É verão e NY é uma festa, com shows e mais shows ao ar livre, de grátis. Em julho tem Belle & Sebastian no Battery Park no dia 4, Okkervil River - a fav - no Castle Clinton (tb no Battery Park) dia 13 e o animadíssimo Siren Festival, com a nata da cena independente local em Coney Island no dia 15, e muito, muito mais...Haja fôlego!
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sexta-feira, junho 09, 2006
PERFIL/GAY TALESE

O perfil que escrevi de Gay Talese, um dos maiores repórteres norte-americanos, foi publicado hoje, na capa do caderno Eu&Fim de Semana, do jornal Valor Econômico.
Valor Econômico > EU&Fim de semana > Cultura
ESCRITOR DE REPORTAGENS
Por Eduardo Graça
09/06/2006
Terno cinza impecável, gravata amarela, lenço vermelho cuidadosamente jogado para a esquerda, sapato marrom italiano artesanal. Gay Talese, 74 anos, encara o público de uma das maiores livrarias de Manhattan com um sorriso maroto. E logo avisa: "Não vou ler um trecho de meu livro mais recente. Acho que já não preciso mais provar a vocês que sou um bom escritor, não é?". Pronto. A platéia está em suas mãos, exatamente como as centenas de entrevistados que, desde a década de 1950, se transformaram em personagens na vasta obra daquele que o escritor Tom Wolfe considera o "verdadeiro pai do novo jornalismo". Utilizando técnicas de ficção sem fugir "um milímetro" da realidade, Talese se tornou uma das lendas da imprensa americana e, depois de 14 anos e muita pressão da editora, finalmente lançou sua aguardada biografia, "A Writer´s Life" (A vida de um escritor), que será lançada no Brasil pela Companhia das Letras, ainda sem data prevista.
O livro recebeu uma crítica azeda de "The New York Times", jornal em que Talese trabalhou como repórter entre 1956 e 1965. "Sabe que quando escrevi a história de 'The New York Times' a resenha foi terrível? Liguei para meu advogado, desesperado, e disse: 'Meu caro, o Times destruiu meu livro. É o fim'. Eu esperava, claro, que ele me consolasse, mas ele concordou: 'E o fim mesmo, senhor Talese'. Só que o livro foi um campeão de vendas e aprendi uma lição: não dou a mínima para o que eles dizem."
"O Reino e o Poder - Uma História do New York Times" (Companhia das Letras), lançado em 1969, é hoje considerado um clássico da literatura de não-ficção. Um impressionante relato do fazer jornalístico, seus protagonistas não são apenas as gerações da família Ochs Sulzberger, que se alternaram no comando do jornal, mas seus redatores, fotógrafos, gráficos, motoristas e leitores.
"A verdade é que eu nunca quis trabalhar em jornal. No fim dos anos 1950, o 'New York Times' era um jornal desimportante e chatérrimo. E eu queria escrever sobre pessoas que não eram notícia, mas que para mim eram obviamente importantes, especialmente do ponto-de-vista da cidade." Logo Talese estaria nas principais livrarias com duas obras singulares - "Fama e Anonimato", lançado em 1961 (Companhia Das Letras) e "The Bridges" (As pontes), escrito em 1964. O livro conta os bastidores da construção, entre 1959 e 1964, da ponte Verrazano-Narrows, que liga Long Island a Staten Island e causou a remoção de sete mil moradores de Bay Ridge, bairro operário do Brooklyn, em Nova York.
"Para concluir o livro, cheguei a viajar ao Canadá para entrevistar parentes dos trabalhadores. Também passei horas a fio conversando com o engenheiro Othmar Hermann Ammann, um suíço de 85 anos que vivia no 35º andar do hotel Carlyle e que tinha por passatempo favorito olhar pelo telescópio, um a um, todos os edifícios e monumentos que havia erguido na cidade. Curiosamente, ele morreu um ano depois de a ponte ser erguida."
Talese revela que sempre pensou em seus entrevistados como personagens de um conto, "ou, melhor, de uma peça teatral". Repórter incansável, dedicado, que nunca se deixa vencer pelas dificuldades da pauta, o escritor se prova em "A Writer´s Life" um senhor estilista - não por acaso, recebeu a alcunha de "poeta do mundano", pela capacidade de transformar assuntos e criaturas aparentemente desimportantes em seres notáveis. O livro chegou às livrarias depois de um ultimato de sua editora, a Knopf, que lhe havia adiantado, na primeira metade dos anos 1980, US$ 7 milhões por três livros de memórias. Este é o segundo tomo - e para concluí-lo Talese teve de recorrer a histórias esquecidas em seu bloco de anotações. Algumas mais conhecidas do público, como o drama de Lorena Bobbitt, a tal que mutilou o marido infiel. Outras ainda mais pitorescas, como a da maldição de um endereço na rua 63, no Upper East Side, que abrigou uma série de restaurantes fadados ao fracasso.
A história dos Bobbitt - recusada pela revista "The New Yorker", então sob o comando da britânica Tina Brown - se transforma em uma parábola triste do chamado "white trash" americano. "Fugi da piada que foi contada incansavelmente pelos tablóides. Queria contar a história da classe média-baixa anglo-saxônica deste país, marcada por casamentos que não deram certo, pela total falta de perspectiva de ascensão social e por um inegável culto à ignorância."
"Nos Bobbitt encontrei meus personagens ideais, e eles eram de carne e osso." O resultado é um desafio tardio às feministas, que, na visão de Talese, conseguiram transformar o fuzileiro naval em vilão nacional e fazer com que Lorena jamais cumprisse pena por atacar o marido. "E, quanto aos restaurantes, não é sensacional que agora funciona um japonês kosher lá na rua 63? Esta, para mim, acaba sendo a história dos que já se deram conta de que as cozinhas dos restaurantes de Nova York são a Ellis Island dos imigrantes de nossos tempos."
Talese respira por um segundo, degusta a seco a satisfação de finalmente ver duas de suas histórias mais trabalhosas chegarem ao alcance dos leitores, passeia rapidamente o dedo pela ponta do nariz aquilino e lembra, em voz alta, que não mudou tanto assim desde que ocupou pela primeira vez um lugar na redação de "The New York Times". O repórter segue movido pela mesma curiosidade que, aos 11 anos, o levava a passar a tarde na loja de roupas de sua mãe, interessado menos na moda e mais nas histórias que as pessoas contavam. Especialmente, nos detalhes aparentemente aborrecidos de suas vidas comuns. "Já naquela época, inconscientemente, acho, desenvolvi esta característica insuportável de não aceitar um 'não' como resposta. Mas, por favor, investigo sem ser agressivo e me orgulho muito de, em meio século de trabalho, nunca ter escrito algo que alguém dissesse ser falso ou mesmo ter ficado magoado. Posso me encontrar sem medo com os meus entrevistados, por que jamais exagerei ou inventei, nem confundi o que é real com as possibilidades da ficção."
Em uma de suas últimas aparições públicas, o jornalista discordou publicamente de sua mulher, editora da polêmica autobiografia "Million Little Pieces", de James Frey, recheada de inverdades. Nan Talese não vê problemas em um memorialista mesclar a fantasia com a realidade. Gay Talese foi taxativo: "Uma obra de não-ficção não toma, de modo algum, liberdade com os fatos". Ao mesmo tempo, exatamente como na cerzidura dos melhores documentários cinematográficos, ensina Talese, uma boa reportagem nasce do acaso e da sede do descobrimento. Um bom repórter, lembra, sabe que a história, às vezes, não está no lugar aparentemente mais óbvio. Foi assim com um de seus mais famosos perfis, o do Frank Sinatra doente, amedrontado com a possibilidade da perda da voz, escrito para a "Esquire" em 1966. Considerado por muitos o raio-x mais fiel do cantor, ele foi construído sem que Talese se encontrasse uma única vez com a figura mais importante da música popular americana do século XX.
"Simplesmente, não precisava falar com ele. Isso todo mundo já havia feito. A história estava no cara que guardava o carro dele, no que cuidava da bagunça de seus direitos autorais, em sua secretária, nos músicos que o acompanhavam, no sujeito que carregava seus instrumentos favoritos."
A Perseverança Como Tema

O que Talese percebeu ao escrever "A Writer´s Life" foi que, ele também - o escritor preocupado em não se repetir - alternou personagens misteriosos para deparar-se com uma mesma temática: a perseverança. Talese é obcecado pelos que não desistem. Não pelos teimosos inconseqüentes, mas pelos que subjugam a gripe para voltar ao palco, os que teimam em reescrever a notícia do jornal que irá para o lixo na manhã seguinte, os que dão a vida por uma ponte que vai encurtar caminhos de milhares ou ainda nos que abrem mais um restaurante na rua 63 na certeza de que, desta vez, o sonho será realizado. "Talvez minha perseverança, a do escritor, seja o desejo de que me leiam como se eu escrevesse ficção. Embora tudo seja de uma verdade absoluta. O que faço é real, real, real."
"Talvez a minha perseverança seja o desejo de que me leiam como se eu escrevesse ficção - embora tudo seja verdade absoluta"
A ênfase não é mais um charme de Talese. Ele não se esquece da frustração que provocou, nos anos 1970, quando anunciou aos quatro cantos que iria escarafunchar a vida sexual dos americanos. Seu "A Mulher do Próximo" (Companhia das Letras), lançado em 1982, era um livro sério, uma seqüência deliciosa de perfis dos mais interessantes "pecadores" das terras de Tio Sam, incluindo Hugh Heffner, Larry Flynt e as primeiras coelhinhas da "Playboy". "Mas a imprensa deu um enorme destaque ao meu método de trabalho, que parecia exótico. Por exemplo, quando passei dois meses no campo de nudismo de Sandstone, na Califórnia. Resultado: o livro foi um sucesso imenso, fiquei rico, embolsei US$ 2,5 milhões e muita gente, eu sei, ficou decepcionada com o resultado final, que não tinha nada de apimentado." Mas o escritor que foi coroinha da igreja de sua comunidade em Nova Jersey coça as mãos em júbilo ao revelar que "A Mulher do Próximo" será reeditado este ano, em uma série dedicada aos "grandes clássicos do jornalismo americano".
Talese não é mesmo o Henry Miller do jornalismo ou o Edmund White do universo heterossexual. Mas seus modelos não são tão mais convencionais. "Sabe quem me inspirou? Acima de todos, claro, Scott Fitzgerald. Mas também autores tidos como menores, como John O'Hara e John Cheever. E, claro, todos os escritores da 'New Yorker', que batiam ponto nas páginas de ficção da revista."
Mesmo um observador distraído contrapõe sem dificuldades a escrita objetiva de Talese à retória quase barroca - vá lá, ao menos flamboyanesca - de um Wolfe ou de um Hunter Thompson, dois de seus mais notórios companheiros de "novo jornalismo". Talvez suas grandes reportagens se aproximem mais dos perfis de Truman Capote. "Adorava lê-lo, mas estou falando da ficção dele. Aliás, vamos deixar isso bem claro: só leio ficção. Agora, é engraçado, hoje, por causa do filme, as pessoas vivem me perguntando como ele era, e me apontam na rua dizendo: 'Aquele é o Talese, ele conheceu o Capote'. Ledo engano. Ninguém de fato, conheceu Capote, uma das figuras mais misteriosas e reservadas com quem já me deparei."
Ser apontado na rua, no caso de Talese, é figura de linguagem. Não é tarefa das mais banais desvendar os anseios do eremita mais elegante de Manhattan, quase sempre protegido pela guarida da metodologia talesiana. Há anos o escritor transformou o porão de sua casa, no Upper East Side, em um escritório carpetado, sem janelas, com paredes à prova de som e sem vestígio algum do mais prosaico avanço tecnológico. Lá ele trabalha diariamente, das 8h30 às 13h, no mais completo isolamento. "Escrevo, escrevo, escrevo, sempre com meus lápis a tiracolo. Não uso e-mail, não recebo telefonemas. Depois de um leve almoço, vou para a academia e só aí leio os jornais, rapidamente, fazendo bicicleta. Depois, volto para casa e tento trabalhar mais duas horas. Quando minha mulher vem do trabalho, peço para ela ler em voz alta o que escrevi e presto atenção no que ela está achando. E aí saímos para jantar. A rotina é esta."
Tempo, Tempo, Tempo
Uma das mais interessantes facetas de Talese é justamente sua relação com o tempo. Meticuloso ao extremo, ele escreve e reescreve seus parágrafos quantas vezes achar necessário, para fúria dos editores mais celebrados do país. "Não trabalho com prazos de fechamento, nem em jornais, nem em revistas, nem nos livros. Estou sempre, no mínimo, quatro meses atrasado." Bem ao seu ritmo, passou seis anos 'perseguindo' uma das principais famílias de contraventores da Costa Leste para contar sua história da máfia americana. "Vamos ser sinceros? Escrevi os 'Soprano' com duas décadas de antecedência, não é não?", pergunta, senhor absoluto da resposta que chega em um meio-sorriso.
"Honor Thy Father" conta a história de Bill Bonnano, filho do poderoso chefão Joe Bonnano, a partir de suas intrincadas relações familiares. Talese acompanhou de perto o que restava da máfia, chegou a morar com Bill e seus capangas, mas seus olhos e ouvidos estavam voltados para a maneira como mulheres e crianças eram afetadas pelos negócios nada legais dos provedores de suas casas. "Essa história de que o jornalista não pode se envolver com os entrevistados é uma tremenda falácia. Sabe que prometi à terceira geração dos Bonnano que, se eles não se envolvessem com o crime, eu bancaria seus cursos universitários? Pois todos os quatro se formaram, um até virou médico, o doutor Bonnano. E eu sempre me encontro com eles. Ano passado, aliás, me reuni com alguns dos trabalhadores da Verrazano-Narrows. Entendo o meu ofício desta maneira: sou aquele que escreve sobre pessoas de quem gosta ou, para ser mais exato, sobre as pessoas de quem quero gostar."
Quando anunciou em casa que iria escrever uma radiografia da máfia nova-iorquina, Talese se deparou com a oposição ferrenha dos pais - Catherine DePaolo e, especialmente, seu Joseph Talese, um alfaiate italiano que imigrou para Nova Jersey nos anos 1920. "Papai ficou indignado. E me perguntava: 'Se vai escrever sobre os italianos, por que não investiga a vida de Puccini, de Verdi, de Toscanini?'"
"Ele fazia parte de uma geração marcada por sobrenomes como Capone ou DiMaggio. Os italianos, neste país, ou eram gângsteres ou esportistas. Ele ficava envergonhado. Eu lhe disse que não iria conversar com os capos me apresentando como um repórter de polícia, mas algo assim como um jornalista-sociólogo."
O jornalismo sociológico de Talese pode ser resumido, ele diz, por uma devoção sem limites à sua santa mais querida: a paciência. "Sempre me armo de muita paciência. E nunca digo a ninguém que sou Gay Talese e que gostaria de fazer uma entrevista. Eu quero é passar um tempo com eles, ver como se divertem. Também deixo claro que acredito que aquela pessoa, aparentemente mais uma na multidão, tem algo de absolutamente extraordinário. Algo que precisa ser dividido com a sociedade."
Foi, de certo modo, seguindo a sugestão de seu Joseph que Talese chegou, em 1981, a Lee Iacocca. "Achei que ele daria uma bela reportagem, o executivo que havia sido demitido da Ford e reerguera a Chrsyler com seus carros econômicos. Ele seria minha desculpa para contar a história da imigração italiana nos EUA. Cheguei a conversar com o pessoal do marketing, entrevistei um monte de gente especializada em propaganda de tevê para carros, mas desisti quando vi que jamais conseguiria chegar mais perto de Iacocca. Claro, Iacocca acabou escrevendo o livro com a ajuda de um colaborador, e foi um grande best-seller. Mas aquele, certamente, não era o meu livro."
Anos mais tarde, Talese acabou atendendo ao apelo de seu Joseph de uma maneira inusitada: debruçou-se sobre a história de seus pais. "Unto the Sons" (1993) foi uma grande volta ao passado, o ponto de partida de sua trilogia que ganha agora um segundo olhar com "A Writer´s Life". Para contar a história dos Talese, ele viveu por quase um ano em Roma e em uma bucólica vila na Calábria. "Descobri que não sabia nada sobre eles. Aliás, mudei-me para lá sem falar uma palavra de italiano, mas deu tudo certo e consegui informações sobre minha família até no século XIV." Essa intersecção entre história e narrativa ganha novo fôlego em "A Writer´s Life". "O que eu realmente quis fazer aqui foi contar a história do escritor que conheço mais intimamente, eu mesmo. E também acho que pode ser uma ferramenta para futuros jornalistas, para eles verem como trabalho minhas idéias e as transformo em histórias."
Uma das partes mais interessantes do livro é a que trata da relação de Talese com o Sul dos EUA. Foi no Alabama que o jornalista se graduou, em 1953, "porque não consegui ser aceito em nenhuma outra faculdade". Para lá ele voltou a fim de cobrir o Domingo Sangrento de Selma, em 7 de março de 1965, uma data mítica da luta pelos direitos civis dos negros americanos. Nesse dia, a polícia do governador segregacionista George Wallace investiu contra 500 manifestantes na ponte localizada na saída da cidade, que os levaria à capital do estado, Montgomery. "Anos depois, reli os jornais e percebi que aquela história ou era sempre contada a partir do ponto de vista do reverendo Martin Luther King ou da Ku Klux Klan. Decidi que iria revisitar Selma, só que pela ótica do homem comum. Para isso, retornei lá nos anos 1970, 80 e 90. Queria saber o que havia acontecido com aquelas pessoas depois do fato consumado. Minha questão era uma só: o que acontece quando os jornalistas vão embora?".
Pistas podem ser finalmente encontradas em "A Writer´s Life", definido por Talese como "meu único livro em que não há, de fato, uma história". A grande reportagem sobre Selma permanece inédita, mas cenas como a do jovem Talese chegando de trem no Alabama, "esta terra estrangeira", são quitutes saborosos oferecidos no novo livro, um balanço fiel de meio século de excelente jornalismo.
Os olhos de Talese piscam mais rápido quando ele fala de sua labuta. O ritmo da fala também muda, ganha em velocidade e perde em inflexão. O dedo indicador passeia pela boca, sem apontar um caminho, uma saída. Mas quem ousaria negar-lhe ouvidos? "Um bom repórter vive de pesquisa, muita pesquisa. Depois vem a parte mais complicada, que é organizar a informação amealhada. É como se fosse a coreografia de um balé. Claro, há a exigência do uso correto da linguagem. Agora, sabe quando você tem certeza de que determinado sujeito escreve bem? Quando ele tem a capacidade de sugerir sem cair na vulgaridade. De denunciar sem ser rude. De revelar facetas até constrangedoras de determinada pessoa sem denegrir sua imagem. Além disso, acho que, no meu caso, me ajudou muito saber quem sou e o que faço, ter um senso de honra e integridade de que me orgulho, mas, principalmente, o cultivo diário do que eu chamaria de senso de responsabilidade." Palavra de quem compara o ato de escrever ao momento em que se expele uma pedra nos rins. E de quem acaba de entregar aos leitores "A Writer´s Life", um livro sobre a busca desesperada, sofrida e quase sempre aliviadora, da história do dia.
Diretinho da Redação (44)

A Coluna da Semana, que já está no DR, é sobre uma nova tática para se enfrentar a violência urbana que vem recebendo muitos aplausos aqui nos EUA.http://www.blogger.com/img/gl.link.gif
DELINQÜÊNCIA JUVENIL
Aqui em Nova Iorque falou-se muito esta semana de MST e de violência. Mas aqui MST é a sigla em inglês para a terapia multi-sistêmica, uma técnica utilizada por um programa de combate à delinqüência juvenil que vem recebendo aplausos em um país assombrado pelo crescimento das gangues e a aparente impotência do Estado em lidar com adolescentes problemáticos. O principal motivo do fuzuê: a MST rejeita veementemente reformatórios ou centros de correção e inverte a lógica da punição – o jovem deve ser acompanhado, sempre, em seu território. E as famílias nunca devem ser quebradas.
O programa anti-violência desenvolvido pelo psiquiatra e psicólogo Scott Henggeler começou a ser testado em 1992, no estado de Ohio, e parte do princípio de que todas as causas de ‘comportamento anti-social’ devem ser atacadas ao mesmo tempo. Henggeler bebe da Ecologia Social e trata não apenas do indivíduo, mas de seu ecossistema - composto por família, vizinhança, escola, o grupo de amigos e sua relação com a comunidade. Modificar este ecossistema – e não afastar a criança do que a cerca – é sua meta.
Para tanto, a MST faz uso de profissionais de várias especialidades e se imiscui nos labirintos dos problemas legais, no consumo, produção e tráfico de drogas e no nível de excelência escolar. Cada terapeuta cuida de, no máximo, seis famílias ao mesmo tempo. As visitas são diárias e o contato permanente. Trata-se de um esforço intensivo, muitas vezes incômodo e invasivo (de acordo com o relato das famílias envolvidas no projeto), mas com resultados surpreendentes. A MST centra fogo na separação dos jovens atendidos das ‘más-companhias’ e no acompanhamento minucioso dos responsáveis – pais, tios, padrinhos –, que assumem o compromisso de manterem a ação terapêutica depois do fim da assistência dada pelos psicólogos. Parte do programa consiste justamente no treinamento dos adultos e na tentativa de dar poder às comunidades, incentivando a criação de programas independentes de desenvolvimento e incremento do ecossistema, que vão desde mutirões até aulas de educação artística.
Não se trata de um programa barato, é claro. As ações duram em média cinco meses, e cada caso custa cerca de US$ 7,5 mil (ou R$ 19 mil) aos cofres públicos. Mesmo assim, trata-se de uma economia fascinante quando se pensa que o custo de cada jovem norte-americano institucionalizado, para o Estado, é, hoje, de US$ 50 mil, ou cerca de R$ 125 mil, por ano. E, exatamente como no Brasil, o índice de infratores que reincidem em crimes contra a sociedade é altíssimo, com o retorno do investimento beirando o nulo.
Mas a MST poderia ser uma história de sucesso em outras paragens, como no Brasil? Talvez. Comandante da divisão de Justiça Criminal da Universidade de Cincinnati, Ohio, o especialista Edward Latessa tem suas dúvidas. Em um texto sobre o programa publicado na revista dominical do The New York Times ele lembra que a iniciativa depende muito d capacitação de profissionais extremamente comprometidos com o sucesso da terapia – obviamente, a resistência a uma atuação intensiva, que altera toda a rotina da família, é significativa. Mas pelo menos no meio-oeste americano, a MST é uma das poucas histórias de sucesso na luta pela recuperação dos menores infratores.
quinta-feira, junho 08, 2006
Aqui do meu ladinho...
Da série vivendo sob terror: o prédio onde ficam as sucursais do New York Times e do Daily News aqui perto de casa, ao lado da Ponte do Brooklyn, a meio caminho da minha academia, acaba de ser evacuado. Ameaça de bomba. Os jornalistas trabalham todos do lado de fora pois a cidade, afinal, não pode parar. E viva Nova Iorque!
quarta-feira, junho 07, 2006
Cajuína, Caetano & Torquato
Há um texto belíssimo de Caetano Veloso, contando como compôs Cajuína, obra-prima presente no lindo Cinema Transcendental (79), no blog do Jorge B.Moreno. O baiano conta que criou a música no Piauí depois um impactante encontro com o pai de Torquato Neto, que se matara sete anos atrás. Vale a leitura, aqui.
sábado, junho 03, 2006
Carta Capital/ O IMPÉRIO DA FÉ
Reportagem do blogueiro aqui, publicada na revista Carta Capital, edição de 17 de Maio:
CARTA CAPITAL/ESPECIAL
O IMPÉRIO DA FÉ
Em plenos “anos rebeldes”, Kevin Phillips profetizou a restauração da ordem conservadora nos Estados Unidos. Hoje, ele denuncia o declínio da grande democracia americana sob o poder da nova direita cristã
Eduardo Graça, de Nova Iorque, para a Carta Capital
Em setembro de 1969 um advogado de 28 anos conhecido apenas por ser o acólito mais querido do então todo-poderoso John Mitchell, comandante do Departamento de Justiça do governo Richard Nixon, deu as caras nas livrarias do país com The Emerging Republican Majority. No livro ele profetizava, a partir de uma sucinta análise do crescimento demográfico e das modificações na economia dos Estados Unidos, a consolidação de uma maioria conservadora que inevitavelmente dominaria o espectro político do país. Pois o mesmo Kevin Phillips, 64, não por acaso acaba de lançar American Theocracy, seu décimo-terceiro livro, em que denuncia, a partir do título, a transformação gradual da grande democracia do norte em um Estado refém de uma inédita aliança entre as grandes corporações e uma poderosa direita cristã.
Na virada dos anos sessenta, Phillips foi considerado um provocador ao prever que a migração de força de trabalho e de recursos do industrializado norte rumo aos subúrbios do sul e ao oeste do país iria se traduzir em uma nova e mais sólida maioria republicana, restauradora da ordem perdida nos anos rebeldes. A profecia se cumpriu, mas a História, garante o escritor, foi caprichosa. Em American Theocracy ele mostra como o discurso da retidão moral se traduziu - enquanto Washington passava pelas mãos de Ford, Reagan, Bush pai e Bush filho – em fundamentalismo religioso, extremismo ideológico, irresponsabilidade fiscal, culto à ganância desenfreada (leia-se Enron e outros escândalos envolvendo grandes corporações) e a um constragedor caipirismo anti-iluminista.
Conhecido no Brasil pelo que talvez seja seu livro mais fraco, A Dinastia Americana, em que conta com detalhes a história da família Bush, Phillips diz que a coalizão conservadora e o governo Bush deixam um legado desastroso para os norte-americanos, resumidos em três grandes pragas: a dependência do petróleo (batizado de ‘petro-imperialismo ianque’), um déficit econômico recorde na história do país e, especialmente, a intromissão violenta de um cristianismo radical e conservador em todos os níveis do governo Bush.
De fato, mais de dois séculos depois de a separação entre a igreja e o estado firmar-se como um dos pilares da democracia americana, a direita religiosa divide com a ala mais conservadora do Partido Republicano a convicção de que está fadada a transformar os EUA no Reino de Deus na Terra. Para tanto, conta com um combustível precioso: o desejo de milhares de norte-americanos de ascenderem socialmente e abraçarem uma vida com mais sentido e espiritualidade, como canta o cada vez mais afinado coro dos evangélicos, cerca de 75 milhões de praticantes adultos em todo país.

Em 2004, o governo federal aplicou US$ 2 bilhões em programas sociais dirigidos por entidades religiosas, em sua esmagadora maioria afinadas com o ideário conservador. Nunca a Casa Branca destinou tanto dinheiro do contribuinte para promover grupos religiosos. O presidente, no entanto, considerou a marca – 10% de todo o investimento social do governo – insuficiente. Com índices de popularidade abaixo dos 45%, Bush tende a se fiar na parcela da sociedade que o apóia com mais fervor. De acordo com o sociólogo José Casanova, da New School University, de Nova Iorque, há uma tendência entre os evangélicos em todo o mundo de votar em candidatos conservadores: “Eles não se vêem como pobres, mas como cidadãos em ascensão social, com a providencial ajuda de Deus. Estão sempre alinhados com as forças pró-mercado e não acreditam em um Estado interventor”.
Os conservadores cristãos jamais foram tão fortes em Washington. Um de seus expoentes é o senador Tom Coburn, de Oklahoma, defensor da pena de morte para médicos que pratiquem o aborto. Richard Shelby, do Alabama, é o defensor do Ato de Restauração da Constituição, um adendo à carta magna que oferece aos juízes a opção de aplicarem sentenças bíblicas no lugar das leis civis. E o que dizer de Richard Baker, da Louisiana? O deputado foi flagrado quando confessava a lobistas que a destruição de Nova Orleans pelo furacão Katrina ‘finalmente nos livrou do problema da habitação popular na cidade, jogando tudo terra abaixo. Algo que nós não poderíamos fazer, mas que Deus realizou”. Nada menos que 491 dos 535 membros do Congresso se dizem cristãos praticantes.
No fim de 2005, a rede ABC produziu um especial sobre o tema e levou suas câmeras para o interior dos mega-templos espalhados por todo o país. Líder da Nova Vida, que conta com mais de 11 mil fiéis em Colorado Springs, no Colorado, o pastor Ted Haggard, 49, presidente da Associação Nacional dos Evangélicos (ENA), disse que seus sermões lembram sim um comício eleitoral: “A diferença é que nossa plataforma são as Escrituras”. O voto evangélico tem sido uma peça-chave no sucesso dos republicanos, que já controlam os poderes Executivo e Legislativo. A neo-cristã Karen Monroe, da Nova Vida, contou que foi ‘maravilhoso’ quando ouviu Bush, um metodista, falando pela primeira vez sobre sua fé. “Não leio jornais nem tenho tempo para ver as notícias na televisão, mas pelo menos eu sei que o presidente governa pelas leis de Deus. E o admiro por isso”, contou.
Nas eleições de 2004, 3,5 milhões de evangélicos foram às urnas pela primeira vez. E mais de 67% deles votaram em Bush. O sociólogo Tony Carnes, da Columbia University, especializado em religião, conta que “há um senso de conexão pessoal com Bush, o presidente que fala confortavelmente de sua fé”. Sentado no popular Vibe Cafe, no Brooklyn, ele afirma que a revolução evangélica não está restrita apenas aos estados mais conservadores: “Vivemos aqui uma guerra cultural, com os evangélicos de um lado bem claro da trincheira. E cada vez mais unidos”.
O ataque ao World Trade Center, em 2001, acelerou o processo. “Uma semana depois de as torres desabarem, líderes de 300 comunidades se reuniram na American Bible Society. Desde então, esses encontros acontecem todos os meses”, diz Carnes. Definir o que é um ‘evangélico’ é tarefa difícil. Para o sociólogo, eles são cidadãos que valorizam a doutrina cristã e acreditam na autoridade da Sagrada Escritura e na importância da conversão individual. Um censo realizado pela Universidade de Delaware em 2000 estima em 2 milhões o exército de crentes nova-iorquinos.
Um dos diretores do Research Institute for New Americans, Carnes é evangélico e freqüenta a Redeemer Presbyterian Church, em Manhattan. Nos últimos anos, ele conversou com os mais importantes líderes religiosos da cidade para finalizar seu livro To Change New York, uma ambiciosa história da aventura evangélica em Gotham City, batizada nos meios acadêmicos de ‘urbanismo glorioso’. Este leva em conta o desgaste das políticas sociais implantadas pelos liberais na década de 30 do século passado. O mais alto nível de educação, garantido pelo New Deal do governo Roosevelt, teria, ironicamente, levado os mais pobres, gerações seguintes, a renegar a chamada ‘mentalidade assistencialista’. “Os programas públicos se mostraram incompatíveis com a realidade de cidadãos conscientes de que a dignidade só é alcançada quando se consegue ganhar o sustento sem depender de alguém de fora de sua comunidade”, resume Carnes.
Esta busca pelo reconhecimento social é explicitada em casos como o do imigrante hondurenho que Carnes encontrou recentemente em uma igreja evangélica voltada para a comunidade negra. Depois de ‘descobrir o poder de Deus’, voltar para a família e deixar o álcool de lado, ele foi escolhido diácono da paróquia de seu bairro. “Houve ali uma ascensão social que nem a escola nem a Igreja Católica parecem oferecer mais”, diz.
Os católicos amargaram nos últimos anos sua pior crise. Abalada por escândalos sexuais, a Igreja acaba de fechar 22 escolas na cidade por falta de alunos e outras sete em Newark, centro da comunidade brasileira em Nova Jérsei. Uma das maiores migrações de fiéis que engrossam o coro evangélico está justamente na população oriunda de países da América Latina. Só a Radio Visión Cristiana AM, uma das líderes no filão em língua espanhola, conta com 200 mil ouvintes diários na Grande Nova Iorque.
Na comunidade religiosa mais vibrante da cidade, a presença de imigrantes sul-americanos é grande. Localizado nos cafundós do Brooklyn, e comandado pelo reverendo A. R. Bernard, 53 anos, o Christian Cultural Center (CCC) reúne 24 mil fiéis todos os fins de semana. Antes de se tornar evangélico, Bernard, filho de uma negra panamenha com um descendente de espanhol, fazia parte da maior congregação muçulmana do país. Respeitado por Al Sharpton e Jesse Jackson, ele passa longe do ideário mais liberal que caracterizou seus predecessores. Em seus sermões não trata de mudanças radicais nem de injustiças sociais, mas da importância de se seguir a Bíblia com fervor e de jamais se corromper.
Sua igreja – um centro cultural de fato, com lanchonete, biblioteca, estúdio de gravação e jardim– não é apenas a maior da cidade, mas a que cresce mais rapidamente em número de fiéis. Originalmente, o CCC se chamaria Life Center, mas Bernard quer que os novos líderes evangélicos se reconheçam como ‘transformadores culturais’. De acordo com um censo conduzido pelo CCC e pela Columbia, existem hoje 7.100 igrejas evangélicas na cidade. A religião, aqui, une extremos. Negros e hispânicos, tradicionalmente em luta por um mercado de trabalho estagnado, marcharam juntos nas últimas eleições presidenciais em torno de um ponto comum: a oposição ao ‘casamento gay’. Em julho, a Bronx Hispanic Christians organizou a maior manifestação contra o movimento homossexual da história da cidade, reunindo mais de 8 mil pessoas, com grande apoio da comunidade negra. Não deixa de ser irônico pensar que negros como o reverendo Bernard tiveram de enfrentar há apenas quatro décadas a discriminação de segregacionistas e da direita mais raivosa.
Do outro lado do púlpito, os liberais contam com um profeta solitário, o pastor evangélico Jim Wallis, editor da revista mensal Sojourners e autor do campeão de vendas A Política de Deus. Guru da senadora Hillary Clinton, ele diz que o Democrata precisa deixar de ser o ‘partido do secularismo’ se quiser vencer as próximas eleições. “Quando Deus vira propriedade de um partido ou mesmo de um país, estamos politizando a fé. Ou seja, professando má religião”, diz. Wallis ressuscitou a imagem do candidato com a Bíblia em uma mão e a Constituição em outra, na melhor tradição de lideres históricos como Martin Luther King. Por isso mesmo não causou espécie quando, nas eleições de 2005, o democrata Timothy Kaine iniciou sua campanha para governador da Virginia em um programa de rádio evangélico. Sua propaganda batia na tecla de que ele abandonou a faculdade de Direito para se juntar a uma missão evangelizadora em Honduras. Seu marqueteiro, David Eichenbaum, foi direto: “Todo o falatório sobre como a fé cristã estará presente em sua administração teve o claro objetivo de mostrar que ele não é um liberal típico”. Kaine venceu o adversário republicano com boa margem.
Mas a tática de aproximação não é consensual entre os democratas. Em um inflamado artigo no The New York Times o professor Mark Lilla, da Universidade de Chicago, escreveu que nunca é demais lembrar que os próceres do iluminismo almejavam que o cristianismo deixasse para trás a realidade baseada na fé e evoluísse para uma fé baseada na realidade. Como vê a sociedade americana caminhando para a direção oposta, Lilla puxou a orelha dos democratas interessados em cortejar o eleitor evangélico: “A crença em conversões miraculosas e pessoais, a ignorância dos princípios mais básicos de Ciência e História, a demonização da cultura popular, a censura de textos escolares, todos estes fatos são muito mais importantes do que a perda de algumas cadeiras no Congresso Nacional”.
Tony Carnes pondera que a relação entre religião e política não é exatamente uma novidade na história americana. Afinal, diz, o maior organizador da Igreja Batista nos EUA foi John D.Rockfeller, que planejava a criação de um templo batista em cada canto do país. Curiosamente, a mais poderosa das igrejas evangélicas atualmente é a Convenção dos Batistas do Sul, com cerca de 16 milhões de fiéis. Para eles, deve-se seguir uma ‘interpretação literal da Bíblia’ e acreditar que as mulheres devem se submeter aos homens, no que Kevin Phillips denomina, em American Theocracy, de ‘prática taliban’. “Um governo teocrático, a partir da doutrina cristã”, escreve. Mais grave: Phillips diz que boa parte dos fundamentalistas cristãos encastelados no governo Bush acreditam, de fato, que a crença religiosa deve mesmo ser a base da política externa do país, não apenas discurso para agradar os eleitores protestantes.
Os batistas mostraram recentemente sua força ao boicotar os produtos da Disney (por sua política de não-discriminação a homossexuais). Mas, sinal dos tempos, a ‘major’ buscou o financiamento do bilionário evangélico Philip Anschutz para seu principal lançamento de inverno, as Crônicas de Nárnia. O filme foi exibido em mais de 500 igrejas transformadas em salas de exibição na mesma sexta-feira em que o O Segredo de Brokeback Mountain, era vítima de piquetes e protestos dos conservadores.
Por isso mesmo Alan Brinkley, professor de história da Columbia, considera American Theocracy um livro ainda mais iluminado do que The Emergin Republican Majority. ‘Esta talvez seja a mais alarmante análise do momento histórico em que vivemos. Phillips criou um retrato tenebroso do presente deste país que nenhum cidadão pode ignorar’, escreveu, na segunda quinzena de março, na capa do suplemento de livros do The New York Times. Tony Carnes concorda que a transformação de pastores em lobistas e de fiéis em rebanho eleitoral permeia as duas faces da ‘revolução evangélica norte-americana’: um desejo sincero de retirar o pobre de sua condição miserável, atestando a falha das políticas públicas de combate à miséria, mas também um crescente registro de corrupção e alienação, com uma prática mais oposta impossível à vida de Jesus Cristo. Um panorama não tão diverso assim da realidade brasileira. “Multifacetados, porém mais unidos do que nunca, os evangélicos estão mudando para sempre a política norte-americana”, diz Carnes. Só não crê quem não quer.
CURTIS FREEMAN/ entrevista

O teólogo Curtis Freeman, autor de dois importantes livros sobre a religiosidade dos americanos – Ties that Bind e Baptist Roots –, está terminando de escrever Other Meanings, em que examina o ressurgimento da faceta mística do cristianismo. Freeman, que não tem filiação partidaria, conversou com a Carta Capital de seu escritório na Duke University, na Carolina do Norte.
-A Constituição americana foi pioneira ao estabelecer um governo secular, independente de qualquer grupo religioso. Mas causa celeuma em certos círculos as íntimas relações estabelecidas pelo governo Bush com grupos cristãos conservadores. Como o senhor vê o panorama atual?
-Quando nasceu, os Estados Unidos viviam a realidade da colônia, com igrejas, por assim dizer, estatais, como as que existiam na Baía de Massachusetts e as da Virgínia. A Constituição, que simplesmente não fala em Deus, declara, em seu primeiro artigo, que o Congresso não pode transformar nenhuma religião em ‘oficial’. Apesar disso, no sul, um protestantismo de caráter evangélico manteve-se extra-oficialmente como uma espécie de religião do Estado. A mudança vem com uma onda pluralista que está afetando profundamente a sociedade americana. É preciso encarar este ‘renascimento evangélico’ como a reação desses grupos mais à direita, que querem manter seu status a qualquer custo. Posso até fazer uma analogia com a Igreja Católica brasileira, que vem tentando se adaptar ao crescimento dos evangélicos e não quer perder sua proeminência.Uma das críticas à direita religiosa é a de que sua aliança com os conglomerados capitalistas não faz sentido filosófico ou religioso. Alguns liberais falam com ironia de uma inédita combinação de ‘ativismo evangelizador com as mais poderosas corporações do país’. O que acontece é que eles ainda acreditam no mito de que a América foi fundada por pessoas que buscavam liberdade religiosa. Mas não foi bem assim. Os colonos queriam ser livres para louvar Deus da maneira que bem entendessem mas, principalmente, pretendiam forçar todos os outros a aceitar a verdade deles. Por isso mesmo os fundadores dos EUA rejeitaram claramente esta visão teocrática das relações entre a religião e o poder público.
- Mas quem é, afinal, esta direita religiosa?
- Ironicamente, são igrejas que servem como mera extensão das políticas da sociedade secular. Elas encontram os versos da Bíblia que mais se adaptam às suas plataformas e os utilizam como armas poderosas. O que eles pregam é o fim da liberdade religiosa em um estado democrático, como a conhecemos. Eles querem implantar uma teocracia pela força da lei.
- O senhor acredita que a esquerda deveria ter uma relação mais confortável com os cristãos, maioria do eleitorado?
- Muitos cristãos acham que a direita atua mal na esfera política e criticam a maneira como os republicanos tratam da pobreza, com as guerras e com a negação da justiça social. Mas, para esses mesmos cristãos, se a direita faz errado, a esquerda sequer faz. Os Democratas confundem a separação entre a igreja e o Estado com uma barreira entre Deus e o poder público. Há uma sensação de que a secularização defendida pela esquerda inclui uma ‘ateização’ do americano comum. E a maior parte dos cristãos almeja uma vida social mais religiosa, e, ao mesmo tempo, mais plural, mais diversa.
- Mas isso parece impossível quando os fundamentalistas pregam a interpretação literal da Bíblia...
- Eles dizem que ‘o sentido da Bíblia está nas escrituras, e as escrituras são seu significado maior’. Ora, para se ler a Bíblia com respeito é preciso levar em conta uma análise social, histórica e teológica. E, principalmente, ouvir o que os outros têm a dizer! São esses ‘diferentes’ que nos ajudam a perceber quão fácil é decidir o que é um pecado imperdoável, especialmente quando ele não é o ‘nosso pecado’. (Eduardo Graça)
CARTA CAPITAL/ESPECIAL
O IMPÉRIO DA FÉ
Em plenos “anos rebeldes”, Kevin Phillips profetizou a restauração da ordem conservadora nos Estados Unidos. Hoje, ele denuncia o declínio da grande democracia americana sob o poder da nova direita cristã
Eduardo Graça, de Nova Iorque, para a Carta Capital
Em setembro de 1969 um advogado de 28 anos conhecido apenas por ser o acólito mais querido do então todo-poderoso John Mitchell, comandante do Departamento de Justiça do governo Richard Nixon, deu as caras nas livrarias do país com The Emerging Republican Majority. No livro ele profetizava, a partir de uma sucinta análise do crescimento demográfico e das modificações na economia dos Estados Unidos, a consolidação de uma maioria conservadora que inevitavelmente dominaria o espectro político do país. Pois o mesmo Kevin Phillips, 64, não por acaso acaba de lançar American Theocracy, seu décimo-terceiro livro, em que denuncia, a partir do título, a transformação gradual da grande democracia do norte em um Estado refém de uma inédita aliança entre as grandes corporações e uma poderosa direita cristã.
Na virada dos anos sessenta, Phillips foi considerado um provocador ao prever que a migração de força de trabalho e de recursos do industrializado norte rumo aos subúrbios do sul e ao oeste do país iria se traduzir em uma nova e mais sólida maioria republicana, restauradora da ordem perdida nos anos rebeldes. A profecia se cumpriu, mas a História, garante o escritor, foi caprichosa. Em American Theocracy ele mostra como o discurso da retidão moral se traduziu - enquanto Washington passava pelas mãos de Ford, Reagan, Bush pai e Bush filho – em fundamentalismo religioso, extremismo ideológico, irresponsabilidade fiscal, culto à ganância desenfreada (leia-se Enron e outros escândalos envolvendo grandes corporações) e a um constragedor caipirismo anti-iluminista.
Conhecido no Brasil pelo que talvez seja seu livro mais fraco, A Dinastia Americana, em que conta com detalhes a história da família Bush, Phillips diz que a coalizão conservadora e o governo Bush deixam um legado desastroso para os norte-americanos, resumidos em três grandes pragas: a dependência do petróleo (batizado de ‘petro-imperialismo ianque’), um déficit econômico recorde na história do país e, especialmente, a intromissão violenta de um cristianismo radical e conservador em todos os níveis do governo Bush.
De fato, mais de dois séculos depois de a separação entre a igreja e o estado firmar-se como um dos pilares da democracia americana, a direita religiosa divide com a ala mais conservadora do Partido Republicano a convicção de que está fadada a transformar os EUA no Reino de Deus na Terra. Para tanto, conta com um combustível precioso: o desejo de milhares de norte-americanos de ascenderem socialmente e abraçarem uma vida com mais sentido e espiritualidade, como canta o cada vez mais afinado coro dos evangélicos, cerca de 75 milhões de praticantes adultos em todo país.

Em 2004, o governo federal aplicou US$ 2 bilhões em programas sociais dirigidos por entidades religiosas, em sua esmagadora maioria afinadas com o ideário conservador. Nunca a Casa Branca destinou tanto dinheiro do contribuinte para promover grupos religiosos. O presidente, no entanto, considerou a marca – 10% de todo o investimento social do governo – insuficiente. Com índices de popularidade abaixo dos 45%, Bush tende a se fiar na parcela da sociedade que o apóia com mais fervor. De acordo com o sociólogo José Casanova, da New School University, de Nova Iorque, há uma tendência entre os evangélicos em todo o mundo de votar em candidatos conservadores: “Eles não se vêem como pobres, mas como cidadãos em ascensão social, com a providencial ajuda de Deus. Estão sempre alinhados com as forças pró-mercado e não acreditam em um Estado interventor”.
Os conservadores cristãos jamais foram tão fortes em Washington. Um de seus expoentes é o senador Tom Coburn, de Oklahoma, defensor da pena de morte para médicos que pratiquem o aborto. Richard Shelby, do Alabama, é o defensor do Ato de Restauração da Constituição, um adendo à carta magna que oferece aos juízes a opção de aplicarem sentenças bíblicas no lugar das leis civis. E o que dizer de Richard Baker, da Louisiana? O deputado foi flagrado quando confessava a lobistas que a destruição de Nova Orleans pelo furacão Katrina ‘finalmente nos livrou do problema da habitação popular na cidade, jogando tudo terra abaixo. Algo que nós não poderíamos fazer, mas que Deus realizou”. Nada menos que 491 dos 535 membros do Congresso se dizem cristãos praticantes.
No fim de 2005, a rede ABC produziu um especial sobre o tema e levou suas câmeras para o interior dos mega-templos espalhados por todo o país. Líder da Nova Vida, que conta com mais de 11 mil fiéis em Colorado Springs, no Colorado, o pastor Ted Haggard, 49, presidente da Associação Nacional dos Evangélicos (ENA), disse que seus sermões lembram sim um comício eleitoral: “A diferença é que nossa plataforma são as Escrituras”. O voto evangélico tem sido uma peça-chave no sucesso dos republicanos, que já controlam os poderes Executivo e Legislativo. A neo-cristã Karen Monroe, da Nova Vida, contou que foi ‘maravilhoso’ quando ouviu Bush, um metodista, falando pela primeira vez sobre sua fé. “Não leio jornais nem tenho tempo para ver as notícias na televisão, mas pelo menos eu sei que o presidente governa pelas leis de Deus. E o admiro por isso”, contou.
Nas eleições de 2004, 3,5 milhões de evangélicos foram às urnas pela primeira vez. E mais de 67% deles votaram em Bush. O sociólogo Tony Carnes, da Columbia University, especializado em religião, conta que “há um senso de conexão pessoal com Bush, o presidente que fala confortavelmente de sua fé”. Sentado no popular Vibe Cafe, no Brooklyn, ele afirma que a revolução evangélica não está restrita apenas aos estados mais conservadores: “Vivemos aqui uma guerra cultural, com os evangélicos de um lado bem claro da trincheira. E cada vez mais unidos”.
O ataque ao World Trade Center, em 2001, acelerou o processo. “Uma semana depois de as torres desabarem, líderes de 300 comunidades se reuniram na American Bible Society. Desde então, esses encontros acontecem todos os meses”, diz Carnes. Definir o que é um ‘evangélico’ é tarefa difícil. Para o sociólogo, eles são cidadãos que valorizam a doutrina cristã e acreditam na autoridade da Sagrada Escritura e na importância da conversão individual. Um censo realizado pela Universidade de Delaware em 2000 estima em 2 milhões o exército de crentes nova-iorquinos.
Um dos diretores do Research Institute for New Americans, Carnes é evangélico e freqüenta a Redeemer Presbyterian Church, em Manhattan. Nos últimos anos, ele conversou com os mais importantes líderes religiosos da cidade para finalizar seu livro To Change New York, uma ambiciosa história da aventura evangélica em Gotham City, batizada nos meios acadêmicos de ‘urbanismo glorioso’. Este leva em conta o desgaste das políticas sociais implantadas pelos liberais na década de 30 do século passado. O mais alto nível de educação, garantido pelo New Deal do governo Roosevelt, teria, ironicamente, levado os mais pobres, gerações seguintes, a renegar a chamada ‘mentalidade assistencialista’. “Os programas públicos se mostraram incompatíveis com a realidade de cidadãos conscientes de que a dignidade só é alcançada quando se consegue ganhar o sustento sem depender de alguém de fora de sua comunidade”, resume Carnes.
Esta busca pelo reconhecimento social é explicitada em casos como o do imigrante hondurenho que Carnes encontrou recentemente em uma igreja evangélica voltada para a comunidade negra. Depois de ‘descobrir o poder de Deus’, voltar para a família e deixar o álcool de lado, ele foi escolhido diácono da paróquia de seu bairro. “Houve ali uma ascensão social que nem a escola nem a Igreja Católica parecem oferecer mais”, diz.
Os católicos amargaram nos últimos anos sua pior crise. Abalada por escândalos sexuais, a Igreja acaba de fechar 22 escolas na cidade por falta de alunos e outras sete em Newark, centro da comunidade brasileira em Nova Jérsei. Uma das maiores migrações de fiéis que engrossam o coro evangélico está justamente na população oriunda de países da América Latina. Só a Radio Visión Cristiana AM, uma das líderes no filão em língua espanhola, conta com 200 mil ouvintes diários na Grande Nova Iorque.
Na comunidade religiosa mais vibrante da cidade, a presença de imigrantes sul-americanos é grande. Localizado nos cafundós do Brooklyn, e comandado pelo reverendo A. R. Bernard, 53 anos, o Christian Cultural Center (CCC) reúne 24 mil fiéis todos os fins de semana. Antes de se tornar evangélico, Bernard, filho de uma negra panamenha com um descendente de espanhol, fazia parte da maior congregação muçulmana do país. Respeitado por Al Sharpton e Jesse Jackson, ele passa longe do ideário mais liberal que caracterizou seus predecessores. Em seus sermões não trata de mudanças radicais nem de injustiças sociais, mas da importância de se seguir a Bíblia com fervor e de jamais se corromper.
Sua igreja – um centro cultural de fato, com lanchonete, biblioteca, estúdio de gravação e jardim– não é apenas a maior da cidade, mas a que cresce mais rapidamente em número de fiéis. Originalmente, o CCC se chamaria Life Center, mas Bernard quer que os novos líderes evangélicos se reconheçam como ‘transformadores culturais’. De acordo com um censo conduzido pelo CCC e pela Columbia, existem hoje 7.100 igrejas evangélicas na cidade. A religião, aqui, une extremos. Negros e hispânicos, tradicionalmente em luta por um mercado de trabalho estagnado, marcharam juntos nas últimas eleições presidenciais em torno de um ponto comum: a oposição ao ‘casamento gay’. Em julho, a Bronx Hispanic Christians organizou a maior manifestação contra o movimento homossexual da história da cidade, reunindo mais de 8 mil pessoas, com grande apoio da comunidade negra. Não deixa de ser irônico pensar que negros como o reverendo Bernard tiveram de enfrentar há apenas quatro décadas a discriminação de segregacionistas e da direita mais raivosa.
Do outro lado do púlpito, os liberais contam com um profeta solitário, o pastor evangélico Jim Wallis, editor da revista mensal Sojourners e autor do campeão de vendas A Política de Deus. Guru da senadora Hillary Clinton, ele diz que o Democrata precisa deixar de ser o ‘partido do secularismo’ se quiser vencer as próximas eleições. “Quando Deus vira propriedade de um partido ou mesmo de um país, estamos politizando a fé. Ou seja, professando má religião”, diz. Wallis ressuscitou a imagem do candidato com a Bíblia em uma mão e a Constituição em outra, na melhor tradição de lideres históricos como Martin Luther King. Por isso mesmo não causou espécie quando, nas eleições de 2005, o democrata Timothy Kaine iniciou sua campanha para governador da Virginia em um programa de rádio evangélico. Sua propaganda batia na tecla de que ele abandonou a faculdade de Direito para se juntar a uma missão evangelizadora em Honduras. Seu marqueteiro, David Eichenbaum, foi direto: “Todo o falatório sobre como a fé cristã estará presente em sua administração teve o claro objetivo de mostrar que ele não é um liberal típico”. Kaine venceu o adversário republicano com boa margem.
Mas a tática de aproximação não é consensual entre os democratas. Em um inflamado artigo no The New York Times o professor Mark Lilla, da Universidade de Chicago, escreveu que nunca é demais lembrar que os próceres do iluminismo almejavam que o cristianismo deixasse para trás a realidade baseada na fé e evoluísse para uma fé baseada na realidade. Como vê a sociedade americana caminhando para a direção oposta, Lilla puxou a orelha dos democratas interessados em cortejar o eleitor evangélico: “A crença em conversões miraculosas e pessoais, a ignorância dos princípios mais básicos de Ciência e História, a demonização da cultura popular, a censura de textos escolares, todos estes fatos são muito mais importantes do que a perda de algumas cadeiras no Congresso Nacional”.
Tony Carnes pondera que a relação entre religião e política não é exatamente uma novidade na história americana. Afinal, diz, o maior organizador da Igreja Batista nos EUA foi John D.Rockfeller, que planejava a criação de um templo batista em cada canto do país. Curiosamente, a mais poderosa das igrejas evangélicas atualmente é a Convenção dos Batistas do Sul, com cerca de 16 milhões de fiéis. Para eles, deve-se seguir uma ‘interpretação literal da Bíblia’ e acreditar que as mulheres devem se submeter aos homens, no que Kevin Phillips denomina, em American Theocracy, de ‘prática taliban’. “Um governo teocrático, a partir da doutrina cristã”, escreve. Mais grave: Phillips diz que boa parte dos fundamentalistas cristãos encastelados no governo Bush acreditam, de fato, que a crença religiosa deve mesmo ser a base da política externa do país, não apenas discurso para agradar os eleitores protestantes.
Os batistas mostraram recentemente sua força ao boicotar os produtos da Disney (por sua política de não-discriminação a homossexuais). Mas, sinal dos tempos, a ‘major’ buscou o financiamento do bilionário evangélico Philip Anschutz para seu principal lançamento de inverno, as Crônicas de Nárnia. O filme foi exibido em mais de 500 igrejas transformadas em salas de exibição na mesma sexta-feira em que o O Segredo de Brokeback Mountain, era vítima de piquetes e protestos dos conservadores.
Por isso mesmo Alan Brinkley, professor de história da Columbia, considera American Theocracy um livro ainda mais iluminado do que The Emergin Republican Majority. ‘Esta talvez seja a mais alarmante análise do momento histórico em que vivemos. Phillips criou um retrato tenebroso do presente deste país que nenhum cidadão pode ignorar’, escreveu, na segunda quinzena de março, na capa do suplemento de livros do The New York Times. Tony Carnes concorda que a transformação de pastores em lobistas e de fiéis em rebanho eleitoral permeia as duas faces da ‘revolução evangélica norte-americana’: um desejo sincero de retirar o pobre de sua condição miserável, atestando a falha das políticas públicas de combate à miséria, mas também um crescente registro de corrupção e alienação, com uma prática mais oposta impossível à vida de Jesus Cristo. Um panorama não tão diverso assim da realidade brasileira. “Multifacetados, porém mais unidos do que nunca, os evangélicos estão mudando para sempre a política norte-americana”, diz Carnes. Só não crê quem não quer.
CURTIS FREEMAN/ entrevista

O teólogo Curtis Freeman, autor de dois importantes livros sobre a religiosidade dos americanos – Ties that Bind e Baptist Roots –, está terminando de escrever Other Meanings, em que examina o ressurgimento da faceta mística do cristianismo. Freeman, que não tem filiação partidaria, conversou com a Carta Capital de seu escritório na Duke University, na Carolina do Norte.
-A Constituição americana foi pioneira ao estabelecer um governo secular, independente de qualquer grupo religioso. Mas causa celeuma em certos círculos as íntimas relações estabelecidas pelo governo Bush com grupos cristãos conservadores. Como o senhor vê o panorama atual?
-Quando nasceu, os Estados Unidos viviam a realidade da colônia, com igrejas, por assim dizer, estatais, como as que existiam na Baía de Massachusetts e as da Virgínia. A Constituição, que simplesmente não fala em Deus, declara, em seu primeiro artigo, que o Congresso não pode transformar nenhuma religião em ‘oficial’. Apesar disso, no sul, um protestantismo de caráter evangélico manteve-se extra-oficialmente como uma espécie de religião do Estado. A mudança vem com uma onda pluralista que está afetando profundamente a sociedade americana. É preciso encarar este ‘renascimento evangélico’ como a reação desses grupos mais à direita, que querem manter seu status a qualquer custo. Posso até fazer uma analogia com a Igreja Católica brasileira, que vem tentando se adaptar ao crescimento dos evangélicos e não quer perder sua proeminência.Uma das críticas à direita religiosa é a de que sua aliança com os conglomerados capitalistas não faz sentido filosófico ou religioso. Alguns liberais falam com ironia de uma inédita combinação de ‘ativismo evangelizador com as mais poderosas corporações do país’. O que acontece é que eles ainda acreditam no mito de que a América foi fundada por pessoas que buscavam liberdade religiosa. Mas não foi bem assim. Os colonos queriam ser livres para louvar Deus da maneira que bem entendessem mas, principalmente, pretendiam forçar todos os outros a aceitar a verdade deles. Por isso mesmo os fundadores dos EUA rejeitaram claramente esta visão teocrática das relações entre a religião e o poder público.
- Mas quem é, afinal, esta direita religiosa?
- Ironicamente, são igrejas que servem como mera extensão das políticas da sociedade secular. Elas encontram os versos da Bíblia que mais se adaptam às suas plataformas e os utilizam como armas poderosas. O que eles pregam é o fim da liberdade religiosa em um estado democrático, como a conhecemos. Eles querem implantar uma teocracia pela força da lei.
- O senhor acredita que a esquerda deveria ter uma relação mais confortável com os cristãos, maioria do eleitorado?
- Muitos cristãos acham que a direita atua mal na esfera política e criticam a maneira como os republicanos tratam da pobreza, com as guerras e com a negação da justiça social. Mas, para esses mesmos cristãos, se a direita faz errado, a esquerda sequer faz. Os Democratas confundem a separação entre a igreja e o Estado com uma barreira entre Deus e o poder público. Há uma sensação de que a secularização defendida pela esquerda inclui uma ‘ateização’ do americano comum. E a maior parte dos cristãos almeja uma vida social mais religiosa, e, ao mesmo tempo, mais plural, mais diversa.
- Mas isso parece impossível quando os fundamentalistas pregam a interpretação literal da Bíblia...
- Eles dizem que ‘o sentido da Bíblia está nas escrituras, e as escrituras são seu significado maior’. Ora, para se ler a Bíblia com respeito é preciso levar em conta uma análise social, histórica e teológica. E, principalmente, ouvir o que os outros têm a dizer! São esses ‘diferentes’ que nos ajudam a perceber quão fácil é decidir o que é um pecado imperdoável, especialmente quando ele não é o ‘nosso pecado’. (Eduardo Graça)
Diretinho da Redação (44)

A coluna da semana foi sobre a volta das músicas de protesto aqui nos EUA, o velho Arena, o Opinião, Nara Leão, Pete Seeger, Bruce Springsteen e Nova Orleans. Ela já está lá no DR.
WE SHALL OVERCOME
Teatro de Arena, 1964. Nara Leão, voz de menina, na exata metade do espetáculo Opinião, explica para o público: “Paul Seeger é um cantor que percorre os EUA recolhendo canções que o povo canta. São as chamadas canções de protesto. Uma das mais aplaudidas de seu concerto no Carnegie Hall no ano passado foi Guantanamera, de José Martí”.
Não há Guantanamera naquele que já pode ser considerado um dos principais lançamentos da música popular americana este ano. Mas o trovador volta à tona de modo avassalador em We Shall Overcome – The Pete Seeger Sessions, disco que acaba de ser lançado por Bruce Springsteen reunindo coisas tão atuais quanto a faixa-título, originalmente um canto dos pescadores sicilianos do século XVII que se transformou em hino protestante e diz algo como ‘um dia, um dia, nós iremos finalmente viver em paz, de mãos dadas, em paz’.
Com o desastre de Katrina e os absurdos diários da ocupação em Bagdá, alguém tem idéia de como Springsteen foi recebido em sua primeira apresentação, em Nova Orleans, para um público irado, nervoso, emocionado, revoltado? Com os 18 músicos da Seeger Sessions Band, ele atacou de Oh Mary, Don’t You Weep, um folk-gospel de levantar defunto e a cabeça dos que ainda acham que o chororô basta. Em seguida, em marotice que levou muitos ás lágrimas, Springsteen acrescentou alguns versos ao clássico How Can a Poor Man Stand Such Times and Live?, de 1929, cantando que ‘ele falou que estava conosco, passou por aqui e foi embora, nunca mais voltou’. Enquanto ao fundo uma bandeira pedia o ‘impeachment de George Walker Bush’, o compositor dizia, emocionado, que a era da irresponsabilidade criminosa estava chegando ao fim. We Shall Overcome, berrou. We Shall Overcome! respondeu, de mãos dadas, sem pieguice, em uma autenticidade arrepiante, seu público daquela tarde – uma gente comum, negros e brancos, jovens e velhos, em sua grande maioria sobreviventes do descaso público de Nova Orleans.

Com temas escancaradamente de esquerda, We Shall Overcome é um álbum singular, que, graças ao carisma de The Boss, chegou ao primeiro lugar das paradas americanas. Todas as faixas foram gravadas sem ensaio algum, em duas sessões de um dia cada no fim do ano passado, como se fosse um espetáculo. Ouvi-lo com atenção virou dever de casa para americanos de todas as idades.
Seu lançamento no Brasil deve ajudar a encerrar o estigma que Springsteen carrega em terras nossas desde os anos 80. Sua música Born in the USA – um relato amargo do americano comum que perdera o irmão no Vietnã e agora tinha de trabalhar nas refinarias do golfo do México para manter a ‘potência andando’ – se transformou, contra sua vontade, em hino dos conservadores ianques. Springsteen chegou a impedir que ela se tornasse tema da campanha de reeleição de Ronald Reagan, mas o estrago já estava feito.
Agora, sem a E Street Band, ele deixou sua Nova Jérsei de lado para mergulhar em Nova Orleans, nas fazendas esquecidas do oeste da América Profunda, nas fábricas abandonadas de Detroit, nas ruas repletas de mendigos dos guetos de Nova Iorque, na dor dos que seguem excluídos do sonho americano. E cada vez mais ciente de que, como nos ensina Seeger, ativo aos 87 anos e felicíssimo com a homenagem de Springsteen, We Shall Overcome. Nunca uma seqüência de 13 hinos de tão forte cunho social chegou ao alcance de tanta gente na era da globalização, neste oportuno e renovador retorno às canções de protesto. Nara estaria rindo à toa.
Los Angeles - O Verão Chegando...
Trabalho. Uma viagem corrida para Los Angeles a fim de entrevistar o Jack Black. Outra para Vermont por conta da celebração de um aniversário de 95 anos na família e eu acabei deixando de atualizar o blog. É hora de recuperar o tempo perdido.
Primeiro, a Califórnia.

Tem a Primavera, se despedindo, vermelhíssima, nas ruas de Santa Monica.

Tem a obsessão com a forma física, bem carioca, aqui em um túnel sob a areia de Santa Monica.

Tem a praia de Santa Monica, com o píer ao fundo, da janela do hotel.

Tem até neo-zelandeses (que eu pensei que eram brasileiros e fui conversando em português, para divertimento total deles) tocando berimbau em Venice Beach.
Depois conto do Jack Black, que anda dando uma de Didi Mocó e chega logo, logo às telas brasileiras.
Primeiro, a Califórnia.

Tem a Primavera, se despedindo, vermelhíssima, nas ruas de Santa Monica.

Tem a obsessão com a forma física, bem carioca, aqui em um túnel sob a areia de Santa Monica.

Tem a praia de Santa Monica, com o píer ao fundo, da janela do hotel.

Tem até neo-zelandeses (que eu pensei que eram brasileiros e fui conversando em português, para divertimento total deles) tocando berimbau em Venice Beach.
Depois conto do Jack Black, que anda dando uma de Didi Mocó e chega logo, logo às telas brasileiras.
sexta-feira, maio 19, 2006
Diretinho da Redação (43)

É Preciso Confessar
Não, é preciso confessar. Não foram os ataques em seqüência. Nem as mortes, horrendas, brutais, encomendadas. Também não foi o governador-biônico afirmando que ‘tudo está normal’ e enquartelando-se no Palácio Bandeirantes sob a proteção da polícia civil. Não foi a ousadia do advogado de um dos líderes do ataque criminoso aos paulistanos, fazendo exigências para que o fim da anarquia fosse decretado. Não foi sequer a decisão do secretário estadual de Segurança de negociar com os ‘capos’ do crime organizado.
O que de fato me derrubou, no fim desta caótica segunda-feira, foi o silêncio que caiu na noite de São Paulo. Foi a derrota calada da maior cidade do país. Com o nariz grudado na televisão e os ouvidos no rádio que berrava em paulistês, eu aguardava, de longe, a reação. Dos paulistanos. De sua elite violada. Da elite sofisticada que levantou as sobrancelhas quando a policia federal ocupou a Daslu. Da elite orgulhosa que reagiu histérica à ameaça boliviana à soberania nacional, humilhação máxima. Da elite pensante, que comanda o governo do país há 12 anos. Da elite, afinal, pronta para exigir seu direito mais básico, a liberdade de ir e vir.
E os paulistanos, sem esperança, sem a menor noção de propriedade do espaço público, sem liderança alguma, voltaram para casa. Quietos. Seguiram o exemplo do governador que não elegeram. Trancafiaram-se em seus condomínios, checaram os alarmes, mandaram blindar mais carros, deram um extra para os seguranças. E só. A cidade que respondeu de cabeça erguida ao cerco de Vargas nos anos 30, a cidade que reagiu como nenhuma outra, nas igrejas, sinagogas e fábricas, à infâmia da repressão militar, tomou seu calmante em busca de um sonho bom. Cúmplice de governos indigentes, que só agem no âmbito das negociatas, a elite paulistana encontrou-se na cama com sua face mais covarde. As madames de Higienópolis dormiram na Nova Iorque do presente e acordaram na Chicago dos anos 20. Um pesadelo que só vai acabar quando o medo do outro, do excluído, do pobre, do nordestino, enfim, do brasileiro, for encarado pela gente ilustrada da cidade mais importante do país.
terça-feira, maio 16, 2006
Siste Viator

É o livro da poeta Sarah Manguso que eu estou devorando. Seguem três peomas da nova safra da escritora do Brooklyn, que dá aula na Pratt University, duas quadras aqui de meu terraço com vista para Manhattan.
Sarah Manguso - Better to Shed No Light on the Mystery Than to Shed Bad Light (2006)
Better to Shed No Light on the Mystery Than to Shed Bad Light
The zeros gather on the hill and start to bleat:
If I'm not a one, what am I?
Come here, little zero!
and together we can invent one.
I can bury my face in your soft wool.
Wooly zero, someday I will make a coat of you!
The zeros gather on the hill and start to bleat:
If I'm not a one, what am I?
Come here, little zero!
and together we can invent one.
I can bury my face in your soft wool.
Wooly zero, someday I will make a coat of you!
Sarah Manguso - Will We? (2006)
Will We?
My favorite euphemism for death is the future.
Vermeer's kitchen maid is not the most famous painting in the Rijksmuseum even though she pours her milk perfectly and milk poured no more slowly then than it does now.
In Cleveland, Aunt Jean offers me a Vantage and teaches me a game of solitaire called The Queen Goes Into the Woods.
The older I get, the more I am able to discard.
Will we never live together in the round house?
My favorite euphemism for death is the future.
Vermeer's kitchen maid is not the most famous painting in the Rijksmuseum even though she pours her milk perfectly and milk poured no more slowly then than it does now.
In Cleveland, Aunt Jean offers me a Vantage and teaches me a game of solitaire called The Queen Goes Into the Woods.
The older I get, the more I am able to discard.
Will we never live together in the round house?
Sarah Manguso - Asking For More (2006)
ASKING FOR MORE
I am not asking to suffer less.
I hope to be nearly crucified.
To live because I don’t want to.
That hope, that sweet agent—
My best work is its work.
The horse I ride into Hell is my best horse
And bears its name.
So, friends, drink your cocktails and wear your hats.
Thank you for leaving me this whole world to go mad in.
I am not asking for mercy. I am asking for more.
I don’t mind when no mercy comes
Or when it comes in the form of my mad self
Running at me. I am not asking for mercy.
I am not asking to suffer less.
I hope to be nearly crucified.
To live because I don’t want to.
That hope, that sweet agent—
My best work is its work.
The horse I ride into Hell is my best horse
And bears its name.
So, friends, drink your cocktails and wear your hats.
Thank you for leaving me this whole world to go mad in.
I am not asking for mercy. I am asking for more.
I don’t mind when no mercy comes
Or when it comes in the form of my mad self
Running at me. I am not asking for mercy.
segunda-feira, maio 08, 2006
SHOW/Gorillaz no Apollo (6/4/2006)

Já está na BIZZ deste mês meu texto sobre o show derradeiro dos Gorillaz, aqui no Apollo Theater, no Harlem.
Gorillaz cria a Broadway do terceiro milênio: Projeções, orquestra e até Dennis Hopper levam a “ópera-rap” virtual para o santuário da música americana
Por Eduardo Graça, de Nova York
Demon Days Live é, para o bem e para o mal, o que a Broadway seria se um dia sacudisse a poeira e abraçasse sem medo a galera. No palco, 25 músicos (incluindo dez violinos, duas baterias, dois DJs e três contrabaixos) de uma trupe de 80 profissionais dividem as atenções com um telão mostrando as animações de Jamie Hewlett e uma dezena de convidados. As cinco apresentações do Gorillaz no histórico Apollo Theater, no coração do Harlem – todas com ingresso esgotado – provaram a mira certeira de Damon Albarn, quiçá o pop star que traduziu com mais acuidade a angústia do mundo pós-11 de Setembro, e sua tentativa nem sempre vitoriosa de abraçar o hip hop.
Nas coxias do Apollo, Albarn confessou em entrevistas que “este talvez seja o último álbum que a gente faz”.E perguntou para si mesmo: “Como fazer algo tão bom como Demon Days?”. Mas logo depois emendou: “Se bem que é uma tradição do hip hop anunciar o fim para, logo em seguida, lançar um novo trabalho!”.
Teria ele, em Demon Days Live, inventado a ópera rap? Quase. No Apollo, celebrando os quase 2 milhões de cópias vendidas nos EUA, Albarn provou que as faixas produzidas pelo mago da eletrônica Danger Mouse foram, sim, talhadas para o palco. Mas o uso de um coral de 23 crianças negras em “Dirty Harry” e de um outro, do Harlem Gospel Choir, em “Demon Days”, empurra o show perigosamente para a fronteira entre o pastiche e o tributo, com o grand finale característico dos musicais cênicos. De frente para o crime, fica difícil esquecer a tirada de Alex James – baixista do Blur. Foi ele quem disse, com boa dose de veneno, que “Albarn é o músico mais africano de West London” (algo como “o negro mais autêntico dos Jardins”). Demon Days Live, tal qual apresentado no Harlem e no DVD gravado ao vivo na Manchester Opera House, é um frankenstein criado para espelhar uma sociedade de consumo ávida e acéfala, na visão do comandante do Blur. Funciona, mas é ainda mais desigual que o CD e, um pouco aqui e ali, beira o constrangedor.
Mas é preciso levar em conta que foi há exatos cinco anos que Albarn e Hewlett lançaram seu “manifesto contra a cultura da celebridade”, propondo um rompimento entre a música e o culto vazio do ego. E que em sua mais recente biografia ninguém menos do que 50 Cent escreveu que o clipe de “Clint Eastwood”, o hit do primeiro Gorillaz, foi tão impactante que fez com que ele batizasse seu grupo de G Unit. Doze milhões de cópias de CD vendidas depois, um DVD ao vivo, cinco dias de casa lotada no mais tradicional teatro do Harlem e o frankstein de Albarn ainda respira. E requebra. E sampleia. E tem um alcance muito, mas muito maior do que o Blur, nas terras de Tio Sam. Alguém aí já sente saudades dos velhos Gorillaz?
Aproveite o Rega-bofe
Damon Albarn, 37, foi à África. E gostou do que ouviu. Ele inaugurou seu selo Honest Jon com Mali Music, uma jam com músicos africanos reunindo gravações do inglês em bares e ruas de Bamako. Gente como Afel Bocoum, Lobi Traoré, Toumain Diabate e Ko Kan Ko Sata Doumbia marcou presença no que foi considerado pela critica ums dos mais brilhantes lançamentos de 2002. No ano seguinte ele decidiu gravar Think Tank, o derradeiro álbum do Blur, em Marrocos, com faixas como Carvan e On The Way To The Club com forte sabor árabe. E o Honest Jon – que começou como uma loja de discos – segue um dos selos mais interessantes da cena inglesa, com um catálogo precioso, que vai do folk inglês dos anos 70 à obscura música negra produzida na Grã-Bretanha do pós-guerra e um punhado de geniais gravações de juju music e outros ritmos africanos dos anos 60.
Vem de seu interesse pela África a melhor notícia para os fãs da música de Albarn. Se o projeto Gorillaz-2007 parece mesmo aposentado, há no ar a notícia de que o ex-Blur será o líder de um novo supergrupo, que deve reunir Simon Tong (a guitarra de Demon Days Live), o eterno baixista do Clash Paul Simonon, um fino connoisseur da música negra das ilhas e ninguém menos do que o nigeriano Tony Allen, um dos inventores do Afro Beat, responsável pela cozinha da África 70, a mitológica banda de Fela Kuti. Albarn compôs :Every Season”, a faixa que abre o festejado solo de Allen, “Home Cooking”, e viajou para Lagos em uima imersão na cena nigeriana. Ele conta que os músicos já começaram a gravar em Londres e que deverão ter algo pronto no meio do ano.
O interesse de Albarn em estender seus limites também o levou à China, onde contribuiu com o projeto “War Child” gravando com Zeng Zhen. Do sucesso da faixa “Hong Kong” surgiu a idéia, ainda embrionária, da confecção de toda uma ópera inspirada em lendas orientais. Outro musical, desta vez inspirado em seu ‘quintal’, ou seja, sua vizinhança no bairro chique de Notting Hill, deve ser apresentado em 2007 no National Theatre de Londres, a instituição localizada em South Bank.
Por estas e outras Albarn foi imediatamente alçado à categoria de ‘músico mais eclético de sua geração’. Tão multifacetado, diga-se, quanto polêmico. Depois de esculhambar com o Live 8 – “que mostra a África como um continente doente, pobre, que precisa de nós, anglo-saxônicos para cantar sua música. Ora bolas, aonde estão os músicos africanos?” – e de recusar o convite do primeiro-ministro Tony Blair para um chazinho das cinco com um hilário recado: ‘não vou, pois tenho horror ao novo trabalhismo que o senhor representa. Agora, aliás, sou um comunista. Aproveite o rega-bofe, camarada. Com carinho, Damon’.
domingo, maio 07, 2006
Perguntas, perguntas...
Não estou entendêindo. Por que é que na histeria que dominou a imprensa brasileira no episódio da nacionalização do gás - deles - pelo companheiro Morales, ninguém se deu ao trabalho de entrevistar os bolivianos que trabalham como semi-escravos em S.Paulo, especialmente no Bom Retiro, no Brás, na Vila Maria e na Mooca?
Será que eles não ajudariam a entender melhor o que se passa de fato em nosso vizinho?
Será que é um bom serviço para o leitor deslocar repórteres para a fronteira com a Bolívia e esquecer de mandar uma equipe ali para a praça Cantuta, no Pari, ponto de encontro dos bolivianos na capital paulistana?
Será que este episódio todo vai servir para acabar com a invisibilidade dos bolivianos sem-documento no nosso querido Brasil?
Sei não...
Será que eles não ajudariam a entender melhor o que se passa de fato em nosso vizinho?
Será que é um bom serviço para o leitor deslocar repórteres para a fronteira com a Bolívia e esquecer de mandar uma equipe ali para a praça Cantuta, no Pari, ponto de encontro dos bolivianos na capital paulistana?
Será que este episódio todo vai servir para acabar com a invisibilidade dos bolivianos sem-documento no nosso querido Brasil?
Sei não...
quinta-feira, maio 04, 2006
Diretinho da Redação (43)

A coluna da semana, a um clique, no DR e aqui embaixo:
QUE PAÍS É ESSE?
Parece tema secundário e a grande imprensa não vem dando a atenção que ele merece. Mas a reação da sociedade civil americana à tragédia de Darfur, no Sudão, vem conseguido uma façanha: unir, em um mesmo espaço físico, um país que desde o 11 de setembro se viu dividido entre ‘vermelhos’ e ‘azuis’, ‘republicanos’ e ‘democratas’, ‘belicistas’ e ‘pacifistas’, ‘neoliberais’ e ‘neoconservadores’, pró-imigrantes e xenófobos, ‘pro-life’ and ‘pro choice’.
No último domingo, milhares de americanos se uniram no National Mall, em Washington, em frente ao Capitólio, para protestar contra os três anos de anarquia total no distante Sudão. O movimento Salve Darfur conseguiu um garoto-propaganda de peso: o ator George Clooney, que acaba de voltar da África. Ele conta, horrorizado, que viu vilas inteiras dizimadas, crianças assassinadas, outras de arma em punho. Que o governo do Sudão fecha os olhos para as milícias de tribos árabes – os janjaweed - que estariam dizimando a população negra do oeste do país. Dezenas de sudaneses negros refugiados nos EUA contaram para o público histórias tenebrosas, de ‘limpeza étnica’, pois os massacres já chegaram às vilas do Chade, do outro lado da fronteira. E as vítimas são sempre negros.
De acordo com a ONU já são três milhões de desabrigados, pelo menos 200 mil mortos e sete mil soldados da União Africana (UA) estacionados no país. Depois de pressões de grupos de direitos humanos, o Congresso americano aprovou uma resolução classificando de genocídio o que acontece no sul do Egito. O resultado prático – além do aumento de doações do governo Bush a entidades filantrópicas criadas para ajudar os refugiados sudaneses – foi a formação de uma aliança entre as poderosas comunidades judaica e negra sob o polêmico slogan ‘Genocídio – Nunca Mais’.
No domingo que passou impressionava a quantidade de jovens americanos de origem judaica acampados em frente ao Congresso. Alguns deles me contaram que cansaram de ouvir as histórias de seus antepassados sobre o holocausto, mas que jamais imaginaram um dia sair às ruas de seu país para exigir a preservação da vida de um outro grupo étnico. Agindo desta maneira, me diziam, se sentiam ‘mais judeus’. Dois dos oradores mais aplaudidos por eles, na ordem, foram o reverendo negro Al Sharpton, um liberal exaltado, e o escritor Elie Weisel, sobrevivente do terror nazista e um dos remanescentes de Auschwitz.
Apesar de alguns dos oradores representarem a comunidade muçulmana nos EUA, boa parte dos manifestantes deixava claro, em faixas e cartazes, que concordam com a idéia de apertar o certo ao governo de Khartoum, mas recusam uma ação militar, tônica do discurso negro-judaico. Os democratas – um animado grupo de senhoras, cadeiras a tiracolo, revelava que desde o Vietnã não participava de manifestações de rua – mantinham sua postura internacionalista pedindo ao governo que ‘saia do Iraque e entre no Sudão, mas com o apoio da ONU’. E os ‘socialistas libertários’ e os setores ligados ao Partido Verde distribuíram material pedindo cautela, lembrando que o governo sudanês é um aliado do Irã e da Síria, inimigos de Bush Júnior e que, dado o desastre da ocupação no Iraque, uma nova intervenção americana poderia piorar ainda mais a situação. Mas estavam todos lá, acreditando que é preciso fazer algo.
Sim, os americanos continuam indo fundo no que olham, mas não no próprio fundo. Em um domingo de tantos discurso não se ouviu uma única menção à opressão israelense na Palestina ou o lobby judaico que distorce a política externa de Washington. Também ignorou-se solenemente as manifestações dos imigrantes sem-documentos, os refugiados da miséria, que, no dia seguinte, parariam o país em uma série de manifestações pacíficas que entraram para a história dos EUA. Mas a manifestação de Washington mostrou que estes americanos de idéias e origens tão diversas ainda podem dividir a mesma grama. Já é alguma coisa.
quarta-feira, maio 03, 2006
Não sou só eu...
O grande Jamari França, no seu ótimo blog, saiu com esta hoje sobre os discos de Dona Marisa Monte em comentário sobre os indicados do Prêmio Multishow:
Notável a entrada de 'Infinito Popular", o disco pop de Marisa Monte lançado no final de março junto com um segundo disco, 'Universo ao Meu Redor", dedicado ao samba. Ela também concorre como Melhor Cantora. Sem dúvida uma conseqüência do intenso trabalho de imprensa que cercou os lançamentos e não necessariamente pela qualidade dos discos, que não sou grande coisa
Depois dizem que eu pego no pé da moça...
Notável a entrada de 'Infinito Popular", o disco pop de Marisa Monte lançado no final de março junto com um segundo disco, 'Universo ao Meu Redor", dedicado ao samba. Ela também concorre como Melhor Cantora. Sem dúvida uma conseqüência do intenso trabalho de imprensa que cercou os lançamentos e não necessariamente pela qualidade dos discos, que não sou grande coisa
Depois dizem que eu pego no pé da moça...
terça-feira, maio 02, 2006
NY TIMES/ EDITORIAL
O jornalão de Nova Iorque publicou hoje um corajoso editorial sobre o Dia Sem Imigrantes. A tradução é do blogueiro.
Eles São A América
O boicote dos imigrantes não afetou drasticamente a economia americana. Ela sobreviveu. Mas o que não pode sobreviver - ao menos assim esperamos - é a maneira equivocada com que os norte-americanos ainda vêem o movimento dos direitos civis dos imigrantes.
O que há de pior entre nossos cidadãos e políticos está ávido por rebaixar imigrantes ilegais à categoria de criminosos, terroristas em potencial e invasores forasteiros. Mas o que nós vimos ontem nas imensas e pacíficas manifestações em Los Angeles, Las Vegas, Chicago, Denver, Nova Iorque, Atlanta e muitas outras cidades, foram indivíduos comuns, gente simples, o mesmo povo pronto para a 'assimilação' que nós tanto romantizamos em feriados nacionais como o Dia de São Patrício ou Cristóvão Colombo.
Se estes eventos extraordinários de ontem foram um protesto contra alguma coisa, foi em oposição à idéia de que o imigrante é um trabalhador temporário, de segunda classe. As marchas de ontem foram um tapa na cara na teoria de que os sem-documento querem nada mais do que trabalhar sem serem notados, cuidadosamente segregados da nação que os emprega para preparar suas refeições, cortar suas gramas e temperar sua carne nos frigoríficos país afora.
Estes imigrantes, cansados de uma servidão silenciosa, estão saindo das sombras e pedindo algo extremamente simples: uma chance de se transformarem em trabalhadores-cidadãos, com todos os deveres e oportunidades que o novo status prevê.
Nossos legisladores, para seu descrédito, têm criado barreiras, armadilhas legais e obstáculos burocráticos, e acenado com a pífia oportunidade de transformar os imigrantes em trabalhadores-convidados, sem qualquer direito de cidadania. Nada mais do que um convite para o estabelecimento de uma subclasse desprovida de qualquer possibilidade de ascensão social ou econômica. Trata-se de um caminho claro para o estabelecimento de uma idéia diferente - e menos nobre - do que são os EUA e nós mesmos, os norte-americanos.
Não são apenas os vigilantes do Minutemen, obcecados com a fortificação da fronteira com o México, que deveriam se envergonhar depois das alegres celebrações que testemunhamos ontem. Legisladores que vêm dificultando uma reforma compreensiva de nosso sistema de imigração a partir de um frio cálculo eleitoral precisam ouvir o que as ruas estão dizendo.
Uma silenciosa, oprimida população agora fala com uma só voz. A mensagem, dirigida a Washington, mas que todo o país deveria escutar, é clara: Nós Somos a América. Nós queremos nos juntar a vocês.
É uma mensagem simples. E que já deveria ter sido absorvida por nós tempos atrás.
Eles São A América
O boicote dos imigrantes não afetou drasticamente a economia americana. Ela sobreviveu. Mas o que não pode sobreviver - ao menos assim esperamos - é a maneira equivocada com que os norte-americanos ainda vêem o movimento dos direitos civis dos imigrantes.
O que há de pior entre nossos cidadãos e políticos está ávido por rebaixar imigrantes ilegais à categoria de criminosos, terroristas em potencial e invasores forasteiros. Mas o que nós vimos ontem nas imensas e pacíficas manifestações em Los Angeles, Las Vegas, Chicago, Denver, Nova Iorque, Atlanta e muitas outras cidades, foram indivíduos comuns, gente simples, o mesmo povo pronto para a 'assimilação' que nós tanto romantizamos em feriados nacionais como o Dia de São Patrício ou Cristóvão Colombo.
Se estes eventos extraordinários de ontem foram um protesto contra alguma coisa, foi em oposição à idéia de que o imigrante é um trabalhador temporário, de segunda classe. As marchas de ontem foram um tapa na cara na teoria de que os sem-documento querem nada mais do que trabalhar sem serem notados, cuidadosamente segregados da nação que os emprega para preparar suas refeições, cortar suas gramas e temperar sua carne nos frigoríficos país afora.
Estes imigrantes, cansados de uma servidão silenciosa, estão saindo das sombras e pedindo algo extremamente simples: uma chance de se transformarem em trabalhadores-cidadãos, com todos os deveres e oportunidades que o novo status prevê.
Nossos legisladores, para seu descrédito, têm criado barreiras, armadilhas legais e obstáculos burocráticos, e acenado com a pífia oportunidade de transformar os imigrantes em trabalhadores-convidados, sem qualquer direito de cidadania. Nada mais do que um convite para o estabelecimento de uma subclasse desprovida de qualquer possibilidade de ascensão social ou econômica. Trata-se de um caminho claro para o estabelecimento de uma idéia diferente - e menos nobre - do que são os EUA e nós mesmos, os norte-americanos.
Não são apenas os vigilantes do Minutemen, obcecados com a fortificação da fronteira com o México, que deveriam se envergonhar depois das alegres celebrações que testemunhamos ontem. Legisladores que vêm dificultando uma reforma compreensiva de nosso sistema de imigração a partir de um frio cálculo eleitoral precisam ouvir o que as ruas estão dizendo.
Uma silenciosa, oprimida população agora fala com uma só voz. A mensagem, dirigida a Washington, mas que todo o país deveria escutar, é clara: Nós Somos a América. Nós queremos nos juntar a vocês.
É uma mensagem simples. E que já deveria ter sido absorvida por nós tempos atrás.
ENTREVISTA/ Nativo Lopez

A VOZ DOS IMIGRANTES
Por Eduardo Graça, de Nova Iorque
Em entrevista, o ativista Nativo Lopez explica a estratégia do movimento de trabalhadores ilegais em busca de seus direitos nos EUA
Ele é a voz mais poderosa dos sem-documentos. Comandante da Associação Política Mexicana-Americana (MAPA, na sigla em inglês), criada em 1963 para defender os interesses da então emergente comunidade hispânica nos Estados Unidos, Nativo Lopez, 54, foi um dos idealizadores do Dia Sem Imigrantes. No próximo Primeiro de Maio diversas associações vão organizar o maior boicote da história dos Estados Unidos: cerca de 12 milhões de trabalhadores ilegais (ou, como prefere Lopez, desprovidos de documentação) simplesmente deixarão de comparecer a seus postos de trabalho. O objetivo é mostrar sua importância na economia norte-americana e marcar a oposição à Proposta de Lei 4437, do deputado republicano James Sensenbrenner, aprovada em dezembro na Casa dos Representantes, a câmara baixa do Congresso.
A 4437 prevê a detenção e deportação dos sem-documento, a pena de cinco anos de xilindró para os que ajudarem os ‘forasteiros’ e destina US$ 2,2 bilhões para a construção de mais de 1.000 km de barreiras ao longo da fronteira com o México. Um outro projeto, dos senadores Ted Kennedy (democrata) e John McCain (republicano), previa a legalização de 8 milhões de trabalhadores ilegais há mais de cinco anos no país, mediante pagamento de uma multa de US$ 2 mil, sem contar o imposto de renda atrasado. Depois que esta proposta foi abortada antes de ser levada ao plenário do Senado, os hispano-americanos radicalizaram sua posição e protagonizaram, nos últimos dois meses, o maior movimento de massas da história contemporânea dos EUA.
Presidente há três anos da MAPA, Lopez enfrentou disputas importantes na Califórnia. Foi um ardente defensor do ensino bilíngüe nas escolas públicas do estado e acabou perdendo sua cadeira no corpo de diretores das instituições educacionais de Santa Ana, onde vive. No fim de 2003, comandou o primeiro grande boicote dos sem-documento, em oposição a um projeto de lei que vincularia a cessão de carteiras de motorista a indivíduos com documentação em dia. Uma medida que diminuiria as chances de trabalho de milhares de imigrantes. E que, segundo Lopez, cujo real nome de batismo é Larry, os transformaria nos ‘judeus sob regime nazista ou nos palestinos sob o jugo israelense em plena Califórnia do século XXI”.
Nas últimas semanas ele esteve com os 500 mil que marcharam em Los Angeles e viu outros 300 mil protestando em Chicago, 100 mil em Nova Iorque, 50 mil em Denver e Phoenix, 30 mil em Washington. A maioria de origem mexicana, mas muitos hondurenhos, salvadorenhos, dominicanos, norte-americanos e, claro, brasileiros, que, de acordo com projeções mais conservadoras, já são 1 milhão de trabalhadores ilegais nos EUA. Em meio aos últimos preparativos para o Dia Sem Imigrantes Lopez conversou com exclusividade com a Carta Capital sobre a cruzada dos sem-documento, uma odisséia tipicamente americana. Afinal de contas, ele lembra, bate-se aqui em uma tecla familiar às terras de Washington desde 1776: a necessidade de se dar voz a quem paga taxas, mas é desprovido de representação.
- O senhor poderia me dizer exatamente quais são os objetivos do boicote do dia Primeiro de Maio?
- Nós queremos mostrar o papel vital dos imigrantes na economia americana e mandar uma mensagem clara ao Congresso: nossa comunidade se opõe à Proposta 4437 aprovada em dezembro na Câmara dos Representantes. De uma certa maneira, estamos também impondo nossa voz no debate nacional, assumindo nosso papel como um importante jogador político. Estamos avisando a democratas e republicanos: nem pensem em fechar acordos sem nos ouvir. E estamos mostrando aos sem-documento que vamos liderar os debates para a reforma da política de imigração, não as oligarquias instaladas em Washington.
- Quando o senhor fala sobre uma reforma da imigração, o que realmente espera?
- A expectativa é a legalização completa dos sem-documento e um reconhecimento de que a dinâmica da imigração deve ser tratada de modo bilateral. Também temos a certeza de que nenhuma cerca erguida na fronteira com o México pode impedir o livre movimento de cidadãos em economias globalizadas. E acreditamos que uma força de trabalho imigrante estável e legalizada introduzida na economia americana é algo extremamente positivo para os EUA.
- O senhor abomina o termo ‘forasteiros ilegais’ (no inglês, ‘illegal alien’) e prefere o de ‘imigrantes sem-documentos’. Recentemente o senhor foi atacado por liberais e conservadores ao dizer que a qualificação seria tão ofensiva quanto ‘bicha’, ‘crioulo’ ou ‘judeuzinho de merda’...
- Este termo é uma ferramenta ideológica utilizada para justificar a exploração dos sem-documento. Os que me criticaram jamais viveram a experiência de ser um imigrante nos EUA, com todo o estigma social que se carrega. ‘Forasteiro ilegal’ tem sido utilizado largamente para fazer com que o imigrante sinta-se inferiorizado, um fora-da-lei, um desgraçado sem qualquer direito. E para fazer com que a sociedade americana ignore a voz dos imigrantes. Alienígenas, ‘diferentes’, eles permanecem sujeitos à exploração, garantindo lucros ainda mais exorbitantes aos que o acenam com um emprego. É a ‘estratégia da depreciação’, de se fazer sentir vergonha do que você é, que foi utilizada muitas vezes na história americana, com negros, mexicanos que aqui permaneceram depois da anexação de suas terras em 1848, e índios. Agora, nem conservadores nem liberais tinham a mais vaga idéia de que nós estaríamos marchando nos meses de março, abril e maio em todas os cantos deste país, não é? Não somos mais invisíveis.
-E os protestos ganharam nas últimas semanas um caráter de ‘programa de família’. Mães, crianças e idosos formaram o grosso das manifestações…
-É que as pessoas que têm saído nas ruas não são ativistas políticos. Elas são simplesmente imigrantes. A Proposta 4437 remove qualquer possibilidade de o imigrante manter o mínimo espaço de movimentação social e a ilusão de ir tocando uma vida decente nos EUA. É como se esta gente toda tivesse sido jogada contra a parede. E elas agora deram um passo à frente, decidiram mesmo sair das sombras.
-Em Nova Iorque os manifestantes escolheram como símbolo do protesto a bandeira dos EUA. Esta seria uma estratégia para combater os que consideram anti-americano o movimento pela reforma da imigração?
- Exatamente. E talvez esta estratégia tenha até razão de ser se considerarmos o clima político e a possibilidade real de nossa situação piorar. Mas vamos deixar claro, eu nunca saí por aí pregando que as pessoas deixassem as bandeiras de seus países de origem em casa. Depois de anos e anos batalhando, os imigrantes enxergam em suas bandeiras nacionais seu último refúgio. Como alguém pode negar a um imigrante este símbolo de acalanto e orgulho? Isso é inaceitável.
-O senhor diria que a luta destes imigrantes é, de alguma forma, comparável à dos negros que enfrentaram a segregação nos anos 60?
-A comparação procede. Hoje, os sem-documento são a espinha vertebral de um grande movimento social. Por aqui já se entendeu que, sem eles, não há mais movimento de massas sério de alcance nacional na sociedade americana.
-E o senhor vem sendo equiparado a Jesse Jackson e Al Sharpton...
-Meu grande modelo é minha mãe, dona Beatriz, que criou sozinha 11 filhos, cinco adotivos, trabalhando em pelo menos duas jornadas diárias durante toda a vida. Ela nos ensinou a ética do trabalho, a honestidade, a importância de retornar o lucro para a sociedade civil, de não se tornar escravo do materialismo. E minha grande inspiração política foi o professor Bert Corona (1918-2001), que liderou, em 1980, o movimento de legalização de mais de 3 milhões de cidadãos sem documentação, em sua maioria hispânicos. As passeatas de hoje são a herança que ele nos deixou.
-Em sua opinião, como o presidente Bush – que se considera um ‘amigo dos hispânicos’ e abocanhou 40% dos votos da comunidade latina nas últimas eleições – tem lidado com o tema?
-Bush é o presidente que mais se engajou na questão da imigração desde Kennedy. Ele de fato se expressou sobre o tema com muito mais sensibilidade do que Bill Cinton, por exemplo. Antes dos ataques à Nova Iorque, ele estava próximo de fechar um acordo com o presidente Fox. No entanto, a ala mais conservadora do Partido Republicano o tem impedido de apresentar uma atitude mais digna e justa. Agora, Bush é muito próximo dos empresários e está ciente da impossibilidade prática de se deportar cerca de 12 milhões de trabalhadores. Ele hoje tenta costurar um acordo que assegure vantagens para os empresários, legalize dezenas de milhares de pessoas, crie uma força de trabalho temporária para o futuro e aumente a segurança na fronteira com o México. E tudo isso ao mesmo tempo...
-Uma tarefa hercúlea, ainda mais para um presidente com apenas 32% de aprovação popular. E não foi justamente a comunidade hispânica uma das mais afetadas pela política de segurança implantada depois do ataque terrorista ao WTC?
-Todos os imigrantes foram afetados negativamente, especialmente os muçulmanos. Estes foram agredidos, detidos, deportados e denegridos de uma forma horrorosa na imprensa. Para nós, latinos, ficou a eliminação completa da esperança de uma legislação voltada para a legalização dos sem-documento.
- O governador da Califórnia é um imigrante. Será que por conta de sua própria experiência ele não teria uma maior sensibilidade para com a situação da comunidade latina?
- Schwarzenegger não nos ajuda em absolutamente nada. E quando ele resolve falar sobre o tema, quase sempre, demonstra uma imensa carga de ignorância e preconceito. Ele chegou ao cúmulo de manifestar apoio aos Minutemen, grupo de vigilantes que hoje são os mais xenófobos, extremistas e violentos do país.
-O cardeal de Los Angeles, Roger Mahony, já avisou que vai pregar a desobediência civil se a Proposta 4437, que transforma em crime qualquer ato de ajuda aos imigrantes ilegais, virar lei. A Igreja Católica tem tido uma postura importante neste debate, não?
- Ela é hoje o pilar de consolo e refúgio de nossas comunidades e tem se pautado por uma ação quase sempre de vanguarda ao advogar o direito dos imigrantes. Em suas paróquias a Igreja desenvolve a campanha ‘Justiça para os Imigrantes’ e é uma aliada poderosa porque tem atuado exatamente como o lobby mais tradicional, nos corredores de Washington, aonde entra com mais facilidade.
- O senhor já disse que representa ‘todos aqueles que pagam taxas, os ‘contribuintes sem-documento’...
-Esta foi uma referência que eu fiz quando fui eleito para a comissão diretora das escolas públicas na Califórnia. Ora, os sem-documento pagam taxas locais, enriquecem o Tesouro americano, mas não votam, não têm representação!
- Mas justamente por conta desta postura, o apresentador Lou Dobbs, na CNN, disse que o senhor parece esquecer que a questão a ser discutida é ‘o que seria dos imigrantes ilegais fariam sem a América’...
- Ele está errado. A questão emergencial é como seria este país sem a riqueza gerada pelos sem-documento.
- Qual a sua reação a extremistas que apareceram na tevê queimando bandeiras mexicanas por todo o oeste?
- Isto é apenas provocação, que não merece nem resposta. Mas sabe que eles intensificaram ainda mais nossas diferenças? De um lado você tem pessoas que pregam o ódio e a violência e do outro milhões marchando em paz, vestindo roupas brancas e exercitando seu direito constitucional de responder aos que querem expulsá-los.
- E o governo mexicano, como tem se posicionado?
- O governo mexicano não tem feito o necessário para incrementar as oportunidades de emprego. Não há investimento algum na agricultura. A desigualdade social é imensa e faz com que muitos mexicanos deixem para trás os que amam em busca de melhores oportunidades.
- O senhor acredita que uma eventual vitória do prefeito Lopez Obrador possa modificar este cenário?
- Hoje há uma enorme esperança dos mexicanos vivendo nos Estados Unidos em relação às eleições deste ano. Muitos acreditam que Obrador poderá fazer as reformas de que a sociedade mexicana precisa para conter o movimento de massas em direção ao norte e o abandono de cidades inteiras na zona rural. Por enquanto é o que há, esperança.
- A imigração ilegal de brasileiros para os EUA tem aumentado estupidamente. Qual o papel desempenhado por estes novos personagens no cenário local?
- A presença dos brasileiros é cada vez mais forte. E um de nossos problemas é a falta de conexão entre os sem-documento que falam português e os que falam espanhol. É de nosso total interesse e um dos mais importantes objetivos da MAPA estreitar os laços com os brasileiros. Inclusive por razões práticas – eles têm uma experiência fabulosa em organização sindical, religiosa nos mais diversos níveis e na mobilização da sociedade civil.
PARANÓIA EM HORÁRIO NOBRE
Na TV, Lou Dobbs atribui aos forasteiros todos os males da América

Nada irrita mais o comentarista político Lou Dobbs do que o termo ‘sem-documento’. “É importante dar nomes aos bois, dizer as coisas como elas são. Está lá na nomenclatura oficial utilizada pelo governo dos EUA: eles são forasteiros ilegais e o que estão pedindo ao povo americano é uma anistia. Eles nos pedem um favor, um gigantesco favor”, disse esta semana em seu programa, um campeão de audiência que vai ao ar todos os dias às seis da tarde na rede de tevê CNN.
Desde 2003 o Lou Dobbs Tonight se propõe a ‘ecoar a voz da classe média americana’ em horário nobre. Defensor de um nacionalismo apaixonado, autor do best-seller “Exportando a América” e crítico feroz das empresas americanas que vêm transferindo seus centros de serviço para países em que a mão-de-obra é mais barata, como Índia e Filipinas, Dobbs encontrou no debate sobre a imigração ilegal o tema que precisava para abastecer a paranóia americana.
Todos os dias ele dedica um bloco de seu programa, à ‘invasão dos alienígenas’. Em um deles entrevistou Nativo Lopez, em meio a um dos protestos ‘em que bandeiras estrangeiras e línguas outras eram faladas nas ruas dos Estados Unidos’. Dobbs quis saber como os ‘alienígenas’ vão sobreviver sem os EUA, por que escolheram uma data de teor socialista (‘o Primeiro de Maio vermelho’, que não é feriado por aqui) para o boicote nacional e o motivo pelo qual eles não estão nas ruas exigindo que seus governos de origem produzam mais empregos, resolvendo seu problema sem afetar a vida da classe média americana. Lopez não teve tempo para responder a todas as questões.
Por conta de seus esforços, Dobbs recebeu no ano passado o Eugene Katz Award for Excellence in the Coverage of Immigration. Sua série de reportagens ‘Fronteiras Quebradas’ resolveram, em um passe de mágica, todos os problemas que afetam a sociedade americana, da crise educacional à ameaça terrorista, apontando um mesmo culpado: o ‘forasteiro ilegal’. E seu jornalismo opinativo, mais próximo dos programas da FOX e da MSNBC, as principais rivais da CNN, garantiram uma audiência de meio milhão de espectadores para a rede criada por Ted Turner. A batalha entre os ‘alienígenas’ e os ‘sem-documento’, ao que parece, está só começando.(Eduardo Graça)
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