Quem quiser checar em loco, o texto abaixo é a coluna da semana no www.diretodaredacao.com, onde o leitor também pode se deliciar com os bastidores da história do repórter credenciado pela Casa Branca que, acredite se quiser, também fazia um bico bancando um site de acompanhantes masculinos.
HILLARY SÓ PENSA NAQUILO
Ela só pensa naquilo. Em suas mais recentes aparições públicas, Hillary Clinton tem falado de fé, de Deus, de crença nos 'valores fundamentais da sociedade norte-amerinana'. Há exatamente um mês, discursando aqui em Nova Iorque para uma platéia formada majoritariamente por ativistas liberais, a senadora manteve seu apoio a grupos favoráveis ao direito de escolha de se interromper a gravidez, mas irritou muita gente ao pedir calma às militantes mais aguerridas e em tentar jogar para debaixo do tapete eleitoral qualquer discussão referente a aborto. Hillary Clinton já botou na rua sua campanha para ser a candidata democrata à sucessão de George W.Bush em 2008.
Converse com qualquer analista político nos Estados Unidos e o diagnóstico será o mesmo: a grande pedra no sapato de Hillary não é o fato de ela ser mulher. O problema é seu índice de rejeição, altíssimo (em recente pesquisa de âmbito nacional, 4 em cada 10 norte-americanos afirmaram não confiar na mulher do ex-presidente Bill Clinton), e sua imagem já estabelecida nos oito anos em que ocupou o posto mais decorativo da Casa Branca. Para os eleitores daqui, Hillary não é, de forma alguma, uma novidade. O que há de diferente é sua postura camaleônica. Poucos esperavam que ela assumisse publicamente uma posição a favor da invasão do Iraque. Agora ela aparece no Congresso cobrando do governo Bush medidas mais duras e claras em relação à Síria. E na semana passada saracoteou pela Europa pedindo o endurecimento dos governos do Velho Continente contra a ameaça terrorista.
Neste fim de semana que passou, a onipresente senadora pôde ainda ser vista no prestigioso programa televisivo "Meet The Press", ao lado do senador republicano John McCain, eterno presidenciável do Arizona, que disse com todas as letras: "Eu acho que Hillary poderia ser uma grande presidente para nosso país". Hillary Clinton, ao lado do marido, mas em posição invertida (ela prestando juramento solene) também foi capa da mais recente edição da revista "New York". A matéria trata da obsessão dos norte-americanos pelas dinastias políticas. Depois de Bush II por que não Clinton II?
Antes de jogar-se nas prévias democratas, Hillary vai disputar a reeleição para o Senado no ano que vem. Os candidatos republicanos - fala-se tanto no ex-prefeito Rudy Giuliani quanto no atual governador do estado, George E. Pataki - ficaram com as duas orelhas levantadas ao receberem pesquisa concluída nesta terça-feira pelo "The New York Times", dando conta de um índice de aprovação de 69% dos nova-iorquinos ao desempenho de Hillary no Congresso, incuindo 49% dos republicanos, que poderiam votar na democrata. O tal "fator rejeição" ou o exército de "Hillary Haters" parece já não existir mais no estado de Nova Iorque.
Com a recente eleição do ex-governador de Vermont, Howard Dean, para o comando do Partido Democrata e seu anúncio de que não vai disputar as prévias de 2007, Hillary parece ter poucos adversários com quem se preocupar dentro de seu partido. Nenhum dos que já apareceram na mídia - o senador John Kerry, o ex-senador John Edwards, o governador Bill Richardson, do Novo México - teriam condições de angariar tanto dinheiro das grandes corporações do país para a campanha eleitoral quanto os Clinton.
Ao mesmo tempo em que cortejam os eleitores conservadores, Hillary e Bill decidiram apoiar a eleição do liberal Howard Dean para o comando do partido. Querido pelos doadores individuais (hoje o único trunfo econômico visível dos democratas), concentrados nas grandes universidades, nos centros de pesquisa e em Hollywood, Dean promete ser o lado mais razoável de um projeto para 2008 que já divide até mesmo as feministas locais. Seria bom para as mulheres eleger uma postulante que anuncia, como principal pedigree, o fato de ser esposa de um ex-presidente? Certa de que a resposta é um grande sim, Hillary Clinton está pronta para mostrar, nos anos que seguem, uma postura bem mais conservadora e autoritária do que a de Bill Clinton. Quem viver verá.
quinta-feira, fevereiro 24, 2005
quarta-feira, fevereiro 16, 2005
Diretinho da Redação (4)
Quem quiser checar em loco, o texto abaixo é a coluna da semana no www.diretodaredacao.com
Começar de Novo
"Esta é uma idéia inacreditavelmente deprimente, mas não acredito que as pessoas vão alterar seus hábitos sexuais até verem seus amigos morrendo novamente". O desabafo, do escritor Gabriel Rotello, autor do importante "Sexual Ecology: AIDS And The Destiny of Gay Men", chegou esta semana à primeira página do 'The New York Times' depois da descoberta de um tipo muito mais potente do vírus H.I.V. em um paciente homossexual, morador da cidade, que contou ter praticado sexo com dezenas de parceiros, nos últimos meses, sem utilizar qualquer tipo de proteção. O supervírus é resistente a todas as drogas conhecidas e diminui em mais de 50% a expectativa de vida dos pacientes infectados.
Vinte e cinco anos depois de a comunidade gay norte-americana se organizar para combater a epidemia da AIDS, a sensação, ruim, é a de que é preciso começar tudo de novo. As estatísticas mostram que aqui usa-se cada vez menos camisinha. Também apontam para o aumento do 'barebacking sex', em que não só toda proteção sexual é dispensada como a pessoa infectada é considerada um ser 'especial', apta a passar o 'presente' para o (s) parceiro (s). Parece brincadeira de péssimo gosto, mas não é. O paciente infectado com o supervírus também contou aos médicos que a maioria de seus parceiros consentiu em praticar relações sexuais sem proteção enquanto faziam uso de metanfetamina cristalina. A droga leva o indivíduo a um estado de relaxamento que reduz a capacidade de discernimento e é uma isca para pessoas que estão tratando algum tipo de comportamento auto-destrutivo.
Basta dar um pulo na noite de Lower East Side, em Manhattan, ou em Williamsburg, no Brooklyn, para perceber como 'o cristal' é popular. Uma pesquisa recente feita com homens assumidamente homossexuais em Nova Iorque apontou que 25% deles utilizam a droga com freqüência. Psiquiatras alertam que o cristal está sendo usado por gays para combater a depressão, um mal corriqueiro em grandes metrópoles mundo afora. Cientistas de peso apareceram esta semana na TV e sugeriram que uma parte do dinheiro investido no país para a descoberta da cura da AIDS deve ser destinado imediatamente a um incremento gigantesco em campanhas de prevenção e distribuição gratuita de perservativos. A resposta do governo Bush, até agora, tem sido a mesma dos últimos anos: um investimento de mais de US$ 900 milhões em programas que promovem a abstinência sexual e condenam o sexo fora do casamento, em simetria com o ideário conservador e religioso tão caro aos neo-cons.
Portador do vírus H.I.V, o roteirista e ativista Larry Kramer se tornou um mito na comunidade homossexual norte-americana ao empacotar a casa do senador conservador Jesse Helms, nos anos 80, com uma grande camisinha amarela. Helms defendia a tese criminosa de que a AIDS chegara para castigar os gays e que eles mereciam tal flagelo por serem pecadores. Duas décadas e inúmeras leis de proteção aos pacientes com AIDS mais tarde, Kramer voltou à cena em grande estilo. Em uma palestra na Cooper Union que ganhou as páginas da "The New Yorker" ele disparou, sem medo, para uma platéia formada majoritariamente por homossexuais: "Vocês ainda estão, nos dias de hoje, e depois de tudo, matando uns aos outros. Por favor, parem com todas as generalizações e desculpas esfarrapadas. Os gays precisam lidar de uma vez por todas de maneira responsável com a AIDS".
A mensagem de Kramer é clara: enquanto pensam em avanços ainda mais significativos como o casamento gay, os homossexuais precisam incluir em sua agenda de direitos civis a velha máxima: sexo, sem camisinha, ainda mata. A cada ano, nos Estados Unidos, 40 mil pessoas são infectadas pelo vírus H.I.V.
Começar de Novo
"Esta é uma idéia inacreditavelmente deprimente, mas não acredito que as pessoas vão alterar seus hábitos sexuais até verem seus amigos morrendo novamente". O desabafo, do escritor Gabriel Rotello, autor do importante "Sexual Ecology: AIDS And The Destiny of Gay Men", chegou esta semana à primeira página do 'The New York Times' depois da descoberta de um tipo muito mais potente do vírus H.I.V. em um paciente homossexual, morador da cidade, que contou ter praticado sexo com dezenas de parceiros, nos últimos meses, sem utilizar qualquer tipo de proteção. O supervírus é resistente a todas as drogas conhecidas e diminui em mais de 50% a expectativa de vida dos pacientes infectados.
Vinte e cinco anos depois de a comunidade gay norte-americana se organizar para combater a epidemia da AIDS, a sensação, ruim, é a de que é preciso começar tudo de novo. As estatísticas mostram que aqui usa-se cada vez menos camisinha. Também apontam para o aumento do 'barebacking sex', em que não só toda proteção sexual é dispensada como a pessoa infectada é considerada um ser 'especial', apta a passar o 'presente' para o (s) parceiro (s). Parece brincadeira de péssimo gosto, mas não é. O paciente infectado com o supervírus também contou aos médicos que a maioria de seus parceiros consentiu em praticar relações sexuais sem proteção enquanto faziam uso de metanfetamina cristalina. A droga leva o indivíduo a um estado de relaxamento que reduz a capacidade de discernimento e é uma isca para pessoas que estão tratando algum tipo de comportamento auto-destrutivo.
Basta dar um pulo na noite de Lower East Side, em Manhattan, ou em Williamsburg, no Brooklyn, para perceber como 'o cristal' é popular. Uma pesquisa recente feita com homens assumidamente homossexuais em Nova Iorque apontou que 25% deles utilizam a droga com freqüência. Psiquiatras alertam que o cristal está sendo usado por gays para combater a depressão, um mal corriqueiro em grandes metrópoles mundo afora. Cientistas de peso apareceram esta semana na TV e sugeriram que uma parte do dinheiro investido no país para a descoberta da cura da AIDS deve ser destinado imediatamente a um incremento gigantesco em campanhas de prevenção e distribuição gratuita de perservativos. A resposta do governo Bush, até agora, tem sido a mesma dos últimos anos: um investimento de mais de US$ 900 milhões em programas que promovem a abstinência sexual e condenam o sexo fora do casamento, em simetria com o ideário conservador e religioso tão caro aos neo-cons.
Portador do vírus H.I.V, o roteirista e ativista Larry Kramer se tornou um mito na comunidade homossexual norte-americana ao empacotar a casa do senador conservador Jesse Helms, nos anos 80, com uma grande camisinha amarela. Helms defendia a tese criminosa de que a AIDS chegara para castigar os gays e que eles mereciam tal flagelo por serem pecadores. Duas décadas e inúmeras leis de proteção aos pacientes com AIDS mais tarde, Kramer voltou à cena em grande estilo. Em uma palestra na Cooper Union que ganhou as páginas da "The New Yorker" ele disparou, sem medo, para uma platéia formada majoritariamente por homossexuais: "Vocês ainda estão, nos dias de hoje, e depois de tudo, matando uns aos outros. Por favor, parem com todas as generalizações e desculpas esfarrapadas. Os gays precisam lidar de uma vez por todas de maneira responsável com a AIDS".
A mensagem de Kramer é clara: enquanto pensam em avanços ainda mais significativos como o casamento gay, os homossexuais precisam incluir em sua agenda de direitos civis a velha máxima: sexo, sem camisinha, ainda mata. A cada ano, nos Estados Unidos, 40 mil pessoas são infectadas pelo vírus H.I.V.
quarta-feira, fevereiro 09, 2005
Diretinho da Redação (3)
Olha a coluna da semana aí gente. Quem quiser conferir in loco deve passar pelo http://www.diretodaredacao.com/. O texto que entrou no ar hoje é sobre a política externa norte-americana. Lá no site também pode-se ler o texto de John Hemingway sobre o general ianque que declarou ser muito divertido matar. Vale a pena ler.
Supresa? Mas que surpresa?
Nos últimos 10 dias a mídia norte-americana tem celebrado diariamente o sucesso das eleições parlamentares no Iraque. A campanha do dedinho, deslanchada pelos republicanos, é um sucesso na internet. Você mostra o indicador e automaticamente apóia o processo eleitoral no Iraque ocupado. Por aqui há quase uma sensação de dever cumprido e de que, no fim, a democracia venceu as forças opressoras. Na lógica da opinião pública, de Seattle a San Diego e de Las Vegas a Savannah, o único senão é a vitória acachapante dos partidos políticos xiitas nas eleições iraquianas.
Mas por que a surpresa? Em uma eleição teoricamente justa e sem fraudes alguém duvidou de que a maioria da população iraquiana fosse votar de modo diferente? E quando atiça ditaduras aliadas na região - como o Egito e a Arábia Saudita – a fim de que elas rumem para a democracia, quem o governo Bush pensa que os árabes vão sufragar nas urnas?
Bem delineada pelo afiado Tariq Ali em artigo ontem no jornal britânico The Guardian (www.guardian.co.uk), a estratégia da política externa norte-americana para o Terceiro Mundo – a tal “promoção da democracia” – consiste na criação de uma nova elite (os “janízaros neo-liberais do Novo Império”) afinada com o pensamento neo-con predominante em Washington. Foi assim no Afeganistão, vai ser assim, em novembro, no Haiti.
As eleições constituintes do dia 30 de janeiro no Iraque, em última instância, não foram cerzidas para garantir a unidade do país do Oriente Médio, e sim para manter a aliança possível entre as potências ocidentais, entre os Estados Unidos da América e os Estados Unidos da Europa. Estes últimos – notadamente França e Alemanha – parecem ter encontrado no sufrágio de janeiro a desculpa perfeita para o estabelecimento de uma nova ponte com o governo Bush. Eles só não pareciam contar com o aiatolá Ali al-Sistani e seus seguidores xiitas, até o momento liderando as apurações com mais de 50% dos votos. Os xiitas ainda não disseram exatamente a que vieram, mas já avisaram: não querem estabelecer um estado laico no novo Iraque. Ah, a democracia.
Supresa? Mas que surpresa?
Nos últimos 10 dias a mídia norte-americana tem celebrado diariamente o sucesso das eleições parlamentares no Iraque. A campanha do dedinho, deslanchada pelos republicanos, é um sucesso na internet. Você mostra o indicador e automaticamente apóia o processo eleitoral no Iraque ocupado. Por aqui há quase uma sensação de dever cumprido e de que, no fim, a democracia venceu as forças opressoras. Na lógica da opinião pública, de Seattle a San Diego e de Las Vegas a Savannah, o único senão é a vitória acachapante dos partidos políticos xiitas nas eleições iraquianas.
Mas por que a surpresa? Em uma eleição teoricamente justa e sem fraudes alguém duvidou de que a maioria da população iraquiana fosse votar de modo diferente? E quando atiça ditaduras aliadas na região - como o Egito e a Arábia Saudita – a fim de que elas rumem para a democracia, quem o governo Bush pensa que os árabes vão sufragar nas urnas?
Bem delineada pelo afiado Tariq Ali em artigo ontem no jornal britânico The Guardian (www.guardian.co.uk), a estratégia da política externa norte-americana para o Terceiro Mundo – a tal “promoção da democracia” – consiste na criação de uma nova elite (os “janízaros neo-liberais do Novo Império”) afinada com o pensamento neo-con predominante em Washington. Foi assim no Afeganistão, vai ser assim, em novembro, no Haiti.
As eleições constituintes do dia 30 de janeiro no Iraque, em última instância, não foram cerzidas para garantir a unidade do país do Oriente Médio, e sim para manter a aliança possível entre as potências ocidentais, entre os Estados Unidos da América e os Estados Unidos da Europa. Estes últimos – notadamente França e Alemanha – parecem ter encontrado no sufrágio de janeiro a desculpa perfeita para o estabelecimento de uma nova ponte com o governo Bush. Eles só não pareciam contar com o aiatolá Ali al-Sistani e seus seguidores xiitas, até o momento liderando as apurações com mais de 50% dos votos. Os xiitas ainda não disseram exatamente a que vieram, mas já avisaram: não querem estabelecer um estado laico no novo Iraque. Ah, a democracia.
quinta-feira, fevereiro 03, 2005
Abraço de Urso
O discurso do Estado da União, tradição secular da democracia norte-americana, transfigurou-se ontem em um pastiche dos programas comandados por evangelistas, tão comuns na televisão local. Ao lado da sorridente primeira-dama Laura Bush, sentaram-se na sala de discusos do Capitólio uma refugiada afegã, uma dissidente iraquiana cujo pai foi assassinado pela polícia secreta de Saddam Houssein, e um casal de norte-americanos, pais de um soldado morto na invasão do Iraque. Todos testemunhas da salvação promovida pelo fundamentalismo cristão republicano. Quando anunciou a presença da iraquiana, o presidente teve de conter o choro.
A platéia – dominada por seus auxiliares mais diretos, mas também composta por constrangidas estrelas democratas do Congresso, como os senadores Hillary Clinton e John Kerry – urrava em delírio. O transe coletivo teve seu auge com o abraço demorado dado pelos pais dos americanos à sofrida iraquiana. Pronto. O abraço, com direito a V de vitória e pausa para fotos, era o símbolo da reconciliação neste mundo imaginário criado pelos neo-cons de Washington. O teatro contou até mesmo com uma irônica ajuda da genética: no culto de ontem todos eram muito, muito gordos. A refugiada, os pais, boa parte da claque. Um detalhe a mais para compor o quadro de um espetáculo assustadoramente grotesco.
A platéia – dominada por seus auxiliares mais diretos, mas também composta por constrangidas estrelas democratas do Congresso, como os senadores Hillary Clinton e John Kerry – urrava em delírio. O transe coletivo teve seu auge com o abraço demorado dado pelos pais dos americanos à sofrida iraquiana. Pronto. O abraço, com direito a V de vitória e pausa para fotos, era o símbolo da reconciliação neste mundo imaginário criado pelos neo-cons de Washington. O teatro contou até mesmo com uma irônica ajuda da genética: no culto de ontem todos eram muito, muito gordos. A refugiada, os pais, boa parte da claque. Um detalhe a mais para compor o quadro de um espetáculo assustadoramente grotesco.
quarta-feira, fevereiro 02, 2005
Diretinho da Redação (2)
Coluna da semana, saindo do forno. Quem quiser conferir in loco deve passar pelo www.diretodaredacao.com. O texto entrou no ar hoje e é sobre a indústria do casamento aqui nos Estados Unidos. Lá também pode-se ler o impressionante relato do colunista John Hemingway sobre a nova arma eletro-magnética utilizada pelos norte-americanos no Iraque, que faz a vítima sentir-se dentro de um forno de microondas.
Casar é Bom Negócio?
Você sabe quanto custa se casar aqui nos Estados Unidos? O presidente George W. Bush sabe. Ele propõe gastar US$ 1,5 bilhão em ações especialmente direcionadas para as camadas mais pobres da população, traduzidas especialmente em campanhas de valorização do casamento religioso. No momento em que Bush apresenta sua receita de bolo de noiva para “uma das instituições mais importantes da democracia norte-americana”, a união heterossexual, a deliciosa revista Mother Jones oferece em sua mais recente edição o primeiro reflexo de tão importante iniciativa: o incremento da indústria da maridagem, um negócio que já envolve US$ 50 bilhões por ano ao norte do México e abaixo do Canadá.
Um casamento típico por aqui não sai por menos de US$ 22 mil, conta com 168 convidados, que, por sua vez, dão cerca de 100 presentes no valor médio de US$ 85 cada. Mother Jones faz os cálculos e revela que o prejuízo médio no bolso dos noivos é de quase US$ 14 mil. A reportagem mostra também que, apesar de tamanho investimento, 43% dos que estão se casando pela primeira vez acabam se divorciando em no máximo 15 anos. Liza Minelli, por exemplo, gastou, segundo a revista, US$ 7 mil dólares/dia com seu quarto casamento. Também fica-se sabendo que Catherine Zeta-Jones impôs – exatamente como 20% das mulheres deste país – um contrato pré-nupcial com seu querido Michael Douglas. No caso de La Zeta-Jones, ela leva US$ 2,8 milhões para cada ano de casamento em caso de divórcio. A dupla não teve maiores problemas com a festa, que saiu pela bagatela de US$ 1,5 milhão. É que o casal vendeu fotos exclusivas para a revista inglesa Ok! por US$ 1,6 milhão e ainda levou algo em torno de US$ 24 mil depois de um processo em cima da revista Hello!, que publicou fotos não-autorizadas da cerimônia. Casar, como se vê, pode sim ser um bom negócio.
Ainda há outros dados curiosos – 83% das norte-americanas deixam seu sobrenome para trás e assumem o nome de família do marido, mas 61% delas pedem para não usar a palavra “obedecer” em seus votos. Não mais do que 38% dos cidadãos casados se dizem felizes. E se apenas 10% do dinheiro gasto no casório fosse aplicado em um fundo de investimento conservador, daria para custear a educação de uma criança até a faculdade aqui nos Estados Unidos.
Mas não adianta mostrar números, os americanos querem é casar. Prova disso é a quantidade absurda de reality shows dedicados a encontrar o parceiro ideal (a maioria destes shows inclui as despesas da festa para o casal vencedor). São exatamente 27 passando o dia inteiro nos canais a cabo e abertos deste país. Haja aliança!
Em tempo – os casamenteiros que quiserem fuçar as fontes da revista podem clicar em www.motherjones.com/news/exhibit/2005/01/12_400.html.
Casar é Bom Negócio?
Você sabe quanto custa se casar aqui nos Estados Unidos? O presidente George W. Bush sabe. Ele propõe gastar US$ 1,5 bilhão em ações especialmente direcionadas para as camadas mais pobres da população, traduzidas especialmente em campanhas de valorização do casamento religioso. No momento em que Bush apresenta sua receita de bolo de noiva para “uma das instituições mais importantes da democracia norte-americana”, a união heterossexual, a deliciosa revista Mother Jones oferece em sua mais recente edição o primeiro reflexo de tão importante iniciativa: o incremento da indústria da maridagem, um negócio que já envolve US$ 50 bilhões por ano ao norte do México e abaixo do Canadá.
Um casamento típico por aqui não sai por menos de US$ 22 mil, conta com 168 convidados, que, por sua vez, dão cerca de 100 presentes no valor médio de US$ 85 cada. Mother Jones faz os cálculos e revela que o prejuízo médio no bolso dos noivos é de quase US$ 14 mil. A reportagem mostra também que, apesar de tamanho investimento, 43% dos que estão se casando pela primeira vez acabam se divorciando em no máximo 15 anos. Liza Minelli, por exemplo, gastou, segundo a revista, US$ 7 mil dólares/dia com seu quarto casamento. Também fica-se sabendo que Catherine Zeta-Jones impôs – exatamente como 20% das mulheres deste país – um contrato pré-nupcial com seu querido Michael Douglas. No caso de La Zeta-Jones, ela leva US$ 2,8 milhões para cada ano de casamento em caso de divórcio. A dupla não teve maiores problemas com a festa, que saiu pela bagatela de US$ 1,5 milhão. É que o casal vendeu fotos exclusivas para a revista inglesa Ok! por US$ 1,6 milhão e ainda levou algo em torno de US$ 24 mil depois de um processo em cima da revista Hello!, que publicou fotos não-autorizadas da cerimônia. Casar, como se vê, pode sim ser um bom negócio.
Ainda há outros dados curiosos – 83% das norte-americanas deixam seu sobrenome para trás e assumem o nome de família do marido, mas 61% delas pedem para não usar a palavra “obedecer” em seus votos. Não mais do que 38% dos cidadãos casados se dizem felizes. E se apenas 10% do dinheiro gasto no casório fosse aplicado em um fundo de investimento conservador, daria para custear a educação de uma criança até a faculdade aqui nos Estados Unidos.
Mas não adianta mostrar números, os americanos querem é casar. Prova disso é a quantidade absurda de reality shows dedicados a encontrar o parceiro ideal (a maioria destes shows inclui as despesas da festa para o casal vencedor). São exatamente 27 passando o dia inteiro nos canais a cabo e abertos deste país. Haja aliança!
Em tempo – os casamenteiros que quiserem fuçar as fontes da revista podem clicar em www.motherjones.com/news/exhibit/2005/01/12_400.html.
Eu Adoro
o blog Arenas Cariocas, de Olga de Mello. Leio sempre, os textos são deliciosos, tomara que ela continue atualizando as crônicas quase que diariamente. O endereço? http://www.arenascariocas.blogspot.com/
No Minimo
Hoje tem matéria no NoMínimo. Um passeio pelos corredores da Dexter House, o edifíco mais brasileiro de Manhattan. Cliquem – www.nominimo.com
quinta-feira, janeiro 27, 2005
Amo Muito Tudo Isso
A matéria do dia, para quem ainda não leu, está hoje em O Globo (http://www.oglobo.com.br/) e vai assinada pelos repórteres Ana Wambier, Marco Antônio Cavalcanti e Roberta Oliveira. Em uma sacada simples, desmascaram o boboca (polêmico é adjetivo a ser usado com mais parcimônia e oferecido a sujeitos com inteligência mais obesa) do Larry Rother entrevistando as senhoras tchecas que apareciam na foto da matéria do The New York Times que jurava que a garota de Ipanema não é mais a tal.
A partir dos dados do IBGE que detecataram um aumento da obesidade no país, nosso repórter favorito resolveu provar que a juventude dourada do Posto Nove está mais para turista do Meio-Oeste disputando Big Macs em Times Square. De novo um exemplo de péssimo jornalismo, de apuração malfeita e de um cacoete aqui do intocável NYT de que fazer reportagem em país de periferia é moleza, basta ter a idéia genial e conseguir encaixar um personagem aqui, outro acolá. Troféu Ronald Mc Donald’s de cara-de-pau do ano para o Rother.
Mas, como a gente odeia injustiça, quem sabe não é o caso de o seu Rother, que parece estressado, aproveitar o Carnaval para relaxar e ouvir boa música? Uma sugestão é o samba do bloco dos jornalistas cariocas, o Imprensa Que Eu Gamo, composto pelos colegas Marceu Vieira, Janjão e Fábio Nascimento, que diz assim: “Deu no New York Times/que a Garota de Ipanema é fofa/e viram nas morenas bundas flácidas/com celulites e culotes retumbantes/ que a nossa musa agora é uma baleia/sereia de antigos carnavais/’O Brazil não conhece o Brasil’/O Lula é presidente ou um barril?/Não gosta de cachaça/Não entende de mulher/O Larry Rohter, será que ele é?/VEJA, ISTO É a nossa ÉPOCA/Só tem PLAYBOY, não há MANCHETE nem VISÃO/Já não tenho mais emprego/Mas pelo menos me livrei do pescoção/No carnaval, eu faço frila/No Mercadinho, em liquidação/(Imprensa, meu bem)Imprensa Que Eu Gamo, meu bem/Cheguei a dez, mas já estou a mais de cem(e o Larry deu!)".
Aqui do frio de deizinhos negativos eu também boto o meu bloco na rua e amo muito tudo isso.
A partir dos dados do IBGE que detecataram um aumento da obesidade no país, nosso repórter favorito resolveu provar que a juventude dourada do Posto Nove está mais para turista do Meio-Oeste disputando Big Macs em Times Square. De novo um exemplo de péssimo jornalismo, de apuração malfeita e de um cacoete aqui do intocável NYT de que fazer reportagem em país de periferia é moleza, basta ter a idéia genial e conseguir encaixar um personagem aqui, outro acolá. Troféu Ronald Mc Donald’s de cara-de-pau do ano para o Rother.
Mas, como a gente odeia injustiça, quem sabe não é o caso de o seu Rother, que parece estressado, aproveitar o Carnaval para relaxar e ouvir boa música? Uma sugestão é o samba do bloco dos jornalistas cariocas, o Imprensa Que Eu Gamo, composto pelos colegas Marceu Vieira, Janjão e Fábio Nascimento, que diz assim: “Deu no New York Times/que a Garota de Ipanema é fofa/e viram nas morenas bundas flácidas/com celulites e culotes retumbantes/ que a nossa musa agora é uma baleia/sereia de antigos carnavais/’O Brazil não conhece o Brasil’/O Lula é presidente ou um barril?/Não gosta de cachaça/Não entende de mulher/O Larry Rohter, será que ele é?/VEJA, ISTO É a nossa ÉPOCA/Só tem PLAYBOY, não há MANCHETE nem VISÃO/Já não tenho mais emprego/Mas pelo menos me livrei do pescoção/No carnaval, eu faço frila/No Mercadinho, em liquidação/(Imprensa, meu bem)Imprensa Que Eu Gamo, meu bem/Cheguei a dez, mas já estou a mais de cem(e o Larry deu!)".
Aqui do frio de deizinhos negativos eu também boto o meu bloco na rua e amo muito tudo isso.
quarta-feira, janeiro 26, 2005
Diretinho da Redação
Coluna da semana, saindo do forno. Quem quiser conferir in loco basta clicar em www.diretodaredacao.com. O texto entrou no ar hoje.
Pau no Pobre!
Aqui, como aí, ninguém atura os pobres. Já explico. Esta semana um pobre-coitado desabrigado tentava se proteger do frio - que transitou em seus piores momentos pela casa dos 20 C negativos com uma tempestade de neve no meio - e acendeu um fogo amigo na parede de sua morada. Que vinha a ser um buraco utilizado diariamente por cerca de 600 mil nova-iorquinos, onde passam as linhas A e C do metrô, as azuizinhas. O resultado foi uma pane no sistema de transporte público da cidade e a interrupção por meses - alguns técnicos mais céticos falam em anos - da linha de trem subterrâneo que liga uma grande parte do Brooklyn (inlcuindo o aeroporto JFK) ao lado oeste de Manhattan.
Em um triste momento de comunhão, a mídia local, do liberal The New York Times ao conservador New York Post, resolveram botar a culpa no pobre. Pau no pobre! Ele, afinal de contas, não poderia estar acendendo uma fogueira em um dos corredores subterrâneos ao lado da estação de Chambers Street. Há, segundo estatísticas oficiais, centenas de desabrigados vivendo nos túneis subterrâneos do secular metrô da cidade. Pesquisadores e especialistas em urbanismo, no entanto, falam em milhares. Há famílias que vivem debaixo da terra, os chamados "ratos humanos". Não há uma linha nas principais publicações da cidade sobre a incapacidade da sociedade norte-americana de lidar com os desabrigados, os com-teto-público-mas-sem-luz, os "loosers", na cidade mais rica do planeta.
Para muitos nova-iorquinos, os desabrigados que povoam cada canto da cidade são encarados como "pós-hippies", uma gente que, por inspiração ou piração, resolveu abandonar a realidade e se alimentar do rico lixo de uma sociedade extremamente consumista. Gente que escolheu a miséria. E nem pense em argumentar que muitos deles têm problemas mentais graves. O que seria óbvio leva a uma impressionante discussão - nos sites, nos programas de entrevista na televisão, na página de cartas dos jornais - sobre a necessidade de se isolar esta gente, de tirar os miseráveis do metrô e transportá-los para alguma ilha distante ou "sanatório para pessoas especiais", como acaba de falar um liberal de casaca (e são tantos aqui) na televisão local.
Nova Iorque e os Estados Unidos não querem encararar algumas de suas mais graves deficiências. O espisódio desta semana, que me afetou diretamente, pois era um usuário fiel das linhas azuizinhas, escancara mais uma vez a fragilidade do sistema de segurança da cidade e cristaliza a imagem que o mundo já formou dos meus vizinhos como um todo - uma gente que só enxerga o miserável quando ele atrapalha, de forma tragicômica, a vida cotidiana de seus vizinhos privilegiados do mundo de riba.
Pau no Pobre!
Aqui, como aí, ninguém atura os pobres. Já explico. Esta semana um pobre-coitado desabrigado tentava se proteger do frio - que transitou em seus piores momentos pela casa dos 20 C negativos com uma tempestade de neve no meio - e acendeu um fogo amigo na parede de sua morada. Que vinha a ser um buraco utilizado diariamente por cerca de 600 mil nova-iorquinos, onde passam as linhas A e C do metrô, as azuizinhas. O resultado foi uma pane no sistema de transporte público da cidade e a interrupção por meses - alguns técnicos mais céticos falam em anos - da linha de trem subterrâneo que liga uma grande parte do Brooklyn (inlcuindo o aeroporto JFK) ao lado oeste de Manhattan.
Em um triste momento de comunhão, a mídia local, do liberal The New York Times ao conservador New York Post, resolveram botar a culpa no pobre. Pau no pobre! Ele, afinal de contas, não poderia estar acendendo uma fogueira em um dos corredores subterrâneos ao lado da estação de Chambers Street. Há, segundo estatísticas oficiais, centenas de desabrigados vivendo nos túneis subterrâneos do secular metrô da cidade. Pesquisadores e especialistas em urbanismo, no entanto, falam em milhares. Há famílias que vivem debaixo da terra, os chamados "ratos humanos". Não há uma linha nas principais publicações da cidade sobre a incapacidade da sociedade norte-americana de lidar com os desabrigados, os com-teto-público-mas-sem-luz, os "loosers", na cidade mais rica do planeta.
Para muitos nova-iorquinos, os desabrigados que povoam cada canto da cidade são encarados como "pós-hippies", uma gente que, por inspiração ou piração, resolveu abandonar a realidade e se alimentar do rico lixo de uma sociedade extremamente consumista. Gente que escolheu a miséria. E nem pense em argumentar que muitos deles têm problemas mentais graves. O que seria óbvio leva a uma impressionante discussão - nos sites, nos programas de entrevista na televisão, na página de cartas dos jornais - sobre a necessidade de se isolar esta gente, de tirar os miseráveis do metrô e transportá-los para alguma ilha distante ou "sanatório para pessoas especiais", como acaba de falar um liberal de casaca (e são tantos aqui) na televisão local.
Nova Iorque e os Estados Unidos não querem encararar algumas de suas mais graves deficiências. O espisódio desta semana, que me afetou diretamente, pois era um usuário fiel das linhas azuizinhas, escancara mais uma vez a fragilidade do sistema de segurança da cidade e cristaliza a imagem que o mundo já formou dos meus vizinhos como um todo - uma gente que só enxerga o miserável quando ele atrapalha, de forma tragicômica, a vida cotidiana de seus vizinhos privilegiados do mundo de riba.
segunda-feira, janeiro 24, 2005
Colorado de Ódio
Revólver em casa
Quem nunca viu um bom filme de bangue-bangue passado no Velho Oeste pode até se espantar. Já explico. Passei uma semana fora de Nova Iorque, zanzando em Denver e Bolder, nas cercanias de Aspen, no estado do Colorado, no oeste americano. Lá, George Bush venceu as eleições presidenciais de 2004 com 52% dos votos válidos. Lá, presenciei uma conversa animada entre duas senhorinhas da classe média sobre a necessidade de se manter em casa uma arma de fogo. As duas não vêem a hora de ir à loja mais próxima e escolher o modelo mais eficiente.
Bandoleiros de Colfax Avenue
Não adianta lembrar às duas louras – sim, as senhorinhas são, ou estão, perdoem-me a falha na apuração, amarelíssimas - que há muito desapareceram na areia do deserto as legendas de Jim Miller e Billy The Kid. O perigo, as senhorinhas me avisam, mora cada vez mais ao lado. São, é claro, os imigrantes. Não os asiáticos, “uma força de trabalho muito bem-vinda à nossa comunidade”, que além de tudo, me aponta uma delas, são “limpinhos”. O novo fora-da-lei do Oeste americano é hispânico, muito provavelmente mexicano, amontoado nas cercanias de Colfax Avenue, uma espécie de Praça Mauá de Denver, iluminada por decadentes casas-de-fama-suspeita durante a noite e mais comportada à luz dia, quando ostenta um pujante comércio-do-bom-e-do-barato.
Efeito Colateral
As senhorinhas não acreditam em números. Elas dão de ombros para os estudos que mostram a altamente treinada polícia estadual como uma das campeãs no abate de inocentes ao caçar bandidos pelas tardes coloradas. Com um sorriso de canto de boca, as senhorinhas deixam escapar que é preciso entender estes equívocos como “efeito colateral”. Igualzinho aos iraquianos mortos naquele distante país do Golfo Pérsico. Efeito colateral, me dizem, na lata.
O Rio era lá
Uma merda a América Profunda? Vai ver alguém me explica em bom e claro português por que cargas d`água saí de Denver com a sensação de que tinha batido um dedo de prosa, azar o meu, com duas patricinhas de Ipanema. Experimenta voltar no texto e trocar ‘hispânico’ por ‘favelado’, ‘mexicano’ por ‘mulatinho’, ‘asiático’ por ‘empregada doméstica’ e ‘efeito colateral’ pelo quê mesmo?
Quem nunca viu um bom filme de bangue-bangue passado no Velho Oeste pode até se espantar. Já explico. Passei uma semana fora de Nova Iorque, zanzando em Denver e Bolder, nas cercanias de Aspen, no estado do Colorado, no oeste americano. Lá, George Bush venceu as eleições presidenciais de 2004 com 52% dos votos válidos. Lá, presenciei uma conversa animada entre duas senhorinhas da classe média sobre a necessidade de se manter em casa uma arma de fogo. As duas não vêem a hora de ir à loja mais próxima e escolher o modelo mais eficiente.
Bandoleiros de Colfax Avenue
Não adianta lembrar às duas louras – sim, as senhorinhas são, ou estão, perdoem-me a falha na apuração, amarelíssimas - que há muito desapareceram na areia do deserto as legendas de Jim Miller e Billy The Kid. O perigo, as senhorinhas me avisam, mora cada vez mais ao lado. São, é claro, os imigrantes. Não os asiáticos, “uma força de trabalho muito bem-vinda à nossa comunidade”, que além de tudo, me aponta uma delas, são “limpinhos”. O novo fora-da-lei do Oeste americano é hispânico, muito provavelmente mexicano, amontoado nas cercanias de Colfax Avenue, uma espécie de Praça Mauá de Denver, iluminada por decadentes casas-de-fama-suspeita durante a noite e mais comportada à luz dia, quando ostenta um pujante comércio-do-bom-e-do-barato.
Efeito Colateral
As senhorinhas não acreditam em números. Elas dão de ombros para os estudos que mostram a altamente treinada polícia estadual como uma das campeãs no abate de inocentes ao caçar bandidos pelas tardes coloradas. Com um sorriso de canto de boca, as senhorinhas deixam escapar que é preciso entender estes equívocos como “efeito colateral”. Igualzinho aos iraquianos mortos naquele distante país do Golfo Pérsico. Efeito colateral, me dizem, na lata.
O Rio era lá
Uma merda a América Profunda? Vai ver alguém me explica em bom e claro português por que cargas d`água saí de Denver com a sensação de que tinha batido um dedo de prosa, azar o meu, com duas patricinhas de Ipanema. Experimenta voltar no texto e trocar ‘hispânico’ por ‘favelado’, ‘mexicano’ por ‘mulatinho’, ‘asiático’ por ‘empregada doméstica’ e ‘efeito colateral’ pelo quê mesmo?
Um Blog Um
***
Como todo mundo viu, a revista Time enxergou em George W.Bush a personalidade de 2004. Na edição da última semana do ano que passou o colunista Andrew Sullivan resolveu tratar dos blogs, outro destaque do ano. Também editor da The New Republic, ele ontem assinou a capa do caderno de livros do The New York Times, em uma resenha sobre duas publicações que tratam de um dos mais vergonhosos episódios deste “ano de Bush” – a tortura a prisioneiros iraquianos. O onipresente escriba (ele também dá as caras no http://www.andrewsullivan.com/) sentenciou, no texto “O Ano dos Rebeldes”, que os blogs viveram sua ascensão e queda no ano que passou.
Como Assim?
Sullivan diz que o auge do poderio dos blogs teria sido a demissão do gente-boa Dan Rather do principal jornalístico da televisão norte-americana, o 60 Minutes, por conta de informações incorretas acerca da maneira como Bush filho teria escapado, com providencial ajuda de Bush pai, da Guerra do Vietnã. Foram os blogs que detectaram a origem fraudulenta do documento apresentado no 60 Minutes, causando uma crise sem precedentes no jornalismo da CBS. Já o resultado das eleições que dividiram o país ao meio, com a vitória conservadora, representa a derrota da “estratégia de guerrilha dos blogs, que seguirão à margem, pois, como guerrilheiros que são, não estão a fim de governar, mas de acertarem o que vêem pela frente”.
No pasarán!
Balela. A blogosfera é uma ferramenta preciosa para os que buscam notícias instantâneas com riqueza de detalhes e uma boa dose de calor humano, cada vez mais ausentes dos flashes insossos disparados a todo momento pelas agências de notícia em tempo real. É assim no Iraque e no Afeganistão, foi assim na Ucrânia, com blogs como o Rascunho da Neeka (http://vkhokhl.blogspot.com/), da jornalista Veronika Khokhlova, a quem tive a felicidade de entrevistar mês passado nos domínios do NoMínimo (http://www.nominimo.com/).
Vai no Fred
Na hora de relatar as histórias do cotidiano, do dia-a-dia de quem enfrenta o desastre, também está sendo difícil superar a cobertura dos blogs da tragédia do Sudeste Asiático, com o Tsunami que dominou o noticiário nas últimas semanas. Foi no blog do Fred Robart, o Desse Jeito Por Favor (www.thiswayplease.com/extra.html), que se viu primeiro as fotos de barcos destroçados na costa do Sri Lanka, para desespero dos pescadores de Jaffna. Robart conta a história de homens que aprenderam a conhecer todos os segredos do mar e que agora têm medo de voltar a exercer seu trabalho regularmente. Vale a leitura.
Mais Um Blog Um
Como vocês viram, começaram hoje os trabalhos do http://www.edudobrooklyn.blogspot.com/, com textos em português criados a partir do terraço aqui de casa, na ponta de Long Island, com vista para Manhattan, com direito ao World Trade Center e ao espaço vazio em que reinavam as Torres Gêmeas. O convite taí. Quem quiser que me acompanhe.
Como todo mundo viu, a revista Time enxergou em George W.Bush a personalidade de 2004. Na edição da última semana do ano que passou o colunista Andrew Sullivan resolveu tratar dos blogs, outro destaque do ano. Também editor da The New Republic, ele ontem assinou a capa do caderno de livros do The New York Times, em uma resenha sobre duas publicações que tratam de um dos mais vergonhosos episódios deste “ano de Bush” – a tortura a prisioneiros iraquianos. O onipresente escriba (ele também dá as caras no http://www.andrewsullivan.com/) sentenciou, no texto “O Ano dos Rebeldes”, que os blogs viveram sua ascensão e queda no ano que passou.
Como Assim?
Sullivan diz que o auge do poderio dos blogs teria sido a demissão do gente-boa Dan Rather do principal jornalístico da televisão norte-americana, o 60 Minutes, por conta de informações incorretas acerca da maneira como Bush filho teria escapado, com providencial ajuda de Bush pai, da Guerra do Vietnã. Foram os blogs que detectaram a origem fraudulenta do documento apresentado no 60 Minutes, causando uma crise sem precedentes no jornalismo da CBS. Já o resultado das eleições que dividiram o país ao meio, com a vitória conservadora, representa a derrota da “estratégia de guerrilha dos blogs, que seguirão à margem, pois, como guerrilheiros que são, não estão a fim de governar, mas de acertarem o que vêem pela frente”.
No pasarán!
Balela. A blogosfera é uma ferramenta preciosa para os que buscam notícias instantâneas com riqueza de detalhes e uma boa dose de calor humano, cada vez mais ausentes dos flashes insossos disparados a todo momento pelas agências de notícia em tempo real. É assim no Iraque e no Afeganistão, foi assim na Ucrânia, com blogs como o Rascunho da Neeka (http://vkhokhl.blogspot.com/), da jornalista Veronika Khokhlova, a quem tive a felicidade de entrevistar mês passado nos domínios do NoMínimo (http://www.nominimo.com/).
Vai no Fred
Na hora de relatar as histórias do cotidiano, do dia-a-dia de quem enfrenta o desastre, também está sendo difícil superar a cobertura dos blogs da tragédia do Sudeste Asiático, com o Tsunami que dominou o noticiário nas últimas semanas. Foi no blog do Fred Robart, o Desse Jeito Por Favor (www.thiswayplease.com/extra.html), que se viu primeiro as fotos de barcos destroçados na costa do Sri Lanka, para desespero dos pescadores de Jaffna. Robart conta a história de homens que aprenderam a conhecer todos os segredos do mar e que agora têm medo de voltar a exercer seu trabalho regularmente. Vale a leitura.
Mais Um Blog Um
Como vocês viram, começaram hoje os trabalhos do http://www.edudobrooklyn.blogspot.com/, com textos em português criados a partir do terraço aqui de casa, na ponta de Long Island, com vista para Manhattan, com direito ao World Trade Center e ao espaço vazio em que reinavam as Torres Gêmeas. O convite taí. Quem quiser que me acompanhe.
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