya Ray, 8, e Roan, 4. O casamento terminou com Hawke flagrado na cama de um hotel com uma modelo canadense de 22 anos. Entre as muitas explicações que deu, o ator contra-atacou, justificando sua atitude como troco à traição de Uma, que também estaria tendo um caso com o diretor Quentin Tarantino, 43, durante as filmagens de Kill Bill 1 e 2 (o que nunca foi confirmado por nenhum dos dois). Resultado: um divórcio nada amigável. É quase inevitável pensar que sua G-Girl oferece a oportunidade perfeita para a atriz reagir com humor, no cinema, à sempre desagradável experiência de ser abandonada ou trocada. Sobre isso e muito mais, ela falou a Contigo!.


Namorar uma supermulher, assim como você, não é para qualquer um...

Definitivamente, não é fácil namorar uma mulher famosa. Quem tem paciência? Qualquer cara mais legal que possa escolher entre uma mulher bonita e uma famosa vai escolher a mais normal das duas, não acha? É muito complicado se envolver com uma pessoa famosa.

Tem alguma preferência no equilíbrio de forças em um relacionamento?

As pessoas são diferentes, claro, mas eu prefiro estar com alguém mais forte do que eu. Conheço mulheres que gostam de ficar com menininhos, de carinhas bonitas. Mas, se eu pudesse escolher, iria buscar alguém que pudesse me dar apoio, carinho e uma espécie de sabedoria, sabe? E, graças a Deus, existe uma imensa variedade de homens neste mundo (risos).

Acredita que o filme é, de alguma forma, contra os homens?

Olha, ele foi escrito e dirigido por um homem, produzido por um grupo de homens, comigo no papel-título. Sou eu contra sete homens (risos)! Então acho que o filme é tanto um pesadelo para os homens quanto uma catarse das mulheres que ficam loucas ao serem abandonadas. Agora, claro, eu jamais faria um filme que não fosse a favor das mulheres!

Você se acha uma feminista?

Não conheço o feminismo a fundo para me dizer feminista, mas sou independente desde os 15 anos, quando saí de casa e comecei a trabalhar como modelo. Vivo como uma mulher independente a partir daí e hoje cuido de minhas crianças. Acho que minha experiência exemplifica bem como é a vida de uma mulher que trabalha duro. Com prazer e privilégio, claro, pois muitas mulheres penam mais do que eu.

E usa seus "superpoderes" para criar seus filhos? Criá-los sozinha é barra?

É um desafio, sim. Mas sofro as mesmas dificuldades que qualquer mulher, que trabalha fora sofre. E, hoje, nem é uma questão tão importante para mim, a batalha. Sou tão feliz por tê-los. E meus filhos são maravilhosos, uns anjos. Sou, na verdade, uma mãe muito coruja.

Mas se pudesse escolher ter apenas um dos superpoderes da G-Girl na vida real, qual escolheria?

Ah, adoraria poder voar. Mas o que ela faz na cama neste filme com o Luke também seria útil para qualquer mulher (risos).

Você se acha engraçada, divertida em cena?
Eu sempre achei que poderia fazer as pessoas rirem se tivesse a chance. Mas há 20 anos que venho tentando fazer uma comédia e ninguém me levava a sério, quer dizer me dava um papel. Aí fiz Os Produtores e agora Minha Súper Ex-Namorada. Eu adoro as comédias. Acho muito mais divertido fazer mulheres engraçadas e à beira de um ataque de nervos do que guerreiras que andam para cima e para baixo com espadas de samurai (risos).

Por que demorou tanto para fazer comédia?
Eu era uma pessoa muito mais intensa quando jovem. Mais intensa e mais tensa também (risos)! Digamos que eu tinha uma certa atração por coisas mais pesadas, que queria muito ser uma "atriz mais séria, densa", seja lá o que isso for. Decididamente, não queria ser mais uma "carinha bonitinha" em Hollywood, sabe? Por causa disso, acabei me divertindo menos do que devia.

Acha que sua forte presença (ela tem 1,83 metro de altura), que é notória e impossível de não ser notada, atrapalhou um pouco seus planos?

Pode ser que sim. Tenho esta aparência que certas pessoas consideram ser uma "beleza mais clássica". Sou mais alta do que a média. Acho que acabei ficando com uma marca de "atriz européia", "exótica", quando nada mais sou do que uma típica moradora de Nova York, criada em Massachusetts e por uma família bem normal. Nossa única excentricidade foi ter passado, quando eu era adolescente, um ano na Índia. Isso aconteceu porque meu pai era um acadêmico.

Mesmo assim, você se tornou uma das atrizes mais poderosas em Hollywood…

Engraçado, não me sinto nada poderosa. Cada vez que encontro o papel certo, o filme certo, é um milagre! Eu já estive na lista das 10 mais de Hollywood tantas vezes quanto estive na das 10 menos. Sobreviver como atriz, para mim, também é outro milagre.

E quais são seus planos para o futuro?
Crescimento pessoal, estar mais aberta para os desafios da vida e ter, sempre, uma atitute positiva.

ENTREVISTA/Luke Wilson

Na mesma edição da Contigo! foi publicada minha entrevista com o par romântico de La Thurman na comédia Minha Super Ex-Namorada, o ator texano Luke Wilson.

Solteiro à procura...

Por Eduardo Graça, de Nova York

Ele sempre foi fã de caminhadas e corridas, e muito mais adepto delas do que das aulas de arte dramática. Mas Luke Wilson, 34 anos, o caçula (e mais bonito) de uma família texana bem-sucedida - pai, Robert, executivo de uma agência de publicidade, e mãe, Laura, fotógrafa -, foi levado a atuar pelos irmãos mais velhos, Owen, 37, e Andrew, 42.Depois de devidamente apresentado a Hollywood, aos 23 anos, ele se fartou das benesses do seleto clube, entre elas a facilidade de namorar beldades, como Drew Barrymore, 31, com quem morou por dois anos (de 1997 a 1999), e Gwyneth Paltrow, 33, com quem teve um breve namoro em 2001. Agora, solteiro, tem se divertido com várias amigas. Todas desconhecidas das telonas e nenhuma delas, por enquanto, candidata a ganhar uma aliança.Enfiado em uma calça jeans justa, o educado Luke, com seu sorriso manso, recebeu Contigo! na suíte de um hotel em Manhattan, com um copo de uísque nas mãos para falar do fime Minha Super Ex-Namorada, que estréia sexta (1o). A seguir os melhores trechos desse encontro.


Você namorou mulheres poderosas, como Drew Barrymore e Gwyneth Paltrow. Também penou na hora de terminar a relação?

Não (risos)! Tudo sempre foi muito pacífico, juro. Mas sabe que o meu irmão mais velho, o Andrew, teve uma namorada que botou fogo em algumas páginas de jornais e incendiou o teto solar do carro que estava na porta de casa? Foi radical. O pior era que o carro pertencia ao meu outro irmão, o Owen, que ficou furioso (risos)!

Por falar em Owen, ele esteve no Rio há pouco, você não tem planos de ir ao Brasil?

Eu nunca fui ao Brasil e é um de meus sonhos, sabia? Só que diferente do Owen, que foi para o Rio, eu gostaria de sair um pouco dos grandes centros e conhecer o Brasil de verdade, as cidades interioranas, os lugares menos turísticos e mais reais.

Você está conversando comigo e estou prestando atenção em sua voz...
É? Por quê (risos)?

Porque o diretor do filme, Ivan Reitman, acabou de me dizer que o escolheu para viver o Matt muito por causa da sua voz...
Sério? Olha, fui criado em Dallas, no Texas, mas meus avós paternos são de Boston, falam igualzinho aos Kennedys. Essa mistura de sotaques me deu essa voz neutra, que os diretores gostam. Mas eu não gosto de ouvir minha voz, não, acho ela meio mole (risos)!

Você falou no Texas e agora vai viver o Bobby Ewing (de Dallas, famoso seriado de TV das décadas de 70 e 80) no cinema. Está animado?
Claro! Dallas foi genial, um marco dos anos 80! E o Travolta vai fazer o J.R., sabia? Cara, eu estava na 4ª série quando J.R. foi atacado. Lembro até hoje dos adesivos nos carros dizendo "Eu atirei em J.R. Ewing" (risos). Lembro que todo mundo ficou à frente da TV para saber quem havia matado o J.R.

Hoje, quando se pensa em Texas, fora dos EUA, a primeira imagem que vem à cabeça é a do presidente Bush...

Isso é tão triste. Quando eu estava no 2° grau, ele veio dar uma palestra em meu colégio. Lembro que quando ele terminou, cochichei com um colega meu: "Mas que babaca! Parece um filhinho de papai crescido, brincando de ser governador do Texas".

Você imaginou que ele chegaria à presidência?

Você só pode estar me gozando (risos)! Ele não conseguia nem falar em público! Eu poderia discursar melhor do que ele. Olhe, não sou muito ligado em política, mas o que ele tem feito contra a imagem do Texas, colocando um chapéu de caubói e andando como um rancheiro, inventando um sotaque que não existe, me deixa possesso. Quando vou à Europa as pessoas me apontam na rua e dizem: "Ih, ele é texano!" Pode? Isso me deprime.

Então vamos falar de algo menos triste: se pudesse, assim como Uma Thurman, qual o tipo de super-herói você gostaria de ser?

O supercompreensivo (risos). E vestiria calça de moletom como uniforme! Bem largadão, que é meu estilo.

Foi bom trabalhar com ela?

Foi um sonho. Pensa bem, a Uma! Cara, eu a vi em Ligações Perigosas (1988) quando tinha 18 anos! Ela é a Uma, né? Um ícone.

Você gosta de trabalhar com mulheres poderosas? É verdade que você vai filmar de novo com a Sarah Jessica Parker (eles rodaram juntos Tudo em Família, de 2005)?
Isso mesmo! Vai ser um thriller sobre um casal em crise que se hospeda em um motel de beira de estrada, desses que as pessoas entram e nunca mais saem, e aí eu não posso contar mais nada. Conheci a Sarah em Tudo em Família e foi bom demais! Viramos amigos de infância. Há uma coisa que eu admiro muito nela. Sarah trata do mesmo jeito todo mundo no filme, do diretor ao pessoal da eletricidade. Ela sabe que o trabalho é da equipe. Tento ser como ela, e isso não é exatamente a regra em Hollywood.

Mas você tem uma turma boa em Los Angeles, não é? Está sempre acompanhado de seus irmãos e também de Vince Vaughn, Jack Black, Will Ferrell...

É verdade. Quando a gente está filmando juntos, eu adoro ficar batendo papo com essa cambada (risos). Sou um cara que detesto essa coisa de estrela que fica enfurnada no trailer. Gosto de sair e me divertir com os amigos. E preciso dizer que nunca me afinei tanto com um ator quanto com o Will Ferrell. Adoro o humor dele, adoro como a cabeça dele funciona, aquela velocidade de raciocínio. Ele é muito, muito, mas muito talentoso mesmo.

sábado, agosto 19, 2006

Mario Vargas Llosa: Cuba à la Putin

O jornal argentino La Nacion publicou hoje um artigo do escritor peruano Mario Vargas Llosa em que ele analisa a situação cubana, aponta a total falta de interesse dos EUA em apostar numa 'Cuba Libre' e aposta na lenta transformação do regime cubano para algo mais próximo de um regime fechado de direita, à la Rússia de Putin. Vale ler o artigo, na íntegra, infelizmente apenas em espanhol, aqui.

sexta-feira, agosto 18, 2006

ENTREVISTA/Bill T.Jones

Saiu hoje no caderno Eu&Fim de Semana, do Valor Econômico, meu texto sobre a turnê brasileira da companhia de dança de Bill T.Jones.

Transgressões de Bill T. Jones
Por Eduardo Graça, para o Valor
18/08/2006

Punho negro cerrado voltado para o teto do palco. Foi assim, emulando o gesto característico dos Panteras Negras, que Bill T. Jones encerrou no mês passado sua participação no festival anual do Lincoln Center, apresentando "Blind Date". A imagem, a um só tempo incômoda, démodé e elegante, traduz o espírito de sua Arnie Zane Dance Company, que traz ao Brasil outra de suas coreografias mais recentes, "Another Evening: I Bow down". Uma catarse sócio-cultural, em que os dançarinos dividem o palco com uma banda de hardcore e traduzem em movimento temas como a intolerância religiosa, a pertinência da arte em um mundo fadado ao desastre, a guerra e, claro, o racismo, "Another Evening" deveria ser apresentada pela primeira vez, curiosamente, em um palco instalado no World Trade Center, um dia depois do atentado terrorista de 11 de setembro de 2001. Animado com a turnê brasileira - que inclui espetáculos no Rio (Theatro Municipal, 26 e 27 de agosto), São Paulo (Municipal, 1º e 2 de setembro) e Brasília (Sala Villa-Lobos, 30 de agosto) -, o artista conversou com o Valor em Manhattan.


Bill T. Jones não aparenta seus 54 anos. Cabeça raspada, corpo musculoso, postura perfeita, o coreógrafo se faz notar, inicialmente, pela voz austera, que preenche a sala com a mesma velocidade com que os dançarinos de sua companhia se movimentam em cena."O 'Another Evening' que será apresentado aos brasileiros é resultado da crise espiritual por que passo. Há um ano me debatia com o gosto amargo deixado pelo furacão Katrina quando fomos convidados para participar de um evento promovido por estudantes da Universidade de Nova York. Foi ali que decidimos incorporar uma banda de hardcore a 'Another Evening', que já contava com um violino e um piano. Veja bem, em 1969, eu estava em Woodstock, viajando com LSD ao som de Jimi Hendrix. Jamais imaginei que um dia iria entender esta coisa de heavy metal."

De fato, a Regain The Heart Condemned, da cena independente do Bronx, nada tem de hippie. Mas é comandada por um vocalista hispânico que berra, à la Sepultura, textos budistas também ofertados ao público em versão mais branda, na voz de um monge. Paraíso e inferno, libertação e dor, hardcore e new age, Jones está definitivamente interessado em opostos. Tanto em "Blind Date" quanto em "Another Evening", ele se debate com a sensação de sufocamento coletivo de uma América - "e do mundo também" - intoxicada por certezas.

Ousado, "um filho do Sul batista, como Martin Luther King", ele se apropria, como os "imbecis da direita religiosa", que execra, de arma milenar - a Bíblia. Trechos do "Levítico" surgem em "Blind Date" como a pontuar a temporalidade de regras há muito caducas enquanto toda uma porção de "Another Evening" nasce de uma das imagens mais poderosas do "Gênese": o grande dilúvio. "No Velho Testamento, Deus oferece uma aliança a Noé e anuncia que a água não vencerá novamente. Mas o desastre sempre retorna, na tsunami, com o Katrina. E a promessa jamais é cumprida. Fui encontrar então nos textos budistas um Deus que se aplica mais ao nosso tempo de incertezas, um Deus que não quer nos garantir que não haverá mais dor, que os desastres todos se dissiparão."



Em "Another Evening", os dançarinos se movimentam de modo quase frenético, como em um transe guiado por Jones, narrador da aventura que iremos testemunhar. Seus passos sugerem sons que não podemos ouvir em um primeiro momento, mas que parecem sorrateiramente gravados em algum canto de nossa memória. É aqui que o coreógrafo revela de maneira mais explícita seu legado pós-moderno, com a singularidade das frases coreográficas executadas pelos bailarinos, aparentemente desconexas, mas em busca de uma harmonia utópica, que ainda há de imperar.

Parte da crítica americana nunca se entendeu bem com o que acredita ser uma certa queda por gestos literais de Jones - como o punho cerrado do fim de "Blind Date", referência direta aos Pantera Negras, que, 40 anos atrás, introduziram os americanos numa explosiva comunhão de maoísmo e nacionalismo negro. Jones não dá o braço a torcer, e lembra que o pulo do gato é saber o momento correto de recorrer ao movimento menos sofisticado, mas de reconhecimento imediato por uma gama maior de pessoas.

Quando soube que viria ao país pela terceira vez, Jones buscou por desastres naturais que tocassem a platéia de forma mais direta. Descobriu que nossas terras de fato têm mais flores, que não sofremos com terremotos ou tufões, mas encontrou paralelos em desgraças outras, que também nos levam, ao fim do dia, a clamar por um Deus teimosamente surdo. "O cerne de 'Another Evening' é a batalha da vida. Meu exército são os dançarinos. Minhas armas são meus pensamentos, a beleza, o suor, o som, as palavras. Mas quem é o inimigo? Como explicar quem é o responsável para uma criança brasileira que vê os presos em São Paulo comandarem, de dentro das cadeias, massacres contra a população indefesa? O responsável, o inimigo, é a intolerância, a ignorância." Depois do fim da turnê, ele passará dois dias trabalhando com os jovens dançarinos da Cia. Étnica de Dança, oriundos da periferia carioca.

Um de seus maiores assombros ao revisitar a realidade brasileira foi a discussão em torno das ações de política afirmativa do governo Lula. "Meu Deus! Nos anos 60, os negros americanos fantasiavam o Brasil como o paraíso da miscigenação. Acho ótimo, no entanto, que o país esteja enfrentando sua realidade racial. Sou um resultado direto da política de cotas para negros na educação. Sem ela, jamais teria ido à universidade nem seria quem eu sou." Foi na Universidade de Nova York que Jones travou contato com a dança moderna e conheceu seu parceiro Arnie Zane, coreógrafo e dançarino que morreu em 1988, em decorrência de complicações por conta da aids.

Jones, que também contraiu o vírus do HIV, ousou criar, em 1994, uma performance a partir de um workshop com doentes terminais. Ao levá-los para o palco por meio de imagens gravadas, Jones teve seu "Still/Here" rotulado de "victim art" pela revista "New Yorker", que o acusou de não se apresentar como artista, e sim como um mártir. Em "Another Evening", ele torna a nos lembrar da mais humana das condições - a mortalidade - com depoimentos emocionados das vítimas do furacão Katrina.

No último quarto de século, Bill T. Jones se acostumou a encontrar nas páginas da imprensa o adjetivo transgressor precedendo seu nome. "É claro que eu quero falar da beleza. Mas é possível um artista sério vivendo nos dias de hoje se dizer apolítico? Não! Minha política está na minha face, basta olhar para mim." O coreógrafo não se cansa de buscar compreender o multifacetado, injusto, apocalíptico mundo em que vivemos. Tampouco titubeia em dividir suas descobertas com os que se dispõem assistir suas maquinações. Ao público brasileiro resta a menor - mas não menos prazerosa - das tarefas: o privilégio de conferir esta doída travessura por ele batizada, com singeleza, de "Another Evening".

quinta-feira, agosto 17, 2006

Diretinho da Redação (49)


O texto da semana, sobre quem, de fato, perdeu a guerra entre Israel e Líbano, já está no DR.

A CONSCIÊNCIA ANGUSTIADA DE ISRAEL

Primeiro foi o Hezbolá. Depois Bush, escoltado por Condoleezza e Rumsfield. Nessa semana todos se declararam vencedores da guerra entre Israel e os libaneses. Cacoete de repórter, quase sempre me interessam mais os discursos dos derrotados. Ontem, durante o funeral de seu filho Uri, sargento de 22 anos morto em serviço no sul do Líbano, o escritor israelense David Grossman, em emocionado discurso, disse que ‘nossa família, nós, perdemos esta guerra. Israel fará agora um exame de consciência. E nós nos dobraremos na dor, envolvidos pelo imenso amor que recebemos de tantas pessoas que em sua maioria não conhecemos’.

O choque de proporções nacionais gerado pela morte de Uri é compreensível. Desde menino ele era uma figura próxima dos israelenses. Sempre acompanhava o pai, David, a mãe, Michal, e o irmão, Yonatan, nos muitos protestos contra a ocupação da Palestina. A Santíssima Trindade da literatura contemporânea de Israel – Grossman, Amos Oz e A.B.Yehoshua – tem militado como poucos intelectuais de nossos tempos na causa da devolução dos territórios ocupados. Também vem insistindo em sonhar a utopia da convivência harmônica entre todos os semitas – judeus e árabes - em uma sociedade laica e plural. “Vento Amarelo”, de Grossman, narrado na Cisjordânia, é considerado pelos críticos ‘a maior denúncia, por um sionista, do expansionismo israelense jamais escrita”. É também um livro belíssimo de se ler.

Na quinta-feira passada os ‘três grandes’ publicaram nos jornais israelenses uma carta em que pediam um imediato cessar-fogo no sul do Líbano. Em uma entrevista coletiva realizada em Tel-Aviv, a poucos metros do Ministério da Defesa, os escritores disseram que “Israel iniciou uma guerra por motivos justos, mas a decisão de aumentar as proporções desta invasão é um equívoco. Israel cruzou o Rio Litani duas vezes. Não precisamos passar para a outra margem uma vez mais. Precisamos lembrar que o Líbano não é nosso Vietnã. Ele é nosso vizinho, com quem teremos de conviver para sempre, não destruí-lo”. Os intelectuais foram imediatamente atacados pelo aparente paradoxo de se defender a necessidade de proteção do estado judeu ao mesmo tempo em que se condenava sua compulsão belicosa. E então veio a notícia da morte do filho de Grossman.

David tinha 30 anos quando Uri nasceu. Detinha o posto de coronel do exército, mas sempre detestara as guerras. Havia publicado apenas dois livros, mas já era uma voz importante na denúncia dos massacres cometidos em nome da segurança israelense em Beirute, neste mesmo Líbano, então ocupado, terra em que seu filho tombaria, no dia anterior ao armistício, dentro de um tanque Merkava, atingido por um míssil de fabricação russa lançado por guerrilheiros do Hezbolá.

Consumido pela dor, cercado de amigos e familiares no Cemitério do Monte Herzel, em Jerusalém, onde descansam nomes caros ao sionismo, como Golda Meir, Yitzhak Rabin e o próprio Herzel, Grossman nos fala da necessidade de os israelenses refletirem sobre seus atos. Ele os pede um exame de consciência. Durante anos a fio, o escritor foi apresentado a seus milhares de leitores fora do Oriente Médio como a ‘consciência angustiada de Israel’. Epíteto que não poderia ser mais exato em tempos tão infelizes.

quarta-feira, agosto 16, 2006

Momento Blog: Cold Spring-NY



Acabei me enrolando no começo desta semana e só estou postando agora estas imagens tiradas no domingo. Cold Spring, à beira do Hudson River, uma delícia de cidadezinha, pouco mais de uma hora de Nova Iorque. O crédito das fotos é de William Morrisey.

sexta-feira, agosto 11, 2006

Não À Guerra

Os maiores diários da Alemanha saíram hoje com um manifesto de intelectuais pedindo o fim imediato da guerra entre Israel e o Hezbolá. A carta é assinada por gente graúda como o filósofo iraniano Bijan Abdolkarimi, o reverendo Francis Gignac, aqui da Universidade Católica de Washington, e o professor Hannah Hever, da Universidade Hebraica de Jerusalém. Os diferenciais deste abaixo-assinado são a participação maciça de intelectuais árabes e israelenses e a tentativa de não se apontar um único culpado pelas agressões. O texto, traduzido abaixo aqui pelo blogueiro, é um bem-vindo ataque ao fundamentalismo religioso, em todas as suas matizes.


Não À Guerra!


Nós, judeus e muçulmanos, artistas e acadêmicos, cidadãos do mundo, deploramos a violência, a militarização e o derramamento de sangue inocente que ocorre hoje no Oriente Médio. Nós não aceitamos que nossas respectivas e ricas tradições culturais e religiosas sejam utilizadas de forma degradante em um conflito militar de longa escala, determinado por interesses geopolíticos e econômicos, em que estereótipos arcaicos do que seria o bem e o mal são cinicamente tatuados, respectivamente, nas civilizações do ocidente e do oriente.

Aqueles que se dão ao trabalho de analisar nossa História descobrirão que muçulmanos, judeus e cristãos convivem há séculos no Oriente Médio. Na iminência de uma catástrofe, apelamos para o fim imediato das hostilidades e pela continuação de um intercâmbio respeitoso e frutífero. Nós, abaixo-assinados, consideramos a radical polarização entre a chamada civilização ocidental e o mundo islâmico como uma perversão de suas respectivas tradições.

Prof. Bijan Abdolkarimi, Philosoph, Azad University, Teheran; Prof. Dr. Nasr Abu Zayd, Ibn-Rushd-Lehrstuhl für Humanismus und Islam, University of Utrecht; Sultan Acikgueloglu, Student der Islamwissenschaft, Berlin; Amir Hossein Afrassiabi, Dichter und Architekt, Rotterdam; Adonis, poète areligieux, Paris; Dr. Katajun Amirpur, Islamwissenschaftlerin Universität Bonn, Köln; Prof. Mahmoud Ayoub, Religion Department, Temple University, Philadelphia; Shelley Berlowitz, Historikerin, Zürich; Prof. Dr. Almut Sh. Bruckstein, Philosophin, Berlin; Prof. Daniel Boyarin, Taubman-Lehrstuhl für Talmudische Kultur, Universität Berkeley; Hady Chapardar, Kunstkritiker und Satiriker, Teheran; Sidney Corbett, Komponist, Berlin; Mojdeh Daghighi, Journalist und Übersetzer, Teheran; Sigrun Drapatz, Künstlerin, Berlin; Saeid Edalatnejad, Stiftung Encyclopaedia Islamica, Abt. für Recht und Theologie, Teheran; Daniela Fariba Vorburger, Politologin, Zürich; Nasser Ghiasi, Schriftsteller und Übersetzer, Heidelberg; Rev. Prof. Francis T. Gignac, Catholic University of America, Washington; Asst. Prof. Shai Ginsburg, Duke University, Durham/USA; Prof. Nilufer Gole, Soziologin, Ecole des Hautes Etudes, Paris; Prof. Galit Hasan-Rokem, Professur für Jüdische Studien der Hebrew University, Dichterin, Jerusalem; Dipl. Ing. Helmut Henseler, Deutsch-Jordanische Gesellschaft, Buxheim; Prof. Hannan Hever, Hebräische Literatur, Hebrew University Jerusalem; Dr. Carola Hilfrich, Franz Rosenzweig Institut, Jerusalem; Silvia Horsch, Arabistin und Germanistin, Berlin; Ass. Prof. Qadri Ismail, Literary Studies, University of Minnesota; Prof. Yasemin Karakasoglu, Lehrstuhl für Interkulturelle Pädagogik, Universität Bremen; Dr. Navid Kermani, Schriftsteller und Orientalist, Köln; Dr. Menachem Klein, Politische Wissenschaften, Bar Ilan University, Ramat Gan/Israel; Adalbert Kuhn, Bildungsreferent, Esslingen; Abdellah Lahrmaid, Sozialwissenschaftler, Rabat/Marokko; Prof. Luis Landa, Ben Gurion University, Beer Sheva; Ishay Landa, Historiker, Braunschweig; Tali Latowicki, Literaturwissenschaftler, Tel-Aviv; Prof. em. Alexander A. Di Lella, Bibelwissenschaften, Catholic University of America, Washington; Brigitte Meyer, Musikerin, St.Gallen/Schweiz; Dr. Ziba Mir-Hosseini, London Middle East Institute, University of London; Flora Mahdavi, Institute for the Study of Muslim Civilisations, The Aga Khan University (International), London; Dr. Mohammad M. Mojahedi, Politikwissenschaftler, Mofid University, Qom/Iran; Prof. Ivan Nagel, Schriftsteller, Berlin; Prof. Susan Neiman, Philosophin, Direktorin des Einstein Forums, Potsdam; Cem Özdemir, MdEP, Berlin/Brüssel; Dr. Hassan Rezaei, Jurist, Max Planck Institut für ausländisches und internationals Strafrecht, Freiburg; Meredith Reid Sarkees, Politikwissenschaftlerin, Crystal Lake/USA; Shreen Saroor, Friedensforscherin, Mannar Women Development Forum, Mannar/Sri Lanka, Dr Malek Sharif, Historiker, Wissenschaftskolleg zu Berlin und Orient-Institut Istanbul; Prof. Christoph Schmidt, Philosoph, Hebrew University Jerusalem; Dr. Yossef Schwartz, Tel Aviv University; Dr. Mohamad Nur Kholis Setiawan, State Islamic University, Yogyakarta/Indonesien; Hilal Sezgin, Autorin, Frankfurt/Main; Rashid Shaz, Verleger, New Dehli; Farzaneh Taheri, Verleger und Übersetzer, Teheran; Prof. Richard Tapper, School of Oriental and African Studies, University of London; Prof. Abdulkader Tayob, University of Cape Town; Jochi Weil-Goldstein, medico international schweiz, Zürich; Dr. med. Samuel Wiener-Barraud, Stäfa/Schweiz; Clare Wilde, Research Associate, Georgetown University, Washington; Prof. Ebtehal Younes, University of Cairo

Não À Guerra

Os maiores diários da Alemanha saíram hoje com um manifesto de intelectuais pedindo o fim imediato da guerra entre Israel e o Hezbolá. A carta é assinada por gente graúda como o filósofo iraniano Bijan Abdolkarimi, o reverendo Francis Gignac, aqui da Universidade Católica de Washington, e o professor Hannah Hever, da Universidade Hebraica de Jerusalém. Os diferenciais deste abaixo-assinado são a participação maciça de intelectuais árabes e israelenses e a tentativa de não se apontar um único culpado pelas agressões. O texto, traduzido abaixo aqui pelo blogueiro, é um bem-vindo ataque ao fundamentalismo religioso, em todas as suas matizes.


Não À Guerra!


Nós, judeus e muçulmanos, artistas e acadêmicos, cidadãos do mundo, deploramos a violência, a militarização e o derramamento de sangue inocente que ocorre hoje no Oriente Médio. Nós não aceitamos que nossas respectivas e ricas tradições culturais e religiosas sejam utilizadas de forma degradante em um conflito militar de longa escala, determinado por interesses geopolíticos e econômicos, em que estereótipos arcaicos do que seria o bem e o mal são cinicamente tatuados, respectivamente, nas civilizações do ocidente e do oriente.

Aqueles que se dão ao trabalho de analisar nossa História descobrirão que muçulmanos, judeus e cristãos convivem há séculos no Oriente Médio. Na iminência de uma catástrofe, apelamos para o fim imediato das hostilidades e pela continuação de um intercâmbio respeitoso e frutífero. Nós, abaixo-assinados, consideramos a radical polarização entre a chamada civilização ocidental e o mundo islâmico como uma perversão de suas respectivas tradições.

Prof. Bijan Abdolkarimi, Philosoph, Azad University, Teheran; Prof. Dr. Nasr Abu Zayd, Ibn-Rushd-Lehrstuhl für Humanismus und Islam, University of Utrecht; Sultan Acikgueloglu, Student der Islamwissenschaft, Berlin; Amir Hossein Afrassiabi, Dichter und Architekt, Rotterdam; Adonis, poète areligieux, Paris; Dr. Katajun Amirpur, Islamwissenschaftlerin Universität Bonn, Köln; Prof. Mahmoud Ayoub, Religion Department, Temple University, Philadelphia; Shelley Berlowitz, Historikerin, Zürich; Prof. Dr. Almut Sh. Bruckstein, Philosophin, Berlin; Prof. Daniel Boyarin, Taubman-Lehrstuhl für Talmudische Kultur, Universität Berkeley; Hady Chapardar, Kunstkritiker und Satiriker, Teheran; Sidney Corbett, Komponist, Berlin; Mojdeh Daghighi, Journalist und Übersetzer, Teheran; Sigrun Drapatz, Künstlerin, Berlin; Saeid Edalatnejad, Stiftung Encyclopaedia Islamica, Abt. für Recht und Theologie, Teheran; Daniela Fariba Vorburger, Politologin, Zürich; Nasser Ghiasi, Schriftsteller und Übersetzer, Heidelberg; Rev. Prof. Francis T. Gignac, Catholic University of America, Washington; Asst. Prof. Shai Ginsburg, Duke University, Durham/USA; Prof. Nilufer Gole, Soziologin, Ecole des Hautes Etudes, Paris; Prof. Galit Hasan-Rokem, Professur für Jüdische Studien der Hebrew University, Dichterin, Jerusalem; Dipl. Ing. Helmut Henseler, Deutsch-Jordanische Gesellschaft, Buxheim; Prof. Hannan Hever, Hebräische Literatur, Hebrew University Jerusalem; Dr. Carola Hilfrich, Franz Rosenzweig Institut, Jerusalem; Silvia Horsch, Arabistin und Germanistin, Berlin; Ass. Prof. Qadri Ismail, Literary Studies, University of Minnesota; Prof. Yasemin Karakasoglu, Lehrstuhl für Interkulturelle Pädagogik, Universität Bremen; Dr. Navid Kermani, Schriftsteller und Orientalist, Köln; Dr. Menachem Klein, Politische Wissenschaften, Bar Ilan University, Ramat Gan/Israel; Adalbert Kuhn, Bildungsreferent, Esslingen; Abdellah Lahrmaid, Sozialwissenschaftler, Rabat/Marokko; Prof. Luis Landa, Ben Gurion University, Beer Sheva; Ishay Landa, Historiker, Braunschweig; Tali Latowicki, Literaturwissenschaftler, Tel-Aviv; Prof. em. Alexander A. Di Lella, Bibelwissenschaften, Catholic University of America, Washington; Brigitte Meyer, Musikerin, St.Gallen/Schweiz; Dr. Ziba Mir-Hosseini, London Middle East Institute, University of London; Flora Mahdavi, Institute for the Study of Muslim Civilisations, The Aga Khan University (International), London; Dr. Mohammad M. Mojahedi, Politikwissenschaftler, Mofid University, Qom/Iran; Prof. Ivan Nagel, Schriftsteller, Berlin; Prof. Susan Neiman, Philosophin, Direktorin des Einstein Forums, Potsdam; Cem Özdemir, MdEP, Berlin/Brüssel; Dr. Hassan Rezaei, Jurist, Max Planck Institut für ausländisches und internationals Strafrecht, Freiburg; Meredith Reid Sarkees, Politikwissenschaftlerin, Crystal Lake/USA; Shreen Saroor, Friedensforscherin, Mannar Women Development Forum, Mannar/Sri Lanka, Dr Malek Sharif, Historiker, Wissenschaftskolleg zu Berlin und Orient-Institut Istanbul; Prof. Christoph Schmidt, Philosoph, Hebrew University Jerusalem; Dr. Yossef Schwartz, Tel Aviv University; Dr. Mohamad Nur Kholis Setiawan, State Islamic University, Yogyakarta/Indonesien; Hilal Sezgin, Autorin, Frankfurt/Main; Rashid Shaz, Verleger, New Dehli; Farzaneh Taheri, Verleger und Übersetzer, Teheran; Prof. Richard Tapper, School of Oriental and African Studies, University of London; Prof. Abdulkader Tayob, University of Cape Town; Jochi Weil-Goldstein, medico international schweiz, Zürich; Dr. med. Samuel Wiener-Barraud, Stäfa/Schweiz; Clare Wilde, Research Associate, Georgetown University, Washington; Prof. Ebtehal Younes, University of Cairo

quinta-feira, agosto 10, 2006

Ultra-Nacionalismo Ianque, de novo

Hoje foi um dia nervoso em Nova Iorque. O medo voltou a tomar conta da cidade, mas houve quem tirasse proveito desta que vem sendo trombeteada pela mídia como “a maior ameaça terrorista à cidade desde o setembro de 2001”. Se eu acreditasse em astrologia diria que uma conjunção raríssima está ajudando Washington e os republicanos neste momento. Não poderia haver notícia melhor para os neocons do que o desbaratamento do plano de explodir aviões que vinham de Londres para o lado de cá do Atlântico.

Logo pela manhã George W.Bush apareceu na televisão desafiador, bradando contra o ‘fascismo islâmico’ e afirmando que o plano dos terroristas não deu certo por conta da ‘colaboração entre Londres e Washington’, tirando uma casquinha do MI-6. Não por acaso, ontem, o vice-presidente Dick Cheney disse que os Democratas, ao mandarem para casa o senador Joe Lieberman, que perdeu a legenda para a reeleição ao senado por Connecticut, agiram em ‘benefício dos terroristas’, já que Joe, que é judeu, tem sido um ‘fiel aliado desta administração na guerra contra o terror’.

Bush e Cheney já perceberam que há neste momento um ressurgimento do ultra-nacionalismo americano que dominou o país em 2001. Os sinais estão em todos os cantos. Estão no filme “Torres Gêmeas”, de Oliver Stone, que estreou ontem, uma ode aos valores da América Profunda, que transforma o ataque da Al-Qaeda em uma espécie de teste de fé, de obstáculo necessário para que a bondade intrínseca do norte-americano brotasse mais uma vez com toda sua pujança. Há a guerra no Líbano, vista como o enfrentamento entre os ‘neo-fascistas’ e Israel. Em um forte artigo no Chicago Tribune desta semana um dos principais nomes da Broadway e de Hollywood, David Mamet, diz que é ‘anti-semita’ qualquer crítica às ações das forças armadas israelenses contra o Hezbolá. E mete o cacete na imprensa e nos setores mais liberais do Partido Democrata. Desgastado pelo fracasso da ocupação do Iraque, patinando nas pesquisas de opinião, o governo Bush e os republicanos estavam, até hoje, se preparando para uma pesada derrota nas eleições de novembro. O cenário mudou. Agora, para quem torce por uma mudança de ares no Congresso, resta torcer para que esta conjunção astral passe logo.

terça-feira, agosto 08, 2006

Boa Notícia Do Dia

O jornalista Josias de Souza anuncia que o senador Jorge Konder Bornhausen (SC), 68, decidiu abandonar a política e a presidência do PFL. Durante a ditadura, Bornhausen foi vice-governador e governador de Santa Catarina, indicado pelos militares. Desde 1982 é senador pelo PDS, de Santa Catarina. Mudou-se de mala e cuia para o PFL, que ajudou a fundar, em 1984. Em sua despedida da vida pública (que incluiu passagens como ministro dos governos Sarney, na pasta da Educação, e Collor, na articulação política) ele diz que 'é hora de renovação' e que vai participar do conselho de 'duas ou três empresas privadas'. Bornhausen é banqueiro e dono de faculdades em seu estado natal. Em uma de suas mais recentes tiradas se referiu ao PT como 'uma raça que deve ser extinta por 30 anos'. Já vai tarde.

Velvet, Velvet, Velvet


O ótimo site nova-iorquino Gothamist oferece aqui um impressionante clipe com imagens raras de um ensaio do Velvet Underground na mítica Factory de Andy Warhol, que ocupava todo um quarteirão nas ruas 32 e 33, entre as avenidas Madison e Park. São 11 minutos de Lou Reed, John Cale, Sterling Morrison, Maureen Tucker, Nico e...o pequeno Ari, filho da loira, curtindo o som, a seus pés.

As imagens do clipe são parte de mais de uma hora de gravação feita em janeiro de 1966 e que terminou com a polícia chegando para acabar com a festa. Um vizinho havia ligado e reclamado da barulheira. O Gothamist lembra que, da Factory, restou uma marca digital de Warhol, em uma parede onde se pode ler: "Eu nunca quis ser um pintor. Eu sempre quis ser um dançarino de sapateado".

Velvet, Velvet, Velvet.

sexta-feira, agosto 04, 2006

ELIAS KHOURY/Artigo


O escritor libanês Elias Khoury, 58 anos, romancista de mancheia e editor do suplemento cultural do jornal Al-Nahar, escreveu um belo artigo na London Review of Books que chega hoje às bancas. Lá ele diz:

Os israelenses dizem que não querem ocupar o Líbano. Esta é a mesma coisa que os norte-americanos falam sobre o Iraque. Não se trata, no entanto, do que eles intencionam fazer, mas do que eles, de fato, estão fazendo. Será que Israel pode tolerar o caos religioso e étnico nas suas fronteiras? Se está de fato prestando um serviço aos EUA ao tentar enfraquecer o Hezbolá, o mais forte aliado do Irã na região? O que é claro, por detrás do bombardeio incecssante nas ruas de Beirute, é que Israel, ao perceber que é incapaz de destruir o Hezbolá, decidiu acabar com todo o Líbano.

O artigo completo, infelizmente apenas em inglês pode ser lido aqui.

CRIME DE GUERRA - Carta dos Intelectuais (Londres)

O Guardian de ontem publicou a seguinte carta assinada pelos intelectuais Tariq Ali, Noam Chomsky, Eduardo Galeano, Howard Zinn, Ken Loach, John Berger e Arundhati Roy:

O ataque israelense ao Líbano, com apoio norte-americano, deixou o país entorpecido, em chamas e com mais ódio. O massacre de Qana e a perda das vidas é não apenas uma 'reação desproporcional'. É, de acordo com as legislação internacional, um crime de guerra.

A sistemática e deliberada destruição da infraestrutura básica do Líbano pela força aérea israelense também é um crime de guerra, desenhada para reduzir o país à posição de um protetorado israelense e/ou norte-americano. Mas o tiro saiu pela culatra. No Líbano, 87% da população agora apóia a resistência do Hezbolá, inlcuindo 80% dos Cristãos e Drusos e 89% dos Muçulmanos Sunitas. Apenas 8% da população acredita que os EUA dão apoio ao Líbano.

No entanto, estas ações criminosas não serão levadas a nenhuma corte internacional, já que os EUA e seus aliados que cometem tais crimes ou compactuam com a carnificina não deixarão que isso aconteça. Agora está mais do que claro que o ataque ao Líbano para esfacelar o Hezbolá foi preparado com grande antecedência. Os crimes de Israel não receberam condenação alguma dos EUA e de seus leais aliados britânicos, apesar da crescente oposição a Tony Blair em seu próprio país.

A paz que o Líbano desfrutou até pouco tempo chegou ao fim, e um país paralisado está sendo obrigado a olhar para o passado que espreava poder esquecer. O estado de terror forçado em que vive o Líbano hoje está sendo implantado também no gueto de Gaza, enquanto a 'comunidade internacional' observa a tudo em impávido silêncio. Enquanto isso, o restante da Palestina é anexado e desmantelado, com participação direta dos EUA e a aprovação tácita de seus aliados.

Nós oferecemos aqui nossa solidariedade e apoio às vítimas desta brutalidade e a todos aqueles que decidiram resistir. De nossa parte, vamos utilizar todos os meios para denunciar a cumplicidade de nossos governos com estes crimes. Não existirá paz no Oriente Médio enquanto as ocupações da Palestina e do Iraque e o bombardeio do Líbano continuarem.



Tariq Ali, Noam Chomsky, Eduardo Galeano, Howard Zinn, Ken Loach, John Berger & Arundhati Roy.