sexta-feira, julho 29, 2005

Lá Como Cá

Deu no NY Times. O embaixador da Coréia do Sul nos Estados Unidos, Hong Seok Hyun, anunciou sua renúncia ao cargo. O motivo? Denúncias envolvendo o diplomata na arrecadação ilegal de fundos para a campanha presidencial da Coréia em 1997.

Plebiscito é Golpe

Na mesma reunião da ABI, segundo O Globo, a senadora Heloísa Helena (P-SOL-AL), disse que ‘se as apurações alcançarem o presidente, é a favor de um plebiscito para antecipação das eleições'. Não entendi.

Ora, se as investigações – seja na CPI, seja na Polícia Federal – envolverem diretamente Lula cabe ao Congresso Nacional iniciar um processo de interrupção do mandato do presidente, com todo direito à mais ampla defesa. Tudo nos conformes, como manda o figurino de um país democrático em que as insitituições, apesar de tudo, têm funcionado bem. Foi assim na crise de 1992 e o país continuou seguindo sua vida normalmente.

A senadora ecoou o equivocado artigo desta semana no Jornal do Brasil do ex-deputado Milton Temer, agora no P-SOL, em que este defendia a tese do referendo popular para decidir se Lula deve ou não terminar seu mandato. Pensar em plebiscito é uma avenida de mão dupla: ao mesmo tempo em que se embarca no discurso golpista de interrupção do mandato de um presidente eleito por 52 milhões de cidadãos - em um desrespeito que revela uma cara-de-pau sem tamanho - também se coloca mais lenha na fogueira de que o Legislativo carece de legitimidade.

Mas revela também um velho cacoete de nossos políticos: o de jogar por fora das regras democráticas – seja recebendo jabá para campanha política, seja aprovando reeleição em benefício próprio, seja querendo 'ouvir as massas' nas questões por eles consideradas de ‘emergência nacional’. Este sim é um mal que precisa ser cortado pela raiz. E os que pretendem estar trazendo o novo à cena política nacional, especialmente estes, já deveriam ter aprendido a lição.

Fraude Histórica

A frase veio de um político que não me cansou de decepcionar. Mas é a mais exata até agora sobre o filme de terror que se transformou a esquerda brasileira. “O PT é uma fraude histórica”, disse o deputado-federal Roberto Freire (PPS-PE), na manifestação dos partidos progressistas ontem na ABI, no Rio. Como discordar do neo-comunista?

quinta-feira, julho 28, 2005

De Mulher Pra Mulher

Do blog Coleguinhas, Uni-Vos!, do amigo Ivson Alves, em http://www.coleguinhas.jor.br/picadinho.html:

O próximo alvo da Veja é a Dona Marisa, mulher do Nove-Dedos. A revista está urdindo matéria segundo a qual ela teria feito compras com cartão de crédito de uma empresa do Marcos Valério. O problema é que até agora a revista do Civita ainda não encontrou qualquer indício para afirmar tal coisa, mesmo contando com o apoio de toda a tropa de choque tucano-pefelê trabalhando horas e horas nas últimas duas semanas. Mas mesmo que não ache nem o mais leve indício, a revista deve publicar algo neste sentido em breve, pois é essencial atingir o N-D no seu esteio mais forte, que é a família, especificamente a sua companheira. Isso, pelos cálculos da oposição tucano-pefelê, faria com que N-D ou ficasse cego de ódio, reagindo descontroladamente, ou caísse em depressão, deixando o barco à deriva. De qualquer maneira, ficaria em desvantagem séria na hora de reagir a um pedido de impeachment.

O Lapso de FHC

De Jânio de Freitas, na Folha de S.Paulo de hoje:

(...) meu colega Marcelo Beraba me chamou a atenção para este lapso anunciador de Fernando Henrique Cardoso, ao saber da descoberta de envolvimento do PSDB com Marcos Valério: "Precisamos investigar tudo mas sem perder o foco de que a crise é hoje. O que aconteceu no passado, no meu governo, é coisa da história". A descoberta só era relativa à sucessão no governo de Minas em 98. Fernando Henrique entregou logo o seu governo como outro manancial para descobertas.

a coluna de Jânio pode ser lida em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2807200504.htm

Os Donos do Poder

De Demétrio Magnoli, na página de Opinião da Folha de S.Paulo de hoje:

Lula encarna a tradição do patronato político brasileiro. Vezes sem conta, o presidente definiu a nação pela metáfora da família, na qual ele desempenha o papel de pai provedor, governando com o coração e zelando por todos os filhos, sobretudo os mais fracos. Governar é distribuir privilégios seletivamente: eis o conceito arcaico que emana do pensamento do presidente.


O texto completo pode ser lido, para assinantes do UOL ou do jornal paulistano, em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2807200507.htm

quarta-feira, julho 27, 2005

Diretinho da Redação (23)



O texto abaixo pode ser lido no www.diretodaredacao.com


Todo Mundo Faz!

Um pouco de História sempre cai bem. Ainda mais História recente, recentíssima. Em 1988, um grupo de parlamentares do PMDB, descontente com os rumos da sigla de Ulysses Guimarães e assustado com a aliança perpétua com o PFL - revelada de forma mais crua no chamado “Centrão” – decidiu fundar um novo partido. Escolhem o tucano como símbolo e criam o PSDB. Dez anos antes o PT fora criado para fugir das tradições autoritárias do velho PCB e para pregar um socialismo libertário, feito para e por trabalhadores. A idéia era provar que os dois partidos não faziam o que todos fazem e, coincidência ou não, nos últimos 14 anos, desde a crise do governo Collor, PSDB e PT vêm dominando, de São Paulo, a cena política nacional.

Tá bem, deu no que deu. O PSDB, igualzinho ao PT agora, provou das benesses do governo federal e saiu manchado. Aliou-se ao mesmo PFL e dedicou-se em demasia a tenebrosas transações feitas com Valérios dos mais variados quilates. Só a campanha para governador do atual presidente do partido, senador Eduardo Azeredo (MG), embolsou R$ 11,7 milhões via caixa dois. E isso em 1998. A reação do tucanato às denúnicas – que envolvem outros mineiros conhecidos, como o ex-ministro Roberto Brant e o atual governador Aécio Neves - é a mesma do petismo: “todo mundo faz”.

PT e PSDB são hoje, fósseis andantes, mortos-vivos que se alimentam de um fiapo de esperança que a sociedade brasileira ainda teima em depositar na conta de seu futuro político. A saída, única, viável e possível, é uma união de gente de bem deste país – os 21 deputados da esquerda petista, o PSOL de Heloísa Helena, exceções como Fernando Gabeira, Denise Frossard e Jefferson Peres – em uma nova agremiação partidária. Uma que já nasça musculosa, mas sem vícios. Uma que não repita os erros cometidos no passado.

Que encontre novos erros e os enfrente de cabeça erguida. Que não tenha um projeto único de poder e de tomada da máquina pública do Estado. Que se preocupe menos com a reeleição e mais em combater as desigualdes sociais que vão transformando, diariamente, mais pobres em miseráveis e mais ricos em milionários. Que tenha moral e coragem para lidar de frente com a violência e assumir e derrotar o terrorismo verde-e-amarelo. Que, principalmente, não represente apenas o pensamento da elite paulistana – intelectual ou sindical - mas entenda o tamanho da federação, suas diferenças, suas contingências, seus nós.

Este partido político não existe. Não ainda. Quando fundado, o PSDB reunia 8 senadores e 40 deputados. Não é impossível, acreditem, encontrar 50 parlamentares éticos, cujos nomes não aparecerão na lista do mensalão, indignados com a sujeirada que gruda em todo o Congresso Nacional. Uma faxina geral, que valorize novamente a idéia da democracia representativa, começa com esta gente vestindo a camisa de um mesmo time. Eles precisam de um nome, uma bandeira, um slogan e uma certeza apenas: a de que os fins não justificam os meios. Ou a política de nossos dias, por si só, exclui esta definição?

terça-feira, julho 26, 2005

Estranhas Prioridades – o Retrocesso da Imprensa

Você quer saber mais sobre a Martha Stewart ou sobre o genocídio de Darfur? Em sua coluna de hoje no The New York Times, Nicholas Kristof dá um puxão de orelhas na cobertura que a imprensa norte-americana não tem feito do desastre no Sudão e da tragédia de Darfur. Mais: diz que se pode criticar a administração republicana por sua passividade quanto à ajuda humanitária aos africanos, mas Washington também tem munição de sobra para esculhambar com a imprensa norte-americana, que se mantém tão omissa quanto o governo Bush ao tratar do tema.

Para se ter uma idéia, apenas 18 minutos sobre Darfur foram mostrados na ABC News (todas reportagens de Peter Jennings) e outros míseros 5 na NBC em 2004. Já a CBS dedicou 3 minutos a Darfur contra 130 ao caso Martha Stewart no mesmo período. Na conta de Kristof, os canais de tevê aberta dos Estados Unidos dedicaram, em média, um minuto para cada 100 mil mortes no país africano.

Ele vai além: a cobertura do genocídio de Darfur foi pior do que a do massacre turco contra os armênios em 1912. Um retrocesso que passa por uma desculpa conhecida da imprensa brasileira: a de que é muito caro manter um correspondente no Sudão. Kristof é irônico: ‘se ao menos o julgamento de Michael Jackson tivesse acontecido em Darfur!”.

Em tempo - a coluna pode ser lida, no original, para leitores cadastrados no NYT, em http://www.nytimes.com/2005/07/26/opinion/

quinta-feira, julho 14, 2005

Muito Bem Dito

De Sillio Boccanera, hoje, na página de Opinião de O Globo, sobre o que ele muito propriamente qualifica de terrorismo tupiniquim:

(...) em termos de segurança da população, mesmo com terrorismo ocasional, Londres permanece muito menos perigosa do que cidades como Rio de Janeiro ou São Paulo. Isso não é um elogio à capital britânica e sim uma crítica às grandes cidades brasileiras. Cinqüenta mortos em quatro explosões no centro de Londres, quinta-feira passada, constituem uma selvageria. Mas também é selvagem o fato de que um número equivalente de pessoas é vítima de assassinato a cada fim de semana no Grande Rio. Diferença: a barbárie em Londres é episódica e rara, choca o país, mobiliza as autoridades; a do Rio é rotineira e só provoca indiferença.

O fato de que a maioria dessas mortes no Rio ocorre na periferia pobre da cidade (embora cada vez mais avance pelas áreas “nobres”) não tira dos números o significado de horror que efetivamente têm. Vive-se no Rio o equivalente a uma guerra civil, só que mais discreta, sem tanques ou aviões, não proclamada oficialmente. Mas tão letal quanto as que devastaram outras cidades em luta fratricida. É uma espécie de terrorismo tupiniquim.

o excepcional artigo, enviado por minha amiga Regina Zappa, deve ser lido na íntegra, por leitores cadastrados, em http://oglobo.globo.com/jornal/opiniao/.

Diretinho da Redação (22)



A Volta do Pesadelo em Nova Iorque

O texto abaixo, sobre o pesadelo eterno da ameaça terrorista aqui em Nova Iorque também pode ser encontrado no excelente www.diretodaredacao.com

No dia 7 de julho eu e uma amiga ficamos parados durante meia hora entre duas estações de metrô aqui no Brooklyn, em Nova Iorque. Tínhamos passado a manhã com os narizes grudados no aparelho de televisão, acompanhando pela BBC o ataque terrorista a Londres. Tínhamos de fazer compras e a maneira mais rápida era pegar a linha G, duas paradas apenas. Pouco antes de chegarmos à última estação o trem parou. Depois de 10 minutos uma voz feminina avisou que havia uma emergência relacionada ao trem que estava à nossa frente. E repetiu a mesma explicação, feito mantra tenebroso, de quando em quando nos 20 minutos seguintes.

O ar-condicionado, ainda bem, funcionava. O vagão não estava lotado, mas havia um nervosismo no ar. Todos pensavam em Londres. Depois em Madri. Depois no World Trade Center, logo ali do outro lado do East River. Todos buscavam, ainda que inconscientemente, visualizar malas, pacotes, turbantes, barbas. Sim, turbantes e barbas. Aqui vive-se como nunca o preconceito religioso. Descarado. Sem encontrar a ameaça mais óbvia, os passageiros, resignados, se livraram dos sapatos e gravatas, mas ninguém se encarava. Mesmo no desespero rotineiro de uma tarde asfixiante na capital do mundo, olhos nos olhos é quimera distante.

Meia hora depois finalmente nos movemos e, em menos de dois minutos, chegamos ao destino. Todos seguiram apressados para suas vidas na superfície e apenas os jornalistas se deram ao trabalho de inquirir o motivo do incidente, aparentemente causado por um alarme disparado por acidente no trem que corria cinco minutos à frente do nosso. Não importa. Assim como o absurdo da violência no Rio de Janeiro foi assimilado pelos cariocas, a ameaça terrorista, aqui em Nova Iorque, já faz parte do dia-a-dia de seus habitantes.

Durante todo o dia 7 poucos demostraram desconforto em cruzar com hordas de policiais muito bem armados nas estações de metrô dos cinco distritos da cidade. Não deve causar estranheza, também, a informação de que o preço do metro quadrado em Lower Manhattan – onde ficavam as Torres Gêmeas destruídas pelo atentado de 11 de setembro de 2001- quase duplicou desde então. E que Madri, desde a tragédia de 2003, tem recebido mais e mais visitantes. Os hotéis estão saindo pelo ladrão. Aliás, a terra arrasada onde ficava o World Trade Center é um ponto turístico disputadíssimo em Nova Iorque. Todos querem tirar fotos e brigam por um espaço para garantir esquisitíssimo souvenir.

Cansados de guerra, estressados depois de décadas de difícil relacionamento com o IRA, os britânicos descobriram hoje que quatro dos terroristas de 7 de julho eram jovens. O mais novo adolescente, o mais velho acabara de completar 30 anos. Todos criados na Inglaterra. Todos filhos de trabalhadores de classe-méda baixa completamente adaptados à vida na Europa. Meninos educados nos colégios ingleses são os responsáveis pela morte de 52 pessoas, sem esquecer dos mais de 700 feridos, muitos em estado grave. Como lidar com esta nova bomba?

Há alguma esperança de bom-senso no ar. Ao contrário de seu parceiro Bush II, o primeiro-ministro Tony Blair optou por uma estratégia diversa. Ele já convocou, em uma jogada inteligentíssima, a maioria da comunidade islâmica britânica – formada por gente trabalhadora, pacífica e honesta – para ajudá-lo a liderar uma faxina interna contra quem prega o ódio e a violência. Em suas palavras ‘a moderada e verdadeira voz do Islã precisa ser mobilizada’.

Uma das bombas explodiu justamente em uma das regiões – Eldridge – em que a maioria dos moradores se identifica como muçulmana. Eles estão entre as principais vítimas do atentado. Parentes e amigos das vítimas de fé islâmica que vivem na região se sentem acuados e dizem que o ataque também foi ‘uma mensagem dada pelos fundamentalistas a nós. A de que ou lutamos contra o inimigo cristão ou temos de voltar para casa’’, isto é, para a Ásia e o norte da África, de onde seus pais saíram em busca de trabalho. Como disse Blair - e agora, mais do que nunca, é preciso acreditar na sinceridade de suas palavras - em última instância não há outra maneira de enfrentar e liqüidar este problema, a não ser dentro da própria comunidade muçulmana.

Em Nova Iorque, onde adolescentes de fé islâmica são presos pela polícia federal na calada da noite e devolvidos com um pedido de desculpas a pais atônitos, o maniqueísmo republicano não ajudou em nada a população a lidar com um problema originado na miséria, na desinformação e no totalitarismo apoiado decididamente no passado pelas grandes nações ocidentais. Quem sabe um sopro de argúcia nos chegue aqui também, ainda que quatro estações atrasado?

domingo, julho 10, 2005

Trabalhadores do Meu Brasil

De Jânio de Freitas, na Folha de S.Paulo de hoje:


Ao fazer a nomeação de Luiz Marinho para o Ministério do Trabalho, Lula estará oficializando a CUT como instrumento do governo, ou seja, da política econômica em vigor. Logo, com a CUT no atual Ministério do Trabalho, os trabalhadores nunca estiveram tão longe do governo.

sábado, julho 09, 2005

Mais Uma da Direita Festiva

Tá hoje na Veja. Depois de Cora Rónai, mais uma tiradinha da direita festiva que povoa a Zona Sul carioca. Desta vez foi Millôr Fernandes, com esta pérola:

E você, que acha que todas as falhas do nosso Supremo Mandatário são vistas com preconceito só por sua falta de educação formal (se é que tem outra), me diz aí: você operaria sua cabeça com um neurocirurgião sem diploma? Você, sentado em sua poltrona de avião de partida pra Europa, continuaria sentado se o microfone anunciasse: "O comandante não pôde comparecer, mas fiquem tranqüilos – vamos ser pilotados por um companheiro que aprendeu a pilotar maravilhosamente numa metalúrgica de Santo André?

Por conta da lambança dos companheiros, esta gente agora se arvora de senhores da verdade. Tristes tempos.

quinta-feira, julho 07, 2005

Mas por R$ 2 mil?

Ganha uma jujuba de morango quem souber dizer em que país vive o deputado-federal Jorge Bittar (PT-RJ). Ele acaba de perguntar à secretária Fernanda Karina, na CPI dos Correios, se ela agia em nome do publicitário Marcos Valério por um salário que o engenheiro achou muito baixo. Bittar foi enfático: “Mas a senhora se submetia a tudo isso por R$ 2 mil?”. A secretária não se fez de rogada e lembrou que é difícil arrumar emprego no governo dos companheiros. O deputado podia dormir sem essa.

Diretinho da Redação (21)


O texto abaixo pode ser conferido ainda no www.diretodaredacao.com

Política é showbusiness. E showbusiness feito por gente feia. Política é, em última instância, uma Hollywood sem gatinhas e gatões. Quem disse isso, neste fim de semana, pensando em Washington, foi o senador Chuck Hagel, de Nebraska, herói da Guerra do Vietnã e um forte presidenciável do Partido Republicano para a sucessão de Bush II. Brasília está para esta definição como a Globofilme para a Miramax. Basta acompanhar as sessões das CPIs instaladas no Congresso Nacional. Deputados e senadores brigam por uma fala tal qual figurantes de “Malhação”. E na era dos reality shows, a imprensa, afoita, quer saber quem será o eliminado da semana: Dirceu, Delúbio, Silvinho, Gushiken, Genoíno?

Data venia, para os espectadores não há diferença alguma. É tudo farinha do mesmo saco, diz Dona Maria. Político é tudo igual, retruca Seu José. A novela que Dona Marocas acompanha está repleta de vilões assustadores interpretando, com maior ou menor canastrice, variações de um triste papel – aquele em que ‘gente rica fala em nome de gente pobre tentando assegurar votos para que continue ganhando dinheiro no próximo quatriênio’.

Pois é. Há dinheiro. E muito. Assim como se discute abertamente quantos doláres Julia Roberts está levando a mais do que Nicole Kidman por filme, roem-se unhas e gastam-se calculadoras para saber quanto um deputado – através de nomeações, mesadas e otras cositas más – leva para casa a cada fim de mês.

Durante as eleições presidencais do ano passado, meu amigo Donald se mostrou intrigado com o interesse da imprensa internacional em explorar as diferenças entre Bush II e John Kerry. Por que eles não entendem que o que importava eram as semelhanças? Os dois eram fruto de um mesmo sistema que permite apenas a milionários e filhos da chamada Ivy League – a elite norte-americana que estuda nas melhores e caríssimas universidades do país – a prerrogativa de comandar o governo dos Estados Unidos. Certamente, me dizia, não é assim no Brasil, em que um operário pode ser eleito para o cargo máximo do país.

É justamente este o nó mais complicado das democracias ocidentais e que precisa ser encarado de frente por todos nós: o sistema de representação política naufragou. Faliu. Lobbies, campanhas publicitárias calculadas em dólares, empréstimos milionários dados a partidos políticos avalizados por publicitáros produzem a natural sensação do ‘é tudo igual mesmo’, recordes de abstenção em eleições parlamentares e a certeza de que, no fim das contas, aqueles políticos do reality show do Congresso não representam os vários estratos da sociedade civil. Sejam eles Jeffersons ou Dirceus. O raciocínio da Dona Maria, mesmo com o operário no Alvorada, faz cada vez mais sentido.

Esta semana, Lula voltou a bater na tecla de que vai punir severamente aqueles que enriqueceram se aproveitando do dinheiro público. Para o bem de todos e felicidade geral da nação já é hora de o presidente perceber que o buraco é mais embaixo. Nem nas cifras nem na tática envolvida – a compra de políticos a peso de ouro através da institucionalização de uma mesada – a crise em Brasília é mais do que apenas um caso de políticos se apropriando do leite das crianças.

Como bem tem dito o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), a mera insinuação do ‘mensalão’ já é um crime de honra contra a democracia tal qual a conhecemos. E os indícios, diariamente, vêm se transformado em fatos tenebrosos. Não é a hora de se pensar em reforma política de fato? Uma que não esteja centrada na exclusão dos pequenos partidos do Congresso – jogando no ‘mesmo saco da Dona Maria’ um PL e um PcdoB, um PTB e um PSOL – mas que reafirme a importância e a necessidade da democracia representativa? Ou será que Dona Maria, já com os dois pés fora da sala de cinema, frustrada por não conseguir encontrar um mocinho sequer no showbusiness da política brasileira, está mesmo repleta de razão?

sábado, julho 02, 2005

Estados Imaginados

Eu o conheci cinco anos atrás. Naquela época ele também morava aqui no Brooklyn. Hoje ele vive no exílio, em sua Paris natal. Já naquela época, o fotógrafo Eric Baudelaire se equilibrava na ponte aérea Nova Iorque-Pirlimpimpim. Mas não vamos misturar lé com cré. Meu amigo Ricola não leu Monteiro Lobato, mas devorou Kafka a ponto de se inspirar em seus castelos invisíveis para criar, jutamente com seu amigo de infancia, o professor do Kings College Dov Lynch, o fantástico projeto “Imagined States”, que em setembro vira exposição e livro de luxo para inglês e francês verem.

Neste fim de semana escrevi para o Valor Econômico uma reportagem sobre o tema central do projeto artístico e político da dupla – os países do chamado “Quarto Mundo”, que, embora tenham proclamado sua independência, possuam poderes executivos respeitados por milhares de almas, não são reconhecidos pela comunidade internacional. Vivem num limbo estranhíssimo, ‘como se estivessem ao mesmo tempo no século XIX e no XXI’, nas palavras de Lynch, cientista político e consultor da Comunidade Européia.

Eles são a Transnístria e a Abcázia, Nagorno-Karabakh e Ossétia Meridional, todos na região entre o Mar Negro e o Mar Cáspio, parte esquecida do mundo desde o colapso da União Soviética, que por quase um século dominou a região. Mas também entram na definição dos ‘estados de fato’ – mas não ‘de direito’ – a Chechênia e Taiwan, a Somalilândia, na África, e o Tibet, o Curdistão, que existe nos corações de milhares de curdos espalhados pelo Iraque, Irã, Síria e Turquia. Sem esquecer de Sealand, uma ilhota, antiga fortaleza militar britanica na Segunda Guerra Mundial, que proclamou sua independência em 1967. Lá vive o cidadão britânico Paddy Roy Bates e sua mulher, a Princesa Joan. O Príncipe Roy cunhou sua própria moeda, passaporte e até um lema nacional (“Do Mar, Liberdade!”).

Quem quer conhecer mais as histórias incríveis dos países do “Quarto Mundo” pode ler a reportagem nas bancas no Valor deste fim de semana (um trecho está online em www.valor.com.br) ou correr para o belíssimo site de Baudelaire – http://anthropic.net/eric/ - em que se pode observar algumas de suas fotografias tiradas na região do Cáspio. Inspirada no projeto, a BBC acaba de passar na Inglaterra e na Espanha a série “Lugares Que Não Existem”.

Um dos programas mais chocantes é o que mostra jovens e velhos da Transnístria – área ocupada pela minoria eslava (russa e ucraniana) da Moldávia, por sua vez parte da Romênia – dizendo que não desejavam o fim da União Soviética, têm horror ao McDonald’s e ao Starbucks e que, definitivamente, não querem se tornar um estado à imagem e semelhança das democracias ocidentais. No mínimo, intrigante.

quinta-feira, junho 30, 2005

Diretinho da Redação (21)



O texto abaixo pode ser lido tambem no www.diretodaredacao.com e trata da praga nossa de cada dia, a corrupção.

Dia desses um amigo brasileiro me disse que uma de suas alegrias era saber que eu não precisava acompanhar de lá a lama ocupando cada vez mais espaço nos prédios de nossas instituições nacionais. Muito que bem. Na quinta-feira desliguei todas as conexões eletrônicas que me transportavam para Brasília e, ecoando o amigo, resolvi encarnar o presonagem que vive a quilômetros de distância do centro da crise do governo e do PT. Andei cinco blocos e me enfiei no centro cultural aqui perto de casa. Fui assistir “Hécuba”, com Vanessa Redgrave, 68 anos, no papel-título, à frente dos atores da Royal Shakespeare Company.

A adaptação do poeta britânico Tony Harrison prometia uma passagem, via Grécia Antiga, para o campo de destruição de Bagdá e adjacências. As críticas ao governo Bush e ao caráter belicoso dos norte-americanos seria o centro desta nova encenação. Mas nem bem me acomodo na belíssima sala de espetáculos do século XIX e a rainha de Tróia fala do grande vício da humanidade – a corrupção. Não dá para escapar.

Ali por volta de 425 A.C., em meio à Guerra do Peloponeso, Eurípedes viajou oito séculos no passado e situou sua tragédia logo após a queda de Tróia. Ou, como Redgrave prefere dizer, ‘durante a primeira grande guerra conhecida entre o Ocidente e o Oriente, comandada por uma coalização de estados que invade e pilha uma área da Ásia’. No palco, tendas verde-oliva aglomeradas umas nas outras remetem a um campo de prisioneiros povoado por desespero, tortura e ódio.

Rainha sem coroa de Tróia, Hécuba-Redgrave nos diz que será transportada para a Grécia em breve com todas as mulheres de Tróia. Que seus filhos foram mortos, um a um. Que sua filha acaba de ser assassinada pelo exército ocupado. E que ela está organizando, de modo racional, uma vingança sangrenta, ávida que está por fazer justiça pelas próprias mãos. Não parece familiar? Além de esfregar na cara dos americanos o desespero de mães palestinas, bósnias e iraquianas, “Hécuba” trata de traição e corrupção, do abandono de princípios éticos em favor do ouro e do poder.

Do palco, Redgrave nos encara. Redgrave, a que declarou publicamente seu apoio a Fidel nos anos 60. A que recusou o título de nobreza do Reino Unido. A que advogou em Hollywood, ao receber o Oscar em 1977, em favor dos palestinos. A embaixadora da UNICEF que pagou a fiança de US$ 50 mil para libertar o separatista Akhmed Zakayev, da Chechênia, preso pelo governo russo. Olhos nos olhos ela nos conta que, pior do que a guerra, pior do que a escravidão, só mesmo a corrupção. Onipresente, ela não é o mal do século. É o mal da humanidade, nos garante a rainha-escrava.

Nos anos 80, a atriz foi acusada de participar de um equema de corrupção no Partido Revolucionário dos Trabalhadores (WRP), organização marxista inglesa de tendência trotskista, comandada por, entre outros, seu irmão, Corin, e da qual foi militante até 1986. A acusação era a de que o partido receberia ajuda financeira do Iraque de Hussein e da Líbia de Khadafi. Em tempo: nada ficou provado contra os Redgrave.

quarta-feira, junho 22, 2005

Diretinho da Redação (20)


O texto abaixo pode ser lido também no site Direto da Redação.

Uma Volta Inglória?

Parecia estádio de futebol em dia de clássico. O deputado José Dirceu voltou ao Congresso. Foi recebido por deputados e militantes com bandeiras e faixas. Disse que sua vida é pública. Que bom. Se é assim mesmo, não seria uma boa idéia que ele decidisse começar do começo? Já explico. Antes da ‘profunda reforma política e do sistema eleitoral’ que o deputado pretende comandar lá da Câmara dos Deputados, com o auxilio de PSDB, PFL e PMDB, não seria importante tratar do episódio que, de certa maneira, inicia toda a maré bravia que vem assombrando o governo Lula?

Não se trata das novas descobertas da CPI dos Correios, com o funcionário Maurício Marinho pedindo em pleno Congresso Nacional proteção ‘pois suas revelações poderiam chegar a muitos deputados e senadores’. Nem da CPI do Bingo, a do Waldomiro Diniz, que depois da decisão de hoje do STF deve finalmente sair do papel. Não. Estou falando do assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel, em janeiro de 2002. Foi naquela ocasião, que, pela primeira vez, se investigou a possibilidade da existência de ‘caixa dois’ destinada às campanhas do PT. De esquemas montados em prefeituras petistas para beneficiar candidatos ligados ao partido. Infelizmente jamais saberemos por Celso Daniel, então um dos principais caciques do PT paulista, se algo de errado acontecia na prefeitura de sua cidade.

Mas, se Dirceu - aplaudidíssimo dizendo que o governo ‘não rouba nem permite roubalheira’ – quiser realmente passar o PT a limpo – ele deveria, repito, começar pelo começo. Ontem, ele repetiu o ‘doa a quem doer’ de Collor. Também teve de ouvir com calma os patéticos gritos do tenebroso deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ): ‘terrorista! Terrorista’!. Reagiu com calma e fez questão de marcar sua nova posição dentro do tabuleiro do governo Lula: saudado pela militância, se disse ‘à esquerda de Lula’ e que ela, a esquerda, ‘agora tinha voz no Plenário da Câmara’. Folgo em saber.

Deslocada do governo para o Congresso Nacional, esta 'vanguarda de esquerda' pode derreter com facilidade a bola de neve que vem esmagando o PT, os setores progressistas e o país. Basta responder com exatidão, uma a uma, questões como as de Santo André. Na semana passada, o Tribunal de Justiça (TJ) negou a Dirceu liminar que o liberaria de uma acareação com o médico João Francisco Daniel, irmão do prefeito assassinado, que o acusa há tempos de ser o destinatário do dinheiro arrecadado em esquema de corrupção na prefeitura de Santo André. Os dois estarão frente à frente no dia 8 de agosto. Quem sabe o TJ não tenha, involuntariamente, dado o primeiro passo para que se comece a desfazer a estratégia de gambá do deputado Roberto Jefferson. Esta mesmo que vem espalhando mau-cheiro República afora. Só nos resta torcer.

segunda-feira, junho 20, 2005

Ao Que Vai Nascer

Do jornalista e pensador César Benjamin, um dos fundadores do PT, na Folha de S.Paulo deste domingo, sobre a crise da esquerda brasileira:

O momento agora é de dispersão. O velho já está morrendo, e o novo ainda não nasceu.

A reportagem completa, sobre 'intelectuais petistas', pode ser lida em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/

sexta-feira, junho 17, 2005

Do Meu iPod (Adem)




Ele não sai do meu iPod. Já está quase virando obsessão. Não tem nada a ver com o verão que chega sufocante. Também não tem nada a ver com Nova Iorque. Nem com o Brasil. Mas melodias fantásticas e as letras dor-de-cotovelo com uma esperança lá no fundo do baú bem que poderiam entrar na trilha sonora do Delúbiogate. Não acho que muita gente conheça o Adem aí no Brasil. Aqui em Nova Iorque quase ninguém ouviu falar dele. Eu vivo perturbando minha amiga Manoela Zappa para ela ir a um show dele e me contar como é o moço ao vivo e a cores. Profundamente inspirado pelo fantástico Nick Drake – que se matou em 1974 e com quem me reencontrei um belo dia de 2004 via CD de minha amiga Gabriela Máximo – Adem Ilham é o fino do folk inglês. Seu primeiro disco – Homesongs – é saboroso como comida caseira. Em Homesongs ele toca todos os instrumentos, com destaque para uma guitarra acústica absolutamente sedutora e nada entediante. E há a voz. A voz. Cheia de sussurros a falsetos que nos fazem pensar que ainda é possível encontrar algo de novo na música pop. A minha música favorita é These Are Your Friends, em que ele repete o mantra ‘everybody needs some help sometimes’. Dá para ouvi-la no http://2005.sxsw.com/music/showcases/band/20343.html A letra diz: I wish that I'd arrived a little sooner You really should have called we'd have come here right away You tried to help yourself but you got it wrong You've thrown yourself Into the flames 'cause you're covered in cold But these are your friends They give out a nice warm glow You've tried so hard to see for yourself Your perspective is wrong These are your friends Let them come guide you on Listen now - now's the time to listen There're lessons to be learned I've seen this before in my own life You feel covered up, removed from the world around you With all your senses dulled you'd do anything to feel You tried to help yourself, but you got it wrong You've thrown yourself Into the flames 'cause you're covered in cold But these are your friends They give out a nice warm glow What have you done? You're cutting your cord You're floating in space But these are your friends They'll be your star-map home Everybody needs some help sometimes Para quem ficou com vontade de saber mais sobre o moço, Adem tem um site bem legal, lá no http://www.adem.tv/, com um diário online.

quinta-feira, junho 16, 2005

Mais Massacre de Volta Redonda - 1988

O amigo Cristiano Beraldo, colega de classe naquele 1988, lembra outros detalhes do massacre de Volta Redonda, que ele me autorizou a publicar abaixo:

Lendo a coluna, lembrei dessa história como se fosse ontem... e já se passaram 17 anos.
Tinha acabado de subir, junto com a minha mãe, do curso de inglês que fazia na época, o CCAA, na Vila Sta. Cecília. Mais cedo, da janela do curso, presenciei dezenas de carros da PM e do Exército chegando em Volta Redonda.


Pelo que minha mãe conta, meu pai, que também estava dentro da CSN mantendo-a funcionando, tinha ligado para ela e pedido para me buscar porque o clima estava ficando perigoso na cidade. Chegando em casa, ouvi uns estouros e cheguei na janela para ver o que era. Como tinha uma posição privilegiada, morando no bairro Bela Vista, consegui ver o início da confusão, quando o exército atacou a multidão com bombas de gás e tiros para o alto.

A princípio imaginei que os tiros fossem de festim, mas logo percebi que não eram, quando comecei a ver as balas traçantes passando próximas da janela da minha casa. Dava para ver e ouvir o zumbido delas. Logo, várias pessoas se aglomeraram na grade do Laboratório de Pesquisa da CSN, que fica localizado entre o Bela Vista e o Conforto, para ver o que estava acontecendo. E foi essa confusão durante o resto da noite e madrugada.

Pessoas sendo espancadas, carros quebrados e furtados, e outros barbaridades mais. O pior foi quando, em determinado momento, os carros do Exército começaram a entrar na usina. Foi quando começamos a ouvir os tiros ecoando lá de dentro, por toda a noite. Foi uma madrugada de apreensão e preocupação com as pessoas que estavam lá dentro, entre elas o meu pai e o seu.

Ainda teve outro capítulo dessa história no Primeiro de Maio do ano seguinte, com a bomba jogada pelo Comando de Caça aos Comunistas no monumento projetado por Niemeyer aos três operários mortos.

Foi uma época complicada...

Um abraço, cara, foi legal ter lembrado disso tudo...

Cristiano Beraldo